sábado, 31 de janeiro de 2015

Corso, desfile de muitos significados


Corso, desfile de muitos significados

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Quando se aproxima o carnaval, Teresina engalana-se para o corso, hoje considerado mais numeroso e festejado do mundo. Pouca gente, porém, especialmente a galera jovem, que se rebola nos caminhões e no asfalto da Avenida Raul Lopes, desconhece as origens do termo e seus múltiplos significados. Vale a pena uma viagem no corso da História.

         Córsega, ilha de 170 km de litoral, no centro do Mediterrâneo, milhares de anos de história, dominada por povos invasores. Atualmente, pertence à França. Corso, quem nasce em Córsega. Napoleão Bonaparte era corso. A famosa ilha de deslumbrante natureza e intenso turismo, construía navios de guerra com madeira de suas florestas, que partiam, enfileirados, contra navios mercantes e piratas. Começa bem aqui o significado de corso: pilhagem, pirataria, e, por analogia, desfile de carros. Significa também raça de cachorros Cane Corso, rara no Brasil, excelentes guardiães e protetores.

         No final do século XIX, começaram a aparecer os primeiros blocos carnavalescos no Brasil, já comuns na Europa. Populares, fantasiados e irreverentes, desfilavam nas ruas e formavam cordões e corso (forma afrancesada de courso). No início do século XX, a filha do presidente Rodrigues Alves desfilou, vaidosamente de automóvel, na avenida lotada de foliões, dirigiu-se ao palanque do pai. Pronto, nascia a moda do corso com carros alegóricos.

         Em Teresina, o corso com automóveis e caminhões lotados de foliões, vem desde a década de 1950, quando os poucos endinheirados possuíam carro de passeio. O corso não antecipava o carnaval; integrava os dias demomo. O exibicionismo começava na Rua Paissandu, circulava a Praça de São Benedito, seguia a Frei Serafim, à direita, retornando pela Rua Coelho Rodrigues. Pobres agrupavam-se nos blocos de sujos e desfilavam a pé, sem quebra-quebra. Apenas a tolerante aspersão de pós, ovos e urina, sem briga, nos carros que desfilavam.

         Belas prostitutas dos finos cabarés da Paissandu incorporavam o corso, ocupavam carrocerias de caminhões e participavam da festa. Marmanjos ricos e fiéis fregueses patrocinavam a festa por trás da hipocrisia social.

         Corso lembra a fúria dos guerreiros de Córsega contra navios piratas. Lembra raça de cães. A atual cultura do corso, se não disciplinada pelo prazer sadio, sem drogas e excessos no beber, pode resultar em trágica experiência. No corso de Teresina, início dos anos 70, uma garota desequilibrou-se no jipe aberto, na curva de São Benedito, caiu, indo a óbito. Ainda hoje, parentes da moça não mais se deleitam em carnaval. O universitário Iwahsi, São Paulo, participou de corso, 2010, em seguida, encontrado morto em córrego, por coma alcoólico. No corso de 2014, em Teresina, a polícia registrou queda de folião exaltado da carroceria de caminhão. Em fevereiro de 2012, em São Paulo, 14 estudantes universitários foram indiciados pela morte do estudante Bruno Cristiano, durante corso. Não relato trágicos episódios com propósito de estragar festa popular e democrática. Todavia festejar como canes corsos ou piratas indomáveis, a conta do prazer sai cara como a vida.      

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

A FESTA DO DR. LUCAS DO VALE



Elmar, Lucas e Zé Francisco Marques

29 de janeiro   Diário Incontínuo

A FESTA DO DR. LUCAS DO VALE

Elmar Carvalho

Neste sábado, dia 23, fomos, a Fátima e eu, à festa de formatura do Luquinha, cujo nome completo é Lucas do Vale Teixeira Cunha. Seus pais são José Francisco e Lindalva, que foram durante muitos anos vizinhos de meus pais. Dr. Lucas, ao lado de seus pais e do irmão Leandro, recebeu com estima e fidalguia seus primos, parentes e amigos.

