domingo, 31 de agosto de 2014

Seleta Piauiense - Jamerson Lemos


Um soneto

Jamerson Lemos (1945 - 2008)

vou fazer pra você um soneto
rimado, consoante o seu olhar
de avenca e musgo do pomar —
mestiço escuro noturno preto.
um soneto solto, lírico no ar,
pétala-ninfa, luz no alto-mar,
lâmpada azul a clarear do teto
à cama — lâmpada-luz-objeto. 
pra você e esses seus cabelos.
                 belos.

pra você.
um soneto rimado de sorrisos,
pequenina barca — S.O.S.
estou nu,                            vê?     

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Winston Roosevel: um artista da escultura piauiense

 Cunha e Silva Filho

 Talvez desconhecido em partes do Piauí, quiçá até na capital,  Teresina,  Winston  Roosevelt, completou,   neste mês de agosto,  setenta anos. Ele nasceu em Amarante,  em  2 de agosto de 1944.Temperamento   visceralmente  de artista,  na vida boêmia que levou  na juventude e na mocidade, um lado dele permaneceu  constante e renitente:  produzir  esculturas, trabalhar com o bronze, ou outros meios  usados  pela escultura,    dar vida  a seres, mortos ou vivos,  dependendo  do que  lhe possa chegar como  encomenda.

 Um autodidata,  que nasceu  para dar formas  à figuras  humanas,  animais ou  qualquer  que seja o objeto ou o ser criado. Formas de arte que me comovem pela perfeição  dos traços,  dos detalhes, das linhas,  do conhecimento  da  anatomia humana, da perfeição  artesanal que mãos habilíssimas   da matéria amorfa transmudam em obras de arte perduráveis, soprando  vidas a latejarem  do silêncio  da beleza  imóvel.Um grande   artista é um  observador   privilegiado  da matéria  física e da dimensão  humana. Contudo,  não se pode negar que  a escultura  é uma  arte  da qual não pode  ficar ausente a dimensão   espiritual, não puramente   por imitação dos seres que  têm ou tiveram  vida, .mas por  recriação  sob  o comando  da  ação e potencialidade do artista que detém os meios  natos  e  aperfeiçoados  pela experiência no seu ofício.

 Ninguém  lhe  ensinou a pintar,  a desenhar e sobretudo a esculpir. Tudo lhe  veio  da predisposição  inata às formas  plásticas. Desde  criança,  ainda nos primeiro anos da adolescência,  meu  irmão  Winston Roosevelt já  surpreendia a todos nós  com seus inúmeros  desenhos a carvão  de figuras  humanas  feitas  nas calçadas  ou numa simples folha  papel   num canto de um quarto das residências em que moramos nos anos  cinquenta em Teresina...

Inteligência  incomum,  memória  grandiosa,  criatividade  para   até  inventar   textos ficcionais na memória  e que, ainda hoje,  provavelmente,   ainda  consegue   relembrar parte deles.

Na escola,  não foi  bom aluno, queria mesmo era brincar, namorar as  belas morenas   do Ginásio  “ Des. Antonio Costa”( o “Domício,” dos irmãos  Magalhães, de saudosa  recordação). Vaguear, deambular    pelas praças  da capital,   numa vida que se aproximava   dos  pícaros espanhóis. era um traço seu. Nunca se adaptou  aos  regulamentos   dos  colégios e da  disciplina escolar. Estudou  o ginásio no Domício, do qual  foi  colega meu de turma.Ainda  se matriculou no Liceu Piauiense para cursar o científico,  mas largou  logo no primeiro ano.O que desejava mesmo  era  aventurar-se  pelas ruas de Teresina,   fazer amizades. Meus pais  é que nunca viram bem isso. A vida artística, porém,   não  deixou de lado. Creio que  sempre lhe foi a principal   meta de vida, com todas  as  dificuldades que atravessou e com todas  as possibilidades que perdeu por ser  pessoalmente  desorganizado e viver  a “dolce vita” do presente. A Arte o chamava apesar da boêmia,   das   noitadas  etílicas, dos amores   passageiros,   dos cabarés,   dos becos  ocultos  da velha  Teresina.

Nos anos  sessenta,  esteve  por um ano no Rio de Janeiro, quando  eu já aqui  iniciava minha vida  de estudante me preparando  para a universidade.  Na grande Cidade  Maravilhosa,   Winston, como era de  se esperar,  não se adaptou,  não se firmava em  trabalhos   com rigor de horário.  Sua alma é de boêmio e suponho que ainda o seja apesar dos cabelos brancos,   do cansaço dos anos  e  de se tornar  avô  e pai de  muitos filhos.

Winston é um talento que  não teve a chance  de  se aprimorar nos grandes centros urbanos do Rio de Janeiro, São Paulo e mesmo  europeus.Talento  e engenho sempre os teve e muito. Sei  que, ao longo dos anos,  com  uma vida de dificuldades,  ainda conseguiu  produzir  um bom número de esculturas. Poderia estar economicamente bem se não  tivesse esse temperamento   dado  à boêmia, gastando  o que  tem e não tem, e, assim,  sempre ficando  em agruras  financeiras. Uma vez,  concitei os irmãos  a fim de  que pudéssemos ajudá-lo, mas  não pude  contar  com o a minha proposta.

Talvez, se tivesse tido uma  melhor orientação   familiar,   estaria  numa posição  mais visível  no mundo artístico, mesmo   se considerarmos  só  o Piauí.

Dei-lhe  muitos conselhos em cartas para Teresina. Contudo,  o seu temperamento   artístico  é rebelde. Segue o seu próprio  impulso.Foi a sua escolha  de vida e também  o  quinhão que recebeu  de  suas próprias ações, algumas erradas, outras certas.. Ninguém nunca  haverá de entender a alma dos artistas, os seus modos  pessoais de encarar a vida,  a sua eterna  condição  de  ser um  indivíduo  diferente, não adaptável  às formalidades   da sociedade, aos seus mecanismos   ocultos, indevassáveis,  e ao mesmo  tempo  injustos. 

Só sei que  meu  mano Winston   atinge seus setenta anos e, se os meios culturais locais,  não lhe deram  maior   visibilidade e maior  destaque,  da minha parte  de simples observador da vida cultural,  não paira  dúvida alguma de que  Winston  Roosevelt  seja um  grande  artista piauiense. Sua  esculturas,  suas hermas,   suas figuras humanas ou de outra natureza, em tamanho normal,  certamente estão espalhadas em  residências ou  outros lugares de Teresina, ou mesmo  no interior  piauiense.        

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

A menina que roubava livros


A menina que roubava livros

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

             O romance do premiado escritor australiano, Markus Zusak, seduz adolescentes, graças à inclusão da obra em alguns currículos escolares ou à interpretação para o cinema. Clássicos brasileiros parecem fora de moda; professores mal leem e conseguem interpretar Machado de Assis. Encostam-se apenas nos resumos.

         Durante a Segunda Guerra Mundial, uma garota, Liesel, abandonada, sobrevive, miseravelmente, fora de Monique, através de livros que rouba para estudar. Ajudada pelo pai adotivo, aprende a ler e partilhar livros roubados com seus amigos. Conduta reprovável, porém prazerosa, pela oportunidade de colecionar amigos para leitura e estudo, em busca de sentido da existência. Conquista um jovem judeu, que vive na clandestinidade em sua casa, no fundo de um porão. Um afeto que enche as páginas de ternura. Liesel, através da leitura, tenta amenizar a solidão do judeu.

         Não me interessa desfiar comentário sobre o romance de Markus Zusak. Chamou-me a atenção, digamos assim, o hábito pecaminoso de uma jovem ladra. Que pecado? Roubar livro para aprender ler, trocar ideias, conquistar amigos e horizontes de cultura?

         Que apareçam mais ladrões de livros para estudar. Assaltar para se curar da ignorância. Um livro, a melhor arma de fogo. Um estudante a mais, um bandido a menos. “Assalto! Deitem-se no chão, seus irresponsáveis! Quero livro! Quero aprender! Quero ser gente do bem, uma existência condigna!”

         Imagino delegacias e presídios obrigando detentos a ler, premiando-os com diminuição da pena a cada livro acompanhado de avaliação escrita. Começar por um livro da Bíblia, outro de história de heróis e vencedores ou de autoajuda. Nada de livros político-ideológicos com prontuário esquerdista.

