sábado, 31 de julho de 2010

FLAGRANTE DO GERVÁSIO CASTRO

Muricy Ramalho visto por Gervásio Castro

O PIAUÍ NÃO É MAIS UMA PROVÍNCIA LITERÁRIA

CUNHA E SILVA FILHO

Da Costa e Silva

Me permita o leitor uma autocitação de um pequeno trecho de uma crônica de título “Impressões da cidade”, título, de resto, sugerido oportunamente por meu saudoso pai, que publiquei no jornal “Estado do Piauí”, em 1974, e que constará de um dos textos reunidos do meu livro As ideias no tempo ainda a ser publicado: “Hoje possuímos a Universidade Federal do Piauí. A Universidade dá uma nova dimensão à vida cultural de um estado. Ela é seu porta-voz maior, evitando o marasmo cultural. O desenvolvimento intelectual de Teresina se intensifica. Nota-se que há uma ânsia de se fazer alguma coisa que nossa e identifique valores culturais nossos. Nossos homens de letras sentem vontade de escrever, de publicar. A COMEPI é um exemplo edificante do governo”.
A observação citada acima tem uma distância de trinta e quatro anos! Ou seja, três décadas e uns quebrados. É uma vida. De lá pra cá aconteceram, na esfera cultural, muitas coisas que, pouco a pouco, foram mudando o perfil daquele Estado que deixei ainda com fortes traços provincianos. No intervalo desse longo período, a história da inteligência piauiense longe ficou de qualquer óbice entrópico.
Ao contrário, a cultura literária, antes mais circunscrita aos redutos da Academia Piauiense de Letras e à benevolência e espírito de visão de alguns donos de jornais, eles próprios, em geral, ligados à causa cultural, foi esgarçando lentamente alguns comportamentos e atitudes que não mais se coadunavam com os novos tempos agora impulsionados pelos ventos da comunicação de massa, pela criação de novas universidades e proliferação de campi das universidades públicas, sem se falar no aperfeiçoamento do corpo docente de professores que foram realizar cursos de alto nível nos centros mais adiantados do país ou mesmo no exterior.
Assim, se foi desenvolvendo não só a universidade em si, mas sobretudo o que dela se irradia na conquista de novos saberes, de novas tecnologias em todos os domínios do conhecimento e, agora, mais do nunca, da inimaginável experiência haurida pela Internet, universalizando e democratizando mais as fontes do conhecimento humano.
Era de se esperar que o impulso advindo das universidades de forma indireta repercutiu nos arraiais ainda presos ao anacronismo e , assim, foram aparecendo fundações culturais, conselhos de cultura, revistas culturais de expressão nacional, e, no que se refere ao capital humano, o surgimento de uma massa crítica mais tecnicamente preparada para dar continuidade ao passado. No âmbito da comunicação escrita, criaram-se vários jornais de alta qualidade de impressão e diagramação, com um corpo de redatores graduados por universidades atuando profissionalmente, sem mais o amadorismo dos velhos tempos idos e vividos, e servidos de colaboradores pertencentes à alta cultura do Estado piauiense.
Ainda por força do progresso provocado pela chegada das universidade públicas e particulares, novos escritores foram surgindo em todos os gêneros e bem assim novos talentos nos domínios das artes plásticas, do cinema, da humorismo, do teatro.
No campo específico do ensaísmo e da crítica literária, é de se notar a efervescência. de talentos que estão surgindo e procurando ocupar os espaços que o presente e o futuro estão a eles reservando. Sirvam-se de exemplos livros com Os sinais dos tempos, de João Kennedy Eugênio Teresina, (Halley S.A. Gráfica e Editora, 2007), Cantigas de viver – leituras, de João Kennedy Eugênio e Halan Silva (orgs., Teresina, Fundação Quixote, 2007), As formas incompletas apontamentos para uma biografia de H. Dobal, de Halan Silva (Oficina da Palavra, 2005), São os novos teóricos graduados e pós-graduados e, portanto, especificamente treinados, como diria Terry Eagleton, nas universidades para a atividade literária no sentido técnico-científico do que em geral havia no tempo em que deixei Teresina, quando o intelectual, o crítico, o ensaísta contavam mais com o talento e os estudos autodidáticos a fim de dedicar-se à vida literária. Mas, essa realidade não era só no Piauí de então, mas nos estados mais pobres.
Li uma publicação sobre estudos lingüísticos e ensaios literários em grosso volume, PHOROS ( Rio de Janeiro, Editora Caetés,2006 ), reunindo trabalhos de mestrandos e doutores da Universidade Federal do Piauí que me surpreenderam pela profundidade de reflexão crítica, da alta pesquisa na área multifacetada de Letras. Obviamente, todo essa produção que esta sendo feita no Piauí ainda não recebeu o tratamento de correspondentes estudos nos campos da teoria literária, da histografia literária e da crítica literária. Dado ser já considerável atualmente essa produção cultural-literária do Piauí, é bem provável que o levantamento e a transformação desse lastro conquistado em forma de livros de referência, tenham que ser tarefa para equipes a fim de poder abarcá-la em profundidade de estudos e atualidade de pesquisas.
Da mesma forma, digno é de salientar que o Piauí já dispõe de editoras – a exemplo da novíssima Editora Nova Aliança - com disposição de crescer e lançar autores novos como, entre outros, o próprio editor, Dílson Lages, e antigos, como Assis Brasil ,cujo retorno ao Piauí foi benéfico para a vida literária local).
Ora, como não deixar de reconhecer esse nítido florescimento de uma nova mentalidade de autores piauienses, nos diversos gêneros literários e em gêneros afins com os estudos literários , como a história ( campo de estudos no qual o Piauí tem conhecido bons autores e uma boa produção científica ou fora do estrito espaço acadêmico-universitário.), a sociologia, o jornalismo, a filosofia. Nem seria justo assinalar nestas longas três décadas, as inúmeras gráficas, editoras particulares, editoras oficiais da importância da Fundação Monsenhor Chaves, da antiga COMEPI, da atual Fundação Quixote, de publicações do porte da revista Presença, editada pelo Conselho Estadual de Cultura sob a operosa presidência do escritor e crítico literario M. Paulo Nunes, de outras tantas editoras já existentes no Piauí, das publicações feitas em convênio com a Academia Piauiense de Letras e a Universidade Federal do Piauí, de outras publicações entre o setor privado e instituições públicas e mesmo, do esforço próprio, digno de aplausos, das edições particulares. Isso tudo é inequívoca evidência de uma afirmação de um Piauí consolidado nas suas raízes culturais e nos desdobramentos futuros de um Estado que, no seu universo de produção intelectual, dá exemplo de pujança e perene desejo de ultrapassar fronteiras regionais e lançar-se corajosamente rumo a uma posição merecedora do respeito nacional sem mais receios de parecer - porque efetivamente não o é -, provinciano frente aos Estados brasileiros mais adiantados.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO





30 de julho

FLAGRANTES NO CÉU

ELMAR CARVALHO

Estive literalmente no céu. Mais precisamente no restaurante do Zé Nilson, situado na região da Fazenda Céu. De fato, a paisagem é paradisíaca. Quando fui para a beira-rio, para melhor contemplar a beleza ímpar do Parnaíba, uma ave canora, ou anjo – nunca se sabe ao certo as verdades limítrofes deste mundo e do outro – desatou umas notas musicais de inefável beleza. Disse que poderia ser um ente do outro mundo uma vez que o canto não era de nenhum pássaro do meu conhecimento. Com certeza, não era sabiá, nem corrupião, nem chico preto, as criaturas aladas de mais belo canto que conheço.

Dois homens falavam placidamente de negócios e serviços, enquanto tomavam banho, com certeza delicioso, sob o testemunho de um menino. Estavam à sombra de uma árvore ribeirinha, que lentamente amadurecia seus tenros frutos. A conversa só foi interrompida por uma canoa que passou perto deles, deslizando suavemente contra a corrente. O rio se embarreirava largamente, na bela, porém triste degradação ambiental, que lenta, mas inexoravelmente poderá conduzi-lo à morte de há muito anunciada.

À sombra de copada árvore, uma vaca, que mais parecia uma gorda e maternal matrona, ruminava preguiçosamente. Parecia ruminar o próprio tempo, que parecia não passar, como as águas do rio, que rolavam lentamente para o Atlântico. Voltei para a churrascaria do Zé Nilson, onde comi muito vagarosamente uma gostosa galinha caipira, à sombra do teto e de uma imensa árvore, que parecia sair do galpão. Na verdade, o telheiro nascera em seu derredor, servindo-lhe o tronco grosso e anoso de esteio e decoração. Não fiz nenhuma viagem mística, não precisei morrer, mas estive literalmente no céu.

DUAS OU TRÊS COISAS QUE VI POR AÍ

PAULO JOSÉ CUNHA

1) O mundo mudou, o perfil das pessoas que andam de avião também. Conheço um velho jornalista que ainda cultiva o hábito de vestir terno e gravata pra viajar de avião, porque era assim no passado: viagem aérea era um fato tão raro que exigia traje a caráter, em respeito à distinta companhia de endinheirados que podiam pagar o elevado preço das passagens. Hoje, o que mais se vê é gente de sandálias de dedo, bermudas e camisetas tipo regata circulando pelos aeroportos. Enquanto isso, ao folhear as revistas de bordo, verifica-se que os anúncios ainda são de marcas de produtos altamente sofisticados, caros, que só podem ser adquiridos por uma restrita minoria. Aquela minoria que lá no passado envergava traje fino para entrar num avião. Das duas uma: ou os anunciantes perderam o foco e estão gastando dinheiro a toa, pois usam munição pesada pra matar passarinho ou pretendem despertar a cobiça do público de renda mais baixa recém-chegada ao tráfego aéreo até faze-lo sucumbir às tentações dos anúncios dos produtos chiques. Se tivesse que escolher, ficaria com a primeira hipótese. E acrescentaria que as grandes marcas continuam anunciando nessas revistas por inércia, não por resultado. Devem estar tendo prejuízo.

2) “O sol nas bancas de revistas me enche de alegria e preguiça”. O verso da canção famosa de Caetano remete a uma realidade nova, que chegou pra ficar: o jornal da banca, jornal de papel, esse que suja os dedos do leitor, está acabando. E se transformando num monte de bytes que recobrem as telas dos computadores. O Jornal do Brasil já não circulará mais em papel a partir de setembro. Num out-door em Buenos Aires li o seguinte: “O jornal que você compra nas bancas só traz notícias de ontem”. Era a propaganda de um site ou blog, nem me lembro mais. O certo é que o velho formato – o empacotamento das notícias em edições diárias – cede cada vez mais espaço à notícia do instantâneo, em real time, que não precisa ser entregue diariamente, mas sim durante todo o dia, toda a noite e toda a madrugada, no momento em que ocorre. Jornais e revistas – eletrônicas, veja bem – futuramente irão concluir que seu papel (sem trocadilhos, por favor) é muito mais o de analisar e dar sentido aos acontecimentos do que o de noticiá-los em edições fechadas. Notícia engarrafada não vende mais. E é impossível engarrafar uma cachoeira que não pára de jorrar.

