quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

DIÁRIO INCONTÍNUO




29 de fevereiro

ALFREDO FAIT OU O “ESPANHOL” QUE VEIO DA ITÁLIA

Elmar Carvalho


Nas diversas vezes em que fui a Parnaíba, em anos anteriores e em meu período de férias de janeiro/2012, sempre via numa das garagens do condomínio uma velha bicicleta. A informação que eu tinha era de que ela pertencia a um espanhol, que possuía um apartamento no terceiro andar. Nunca coincidiu encontrá-lo, mesmo porque muitas vezes ele estava viajando para outro estado do território nacional ou para algum país estrangeiro. Numa das vezes, minha mulher entrou em contato com ele, para pedir-lhe permissão para usar uma de suas garagens. O pleito foi deferido de boa-vontade, sem nenhum tipo de dificuldade ou empecilho.

Na folga prolongada do carnaval, precisei tratar de um assunto com o síndico. Foi, então, que conheci o “espanhol”, que também esperava o Reginaldo Mendes. Minha mulher, que já o conhecia, encarregou-se de fazer as apresentações. Enquanto ela foi mostrar ao síndico o problema que nos afligia, fiquei a conversar com Alfredo Fait. Era um tipo ariano, alvo e de olhos azuis. Entretanto, para minha surpresa, quando lhe perguntei pela Espanha, disse ser italiano, de uma pequena cidade situada perto da bela e legendária Veneza, do “gondoleiro do amor” dos sublimes versos do nosso Castro Alves.

Através da conversa, fiquei sabendo ser ele psicólogo e antropólogo. Quando me disse ser italiano, informei-lhe que, por grande coincidência, no final do ano passado e no início deste, estivera lendo Ungaretti e relendo os poetas Carducci, Salvatore Quasimodo e Eugenio Montale. Acrescentei que pretendia ler mais versos do conde Leopardi. Alfredo Fait disse ser este, excetuando-se o poeta dantesco, o maior dos vates da Itália. Para completar essas coincidências, falei-lhe que no momento estava lendo o romance O Cemitério de Praga, de Umberto Eco, mas que não o estava achando tão bom quanto O Nome da Rosa, que achei de alto nível, assim como igualmente o filme nele baseado.

Alfredo concordou com minha opinião, e disse ser um cinéfilo. Nesse ponto, de forma natural, sem nenhum ranço de exibicionismo, convidou-me a conhecer a sua coleção de DVDs, além de livros e obras de arte. Combinei que na segunda-feira, às nove horas, iria visitar o seu apartamento, que na verdade são dois, já que ele se viu obrigado a comprar um outro, pegado ao primeiro, para poder acomodar esses vários objetos culturais. Autografei-lhe alguns livros de minha autoria, especialmente Rosa dos Ventos Gerais e Lira dos Cinqüentanos (ressalto que deste último o bom e velho trema ainda não foi defenestrado, principalmente do título).

Quando falamos em cinema, de que gosto muito, desde a minha infância, expliquei-lhe que o açucarado Dio Come te Amo, marcou época no Brasil, e arrancou lágrimas e soluços de muitas moças brasileiras, que se encantaram e se comoveram com essa película. Disse-me ele que essa fita já não é lembrada na Itália, onde não teve o valor que lhe foi atribuído no Brasil, talvez mais pela bela voz de Gigliola Cinquetti, igualmente bela, então quase uma esbelta ninfeta.

Acho que a música, sem dúvida, concorreu para o sucesso da romântica fita, que, de resto, contava uma história um tanto vulgar. Não tive como não falar nos macarrônicos “faroestes”, aduzindo que Giuliano Gemma foi um dos ídolos cinematográficos de minha geração. Ao nome deste ator, Alfredo acrescentou o de Franco Nero. Frente à violência dos filmes de ação de hoje, esses caubóis mais parecem ingênuos e quase inofensivos mocinhos, em seus cavalos, com os seus chapéus e com os seus revólveres de poucos balas.

Na segunda-feira de carnaval, na hora marcada, em companhia de Fátima, fui visitar o ex-espanhol. Pude ver o seu notável acervo de DVDs cinematográficos. Pude olhar alguns velhos cartazes de filmes, que foram marcos na história da sétima arte. Mostrou-me sua enorme coleção de CDs de música erudita. Falei-lhe de minhas preferências nessa seara musical. Entre seus livros, em vários idiomas, havia muitos álbuns, com excelentes ensaios e reproduções de obras de arte. Pude, também, apreciar seus quadros e esculturas, distribuídos nos dois imóveis, que serão conjugados, futuramente.

Além de tudo isso, vi uma considerável coleção de insetos, colocados em mostruários de vidro, que ele adquiriu em suas viagens internacionais. Entre esses insetos e animais, havia um vampiro, de uma espécie que nunca eu havia visto, nem na televisão, nem em livros e revistas. Não tive como deixar de fazer referência ao elegante e sanguinário Conde Drácula, mas o interpretado por Christopher Lee, em seu velho e sombrio castelo, em cuja película apareciam as névoas e os lobos, com seus enregelantes uivos, tudo sem a violência exagerada e sem o excesso de efeitos especiais dos vampirescos filmes de hoje.

Comentou que começara a ler alguns de meus poemas. Especificamente, referiu-se aos de matriz surrealista, mormente ao Dalilíada, inspirado na vida e na obra de Salvador Dalí, que, à falta de melhor classificação, chamo de épico moderno. Disse-me que irá escrever um trabalho sobre esses versos, não dando nenhuma pista sobre como será essa abordagem. Creio que tanto poderá ter um enfoque eminentemente literário, como poderá seguir um viés psicológico, mormente em relação aos poemas surrealistas; poderá, ainda, haver um enquadramento antropológico e sociológico, no tocante aos versos sociais, de denúncia.

No final da visita, emprestou-me uma obra sobre o surrealismo e o dadaísmo, que folheei lentamente, à noite, até mais de uma hora da madrugada. Devolvi-o no dia seguinte, oportunidade em que revi várias obras de seu rico acervo e me deleitei com outras que não vira no dia anterior. Reafirmou o seu compromisso de escrever o texto (talvez artigo ou pequeno ensaio) sobre minha poesia. Quando o fizer, pretendo publicá-lo na internet. Contudo, não o cobrarei e nem o apressarei. Segundo a Bíblia, há tempo para tudo. Assim, há que haver o tempo de esperar. Inclusive as messes e as dádivas.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Flagrante futebolístico do Gervásio Castro

MUSA MEDUSA


ELMAR CARVALHO

Sem arautos
sem pajens e sem bagagens
inesperadamente chegaste
sem anúncios e sem presságios
egressa de sonhos e miragens
e tão inesperadamente te foste
no mesmo sonho que te trouxe.
E na dor
intrusa que me restou
a Musa se fez Medusa.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O Brasil e o mundo em duas diferentes guerras


CUNHA E SILVA FILHO

              O que, leitor, se tem mais visto na mídia hoje no país em que vivemos a duras penas, apesar da alienação do carnaval, do futebol e das mulheres exuberantes que constituem enorme atração para o turismo internacional? A violência – esse o mais sangrento dos conflitos internos em nosso solo ensanguentada de covardia contra as crianças, os velhos os pobres, os aposentados, os que nunca serão voz enquanto não se alterar o sistema político, jurídico e parlamentar entre nós. São fatores decisivos para a reversão desse quadro de hostilidades um combate sem trégua contra a impunidade nos vários escalões em que ela se infiltra.

