quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A CASA ONDE NASCEU EVANDRO LINS E SILVA (*)





Lauro Andrade Correia


A casa foi prejudicada por chuvas e enchente do Rio Igaraçu, braço direito do Rio Parnaíba, antes de sua foz, tendo sofrido reparos.
Fica localizada na Ilha Grande de Santa Isabel, à Avenida Dr. João Tavares Silva, nº 2.986.
Nela residiu posteriormente o Dr. Alfredo Amstein, nascido na Suíça, e Professor de Desenho Geométrico e de Noções de Geometria Descritiva, no então Ginásio Parnaibano, nas décadas de 1930 e 1940.
A casa foi também habitada durante vários anos pela família do Sr. Edson Laredo Véras, já falecido, e, em continuidade, por seu filho Sr. Ruiland Rodrigues Véras, atual morador.
Ministro Evandro Lins e Silva nasceu em Parnaíba, em 18/Janeiro/1912 e faleceu no Rio de Janeiro, em 17/dezembro/2002.

(*) A casa onde nasceu o ministro do Supremo Tribunal Federal, Evandro Lins e Silva, foi visitada pelo Dr. Lauro Correia e Canindé Correia. A filha deste, Ivana, é a autora das fotografias.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

UM NOVO BARÃO DE MÜNCHHAUSEN




28 de novembro

UM NOVO BARÃO DE MÜNCHHAUSEN

Elmar Carvalho

No sábado, dia 17, eu, a Fátima, o Canindé Correia e o Vicente de Paula (Potência) fomos a Barra Grande, em demanda da Maison Fontenele, que passou por uma ampla e radical reforma, que lhe aumentou bastante o tamanho, e lhe deu uma beleza aparentemente rústica, mas na verdade com todo o conforto da modernidade. Lá, entre outros, já estavam o Jonas Filho Fontenele de Carvalho e sua mulher Dulce, irmã do De Paula, Marília, filha dos anfitriões, e Zezé Araújo, irmão da dona da Maison, além de outras pessoas, vindas de Brasília, que não conhecia.

A área da “Diretoria” passou por uma reforma, e agora se destina mais aos serviços gastronômicos, de modo que preferimos ficar debaixo das árvores do quintal, onde tínhamos a maciez da areia, sombra e o frescor do microclima. Como eu lamentasse a falta do cantinho dos “diretores”, o Jonas nos informou que já estava sendo providenciado um outro espaço, no local que nos indicou. Acrescentou que pretende ilustrá-lo com uma grande charge dos membros natos e fundadores da “Diretoria”.

O Zezé, logo ao chegarmos, contou-nos que o Porfírio Fontenele de Carvalho, ao saber que eu viria visitar o seu irmão Jonas, anunciou que pretende ainda me contar o segundo tempo de um jogo mítico de futebol, que presenciou em sua infância. A parte que ele já narrou era cheia de detalhes folclóricos e inusitados. Recordo que ele encerrou seu relato lendário com o relato de um forte chute para o firmamento, em que a bola foi tão para o alto e tão para longe que deixou de ser vista ao se aproximar das nuvens.

Diante disso, eu pensava que o jogo havia terminado, com a bola tomando o caminho do infinito, onde poderia ser atraída pela gravidade de algum astro colossal, ou mesmo sendo sugada por algum buraco negro. Fica uma grande interrogação sobre quando e onde a bola caiu, e sobre como teria terminado essa disputa tão cheia de peripécias exóticas e estapafúrdias.

Acaso, sem nenhuma malícia de minha parte pergunto: seria o Porfírio o nosso Barão de Münchhausen da atualidade ou o próprio Trancoso redivivo, a contar novas estórias/histórias? Foi um dia agradabilíssimo, mas que não pudemos encompridar, porque o Jonas e sua família iriam participar de uma festa de casamento da filha de um amigo, o ilustre advogado Antônio Cajubá de Britto Neto, membro de uma notável estirpe de causídicos parnaibanos.

No dia seguinte, em Parnaíba, antes de retornar a Teresina, fui tomar um caldo reforçado na lanchonete do senhor José dos Santos, situada na frente do Mercado de Fátima. Esse estabelecimento é frequentado por valorosa plêiade de boêmios, conversadores e contadores de “causos”; muitos dos quais eram fregueses do saudoso Dom Augusto da Munguba, proprietário do bar Recanto da Saudade, também de saudosa memória, posto que veio abaixo, um pouco depois da morte de seu dono. O Augusto não teve sucessor, infelizmente, e o bar parecia moldado para a sua personalidade ímpar de bonachão, mas bonachão que sabia impor ordem e respeito nas libações etílicas de seus fregueses.

Na lanchonete, depois de prévia consulta sobre seu interesse, entreguei ao Marcos, filho do proprietário, um banner, com uma bela charge do Augusto e do Dourado, que já partiram para outra dimensão do espaço-tempo. A arte, executada pelo grande artista plástico Gervásio Castro, irmão do não menos notável Fernando di Castro, ilustrava um poema de minha autoria, feito em homenagem ao Augusto e ao seu legendário e inimitável boteco.

O banner fora posto numa moldura digna, em sinal de meu respeito pelo chargista e pelos dois homenageados. Já na segunda-feira, por telefone, o Canindé Correia me informava que o Marcos dos Santos estava entusiasmado com o quadro, que disse ter valor histórico e artístico, e que iria afixá-lo em lugar de destaque. Com efeito, creio que ele tem razão, afinal o Dourado e o Augusto são duas figuras populares, que ficarão na memória de quantos o conheceram, e a ilustração do Gervásio tem um valor artístico inestimável.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Lançamento do livro Bernardo de Carvalho - o Fundador de Bitorocara

Capa da autoria de Gervásio Castro


Será lançado no próximo dia 30, sexta-feira, o livro Bernardo de Carvalho – O Fundador de Bitorocara, da autoria de Elmar Carvalho. A solenidade acontecerá no Salão Paroquial, localizado atrás da Câmara Municipal de Campo Maior, às 19 horas. Será apresentado pelo escritor e pesquisador João Alves Filho, presidente da Academia Campomaiorense de Artes e Letras – ACALE. A obra foi prefaciada pelo escritor e historiador Reginaldo Miranda, presidente da Academia Piauiense de Letras. Além do perfil biográfico de Bernardo de Carvalho e Aguiar, considerado o fundador de Campo Maior, São Miguel do Tapuio e São Bernardo – MA, e ainda tido pelo padre Cláudio Melo como o idealizador de Caxias, o opúsculo contém os poemas Cromos de Campo, Elegia a Campo Maior, El Pacificador e Fazenda Tombador. Esta segunda parte é apresentada pelos textos de Olavo Pereira da Silva f. e padre Cláudio. A terceira parte denomina-se Oração a Campo Maior, que é na verdade o discurso de posse de Elmar Carvalho na Academia de Letras do Vale do Longá – ALVAL, em que são abordados vários assuntos de interesse histórico, arquitetônico e paisagístico, referentes ao município. A crônica “Quem te Ensinou a Voar”, da autoria de José Francisco Marques, mostra a faceta futebolística do autor. A capa é um esmerado trabalho do artista plástico Gervásio Castro, um dos maiores chargistas do Brasil. O texto principal foi baseado em 11 obras, de diferentes autores, mas sobretudo foi fundamentado no livro Bernardo de Carvalho, do padre Cláudio Melo, que traz 62 notas, indicativas dos documentos em que ele se apoiou em suas afirmativas e transcrições, já que esse historiador e sacerdote era rigoroso na busca da verdade histórica.