         Já apliquei a receita aos estudantes bagunceiros. Punição com leitura, depois, redação. Os pais adoravam o santo remédio. Nada de expulsão de classe, suspensão e similares atitudes ridículas e humilhantes.  Meus filhos queriam sair para baladas nos finais de semana. Permissão garantida, mas acondicionada à leitura de matérias interessantes acompanhadas de comentário escrito. Mão na massa, ainda no início da semana. Ver novelas, sim, mas tinham de comentá-las por escrito.  Nenhum precisou de psicólogo por alguma mágoa, bullying. Ou de médico para exame de pressão e fezes. Práticas da leitura entre os jovens, e os presídios se esvaziarão, a vida terá mais sentido.         

terça-feira, 26 de agosto de 2014

MEMORÁVEL ESTUDANTE AMARANTINO


MEMORÁVEL ESTUDANTE AMARANTINO

Luís Alberto Soares (BEBETO)

Lourival de Vasconcelos dos Santos Júnior, natural de Amarante, nasceu em 31/10/1974, filho do casal amarantino Lourival de Vasconcelos dos Santos, pintor e ex-jogador de futebol e Maria José da Silva Santos, professora aposentada da rede estadual de ensino (PI), residentes em Amarante. Lourival Júnior também era venerado de Júnior do Louro e permanece muito lembrado por milhares de amarantinos.

Muitos dizem que ele foi iluminado por DEUS para cumprir uma breve missão em Amarante. Nosso CRIADOR o levou para seu REINO em 13/10/1990. Quem conheceu Lourival Júnior sabe, tratava-se mesmo de um prodígio aclarado por DEUS. Nas suas primeiras palavras demonstrava uma criança diferenciada. Algo em comum acontecia com ele. Tinha a facilidade rápida de aprendizagem. Nas suas primeiras aulas escolares causou espanto nos colegas e professores por sua facilidade de assimilação.  Era considerado por muitos um superdotado.

No antigo primário e Ginásio “Da Costa e Silva” (Amarante), dominava com precisão todas as disciplinas e, nas provas mensais, sempre obteve 10, nota máxima da época. A mesma nota aconteceu no seu 1º Ano, na Escola Técnica Federal do Piauí (Teresina), interrompida pela gravidade de sua saúde. Comprovadamente, o memorável Lourival Júnior, o melhor aluno de Amarante de todos os tempos.

Tratava-se ainda de um amarantino obediente, compreensivo, respeitoso, educado. Gostava da leitura e de transmitir seus valiosos conhecimentos escolares a todos que lhe procuravam. Segundo seus simpáticos pais, Lourival Júnior, sabia que sua missão na terra estava chegando ao fim e, por vários momentos, consolou seus genitores dizendo: “são coisas da vida. Com certeza, partirei jovem para a vida eterna. Temos que nos conformar”. DEUS o tenha.        

domingo, 24 de agosto de 2014

MÍSTICA


MÍSTICA

           I

Elmar Carvalho

Arrebatado por um carro de fogo
eu próprio em fogo transformado
os céus galguei
as fúrias todas como louco aplaquei
e a escada cintilante de Jacó
passo a passo subi.
Devassei as vísceras mecânicas
da baleia do profeta
e a gênese do primeiro
átomo desvendei.
Penetrei o caos primacial
e o primeiro vagido
da vida escutei.
E Deus estava lá
por trás de tudo:
logo após em regressão
a explosão do átomo  primordial.      

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A ILHA DO SONHO E DO ENCANTO


A ILHA DO SONHO E DO ENCANTO

                          Elmar Carvalho

De súbito o velho e empoeirado ônibus deixou a esburacada estrada carroçável e entrou por uma vereda de chão desnudo.
Quando dei por mim o veículo mergulhava num abismo. Só que em vez de despencar adejava suavemente. A paisagem, algo surreal, era de uma beleza jamais vista.
As árvores, de variados tamanhos, eram muito vivas, bem verdes e brilhantes, de diferentes formas e folhagens, luxuosas, luxuriosas, luxuriantes, e se embalavam e acenavam e bracejavam, movidas por vontade própria, interagindo com a gente.
Embora sentado numa desconfortável poltrona eu tudo via, com impressionante facilidade. Só agora me causa espanto como é que de uma estreita janela de um anacrônico veículo eu pudesse ter aquela visão  panorâmica.
Vi uma caprichosa escultura, criada aparentemente pela natureza, através do cinzel da chuva, do vento e do tempo, feita de areia suspensa no ar, formando arcos de uma gruta e desenhando góticas estalactites. Surpreendentemente a matéria arenosa parecia macios e diáfanos flocos de nuvens, até mesmo pelo fato de que pairava sobre a orla do lago, sem necessidade de escoras e esteios, com os seus arabescos e rococós.
Na verdade essa gruta era o pórtico de entrada, por onde o ônibus passou, que dava para um lago de estranha água levemente azulada e fosforescente, e efervescente como se nela houvera mergulhado um imenso Sonrisal, na qual nadavam uns graciosos peixes, multicoloridos e fosfóreos, sobre a qual passávamos, em verdadeira levitação. Nas rochas que emergiam do líquido elemento pousavam cândidas sereias, algumas metade peixes e outras metade pássaros, todas de voz maviosa e alucinante. Tinham esplêndida forma e exuberantes seios divinais, esculpidos com perfeição natural, e não bombados a silicone.
Sem se saber como, surgiram grandes e magníficas esculturas, que pareciam de terra, mas que eram ao mesmo tempo de cobre e ouro, de perfeição nunca vista. Eram grandes e estranhas formas, sem pedestais, completamente soltas no ar. Lembravam estilizadas catedrais, suntuosas mesquitas, altíssimas torres e minaretes, encarapuçados nas nuvens.
As casas e castelos não pareciam obra de arquitetura, mas bizarras e belas criações de um escultor genial e maluco. Genialmente maluco.
As próprias montanhas e colinas pareciam pertencer a uma outra dimensão ou a um estranho planeta, em suas formas inimagináveis e brumosas.
Num dado momento tive medo de que o ônibus despencasse e fizesse um fatal mergulho na fosforescência mágica daquela água. Com o meu pânico o ônibus começou a cair, mas imediatamente recuperei minha fé e ele passou a flutuar sobre a efervescência da água, mais suavemente que um veleiro. Depois, alçou vôo novamente.
Quando menos esperei começaram a passar grandes e desengonçados pássaros, semelhantes aos da pré-história, contudo de suave e elegante vôo, em que planavam fazendo as mais esquisitas e belas coreografias que meus olhos já viram, na verdade um alucinante balé, sob a regência de um pássaro-rei, o uirapuru talvez daquelas criaturas, que entoava um canto, sublime e inaudito e inefável, que acaso se rivalizava com o coro dos anjos e arcanjos, por nós (in)imaginados.
Não sei bem como -  o tempo e o espaço não faziam nenhum sentido - me encontrei caminhando por estreitas e tortuosas ruas daquela ilha. A luminosidade era frágil, frígida, fosca, furtiva, como se não fosse nem dia nem noite. Uma lua de cristal, próxima e grande, emitia sua pálida e prateada luz. Estrelas brilhavam, estranhamente próximas, com muita intensidade e rápido piscar. Tinham variadas formas e cores, e se movimentavam em labiríntico bailado. Cometas circulavam, movimentando a cauda, como descomunais cabeças-de-prego, mais rebolantes que uma top-model, deslumbradas e deslumbrantes sobre a passarela. O céu era furta-cor. Na verdade, tudo aquilo mais parecia um gigantesco e mágico caleidoscópio.
A suavidade permanente do vento era talvez um sopro de Deus. Refrescante. Revigorante. Extasiante. Nele se pressentia uns leves laivos de cor e substância. Quase se podia retê-lo entre os dedos. Deixava uma sensação de paz e beatitude.
Como se estivessem saindo de um templo e fizessem parte de uma invisível quermesse, vi várias pessoas, de ares estranhos. Solenes e severas. Passei por elas e as contemplei muito bem. Contudo, elas pareciam não me ver e eu não as conseguia tocar. Para minha perplexidade, algumas eram pessoas amigas, já mortas, mas que ali estavam bem vivas, metidas em elegantes fatiotas. Não me percebiam e nem me ouviam, por mais que eu me esforçasse para ser notado.
Novamente, sem que eu me desse conta, estava novamente a voar, dentro do velho ônibus, como se estivéssemos retornando. Passamos por esculturas de grandes animais - elegantes elefantes, belos búfalos, girafas, alvijubados leões, encouraçados rinocerontes, imemoriais dinossauros, unicórnios lendários - sem asas, mas de voo glorioso. Depois, percebi que elas ganharam vida e se esgarçavam no ar, como fiapos de nuvens e gazas.
A paisagem mudou. De repente. Agora eram vastos tabuleiros, de terra revolvida, como se tivesse sido arada, mas cujos sulcos formavam estranhas pinturas geométricas e ao mesmo tempo abstratas. Uma dessas telas era um gigantesco tabuleiro de xadrez, em que cupins erigiram, de modo pertinente, perfeitas peças em forma de torres, cavalos, reis e rainhas, que se moviam por vontade própria, como se formassem dois exércitos em acirrado combate.
De súbito, acordei assustado. O ônibus havia estourado um pneu e levantava um forte e vermelha nuvem de poeira. Estávamos, ao alvorecer, em plena e plana paisagem dos cerrados piauienses.
Estávamos a caminho da longínqua e bucólica Ribeiro Gonçalves, recortada pela sinuosidade do “Velho Monge” e pelas colinas que a emolduram e engalanam.           