4) Um homem armado com duas pistolas, em Pilar, Buenos Aires, manteve 40 pessoas como reféns durante cinco horas, dentro de uma agência do Banco de la Nación, até se entregar à Polícia. Não houve vítimas. Mas enquanto mantinha os reféns sob a mira das armas concedeu entrevista ao canal de televisão C5N. Eu estava no hotel na hora da entrevista, concedida ao âncora da emissora, e transmitida ao vivo. Entrevista longa, generosamente repetida ao longo da programação. Aqui, quando do seqüestro de Eloá e Nayara, a jornalista Sônia Abraão, da Rede TV, entrevistou o seqüestrador ao vivo, interferindo nas negociações. Especialistas como Laurindo Leal Filho, apresentador do Ver TV, da TV Câmara, condenaram a interferência, considerada inconstitucional. Não soube de qualquer condenação dos órgãos de representação dos periodistas argentinos à atitude do âncora da C5N. Pelé é melhor que Maradona, isso todo mundo sabe. Mas o sensacionalismo deles é melhor do que o nosso, e muito mais bem aceita, temos de reconhecer.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

POEMITOS DA PARNAÍBA

Texto: Elmar Carvalho
Charge: Gervásio Castro


Enchia galões de gasolina
até a borda de cerveja
para beber e banhar.
Comprava defuntos frescos
para fazer o enterro.
O caixão seguia de carroça,
enquanto a banda tocava
por entre goles de aguardente.
Acendia charutos cubanos
com cédulas de cinco mil réis.
Dirigia carro importado dos EUA
vestido com roupa de estopa
de saco de açúcar.
Expedito Maciel,
Howard Hughes da Parnaíba,
milionário e excêntrico,
perdulário e esquizofrênico,
filho pródigo de si mesmo.

DECÁLOGO


FRANCISCO MIGUEL DE MOURA

Estas mesmas dez perguntas serão formuladas a diferentes escritores e publicadas com as respectivas respostas em vários sites e blogs da grande rede. Esclareço que nada pretendo demonstrar ou provar com este questionário.

1 – Como e quando foi o seu início como leitor de literatura?

R - Lá pelos meus 15 a 16 anos, quando li o romance “Inocência”, de Alfredo d’Escragnolle Taunay ( Visconde de Taunay). Fiquei encantado e procurei ler outros e outros, inclusive livro de poesias. Antes, lá pelos meus 10 a 12 anos, eu já havia lido textos escolares, na famosa “Crestomatia” e poemas infanto-juvenis de Olavo Bilac, nos livros escolares, decorando-os e recitando-os na escola.

2 – Como e quando começou a sua atividade literária ?

R - Posso considerar que foi a partir da publicação de um poema no jornal “Flâmula”, do Grêmio Estudantil dos ginasianos de Picos, no ano de 1953.

3 – Teve influências literárias? Se teve, quais foram essas influências?

R - Primeiramente de Casimiro de Abreu, Castro Alves, Álvares de Azedo, e direi que de todos os grandes poetas românticos brasileiros. Depois de Olavo Bilac, Raimundo Correia, Augusto dos Anjos, Da Costa e Silva e por aí vai. Finalmente, de J.. G. de Araújo Jorge, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Fernando Pessoa. São esses os que me vêm à lembrança, embora tenha lido dentre os modernos praticamente quase tudo. Romances também muitos, especialmente José de Alencar, Machado de Assis, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Lígia Fagundes Teles, enfim quase todos os que me caíram nas mãos.

4 – Qual o fato mais marcante de sua carreira literária?

R - Tudo, a partir de minha estréia em 1966, com AREIAS, do elogio que recebi de Drummond quando publiquei UNIVERSO DAS ÁGUAS, em 1979, até a publicação de minha POESIA (IN) COMPLETA, pela Fundação Mons. Chaves, quando o editor era poeta ELMAR CARVALHO.

5 – Como conseguiu editar seus livros?

R - Aos trancos e barrancos, brigando com a mulher e comigo mesmo, sem saber se teria leitores ou não. Felizmente, tenho vendido sempre e quando não vendo dou, empresto, mostro, mando para bibliotecas e escritores do Brasil e do Exterior. Assim, acredito que ganho alguns leitores. Lucro, praticamente nenhum. Mas não me queixo do pouco dinheiro que investi neles. Aliás, os livros meus de mais aceitação não são os publicados por editoras, mas, sim, aqueles que eu mesmo banco a edição.

6 – Qual o principal livro e qual o principal texto (conto, crônica, poema, ensaio etc.) de sua autoria?

R - O principal livro, para todo escritor, é o mais novo. Dos romances, é o “D.Xicote”, premiado por concurso do Governo do Estado do Piauí e ainda não editado em edição “solo”, como dizem os músicos e cantores; de poesia – e o “Tempo contra Tempo” (em parceria com o poeta Hardi Filho). Contos e crônicas, eu os escrevo por brincadeira, não os considero de grande importância. Já a crítica, eu faço porque alguém tem que fazer. E é uma obrigação de todo bom escritor, pois somos nós que opinamos e temos peso perante a imprensa, muito mais do que os jornalistas que não são escritores. Tenho publicado poucos livros de crítica. O que me valeu nome nacional foi “Linguagem e Comunicação em O. G. Rego de Carvalho”. Mas, como um todo, o mais importe é a “Literatura do Piauí”, onde teoricamente, coloco todas as minhas idéias sobre literatura. Dessa obra, estou preparando a 2ª edição, a pedido da Academia Piauiense de Letras..

7 – Os órgãos oficiais de cultura do Piauí têm cumprido sua finalidade, no tocante à literatura? Comente.

R - Não têm cumprido de modo satisfatório. Ressalvo a Fundação Cultural “Mons. Chaves”, cujos recursos são geridos pela Prefeitura Municipal de Teresina. Nossos produtores culturais vivem à mingua de recursos para suas produção, a literatura não é exceção. Os processos são morosos, misturam-se com a política, são minguados, precisam melhorar. Esses subsídios, de modo geral (Estado, Prefeitura, Governo Federal) provêem dos impostos que pagamos, noutra parte da vida econômica, e são muitos. A fim de que a cultura e a educação avancem, num país tão sem educação e cultura, é necessário que tenhamos muito mais e mais bem administrados..
8 – Em relação ao Brasil, que diria da Literatura Piauiense?

R - Diria que é uma grande literatura regional (o Brasil, tão grande, é feito de regiões). Nomes como Da Costa e Silva, O. G. Rego de Carvalho, H. Dobal, Assis Brasil e tantos mais, da atualidade e do passado, são jóias da literatura de qualquer país, em qualquer região.

9 – Que importância atribui à internet na divulgação literária?

R - A princípio, por desconhecimento, eu não dava muita importância à internet. Depois, meu filho me ofereceu três blogues, coisa que eu posso manejar plenamente. Hoje, estou convencido do seu valor. Não há mais jornais que publiquem literatura, a boa literatura que publicava a nossa imprensa, no passado. E a imprensa alternativa teve sua fase áurea, mas vai minguando, minguando. A internet veio pra ficar. É um bom meio de divulgação literária. Claro que ela não basta, é preciso que livros e livros sejam publicados, que a imprensa, a televisão e todos os meios de comunicação de massa façam o seu papel de difusores de cultura e educação, não apenas de divertimento.

10 – Como e por que se fez literato?

R - Vamos resumir: não creio em inspiração como motora principal da produção artística. Mas cada homem nasce com algumas inclinações. Eu, acredito, nasci com esse pendor para as letras. Se tivesse nascido num tempo e lugar em que não existisse a literatura, acho que a inventaria. Digo isto pensando nos meus 13 a 14 anos, já fazendo versos imitativos dos grandes poetas românticos. Meu pai era professor e, dentro das possibilidades da época, leitura, escrita e livros começaram cedo em minha vida. Quando não conseguíamos literatura impressa, tínhamos manual. Meu pai era um grande redator de cartas, fazia composições excelentes, tudo isto eu li, ele me incentivou a escrever dessa forma, foi meu primeiro mestre – grande mestre. Com minha inclinação para a poesia e o meu temperamento romântico e introvertido, daí nasceu o literato, o poeta e o que mais me digam que sou e faço.

NOTÍCIA CULTURAL

Poeta Alcenor Candeira Filho, secretário municipal da Educação

II SALÃO DO LIVRO DE PARNAÍBA – II SALIPA


O poeta e secretário da Educação de Parnaíba, Alcenor Candeira Filho, informou sobre a realização do segundo Salão do Livro de Parnaíba (II SALIPA), cujo lançamento acontecerá na manhã do próximo sábado, dia 31 de julho, às 9 horas da manha, no auditório da Prefeitura de Parnaíba. O evento será realizado no período de 19 a 21 de agosto, no Porto das Barcas, através de parceria entre a Prefeitura e a Fundação Quixote, que promove anualmente o Salão do Livro do Piauí(SALIPI). Estão sendo contatados palestrantes respeitados no cenário das letras, a exemplo do que foi feito no ano passado, quando o SALIPA recebeu os escritores Moacyr Scliar, Ana Miranda, Assis Brasil, Cineas Santos, Elmar Carvalho, Alcenor Candeira Filho e outros literatos de projeção no Piauí e no Brasil.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO




28 de julho

O SONHO DE LAURO: A FERROVIA, O RIO E O PORTO

ELMAR CARVALHO

Neste domingo, acompanhado do Canindé Correia, seu sobrinho, fui visitar o Dr. Lauro Andrade Correia. Neste Diário já tive ocasião de escrever nota sobre a sua profícua vida de labor e dedicação aos estudos. Entregou-me um exemplar do Jornal do Advogado, no qual foi publicado o texto Um Mestre Inesquecível, em que lhe presto sincera homenagem, e o artigo Pela Grandeza e Beleza de Amarante, da autoria do insigne mestre.

Falou de suas causas e lutas com energia e entusiasmo, parecendo um garoto, em seus 86 anos de idade. Ao longo de algumas décadas, tenho acompanhado a vida laboriosa de Lauro Correia, e o considero um grande paladino das lutas em prol da preservação do Rio Parnaíba, da implantação do porto de Luís Correia e da construção da ferrovia Transpiauí, que se estenderia de Eliseu Martins a Luís Correia, desde os tempos em que ele presidiu a FIEPI e foi diretor do Campus Ministro Reis Velloso e do SESI-PI. Defendeu essas causas nos vários encontros e audiências públicas de que participou e em mais de meia centena de artigos e pequenos ensaios que escreveu, alguns dos quais enfeixados em plaquetas.