Data: 30/11/2012
Horário: 19 horas
Local: Salão Paroquial (perto da Catedral de Santo Antônio)

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Somos servos inúteis



José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com


Final de tarde, igreja de Fátima, liturgia eucarística. Devoto-me a missa em meio de semana, pela simplicidade do culto e do envolvimento do celebrante com os fiéis. Há sacerdotes que conhecem o rebanho, descem do altar, interagem com os fiéis. Não é sermão, homilia dos clássicos doutores. É pregação familiar enxertada com exemplos do cotidiano. Naquela terça, dezenas de pessoas, especialmente do judiciário e repartições públicas, chefes e gente importante. O evangelho batia forte na presunção de quem se arvora por prestar serviço público, se acha insubstituível, poderoso. O direito ao culto pessoal, que outros se dobrem e o reconheçam como tal.
Os apóstolos pediam ao Senhor que lhes aumentasse a fé. Jesus contou-lhes a parábola do servidor. "Qual de vós, tendo um servo ocupado na lavoura ou guardando gado, lhe dirá, quando ele vier do campo: "Senta-te à minha mesa e come"? Ao contrário, tu ordenas: "Prepara-me a ceia, cinge-te, e serve-me enquanto eu como e bebo; depois comerás tu e beberás." E, quando o servo tenha feito tudo o que lhe fora ordenado, porventura lhe fica o senhor sujeito a servi-lo? Creio que não. Pois assim também vós, depois de terdes feito tudo o que vos foi mandado, dizei: Somos uns servos inúteis; fizemos apenas o que devíamos fazer". (Lucas, 17:5-10).
A tarefa de servir é mais importante do que a pose de comandar e exigir privilégios. Pegue este recado e o anexe no quadro de avisos do serviço público, na sala dos gestores, nas câmaras setoriais, na testa dos que se arvoram donos do terreiro, do dinheiro e do poder. Gente por aí, porque galgou um cargo, vira leão de majestosa juba, rei dos animais. E da cocada.
Nos últimos dias, têm-se esbanjado elogios e flores ao ministro do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, pela lisura, coragem e dignidade em condenar um bando de malandros engravatados, usurpadores de milhões de reais dos contribuintes, em farras eleitoreiras e partidárias. Pela internet, admiradores já o lançaram candidato a presidente da república, tão carente anda a nação de estadistas de vergonha. O ministro, reservado e sério, não se encanta com o delírio da torcida. Apenas se acha zeloso do ofício a que lhe outorgaram. Correto: ele é pago, portanto sua obrigação é o dever. Obrigação de servo, o dever de consciência. Se aos homens sérios exige-se a humildade de servir, imagine aos malandros engravatados e corruptos. Têm de ser banidos e punidos.
"Quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis: fizemos somente o que devíamos fazer." Não que sejamos paus mandados, servos e escravos, mas escolhidos para servir. Vai mal o servir nos hospitais, nos guichês de atendimento, nas filas de espera, nas esfarrapadas desculpas e preguiça, cara de cimento armado. Principalmente com os mais humildes.
Servos inúteis, quando sobrepomos a humildade cristã à prepotência do "sabe com quem está falando?". Quando pegamos a toalha e lavamos os pés do próximo - eis a metáfora do servir. Extraímos parte de nós em prol do próximo. Servos inúteis, pois todo poderoso é o Senhor da vida. Somente a Ele o direito à majestade. Mesmo assim, desdobra-se de amor por nós. Mesmo na prosperidade e no pode, a humildade nos incita repetir, como Maria: "Eis a escrava do Senhor!"
A pose faraônica passa. As pirâmides da soberba, um dia se calarão para sempre, dormitam no deserto do esquecimento. Nem missa levantará esses mortos. Mesmo com a mais bonita pregação.

sábado, 24 de novembro de 2012

PALESTRA SOBRE OS 300 ANOS DA IGREJA DE SANTO ANTÔNIO(1712/2012) E FREGUESIA DE SANTO ANTÔNIO DO SURUBIM (1715/2015)




PALESTRA SOBRE OS 300 ANOS DA IGREJA DE SANTO ANTÔNIO(1712/2012) E FREGUESIA DE SANTO ANTÔNIO DO SURUBIM (1715/2015)

Celebração Eucarística: 12.11.2012 – às 19h00
Celebrantes: Dom Eduardo Zielski – Bispo Diocesano
e Mons Paulo Mateus – Diretor da Paróquia de Santo Antônio e da Igreja Catedral

Autor: JOÃO ALVES FILHO (Presidente da Academia Campomaiorense de Artes e Letras - ACALE)

O primeiro empreendedor do VALE DO RIO LONGÁ, o português BERNARDO DE CARVALHO E AGUIAR, que adentrando a Província do Piauí, no ano de 1692, atraído por uma região de brejos, largos campos e carnaubeiras, encantou-se com os recursos naturais e com a beleza do lugar. Ali, tomou a decisão de fixar o seu primeiro curral, em solo piauiense. Era a antiga aldeia dos índios Tacarijus, abandonada e sem qualquer indício de brancos na região, que possam ter por ali habitado. Ao local deu o nome de “Cabeça do Tapuio”, hoje, município de São Miguel do Tapuio. Bernardo de Carvalho situou gados e construiu casas para seus seguidores e “Casas Fortes”, onde armazenava munições e armas para sua defesa e dos seus trabalhadores.
Com o propósito de conquistar novas terras, no ano de 1695, situa na “Confluência” dos Rios Longá e Surubim, a Fazenda “Bitorocara”, nome que presta homenagem a uma cidade de Portugal.
Acompanhado por muitos homens trabalhadores e escravos, e, para os quais, em torno do curral, construiu casas residenciais e Casa Forte para depósito de munições, pois, o vale era habitado pelos índios “alongares”, que imaginava serem de difícil relacionamento com homens brancos.
Bernardo de Carvalho e Aguiar, depois de um ano residindo na Fazenda Bitorocara, recebeu a visita do Padre Miguel de Carvalho, que instalara a Freguesia da Mocha, hoje, a histórica Oeiras, que veio a Bitorocara, com o propósito de ampliar suas atividades religiosas. Bernardo, muito dedicado à Igreja Católica, sentiu-se feliz com a visita do ilustre sacerdote e de modo especial, por serem descendentes da mesma família e do mesmo país.
No ano de 1696, Bernardo convidou os MISSIONÁRIOS DA IBIAPABA, para promoverem uma obrigação religiosa, na sua fazenda Bitorocara, no que foi prontamente atendido.