                    Os crimes de nossa pátria logo são esquecidos na media em que novos crimes se vão acumulado de tal sorte que, de tão numerosos e de tão por vezes similares, ao final, as autoridades mesmas se confundem, deixam para trás, e vão focar suas atenções num determinado novo crime que toma conta da atenção geral do povo. Desta maneira, os crimes passados são soterrados como as vítimas de desmoronamentos no país. Pouco afetarão a sensibilidade dos governantes que logo logo já aparecem nos camarotes regados a luxo e a bebidas importadas, com fartura de comida e de alegria de foliões nos sambódromos de sibaritas alegres e fagueiros como se costuma dizer.

                 Um país em que as leis dos costumes públicos não são respeitadas pela consciência esclarecida do povo, não pode se tornar uma grande nação e sim um simples projeto de nação irrealizável. Deixemos de ser macunaímicos, deixemos de ser bruzundangas, e vamos construir um país em bases sérias nos mais variados setores da sociedade e das nossas instituições tão derruídas moralmente. O que nos falece como nação é um sentimento entranhado de dose cavalar de utopia, entendendo esta como possibilidade de dinamizar situações sociais e melhorar o bem-estar da população. Não me pejo de ser chamado de ingênuo, idealista, sonhador. Se não fosse o sonho de Luther King, por exemplo, a condição racista norte-americana ainda estaria sob a ameaça dos inimigos dos negros nos EUA.

.              “I have a drream...” é ainda uma grande possibilidade para as mudanças não só no campo das igualdades raciais,nos diversos campos da vida e da civilização contemporânea .Do outro lado do mundo, no Oriente, sobretudo nos países árabes, a selvageria continua solta e impérvia. Sabemos que Gaddafi, Saddam Russein, Mubarak et caterva foram, como outros em tantas regiões do globo, foram inimigos da humanidade e, por isso, receberam o castigo merecido, obviamente se ressaltando que houve excessos e mesmo rupturas legais em relação ao tipo de punição que lhes foi infligida. Entretanto, um inimigo perigoso está à solta, na Síria, país dividido entre os que apoiam o ditador e os que se revoltam contra ele. Entretanto, não me parece tão complicado assim separar o joio do trigo, quando as notícias que nos chegam de lá apontam para a evidência de mortes de civis, de crianças, de velhos e para a destruição do patrimônio material do país. Hitler, o assassino de judeus, o aniquilador de tantos milhões de seres humanos, tinha também seus adeptos, seus simpatizantes, seus acólitos e os têm - para a tristeza do mundo contemporâneo! – até hoje. Vejam como o ser humano é tão difícil de entender nos recônditos de suas almas.

              A morte agora de uma jornalista americano, Marie Colvin, e de um fotógrafo francês, Remi Ochlik, na região de Homs, centro maior da oposição síria, que estavam cumprindo seus dever de ofício, é mais uma prova de desrespeito do ditador Bashar Al Assad sobre o que ele pensa do valor da vida . Seus crimes até agora praticados já são suficientes para que as nações responsáveis e democráticas, através das instâncias legais de que dispõem, a ONU, o seu Conselho de Segurança, e outros organismos que trabalham em defesa da paz mundial não mais se limitem apenas a retiradas de seus diplomatas da Síria nem apenas a expulsões de representantes desse país em suas nações.. Cumpre urgentemente agir com mais rigor, pelo lado econômico, pelo lado diplomático representado pela ONU. É urgente sobretudo porque diariamente estão massacrando os civis e inocentes em território sírio. As mortes são agora desmotivadas, são impelidas mais pelo ato selvagem e covarde em si mesmo, pelo uso indiscriminado da brutalidade pela brutalidade, nível de degenerescência humana sem limites nem freios.Não se chamaria a essas forças opressoras de Exército, instituição que, em países democráticas , são regidas pela Constituição.Este Exército de marionetes não passa de um bando de facínoras, desalmados e vendilhões de imposturas e de covardias monstruosas contra seus irmãos da mesma pátria dilacerada.

           Os EUA estão dando exemplo de certa leniência injusta para com a situação dos sírios. Ora, em período de ganhar votos ele não quer é se intrometer em mais um a intervenção militar que decerto lhe trará negativos dividendos políticos e eleitorais, fora as despesas bélicas de armamentos. Mas, numa situação de emergência como é a que está vivendo a sofrida Síria, que já se está tornando um caso de necessidade de ação humanitária contra populações indefesas sendo destruídas literalmente por um ditador insano, aos EUA cumpriria um papel digno dos seus bons tempos de heroísmo ( tempos que, em seu percurso, também não foram tão heróicos assim, diga-se a bem da verdade) durante a Segunda Guerra Mundial.

          Não estamos exigindo que os americanos cortem a cabeça do ditador, ou que Corte Penal Internacional de Haia o faça assim sumariamente. O que advogamos seria uma forma enérgica de forçar o ditador a deixar imediatamente o poder discricionário e, só depois, ser julgado exemplarmente por aquela Corte. Como criminoso e genocida.Que o mundo civilizado, apesar de todos os percalços da economia do Ocidente aja de imediato em socorro de uma nação que está se esfacelando e sem defesas diante do déspota insensível como os gelos da Sibéria.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

rimance da baleia


Álamo Oliveira
Poeta angolano

estava dona baleia
a regar o seu jardim
com seu repuxo de prata
e sorriso de alfenim
quando o foguete estalou
lá do alto da vigia
anunciando a caça...
(que susto santa maria!)
dona baleia – coitada! –
logo parou de aguar
as algas que floriam
bem à tona do mar.
é então que a tristeza
o medo a aflição
saltam do cais dos olhos
aos ombros do coração.
um grito aberto se ouve
em eco de mar perfeito:
- baleia à vista! baleia!
pão-nosso de qualquer jeito!
e lá vai dona baleia
fugindo pra não morrer.
- deus a salve do arpão!
deus a queira proteger!