O Piauí parece estar navegando contra as correntes e os ventos da lógica econômica e administrativa. Essas duas vias – a fluvial e a ferroviária – que tem numa extremidade os cerrados piauienses, com a sua avantajada produção de soja e outros grão, e na outra, o futuro porto marítimo de nosso estado, sem dúvida barateariam o transporte desses produtos, dando-lhes maior competitividade em relação a outros centros produtores. O rio Parnaíba, como todo mundo sabe, vem se esvaindo em lenta agonia. Meu pai, em 1940, no colégio Diocesano, ouviu o acadêmico e professor de Geografia, Álvaro Ferreira, dizer que se providências não fossem tomadas esse grande rio morreria em cinquenta anos. Felizmente, essa triste profecia ainda não se cumpriu inteiramente, mas as inúmeras coroas de areia, a largura imensa do Parnaíba em vários pontos e o seu pequeno calado em muitos trechos são provas de que ele caminha no rumo de um melancólico e indesejável ocaso. Dr. Lauro Correia, engenheiro e advogado, tem estudado o nosso maior rio, sob os mais diferentes aspectos, em profundidade, e apontado as soluções. Mas é quase uma voz clamando no deserto da insensibilidade, descaso e incompreensões, porquanto entra governo e sai governo e nenhuma medida séria e enérgica foi tomada até agora para impedir a inexorável degradação desse curso d' água cantado e louvado por vários poetas, mormente o grande Da Costa e Silva. Entretanto, com pesar o digo, medidas sérias estão sendo adotadas, mas para apressar o seu fim: a construção de cinco barragens, que segundo Lauro Correia e outros estudiosos impedirão a navegabilidade e contribuirão de forma acentuada para a degradação do rio e do meio ambiente. Uma das barragens ameaça de forma assustadora a bela, bucólica e histórica cidade de Amarante, pois inundaria parte dela e atingiria alguns de seus vetustos e memoriais solares. Segundo Lauro Correia, com a construção das barragens, o volume d' água vai diminuir, o que trará consequências catastróficas ao ecossistema.

Além das óbvias, um desses efeitos danosos seria a salinização do Delta do Parnaíba, pois a força das marés passaria a exercer maior influência sobre o rio, tornando mais salobras suas águas, podendo chegar a comprometer o atual sistema de abastecimento de Parnaíba, hoje localizado em Rosápolis, perto de onde pesquei e banhei diversas vezes, em minha juventude. Nada justificaria a construção dessas barragens; além dos enormes prejuízos que elas causariam ao Parnaíba, cada uma delas produziria apenas 60 megawatts, que seriam supridos, com inúmeras vantagens, por usinas eólicas, a serem construídas no litoral piauiense e no município de Paulistana. Urge, pois, que essas vozes que clamam no deserto, e entre elas a de Lauro Correia, esse Quixote, não da Mancha, mas do Delta Parnaibano, sejam finalmente ouvidas e acatadas, e que as providências cabíveis e necessárias sejam adotadas, sem titubeios e delongas.

ANTOLOGIA DO NETTO (*)


FÉLIX PACHECO
O introdutor da Datiloscopia no Brasil foi José Félix Alves Pacheco, nascido no dia 02 de agosto de 1879, em Teresina, Estado do Piauí, notável jornalista, poeta, escritor e homem público, foi Ministro de Estado, apesar de ter sido o introdutor do Sistema de Identificação Humana criado por Juan Vucetich, ficou mais conhecido como jornalista e literato. Félix Pacheco foi o único representante do grupo simbolista, que gravitava ao redor do poeta negro Cruz e Souza, que conseguiu chegar à Academia Brasileira de Letras. Aos 18 anos de idade, iniciou-se no jornalismo, fez parte da redação do jornal "O Combate". Em 1913, assumiu o cargo de diretor-redator-chefe do Jornal do Commércio. Ingressou na carreira política, e como político, exerceu o mandato de Deputado Federal pelo Estado do Piauí durante quatro legislaturas, sendo posteriormente, eleito Senador da República em 1921.
(*) Texto e ilustração de João de Deus Netto.

terça-feira, 27 de julho de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO


27 de julho

EL TOREADOR DOM PEDRO MOLINA

Elmar Carvalho

Na sexta-feira, quando vínhamos para Parnaíba, demos carona a um garoto, filho da Cláudia, sobrinha da Fátima. Em viagem longa, surge sempre o ensejo de se conversar sobre os mais variados assuntos. Assim, tratou-se do caso do goleiro Bruno, da morte do filho da Cissa Guimarães e de vários outros casos da atualidade, bem como de outros fatos rumorosos mais antigos. Percebi que o jovem era antenado, e esclarecia ou acrescentava algo em relação ao que estava sendo comentado. Vi que o fazia de forma respeitosa e pertinente, sem nenhuma alteração no tom de voz, de modo que se notava que não era nenhuma criança querendo exibir-se. Parava para ouvir, e quando emitia sua opinião era de forma breve, contida, porém denotando estar seguro do que dizia, mas sem afetação e arrogância, como é da índole de certas pessoas “metidas”. Admirado de suas intervenções, sempre abalizadas, observei, de forma aparentemente casual, que ele parecia gostar de assistir a noticiário. Confirmou-me a suspeita, dizendo que gostava de ouvir programas noticiosos. Eu já havia percebido que ele não se referia às notícias apenas como um “papagaio decoreba”, mas como alguém que as interpretava, para emitir a sua opinião e análise, o que denotava certa maturidade. Por essa razão, perguntei-lhe a idade, porquanto ele já é um tanto encorpado, como um rapazola. Respondeu-me que tinha onze anos, o que me causou mais admiração, pois, pelo conteúdo de sua conversava e pelo seu poder de argumentação, parecia ter pelo menos dezesseis anos de idade. Para tentar entender a sua inteligência, perguntei-lhe se gostava de ler. Disse que sim, sobretudo poesia, e que começara a gostar de ler a partir dos nove anos. Numa época em que pouco se lê, um jovem amante da leitura sempre causa admiração, ainda mais quando consumidor de poemas. Esse gênero literário é sempre de conteúdo mais abstrato que os demais, e por essa razão tem mais afinidade com a filosofia. Por mais sugerir, que dizer diretamente, exige mais da capacidade interpretativa e criativa do leitor. Sem dúvida, uma pessoa mais experiente, mais criativa, mais culta descobrirá mais informações em um texto poético do que um ledor mediano. Esse tipo de leitor, certamente, torna-se mais profundo, mais questionador e procura outras respostas e soluções, que não apenas as mais óbvias e mais rasas. Perguntei ao garoto qual era o seu passatempo predileto. Respondeu que era ler. Indaguei qual seu outro hobby; disse que era vídeo game, que, por ser um jogo eletrônico, suponho que também exija agilidade mental. Dessa forma, entendi que ele gosta de exercitar o cérebro; ou seja, se dedica a fazer musculação cerebral, coisa pouco valorizada nos dias de hoje, em que impera a tirania do culto ao corpo, com pessoas musculosas, mas de pouca preocupação para com os neurônios. Indaguei-lhe o nome completo, pois o chamo de Pepeto ou Pedro Neto, embora ele não tenha esta última palavra incorporada ao seu nome, conquanto seja neto do Pedro, irmão de minha mulher, e do Pedro, pai de seu pai. Disse chamar-se Pedro Molina de Freitas e Silva. O Molina foi posto por sugestão de seu avô paterno, que quis lhe dar certa elegância espanhola, em lembrança talvez de algum herói ou de algum toureiro. Dom Pedro Molina é de fato um toureador, porém toureador de palavras e ideias.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS

UMA MULHER DO OUTRO MUNDO

ELMAR CARVALHO

Sou representante comercial. Nessa qualidade, tenho percorrido o Piauí todo, de Luís Correia a Cristalândia. Certa feita, estava em Corrente, quando resolvi voltar a Teresina. Era uma sexta-feira, quase dezessete horas. Uma conhecida minha, colega de profissão, pediu-me carona. Achei bom ter companhia, pois amenizaria o tédio da longa viagem, e também porque, em caso de sono, ela poderia dirigir um pouco. Nesse tempo, a estrada, no trecho entre Bom Jesus do Gurguéia e Canto do Buriti estava bem ruim, com a presença de buracos no asfalto. Era uma bela noite de plenilúnio, e o luar descortinava as belas chapadas do cerrado. De repente, quando eu menos poderia imaginar, em plena solidão, em local onde só havia mato, vi uma bela mulher à beira do asfalto, como se estivesse esperando carona. Cabelos longos, louros, impecavelmente penteados, e um sofisticado vestido longo, como se fosse destinado a alguma festa. À luz do luar, aquela mulher loura e alva parecia ainda mais encantadora, quase como se fosse uma criatura celestial. Ainda pensei em parar, até porque tive que reduzir a velocidade para cerca de trinta quilômetros por hora, por causa dos buracos, que naquele ponto eram acentuados e profundos. Por essa razão, pude ver bem a mulher. Com efeito, era uma loura espetacular. Em duas palavras: longilínea e curvilínea, como uma deusa de Hollywood ou das passarelas. Ou do Olimpo, porém com menos carne e adiposidade. Não olhou propriamente o carro. Não me pareceu preocupada sobre se o veículo pararia ou não. Olhava em frente, como se mirasse o infinito ou algo inatingível. Parecia estar naquele ponto a cumprir um ritual, em que este fosse a finalidade em si mesma. Quando estava quase emparelhado com essa mulher, senti um forte calafrio, que me arrepiou a pele, e resolvi não parar. Olhei para minha companheira de viagem e vi que estava acordada, e que olhava em direção ao vulto feminino. Não trocamos palavra de imediato. Procurei imprimir ao carro o máximo de velocidade que as condições da estrada permitiam. Já de madrugada, quando passávamos pela cidadezinha de Eliseu Martins, resolvi perguntar-lhe se ela vira a mulher na beira da estrada. Com a pele arrepiada, a ouvi responder que aquela mulher não era deste mundo. Acrescentou que também tivera arrepios e sentira muito medo. Na rodoviária da cidade de Canto do Buriti, resolvi fazer uma parada, para desenfadar e tomar um pouco de café. No balcão da lanchonete, havia umas pessoas. Com a finalidade de exorcizar o medo que ainda sentia, resolvi narrar o episódio da bela mulher solitária, a pedir carona no meio do nada, ou melhor, em plena solidão do cerrado, num trecho em que durante vários quilômetros só havia floresta, sem nenhum indício da presença humana, excetuando-se a estrada. O dono da lanchonete, sem rodeios, falou que várias pessoas já disseram ter visto essa imagem, e que alguns motoristas, ou por bondade ou por segundas intensões, já lhe haviam dado carona, mas que a mulher, após um certo percurso, como por artes mágicas, simplesmente sumia do veículo, sem deixar o menor vestígio de sua presença. Acrescentou que dela emanava um forte e agradável perfume. Aduziu que um caminhoneiro, afoito e apresentado, tentou tocar as coxas da mulher, mas nada apalpou, exceto o banco do carro. Esse motorista, com o susto, quase vira o caminhão; ainda assombrado, quando teve coragem de olhar para o lado direito, não mais viu a mulher. Perguntei ao comerciante se ninguém sabia quem tinha sido, em vida, aquele belo fantasma de mulher. Meu interlocutor respondeu que se comentava que ela se casara, em Brasília, com o filho de um rico fazendeiro de São Raimundo Nonato, da região de Serra da Capivara, e que morrera de desastre automobilístico, na viagem de lua de mel, exatamente no trecho onde eu a vira, quando ela e o marido iam visitar o pai deste. Com a pele eriçada, paguei a despesa e segui viagem. Devo dizer que aquela linda imagem de mulher ainda me perseguiu por alguns anos, em minha lembrança e em meus sonhos. Contudo, nunca mais passei por aquele trecho de estrada, à noite.