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

AMARANTE, CHÃO DE CULTURA


AMARANTE, CHÃO DE CULTURA

Luís Alberto Soares (Bebeto)

           Encontros Culturais – Os Encontros Culturais de Amarante tem a sua origem na criação do Grupo Teatral Nasi Castro, em 1976. Tendo como o principal idealizador, o professor e jornalista Vírgílio Queiroz com o apoio de Luís Alberto Soares, Zulmira Bezerra, Socorro Leal Paixão, Antonio Alves (falecido), Ocirema Ribeiro, Chuegas Del Manelito (falecido), Pio Vilarinho, Raimundo Alves, entre tantos outros. Em 1980, praticamente sem o apoio do poder público, o Grupo Teatral Nasi Castro promoveu a 1ª FEIRA DO POVO DE AMARANTE. Foi algo extraordinário! Para a ealização do evento, os integrantes do referido grupo teatral saíram de casa em casa pedindo contribuição em alimentos para atender as exigências básicas para a alimentação dos grupos teatrais de todo o estado piauiense que se encontrava em nossa cidade. Esse momento pode ser considerado o marco inicial dos encontros culturais. Foi, nesta época que o Mimbó foi mostrado para o mundo, através de um artigo publicado pelo Jornal da Manhã, através do saudoso jornalista Paulo de Tarso Moraes, com a participação de Orlando Portela, Luiz Brandão e Virgílio Queiroz (todos, atualmente jornalistas). Devido o sucesso da 1ª FEIRA DO POVO DE AMARANTE, Virgílio Queiróz foi procurado pelo emérito professor Noé Mendes – grande amante da cultura popular piauiense que, ao lado de figuras brilhantes, como da professora Verônica Ribeiro, propôs um projeto ousado – a criação do 1º Encontro Cultural de Amarante. Tudo certo. A festa foi grandiosa! Um projeto gigantesco que envolveu a Universidade Federal do Piauí, a Fundação Cultural do Piauí, o Governo do Estado, o Ministério da Educação e, praticamente todas as cidades da região do Médio Parnaíba. Foi a maior festa cultural do Piauí, na época. Para se ter uma ideia: todas as hospedarias de Amarante ficaram lotadas, sem contar as pessoas que ficaram lotadas na União Artística Operária Amarantina, Ginásio Da Costa e Silva e Casas residenciais. Em 1981, a Prefeitura Municipal de Amarante, governo de Emília da Paixão Costa (Bizinha), promoveu a 1ª Semana Cultural de Amarante, realizada com sucesso na Praça Padre Virgílio. Em 2009, 2011 e 2013, a Prefeitura Municipal de Amarante (governo de Luiz Neto), através da Secretária de Cultura e Turismo, promoveu na Avenida Desembargador Amaral, o XV, XVI e XVII ENCONTROS CULTURAIS.

Destacável grupo. Amarante, considerada referência Cultural do Piauí, nestes últimos anos, vem desenvolvendo expressivas ações culturais, tendo como exemplo, o “Ponto de Cultura” (ESCOLA DE MÚSICA PARA A VIDA), amparado pelo MEC e FUNDAC, vinculada à Associação dos Moradores do Bairro Escalvado, também apoiada pelo Ministério da Cultura. A referida associação vem resgatando e motivando a Cultura para todas as classes sociais amarantinas, abrindo espaço também para realizações de oficinas artísticas e técnicas às crianças, jovens e adultos. Em março de 2012, o Ponto Cultural contribuiu com um documentário em vídeo, “Auta Rosa”, lançado pela “Associação Cultural dos Amigos de Amarante” com a participação de atores amadores e voluntários de Amarante, retratando a história da “Finada Auta”, considerada santa amarantina. O sucesso do Ponto de Cultura deve-se ao um grupo de gestores: Bertoldo Neto, Solimar Miranda, Selma Alves, Emília Ribeiro, Danilo Costa, Rosemary Ana, Valdemar Santos, João Barbosa, Maura Regina, Raimundo Rabelo e Francisca Araújo

Grupos teatrais sempre se destacaram na cultura amarantona. Arquivos de historiadores apontam que em 1919, foi organizado o Teatro São Gonçalo, em uma das casas da Rua Abdon Moura, dirigido por um grupo de senhoras da elite amarantina. As apresentações teatrais comoviam muito o povo. Este grupo marcou história. Surgiram outros importantes grupos, como exemplo, o Grupo Teatral Nasi Castro e Grupo Amarantus. ovens estudantes amarantinos inspirados numa peça teatral apresentada em Amarante por um grupo de Teresina, formaram o Grupo Teatral Nasi Castro (GRUTENATRO), como forma de homenagear a saudosa historiadora Raimunda Nonata de Castro (Nasi) que se sentiu comovida no dia da estréia do grupo, 04 de agosto de 1975, no Amarantino Clube, onde houve relevantes homenagens à escritora amarantina e ao aniversário de Amarante. O Teatro Nasi Castro sempre foi sucesso. Participou de grandes festivais em Teresina e se exibe em outras cidades. O teatro também apresenta folclore de Amarante e outras manifestações culturais. O grupo foi regularizado com a formação de diretoria e registro em Cartório. Os pioneiros desse empreendimento foram: Luís Alberto dos Santos Soares, José Virgílio Madeira Martins Queiroz, José Neto de Sousa e Zulmira Bezerra. A primeira peça apresentada nessa nova fase foi “Os olhos que eu matei”, com atuações de: Virgílio Queiroz, Socorro Paixão, Ocirema. Luís Alberto, além de diretor, foi ator em uma peça – “A farsa do advogado”. O ponto alto do Grupo Teatral Nasi Castro se deu com a apresentação da peça “A volta do Filho Pródigo”, no Theatro 04 de Setembro, em 1977, sendo os componentes aplaudidos de pé. Na oportunidade o grupo recebeu o título de melhor figurino do festival. Atores e atrizes da peça: Virgílio Queiroz, Chuegas Del Manelito, Raimundo Alves, Oliveiros, Ely Sibita, Chico Noca, Anileide Veloso, Pio Vilarinho Júnior.

   Anos depois da criação do GRUPO TEATRAL NASI CASTRO, um grupo de professores, estudantes, teatrólogos folcloristas, formaram o Grupo Teatral Amarantus, fundado no dia 25 de junho de 1991, com comovente apresentação teatral em Amarante. A criação do grupo deu-se através de uma oficina de teatro, ministrada pelo tea6trólogo Raimundo Dias (falecido) da FETAPI e da folclorista e atriz Zulmira Bezerra, a popular Sibita. O Grupo Teatral Amarantus fez várias apresentações em várias cidades, especial-mente em Floriano e Teresina onde participou de festival de teatro amador e conseguiu importantes troféus. Um dos seus principais trabalhos é a peça "Amarante nossa de cada dia" (roteiro de Selma Bustamante e Josélia Soares). A peça retrata a história de Amarante do início do povoamento aos dias atuais. Foi apresentada várias vezes em Amarante e em outras cidades, na década de 90. Em 2010, foi encenada, com autorização do Grupo Amarantus, por alunos da Unidade Escolar Polivalente, da rede estadual de ensino. As adequações para essa apresentação foram feitas pela professora Selma Maria Alves de Jesus e pelo coreógrafo Valdemar Carvalho.

            Amarante possuiu um riquíssimo folclore considerado pelo saudoso professor Noé Mendes, como um dos mais puros do Brasil. Amarante recebe quase que diariamente visitas de pessoas interessadas em pesquisar as manifestações populares que se apresentam espontaneamente nas danças: Cavalo Piancó, no Pagode, especialmente o do Mimbó, nas Doze Danças Portuguesas, Rodas de São Gonçalo e de São Benedito, Coco Peneruê, Danças do Balaio e das Peneiras, e muitas outras. Tem também as narrativas e lendas contadas que são nos terreiros das casas da zona rural do município.