O baile de formatura da turma de Medicina Uninovafapi 2014.2 aconteceu no Atlantic City. No camarote de nosso anfitrião foram servidos fartos e variados tipos de bebidas e iguarias, e ainda foram distribuídos alguns brindes de lembrança. Ali estive com o amigo Zé Francisco Marques, sua mulher Rosinha, e seus filhos Jackson e Júlio, velhos amigos do novo médico. A noite não nos poderia ser mais propícia e melhor, pois realmente houve confraternização, e saudável e sincera alegria.

Lucas, desde criança, sempre foi um estudante excepcional, e sempre esteve entre os melhores alunos das turmas de que fez parte, tanto que por suas excelentes notas no ensino médio (2º grau) recebeu bolsa integral do ProUni. Fez um curso de Medicina de forma brilhante, em que ficou demonstrada a sua invulgar habilidade de cirurgião, de técnica perfeita e exata.

Não por acaso, um dos mestres com quem estagiou já lhe fez convite para integrar a sua clínica e equipe. Não resta a menor dúvida: esse “menino” vai longe... Certamente, fará jus ao nome que tem. Segundo o longo romance Médico de Homens e de Almas, de Taylor Caldwell, Lucano ou São Lucas teria sido um dos maiores médicos da antiguidade, tanto por sua perícia médica, como por sua bondade e fama de milagroso, além de haver sido o evangelista de estilo mais apurado, segundo os exegetas das Escrituras.  

Minha amizade com os pais de Lucas, Zé Francisco e Lindalva, data de 1995, quando meus pais voltaram a morar em Campo Maior, vindos de Parnaíba, e fixaram residência bem perto da casa e do comércio deles. Estive na mercearia do amigo Zé Francisco várias vezes, quando ia visitar meus pais. Em muitas dessas ocasiões estiveram presentes os meus amigos Zé Henrique Andrade Paz, saudoso amigo (que deixou viúva minha irmã Maria José), e o Zé Francisco Marques.

Nessa época, o Lucas já era um destacado aluno, inclusive do Zé Francisco, acima referido. Era com muita alegria, justo e discreto orgulho que seu pai a ele se referia. Tinha uma fértil imaginação, e fazia histórias em quadrinho. É possível tenha herdado essa qualidade de seu pai, também um grande contador de histórias e estórias. Não lhe faltavam pendores e talento para o desenho. Talvez por essa habilidade artística, venha se revelando um notável cirurgião plástico, cuja finalidade se aproxima do desenho e, sobretudo, da escultura, já que o objetivo dessa especialidade cirúrgica é eminentemente de natureza estética.

Não pude deixar de me regozijar com o triunfo do Dr. Lucas do Vale Teixeira Cunha, tanto por ele mesmo, pelo seu próprio valor, como por causa de seus pais, excelentes seres humanos, e que foram ótimos vizinhos de meus velhos pais, sempre solícitos, prestativos, atenciosos e generosos.

Vida longa, com saúde e felicidade, ao grande médico Lucas (assim já o considero e assim já o antevejo em seu afã de mitigar ou extinguir o sofrimento alheio), ao seu mano Leandro, e aos seus pais Zé Francisco e Lindalva, que foram tão bons com minha saudosa mãe e meu pai.    

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Dois notáveis educadores piauienses