ai pobre dona baleia
como te custa viver!

mar manso todo rasgado
baba de espuma à quilha.
dona baleia procura
escapar da armadilha
que é o arpão voador
anjo de ferro esguio.
- foge foge meu amor
até às águas do frio!
só aí te sei segura
a regar o teu jardim
com o teu repuxo de prata
e sorriso de alfenim.
mas a canoa da morte
corre depressa demais.
daqui lhe aceno a vida
feito pedrinhas do cais.
e grito seu nome d'água
(seu matador quem será?).
- procura quantos te amam:
jonas deus iemanjá!
de nada lhe serve o grito.
nada mais posso fazer.
o arpão lá vai direto
no seu peito embater.

ai pobre dona baleia
como te custa viver!

morreu dona baleia
arpada de ódio velho.
todo o silêncio do mar
ficou tinto de vermelho.
gritam as garças ao vento.
os peixes choram também.
envolta em lençol de sangue
dona baleia lá vem
arrastada até o cais.
seu corpo esquartejado
nas caldeiras derretido
dá o pão amargurado.
e alguém há-de gravar
nos seus dentes de marfim
o barco que a perseguiu
o arpão que lhe deu fim.
no céu as aves e as nuvens
correm do sul para o norte.
sobre o mar e sobre a ilha
paira o silêncio da morte.
e há um poeta branco
à minha porta a bater.
não vou abri-la não vou!
já sei o que vem dizer...

ai pobre dona baleia
como te custa viver!

à costa como um poema
a desfazer-se na areia
vieram cinco marés
chorar a dona baleia.
duas choravam espuma
- branca nuvem de verão.
traziam como homenagem
um búzio em cada mão.
as outras duas chegaram
fracas de tanto chorar.
tanto sal nas suas lágrimas!
tanto sal e tanto mar!
a quinta maré não chora.
traz apenas no regaço
um grande ramo de algas
amarrado com um laço.
deixa-o deposto na costa...
de seguida reza e canta.
são cantigas de saudade
versos presos na garganta.
desfeitas são as marés.
eram cinco sois a arder
cinco talhadas da lua
que deus lhe quis oferecer.

agora dona baleia
já não lhe custa viver.

(*) Poema extraído da excelente revista Caderno de Literatura, publicada pela Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul – AJURIS, na qual tive a honra de ter poemas publicados, em número anterior. Publiquei esse belo poema porque ele mostra até onde pode chegar a maldade e a covardia do ser humano.
Elmar Carvalho

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

DIÁRIO INCONTÍNUO

Olavo Filho, Reginaldo Miranda e Elmar




24 de fevereiro

PAISAGEM CULTURAL E PRESERVAÇÃO ARQUITETÔNICA EM CAMPO MAIOR

Elmar Carvalho

Estivemos na Academia Piauiense de Letras o arquiteto Olavo Pereira da Silva Filho e eu para tratarmos de evento cultural com o seu presidente, o historiador Reginaldo Miranda, cujo evento será promovido pela APL, com o apoio da Academia de Letras do Vale do Longá e da Academia Campomaiorense de Artes e Letras, presididas, respectivamente, pelos intelectuais Itamar Abreu Costa e João Alves Filho.

Ficou deliberado que a solenidade cultural acontecerá no dia 24 de março, sábado, às 10 horas, no auditório da APL. Olavo Filho, uma das maiores autoridades sobre o patrimônio arquitetônico do estado, seja na área urbana ou rural, discorrerá sobre a importância artística, histórica e cultural dos casarões e outros prédios de Campo Maior, bem como falará sobre a relevância de esse patrimônio ser declarado como paisagem cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Na oportunidade correrá um requerimento para concessão dessa chancela de paisagem cultural do IPHAN, a ser assinado por todos os presentes que o desejarem, para posterior entrega à autoridade competente. O conferencista é autor do excelente livro “Carnaúba, Pedra e Barro na Capitania de São José do Piauhy”, que lhe custou mais de duas décadas de pesquisas, reflexões e várias viagens aos diferentes sítios das construções, para observações e vistorias.

Todo esse esforço lhe possibilitou a elaboração das belas e profusas fotografias e ilustrações, que permeiam toda a obra, que constitui, dessa forma, um verdadeiro álbum, diria mesmo uma obra de arte. Foi por essas e outras razões – inclusive a inserção de dados e contextualização históricos, além da parte ensaística referente ao urbanismo e arquitetura, nesta incluídos os solares e sobrados das urbes, as casas grandes das fazendas e as casas simples, de taipa e cobertura de palha, dos vaqueiros e agregados – que “Carnaúba, Pedra e Barro na Capitania de São José do Piauhy” arrebatou importante premiação nacional.

O MAR (CONTEMPLAÇÃO)


ALCIONE PESSOA LIMA

Contemplo o mar somente para pensar na vida...
E a vida segue o seu curso...
Ondas quebram sufocando a alma...
E escrevo na areia as minhas angústias...
Ouço o lamento daquelas águas...
Sinto a pulsação de tantas vidas aos meus pés...
O horizonte é apenas a linha de meus sonhos...
Até posso vê-los, embora pareçam tão distantes...
Não desejo acordar desse sono profundo
Em que sinto a felicidade tão de perto.
Pareço uma criança correndo pela areia e catando conchas...
Saltando as ondas como se fossem os obstáculos da vida...
Aqui é o meu ponto de parada.
Uma estada breve para imaginar os caminhos que ainda percorrerei...
 Percebo, ao seguir viagem, molhando os pés,
Que os meus rastros não apagados, como em minha mente...
À frente, tudo parece novo.
Sigo, então, por uma trilha imaginária, sob o sol do entardecer...
E um barco ao longe me diz que navegar e preciso...
Mesmo que o destino nos faça seguir sozinho.
O mar é para mim como se fosse um afago do seu Criador...
 Um gestou de amor sem limites...

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Flagrante futebolístico do Gervásio Castro


Texto e charge: Gervásio Castro

Não é muito confortável sentar o cacete no cara, porque ele parece ser gente boa, é discreto, tem comportamento exemplar e é um profissional dedicado, mas time que tem Deivid não precisa de adversário. Ao sair do campo, depois de perder o gol mais feito do planeta, fez outra "eme" ao declarar: "só acontece com quem está lá!"
Na minha opinião, só acontece com quem não deveria estar lá.

Será o Fim do Mundo?