AS ÁGUAS PELO MUNDO AFORA

CUNHA E SILVA FILHO




Não sou cientista, mas tenho os olhos voltados para o que me cerca. Não só no meu país, mas, no mundo, o que estou presenciando, ou melhor, vendo claramente visto - obrigado, Camões! -, é preocupante para o destino da Terra.
Há poucos dias li uma reportagem sobre o Himalaia, que não é mais o mesmo, tem reduzidas drasticamente, em pelo menos, em duas décadas, as camadas de neve sobre ele. O que se vê são partes descobertas de gelo, mostrando a nudez da montanha. Isso é mais do que um sinal e, a bom entendedor, meia palavra basta. Só não enxerga quem não quer, ou se quer, se omite por irresponsabilidade ou por interesses esconsos de natureza vária e em escala mundial.
Repetidas vezes tenho declarado, por pura observação, por puro amadorismo – o que não significa - desídia ou desinteresse pela defesa de nosso planeta, que o aumento do calor da Terra não foi devido a razões comumente justificadas por certa visão científica, alegando que, na história do nosso planeta, já houve variações drástica e destruição de fauna e flora.
Contudo, o que não me parece exato é a forma como estão tratando o nosso mundo físico, o nosso solo, as nossas florestas, os nosso rios, a Amazônia. Continuam depredando o planeta com o aumento descomunal do CO2. Aumentando o efeito estufa, sufocando os nosso céus e terras, exaurindo nosso solo e subsolo até as suas camadas mais profundas, modificando a paisagem, fabricando os mais variados produtos em excesso para atender as mais diversas demandas da economia e da indústria, poluindo nossos mares e oceanos, o espaço físico da Terra começa a reagir aos açoites do homem global, do homem consumista, desses terráqueos de todas as raças, línguas, costumes e religiões que parecem desconhecer que os recurso naturais tem suas medidas ditadas p elas leis rígidas da Natureza..
Como resultado, temos as mudanças bruscas de condições meteorológicas que, no passado, não existiam com tanta violência por parte da Mãe-Natureza.
Vejam-se, por exemplo, o que tais mudanças trouxeram para a divisão das quatro estações, muito nítidas e precisas nos séculos passados e, hoje, infelizmente, escapam a esse antigo ciclo harmonioso, como se notava sobretudo no Hemisfério Norte.
Reparemos em nosso país como as condições climáticas se misturaram, parecendo mais um pandemônio da Natureza. As chuvas torrenciais que têm castigado impiedosamente o Brasil inteiro são mais que evidentes para concluirmos que o tempo mudou para pior e, o que é mais grave, tem causado milhares de mortes e prejuízos financeiros incalculáveis, desestruturando os lares, o comércio, as habitações, a normalidade da vida urbana ou rural Estamos diante de um quadro climático inimaginável se comparado com tempos passados.
Países frios, como a Rússia, hoje sofrem altas temperaturas, provocando mudanças de condições de vida de seus habitantes, obrigando-os a procurar as praias, os lagos, as fontes, e até levando-as a mortes por excesso de calor e por afogamento em razão da corrida para as águas por causa das altas temperaturas que não conheciam antes.
A região Sul do nosso país tem sofrido com a chegada de temporais devastadores, com ventos de velocidades semelhantes àquelas que sofrem os Estados Unidos com seus vendavais, tufões e furacões.
O clima mundial sofre de inversões jamais pensadas em tempos passados. As inundações que têm apresentado os rios em escala mundial têm uma natureza aproximada. Não são pontuais esses desgovernos do comportamento climático do planeta. Antes, há até uma relativa uniformidade de comportamento da Natureza. Essa aproximação, essa similaridade nos leva a algumas conclusões: 1)É preciso que os organismos internacionais responsáveis pelas condições do meio-ambiente se reúnam não para discussões estéreis que não têm levado a uma caminho seguro para a melhoria do nosso planeta; 2) os países mais ricos e mais devastadores dos recursos da Terra devem repensar suas políticas ambientais e encontrar uma forma de efetivar os pontos comuns encontrados para reduzirem o aquecimento global; 3) O tempo de soluções que possam conduzir a uma melhoria e salvação do planeta está se esgotando; 4) Os países, com suas ambições e seus individualismos sem limites, hão de pagar caro pela postergação do enfrentamento das reais alternativas que livrariam a Terra de um golpe final e sem volta.
A Terra não é reduto de decisões de países que se arvoram em donos do mundo e não respeitam os limites dos recursos da Natureza, sejas de que espécie for. Segundo bem diz um provérbio inglês: “o tempo e a maré não esperam por ninguém.”

domingo, 25 de julho de 2010

ANTOLOGIA DO NETTO (*)

HIGINO CUNHA



Higino Cícero da Cunha – Nasceu em 11-01-1858 - Timon (MA), faleceu em l6-11-1943 - Teresina (PI). Magistrado, professor, historiador e jornalista. Participou da Junta de Governo do Piauí. Professor da antiga Faculdade de Direito do Piauí. Juiz Municipal. Procurador dos Feitos da Fazenda Estadual. Chefe de Polícia do Estado, por duas vezes. Pertenceu ao Instituto Histórico e Geográfico Piauiense. Presidiu a Academia Piauiense de Letras, por dois períodos. Colaborou com quase todos os jornais de sua época. Bibliografia: “Pró Veritate, Polêmica Literária” (1883); “O Idealismo Filosófico e o Ideal Artístico”; “História das Religiões no Piauí”; “A Igreja Católica e a Nova Constituição da República”; “Os Revolucionários do Sul do Brasil” (1926); “A Igreja e a Constituição de 1924” e “Memórias Autobiográficas”. Foi incluído na "Antologia de Sonetos Piauienses” (1972) e na coletânea “Os Mais Lindos Sonetos Piauienses” (1940), ambas organizadas por Félix Aires.

(*) Texto e charge de João de Deus Netto

sábado, 24 de julho de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Visitantes e turistas no cemitério La Recoleta, Buenos Aires

Cemitério La Recoleta, Buenos Aires



24 de julho

CEMITÉRIO VELHO – MUSEU E MEMORIAL

Elmar Carvalho

Através da internet, vi matéria da Katiucia Alves, informando que as zeladoras do cemitério velho de Campo Maior, há muitos anos desativado, se queixaram de que algumas pessoas da circunvizinhança jogam lixo no seu interior, por cima de seu muro, já penso e gretado. Na mesma reportagem, consta que a prefeitura deseja construir no local uma praça, a exemplo do que ocorreu em Piripiri, em que foi construída a Praça das Almas no local onde existira um campo santo, mas que os campomaiorenses são contra essa solução. No meu entendimento, toda administração, pública ou privada, deve ser criativa, e procurar várias opções para resolução dos problemas, inclusive soluções inovadoras e até mesmo revolucionárias em certos casos. Tenho conhecimento de que, em alguns outros países, inclusive na Inglaterra, um cemitério pode ser transformado num lugar agradável, usado para passeio, como se fosse uma praça ou um parque. Na Argentina existe o famoso La Recoleta, cantado e exaltado por Jorge Luís Borges. Acredito que, com um bom trabalho de arquitetura e paisagismo, o nosso antigo campo santo, tão caro aos campomaiorenses, bem poderia ser transformado numa espécie de museu e memorial a céu aberto, com a plantação de árvores, criação de jardins, passeios, alamedas, caramanchões, bancos e um espaço coberto, que poderia servir de templo ecumênico e de uma espécie de auditório, para certas palestras ou encontros. Em certos recantos seriam colocadas estátuas alegóricas da vida, da morte e da saudade, bem como placas ou lápides, que contassem um pouco da história do cemitério, de seus mortos e de nosso município. Seria um museu e memorial porque esse campo santo conta muito da história de Campo Maior. Muitos moradores antigos, de velhas estirpes do município, estão ali sepultados, assim como muitos de seus filhos ilustres, nas mais diferentes áreas da atividade humana, seja intelectual, artística, política ou empresarial. Esse local guarda muito da memória histórica do município, através de suas lápides. Eu mesmo, em minha adolescência, percorrendo suas alamedas, descobri o túmulo do poeta Moisés Eulálio, e lhe escrevi um necrológio, em forma de crônica, que publiquei no inesquecível jornal A Luta, nos meus bisonhos dezesseis anos de idade. Alguns túmulos tem valor histórico e artístico, e falam, em seu silêncio monumental, de costumes, de artes e valores de uma outra época. Por outro lado, esse prédio faz parte da paisagem urbana, e está incrustado na memória e na saudade de pessoas de várias gerações; sua destruição empobreceria o nosso patrimônio arquitetônico. A sua conservação, com o restauro dos túmulos e criação do museu e memorial, nos moldes em que sugeri, seria uma prova de respeito aos mortos e seus familiares. Por outro lado, a nossa cidade estaria sendo pioneira no Piauí, não sei se mesmo no Brasil, em adaptar um cemitério para ser um museu e memorial, bem como um logradouro agradável e propício a passeios e meditações. Também serviria para que os campomaiorenses tenham um sentimento de menos temor ante a perspectiva da morte; aliás, todos passariam a ver a morte com mais naturalidade, como parte integrante e indissociável da vida. Não agrediria a religião e a religiosidade de ninguém, porquanto todas as religiões respeitam os mortos e consideram a morte como a passagem para uma outra vida, como um pórtico de entrada para uma outra dimensão da existência humana.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

O BÚZIO

Elmar Carvalho




o búzio
- pequeno castelo
ou gótica catedral -
sobre a mesa avança
envolto em ondas e vendaval

anda ondulante
onda cavalgante
onda ante onda

atraído pelo chamado
do mar avança
chamado que carrega
nas espirais e labirintos
de sua concha côncava

avança e
lança sobre mim
a tessitura exata
de sua arquitetura
abstrata e surreal

avança
unicórnio lendário
protuberante
rinoceronte bizarro
surfista extravagante
em forma de chapéu

lentamente
avança co-movido
pelo chamado das ondas
que em si encerra
em seu ventre vazio
onde o vento em voluteios
é a própria voz do mar

oh, búzio caprichoso
como as curvas e volutas
de um corpo de mulher...

quinta-feira, 22 de julho de 2010

POEMITOS DA PARNAÍBA

Texto: Elmar Carvalho
Charge: Gervásio Castro




– Eu sou um monumento
anatômico e biotônico
onde a lenda se mistura com a realidade;
onde o homem se confunde com o mito.
E neste instante, sinto-me
forte como um elefante!
– Cadê a tromba? – perguntou um gaiato.
– Está aqui – retrucou Paca/mão na braguilha.
Pacamão: pacamônicos folclores
de ditos repetidos pela boca
do povo – arma de repetição
deflagrando gargalhadas.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO


21 de julho

AS CORTINAS DE DEUS

Elmar Carvalho

Recebi um e-mail que prometia explicar os mistérios do comportamento e das desigualdades da vida humana de forma lógica. A justificação, em apertadíssima síntese, é de que a miséria e o sofrimento por que passam algumas pessoas é o justo “pagamento” pelo que essas pessoas já fizeram em reencarnações ou vidas passadas, e que se não fosse assim Deus não seria justo, pois nada justificaria serem alguns mais felizes e mais ricos do que outros seres humanos. Na verdade, essa teoria é uma velha conhecida minha. Muito já tenho meditado sobre ela, e creio que ela também não explica inquestionavelmente o assunto. Ora, mesmo admitindo o princípio do livre arbítrio e de que todos temos um espírito imortal, teremos que admitir que no início de tudo todos os espíritos humanos estariam em igualdade de condições, com as mesmas qualidades e nas mesmas circunstâncias, para que houvesse justiça. Se assim era, qual a explicação para que alguns tenham descambado para os mais graves pecados, enquanto outros tenham podido manter as mais excelsas virtudes? Alguns desses espíritos teriam algum defeito de fabricação, algum vício redibitório, como se diz no juridiquês? Mesmo o chamado livre arbítrio não explicaria essa degradação, pois se as almas estavam em igualdade de condições, tendo portanto as mesmas qualidades, umas não poderiam ser mais suscetíveis aos pecados e tentações que as outras. Muitos atribuem as diferenças entre nós humanos a diferentes fatores, como o ambiente, o meio físico e o meio social. Mesmo entre irmãos, filhos do mesmo pai e da mesma mãe, criados nas mesmas condições, tendo as mesmas oportunidades, as diferenças, às vezes, são gritantes. Também se tenta explicar o comportamento através da psicologia, ciência por demais intrincada, que tem cometido erros escandalosos na área da medicina legal. Recentemente foi feito o chamado mapeamento do DNA, e as explicações genéticas para os aspectos físicos e psicológicos surgiram com muita força, inclusive até para os casos graves de psicopatia. As discussões e explicações nessa seara são longas e controvertidas, e tão cedo ou nunca serão conclusivas e muito menos unânimes. Quanto mais se estuda, quanto mais se descobrem novas coisas, mais surgem novos mistérios. No mundo do infinitamente pequeno, das subpartículas atômicas, fala-se no principio da incerteza. Na composição do ser humano, fala-se na genética, no DNA. Qual a importância deste na formação psicológica e moral de um homem? Creio que todos esses fatores que abordei acima poderão contribuir para a formação de nosso ser físico e espiritual, mas somente Deus poderá sopesar o percentual da contribuição de cada um desses elementos. E somente Ele, avaliando as oportunidades físicas, financeiras e espirituais que tivemos, os dons que recebemos, as nossas heranças genéticas, para o bem ou para o mal, poderá nos julgar. Podem existir infinitas dimensões. Cristo disse que na casa do Pai havia várias moradas. A Bíblia, no Velho Testamento, fala que Deus nos retornará segundo nossas obras. Estamos longe de conhecer todos os mistérios do Onipotente. Mas creio, como já disse em outro lugar, que Ele tem um plano perfeito, e que na continuação eterna da vida, que ninguém tem certeza como será, Ele nos há de receber a todos, puros e redimidos, sem máculas e sem pecados. Não nos angustiemos com os mistérios infinitos de Deus. Aceite-mo-los, apenas.

terça-feira, 20 de julho de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO




20 de julho

A DÁDIVA DO LIVRO

Elmar Carvalho

Após encerrar umas leituras “sérias”, que vinha fazendo há algum tempo, iniciei a leitura do romance A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón. É um livro sobre livros, sobre a sedução de leituras e livrarias. Logo numa das primeiras páginas, deparo-me com estas frases: “Ele amava os livros sem reservas e, embora negasse categoricamente, se alguém entrasse na livraria e se apaixonasse por um exemplar cujo preço não pudesse custear, o rebaixava até onde fosse necessário, ou inclusive o presenteava, se considerasse que o comprador era um leitor com tradição e não uma mariposa amadora”. A citação me fez recordar um episódio do início de meus anos parnaibanos. Suponho que o fato aconteceu em 1977/1978, quando eu iniciava o meu curso de Administração de Empresas. Fui até uma pequena representação da extinta Fundação Nacional de Material Escolar - FENAME, ligada ao Ministério da Educação e Cultura, que publicava material didático ou paradidático, como livros e atlas. Entrei na pequena loja, situada no centro histórico e comercial de Parnaíba, e comecei a olhar atenta e vagarosamente as publicações, até que decidi comprar determinado volume. Quando fui pagar, o responsável pela livraria, um homem franzino como Dom Quixote, disse que me daria o livro. Expliquei-lhe que não era apenas estudante, mas que trabalhava e poderia pagá-lo. Mas o dono do negócio insistiu em me oferecer o exemplar, perguntando: “Será se eu não posso lhe dar um livro?”. Acredito que ele soubesse que eu, ainda bem jovem, fosse um poeta, universitário, que andava publicando seus textos nos jornais Folha do Litoral, Norte do Piauí e Inovação, e quis distinguir-me com um gesto que fosse sinal de seu apreço. Sem dúvida percebeu que eu “era um leitor com tradição e não uma mariposa amadora”. Esse fato teve um valor simbólico para mim muito grande, tanto que passadas várias décadas nunca o esqueci, assim como não esqueci nem a imagem nem o nome do livreiro, de quem nada mais sei. Nem mesmo sei se ele amava tanto os livros como Gustavo Barceló, o livreiro de A Sombra do Vento, ao qual se refere o trecho citado, que ademais era rico e tinha a livraria apenas por paixão. Chamava-se Ulisses, como as personagens de Joyce e de Homero. Com efeito, só poderia ser mesmo uma figura extraída das páginas de uma obra de ficção. Afinal, qual o comerciante que, em lugar de vender, entregaria dadivosamente o seu produto a alguém que sequer o conhecia? Ulisses, seguindo o impulso de sua bondade e de seu coração, assim o fez. E o seu gesto tão simples, mas tão cheio de significado e simbolismo, eternizou-se em minha alma.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS


O PESADELO

Elmar Carvalho

O pesadelo era repetitivo, medonho. Desde que sua consciência o vinha acusando com muita insistência de pecados que julgava esquecidos, o horror dos letargos se instalou em sua vida. Os porres cada vez mais homéricos provavelmente contribuíam para que o sonho pavoroso retornasse cada noite, sempre o mesmo, como o repeteco de um dvd enguiçado. Relutava em dormir, com medo de seu imutável pesadelo. Lia até não aguentar mais. Contudo, não desejava usar soníferos, mesmo porque sabia que em determinado ponto os comprimidos já não fariam efeito. Confessou ao velho vigário todos os seus pecados, principalmente os que mais o incomodavam; cumpriu penitência; fez e pagou promessa ao santo de sua devoção, mas foi tudo inútil, o pesadelo continuava implacável, com rigorosa assiduidade. Mudou seus hábitos. Passou a jantar cedo, pois lhe falaram que estômago cheio poderia favorecer os sonhos maus. Trocou a macia e fresca rede, à qual era fiel há muitos anos, pela cama de solteiro, pouco usada; porém essa providência resultou infrutífera. Morava sozinho, em apertada quitinete, compatível com a sua baixa remuneração de barnabé municipal. Começou a ler, preparando-se para enfrentar mais um angustiante pesadelo. Insistia em continuar a leitura, mas vinham rápidos cochilos. Algumas vezes, o livro chegava a cair. Levantou-se, foi até a pia do pequeno banheiro e molhou a cabeça na tentativa, que sabia vã, de se manter acordado. Enfim, viu que não havia outro jeito; guardou o livro, se cobriu com o lençol, e se preparou para enfrentar o sonho maldito, que não lhe dava trégua. Naquela noite, como nas demais das últimas semanas, o pesadelo aconteceu. Era como se uma força diabólica o esmagasse. Parecia que um súcubo lhe tolhia a vontade e os movimentos, sufocando sua força vital. Tudo era confuso. Parecia imerso no caos do nada, ou do quase nada, porque ainda se sentia quase vivo, ou melhor, um morto-vivo. Demônios pareciam arrastá-lo para regiões e trevas infernais. Sabia que estava quase morto, mas desejava ansiosamente acordar. Desesperado, tentava mexer os membros, os dedos, mas nada lhe obedecia. Continuava inerte, como se fosse um enterrado vivo, mas sem nenhum espaço para se mover. Forças malévolas, satânicas, pareciam envolvê-lo, subjugá-lo. Nas vezes anteriores, depois de tentar, sem sucesso, com sua exclusiva força de vontade, escapar dos demônios que o mantinham imóvel, fixava o pensamento em Deus. Orava com sofreguidão e com Fé. Só assim conseguia ressurgir de sua quase morte, da inércia total que o dominava. Porém, daquela vez sentiu que a sua dominação era mais forte; que as forças satânicas pareciam mais fortes; que o tempo de sua catalepsia fora mais demorado. Mesmo a sua oração fervorosa, que sempre o salvava, dessa vez não surtira efeito. Seu terror não tinha limites, ante a perspectiva de que os espíritos malignos ganhassem a luta, e o arrastassem para a perdição eterna. Mas, repentinamente, quando já abandonava todas as esperanças, conseguiu acordar. Foi ao banheiro lavar o rosto empastado de um suor frio, pegajoso. Sequer acendeu a lâmpada. Não precisava. Conseguia chegar ao lavabo na mais profunda escuridão. Quando sentou na cama para deitar-se, sentiu que havia tocado um corpo. Instantaneamente levantou-se, sob o impacto do susto. Acendeu a lâmpada e olhou. Viu sobre a cama, todo retorcido, o seu próprio corpo. Então compreendeu que, sob o medo atroz de seu pesadelo, havia morrido. Ante o horror de estar morto no sonho, morrera de fato.

domingo, 18 de julho de 2010

ANTOLOGIA DO NETTO (*)

LUÍZA AMÉLIA


Iniciadora do movimento romântico no Piauí, Luíza Amélia de Queirós Brandão refletira sua própria condição social, ao tornar-se objeto de seus poemas, alimentando um espírito perseverante e audacioso na mulher do século XIX. Filha de Manoel Eduardo de Queirós e Vitalina Luíza de Queirós; casou-se em primeiras núpcias, em 1859, com Pedro Nunes, que faleceria anos mais tarde. Em 26 de dezembro de 1888, coincidentemente no dia de seu aniversário, casou-se com Benedicto Rodrigues Madeira Brandão, um rico e influente comerciante parnaibano, fundador e presidente de 1901 a 1903 da “Sociedade Protetora Parnaibana”, além de Vice-Intendente Municipal no período de 1887 a 1889, na administração do Intendente Coronel Joaquim Antônio dos Santos (mais conhecido como Coronel Quincas Santos). A poetisa, nascida em Piracuruca no ano de 1838, residiu em Parnaíba, com o segundo marido, no velho sobrado colonial, revestido de azulejo português, ainda existente na Avenida Getúlio Vargas, nº 140, vizinho a ponte Simplício Dias da Silva. Não constituiu prole em ambos os casamentos, porém foi muito importante na criação e educação de seus sobrinhos, filhos de seu falecido irmão Cesário Queirós, a quem homenageou com o soneto “Ausência Eterna”. Luíza Amélia faleceu a 12 de novembro de 1898 aos 59 anos, vítima de um “câncaro” no útero, óbito este lavrado pelo então Dr. Mirócles Veras. A poetisa escreveu o soneto “Teto de Inspiração” (feito na copa de uma árvore) revelando o desejo de ter seus restos mortais sepultados à sombra de uma gameleira, fato este não consumado, porém, anos mais tarde, arrebentaria sua lápide a árvore que, ainda hoje, esbanja beleza no Cemitério da Igualdade, em Parnaíba. É autora das obras “Flores Incultas” de 1875, onde demonstra uma extrema influência de Casimiro de Abreu e uma certa pobreza intelectual; e “Georgina” de 1893 em que esbanja uma sublime poética e o desvinculo com sua influência casemira; publicados ambos em São Luís do Maranhão.