Foto meramente ilustrativa

Dois notáveis educadores piauienses

 Cunha  e Silva Filho

    Uma vez, em crônica,  falei  que  o período  inicial  do meu  curso   primário não me foi, ao contrário de tanta gente a quem  cumprimento  pela  felicidade  que desfrutou nesse período escolar,   bafejado  pela  alegria  plena,  por um ar  de eterna  felicidade. Me lembro de que   os primeiros  dois ou três anos,  mudei muito de escola,  estudei  em escolas  particulares sem renome,  em  aulas particulares  de reforço  à leitura,  (uma delas tinha  como   responsável a professora  Dona Eremita, velhota  durona,  exigente, me dava um certo medo). Ainda nas minhas perambulações,   estudei  na conhecida Escola    Demóstenes  Avelino, cujo dono era o  professor  Felismino Weser.
          Estudei ainda  num grupo escolar por um ano ou menos do que isso, que  ficava  em frente ao  Palácio de Karnak,  ou seja no espaço  que  estaria  incluído  o que posso liricamente  chamar “coração  de Teresina”, até que,  lá para  a terceira  série ou quarta,  meu  pai (e os  meus dois  irmãos mais velhos,  Sonia e Winston)  me levou   para  cursar  o final  do  primário  no Ginásio  ” Des.  Antonio Costa,” famosa e popular instituição  de ensino  que dominou  largo  período  do  ensino  privado  teresinense. Era dirigido  por dois  irmãos,  o  professor  Francisco Melo Magalhães e o  professor  Domício  Melo  Magalhães.
       No  instante em que ingressei  no Domício, nome  por que era  carinhosamente  denominado  aquele  ginásio,  posso  lhe afiançar,  leitor,   que houve em mim  uma transformação que bem  poderia  ser  de natureza epifânica. Perdi  o medo  de escola,  criei ânimo,  desabrochei  para  as delícias  da aprendizagem,   da leitura,  da escrita, da matemática. Só sei que, da terceira  série, pulei  para o   exame de admissão. O caminho  estava aberto e o futuro seria o limite.
      Sentia que a  estrada do saber se me abria para sempre,  sem  tempo  fixado. Era tudo deslumbramento,   emoções,  desejos  insopitáveis  de conhecimento, de superação,  de  vencer,   de aprender  pra valer e tudo  feito  do prazer  de aprender  por aprender,  sem  imposições dos pais,  de amigos,  de parentes.  Era uma   tomada de  posição minha e de mais ninguém.  
    Nesse período  de exuberância  infantil,  convivi na sala de aulas com os  irmãos  Magalhães. Com o professor Melo,  assim  o chamávamos,   aprendi  o conteúdo  de matemática; com o  professor  Domício,   de forma  lúdica,   aprendi  a  prestar  atenção  aos detalhes  de  quadros  que  trazia  para a sala e nos  ensinava a  fazer uma descrição: “O quadro que vamos   descrever  representa ...”.  Até hoje me soam   comovidamente   aquelas suas  palavras.
       Do professor   Domício,  aprendi  os rudimentos  da geografia  e história, que complementava com um  velho  livrinho  destinado ao  exame de admissão  e de outros  livros   da biblioteca de papai destinados  àquele  nível.
       Quando enfrentei  as provas  do exame de admissão ao ginásio,   estava bem  e até recebi elogios  de um  professor  querido, o professor João Batista,  que,  no ginásio,  me lecionou    latim  e  canto  orfeônico. João Batista  era um  mestre  por vocação. Tinha  deixado a batina,  casou-se. Acredito que foi muito feliz. Foi  um grande incentivador meu e fazia  questão de me elogiar  pro  papai, que  obviamente   se orgulhava  de mim.
     Os irmãos  Magalhães  fizeram  história  na educação  piauiense.  Eram de Piracuruca. Formaram-se em direito em Teresina, mas preferiram  se dedicar  ao magistério. Conta-se que arrostaram muitas dificuldades   de possíveis  inimigos   invejosos,  porquanto  seu  Ginásio  era repleto de alunos.