Cavalo Piancó - Um dos destaques do folclore piauiense é uma forma de coco que surgiu às margens do Rio Canindé, local da tradição do plantio nas vazantes. Não se sabe ao certo a data do surgimento e nem o autor desta dança popular genuinamente amarantina. Atribui-se que o Cavalo Piancó é originário da comunidade Veredinha. Nos arquivos dos grandes historiadores de Amarante, encontra-se registrado que nas noites enluaradas, quando se vigiavam as plantações, rapazes e moças, para afugentar o sono, entretinham-se com a brincadeira. Dançado aos pares, cavaleiros e damas em círculo, imitando o trote de um cavalo manco. Os cavaleiros trocam de damas e seguem o enredo dançando e cantando. O Cavalo Piancó é conhecido em vários lugares do território nacional e exterior. Divulgado nas grandes emissoras de rádio e televisão, nas importantes revistas e jornais. Já se apresentou em outros Estados. Participou há mais de 30 anos atrás de um festival de folclore do Norte e Nordeste do Brasil na Capital Maceió. Em 1982, o Grupo de Teatro “Nasi Castro apresentou-se em São Luís, na 4ª Mostra de Danças do Norte e Nordeste, no Teatro “Artur Azevedo”, com várias manifestações, entre elas o “Cavalo Piancó”. A atriz Zulmira Bezerra, a popular Sibita, há longos anos, vem sustentando esta tão apreciada dança folclórica.

         As Doze Danças Portuguesas, folclore originado de Portugal. Em Amarante, tornou-se tradição há muitas décadas, geralmente bem apresentadas nos momentos culturais de nossa cidade e nos encontros folclóricos de outros lugares. A folclorista e atriz Sibita diz por aí afora que As Danças Portuguesas, sempre foram bem representadas e muito aplaudidas, especialmente nas apresentações em Teresina. Sibita, uma das maiores colaboradoras da cultura de Amarante, ultimamente vem se preocupando com a preservação de nossa riqueza popular, ela fala que é necessário mais incentivo das autoridades governamentais.

Pagode de Amarante é uma cultura rotineira, exibida tanto na zona urbana como na rural. O pagode de Amarante é convidado a se apresentar em várias cidades da região, especialmente nos grandes encontros culturais de Teresina, ultimamente representado pelo Pagode do Mimbó. Esta cultura é originada do território africano, cantado e dançado por escravos que viviam em Amarante. Hoje, todos participam desta cultura milenar. Na realidade, o Pagode amarantino se destaca pela sua grandeza animadora e beleza coreográfica e de compasso encantador. como “Gonçalo Urubu”. Não conseguimos a sua letra. Em 1959 e 1960, com participações de pessoas de Floriano, foi encenada a manifestação dos CONGOS, com grande aceitação. Em 1961, os irmãos Marcos e Gonçalo Pio, que haviam participado desta brincadeira, levaram-na à festa do Centenário da transferência da Sede da Freguesia e Vila de São Gonçalo, para Amarante, por solicitação do Padre Isaac José Vilarinho (hoje, Monsenhor), então vigário da cidade.

Reis de Careta – Cultura popular secular de Amarante, especialmente na Zona Rural. Este folclore é apresentado anualmente, do Natal ao Dia de Reis, 06 de janeiro. Há vários grupos no município. Eles são formados com poucas personagens: um ou dois violeiros cantadores; um batedor de pandeiro; dois homens com máscaras no rosto (caretas), trajados de roupas velhas remendadas e até rasgadas, paletó preto, gravata e chibata comprida. Eles são cômicos e incluem termos satíricos; Burrinha - trata-se de um homem com um esqueleto de buriti enfeitado de papel de cor rosa e espelhos, conduzido entre suas pernas como se ele tivesse montado no animal.  Às vezes, há outra figura dramática que faz a função de Maracanã ou Merequenen. Os Reis de Caretas cantam até por longas noitadas em várias casas, havendo antecipadamente uma combinação. Sempre acontece em suas exibições, participação de mulheres nas cantorias. No ato do evento, os folcloristas colocam lenços nos ombros dos donos das casas e recebem contribuições em dinheiro.

O Reisado e as Pastorinhas apresentavam-se em Amarante no fim de dezembro e começo de janeiro. O grupo era composto de cigana, rainha e pastora. Dançavam nas residências com bailados e belas canções, acompanhadas da orquestra. Era formado por moças de nossa cidade que participavam espontaneamente. Arrecadavam dinheiro para a Igreja Matriz de São Gonçalo ou fins filantrópicos. Era bonito, romântico e divertido. Ainda hoje essa tradição é mantida até com a participação de crianças.

Os Marujos foi um folclore trazido para nossa cidade por um senhor de São Pedro do Piauí que tinha parentes no Bairro Areias, segundo o saudoso Francisco Félix da Silva (Chico Félix), pai dos irmãos, Doquinha, Tetê, Verana, Reis e Manoel Felix. O popular Chico Felix disse ainda para várias pessoas que este folclore veio de Fortaleza – Ceará. Os Marujos de Amarante sempre foi representado pelo Bairro Areias por longos anos. Este folclore foi esquecido por um período, mas, hoje estão resgatando esta tradição.

 Os Congos - Cultura popular que foi muita praticada em Amarante, durante anos através do folclorista conhecido Reisado das crianças e adolescentes - Recentemente resgatado por Maria das Dores Batista da Silva, a popular “Dora do Afonso da Churrascaria Ipanema”. Um show de dança e cântico. Esse encantador folclore vem se apresentando com sucesso em Amarante, graças à boa vontade desta incansável amarantina, uma amante da nossa cultura popular. São 22 crianças e adolescentes do sexo feminino que com competência revivem essa antiga cultura que se encontrava esquecida. O reisado é composto de personagens: Ciganas, Rainha, Estrela, Rosa, Cravo, Amor Perfeito (camponesa), Galegas (adoração do presépio), Borboletas e do carneirinho, companheiro das Galegas. Apresentação: 06 de dezembro a 20 de janeiro. As baixinhas dão um show mesmo.

Bumba-Meu-Boi ou simplesmente O BOI. Era uma das mais animadas festas da cidade. Numa tarde de final de semana se programava a morte do Boi. A multidão se aglomerava num curral improvisado. Cedo da noite, farta comida para os convidados e em seguida festa dançante com música ao vivo até o dia amanhecer. Registrado na memória do povo e nos arquivos históricos de nossa gente, os “BOIS” de Antônio Ribeiro (falecido), Paulo Pereira (falecido), popular Dinga (falecido), Pedro Gregório (falecido) e o da Veredinha. Nestes últimos anos, esta tradição amarantina está sendo apresentada, até fora de época, pelos populares Manoel Senhor e Afonso Ti-ti-ti (Velho dfo Rio).

Roda de São Gonçalo é uma tradição religiosa. Conforme os arquivos de NASI CASTRO, a letra desta cultura adquirida pelo Padre Isaac Vilarinho (hoje Monsenhor Isaac), então vigário da Paróquia de São Gonçalo, com Dona Maria das Dores da Anunciação – Dora do Geraldo Rezador – e foi cantada por um grupo de moças na festa comemorativa do 1º Centenário da transferência da sede municipal e paroquial ocorrida em julho de 1961.

Roda de São Benedito - novena, dança e cântico em homenagem ao Santo. Há décadas uma tradição religiosa em Amarante. Depois dos atos religiosos, muitos se organizam em roda para fazerem coreografia simples num ritmo bem marcado. São formadas duas fileiras de homens e mulheres, para dançar e cantar com acompanhamento de violas, em torno de um altar improvisado.

Dança do Balaio - Folclore, esquecido em Amarante. Foi muito exibida em apresentações culturais escolares e em outros movimentos da nossa cultura, nos anos 70. O Balaio - dança e música, abrange duas fases, a antiga que o nordeste, da Bahia ao Maranhão, conheceu durante um século. E a posterior ou moderna, a partir de 1946, que atingiu todo o Brasil e se projetou no exterior. Em Amarante, a dança foi apresentada pela primeira vez na Unidade Escolar Luís Mendes, Bairro Areias, em 1970, através da professora Iracema, diretora daquele colégio na época, com os ensaios da folclorista e atriz Ely Sibita, que era inspetora da unidade escolar. Houve uma pequena modificação na letra da música de O Balaio, executada somente por cânticos e coreografia dos participantes, sendo que os dançarinos iam ao centro de um em um, até que o grupo se reunisse.