(*) Texto e foto de João de Deus Netto.

SELETA INTERNACIONAL

A VITÓRIA DE SAMOTRÁCIA

Rubén Dario

A cabeça abolida diz ainda o dia sacro
em que, ao vento do triunfo, as multidões helenas
desfilaram ardentes diante do simulacro
que fez ferver os gregos pelas ruas de Atenas.

Esta egrégia figura não tem olhos e mira;
boca não tem, e lança o mais supremo grito;
não tem braços e faz vibrar inteira a lira,
e coas asas pentélicas abarca o infinito!

sábado, 17 de julho de 2010

IN VINO VERITAS

Pádua Santos (*)

Charge: Fernando Antônio de Castro

“Três mil anos de história nos contemplam hoje, na cidade onde as bênçãos dos sacerdotes judeus misturam-se aos chamados dos muezins mulçumanos e os sinos das igrejas cristãs; onde em cada alameda e em cada casa de pedra foram ouvidas as admoestações dos profetas; cujas torres viram nações se erguerem e caírem – e Jerusalém permanece para sempre.”

Esta citação, que fala da eterna capital de Israel, foi lida pelo Presidente da Academia Parnaibana de Letras na posse do Padre Francisco Assis Soares, em data de 04 de fevereiro do corrente ano de 2010, e foi garimpada da vasta obra de Russel Norman Champlin, religioso e escritor norte-americano que atualmente reside no Brasil, em São Paulo, e tem vários livros publicados em português e em inglês.
Este grande estudioso da Bíblia nos fala de recente descoberta de arqueólogos israelenses dando conta da existência de aproximadamente 480 sinagogas em Jerusalém, no tempo de Cristo, e informa que Jesus freqüentava, assiduamente, tais templos.
É importante frisar que Jesus Cristo, segundo seus apóstolos, fez o sermão da Montanha (maior comício da história da humanidade) sobre um monte, daí o nome; também não utilizou qualquer sinagoga para a realização da célebre Ceia Mística – aquela onde foi instituída a Eucaristia. Preferiu o subúrbio da grande cidade, o Monte Cião.
O Padre Soares, que tem no seu nome o Assis do milagroso e humilde Giovanni di Pietro di Bernardone, e também por sua condição de padre – religioso que tem o dever de ensinar o evangelho, assim como Cristo, também se afastou dos pomposos salões e auditórios ricos ao preferir fazer sua festa de posse, como novo ocupante da cadeira de número 8, em uma simples churrascaria.
Os acadêmicos mais ortodoxos, aqueles acostumados com o feitio de posses anteriores, geralmente realizadas em salões nobres, com o Capitão dos Portos no meio da grande mesa ornada de flores importadas e servida por secretárias risonhas, estranharam a escolha de tal local.
Mas graças a Deus, e Deus parece que nunca esquece de ajudar os padres honestos, a solenidade foi, do começo ao fim, uma sucessão de sucessos.
Compareceram muitos acadêmicos, além de um expressivo número de senhoras e senhores da sociedade – até mesmo da “sociedade fashion” - como diriam os ilustres cronistas sociais se estivessem redigindo esta crônica. Fizeram-se presentes vários pastores católicos, ali liderados pelo Senhor Bispo Diocesano de Parnaíba, Dom Alfredo Scháffler. E como que completando aquele respeitável cenário religioso, também compareceu, representando o Instituto Histórico da vizinha cidade de Buriti dos Lopes, o seu Presidente, que tem no seu nome nada menos que o nome de um santo seguido de dois apóstolos – o convidado bom e amigo Doutor Bernardo Lucas Matheus.
O discurso de recepção, feito pelo confrade Carlos Araken Correia Rodrigues, nada deixou a desejar. Constituiu-se de peça bem elaborada, instruída com generosos conceitos de amizade, sem esquecer o necessário elogio acadêmico que se pode ouvir quando o sensível orador manifestou-se sobre o campo de ação do recém-empossado: “Atuou em todas as áreas possíveis e imagináveis, sem nunca perder a humildade e a sabedoria que são dois dos seus maiores predicados que tão bem o caracterizam. Pés no chão e olhos nas estrelas.”
O novel acadêmico, em efusivo discurso poético-filosófico, contundente e verdadeiro como suas constantes homilias; manso e fértil como os remansos do Longá – doce rio por ele invocado na oração – deixou evidenciado o seu contentamento ao dizer sem tergiversar: “Canta a alegria em suas nuanças prateadas de luar, doiradas de sol, bafejadas do aroma da vida de cada um de nós e que dentro de mim grita bem alto porque realizado que estou, pelo fato de que, neste momento, sou elevado ao “Podium imortalitatis” (“à Glória da Imortalidade”).”
Para finalizar a bela festa literária que, além dos méritos citados, festejou o final do tormentoso impasse criado para escolher um digno ocupante para a cadeira vaga com a morte do jurista, político e poeta Chagas Rodrigues, e porque “ninguém é de ferro”, todos foram convidados para um memorável coquetel oferecido pelo próprio imortal.
Coquetel bem aceito por todos os presentes! E não podia ser o contrário. Ali se discutiu e se concluiu harmoniosamente que pode sim, sem qualquer prejuízo à cultura parnaibana, uma posse acadêmica acontecer em uma churrascaria onde se come, conversa e bebe vinho. O mesmo vinho que Cristo transubstanciou em seu próprio corpo, no banquete da Última Ceia, para salvação dos mais diversos pecadores.
O sempre lembrado vinho. O vinho invocado pelos velhos romanos que um dia disseram com invulgar sabedoria: “In Vino Veritas” (No vinho está a verdade).

(*) O autor é o atual presidente da Academia Parnaibana de Letras (APAL) e ocupante da cadeira nº 1.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho


16 de julho

O PIAGÜÍ - UM JORNAL CULTURALISTA

Recebi o jornal culturalista O Piagüí, ano III, nº 33, cujos diretores de conteúdo são Daniel Castelo Branco Ciarlini e Claucio Ciarlini Neto. Admiro sua linha editorial. Noto que é desprovida de interesses menores, alheia a ciúmes de grupo, e sobretudo tenho observado que os seus diretores não são obsessivamente ciosos de suas próprias produções; ao contrário, sabem reconhecer o valor dos outros, sem importar a que gerações pertençam. Até mesmo escritores já falecidos e um tanto esquecidos tem sido lembrados em suas páginas. Tenho visto o esforço desse órgão de comunicação em preservar a memória histórica do Piauí, através de matérias que sintetizam a história de vários municípios, assim como outras que tem divulgado os sítios arqueológicos e espaços culturais de nosso estado. Em suas folhas tem sido estampados contos, crônicas e poemas, além de pequenos ensaios e entrevistas. O periódico tem envidado notável esforço em preservar a lembrança dos homens ilustres do Piauí e de Parnaíba, que se destacaram nos mais diferentes campos da atividade humana, seja empresarial, político, cultural, artístico ou literário. Considero os que fazem O Piagüí, tanto o jornal impresso como o portal de mesmo nome, como jovens idealistas, despojados de mesquinhas vaidades, egoísmos e egolatrias, que através da arte e da cultura buscam um mundo melhor, mais justo e mais fraterno. Inevitavelmente, observados a contextualização histórica, as idiossincrasias de cada componente, a grande diferença tecnológica dos dias atuais e a dos anos 70 e 80 do século passado e o regime político de então e de hoje, comparo esses moços de boa vontade aos que fizeram o jornal Inovação, pela força de vontade, abnegação e idealismo. Muitos dos componentes de ambos os jornais são ou foram literatos - contistas, cronistas, ensaístas e poetas. Dentro da realidade parnaibana, é como se, simbolicamente, os “inovadores”, na corrida de revezamento da vida e das gerações, tivessem passado o fogo sagrado da cultura e do idealismo aos “piaguienses”. Para mim, com sinceridade devo confessar, a equipe do Piagüí é a mais brilhante geração surgida após o Inovação, sobretudo porque infensa a radicalismos e individualismos tacanhos e improdutivos.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

POEMITOS DA PARNAÍBA

Texto: Elmar Carvalho
Charge: Gervásio Castro



Surdo, surdo como um surdo,
aprendeu com Bilac a ouvir estrelas.
E as ouvia nas lindas noites estreladas
de Parnaíba.
Em sua surdez de pau
ouvia o bater dos corações das pedras.
Ouvia o bang-bang dos colts
em suas leituras de faroeste.
Com sua morte silente
aprendeu a ouvir o silêncio
absoluto da morte.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho

Charge: Gervásio Castro

Foto em que aparecem o doutor Lusmanell (dono do time Teixeirão, do campo, da bola, etc.), seu pai, o advogado Manoel Absolon, dois de seus irmãos, Manoel Teixeira (advogado) e Manoelson (acadêmico de medicina) e seu tio, o vereador Henrique Teixeira. O time foi o campeão do torneio de futebol de salão de Regeneração - versão 2009