Oriunda da Vila “Pouca Aguiar”, Portugal, atraída pela liderança de Bernardo de Carvalho, veio para a Província do Piauí, a família CARVALHO, detentora de um avantajado poder econômico. Seguiram as orientações do líder e, em torno da Fazenda Bitorocara, aplicaram suas economias, em fazendas de gado. Tornaram-se grandes empresários agropastoris da região com pastagem de boa qualidade e água em abundância no rio Longá e seus afluentes.
Logo no início do século XVIII, (ano 1708), os líderes da CASA DA TORRE (Garcia d´Avila), optaram também por investir na Província do Piauí e instalaram suas primeiras fazendas na região do Vale do Longá, tendo como fazenda referência Bitorocara. A Casa da Torre instalou as fazendas “Abelheiras”, “Foge Homem” e “Marreca”. Cada fazenda com muito gado e variados outros animais.
Ano de 1696, designado por Dom Pedro II, chega ao Brasil, o fidalgo Dom Francisco da Cunha Castelo Branco, com a missão de expulsar holandeses e franceses das Províncias de Pernambuco e Maranhão. Dom Francisco, homem de confiança do Rei, além das funções militares como oficial de primeira linha de “Infantaria” exercera também o cargo de “tesoureiro real”. Homem íntegro e inteligente gozava de grande prestígio junto ao Rei de Portugal. Cumpriu com desempenho sua missão, livrando as duas províncias dos invasores que desejavam apropriarem-se delas. Não foi feliz na viagem de Olinda- PE a São Luiz-Ma. O navio em que viajava, ao enfrentar um forte temporal, com grandes ventanias, foi a pique no litoral. No naufrágio perdeu a esposa Dona Maria Eugênia de Mesquita e uma das filhas (Maria) e todos os seus pertences. Conseguiu salvar-se com as filhas Ana e Clara. Tempos depois contraiu novas núpcias com uma fina dama da sociedade maranhense, herdeira do clã Monte Serrat, de cujo consórcio nasceu uma filha de nome Maria do Monte Serrat Castelo Branco.
Ano de 1710 – Dom Francisco da Cunha Castelo Branco chega à Província do Piauí, com boas informações sobre o solo e a pastagem para criatório de gado. Tornou-se a pedra fundamental da família CASTELO BRANCO na Província, que veio a se expandir por todo o Brasil.
Dom Francisco que instalou a Fazenda Boa Esperança, na Freguesia de Santo Antônio do Surubim, construiu juntamente com seu genro, o Fidalgo português Manoel Carvalho de Almeida, uma capela sob a invocação de Nossa Senhora do Livramento e em seu redor formou-se a futura Vila do Livramento. Mais tarde, os seus descendentes, desejosos por uma Igreja maior, construíram no ano de 1777, a atual Igreja Matriz de José de Freitas. Foi o marco oficial para criação do “Distrito de Paz”. Em 1874 foi criada a Paróquia de Nossa Senhora do Livramento. Em seguida a Vila do Livramento e a sua instalação ocorreu no dia 07 de abril de 1878. No dia 07 de julho de 1924, foi elevada à categoria de cidade, com o seu topônimo mudado para JOSÉ DE FREITAS, CONFORME Lei n° 1.186.
Bernardo de Carvalho e Aguiar, no ano de 1710, recebe visita do Padre Tomé de Carvalho, desejoso de dividir seu rebanho, construindo em Bitorocara uma Igreja, por se encontrar a região, a 600 quilômetros da Vila da Mocha. Padre Tomé de Carvalho, depois de suas justificativas e do espírito de religiosidade, demonstrado ao fazendeiro Bernardo de Carvalho e Aguiar, deste, encontrou apoio total. Bernardo sempre foi muito ligado à Igreja Católica, razão que lhe fez ser homenageado com a honraria “Hábito do Cristo”, na época, a maior comenda da Igreja Católica.
A Igreja construída, que por invocação tem o nome do Glorioso Santo Antônio de Pádua, nosso eterno padroeiro, sugestão de Bernardo de Carvalho e Aguiar, homenageando o filho de Portugal que na Pia Batismal recebeu o nome de Fernando de Bulhões.
A solenidade de inauguração da Igreja, celebração da PRIMEIRA SANTA MISSA e Instalação da Imagem de Santo Antônio, aconteceu no dia 12 de novembro do ano de 1712. Presentes muitos fazendeiros, vaqueiros, trabalhadores e escravos que participaram daquele importante ato solene religioso.
A Igreja de Santo Antônio tornou-se o centro de formação religiosa do norte da Província do Piauí; o centro econômico mais importante, por suas destacadas e bonitas fazendas; Na comunidade foram construídas as mais bonitas residências em estilo colonial, que resistem ao tempo, algumas com até 300 anos de construção ainda bem solidificadas. Em torno da Igreja, estabeleceram-se lojas, armazéns, farmácias, consultórios médicos e outros serviços úteis à vida da comunidade. Instalaram-se também os poderes executivo, judiciário e legislativo, desde os primeiros Intendentes no tempo do Império, Monarquia e República. Ainda, em torno da Igreja, os líderes da Batalha do Jenipapo, elaboraram o plano de defesa patriótica do Brasil, que culminou com o enfrentamento ao exército de Fidié, naquele 13 de março de 1823, com a Batalha do Jenipapo
No templo da Igreja de Santo Antônio, realizou-se o que se pode chamar a principal decisão política de sustentação deste município, quando naquele 08 de agosto de 1762, com a presença do Primeiro Governador da Província do Piauí, João Pereira Caldas, nomeado por Dom José I, Rei de Portugal, a comunidade foi convocada em Assembléia Geral, para aclamar a elevação da Freguesia de Santo Antônio do Surubim, para Vila de Campo Maior. Na mesma solenidade o Governador João Pereira Caldas, autorizou a construção do PELOURINHO, para servir aos ilustres fazendeiros brancos, com punições e castigos aos escravos. Foi um momento marcante e muito emocionante. Um fato histórico de registro permanente, para os anais da nossa história.
A Igreja de Nossa Senhora da Conceição na fazenda Buritizinho, localizada à margem esquerda do rio Marataoã, que fica no centro de seis barras de rios e riachos, a saber: rio Marataoã e dos riachos Ininga, Gentio, Riachão e riacho Santo Antônio.
A Igreja de Nossa Senhora da Conceição foi construída pelo rico fazendeiro Coronel Miguel de Carvalho e Aguiar, o principal morador da fazenda Buritizinho, hoje, importante município e cidade de Barras do Marataoã, em meados do século XVIII, sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição. A Igreja foi a célula geradora do povoamento da comunidade, em redor da qual se formaram os primeiros sítios, currais e fazendas. Coronel Miguel de Carvalho e Aguiar, ao falecer, foi sepultado no Templo que construiu e dedicou a Nossa Senhora da Conceição, tão venerada e adorada pelos barrenses.
No ano de 1839, por motivo do crescimento da comunidade e das fazendas situadas em torno da Igreja, criou-se a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição.
No ano de 1889, a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição é elevada a categoria de cidade, emancipada conforme Decreto n° 1, do dia 28 de dezembro, assinado pelo primeiro Governador da República no Piauí, Gregório Taumaturgo de Azevedo, barrense, que no Exército alcançou a alta patente de General.
Barras do Marataoã é reconhecida com os títulos de Cidade dos Governadores, dos generais e dos intelectuais.
Para completar o em torno religioso à Igreja de Santo Antônio, foi construída no ano de 1740, pelo fazendeiro Benedito José de Souza Brito, a Igreja de Nossa Senhora dos Humildes, na Fazenda dos Humildes, a dez quilômetros de onde nasce o histórico rio Longá, que tem sua nascente na “Lagoa dos Matos.” Em torno da Capela e por fé a Nossa Senhora dos Humildes, uma comunidade progressista foi se formando, com raízes familiares que resistem até os dias atuais. Foi elevada à categoria de Paróquia no ano de 1870, com a denominação “Curato dos Humildes” e “Povoado dos Humildes” em 31 de dezembro de 1870. “Vila dos Humildes” em 04 de abril de 1877. A Vila dos Humildes foi emancipada politicamente no ano de 1931. No ano seguinte, por motivos políticos volta à condição de Vila. Outra forte decisão fez voltar à condição de município no ano de 1936, em caráter definitivo, vindo a se tornar uma bela e histórica cidade, onde reina a fé e a harmonia, denominada de Alto Longá .
Outros fatos marcantes ocorreram em torno da Igreja de Santo Antônio:
*Com o Brasil Independente, no dia 25 de novembro de 1822, João José da Cunha Fidié, no Largo da Igreja, chamou os seus soldados à ORDEM. Eram aproximadamente 900 homens e, coagindo as autoridades e a comunidade, obrigou que todos jurassem fidelidade à Constituição Portuguesa;