Dança das Peneiras - Folclore adaptado em Amarante, baseado na Dança do Café. Não havia no Brasil, nem mesmo em São Paulo, estado cafeicultor por excelência, uma dança que se prendia ao círculo do café: plantio, carpa, poda, colheita. No entanto, sabe-se que agricultores paulistas apresentavam uma dança que reproduzia as várias fases do plantio do feijão, desde a aração de terra ao ensacamento (cereal). Depois, os cafeicultores a improvisaram para a comemoração da sua colheita. A dança tornou-se popular em Amarante, através das apresentações culturais em colégios da cidade. Diz a folclorista e atriz Ely Sibita que houve uma ajuda da saudosa Ione Silveira na música e letra do folclore, no momento, esquecido.

        “Dança da Rasteira”.  A folclorista e atriz Zulmira Bezerra (Sibita) conta que na década de 50, em Amarante, ocorria anualmente uma brincadeira muito engraçada no Bairro Cajueiro, pronunciada como “Dança da Rasteira” e “Tambor de Crioula”, comandada pela inesquecível amarantina Ovídia Maria Feitosa, popular Santa Vieira. Tratava-se de um bailado com característica do tradicional folclore Pagode de Amarante. Os dançarinos se movimentavam em pares (homens e mulheres) com muito gingado e sapateado circulando um pau grosso fincado no terreiro da casa da saudosa Santa Vieira, no qual havia um músico sentado nele, cantava e tocava num tambor.  Qualquer distração dos dançarinos, as dançarinas aplicavam-lhes “rasteiras” desconcertantes e, por diversas vezes, eles caiam esparramados no chão. O público soltava longas gargalhadas e fazia chacota deles.

Dança do Tiroli – Trata-se de um bailado muito animado onde o sapateado se faz presente ao som de várias músicas ao vivo através de sanfoneiro, cantores. Participação de jovens dançarinos de vários os sexos. Uma espécie de quadrilha junina, parecida com as “Danças Portuguesas”. Vale esclarecer que a acalorada dança foi vista no município de Angical do Piauí pelo professor e folclorista amarantino, Raimundo Dias da Costa. Ele adaptou outros ritmos e cânticos na Dança do Tiroli para um grupo folclórico do povoado Conceição, Zona Rural de Amarante. Constantemente, um grupo folclorista daquela comunidade se apresenta em manifestações culturais da região. Segundo o saudoso professor Noé Mendes, a expressão cultural Dança do Tiroli, é de origem indígena.

Coco Peneruê - Outra cultura popular de Amarante, esquecida. Dança muito exibida na cidade na década de 70. Conhecida em outros lugares do nordeste como Coco do Sertão. Folclore com característica dos Cocos antigos, como sejam: formação em roda, sapateado, umbigada, colocação dos pares vis-à-vis, aspectos estes comuns aos Cocos alagoanos. A dança tem movimentos circulares ora apresentados pelos dançadores girando em torno de si, ora descrevendo pequenos círculos entrelaçados, ora progredindo e girando ao mesmo tempo, dando a impressão de roda viva, a movimentar-se incessantemente, rodopiando e girando. Nesta versão de roda apresentada em Amarante, os dançadores cantam o refrão e não há solistas.

          Há vários grupos folclóricos no município de Amarante, na Zona Urbana e Rural. Por exemplo: Grupos de Teatros: Nasi Castro e Amarantus, que também apresentam danças folclóricas. No bairro Cajueiro há um grupo que proporciona o “Cavalo Piancó Mirim”; Pagode Mirim e Grupo de Pagodeiros do povoado Periperi; Grupo Folclórico das irmãs (professoras), populares Mariquinha e Mundinha; Tiroli, Reisado de Careta, danças apresentadas por grupos dos povoados Conceição. Na comunidade Mimbó tem vários grupos de danças: Dança de Rua, Reggae, Pagode e Dança Afro.

Carnaval antigo - Os registros dos historiadores apontam que o carnaval antigo de Amarante era uma brincadeira grosseira. Por volta de 1923, essa festa popular foi melhorando nas atitudes dos foliões. Nesse período, no jardim da praça da matriz, hoje Praça Padre Virgílio Madeira, houve uma batalha de confete, serpentina e lança perfume, foi um sucesso. “No domingo antecedente ao carnaval, à noite, apresentava o Zé Pereira. Senhores, rapazes, senhoras e moças da sociedade, usando roupas antigas, saiam em grupo, montados em jumentos, de costas para a cabeça dos animais, portando lanternas feitas de buriti, forradas de papel de seda com velas acesas dentro. Participavam do grupo com uma orquestra percorrendo as principais ruas da cidade, tocavam e cantavam”.

        Carnaval atual – Nestas ultimas três décadas o carnaval de Amarante tomou outra direção. Em julho de 1997, o Bloco carnavalesco Prabadalar, ligado ao Jockey Clube, promoveu na Avenida Desembargador - Centro, o primeiro carnaval fora de época denominado de MICARANTE. Foram duas noitadas de grande público e muita animação. No mesmo mês e local, a Prefeitura Municipal de Amarante, governo de Dr. Adoniais Prestes, promoveu a AMAFOLIA. Particulares estão mantendo anualmente, no mesmo período e lugar, o carnaval fora de época. Em 2010, esta festa popular, aconteceu na Avenida Dirceu Mendes Arcoverde – Centro. No 2º governo de Dr. Miranda (2002 a 2005), com o incentivo do professor Virgílio Queiroz, na época, Secretário Municipal de Cultura, a prefeitura deu início ao patrocínio anual do carnaval de período tradicional na Avenida Desembargador Amaral para todas as classes sociais: 04 bailes noturnos e dois vesperais (baile das crianças). A partir da prática desse evento popular em vias públicas, o habitual carnaval dos clubes, foi extinto.

          Lendas, crendice de milhares de amarantinos.

           O Capa Verde - Dizem que no fim dos tempos, o suposto “Capa Verde” sairá pelo mundo distribuindo dinheiro. Com a nova lei que dá direito aos trabalhadores rurais, o saudoso Senhor Zeca Moura procurou o inesquecível Senhor José Sabino de Sousa e deu-lhe instruções para entrar no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Amarante, que depois ele se aposentaria. Não houve quem o fizesse, porque acreditava que este dinheiro é do “Capa Verde”.

           Caipora - Lenda sempre contada em Amarante por velhos caçadores, que o diga o ex-caçador, popular Genésio Moriço, um dos maiores conhecedores das matas da região e de plantas medicinais. Segundo ele, o Caipora é um protetor das caças e que dificilmente aparece para o caçador, mas gosta de marcar presença invisivelmente quando ele sente coisa que não é do seu agrado, especialmente quando se procura caça de quinta para sexta-feira. Genésio afirma que já se deparou com o Caipora por diversas vezes. Ele é um homem preto do tamanho de um anão e gosta de fumo de corda. Genésio Moriço diz ainda, que trinta anos atrás, um de seus cachorros levou uma grande surra do Caipora porque ele estava caçando no dia da noite que o suposto Caipora mais evita a caçada. O cão passou sete dias sem comer e nunca mais quis acuar caça.

Lobisomem - Outra lenda que faz parte da cultura popular de Amarante. É uma metamorfose de lobo e homem, que agride as pessoas em lugares escuros. Uns dizem que o lobisomem é uma espécie de ser humano coberto por uma grande capa, outros falam que o bicho é todo cabeludo. O cabo Caetano, o popular Tita, diz ter deparado com um grande lobisomem, trinta anos atrás, na ponte do rio Canindé e, com um facão, travou uma briga com o suposto animal, botando o bicho para correr. O radialista Carlos Alberto disse há poucos anos atrás, numa madrugada, surgiram uivados estranhos nos arredores do bairro Alto Alegre. Ele atribuiu isso a uma suposta aparição de um lobisomem.

Cabeça de Cuia - Segundo historiadores, esta lenda partiu de ribeirinhos do Rio Poti. Em Amarante ela é dançada e cantada. Dizem que o “Cabeça de Cuia” costuma aparecer nas enchentes dos rios Parnaíba, Poti, Canindé e Mulato. O empresário de transportes fluviais, popular Miguelinho (pai do professor Demir), que se encontra com saúde debilitada, disse em várias ocasiões para historiadores e pessoas comuns de Amarante, que já ouviu muitas pessoas ribeirinhas dizer que já viram o “Cabeça de Cuia” nas águas de nossos rios. É uma história de um pescador (Crispim) que agride a sua mãe com uma ossada devido não ter a alimentação por ele desejada na mesa e, por isso, recebe um castigo de se transformar em um monstro que viverá eternamente no rio até que consiga devorar sete moças virgens.