Foto: Elmar Cristina

Foto:Elmara Cristina


14 de julho

DESPEDIDA DE GOLEIRO

O colega e amigo Thiago Brandão, grande matador, no sentido futebolístico da palavra, respondendo a um e-mail que lhe enviei, em que lhe explicava que pretendia publicar, em formato impresso, este Diário Incontínuo em 2016, quando terei sessenta anos de idade, escreveu-me pela internet: “Grande Poeta! Achei que, pela sua agilidade na atividade futebolística, mais precisamente em envidar esforço homérico evitando gols, estivesse Vossa Excelência ainda bem distante de atingir a sexagenária. De toda sorte, parabéns pela vitalidade física, mental e profissional”. Embora sabendo que a mensagem é fruto de sua bondade e lhaneza, não pude deixar de recordar os meus tempos de goleiro amador – amador do esporte e da vida, e amador porque nunca fui um profissional pebolista. Respondi-lhe nos seguintes termos, com certa auto-ironia: “o pior, ou o melhor, senão já terei partido desta para uma melhor, é que ainda vem a expulsatória ou compulsória ou septuagenária”. Depois, estourou a notícia de que o goleiro Bruno teria mandado matar a sua amante Eliza Samudio. Parece que essa posição futebolística, além de ingrata, é um tanto maldita. Primeiro, um golquíper é o único atleta a jogar, sobretudo, com as mãos; segundo, uma falha sua é quase sempre fatal, e, depois, as televisões só se preocupam em exibir os gols, em que o goleiro é visto em situação desfavorável. Pouco são mostradas as belas e difíceis defesas de um goleiro. Para completar a esdruxularia, até sua farda é diferente da dos demais atletas. Assim que assumi a Comarca de Regeneração, andei comentando que fora goleiro em minha juventude, mas que, depois dos quarenta, e mesmo depois dos cinquenta anos, ainda jogara no time da AMAPI. Acrescentei, com certa ponta de vaidade, que as pessoas que me viram jogar diziam que eu era um bom arqueiro, com atuações quase sempre regulares ou boas. Diante disso, fui convidado pelo advogado Luzmanell Teixeira Absolon para disputar uma partida em seu campo particular, conhecido como Teixeirão. Arrependi-me de haver sido linguarudo e um tanto fanfarrão, mas, para não passar por mentiroso ou fobista, aceitei participar de um jogo. Para não encompridar a conversa, devo dizer que foi uma ótima partida, com torcedores e bons atletas regenerenses da idade madura. Tive sorte. Atuei bem, e fiz pelo menos três boas defesas, em que executei “voadas” ou “pontes”, uma das quais estaiada. Inclusive, um dos torcedores, no final do entrevero, disse que uma das minhas defesas merecia ter sido filmada, e fazia a mímica correspondente, usando um telefone celular como se fosse uma câmera. Também disseram, mas acho que apenas por venenosa brincadeira, que eu fui poupado, em razão de meu cargo. Essa afirmativa não procede, pois os chutes foram violentos, verdadeiros torpedos, e bem no cantinho da trave. Posteriormente, fui convidado para novo jogo. Preferi declinar. Dizem que a primeira imagem é a que fica, mas eu acho que é a última. Assim, prefiro, como poeta, encerrar um soneto com uma chave de ouro, e, na qualidade de goleiro, prefiro pendurar as chuteiras com uma boa atuação. Surpreendi-me com o doutor Luzmanell. Pensei que ele só jogasse por ser o dono da bola e do campo, por sinal agradável, arborizado e bem gramado, mas percebi que ele tem intimidade com a pelota e conhece os segredos e macetes da arte futebolística.

ANTOLOGIA DO NETTO (*)

DA COSTA E SILVA


Antonio Francisco da Costa e Silva, o maior poeta telúrico do Piauí, nasceu em Amarante a 23 de novembro de 1885. Estudou o primário em sua terra e partiu para o Recife, onde cursou Direito. Ingressou no Ministério da Fazenda, depois de concurso, onde serviu como fiscal do Tesouro Nacional. Nesse cargo percorreu São Luís, Manaus, Porto Alegre e São Paulo, onde, após os períodos da Revolução de 1930, tratou de regularizar as emissões de bônus criados pelo Governo Central.

A poesia de Da Costa e Silva assenta-se em duas escolas: Simbolista, interpretada nos poemas de Sangue, e Parnasiana, que determinou a fixação de seus poemas. Apreciado poeta do seu tampo, Da Costa e Silva é a maior força da poesia telúrica do Piauí. Sobre ele assim se expressa Silveira Bueno: "Se o primeiro livro (Sangue, 1908) ainda oferecia alguma influência simbolista, já no segundo (Zodíaco) se firmava como verdadeiro parnasianismo, com reflexos de Verhaeren. Foi a melhor obra de toda a sua produção." Silveira Bueno conheceu Da Costa e Silva em São Paulo, comentando mais tarde em História da Literatura Luso-Brasileira (Edição Saraiva, 1968) que o cantor de Amarante e Saudade tinha traços vincados de mongolóide, e já estava doente por este tempo. Para Wagner Ribeiro "a poesia de Da Costa e Silva traz luminosa exaltação e um inebriamento comunicativo". Mário Rodrigues chega a compará-lo em grandeza com Edgar Allan Poe, Cruz e Sousa e Álvaro de Azevedo. Arimathéa Tito Filho define-o como "alta afirmação da poesia simbolista nacional".
(*) Texto e ilustração de João de Deus Netto

terça-feira, 13 de julho de 2010

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS

Elmar Carvalho


AS PERIPÉCIAS DO CHICO FAZ TUDO

Na cidadezinha interiorana onde nascera todos o conheciam e quase todos, vez ou outra, precisavam de seus serviços. Era o Chico Faz Tudo ou simplesmente Chico. Era contínuo de uma repartição federal, mas, nas horas de folga, fazia quase todo tipo de pequenos serviços e consertos, sobretudo os de instalações hidráulicas e elétricas. Não fizera nenhum curso, nem mesmo de curta duração, mas, ainda garoto, ajudando seu tio, que fazia esses serviços, aprendera, empiricamente, todos os segredos e macetes dessas profissões. Era despachado, diligente, e o que tinha de fazer executava com rapidez e geralmente de forma satisfatória. Levava uma vida relativamente folgada, pois, juntando o seu salário no serviço público, que era fixo, e os ganhos variáveis de seus biscates, podia sustentar a sua família com certo conforto. Tinha casa própria; e tudo que um pobre podia ter dentro de casa ele tinha. Sua vida era do lar para o trabalho, e tudo que amealhava era gasto com a família. Não tinha vícios, nem com jogos, nem com bebidas e nem com mulheres. Entretanto, uma vez por mês, quando recebia o salário de seu emprego, reservava uma pequena parte para fazer uma boa farra. Não gostava da companhia de amigos nesse mister. Ia para um cabaré, bebia umas doze cervejas em companhia de uma mulher dama, e, como de praxe, mantinha duas relações sexuais; uma ao chegar, para se acalmar, e a saideira, ao término da farra. As mulheres gostavam de ficar com ele, porque com o Chico não havia perigo de doenças e de “seixo”, que era o nome dado ao fato de o cliente não pagar pelo serviço sexual. Contava ele que, ao chegar em casa, ainda enfrentava a mulher, uma nutrida matrona de quase cem quilos. Certa ocasião, já um tanto enfastiado do plantel dos dois cabarés da cidade, envergou um terno, montou em sua velha bicicleta Bristol, pesada, toda de ferro fornido, e se dirigiu para a cidade vizinha, situada a quarenta e quatro quilômetros de distância. Resistência tremenda, chegou no destino sem uma gota de suor; chamou logo uma das mulheres e cumpriu o seu ritual de sempre. Após, empreendeu a viagem de volta, já de madrugada. Só que desta feita estava pior do que um bode ensalçado; ao chegar em sua cidadezinha, bateu-lhe uma saudade de uma de suas quengas preferidas, e Chico ainda teve disposição para um novo entrevero. Era realmente muito expedito e inquieto, e fazia ontem o que outros fariam depois de amanhã. Certo dia, foi chamado ao gabinete do chefe. Este era um homem metódico, um pouco autoritário, de fala lenta e pausada, e tinha a mania de interromper o que dizia, para rabiscar algumas coisas sobre um bloco que mantinha permanentemente sobre a mesa. Chico aproximou-se da mesa e ficou de pé à espera da ordem. O chefe levantou os olhos e, pausadamente, como era do seu costume, disse que estava querendo falar com certa pessoa, funcionário da prefeitura, que ficava a dois quarteirões. Baixou os olhos para a mesa e rabiscou algumas garatujas no bloco. Em seguida, voltou a fixar o interlocutor para concluir o recado, quando Chico, tirando o quepe da cabeça, falou: “Pronto, chefe, já dei o seu recado.” O chefe, meio aborrecido, perguntou-lhe como isso poderia ter acontecido, pois ele sequer concluíra o que pretendia ordenar. Chico retrucou que fora, e que tinha como testemunhas fulano e beltrano e o próprio destinatário do recado. Outra opção não restou ao superior senão engolir em seco, e concluir o recado, desta feita sem delongas e sem garatujas.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho



12 de julho

O BRAVO CAVALO QUEIMADINHO

Lembrei-me hoje, insistentemente, de uma notícia que ouvi em programa de televisão, em que um rapaz insano derramou dois litros de gasolina num pobre cavalo e lhe ateou fogo. O animal correu desatinado e se espojou numa moita, se contorcendo e se retorcendo pelas dores atrozes que sentia, naturalmente na tentativa instintiva de debelar a chama que o adolescente imbecil provocara; claro que seu esforço foi inútil, e talvez o fato de rolar no chão, por causa das dores lancinantes que sentia, só tenha servido para avivar ainda mais as feridas causadas pelo fogo, que só se extinguiu com a última gota de tão inflamável combustível. O cavalo ainda teve força para chegar à casa de seu dono, como a pedir socorro. O pobre homem conseguiu que a Polícia Montada do Rio de Janeiro cuidasse do seu animal. Sua vontade de viver era tanta, que, mesmo tendo tido duas paradas cardíacas, conseguiu sobreviver. Rebatizado de Queimadinho, tornou-se uma espécie de mascote e símbolo da corporação policial. O que o rapaz idiota pretendia ganhar com a sua torpeza? Seria, acaso, um sádico, a se satisfazer em olhar um inocente e indefeso animal sofrendo? Que dores esse animal não terá sofrido, sem nada ter feito contra esse garoto de dezesseis anos de idade!... Fico admirado de esse bicho não ter perdido a fé na raça humana, pois foi procurar o dono e é carinhoso com as pessoas que cuidam dele. Ante o gesto estarrecedor do adolescente, a gente chega a pensar besteira. Certamente é possível que alguém tenha imaginado a hipótese de ser pingada apenas uma gota de gasolina no seu braço, para que ele pudesse ter uma pálida ideia de seu ato abominável. Ao ver a imagem do Queimadinho, lembrei-me do quadro da girafa incendiada de Salvador Dalí e destes meus versos: “Girafa incendiada sem poder pastar / na terra calcinada que ela própria queimava...” No meu discurso de posse na Academia Piauiense de Letras, na rrei o seguinte fato, acontecido em minha juventude: “O homem, que cria animais para abatê-los, poderia ao menos evitar torturá-los, ou, ao menos, maltratá-los o mínimo possível. Recordo-me de que certa vez, perto de um mercado, vi um magarefe divertindo-se a dar machadadas na cabeça de um tenro e cândido cordeiro. Ria ao vê-lo estremecer com os golpes. Gostaria que esse carneiro, símbolo da mansidão, que sequer berrou ou esperneou, a exemplo da jumenta de Balaão, tivesse perguntado àquele homem bruto sobre por que o torturava. Ainda hoje me arrependo de não ter interpelado aquele homem rude e ignaro, embora correndo o risco de ele voltar contra mim o seu machado cruel.” A história do bravo cavalo Queimadinho me fez recordar um fato acontecido em Barras, no tempo da ditadura Vargas. Um delegado contemplou, da porta de sua repartição, um homem fazer várias tentativas de pegar o chapéu, que o vento arrebatara de sua cabeça. Quando ele se curvava para peg á-lo, vinha novo pé de vento e o arrastava. Quando finalmente conseguiu segurá-lo, o homem desferiu várias facadas contra o sombrero, como dizem os mexicanos. O delegado imediatamente, sem contar conversa, o mandou prender, sob o argumento de que quem procedia daquela maneira contra um inocente chapéu, que só lhe fazia benefício, bem poderia matar um ser humano. Se essa autoridade pensou isso em relação a um homem que esfaqueara uma coisa inanimada, como um chapéu, que não sente dores e não morre, o que não pensaria em referência a uma pessoa que, sem nenhum motivo, tocou fogo num cavalo, que teve mais de setenta por cento de seu corpo devastado pelas chamas ateadas bestialmente por um jovem, no paroxismo da crueldade humana!? Para mim, esse rapaz foi mais irracional do que o quadrúpede que ele maltratou, de forma tão vil e tão covarde.