José Maria Vasconcelos 
josemaria001@hotmail.com

Se depender das produções cinematográficas, do Globo Repórter focalizando famílias recolhidas em refúgios paradisíacos, da apreensão dos ambientalistas, estou frito. Todos os seres vivos estamos fritos.
Ambientalistas e brigadas apocalípticas não podem assistir a um degelo ou fúria da natureza, logo apregoam o fim dos tempos. Apreensão tanta, ao ponto de atribuir peidos de vaca como provocadores do efeito estufa. Os mais apressados anunciam até a data da fatalidade planetária: dezembro de 2012, baseados no calendário maia. Fundam-se seitas religiosas só para aguardar os últimos dias.
Datas fatalísticas vêm de longas datas. Nos primeiros séculos do cristianismo, pensadores, como Tertuliano, anunciavam o fim do mundo antes do ano 1000, bem como Sto. Agostinho, em seu livro "A Cidade de Deus", apontava a segunda vinda de Cristo para final do primeiro milênio. Esses e outros visionários, chamados de quiliastas ou milenaristas, propunham atitudes radicais de abandono da vida material. Pregadores apaixonados, visionários de Maria e messias do sertão comovem multidões, indicando dia e hora do Juízo Final com risíveis premonições.
Como adepto de Cristo, só acredito nas informações apocalípticas que se encontram nos evangelhos. A profecia sobre o final dos tempos refere-se a dois períodos históricos bem distantes e distintos, que se compactam, provocando alguns mistérios e dúvidas: o primeiro estágio estabelece a destruição de Jerusalém, seguida da dispersão do povo judeu; o segundo, a agonia dos povos e do sistema solar, acompanhada de terríveis tragédias.
A primeira parte da profecia cumpriu-se à risca: Jerusalém foi totalmente destruída, ano 72, não ficando “pedra sobre pedra” - conforme predissera Jesus. Flávio Josefo, cronista das legiões romanas, durante o cerco e destruição de Jerusalém, relatou episódios que confirmam detalhes da profecia. O comandante Túlio, mais tarde imperador romano, exigiu que a cidade santa se entregasse, para não ocorrer derramamento de sangue. As forças israelenses não recuaram. Túlio, então, fechou todas as portas dos muros da cidade, não permitindo qualquer saída ou entrada de pessoas, de água e provimentos. Jesus predissera:"Quem estiver no campo não entre na cidade...E os da cidade fujam”(Lucas, 21, vers.20).
Após seis meses de cerco, as legiões romanas invadiram Jerusalém. Os judeus mal dispunham de alimentos para os seus soldados. Corpos apodreciam, gente faminta atacava as mulheres, chupava-lhes os seios em busca de líquido ou devorava-lhes os filhos. A profecia rezava: “Ai das mulheres que estiverem grávidas ou amamentando, pois haverá grande angústia e ira contra o povo”(Lucas, 21). Quando li os relatos de Flávio, reunidos no livro "Destruição de Jerusalém", ainda na adolescência, estremeci, perdi o sono na batalha final.

Israelenses enfrentaram a última batalha dentro do templo, uma das mais belas arquiteturas da época. Pagãos romanos naquele lugar sagrado afrontavam a fé judaica: ”Quando virdes a abominação estabelecida no lugar santo...”( Mateus,24, vers.15). Um soldado romano tocou fogo na lenha destinada ao culto e imolação. Labaredas consumiam toda a estrutura do templo. Ouro derretido caía sobre guerreiros enfurecidos.
Derrotado, o povo judeu perdeu o direito ao solo pátrio, obrigado a indesejada e humilhante diáspora, por séculos, vivendo em comunidades mundo afora, perseguido pelos povos. “Serão levados cativos para todas as nações...” Lucas, 21).
O sionismo, isto é, o retorno dos judeus à pátria, só ocorreu muitos séculos depois, em 1948, tendo que conviver com árabes palestinos e rebeldes, que ocupavam o território durante a diáspora dos judeus.
A segunda parte da profecia de Cristo, sobre o final dos tempos, fica para depois. Permanece o consolo do Mestre aos apressados visionários:" Nem os anjos do céu sabem quando ocorrerá o fim." Portanto, bananas para psicopata com cara de profeta. 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

LANÇAMENTO DE O ENCANTADOR DE SERPENTES E OUTROS VULTOS ILUSTRADOS


Será lançado nesta quinta-feira, dia 23, às 20:30 horas, no Auditório Testa Branca, na sede da Academia Parnaibana Letras, o livro O Encantador de Serpentes e Outros Vultos Ilustrados, da autoria de Pádua Santos, presidente da APAL. A apresentação do autor será feita pelo poeta, escritor e crítico literário Alcenor Candeira Filho, e a do autor pela escritora e acadêmica Amparo Coêlho. Pádua Santos é um mestre da crônica, tanto pelo conteúdo, como pelo seu estilo fluente e escorreito, em cujos textos, exceto alguns mais sérios e nos de caráter elegíaco, destila o seu criativo senso de humor, e já arrebatou importantes prêmios literários, sobretudo na categoria de contos e de crônicas. Após a sessão de autógrafo, será servido coquetel.

o cais do rio


Kenard Kruel

o cais do rio
                  é
                  dos timoneiros
                  das lavadeiras
                  dos bêbados
                  dos poetas
                  e
das putas da paissandu
(o cais do rio
se deixa possuir por todos
em suas entranhas)

no cais do rio
as putas da paissandu
(como o esperma dos homens
que as possuem a qualquer hora)
constroem seus cemitérios particulares.

Fonte: sítio A Musa Esquecida

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O relógio e o último carnaval do adolescente