O Carneirinho de Ouro da Serra de São Francisco do Maranhão. Esta lenda é contada com detalhes nos arquivos da saudosa NASI CASTRO. “Os antigos contavam que existia uma corrente de ouro que ligava o morro de Amarante à serra de São Francisco do Maranhão, passando por baixo do rio Parnaíba. Na serra de São Francisco havia um carneiro de ouro, encantado, que tinha uma estrela na testa e às vezes corria de um lado para o outro da serra esperando que alguém encontrasse a corrente para desencantá-lo. Diziam que ouviam um berro do carneiro”.

“Mãe D’agua” - Lenda muito comentada em Amarante. Dizem que foi uma moça que se encantou. O físico é de uma mulher de altura normal, bem alva, cabelos compridos e pretos, o seu pente é de ouro; gosta de sentar-se em pedra grande no rio, ou em poço, e quando o rio é pequeno, ela gosta de subir pelo meio do rio. Salva qualquer criança, mesmo já grande, o custo é achar de jeito e ser pagã”. A folclorista Sibita diz conhecer muita gente que afirma ter visto a Mãe D´agua nos rios Parnaíba, Canindé e Mulato. Ela diz ainda que há longos anos atrás numa grande enchente dos rios Parnaíba e Canindé, surgiu em Amarante um grande surubim de escama que chegou assustar banhistas e pescadores. Afirma que chegou à nossa cidade um mergulhador profissional de muito longe para constatar a existência do inédito peixe. Ele descobriu uma loca profunda partindo do antigo “Porto do Quartel” até debaixo da Igreja Matriz de São Gonçalo.

Gambirra - Há mais de 30 anos atrás, comentava-se muito em Amarante do aparecimento de uma figura estranha e monstruosa nos arredores de nossa cidade, apelidada de Gambirra. O saudoso Pedro Antônio Gramoza contava com detalhe a suposta aparição do monstro que deixava muitos apavorados. Diziam que o Gambirra tinha o formato de um esqueleto humano e uma altura de aproximadamente, seis metros. Diziam ainda, que ele atravessava a BR 343 numa só passada e provocava acidentes nos carros que trafegavam na velha estrada.

A folclorista e atriz Zulmira Bezerra, a popular Sibita, é também contadora de histórias tenebrosas. Diz que em Amarante, às margens do rio Parnaíba, existe uma lontra que costuma botar o povo para correr. Segundo ela, trata-se de um animal encantado e já foi vítima da fúria dele. Diz ainda que a suposta lontra fica furiosa com as pessoas somente no período de lua cheia ou se o pescador tiver pescando muito peixe.

Besta-Fera tornou-se uma lenda de Amarante. “A Besta-Fera é voraz, porém está presa e quando se solta vai devorar gente. Ela come, mas não se farta, devora o que encontra, tem preferência pelos amancebados, principalmente se são compadres, por isso nos dias grandes da Semana Santa, os que vivem dessa vida de pecados separam-se com medo da Besta-Fera. Na casa em que a Besta-Fera chegar e tiver o Coração de Jesus na parede, ela volta da porta. Ela também não anda em casa que tiver desenho de uma cruz nas portas e janelas e nem em casas cujas portas sejam de esteiras, porque as palhas são cruzadas”. A saudosa beata “Paixão do Vilô” dizia que a assombração também matava no susto. Conforme ela, era costumeiro compadre ou comadre amanhecer morto por causa da aparição do monstro.

         Mulhar Misteriosa é uma suposta alma penada que anda pedindo carona de carro e motocicleta na BR 343, nas proximidades da cidade de Amarante. Segundo Vitoriano, trata-se de uma jovem muito bonita que morreu de acidente rodoviário na popular ladeira do “Felinto Moreira” - entre Amarante e Regeneração, em consequência da colisão de um automóvel e um ônibus há 17 anos atrás. Vários motoristas e motoqueiros de Amarante e de outros lugares comentam terem dado carona para a mulher misteriosa.  Vitoriano, Zé do Estevão, Marcos Venícios, Zé Piulino e o professor Adriano da Guia, acolheram a suposta alma penada nos seus transportes. O radialista e ator, Josemar Coelho, o popular “Chibio”, contava uma interessante história. Ele dizia que uma linda jovem lhe pediu carona na saída de Amarante quando ele se dirigia para Teresina. Tratava-se de uma mulher muito bonita, possuidora de um perfume embriagador, como nunca ele havia sentido. Ao chegar à cidade de Água Branca, ele avisou à jovem que iria a um bar na esquina e voltaria em poucos minutos. Ao voltar, para sua surpresa, a mulher havia sumido. Perguntou às pessoas que estavam nas proximidades e ninguém sabia. Um moço que estava sentado em um banco, disse: “que mulher? Você chegou aqui sozinho! Eu até disse, esse homem deve estar é doido, falando sozinho!”. Josemar nunca mais quis viajar só e nem dá carona para mulher em beira de estrada.

Mulher dos dentes de ouro. Esta suposta criatura continua aparecendo na BR 343.  Populares dizem que a suposta aparição ocorre com frequência nas proximidades da Parada do Cego deste município. Poucos anos atrás, o radialista Josemar Coelho, vulgo Chibio, que sempre noticiava na Rádio Cidade Azul, depoimentos de pessoas afirmando terem visto a “Mulher dos Dentes de Ouro”, passou uma noitada na região para verificar o que realmente estava acontecendo por lá. Surpreendentemente, Chibio quando se encontrava de frente à casa de um velho conhecido, se assustou com uma espécie de jumento se espojando no chão e gemendo com fala estranha. Não era a mulher dos dentes de ouro e sim a “Mula Cinzenta” que, conforme moradores da região, tratava-se de um homem que vivia maritalmente com uma filha deficiente mental.
Animal estranho - Surge em Amarante comentário da aparição de um grande animal estranho. Dizem que é um bicho cabeludo e assustador, aproximadamente do tamanho de um jumento médio, com característica de uma porca. O simpático “Riba do Cícero Casadinho” já ouviu rumores de coisas estranhas próximo ao seu terreno (Bairro Limoeiro). Ele reafirma o que os outros dizem: o animal solta esturros e fede muito. Por onde ele passa, fica o cheiro insuportável que demora por muitos dias.

Textos do livro: AMARANTE, PERSONALIDADES E FATOS MARCANTES  

terça-feira, 19 de agosto de 2014

O que o governo federal deixou de fazer para o bem do povo


O que o governo federal deixou de fazer para o bem do povo

Cunha e Silva Filho

Estamos quase em plena campanha pela corrida presidencial  no país. Os candidatos  mais   conhecidos e com maior  índice  nas pesquisas  de  eleitores não irão perder  oportunidades de levantar  questões   urgentes  para   tornar a vida do brasileiro menos dolorosa em alguns aspectos cruciais: violência,  saúde (pública  e privada), transporte, educação.   De propósito,   a ordem  em que  essas questões prioritárias  aqui são  mencionadas se refere ao descaso   com que  vêm sendo  tratadas  pelo  governo da  Presidente Dilma Rousseff.  Por outro lado,  é de se assinalar a  posição   privilegiada da candidata  à reeleição nos índices  de  aprovação   do  povo.

Claro  é que,  estando   no  primeiro lugar    na preferência das pesquisas, há um  contradição que  é preciso  elucidar: o grande   número de eleitores da Sra. Dilma Rousseff faz parte  dos que são beneficiados  pelo  programa   social do  Bolsa Família, reforçado  pelo    nível   de   consciência  política   do povo brasileiro,  que é baixíssimo, sobretudo no  interior do país, de Norte a Sul, mas em particular no  Nordeste. Esse  é o grande  trunfo   da atual   Presidente  a despeito  de todas  as mazelas que  continuam  castigando  os brasileiros  na  sua  totalidade,   ou seja,  considerando  os níveis  sociais mais baixos.se excetuarmos a questão da criminalidade, a qual  afeta igualmente as classes mais elevadas.