*No dia 05 de fevereiro de 1823, no patamar da Igreja, o líder Leonardo de Carvalho Castelo Branco, reconhece a Independência do Brasil e proclama Dom Pedro Imperador. Prendeu naquela oportunidade o Padre João Manuel de Almendra, que bradava contra os anúncios de Leonardo, não concordando com aquela decisão histórica.
*Na noite do dia 12 para 13 de março de 1823, a Igreja permaneceu em “Vigília” e pela madrugada foram celebradas orações e encomendações aos mais de dois mil homens, decididos ao confronto com o exército bélico de Fidié. Eram os nacionalistas, vaqueiros, operários, escravos, trabalhadores rurais e o proletariado como um todo, dispostos a derramarem os seus sangues, morrerem ou matarem, pela manutenção da Independência do Brasil. A Batalha do Jenipapo, ocorrida aqui nesta “Terra de Santo Antônio”, é a identificação de amor e o que tem de mais patriótico pelo Brasil.
*No dia 28 de dezembro de 1889, a comunidade foi convocada e na Igreja foi lido o Decreto n°1, assinado pelo PRIMEIRO GOVERNADOR REPUBLICANO, General Gregório Taumaturgo de Azevedo, elevando a Vila de Campo Maior, à tão honrada e merecedora condição de município. A comunidade nas mais destacadas residências e fazendas mobilizaram-se com festas e fartos banquetes. Oficializava-se o nome Campo Maior, homenageando a outra Campo Maior em Portugal.
*Em 05 de julho de 1944, Padre Mateus Cortez Rufino, mandou demolir a Igreja. Momento emocionante, com lágrimas e esperança naquela histórica decisão. Justificou o Padre, que a comunidade necessitava de um Templo maior. Padre Mateus, líder incontestável, envolveu todo o povo. Ninguém se negava aos apelos do padre. O resultado, este belíssimo Templo Sagrado, que no dia 15 de agosto do ano de 1962, nas comemorações do bi-centenário de Campo Maior, foi abençoado por Dom Avelar Brandão Vilela. O exemplo da demolição, com a comunidade triste e saudosa, na inauguração, transformada com emoções e lágrimas, com os discursos empolgantes no envolvimento da fé, pronunciados por nosso vigário Mateus e de Dom Avelar Brandão Vilela, o pregador de “ORAÇÃO POR UM DIA FELIZ”.
*A Igreja de Santo Antônio que fez Campo Maior e os municípios da microrregião crescerem juntos na fé e no desenvolvimento econômico social, no dia 12 de junho de 1976, foi elevada à Catedral, com a constituição jurídica da Diocese de Campo Maior, conforme “BULA” assinada pelo Papa Paulo VI. O mesmo Santo Papa nomeou como primeiro bispo Dom Abel Alonso Nunes. Aposentado Dom Abel, o Papa João Paulo II nomeou para Diocese de Campo Maior, o nosso bispo Dom Eduardo Zielski, que tem conduzido sua administração, com competência, compreensão, sabedoria e humildade.
A exemplo de 300anos passados, a comunidade reúne-se nesta celebração EUCARÍSTICA. Naquele Templo – capela. Agora, imponente CATEDRAL. Na inauguração o celebrante Padre Tomé de Carvalho, neste aniversário de três séculos, o bispo Dom Eduardo Zielski e Mons Paulo Mateus.
Caríssima Igreja,
É a Campo Maior do passado, com seus registros históricos, promovendo esta noite encantadora.

O NOSSO MUNICÍPIO ESTÁ DIRETAMENTE LIGADO A PORTUGAL, PELOS LAÇOS QUE FORMAM AS NOSSAS ORIGENS. PORÉM, SOMOS DIFERENTES, PORQUE:
OS CAMPOS DAQUI SÃO MAIS BONITOS
E AS SUAS PALMEIRAS RESISTEM AS INTEMPÉRIES DO TEMPO,
SEM SEMELHANÇA, PERMANECENDO SEMPRE VERDES E ALEGRES.

AMARANTE - A MAIS PORTUGUESA DAS CIDADES DO PIAUÍ





Virgílio Queiroz
historiador


O conjunto arquitetônico de Amarante, de herança colonial, é o mais harmonioso do Estado do Piauí. São casas que retratam o período com uma estrutura que ultrapassa os anos e numa conservação patrimonial mais pela vontade dos proprietários que por leis ou decretos. Na Avenida Desembargador Amaral situa-se o casario mais representativo com a famosa “Casa dos Azulejos” que pertenceu à família “Sobral” e hoje residem os herdeiros de Amâncio Lopes. Dizem que outras casas também eram revestidas de azulejos e os seus donos reformaram sem a preservação desse detalhe. O saudoso professor Noé Mendes, pesquisador incansável, disse-me, certa vez, que os azulejos do “Casarão dos Lopes” eram oriundos da Inglaterra e não de Portugal como afirmavam dezenas de ilustres pesquisadores.

Em frente, na residência do médico João de Miranda Peixoto estão as portas e janelas conservadas em uma construção de uma casa com as características coloniais dignas de uma pequena cidade portuguesa – por que não São Gonçalo do Amarante? Existe o prédio onde reside a notável professora Mary, onde nasceu o grande amarantino Dirceu Mendes Arcoverde, com uma extensão enorme de janelas e portas como a mostrar a presença dos ilustres lusitanos que estiveram em Amarante há mais de duzentos anos atrás. Com um povoamento que abeira 400 anos, esse patrimônio enche os olhos de quem visita a nossa Terra.

Além dos prédios da Desembargador Amaral, e não podemos deixar de citar, também, o posto do “Armazém Paraíba”, a casa de “João Tindor”, a casa da “irmãs Cunha”, da dona “Nede”, outros exemplos dessa bela época da arquitetura são notados por toda cidade, nas ruas Luiz Puça e Da Costa e Silva, como exemplos: “Casarão dos Soares”, “Casarão dos Ayres”. Até mesmo, nos arredores, notadamente no bairro Vila Nova, existem essas particularidades arquitetônicas em residência particulares. É a cidade de Amarante a mais portuguesa das cidades piauienses. Com certeza!

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Lançamento de Recortes do Tempo

Dom Eduardo Zielski e os acadêmicos João Alves Filho, Jesus Andrade Paz e Antônio Manuel Gayoso de Almendra  Castelo Branco


Amanhã (sábado), acontecerá o lançamento do livro RECORTES DO TEMPO - de autoria da acadêmica MARIA DE JESUS ANDRADE PAZ - às 19 horas, no Salão Paroquial. Será mais um evento apoiado pela Academia Campomaiorense de Artes e Letras a se realizar no corrente mês de novembro. João Alves Filho, presidente da entidade, convida as pessoas interessadas em cultura a se fazerem presentes. 

SAUDADE DE NOSSOS RIOS





21 de novembro   Diário Incontínuo

SAUDADE DE NOSSOS RIOS

Elmar Carvalho


Faz poucos dias, recebi o seguinte e-mail do amigo Itamar Abreu Costa, que além de médico de nomeado é intelectual e ambientalista, aos qual acrescentarei, no final, breves comentários:

Década de 60. Tínhamos um rio caudaloso – Rio Poty. Vários pontos de banhos: Rua São Pedro (Poço da Palmeira), Avenida Frei Serafim (no terreno do seminário). Rua Santa Luzia era a entrada para as “croas”. Avenida Jacob Almendra era a via de acesso para as "croas" do Bairro Cabral. Pescadores, lavadeiras nas pedras nos "noivos", as quintas com Mangais no terreno cercado onde hoje existe a floresta fóssil e Cepac.

Jogávamos bola nas diversas coroas formadas no verão pelo Poty, ali criamos vínculos e formamos nossa personalidade. Tínhamos contato com as pessoas aparentemente humildes, porém dotadas de orgulho de pertencerem ao rio. Eles tinham domínio sobre o seu território: "Milton"(no Porenquento), "Quibão" (na Santa Luzia) eram exemplos de craques formados na escola de futebol da vida.
Tínhamos nosso espaço e por ele zelávamos, respeitávamos os transeuntes. Time da Primeiro de Maio: Celso Carvalho, Sandoval, Paulo e Honorato Emérito, Emanuel, Lucimar, Bruguelo, Doutor do Lourival, Itamar, Gereba, Oscarito, Maguim, Fina, Chiquinho, Sosão, DIGUDURA, Pedro Bogodó, Vagner, Carlos, Campo Maior, o craque maior e nosso goleador, protetor e ídolo PANZILÃO e tantos outros.
Time da Piçarra: Idelmar, Dim, Chico I e II, Lagadu, Banana, Kim, Luiz, Titela, Quibão, Jura, Piripiri, Carlito Costelinha, Carlito Avião, Irmãos Piauilino (Paulo, Eduardo e Joaquim), Majella, Valter,Goió, Moreira I e II, Bibio, Iratã etc.