CUNHA E SILVA FILHO

Fevereiro de 1964 – esta data já virou um marco histórico pessoal. De tanto repetida como divisor de águas entre duas fases da vida ou como referência a qualquer lembrança num confronto entre o passado teresinense e o presente carioca, nunca mais me vou livrar dela – ainda bem , pois sua significação, pelo menos para o colunista, é imensurável cultural e afetivamente.
Desde que comecei a entender um pouco os sinais da vida, respeitando o nível de entendimento da faixa etária e das lições de Jean Piaget (1896-1980), a festa do Rei Momo das minhas primeiras impressões me levam algumas figuras e a alguns aspectos do tempo carnavalesco na ainda acanhada Teresina dos anos cinquenta até os inícios da década de sessenta.
Um daqueles aspectos é o cenário inesquecível e contraditório dos corsos. Nem bem sabia o que queria dizer o termo “corso’ que, de resto, está vinculado a várias acepções que falam de guerra nos mares, de ataques inesperados a navios de inimigos, de beligerância, “de desfile de carros, de carruagem” (Aurélio, 1 ed., p. 391). O verbete ainda se refere a atos de pirataria (não é por acaso que, no carnaval, muitos gostam de se fantasiar de piratas), como fala do sentido do termo relativo a vagabundagem de antigos bárbaros, larápios de objetos de que se apossavam por onde desenhavam seu percurso de perambulação.
Não sei por que, na época, não perguntei a meu pai pelo sentido daquele termo, mas o problema é que, eu, pequeno, anda não me interessava por questões etimológicas, e o pior é que eu meu pai sabia italiano, aprendido no Colégio Salesiano “São Manuel,” em Lavrinhas, estado de São Paulo, onde os seus colegas de quarto eram quase todos da Cidade Eterna. A tradução para o termo italiano “corso”, que quer dizer “curso, corrida, avenida principal, rua principal, desfile” está muito ligada ao que ocorria na folia carnavalesca em Teresina.
Naqueles carnavais de minha terra, em se tratando de cenas de ruas, a grande expectativa do povão era permanecer nos dois lados da “Avenida Frei Serafim, ou de outras ruas para esse fim escolhidas, aguardando, como fazia, em tom solene, nos dias de desfiles de Sete de Setembro. A alegria dos espectadores, debaixo de sol intenso, era ver os carros dos opulentos da época, lotados de gente fantasiada ou simplesmente vestida com elegância a fim de demonstrar poder econômico e alto nível social. Possuir carro naquela época em Teresina não era para muita gente. Ali se viam nos carros elegantes ou menos elegantes, gente bonita da sociedade teresinense, toda sorridente mais parecendo a cortejo da família imperial inglesa diante da multidão monarquista... Pobre ali não comparecia em carros. Eram apenas, em sua grande maioria, os espectadores simples figurantes da folia dos despossuídos vagabundos que encontramos em contos de João Antônio (1937-1996).
Outro cenário contrastante no carnaval teresinense era o desfile em carrocerias engalanadas das mulheres damas da Paissandu. Como a festa do Momo é abertura para a instauração do reino provisório da desordem (DaMatta) permitida pela “ordem oficial,” já que a festa é um momento de, sorrateiramente, os poderes constituídos abrirem as portas dos interditos e das hipocrisias, lá se exibiam, com os exageros das fantasias e da sensualidade jovem ou envelhecida, as grandes damas da festa da carne. Diante dos meus olhos passavam aquelas figuras humanas tão decantadas na ficção de Jorge Amado (1912-2001) Já naqueles anos, percebia os risinhos escarninhos de mal-amadas e de figuras falsamente puritanas que nem se davam ao trabalho de olhar para as mulheres da beira-rio beira-vida. Não sabiam as aristocratas de “brasões enfatuados da sociedade” o quanto de bem faziam para os forasteiros que na Paissandu aportavam sedentos de sexo, ou para os maridos rejeitados na cama conjugal, ou para os rapazinhos que desejavam se livrar das práticas de onanismo, ou para os homens que, com o tempo de vida conjugal, iam perdendo os arroubos e desembaraços da mocidade e só lá nos lupanares se completavam.
Contudo, não há como negar, o ponto alto do carnaval teresinense. Eram os bailes noturnos do Clube dos Diários, lá na Álvaro Mendes, coração da cidade.. Aquela espécie de toque de corneta alusivo sonoramente ao entrudo naquele clube era o prato cheio da juventude, da mocidade e até da velhice daquele tempo.
O Clube dos Diários reunia a nata da high society teresinense. Lugar perfeito para um grande espetáculo carnavalesco, pra os amores à primeira vista, para um clima de ivresse que nos transportava para as paixões momentâneas, os olhares cúpidos, o entrelaçar das mãos, os beijos fortuitos e incandescentes no meio do ambiente perfumado do lança-perfume esguichado nos lencinhos dos adolescentes que, depois, se moderadamente inalados, conduziam os corações enamorados ao paraíso das Ilhas dos Amores.
Época narcisista, na qual os jovens tínhamos sempre diante de nós o espelho que nos atestava a beleza apolínea supostamente auto-proclamada. Com bigodes postiços feitos artesanalmente a carvão muito lembravam a personagem de Zorro com a sua famosa máscara. Éramos belos porque éramos jovens. Era isso que mais importava ao nosso lado narcisista.. Não há efemeridade tão eterna quanto a juventude, cujo instante é seu primado.
Foi no último baile do Clube dos Diários que ostentei um lindo relógio presente de mamãe. Ficara fascinado quando, saindo com mamãe da elegante relojoaria, exibia no pulso direito o meu presente especial. Era, na época, um objeto-fetiche, usado pela classe média e pela burguesia local. Quem não tinha um relógio estava incompletamente vestido. Símbolo de requinte, de status social, de poder econômico, de beleza, de bom gosto, de ostentação. Era bem visto pela namorada, pelos pais da namorada, pelos parentes, pelos amigos. Um relógio naquele tempo era um relógio. E se de marca, tanto melhor, tanto mas admirado.
Pois foi com esse relógio que me aventurei pular carnaval no Clube dos Diário. Era o último dia de carnaval. Junto de uma namoradinha que encontrei entre as belas mocinhas ricamente fantasiadas, com seus corpos esculturais e exibindo mais livremente a beleza dos corpos e a graça da juventude, a pele morena ou clara, ou os cabelos lisos ou ondulados, os olhos castanhos, azuis ou verdes, a estatura em geral média ou baixa, mas nem por isso menos encantadora e sensual, de repente, olhando para o meu pulso, não mais via aquele relógio novinho em folha que ganhara de mamãe. Perdi o rebolado. A festa para mim quase se acabou. Chorei para mim e para minha
namoradinha. Meu carnaval praticamente se evaporara naquele noite alegre-triste. Nem as marchinhas de carnaval, nem o “Corta o cabelo dele”, nem as velhas músicas de carnaval, nem o cheiro de lança-perfume no salão belamente decorado conseguiram amenizar a dor da perda objeto querido.
Alguém, bem sei, ficou com ele. Não havia mais meio de recuperá-lo. No outro dia, relatei, envergonhado e arrasado, o fato para mamãe. Nem avaliem o semblante que tomou conta dela. Ainda hoje sofro pelo prejuízo que dera à minha mãe, afora o desgosto. Alguns dias depois, partia para o Rio de Janeiro.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Contozinho de Natal


M. DE MOURA FILHO

A menina, sentada em seu regaço, foi ao solo. O corpo, depois de arremessado para trás, imóvel. Um vermelho mais intenso do que o de sua roupa escorria, ainda aos borbotões, de seu peito. A barba e os cabelos brancos e longos desprenderam-se do bom velhinho, e a menina, ainda no piso, descobriu que Papai Noel não existia.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

ANTOLOGIA DO NETTO

Texto e charge: JOÃO DE DEUS NETTO


R. N. MONTEIRO DE SANTANA

Raimundo Nonato Monteiro de Santana nasceu em Campo Maior, em 27 de fevereiro de 1926. Professor, bacharel em Direito e escritor. Publicou: “Aspectos de uma Ideologia para o Desenvolvimento”; “Perspectiva Histórica do Piauí”; “Evolução Histórica da Economia do Piauí”; “Apontamentos para a História Cultural do Piauí” Formado em Ciências Jurídicas e Sociais, Raimundo Santana já foi professor da Universidade de Brasília - UNB e deu relevante contribuição para a formação da Universidade Federal do Piauí. É no seu retorno ao Piauí, em 1990, "que ele desenvolve suas idéias mais ambiciosas", que migram da globalização aos temas ligados à cultura e ao patrimônio imaterial de nossas sociedades.