RETORNO A FRANCINÓPOLIS

Elmar Carvalho





Meu pai assumiu seu cargo na diretoria regional do antigo Departamento de Correios e Telégrafos – DCT-DR-PI no povoado de Papagaio, hoje a florescente cidade de Francinópolis, em 1958. Levou a família, que então era constituída por ele, Miguel, minha mãe, Rosália, e eu, com apenas dois anos de idade. Nessa localidade nasceu meu irmão João José. Residimos ali durante apenas um ano e meses, mas meus pais fizeram bons e inesquecíveis amigos, que durante várias décadas não mais reviram. Meu pai, de temperamento emotivo e saudosista, sempre recordava esses amigos e sempre alimentou o desejo de algum dia revê-los. Falava da boa acolhida que teve ao chegar para morar na povoação e de fatos pitorescos dessa época. De maneira especial recordava do senhor Joel, seu colega do antigo DCT, que o acolhera de maneira fidalga e fraterna, e que dera um filho para ser afilhado de meus pais.

Muitas décadas depois, já morando e trabalhando em Teresina, fui até a biblioteca do Ministério da Fazenda, em cujo prédio estava instalada a repartição em que eu trabalhava, para ter alguns minutos de conversa com o chefe dessa biblioteca, meu amigo Astrogildo Soares, professor de português e literatura da rede estadual, que costumava chamar de Astro-Rei, por causa de seu nome e de sua sapiência. Conversava com ele uma moça, que ele chamava de Do Ó. Lembrei-me de que meus pais diziam que o senhor Joel tinha uma filha, minha contemporânea, de nome Maria do Ó. Sabedor de que meu pai há muito desejava reencontrar o seu amigo e compadre Joel, e acreditando num excepcional golpe de sorte, perguntei a essa moça se ela, porventura, seria filha desse homem. Respondeu-me que sim, e que ele trabalhava na Procuradoria Regional da República, instalada no próprio edifício onde nos encontrávamos. Agradeci a Deus tamanha coincidência, pois nunca antes vira Do Ó, em Teresina, e não mais a revi posteriormente. Tratei logo de fazer contato com o senhor Joel, e promovi o seu reencontro com meu pai, que se deu em minha casa, em ambiente de muita emoção e de furtivas e disfarçadas lágrimas. Depois, ambos voltaram a se reencontrar, em visitas recíprocas. Desde esse primeiro encontro, tornou-se mais forte ainda o desejo de meu pai de rever o velho Papagaio ou a nova Francinópolis, desejo que foi reforçado pela visita da professora Glória, da UFPI, que reavivou a já muito viva saudade de meus pais.

Acertamos, meu pai, meu irmão César e este cronista, que iríamos visitar Francinópolis, numa viagem no tempo e no espaço, já que destinada a matar (ou aumentar) a saudade de meus pais.

Num belo dia o telefone tocou. Era o meu irmão César convidando-me para a viagem a Francinópolis, que se daria no sábado seguinte (04.08.07), logo cedo da manhã. Meus pais vieram de Campo Maior e dormiram em minha casa, para que a viagem não sofresse atraso. Seguimos por rodovia federal até Elesbão Veloso, de onde continuamos por uma estrada estadual, que, um pouco depois, deixa de ser asfaltada, para ser apenas recoberta de piçarra, com as suas indefectíveis e características “costelas de vaca”.

Nesta época do ano a paisagem do semi-árido perde a cor verde e adquire um tom amarronzado, de poucas folhas, de galhos esquálidos, como dedos longos, raquíticos e desesperados. Esparsamente, rebenta o verdor espinhento dos mandacarus e xiquexiques da caatinga, e o verde extravagante e brilhoso dos juazeiros, que formam um belo e inusitado contraste. As poucas folhas pairam inertes no sertão esturricado, exceto quando perpassa a escaldante canícula nordestina, que não traz o frescor da brisa. Com efeito, mais parece um bafo quente e desconfortável, que não afaga a pele, ou a baforada fumegante de uma fornalha.

Subitamente, deparamo-nos com verdadeira alameda de faveiras e casas simples. Pensamos tratar-se de um povoado. Na verdade era um subúrbio da cidade de Francinópolis. Em seguida a alameda de faveiras transformou-se numa avenida repleta de tenras palmeiras imperiais, que haverão de crescer frondosas, para encher de graça e beleza a pequena e graciosa urbe. Logo encontramos o morro, em cujo cimo ficava a antiga ermida do povoado. A igrejinha, segundo meus pais, parece continuar sendo a mesma. Entretanto, o morro, que na época de meus pais era apenas terra nua, despido de belezas artificiais, ganhou um belo paisagismo, com floridos e verdejantes jardins, com elegantes e singelos passeios e escadarias. No alto, além da bucólica ermida, encontra-se agora um Cristo Redentor, de braços bem abertos, para bem receber os visitantes.

Aos pés da colina, vimos o desativado hotel da senhora Maria José, que se revelou uma anfitriã simpática e bem informada, a esclarecer meu pai sobre o que ele desejava saber a respeito dos amigos e conhecidos. Muitos residiam agora em outras paragens e outros já habitavam o campo-santo de Francinópolis. Por feliz coincidência, na pousada se encontrava a passeio, posto que ele já morasse em outra cidade, o senhor José Nogueira, que fora o alfaiate do velho povoado de Papagaio, numa época em que não havia roupa feita, em que as lojas apenas expunham nos tabuleiros e prateleiras o colorido festivo dos tecidos, tais como chita, morim, popelina, mescla, brim, opala, riscado, seda, em meio à quase uniformização dos cáquis e linho. Meu pai mesmo teve várias roupas cortadas e costuradas por esse mestre da tesoura e da agulha.

Percorremos os passeios e as escadarias do morro. Meus pais foram fazer suas preces na pequenina e simpática igreja, que costumavam freqüentar na juventude e no início de sua vida conjugal, que já vai além das bodas de ouro. Andamos pelas ruas e logradouros, já modificados pelo tempo e pelo progresso. Era a busca do tempo perdido, do tempo passado, de que nos falam os romances de Proust, que sempre esperamos reconquistar, embora em vão.

Essa viagem saudosista até me fez recordar o impecável conto, verdadeira obra-prima, Viagem aos Seios de Duília, de Aníbal Machado, em que um personagem, burocrata exemplar em sua assiduidade e disciplina, mas que, após a sua aposentadoria, quis reencontrar a sua longínqua aldeia, perdida nos confins do passado, e a mulher bela e jovem, de seios esculturais e exuberantes, que amara em sua juventude distante. Partiu nessa busca inglória. A aldeia já não parecia a mesma e a mulher se transformara numa velha bruaca, de boca murcha e desdentada, de seios flácidos e pensos.

Entretanto, apesar das mudanças de que já falei, e dos amigos perdidos, através da morte ou dos endereços longínquos, incertos ou não sabidos, a nossa viagem foi vitoriosa. Meu pai pôde rever o seu amigo da juventude, Edmar Soares da Silva – filho de Zeca Soares e Francisca (Vidinha), irmão de Odete, Gracinha, Celecinda e Glória – que veio a ser o terceiro prefeito de Francinópolis. Minha mãe e meu pai reviram e abraçaram a senhora Felícia, vizinha e amiga dos seus primeiros anos de casamento. Na frente da casa dessa senhora existe, hoje, uma bela praça, construída no lugar onde existira o pequeno mercado público do povoado. Ali perto ainda existe a casa da saudosa Maria Lameu, em cuja frente havia uma frondosa figueira. Em lugar da figueira, vimos uma exuberante e florida munguba, também chamada mamorana. Minha mãe, com muita emoção e saudade, recorda desse tempo, e conta que na porta de sua casa pegava em meu pintinho de criança de dois anos, e perguntava onde ele estava. Conta que eu fechava os olhos, esticava o braço, alongava o indicador para a figueira de Maria Lameu, como se estivesse apontando para muito além, com muita vivacidade, demorando na sílaba tônica da primeira palavra, e dizia, com a graça inocente da infância:
– Voooooou!... Foi lá pra figueira da Lamilame...

Perto da casa onde moramos, eu era a única criança pequena. Segundo minha mãe, e toda mãe é coruja quando fala dos filhos (e, portanto, é sempre suspeita), eu era um infante saudável, bonito e esperto, e por isso fui o xodó e brinquedo vivo das mocinhas da vizinhança.

Fomos até o antigo cemitério, onde meu pai rezou pelos amigos mortos. O campo-santo fica num terreno escarpado, pedregoso e duro, que deve dar muito trabalho ao coveiro, quando da abertura das covas. O finado, por mais leve de corpo e bondoso que tenha sido, deve pesar um pouco na hora da subida da encosta do morro, em que ficam encarapitadas as sepulturas. Entre estas, no mais alto do outeiro, havia uma, encravada numa espécie de panteão familiar, que ostentava o seguinte epitáfio: “*12.05.1883 - +1934. Aqui descança (sic) os restos mortais de seu Totonho D’Águas Bela (sic) – Senhor de Engenho”. A singela inscrição, mesmo com os seus erros de português, deixa entrever certo resquício de grandeza, tanto no epíteto “D’Águas Belas”, que lembra uma espécie de alcunha nobiliárquica, assim como na expressão “Senhor de Engenho”, como outrora se usava Senhor de Escravos. De qualquer sorte, a igualdade não existe nem mesmo no Cemitério da Igualdade, pois no meio de covas rasas e de túmulos humildes campeiam túmulos suntuosos, verdadeiros mausoléus. A lápide me trouxe à memória os seguintes versos do poeta H. Dobal: “Olegário Alves, / alma cheia de vaidade/ até a morte, / badalava sua grandeza / com restos de um passado / que nunca fora grande.” Nessa época, pouco verde havia. Quase que a única exceção era um imenso mandacaru, que ali parecia simbolizar a esperança de uma nova vida, de uma continuação da vida, e uma pequenina planta que teimou em rebentar das entranhas das ruínas de um túmulo, como sinal da vitória da vida através do portal da morte.

Tiramos muitas fotografias das pessoas, das ruas, das praças e dos logradouros, quase desnecessariamente, porque as pessoas, as ruas, as praças e outros sítios já estavam indelevelmente gravados em nossa memória e em nossa alma, como uma relíquia que se guarda em escrínio imaterial e indestrutível.

Te. 16.08.2007