      Porém, nada os impediu  de  dirigir  essa  grande  e popular    escola   particular. Nele lecionaram  grandes figuras  de professores  de alta competência. Posso mencionar alguns:  Lysandro  Tito de Oliveira (geografia)  Valdemar Sandes (língua  portuguesa),  Cunha e Silva (francês),  João Antonio (ciências)  Jose Eduardo (inglês),  Alcides Lebre (desenho)  Francisco  Viveiros (inglês),   João Batista (já citado),   professor  Tonhá, hipocorístico do  professor  amarantino Antônio Veríssimo de Castro, grande   estudioso  do vernáculo, filólogo,  professor de   português, professor, autor de obras sobre língua  portuguesa e dicionarista, na área de etimologia, Edmar  Vasconcelos de Sant’Ana (desenho), autor,  se não me engano, de um  único  romance de título estranhamente  simbólico,   Quando?...,  Depois da Quermesse! (impresso pela  editora Vozes,  Petrópolis,RJ, 1995), no qual, na capa, consta apenas  “Sant’Ana”  como autor.A obra de Sant'Ana recebeu  elogios  de  um professor  universitário  inglês, Bruce Corrie,  de  José Louzeiro e de  jornalista  Raúl Soeiro
      Outros  professores  de mérito  lecionaram  no  Ginásio  “ Des. Antonio Costa.”  Por  terem sido professores meus  por muito  pouco tempo,  os nomes  deles me escapam  à  memória. Umas  observação:  creio que,  pelo  recorte de  tempo  dessas memórias,  todos  os citados  ilustres  mestres, a quem  presto  nesta coluna  minha   gratidão  perene,  já  estejam, como nos versos  finais do poema  “Profundamente” de Manuel  Bandeira (1886-1968): “__Estão todos  dormindo/Estão todos deitados/Dormindo /Profundamente.”(Libertinagem, 1930)
      Os irmãos Magalhães sofreram reveses, incompreensões, até   injustiças, seguramente  por se  tratar de um educandário   que  batia  recordes  de  número de alunado.O Ginásio  era até  injustamente  criticado,  por pessoas  desavisadas, por  expressão do tipo  “escola  PP,”  que  queria dizer: se o aluno  pagasse a mensalidade,  passaria  de ano.Nada mais  injusto  e  falso. Jamais  renegaria  o valor   moral  e  educativo  do Ginásio  “Des.  Antonio Costa.”
       Todo  o período  em que  tive  a honra  de ser aluno desse  colégio foi  pontilhado  de contentamento,  de  sentimento   de   alegria,   de compartilhamento, de amizades  feitas, de entrosamento  entre mim  e o  colégio e de ter sido  considerado  um   aluno  respeitado   e querido  por meus  mestres e elos diretores, os irmãos  Magalhães. Razão tinha   Olavo Bilac de  atribuir  um   importância  elevada ao ginásio – base  de todos os futuros   cometimentos que, se me deram  tantas   canseiras, também  me  realizaram  como   estudioso.
   Nos dias de treinamento para  as  “paradas” de “Sete de Setembro” é que se via  a numerosidade de  estudantes   do colégio.  O educandário não fazia, entretanto,  parte dos grupo de  colégios  da chamada  elite   teresinense. Contudo,   isso não  diminui  a grandeza  que   esses irmãos significavam     para   o campo   árduo da educação piauiense.
    Muito aprendi com o  professor Mello e com o  professor  Domício, cujas  personalidades   opostas  pelo  temperamento, no entanto,   se  completavam  e davam, assim,  uma unidade de dupla de  docentes  que nasceram   para  a sublime arte de ensinar e divulgar   sabedoria  em companhia  do ilustre   corpo docente escolhido a dedo.
     No  já envelhecido  Certificado de Conclusão do Curso  Ginasial,   que o Ginásio “ Des.  Antonio Costa”  me conferiu no ano letivo de 1960, no alto  da página modelo  7  do diploma, logo abaixo  do  símbolo de nosso  pendão e do  órgão  responsável pela  validade  do documento, Ministério da Educação e Cultura,  impresso  em preto e branco  se  encontra o nome, em  caixa alta,    do colégio, assim como o do fundador, J. R. Magalhães Filho; o endereço  da instituição, Rua   Felix Pacheco, nº 1589; o “fone”, 2645; a cidade, Teresina ; o Estado, Piauí. E, para completar os dados burocráticos, esta emblemática  afirmação  de Platão (428/427  a.C.- 348/347 a. C.)  : “A educação é a mais  valiosa  herança que os pais  podem  deixar aos filhos.”       