POLÍTICA - A vitória do jovem Raimundo Santa

Numa época em que os prefeitos costumavam ser senhores “coronéis”, eleitos ou nomeados; com algum avantajado na idade, a UDN escolhe o “menino” Santana, 25 anos, civil, para encarar uma acirrada batalha política contra o Sr. João Crisóstomo de Oliveira, candidato dos pesos pesados do getulismo do PSD: Médico e 1º Tenente Sigefredo Pacheco, Coronel Miranda e Coronel Waldeck Bona. A tropa do jovem Santana levou vantagem do início ao fim por causa da moral altíssima, indispensável em qualquer tipo de embate. Minha mãe Alaíde, entusiasta da campanha, fala que o entusiasmo dos jovens levava, literalmente, o futuro prefeito na “cacunda” (nos ombros). Aos gritos de “Santana! Santana!”, a passeata saia da residência dos seus pais, próxima ao colégio Valdivino Tito, até a Praça Bona Primo. Na volta, uma parada na Praça do Relógio (atual prefeitura) para um vibrante comício. E como numa guerra há sempre baixas, infelizmente, essa se deu do lado da UDN. Um cabo eleitoral do partido da União Democrática Nacional, de nome, França Catura, foi assassinado num beco próximo à Praça Rui Barbosa, no auge de mais um nervoso acontecimento político em Campo Maior. Bodes expiatórios foram procurados e não encontrados. De nada mais adiantava. Estava eleito, Raimundo Nonato Monteiro de Santana, em 1951, o Mais Jovem Prefeito do Piauí.
SAIBA MAIS: http://bitorocara.blogspot.com/2008/10/vitria-da-juventude.html

sábado, 18 de fevereiro de 2012

lições de prepotência


lições de prepotência

pelos quintais da rua são Raimundo
lá de tuntum
entre sombras exalando imaginações
meninos e meninas aviventam um aprendizado
garimpar nos esgotos dos lavapratos
ossos lambidos
fazendo-os bois das suas vindouras fazendas

nos quintais da rua
são Raimundo lá de tuntum
meninas e meninos aviventam um aprendizado
— passos de uma pressuposta prepotência.

Emerson Araújo in Companheiros de Estrada com Toinho

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Não conhecemos o Brasil literário


CUNHA E SILVA FILHO

Num longo e amadurecido artigo no Prosa & Verso do jornal O Globo (11/02/2012) sobre a realidade da crítica literária brasileira contemporânea, de título “Desdramatizando a crise da crítica”, o professor da UERJ, João Cezar de Castro Rocha, entre outras ponderações acerca da importante questão entre críticos e autores, crise da critica e crise da literatura, nos chama a atenção para a necessidade de mudanças de estratégias e de procedimentos no terreno da critica literária a fim de darmos conta da diversidade e da quantidade também da produção literária contemporânea. Já no seu tempo, o crítico Álvaro Lins (1912-1970) até via com bons olhos quando se falava em crise da literatura, visto que para ele a crise é um sintoma de algo que está vivo.
Segundo Castro Rocha, muito mais do que a produção do passado, está a exigir toda a atenção dos críticos, sobretudo porque esses numerosos autores, entre ótimos, bons , médios e ruins, precisam de ser analisados com um aparato teórico-crítico que esteja sintonizado com a nova realidade das novas mídias eletrônicas advindas dos avanços da internet e do surgimento de obras de leitura eletrônica, os chamados e-books, da influência de blogs literários, da pesquisa eletronicamente globalizada e dos novos recursos tecnológicos da mídia jornalística, dos confusos e indeterminados tempos pós-modernos, ou para outros estudiosos de literatura, produção ficcional e poética “pós-pós- moderna,” rótulo resultante de um trabalho de pesquisa do Departamento de Letras da UFRJ...
Sabemos que as histórias literária de que dispomos se encontram limitadas a fases já conhecidas da produção literária brasileira. Seus autores, seja individualmente , seja em trabalhos coletivos, ainda assim não abarcam de forma mais imediata o que se vem produzindo nos grandes centros culturais do pais e no interior do país, onde a produção intelectual se mostra pujante, com autores de talento e dignos de também serem conhecidos por outros leitores do Brasil.
Dadas as nossas dimensões continentais, o Brasil literário, considerando-se a produção cultural dos estados separadamente, é um desconhecido e – o que é de se lamentar -, ainda cheio de preconceitos entre os autores de outras estados da Federação. Há opiniões tão grosseiras e carentes de conhecimento e de atualização com respeito a outras regiões do país que nos deixam perplexos vindo elas de parte do próprio meio acadêmico universitário.Revelar noções preconcebidas sobre escritores de outras regiões brasileiras me parece revelar da parte de quem enuncia um contrassenso desses um tremendo desserviço à cultura brasileira. É postura inadequada, ignorante e provinciana de quem as enuncia.Até os desconhecidos, ainda que sem talento, merecem o nosso respeito étco-profissional.
O professor da UFRJ, crítico e historiador Afrânio Coutinho (1911-2000) quando projetou organizar a sua monumental obra coletiva A literatura no Brasil (São Paulo: Global, 2003. 7 v.) , mostrara, no seu tempo, largueza de visão do que fosse uma história literária mais abrangente de um país. Hoje, mais do que nunca, vivemos esse impasse, o de termos que escrever, utilizado-se de recurso eletrônicos de ponta, ou, nas palavras de Castro Rocha, “... as possibilidades criadas pela tecnologia digital”, uma história da literatura brasileira contemporânea o mais completa possível, recorrendo à mesma ideia de visão progressista de Afrânio Coutinho, ele próprio um inovador dos estudos literários entre nós nos meios universitários. Seria, no caso, uma história literária que, por ser realizada eletronicamente, poderia ser, periodicamente, atualizada como já aconteceu com a Enciclopédia Britânica, que enviava, não sei se ainda o faz, de tempo em tempo, conforme as necessidades e os progressos e inovações do conhecimento, matéria atualizadora daquela notável obra para seus usuários.
Naturalmente, no caso de nossa história literária contemporânea, seria um trabalho de altíssima envergadura intelectual, com um corpo de organizadores reunindo gente de reconhecido saber na área e com colaboradores escolhido com o principal critério: conhecimento do assunto e competência teórica e prática.
Um obra dessa magnitude seria um ponto de partida para mobilizarmos competentes scholars da literatura brasileira nos diversos estados e selecionados sem qualquer coloração ideológica ou de natureza culturalmente tendenciosa, sem ranços, pois, de patrulhamentos, muito ainda comum em vários estados brasileiros, sobretudo oriundos dos meios universitários.
No campo da crítica literária, da teoria, e da produção não pode haver mais estrelismos, comportamentos antidemocráticos de sobreposição de postura acadêmica sobre críticos teóricos e autores dos diversos gêneros da literatura e de outras formas de criação artística, tanto dos grandes centros quanto das capitais e do interior do país..
Uma passagem do mencionado professor da UERJ sintetiza bem a condição da crítica e da produção literária brasileira, além de abrir um caminho de mudanças objetivas e desejáveis para o clima de “obituário” e de “coveiros” que, de tempos em tempos, discutem a atividade crítica no país e , muitas vezes, de forma não-construtiva e desalentadora: “A reinvenção da crítica exige uma nova perspectiva, capaz de descobrir a potência da circunstância que nos cabe transformar, em lugar de insistir numa melancolia feita sob medida para o papel anacrônico do intelectual palmatória do mundo.No reduzido parágrafo seguinte, conclui Castro Rocha: “É hora de abandonar essa máscara”.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