O rio salvou e evitou que centenas de ribeirinhos passassem fome, era piscoso e assim os pescadores mesmos amadores vendiam todos os dias a sua produção de casa em casa. As crianças e jovens nadavam sem risco, não havia notícias de afogamento. Naquela região futebol era educativo e evitou que jovens enveredassem pelo caminho das drogas. Muitos hoje são professores, militares, médicos, engenheiros, empresários etc.

O tempo passou e agora é a hora de salvarmos o Nosso Rio Poty, precisamos de ações mais efetivas, estruturadas e técnicos experientes em despoluir rios. Depois da ponte Wall Ferraz já não existe o tão encantador leito do rio; uma vasta faixa de terra preenche hoje o que era bonito anos atrás. Dragagem? Abrir canais para circular o precioso líquido, alguma coisa tem que ser feito Urgente!
O Poty pede socorro!”

Resolvi publicar o texto acima do doutor Itamar Abreu Costa pela beleza saudosista e bucólica que encerra, pela mensagem ecológica nele contida, que é na verdade uma advertência a todos nós, e sobretudo ao poder público, que nunca envidou reais esforços para salvar os dois rios que formam a mesopotâmia teresinense, e que lhe emprestam singular beleza. Quando as águas baixam, todos nós podemos ver as bocas fétidas dos esgotos, que lançam sujeira nos rios Poti e Parnaíba, sem nenhum tratamento.

Os igarapés, que ornam o Poti, e que nos encantam, na verdade são o triste sinal de que esse rio está muito poluído, pois essas plantas “adoram” um ambiente líquido com material orgânico em decomposição. Certamente com a sujeira e com a água estagnada e poluída, a oxigenação não pode ser boa, o que prejudica os peixes. Não é à toa que os pescadores se queixam da falta deles, quando outrora esse rio foi bastante piscoso. Portanto, não obstante a sua deslumbrante beleza, a proliferação de aguapés é sinal de que o velho rio está gravemente enfermo. Como disse o poeta, há flores que enfeitam a vida, e há flores que enfeitam a morte. Os aguapés são uma beleza trágica, fúnebre, porquanto são o enfeite da lenta agonia de um rio já quase morto.

As coroas, tanto do Parnaíba como do Poti, que eclodem quando as águas minguam, são também o triste sintoma de que esses rios não estão bem; são indícios de que eles estão assoreados. Quanto mais eles fossem estreitos e profundos mais eles estariam saudáveis. Com o avanço dessa fina e larga lâmina d' água a navegação, que já praticamente não existe, cessará de todo, e num futuro talvez não muito remoto o curso do rio poderá ser interrompido, cortado; restará apenas poços ao longo do leito. No Parnaíba há uma grande coroa, a que o povo deu o nome de coroa assassina. Na verdade, é o contrário; a coroa é apenas o sintoma mais visível de que o rio está sendo assassinado pelo desmatamento das matas ciliares (fora outras causas), que provoca o assoreamento de seu leito.

Morei em Teresina de setembro de 1975 a março de 1977, quando retornei a Parnaíba a fim de cursar Administração de Empresas, que então, no Piauí, só existia naquela cidade (UFPI – Campus Ministro Reis Velloso). Nesse período em que residi nesta capital, cheguei a participar de piqueniques às margens do Parnaíba e do Poti, que na verdade não passavam de reuniões de amigos, com tiragosto e a presença indefectível do velho pirata Ron Montilla, que sempre se fazia acompanhar de Coca-Cola e limão. Faziam parte da turma, quase sempre, o Otaviano Furtado do Vale e o José Francisco Pinto, e mais duas ou três garotas, às vezes.

Praticamente não existia violência, e ninguém perturbava essas juvenis libações, regadas a uma boa conversa. Preferíamos a margem esquerda, do lado de Timon, nas proximidades da bela Ponte Metálica, em área sombreada por frondosas e exuberantes mangueiras, que nos ofertavam o frescor de sua sombra amiga. A travessia, no lombo de alguma morosa chalana, já fazia parte da festa, e nessa época tudo era festa e motivo de festa. O rio não era muito poluído, e podíamos tomar um belo banho, sem nenhum temor de pegarmos alguma doença de pele.

Numa dessas infucas, exploramos as matas do entorno da floresta fóssil, situada na margem direita do Poti. Com o João Francisco, empregado da ECT, na qual eu também trabalhava, pratiquei algumas libações debaixo das enormes mangueiras, que existiam na margem esquerda desse rio, perto de onde hoje se ergue o prédio da Agespisa. A trilha sonora era ditada por um pequeno rádio, que o João Francisco levava.


Esse bom boêmio entendia que as músicas pelo rádio deveriam ser mais valorizadas, pois não podíamos escolhê-las e muito menos repeti-las. Portanto, tínhamos que ouvi-las com a máxima atenção. Nessa época eu ouvia, com muita paixão e enternecimento, a música “Meu mundo e nada mais”, de Guilherme Arantes. A poesia, musa arisca e arredia, me cortejava, e me boiava à flor da pele.

Ao retornar novamente para Teresina, em agosto de 1982, ainda me arrisquei a ir algumas poucas vezes a algumas das coroas do Parnaíba, em companhia do amigo e compadre Airton Meneses, poeta parnaibano, que aqui veio morar em breve temporada. Nessas ocasiões tive a temeridade de tomar banho, quando as águas nesta capital já eram reconhecidamente poluídas.

Certa feita, participei de uma pescaria noturna, perto da ponte metálica, juntamente com Walter Mendes e Silva, Chaguinhas, Atanásio, Luiz Moura e Martinho, meus colegas da extinta Sunab. A pescaria na verdade foi só uma boa desculpa para tomarmos umas boas talagadas de calibrina, festejarmos a vida, e batermos um bom papo, recheado de saborosas anedotas e piadas.

O rio, na época, já mergulhava em progressiva poluição, e já naufragava em lenta mas inexorável degradação ambiental, sobretudo o assoreamento de seu leito, cada vez mais largo e mais raso, até o espetáculo quase teatral da famosa barca do sal, que Parnaíba arriba, mal conseguiu chegar a Teresina, quase se arrastando pelas águas barrentas e rasas, aos trancos e barrancos, encalhando aqui, se desviando dos traiçoeiros bancos de areia acolá.

Se nada for feito, e nada está sendo feito, as mortes do Parnaíba e do Poti serão apenas duas mortes de há muito anunciadas, sob o mais indiferente e acintoso descaso das autoridades (in)competentes. Certamente as carpideiras oportunísticas de plantão irão derramar as suas hipócritas lágrimas de crocodilos (com o perdão destes animais, que são apenas vítimas da poluição e do soterramento das águas). 