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Vermelho


Vermelho

Neide Moscoso

transborda na taça
o vinho tinto
na mesa um punhado
de romã
vermelho claro
vermelho escuro
vermelho cor-de vinho
do sangue nas veias
da chama nas entranhas
vermelho vivo
do rubos na face que
ressai do clamor de dentro
da rosa vermelha da paixão
da fruta do pecado
vermelho do fruto na salada
vermelho vinho
vinho tingido de vermelho    

domingo, 25 de janeiro de 2015

Seleta Piauiense - Paulo Machado


poética
ao poeta salgado maranhão

Paulo Machado (1956)

fica o ranço das metáforas,
o outono na velha aquarela.
no porto, a lembrança das velas.
fica o silêncio, o esboço do poema,
os músculos rijos à espera do agora.
fica a certeza de caminhar
em linha reta,
não fugir nunca.
remar contra a corrente, lutar
sem temer os golpes sujos dos que rastejam,
cães roendo os ossos da omissão.
fica a ânsia, o sangue queimando nas veias
até o último momento.
fica um princípio:
não temos o direito de trair a poesia,
crucificá-la numa sexta-feira de passivismo.
jamais expô-la como símbolo
de uma vanguarda precoce, medrosa.
a poesia é torpedo-suicida,
não podemos camuflá-la de bailarina persa.
a escuridão dos calabouços,
as câmaras de tortura,
nada fará calar os poetas.
a poesia sobreviverá às bombas de gás, ao tédio.
ressurgirá das cinzas no vôo dos pássaros.
(à tardinha os homens imitam os pássaros, ingenuamente)
sonhemos: com o verde da tardia esperança,
o branco da paz inaudita.     

sábado, 24 de janeiro de 2015

"Hoje tem espetáculo?"


"Hoje tem espetáculo?"

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Tem, sim, senhor! E como tem. Primeiramente, permita-me uma passagem da infância. Em seguida, convido você a assistir ao circo das palhaçadas políticas.

Bons tempos aqueles, na minha Piçarra. A garotada acompanhava, pelas ruas, o palhaço vestido de frouxas e coloridas roupas, equilibrando-se em duas longas pernas de pau, a empunhar longo instrumento afunilado, colado à boca, servia de microfone, convidava a população a assistir ao show do circo, logo mais. “Hoje, tem espetáculo?“ E a meninada exaltada: “Tem, sim, senhor!” Circo e palhaço, ninguém resistia, na minha terra sem televisão. Outra diversão, o alto-falante, instalado na ponta de enorme madeira, a sala de locução com discoteca, que disputava audiência com a única rádio, a Difusora.

         “Hoje, tem espetáculo?” Tem muito mais. O circo foi reinventado na política e administração pública, para engabelar cidadãos comuns, desinformados.

         Divertido Circo Assembleia: milhares de lagartas a devorar a folha de pagamento, para, em seguida, voarem como libélulas. Só comparecem ao trabalho à hora do contracheque. Deputados a disputar o picadeiro da presidência ou cargos de comissão. No mais, a louvação mixuruca com títulos de cidadania a duvidosos méritos. Ou dizer amém às imposições do Palácio do Karnak.

Hoje, tem espetáculo?” Tem, sim, senhor, a promessa de construir seis aeroportos. Sonho de ícaro, cujas asas de cera se desfazem ao tentar aproximar-se do sol, com seus monstros, touros e minotauros. “O show já terminou/ Vamos voltar à realidade/Não precisamos mais/Usar aquela maquiagem”. Não terminou, meu caro Roberto Carlos. Não se desfez a maquiagem de dois bombásticos “aeroportos internacionais”, de onde decolam mais urubus que pássaros de aço.

Tem, sim, senhor. Depois dos apagões, Brasil afora, ministro de Minas e Energia diz que “o sistema energético está robusto”, que Deus é brasileiro e que vai chover. Um apagão deixou metade do Brasil em trevas. Graças ao envio de energia da Argentina, restabeleceu-se o sistema elétrico. Deus também é dos argentinos.

Hoje tem espetáculo?” Claro, Governo solicita forças federais e 82 milhões para segurança pública. Não percam mais um show de pirotecnia com dinheiro público. Enquanto explodem rojões, a comunidade do Açude dos Algodões permanece muda, com a tragédia e falsas promessas.


E vem mais espetáculo: o novo presidente da Companhia Metropolitana de Transportes do Piauí demitiu 27 funcionários. Juntando aos que permaneceram, davam para encher um vagão do metrô e passear pelos 23 km da capital. Pena que o insaciável apetite de contracheques prejudique a segurança e refrigeração dos trens. Haja folha para tanta lagarta. Medida certa, se os demitidos não fossem substituídos pelos que vestem gravata vermelha do partido. A prefeita de Esperantina reduziu centenas de lagartas famintas. Tomara que as borboletas não ponham mais larvas. Na minha infância, os palhaços vestiam-se de toscas roupas, identificavam-se com a simplicidade e inocência da população. Éramos felizes. Hoje, os circos viram círculos fechados, corruptos, dão as caras nos meios de comunicação com a cara mais limpa. Em vez de rir, a plateia vaia.     