A arraia-miúda não quer saber  se houve mensalão,  se foram   bem  julgados seus responsáveis, se há outros  escândalos  ainda  entranhados no seio  da administração  pública  brasileira. O povão quer mesmo  é  se assegurar de que o país  ainda  tem   futebol, praia, mulheres  bonitas,  samba,  baile funk, rap, carnaval e outros   derivativos  para  as suas deficiências   de cidadania.  Quer dizer,  se não  falta   esse lado  hedonista,   o país vai andando  com pernas   bambas, mas ainda  assim satisfeito e até esquece  que os hospitais públicos   estão arrasados, que os ônibus  são  armas  mortais,  que  a escola pública   é feita  só   para  pobres e, de forma  geral, é  deficiente.O populacho  não  quer saber se o governo  é da direita, da esquerda  ou de qualquer  outras     orientação  ideológica.

Enquanto isso, as elites, em cada  estado  brasileiro,    vivendo  do melhor,   nas grandes  festas, nos  melhores hotéis,  nas viagens  ao exterior,  com seus saldos  bancários  sem limites   de saque  pouco  estão se lixando  para o zé-povinho que,  desde tempos imemoriais, desde o   Brasil Colônia, nos dois  impérios e nas fases  diferentes da República,  sofre  na cabeça e no corpo  e teima em ser  subserviente  ao poder   instituído.As classes dominantes  quase nada se  diferenciam  entre si e em qualquer  parte do mundo.

Agora,  um  problema  de alta prioridade  está desafiando  os potentados e o resto da  população  brasileira: a a violência  desenfreada que não livra ricos, pobres  e miseráveis, numa  grau de  epidemia   que se   alastra pelo  país afora, tanto nas capitais quanto nas cidades. De outra parte,  os  órgãos de segurança   não estão dando conta    desse  descontrole  de agressividade  que campeia entre nós. Arrisco-me a afirmar que  o nosso  país  é, em certos aspectos da  criminalidade,  o mais violento do mundo e é voz corrente que,  se no Brasil,  não temos  ainda  guerra civil,  as estatísticas de assassínios são  de longe  bem superiores  a países em  guerras civis. Isso é monstruoso, e monstruoso principalmente se  levarmos em conta  que  os criminosos  não  têm  respeito mais  pela  polícia, pelas autoridades de segurança, pelas forças armadas.

O pior é que  a criminalidade aqui, que ceifa inocentes,  jovens,  crianças, adultos e  idosos, ainda conta com  um  grande  auxílio dentro das própria  estrutura   da legislação penal  brasileira: a impunidade. Ora,  sabendo alguém  que, se cometer um  crime,  do mais leve ao mais  abjeto,  não  é  punido com  a força da Lei,  a cultura do crime  se fortalece,  tem seu   vasto campo livre para comprar armas  de países   fronteiriços  sem que  as autoridades  brasileiras  do setor de  segurança  tomem  posições   rigorosas  contra  os  malfeitores.

Num país como  o nosso  com  instituições já criadas pelos sistemas democráticos e em funcionamento,  é muito estranho que as soluções para  a escalada da violência  diuturna  no país nunca  se configurem  de modo  eficiente e não produzam resultados  duradouros.  É preciso ainda   acentuar  um outro  tipo de crime deletério  e abominável: o do enriquecimento  ilícito, aquele  proveniente  de superfaturamentos,  de propina, de licitações  fajutas,  de formação de quadrilhas de colarinho branco.

 Por exemplo, durante  todo  o período  do governo  Lula  e da sua sucessora, o que se tem visto é  amais despudorada  sequência  de   denúncias contra  gente ligada ao poder  político atual. Tem-se, assim, a impressão de  que nosso  homens  públicos  em geral  são formados  de   gente  sem caráter  e lapidado  com cinismo   sem  limites,  ou seja,  cometem   desídias envolvendo  dinheiro   do Erário Público  como se fossem  criminosos   explodindo  caixas eletrônicos em todos os rincões do país, notadamente, agora,  em cidades   do interior. 

Ora,  a se manter  uma situação   de imoralidade administrativa, em vários setores  do governo federal  e dos governos estaduais e municipais, agravada  com atos de vilania  administrativa  além-fronteiras (caso da  refinaria de Pasadena, de denúncias  de  contas   ilícitas  em bancos suíços etc.),  o pais vai  chegar a um  ponto   insuportável   e o resultado  de tudo isso  será   sentido nas urnas  e nas  manifestações  em praças  públicas.

O país, com todos  esses  agudos  e escabrosos   problemas,  não vai aguentar-se como nação.Ou teremos  homens  de grande  espírito democrático no poder, ou seremos uma  nação  sem futuro.

NOTA: Ao concluir este artigo,  acabo de  ver aqui mesmo  na internet que o  candidato  pernambucano à Presidência da República, Eduardo Campos, 49 anos,  morreu hoje de manhã em acidente  de avião. De minha parte,  envio à família dele as minha   sinceras  condolências, porque esse jovem  político, que concedeu  entrevista ontem  mesmo à noite, no Jornal Nacional,  me passou uma boa impressão com suas  ideias,  propostas  e  intenção  de  realizar  um governo  de melhoria   para o  Brasil, de ser um  homem  equilibrado,  amável  e de grande futuro  para a política  brasileira. O país fica mais  triste  e sem esperança.Que Deus o tenha e lhe  conforte os familiares em face  desta dor imensa.      

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

TERESINA

Maira, prefeito Firmino Filho e o homenageado Reginaldo Miranda


TERESINA

Reginaldo Miranda
Membro Titular da Academia Piauiense de Letras

Teresina é fruto de dois movimentos políticos que agitaram a província do Piauí durante meados do século XIX. Um na vila do Poti, capitaneado pelo vigário Mamede Antônio de Lima, visando transferir a sede municipal para terreno mais plano, arejado e salubre, a fim de fugir de doenças que atacavam a população ribeirinha por aqueles dias; outro, liderado pelas autoridades provinciais, desde o segundo governo da capitania, de Gonçalo Lourenço Botelho de Castro, passando por Dom João de Amorim Pereira e José Antonio Saraiva, visando retirar a capital do Piauí, do árido sertão para ponto mais estratégico. Então, a ideia abraçada pelo presidente Saraiva, uniu-se ao sonho do padre Mamede, resultando na fundação de uma nova cidade, que recebeu o nome de Teresina, homenagem à imperatriz Teresa Cristina.
De imediato, a nova cidade sediou a vila do Poti e a capital da província. A fundação foi oficializada em 16 de agosto de 1852.
Portanto, Teresina já nasceu predestinada a comandar, a ser o centro político, econômico e social do Piauí. Fundada na Chapada do Corisco, entre as matas ciliares do Parnaíba e Poti, mais tarde receberia o codinome de cidade verde, pelo poeta Coelho Neto. Verde, esperança de novos tempos, logo arrebataria de Caxias a preponderância do comércio no médio sertão do Piauí e Maranhão, cumprindo, assim, outro de seus objetivos.
É a primeira capital planejada do Brasil, sendo também a primeira cidade construída em traçado geométrico.
Por sua posição geográfica, é uma cidade mesopotâmica, situada entre os rios Parnaíba e Poti, que se abraçam formando o parque Ambiental Encontro dos Rios, na antiga vila do Poti, hoje bairro Poti Velho, anexado à nova cidade, com seu crescimento, em meados do século passado. Como paisagens naturais, pode-se citar ainda, o Parque Zoobotânico e a floresta fóssil do Poti. Como não poderia deixar de ser, em seus rios habitam lendas, como a do Cabeça de Cuia, tão conhecida de nosso povo.
A tradição da gente piauiense está presente em suas comidas típicas, a exemplo do baião-de-dois, da Maria-isabel, do beiju, do cuscuz e de bebidas como a cajuína, tão nossa.
O labor de seu povo obstinado transformou a pequena cidade de Saraiva numa metrópole com moderno e complexo centro de saúde, que atrai pacientes de todas as partes do norte e nordeste do Brasil. É, também, um atraente centro de negócios.
Teresina hoje tem hotéis que não deixam a desejar, centros culturais e educativos, modernos shopping centers e tudo o que há no mundo moderno. Mas não podemos deixar de lembrar do velho Troca-Troca, mercado de escambo da população local, onde dinheiro não entra, apenas a troca de mercadorias e produtos.

É esta a cidade em que cheguei ainda na adolescência, vindo do sul do Estado. E aqui construí a minha vida: estudei, me iniciei em muitas coisas, namorei, casei, lutei, exerço a minha profissão, amealhei alguma coisa, plantei árvores, constitui família, fiz amigos e escrevi livros. Sinto-me à vontade, é a minha casa. No dia de seu aniversário a cidade me reconhecerá, outorgando-me a sua comenda maior, com o nome do fundador. Obrigado Teresina.    

domingo, 17 de agosto de 2014

Seleta Piauiense - Herculano Moraes


A canga-o Boi

Herculano Moraes (1945)

A canga e o boi
na alternância
de quem soluça
um tempo imaginário.
                        