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Floriana nosso amor




Fonseca Neto


A região onde nasci no Maranhão é uma projeção da antiga freguesia de Nossa Senhora da Vitória da Vila da Mocha, depois Oeiras do Piauí. Passados dois séculos, erguida Floriano à barranca direita do Parnaíba, mais próxima, assumiria esta o papel de referência citadina maior sobre aqueles sertões dos “pastos bons”, dadivosos, repartidos em várias municipalidades muito distantes da capital, São Luís. 
Do ponto de vista de sua formação, nada é diferente entre a vida sertaneja de um e do outro lado nesse Médio Parnaíba. E desde fins do século XIX, Amarante, e Floriano ainda mais, sob os impulsos da navegação a vapor, tornaram-se centros de comércio e civilidade, atraindo em sua dinâmica, sobretudo, todo o leste-sul maranhense e o sul piauiense. 
Quando eu nasci e “me entendi”, Floriano era essa referência luminosa em nossas vidas. Mais: minha família – lado dos Fonseca, chegada à região por volta de 1822 – está entroncada na Passagem da Manga, nucleada nos hoje municípios de São Francisco do Maranhão e Barão de Grajaú, sendo a parte piauiense dela ramificada a partir do município histórico de Jerumenha. Muitos desses Fonseca, sobretudo os aquinhoados de terra, estão presentes na ação fundadora dos próprios municípios da Manga/Floriano (1864/1890), São Francisco (1870) e Barão (1904/11). Minha mãe nasceu a cinco léguas de Floriano, nos limites de São Francisco e Barão e conheceu Amarante e Floriano ainda na juventude.
Aos doze anos conheci Floriano, nos anos 60. Tinha um tio em Barão que me trazia de Passagem Franca para breves temporadas de férias. Era uma sensação andar pela “cidade-luz” da memória de minha mãe e de onde chegavam à Passagem os caminhões carregados disso e daquilo, os viajantes, médicos, ônibus (do Pedro Caetano) e o misto (do Cícero), livros e revistas. Onde iam estudar os filhos da aristocracia municipal passagense. No dia mesmo em que nasci, um médico florianense muito querido esteve em minha cidade “pegando” a filha do vice-prefeito que naquele dia, com muito sofrer, também viria ao mundo.
Em Floriano entrei pela primeira vez numa sala de cinema, Cine Natal: antessala com espelhos e porteiro impecavelmente vestido, bombons (tinha curiosidade de saber o que eram os “drops”), tela imensa, “cinemascope”. Na calçada do Cine, banquetas com livrinhos de bolso, “os fbis”, novos, e muitos deles usados e disponíveis para as troca, locação,etc. Ao lado uma sorveteria e picolés nos palitos. Numa outra esquina uma “farmácia” com todo tipo de garrafas, garrafões e tubos retorcidos com produtos coloridos. Vi ali pela vez primeira uma freira, em hábitos (mesmo traje das imagens de Santa Teresinha de Jesus existentes nas igrejas de São Pedro de Alcântara e de Santo Antonio –no Barão). Vi os “automóveis”, isto é, os “carros de passeio” que chamavam de “baratinha”, “rabo-de-peixe” e “cadilac”. Tinha curiosidade de saber como que era um “Banco”, Bomba de Gasolina e as casas que chamavam de “bangalô”: em Floriano vi tudo isso. E mais várias coisas de cidade grande.
No universo mental e das falas da minha “nesga de sertão”, sobretudo do povo do campo, a maioria, invocava-se a importante cidade piauiense (nossa metrópole) com a declinação feminina de “Floriana”: vou para...; comprei isso ou aquilo, em...; foi estudar... É um jeito ou traquejo de falar, assim como nas formas pretéritas, no sobrenome das mulheres não se escrevia, por exemplo, Veloso, mas sim, Velosa, Cardoso e sim Cardosa, Franca, Coelha, Brandoa, Granjeira.
Também o namoro na praça de Floriana dizia-se que era devasso; poucos pais se atreviam deixar as filhas por lá p. estudar. Até saiu um “romance” de cordel, proscrito, e de muito sucesso, chamado exatamente assim: “O namoro na praça de Floriano”. Mas disso falaremos noutras ocasiões. Agora, interessa parabenizar a “Cidade-Floriano”, razão da paráfrase do título. Afinal, minha menção de amor é à princesa e não ao marechal.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Terra do Gado



Dílson Lages Monteiro


Quando o jornalista Afonso Ligório publicou há alguns anos o livro de crônicas memorialistas Outros tempos, observamos, em artigo publicado no Jornal Diário do Povo, que o autor fazia uma viagem pelo coração de suas memórias, mas concedia a elas uma dimensão coletiva. Ao retratar, naquele livro, a origem rural, a infância e adolescência em Teresina, voltava as retinas e o pensamento para a paisagem social na qual se insere. Na ocasião anotávamos: “Outros Tempos exprime-se como resgate da história do autor, de seus antepassados, de aspectos de seu estado natal. O fluxo da memória, contudo, não se encarcera em lembranças restritamente pessoais”.
O raciocínio que fiz àquela data serve para explicar Terra do Gado. O embrião do livro se fundamentou, a princípio, no mesmo processo de Outros tempos. O próprio autor admitiu em  entrevista à radio senado: “Terra do Gado é uma curiosidade que trago desde menino, a partir de lembranças que me contaram e que, depois, fui juntando aquilo que estudei, aprendi e pesquisei”. Foi partindo desse amálgama de recordações, pesquisas, estudos e descobertas que o autor traçou um panorama seguro do processo de colonização do Estado, destinando mais de metade das páginas da obra a tópicos que dizem diretamente respeito a cidade de Barras.
O princípio das reflexões, não temos dúvidas, foi a busca de explicar a origem da antiga Fazenda Cabeceiras, berço de seus bisavôs João Francisco Carvalho de Almeida e a esposa Ana de Deus Pires Ferreira, os pioneiros, em meados do século 19, do povoamento do hoje município de Cabeceiras do Piauí. Na obstinada busca de detalhar como, onde e quando ocorreu a ocupação da citada fazenda, valendo-se de documentos, pesquisa bibliográfica e da memória oral, inclusive de informações com as quais tomou contato ainda menino, o escritor não apenas fez minucioso detalhamento da gênese de Cabeceiras, mas, principalmente, da Antiga Barras. Partindo da genealogia, somada posteriormente a conhecimentos sociológicos e econômicos, explicou o autor todo o processo de colonização do Norte piauiense. Assim é que discorre sobre a opção pela criação de gado, focalizando a chegada das primeiras famílias e sobre como se constituiu o patriarcado rural de então.

Nesse percurso de montar o mosaico de nossa formação, vai o autor costurando, como já dissemos, a teia que permite vasculhar as nuances da origem da Antiga Barras, um prolongamento das fazendas de Campo Maior, que, através de sucessivas divisões por herança, ganhava as mãos de homens e mulheres, multiplicados a partir principalmente dos casamentos entre os Castelo Branco, Carvalho de Almeida, Rego Barros, Pires Ferreira e outros apelidos que, pelos casamentos sucessivos entre parentes, eram  uma única gente. Ao montar esse mosaico, o autor resignifica as pesquisas genealógicas de Edgardo Pires Ferreira, Gilberto de Abreu Sodré, Ferraz, esclarecendo as anotações desses gigantes da genealogia, mas também corrigindo distorções e, simultaneamente, copilando informações esparsas sobre a maneira como se formou, por exemplo, a Vila de Barras.
Cumpre destacarmos ainda que o livro é de linguagem leve, simples e agradável – sem os ranços e vícios da linguagem acadêmica. Escrito como quem, pela razão, quer atingir o coração. Um livro, pois, em que merece atenção especial a organização do próprio discurso, a estrutura do ritmo, a melodia da narração. Um livro escrito como quem conversa, porém, sem perder a elegância do estilo.
             Por fim, afirmamos categoricamente: foi com a grandeza do sonho e do amor que Afonso Ligório Pires de Carvalho escreveu esta obra. A história e as histórias que reuniu e redimensionou  são, ao tempo em que lançam novas luzes sobre a identidade do Piauí, principalmente,  um reflexo do ideal de projetar  entendimento mais preciso das marcas da “piauiensidade”. Nesse sentido, Terra do gado – a conquista da capitania do Piauí na pata do boi configura-se como um atestado de amor ao Piauí; um encontro marcado entre o autor e suas raízes.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Golpistas de 64