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Sem motivos


Sem motivos

Neide Moscoso

café amargo
blues lentos
goles de vinho
gemido do sax
resíduo de sono
nos olhos
céu azul escuro
feridas cicatrizadas
desejos mastigados
palavras sem dono
noite violeta
eu
cúmplice de mim    

INDONÉSIA E A PENA DE MORTE


INDONÉSIA E A PENA DE MORTE

Jacob Fortes

O carioca Marco Archer Cardoso Moreira, em entrevista ao repórter Renan Antunes, em 2005, admitiu ser traficante: — “Sou traficante e traficante, só traficante”.

À parte esse desvirtuoso e daninho ofício, pungiu o coração dos brasileiros, sobremodo o meu, a notícia da morte de Marco, na Indonésia, por fuzilamento. Se a pena cominada, irrecorrível, é desproporcional à falta isso é inelutável.

A gênese das firmes convicções do Marco, — de que conseguiria reverter a sua sentença de morte — pode encontrar-se no Brasil: a impunidade que não mete medo, que encoraja recidivar. No Brasil as malinações se sucedem e não acarretam arranhões ao pescoço, nem mesmo aos que detém históricos recheados de assentamentos desregrados, mas em terras que não poupam acrimônia às práticas delitivas esse pescoço pode ser aniquilado. São os riscos que correm os que, em territórios onde a tirania faz rosários de cabeças humanas, cometem infrações manifestamente puníveis; depois de submetidos à responsabilidade penal.  Safar-se cá não quer dizer safar-se lá.

Nem sempre se salva aquele que acredita salvar-se no farol que segue. A luz, por vezes difusa, pode esconder abismos escuros. É o alvitre de cada um. Em busca de moeda cada qual toma o caminho que lhe parece conveniente: uns lançam-se tenazmente ao picadeiro, outros cavoucam em chãos duros e há os que acreditam encontrá-las facilmente, sem transudar, em meio a infrações fascinantes.

Talvez houvesse no Marco alguma distinção pessoal que pudesse ser admirada, mas o seu ofício, que reputo nefasto, é digno da mais religiosa compaixão.


Para expandir o sentimento de tristeza, há outro brasileiro na fila, Rodrigo Gulart, condenado por igual delito e que, enfermo, padece de profunda desorganização psíquica. Traficar em terra de degola esses brasileiros, Marco e Rodrigo, de duas uma: ou tornaram-se traficante porque ficaram loucos ou ficaram loucos por tornarem-se traficantes.  Que o amorável Deus vele o sono eterno do primeiro; apiede-se do segundo, pois, quem sabe, este poderá optar por dar melhor emprego a sua existência. 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

PRESERVAÇÃO E REVITALIZAÇÃO DO RIO PARNAÍBA



22 de janeiro   Diário Incontínuo

PRESERVAÇÃO E REVITALIZAÇÃO DO RIO PARNAÍBA

Elmar Carvalho

Ainda bem jovem, ouvi falar que um dos grandes problemas da humanidade seria a falta de água potável. Muitos diziam que poderia haver guerra por causa desse bem indispensável à vida. Quem poderia imaginar que cidades como Rio de Janeiro e São Paulo iriam passar pelo que estão passando, com a escassez desse precioso líquido. Que isso sirva de advertência a todos nós, especialmente aos governantes.

Em 1940, quando meu pai tinha 14 anos de idade e estudava no Diocesano, o professor de geografia, Álvaro Ferreira, como se fora uma espécie de profeta, afirmava que se providências não fossem tomadas o rio Parnaíba iria morrer, no prazo de 50 anos. Felizmente, ele ainda está vivo, embora muito degradado; em alguns trechos, muito largo e raso.

Ele é o maior patrimônio natural do Piauí, e é mais importante para o nosso estado do que para o Maranhão, que tem vários outros rios perenes. Além do mais, a margem piauiense conta com bem mais cidades importantes e populosas, como Floriano, Amarante, Teresina, União e Parnaíba, do que a margem timbira. Até Timon, que é maranhense, é mais ligada ao Piauí, uma vez que fica ao lado de nossa capital.