DIÁRIO INCONTÍNUO


16 de fevereiro

CARNAVAL NA COLÔNIA DO CARPINA

Elmar Carvalho

Nestes dias que antecedem o carnaval, mormente por causa do desfile dos corsos, ou carros alegóricos momescos, que fizeram Teresina entrar para o Guinness Book, como a terra em que se realiza a maior folia dessa modalidade carnavalesca, lembrei-me da pessoa que se chamou Edmílson Neves de Moraes. Não foi ele um herói, nem político, nem artista. Quiçá poderia ter sido um herói e artista, a seu modo; herói do cotidiano, da luta pela vida, pelo sustento da família, e artista do bem e do bom-viver, sem arestas, sem egoísmo e sem ganância. Foi um boêmio, no bom sentido da palavra. Nunca fez mal a ninguém, exceto, talvez, a si mesmo. Não o conheci pessoalmente, mas apenas pelo que me contaram Fátima, minha mulher, e o Diá (Francisco Rodrigues), meu cunhado.

Era um tipo divertido, sempre bem-humorado. Gostava de “aprontar” uma presepada com os amigos, apenas por pura diversão. Quando tinha dinheiro, não media distância para patrocinar uma boa farra. Pagava sempre a maior parte da despesa ou mesmo tudo. Serviu na sede da Capitania dos Portos do Piauí, em Parnaíba, quando trabalhou com o Diá. Quando sóbrio, era calado, um tanto monossilábico, o que talvez fosse indicativo de certa e disfarçada timidez. Entretanto, quando tocado pelos vapores etílicos, falava pelos cotovelos, transmudando-se em verdadeiro papagaio. Nessas ocasiões, desfiava vasto repertório de piadas, tanto as que decorava, como as que inventava, ou ainda as do anedotário de que ele era protagonista.

Após morar em Parnaíba durante muitos anos, mudou-se para Natal, onde se aposentou no posto de sub-tenente da Marinha, e onde veio a falecer. Era casado com dona Darci, natural do Pará. Ao longo de sua vida, soube construir boas amizades, que lhe tinham estima e consideração. Na sua faceta boêmia, gostava de dançar, e era considerado um mestre da dança, um verdadeiro e legítimo dançarino, creio que polivalente, tanto pé-de-valsa, como pé-de-forró e de qualquer dança. À falta de outra música, talvez patrioticamente até dançasse ao som de um hino ou de uma marcha marcial.

Consta, em sua hagiologia, que São Francisco de Assis teria beijado um leproso. Talvez esse fato seja símbolo de humildade ou de fraternidade ou de ambos os sentimentos ao mesmo tempo. O sargento Edmílson, quando tocado pelo álcool, tornava-se arrebatado em sua humanidade. As forças líricas e profundas da vida e da dimensão humana se apossavam dele, com tamanha intensidade, que lhe levavam a ir dançar, tanto no carnaval como em alguns finais de semana, no leprosário da Colônia do Carpina, na época um local ermo, estigmatizado, considerado distante do centro de Parnaíba. Aflorava-lhe na dança a fraternidade, a humildade, e mais do isso o seu desejo de comunhão humana, de se misturar com os excluídos, os desvalidos, os estigmatizados e miseráveis.

Quando retornava para casa, a sua mulher, dona Darci, após ele lhe contar a proeza, tida então como altamente temerária, se não mesmo uma arrematada loucura, mandava que ele tomasse um banho de álcool. Na época em que as músicas de carnaval eram realmente músicas, em que, além das harmoniosas melodias, as letras eram verdadeiros poemas, bem elaborados, de denso conteúdo, em que não raras vezes transparecia um matiz elegíaco, como bem observou o excelso poeta Manuel Bandeira, no poema Na boca: “Sempre tristíssimas estas cantigas de carnaval”. Provavelmente repontasse na alma sensível do sargento Edmílson uns laivos de melancolia, ao ouvir essas belas e por vezes tristes marchinhas dos carnavais de outrora. Uns tomavam o éter dos lança-perfumes, o sargento Edmílson tomava etílica alegria...