Os autores sendo entrevistados por Miriam Leitão


Fonseca Neto


Um ato muito raro: um livro de memória e história do Brasil feito por militares a contrapelo das hierarquias tão decantadas até hoje como pedra angular das Forças Armadas. Ainda mais singular é que o livro é uma denúncia fundamentada a respeito da ditadura militar e udenista há pouco tempo superada no Brasil.
1964: DNA da conspiração” é um livro-documento, desassombrado. A história de dois brasileiros saídos do Piauí e do Ceará para se encontrarem na arma de Artilharia do Exército brasileiro, e nela, juntos, até 64, viverem um episódio dos mais sombrios da história social e política do Brasil: o golpe de 1964 e a implantação de uma ditadura que, sob quase todos os aspectos, infelicitaria o país por anos e décadas –até hoje, diga-se.
O presente livro está organizado em dez capítulos e adereçado de introduções e anexos que o completam e o exame mais refletido deles fica mesmo para seu leitorado, que já não é pequeno e muito maior será. Mas acredito que esse trabalho, pleno de indicações límpidas sobre o horror ditatorial, ainda que não seja lido por milhões, cumpre uma tarefa essencial: fixar, pela visão de dois protagonistas conscientes, o testemunho do que viram e lhos feriu no curso da vida militar do tempo.
O livro é escrito em raso de objetividade e é de uma clareza solar, no que ordena as ideias dos autores, depoentes, e nas recortações documentais e de outros autores que recepcionam para encorpar e tornar ainda mais sólidos os próprios registros.
Nesse sentido, convido a todos a irem direto aos capítulos em que eles dizem das suas vidas desde a infância –a de Jônatas desde Floriano, o Seminário etc. Depois sugiro que não deixem de passar pela estação capitular em que vem o rol (ou “tabela”) dos conspiradores e ditadores – com indicações precisas sobre o protagonismo de cada um. Aviso que ficarão os leitores de cabelo arrepiado com tanta trajetória horrorosa de gente sobre quem ainda hoje se ouve falar como herói da democracia, da moral, da ética, e que não passa de reles tiranete de patriotas. Um desses, Milton da Silva (general), de quem muitas vezes ouvi falar em suas visitas ao Piauí, fanfarronado pela imprensa e pelos áulicos locais, está à p. 233: “indicativo – executor oficial da política de extermínio de prisioneiros políticos tanto no Governo Médici como no início do Governo Geisel” (citam revista semanal 12/11/2003, exatos 9 anos atrás).

Quero realçar, por fim, de maneira muito direta, a coragem desses dois homens, o coronel Jônathas de Barros Nunes e o tenente-coronel Gastão Rúbio de Sá Weine. Coragem de fixarem seu testemunho em registro memorial o qual, repita-se, bastante proveito ensejará aos historiógrafos. Seu exemplo é assaz necessário porque a temática relativa ao papel militar na politica brasileira é campo de disputas viscerais e de muita manipulação. Aliás, talvez não haja no Brasil temática mais repleta de empulhação ideológica quanto aquilo que se tem como o cânone da historiografia brasileira no padrão militaresco. A consciência nacional e o querer bem à democracia e aos valores humanos resultam muito mais fortalecidos com a contribuição plasmada por eles.
Os autores são dois professores – coronéis e cientistas doutores. Nunes, titular da Ufpi. Doutor Jônathas, o conheci, e o Piauí de minha geração, quando apareceu como candidato a deputado federal. Sussurravam e até mais que isso, diziam que de tão inteligente ficara “doido”. Foi eleito e o único daqui que votou pelas “Diretas-Já” em 1984. E então o chamaram de “louco e meio”. Foi como o piauizim o viu naquele momento.
A rigor, o Piauí sério, vontadoso de largar em passos largos de futuro luminar, esse Piauí, o admira. Travei contato com ele anos depois no Consun, da Ufpi, e também Maria Helena servindo, já, nessa valorosa instituição.
Oportuno livro. Que algum jovem se interesse por esses relatos. Fico a pensar: tivessem ideia do que foi a ditadura direitista maturada desde 54 e imposta em 64, muitos veriam a cena de hoje com outros olhos.

domingo, 18 de novembro de 2012

O Destino da Lira



O DESTINO DA LIRA

Martins Napoleão (1903 - 1981)


Dói recolher, na concha e na alma, o alheio pranto

— orvalho a gotejar de outras raízes...

Mas é tão doce a dor de o transformar num canto

que console infelizes!...



O destino da Lira é como o das estrelas,

belas e inúteis, aparentemente:

mas a força vital infinita que há nelas

faz brotar a semente.



O destino da Lira é o destino das rosas,

morrendo mas deixando o aroma que erra,

ou no ar ou no esplendor das mulheres formosas,

como um bem feito à terra.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Posses de Ernani Napoleão Lima e Paulo Henrique na ALVAL



Os acadêmicos Ernani Napoleão Lima e Paulo Henrique dos Santos Ferreira serão empossados neste sábado, 17/115/12, no quadro de sócios efetivos da Academia de Letras do Vale do Longá (ALVAL), em sessão solene no auditório da Secretaria Municipal de Educação de Campo Maior, às 17 horas.
O acadêmico Ernani Napoleão Lima será empossado na Cadeira 38 da ALVAL que tem como patrono o vulto de Campo Maior, Raimundo Nonato Andrade e o acadêmico Paulo Henrique dos Santos Ferreira é o novo titular da cadeira 40, patronímica do vulto campomaiorense monsenhor Mateus Cortez Rufino, nascido em Ipiranga (PI), mas que dedicou sua vida à cidade de Campo Maior.
Ernani Napoelão Lima e Paulo Henrique dos Santos Ferreira foram eleitos, por unanimidade dos votos válidos, em 05/05/12, para o quadro de sócios efetivos da Academia de Letras do Vale do Longá (ALVAL), em sessão eleitoral presidida pelos acadêmicos José Itamar Abreu Costa (presidente da ALVAL) e José Alves Fortes Filho (diretor).

Fonte: meionorte.com/josefortes

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

José Ribamar Garcia: uma quase antologia de contos piauienses



Cunha e Silva Filho

José Ribamar Garcia é um ficcionista piauiense bastante conhecido e bem recebido pela crítica no estado do Piauí, com uma obra que já chega, agora, ao décimo livro, não contando com reedições e atualizações ampliadas de parte de sua produção. No entanto não é tão devidamente conhecido no Rio de Janeiro, onde reside há muito tempo. Garcia acaba de lançar a coletânea Contos da minha terra (Livraria Editora Nova Aliança, Teresina, 2012, 196 p.). Traz capa de Andréia Galvão e Imagem capa de Moisés Rego, além de uma apresentação do escritor, poeta, ficcionista e editor piauiense Dílson Lages Monteiro.

A quem, como este resenhista, tem lido e comentado a produção de Ribamar Garcia nos gêneros crônica, novela, conto e romance, desde a sua estreia em 1981, com um opúsculo de apreciadas crônicas memorialísticas, narrando o que ele originalmente chamou como subtítulo na capa de “Depoimentos” sobre a cidade de Teresina, Imagens da cidade verde, edição do autor, impresso pelo Carimbão – Ind. e Com. De Carimbos Ltda, Rio de Janeiro, RJ., a coletânea ora publicada vale como uma espécie de antologia dos melhores contos do autor, porquanto resultou de uma seleção de contos na sua quase totalidade, já que este conjunto de textos inclui dois outros que não se encaixariam com rigor no gênero conto, i.e., os de títulos “A capital do Delta” (p. 57-60) e “Duas cenas” (p.61-62). Ainda no grupo selecionado de contos, há dois contos inéditos, “A tentação de Nazaré” (p.180-185) e “Cadê o carro?”(p. 186-192).

A obra consta de trinta e três textos ficcionais, incluindo as mencionadas duas crônicas. Todos os contos (e crônicas) tem como cenário e enredo o Piauí, seja representado por histórias situadas em Teresina, seja em cidades do interior. Convém assinalar que o espaço geral da obra do escritor se divide em duas vertentes:a urbana, tendo a vida carioca como palco de suas paisagem física e humana de seus enredos e o subúrbio do Rio de Janeiro. Isso vale para toda a sua ficção. Por este prisma,, lembra escritores como Lima Barreto(1881-1922) e João Antônio (1937-1996) para ficarmos com dois escritores brasileiros bem apreciados por Ribamar Garcia e que, em determinados ângulos, provavelmente o tenham influenciado,sobretudo pela temática preferencialmente voltada para as camadas menos favorecidas da sociedade. Vale registrar o que já afirmei alhures sobre a ficção do autor, quanto a  um dado estilístico – a frase enxuta, o sentença curta, ágil, viva, objetiva e de natureza máscula por vezes lembra também o escritor Ernest Hemingway (1899-1961), de quem Ribamar Garcia é assíduo leitor. Este dado estilístico se imbrica com algumas preferências temáticas de Hemingway, a inserção nas histórias de lutas, brigas, de ações violentas de alguns personagens, até mesmo a referência ao boxe que aparece tanto no escritor americano quanto em algumas passagens de Garcia.