O nosso estado dispõe de pouquíssimos rios perenes. Muitos dos temporários se encontram bastante degradados, como é o caso do Longá. Vários estão com suas nascentes quase mortas e com o leito consideravelmente assoreado, por causa das queimadas e dos desmatamentos.

Não tenho notícia de obras que beneficiem os nossos cursos d’água, mas quase todas os prejudicam, de uma forma ou de outra, entre as quais incluo as barragens, os esgotos, a retirada d’água, seja para irrigação ou sistema de abastecimento, e as queimadas e desmatamentos, tanto nas nascentes como ao longo de suas margens.

O nosso Parnaíba é um rio frágil e não se autodrena, porquanto é quase sempre um rio de planície, de pouca declividade e de barrancas que caem com facilidade, tornando-se muito largo e muito raso. Quanto mais fundo e estreito ele fosse mais saudável seria. Por outro lado, seus afluentes também não são protegidos e preservados.

O Velho Monge é quase um milagre da natureza, pois não é oriundo de geleiras; nasce num estado que sofre longos períodos de estiagem, e cujo território é largamente situado no semi-árido. O engenheiro, ambientalista e historiador Cid Castro Dias se manifestou sobre esse assunto da seguinte forma:

“A resposta está na formação geológica da Serra da Tabatinga, que por sua constituição peculiar funciona como um aquífero. Um aquífero é constituído predominantemente de rochas arenosas com elevada porosidade e permeabilidade, permitindo o armazenamento de água em seus interstícios, funcionando como uma esponja na retenção de água. As águas de chuva, ao se infiltrarem no meio aquífero, começam, por gravidade, um processo descendente e ao encontrarem uma camada impermeável do terreno, iniciam um processo lento de escoamento horizontal, dando origem a diversos olhos d’água no sopé da serra, em virtude do desnível do relevo, pelo lado do Piauí. Esses olhos d’água são os formadores do rio Parnaíba, destacando-se os Riachos Água Quente, Surubim ou Pau Cheiroso, Lontras, Uruçuí Vermelho e Parnaibinha.”

Por via de consequência, já passa da hora de o governo do Piauí e o Federal unirem esforços em defesa do nosso maior patrimônio natural, antes que seja tarde demais, promovendo o reflorestamento das margens de nosso rio, seja diretamente, seja através de campanhas educativas e do fornecimento de mudas e sementes aos ribeirinhos, inclusive com incentivos financeiros e tributários, e principalmente com a fiscalização efetiva do parque das nascentes do Parnaíba, coibindo os desmatamentos e queimadas, bem como a circulação de tratores, que prejudicam a porosidade do solo.

Com a sua revitalização e recuperação, os grãos dos cerrados piauienses, além de outros produtos, poderiam ser transportados, através de embarcações de pequeno calado, do tipo chata, até Teresina e até o futuro porto de Luís Correia, o que certamente proporcionaria novos empregos e o barateamento dos fretes. Diante disso, a construção das eclusas da barragem de Boa Esperança seria de fundamental importância, pois assim a navegabilidade poderia ser estendida até Uruçuí, ou mesmo Ribeiro Gonçalves.

Recentemente, o Parque Nacional das Nascentes do Rio Parnaíba, através da Lei Federal nº 13.090, de 12 de janeiro de 2015, foi ampliado, passando de 729.814 para 749.848 hectares. Por conseguinte, teve um acréscimo de aproximadamente 20 mil hectares. Contudo, o mais importante é que toda essa área seja rigorosamente fiscalizada, de modo que atividades agrícolas e pecuárias não sejam ali exercidas. Dessa forma, seriam evitados os desmatamentos e queimadas, além da circulação de máquinas e veículos pesados, que provocariam a compactação do solo, o que dificultaria a infiltração das águas pluviais, imprescindíveis para o abastecimento do aquífero, que possibilita, por sua vez, a existência das nascentes.