A canga e o boi
vaga lembrança
de um mundo
sempiterno e vário.

A canga e o boi
legenda esmaecida
na face opaca
de um tempo sem medida.
A canga e o boi
gravura como (vida)
filete sanguíneo na face
da memória... diluída.
                          A canga...
                          O boi...

Os sulcos perenes,
de rodas ringindo
na pele do tempo.
                       A canga...
                       E o boi?   

sábado, 16 de agosto de 2014

Fantasmas do velho Balneário dos Diários



Fantasmas do velho Balneário dos Diários

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail

Fantasmas, fantasias oníricas de viciados em drogas, inumeráveis pichações e imundície velam o antigo casarão de dois pavimentos, abandonado na Praça Ocílio Lago, onde funcionava o Balneário do Clube dos Diários, no Jóquei. Só os despojados, como o idealista, advogado, escritor e jornalista, Kenard Kruel, topariam a proeza de resgatar o prestígio do vetusto patrimônio, transformando-o em centro de manifestações artísticas.  E o show já começou. Exige apoio de autoridades e amantes das artes. Kenard iniciou a limpeza, atende compromissos no local, organiza arquivos da Fundação Nacional de Humor. O médico José Aírton juntou quatrocentos amigos, festejou seu aniversário ali, conseguindo 12 mil reais para a instituição. Construtoras prometem reformas.

A Fundação Nacional de Humor projeta, para breve, show e escola de humor na praça, museu de arte contemporânea, além de festivais de cartuns, caricaturas, quadrinhos.

A geração atual pouco ou nada sabe sobre aquele bucólico prédio e sua praça, urbanizada há algum tempo. A tarefa inicial de Kenard Kruel já espantou boa parte das miragens e lucubrações.

         Entre as décadas de 1950 e começo de 60, o Bairro do Jóquei praticamente não existia. Imensa floresta cobria quase toda a Zona Leste de Teresina. Só a velha ponte de madeira, onde, hoje, se ergue a Ponte Wall Ferraz, servia de passagem sobre o Poti. Construiu-se outra ponte, a Juscelino Kubistchek, de concreto, na segunda metade dos anos 50, ligando a Avenida Frei Serafim à Zona Leste. Coronel Miranda, proprietário do jornal O Dia, juntou grupo de notáveis amigos, fundaram o chique Jóquei Clube, com manhãs dominicais lotadas de banhistas, além das corridas de cavalos e tertúlias semanais. Endinheirados adquiriam lotes enormes e arborizados, construíam modernas residências, desfrutavam a noturna temperatura serrana.

O Jóquei Clube atraiu expressivos associados do Clube dos Diários. Em resposta, líderes diaristas, comandados por Moisés Cadah, doutor João França, Edgar Nogueira, general Gaioso, Durvalino Couto, João Carneiro e Camilo Santos Hidd, fundaram o Balneário Clube dos Diários, que se estendia da atual Praça Ocílio Lago à Avenida N. S. de Fátima, onde se ergue um supermercado. Duas piscinas e bar ocupavam o segundo pavimento do prédio. Aos domingos, música ao vivo. Filhos de sócios iam do centro da cidade, de ônibus, lotavam o balneário a partir das 9 da manhã de domingo, até 2 da tarde. Certa manhãzinha, ainda escura, Hermínio Conde, neto de Antonino Freire, governador no início do século XX, dirigiu-se ao Balneário ainda deserto. Num salto do trampolim, faleceu.  Meu cunhado Marcos Hidd, filho de Camilo Santos, parece delirar, recordando um tempo, quando Teresina começava a se esbaldar nos recentes balneários, Jóquei, Diários, logo mais o Iate Clube. Ainda se curtiam deliciosas manhãs, nas praias alvíssimas e límpidas águas do Poti e Parnaíba.   


A Fundação Nacional de Humor tenta resgatar alguns sonhos que se perderam com o crescimento e modernização de Teresina. Se não cuidar, fantasmas e fantasias oníricas cuidarão do lixo.     

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O SOLDADO “CANINANA” E A CUMBUCA DE OVOS

Foto meramente ilustrativa

O SOLDADO “CANINANA” E A CUMBUCA DE OVOS

Jacob Fortes

Numa localidade erma, encravada no vazio do sertão Euclidiano, existia uma vila conhecida originalmente por Água de Dentro, cujos habitantes, custodiados por uma miséria tão coletiva quanto próspera, eram pessoas simples que viviam da terra e dela tiravam o seu sustento. Décadas depois, Água de Dentro ascendeu à condição de cidade, desta feita sob a denominação de Riacho da Aurora.  Aliás, foi na capela do Riacho da Aurora que se verificou, segundo o folclorista “Leota”, o mais áspero exclamar de satisfação por parte de um caboclo que acabara de casar-se no religioso; casamento às pressas com dispensa dos proclamas. Ao ouvir o oficiante proclamar: “eu vos declaro marido e mulher”, e querendo reiterar à esposa o irresistível enlevo de tê-la desposado, exclamou o marido apaixonado, no mais genuíno estilo Romeu e Julita, às avessas:
— Zefinha, ou bom ou mau, a desgraça tá feita!

Agora que deixei escorrer sobre esta página essa invulgar declaração de amor, travestida de desmesura, retomo o curso da história.

Numa casinha rústica da região interiorana do Riacho da Aurora residia uma viúva, Dona Etelvina, e seu único filho, o Quincas, apelidado de Quinzin. Sempre acompanhada de Quinzin, Dona Etelvina, semanalmente madrugava em direção à feira do Riacho da Aurora para aprovisionar-se de açúcar, querosene e outros mantimentos próprios da despensa de que quem, pobríssimo, habitava os sertões distantes. Para custear essas aquisições levava uma cumbuca cheia de ovos de cocar, (entenda-se, por igual significado, guiné, galinha-d’angola, etc.). Certo dia, aos sete anos de idade, Quinzin presenciou, na feira, um alvoroço de grande intensidade demarcado por uma correria estrepitosa e um vozear de “pega-ladrão”. Era o polícia, Libório Sombra do Norte, o temido soldado “Caninana”, encalçando um carteirista que havia pilhado a bolsa de uma mulher, transeunte. A detenção do pilhante se deu defronte ao Quinzin e sua mãe, momento em que “Caninana”, que também era delegado, era a lei e era tudo, algemou o larápio, a pulso.     A cena fez imprimir na memória de Quinzin não exatamente o semblante do soldado “Caninana”, mas a cor do seu uniforme, cáqui: que avultava o temor da sua pessoa. Quando eventualmente alguém, trajando cáqui ou assemelhado, se aproximava da casa de Quinzin, ele mocozeava-se no íntimo da residência para não deixar-se ver.

O tempo passou e certo dia Dona Etelvina, enfermada, pediu a Quinzin, agora com doze anos, que fosse à feira em busca dos víveres levando, obviamente, a moeda de troca: a cumbuca de ovos. Quinzin retorquiu alegando que tinha medo de soldado, que tinha medo de ser preso. Dona Etelvina, então, para convencê-lo ao seu propósito lhe fez promessa de comprar algo e Quinzin acabou por aceitar a incumbência. Porém, sugeriu Quinzin, pegaria o caminho que perpassava o velho prédio da estação ferroviária, lugar de pouca movimentação. Sucede que em virtude de noticioso caso de furto de umas ovelhas “Caninana”, na madrugada daquele dia, acampanou-se justamente no prédio, em ruína, da estação ferroviária. Como o sol já resplandecia no cume das sete horas e, até então, nenhuma evidência do ladrão de ovelha, “Caninana”, tresnoitado, subitamente abandonou o esconderijo no justo momento em que Quinzin passava com a cumbuca de ovos. Ao defrontar-se com o soldado Quinzin, tomado de um medo que lhe fazia acelerar as batidas do coração, entregou a cumbuca ao “Caninana” dizendo:
— “Taqui que mamãe mandou pro sinhô”.

“Caninana”, abraçado à enorme cumbuca, que continha uma grosa de ovos, manteve-se estático e em silêncio sem saber o que fazer nem o que dizer. Enquanto isso Quinzin corria de volta para casa, prestes a regurgitar o coração, temeroso de que alguma necessidade expulsória do seu corpo aflorasse, sem o competente alvará de soltura ou carta de alforria, e viesse macular a sua modesta roupa de rapazola, “cabra-macho”.