Garcia é da linhagem dos escritores que não se contentam com a estagnação no plano estético na composição de suas histórias, De livro para livro seus recursos retóricos de linguagem cada vez mais se tornam visíveis naquele aspecto pelo qual a obra de criação literária se pode caracterizar como de qualidade, cuja porta de entrada e de saída é o cuidado com a linguagem, com a adequação da palavra ao tema, espaço, enredo, ideologia, esquema temporal, cortes, ou seja, com o conjunto dos elementos estruturais íntimos indissociáveis da engenharia de construção ficcional, cuja base de sustentação é o processo de ficcionalização da linguagem. Não há ficção sem a trama da linguagem, como bem advertiu recentemente em palestra o crítico e teórico Eduardo Portella. Uma história não pode ser contada somente com o recurso da língua, que é a manifestação geral do pensamento, mas não da emoção estética só fruída pela linguagem como criação e mimesis, tomando este último termo no sentido aristotélico.

É o que Ribamar demonstra na feitura destes contos: linguagem literária a serviço de uma variada temática na qual situações da vida de pessoas simples ou menos simples são flagradas com uma verossimilhança tão convincente que seus protagonistas, adultos e crianças, velhos e jovens, brancos, mulatos ou pretos, íntegros ou canalhas, valentes e covardes parecem saltar vivos na configuração físico-visual e moral, enfim, cúmplices no estabelecimento do pacto com o leitor. Estes flagrantes dramatizam situações do cotidiano de uma galeria de personagens enfrentando os momentos de alegria, tristeza, desencanto, dor e agruras da vida severina, mostrando-nos suas fraquezas, seus segredos e suas emoções, seu sensualismo, suas traquinices infantis, suas vilanias e também sua amizade, sua solidariedade. Seus desfechos,  plenos de humanidades, por vezes são inesperados, trágicos, humorísticos, tragicômicos.

Li   este conjunto de histórias, excetuando os dois contos inéditos já citados, em diferentes tempos, contudo,  não me deixaram  agora  com  a sensação do déjà-vu vu e, desta maneira, me pareceram praticamente como se fossem lidos pela primeira vez, pelo menos a maioria. Reunidos num só volume, os contos ganharam uma unidade geográfica e regional, ao convergirem para o mesmo espaço e para o tempo das histórias no passado, aproximadamente remetendo às décadas de quarenta, cinquenta e sessenta. Talvez só escape desses tempos recuados, o conto “Cadê o carro?”(p.186-192), a se ver por algumas indicações pontuais presentes na narrativa.

Daí terem alguns desses contos um traço diferenciador na sua construção : o viés memorialístico ou autobiográfico (de resto, bastante explorado por alguns ficcionistas contemporâneos, juntamente com o filão do romance histórico) implícita ou explicitamente definidos no discurso ficcional confirmado pelo narrador em primeira pessoa, em treze contos, em contraste com vinte contos com narrador em terceira pessoa. Neste grupo podemos citar contos como “Ao lado do Velho Monge” (43-47), no qual o narrador-autor é protagonista da história, aliás, uma história relatando a saga do avô do autor, homem destemido, aventureiro, íntegro, que ficou ao lado dos maragatos contra os “chimangos” ou “pica-paus” na Revolta Federalista do Rio Grande do Sul, no período do governo de Floriano Peixoto (1891-1894). Este dava apoio aos chimangos. Em outro conto, o mais extenso da coletânea, “Outro cavaleiro - do dia e da noite”(p.140-160), a história fala das peripécias do pai do autor, seu ídolo de todos os momentos. Este conto talvez seja o ponto alto de todos os textos do livro, sendo a narrativa exemplo de elaboração formal-técnico-estilística .

As aventuras do Seu Assis, um pai batalhador, corajoso, homem de bem, é relatada com mão de mestre pelo escritor. Narrativa movimentada, percorrendo vários espaços do interior do Piauí através de uma viagem de vapor com destino a Teresina, lugar que se tornará seu destino fixo e onde desenvolverá a atividade de comerciante como dono de uma garapeira. De resto, a saga de Seu Assis se encontra bem desenvolvida com mais aprofundamento na obra Entardecer ( Litteris Editora, Rio de Janeiro, 2007), sobre a qual escrevi um ensaio à época de sua publicação.

Para o leitor que não conhece o Brasil literário, esta é uma oportunidade de conhecer os costumes, a flora, a fauna, os meios de produção urbana e rural, a natureza diversificada, os relacionamentos sociais e familiares, enfim, a paisagem física e humana piauiense, a riqueza léxica do linguajar local, suas notações fônicas, expressiva, empregadas não ao modo de Guimarães Rosa (1908-1967), que não é este o objetivo estético do autor cuja narrativa tem como núcleo formal o componente de narrar histórias, de contar experiências de vidas e conflitos humanos, seja pelo imaginário, seja pela via memorial ou autobiográfica segundo  já acentuamo.
 Daí em suas obras, assim como nesta coletânea, usar o autor de digressões de fundo histórico, literário, sociológico, de registros de épocas do passado piauiense. Nos contos há profusão de referências a tipos de moradia, a descrições precisas da paisagem natural e cultural urbana ou interiorana, a nomes reais, lugares reais, anotações pitorescas do folclore, incluindo adágios, canções populares, frases sentenciosas, mitos, assombrações etc. Por outro lado, não se pense que o autor seja apenas aquele bom contador de histórias e causos, tão frequente  na literatura do país. Ribamar Garcia tem plena consciência de seu trabalho literário, de seus meios expressivos, de suas estratégias de narratividade. Haja vista aquela passagem do conto já mencionado, “A tentação de Nazaré”, na qual o narrador-memorialista fez alusão à sua própria atividade, a prováveis motivações de ter se tornado escritor, raízes da memória da infância que surgiram a partir do talento da negra Nazaré para contar histórias que deslumbravam a imaginação e a curiosidade infantil. O escritor nunca é um ingênuo do ponto de vista de seu aprendizado técnico.

Se a linguagem literária é o carro-chefe da produção estética, seja pela composição sintático-estilística, seja pelo influxo poético-lírico que lhe permeia alguns contos com maior intensidade, seus relatos concisos, dinâmicos,  nos quais o autor dá testemunho de ser criativo na arte de narrar curiosas, irônicas, humorísticas situações embaraçosas da vida com espontaneidade, como no último conto do livro, “Almoço de domingo”(193-196), com aquela história da galinha que serviria de almoço para a família e que caiu na latrina da casa.  Nem o mau cheiro de merda impediu de, depois de limpa, ser servida como almoço em tempos de falta de carne na cidade. Uma das linhas de força do autor está na capacidade de montar seus enredos e em criar personagens verossímeis.

Outro fator determinante do bom nível destas narrativas reside no complexo e difícil uso do tempo ficcional – pedra de toque da ficcionalidade. Nele Ribamar Garcia lida com desembaraço, especialmente pelo recursos das anacronias e bem assim do meticuloso cuidado com os cortes indicativos das mudanças de cenários ou de espacialidade,  esta última um traço forte de sua obra. Um narrador não bem informado sobre o que o cerca, um narrador não observador, não  atento a todas as referencialidades físicas, humanas, visuais, sonoras, táteis, jamais se torna um bom escritor. O que não é o caso de Garcia, um homem ávido de viagens, de movimentos, de informações, de convívio social, de observador da rua e do mundo. Não procurou os meandros da literatura de ousadias formais. Procurou, no entanto, encontrar os meios da linguagem transparente mas cheia de virtualidades de quem aprendeu a escrever ficção.