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

ANO MARQUÊS DE PARANAGUÁ

Diplomata Marcus Henrique Paranaguá

 Jesualdo Cavalcanti Barros*

Com a bela palestra do jovem diplomata correntino Marcus Henrique Paranaguá, até há pouco servindo no consulado brasileiro de Nova Iorque (EUA), a Academia Piauiense de Letras deu início ao Ano Marquês de Paranaguá em concorrida solenidade no Auditório Acadêmico Wilson Brandão, na manhã do dia 11 de fevereiro de 2012.  O evento visa a celebrar o centenário de falecimento de João Lustosa da Cunha Paranaguá, segundo visconde e marquês de Paranaguá, ocorrido no Rio de Janeiro, em 9 de fevereiro de 1912. Paranaguá é patrono da cadeira nº 18, atualmente ocupada pelo acadêmico Herculano Moraes.
Pretende o sodalício, durante 2012, por meio de palestras, encontros, debates e publicações, sensibilizar a sociedade piauiense e suas instituições culturais e educacionais, para um amplo estudo da vida e da obra do preeminente coestaduano, por certo o maior de todos, embora pouquíssimo conhecido nestas plagas de tanto desleixo com sua cultura, valores e memória histórica.
Paranaguá nasceu na fazenda Brejo do Mocambo, nos remotos sertões de Parnaguá, “aquela espécie de nação gurgueia” de que fala Fonseca Neto, em 21 de agosto de 1821. Sobre esse sítio diria o ouvidor Antônio José de Morais Durão, em sua Descrição da Capitania de São José do Piauí, de 1772: “com 42 moradores, que fazem um povo mais numeroso que a própria vila, da qual dista 12 léguas ao mesmo rumo, mas nem nome tem de aldeia, nem juiz ou justiça, ao passo que se aumenta em cultura e negócio.” Na inspeção que realizou na vila de Parnaguá, instalada pessoalmente pelo governador João Pereira Caldas havia dez anos, despertou a atenção do ouvidor a saúde de seus moradores, graças aos bons ares, tanto que encontrara, nos 29 fogos em que se distribuía sua diminuta população, nada menos de três homens em avançada idade: um com 110 anos, outro com 112 e o terceiro com 120.
Com a opulência gerada pela criação de gado, de que resultaria a chamada civilização do couro, não admira que da velha fazenda  tenha surgido nada menos de 40% da nobiliarquia piauiense (o marquês com dois títulos e mais os irmãos – barões de Paraim e de Santa Filomena), no total de dez títulos para oito agraciados.
Paranaguá bacharelou-se na antiga Faculdade de Direito de Olinda, em Pernambuco (1846). Formar-se em Direito era o sonho dourado de jovens futurosos, justamente aqueles predestinados ao exercício de um “verdadeiro mandarinato” na sociedade brasileira dos séculos XIX e XX. Conforme exaustivas pesquisas que publiquei em Sertões de bacharéis, livro lançado no ano passado, muitos conseguiram realizá-lo. Destarte, oriundos da mesma academia, brilhariam dentro e fora da província, dentre outros, os piauienses Francisco de Sousa Martins (iniciara o curso em Coimbra), Casimiro José de Morais Sarmento, Marcos Antônio de Macedo, Antônio Borges Leal Castelo Branco, José Manuel de Freitas, Antônio de Sousa Mendes Júnior, Eliseu de Sousa Martins, Polidoro César Burlamaqui, Antônio de Sousa Martins e Antônio Coelho Rodrigues. Igualmente, à mesma época, buscariam a Faculdade de Direito de São Paulo: Francisco José Furtado (que iniciara o curso em Olinda, mas, perseguido por suas posições políticas, migrara para lá), José Basson de Miranda Osório, Lourenço Valente de Figueiredo e outros. Como se sabe, fundadas em 1828, com vistas a formar novos quadros dirigentes do País que emergia da Independência, em substituição aos velhos bacharéis coimbrãos, as duas academias atraíam os filhos da aristocracia rural enriquecida pelo trabalho escravo. Paranaguá não poderia fugir à regra.
Por outro lado, naturais de outras províncias mas egressos das mesmas academias,  aqui aportariam, para emprestar o concurso de seu talento à administração do Piauí, antes de alçarem altos voos no cenário nacional, outros brilhantes bacharéis. Citam-se, por exemplo, José Antônio Saraiva, João José de Oliveira Junqueira, Zacarias de Góis e Vasconcelos e Franklin Américo de Meneses Dória.     
                                                             ***
Deputado geral em cinco legislaturas (1850/1864) e depois senador vitalício do Império por cerca de 24 anos (1865/1889), sempre pelo Piauí, Paranaguá ocupou quase todos os ministérios no Segundo Reinado (da Justiça – duas vezes, da Guerra, dos Estrangeiros – duas vezes, da Marinha e da Fazenda). Não se sabe porquê, só não ocuparia dois: o do Império e o da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Além do mais, foi conselheiro do Império e desembargador da Relação do Rio de Janeiro.  Presidiu as províncias do Maranhão, de Pernambuco e da Bahia. Presidente do Conselho de Ministros (1882/1883), tornou-se o segundo piauiense a governar o Brasil. O primeiro fora  o oeirense Francisco José Furtado (1864/1865), embora militante da política do Maranhão.
Devotado ao estudo da realidade do País, presidiu a Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro de 1883 a 1912. No biênio 1906/1907, também o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, tendo passado a presidência ao barão do Rio Branco, no ano seguinte.
Convém destacar, por um dever de estrita justiça, que na carreira fulgurante que o levou dos confins gurgueianos ao brilho dos salões mais sofisticados da Corte, inclusive por privar, como poucos, da intimidade de dom Pedro II, Paranaguá não se descurou da problemática piauiense. Ao contrário. Desde o primeiro momento de sua atuação parlamentar até o último suspiro, sustentou bandeiras ainda hoje recorrentes em nossa agenda de desenvolvimento, tais como a navegação do rio Parnaíba, a interligação das bacias do Parnaíba, São Francisco e Tocantins, a construção de um porto marítimo e a ligação deste com os demais portos do litoral brasileiro. Para ele, promovida a navegação, “o progresso e as ideias do tempo se introduziriam na província [...].” Assim, no firme propósito de dotar o Piauí do tão sonhado porto, não hesitou em patrocinar a permuta, pelo decreto imperial nº 3.012, de 1880, dos áridos sertões piauienses de Crateús pelas areias brancas da antiga freguesia cearense de Amarração, hoje Luís Correia, onde há mais de cem anos a lerda burocracia estatal teima em construí-lo. Paranaguá, arrostando descrenças e incompreensões, fez a parte que lhe competia, à época. E, se algum dia o Piauí concluí-lo, como se espera, que se louve a ação destemida desse gurgueiano de escol.
Por todos os títulos, Paranaguá deve ser motivo de orgulho dos piauienses.  Sobretudo, na atual quadra de baixa representatividade política, marcada por frequentes frustrações e desenganos. Com efeito, é fácil perceber que, depois dele e de Félix Pacheco, Petrônio Portella, Reis Veloso, Hugo Napoleão, Valdir Arcoverde, Freitas Neto e João Henrique, praticamente fomos escorraçados do centro das decisões nacionais. Pois bem, se não surgem novos valores, que ao menos se recorra aos velhos! Daí o acerto de nossa Academia em resgatar a memória do velho marquês. No mínimo, concorre para alimentar nossa autoestima, tão carente de estímulos na atualidade.  

 
*Membro da Academia Piauiense de Letras e presidente do Centro de Estudos e Debates do Gurgueia