Também considero de capital importância a revitalização de nosso maior rio, sobretudo com a transposição de águas do Tocantins, conforme já tive ocasião de me pronunciar a respeito, tanto pelos jornais, como pela internet e no Seminário Encontro em Defesa do Rio Parnaíba, realizado pela Academia Piauiense de Letras. No meu texto Rio Parnaíba – Problemas e Soluções, aduzi:

“Ainda no campo das soluções, retomando uma ideia antiga do engenheiro, advogado e administrador Lauro Andrade Correia, ainda do tempo em que ele foi presidente da FIEPI, no início da década de 1980, afirmei que o Velho Monge poderia ser rejuvenescido e revitalizado com a transposição de águas do Tocantins, na altura de Carolina (MA), para um dos afluentes do rio Balsas, o qual deságua em nosso mais importante rio, a montante da cidade de Uruçuí (PI).

Expliquei que essa transposição exigiria a construção de um canal, de apenas 100 quilômetros, sem necessidade de grandes bombeamentos, já que a gravidade, o afluente e o Balsas tudo fariam, sem emprego de maiores esforços. Não haveria necessidade de obras faraônicas e/ou mirabolantes de engenharia, nem do uso de complicadas e sofisticadas tecnologias. Por conseguinte, seria uma obra simples e de baixo custo, em termos de governo federal.”

Desejo não ser apenas mais uma voz clamando no deserto da indiferença governamental. Espero que os governos Estadual e Federal saiam da inércia ou da demagogia propagandística e façam efetivamente algo em defesa de nosso agonizante Velho Monge, antes que seja demasiado tarde.       

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O Mundo em desassossego


O Mundo em desassossego


            Cunha   e Silva Filho


          Para qualquer lado que  dirigirmos  nosso  olhar contemporâneo,  seja  no  Brasil,  seja em  outras partes  do planeta Terra,  tudo conspira contra a esperança,  a paz,  a  tranquilidade das pessoas.  Se as ciências e a tecnologia  trouxeram  tantas possibilidades  de uma vida  melhor,  que nos vieram  proporcionar  mais conforto,   facilidades  instantâneas de comunicação,   avanços  na medicina,   na robótica,   nos meios de  aquisição  do saber  em  todas as áreas  conhecidas, em  proporção   inversa  têm crescido os desmandos  de nossos  dias em  crescente   estado de tensão  do convívio  humano.
      Em outras palavras,  o mundo está  em desassossego provocado  pelas guerras civis, pelos  desentendimentos   religiosos,  políticos,  ideológicos, étnicos,   enfim,  por  desentendimentos entre países, cuja manifestação   hoje mais    insidiosa  se conhece  pelo  termo  “terrorismo”  - recurso   pusilânime  de  trucidar   vidas de inocentes  que não podem  responder   pelos   erros  e   perversidades   cometidos   por governos   tanto no Ocidente  quanto  no Oriente. Sabemos que o Ocidente  não é tão anjo assim, como  não  são anjos  os  seguidores   fanáticos     do terrorismo nacional  ou internacional.
   O alvo  agora  não  se limita aos EUA. Ele se  desloca  intempestivamente  para  a Europa  e o  próprio  Oriente. O pior ainda é que  o terrorismo   de grupos   do tipo Al –Qaeda,  ou dos Estado  Islâmico, tem  recrutado   europeus para suas  fileiras, sobretudo   europeus com   ascendentes   não-ocidentais. Jovens  são  facilmente  manipuláveis   por lavagem   cerebral   inoculada pelo veneno da barbárie.Tais jovens se  bandeiam   para   facções   terroristas    autoritárias e assassinas   que  invocam  para si   modos  de vida  e de  crença   religiosa como se fossem   a melhor   forma   de  comportamento   humano  e   de princípios   de vida.  Se entendermos   essa atitude   como  islamismo,  então  os grupos   terroristas   estão deformando   a leitura   do  Alcorão e, no mínimo,  estão  apresentando o  islamismo  como   algo que  ele  não é:  um doutrina  espiritual  que   pratica  o  bem, que não pode ser   assassina nem  covarde nem  terrorista,  nem  expansionista,  i.e.,   imaginar-se como    a única   forma   de    o mundo   pautar-se   na sociedade atual.
    Sabemos   que  os modos de civilização   ocidental  não são  também  modelos,  em alguns aspectos da vida,  a serem imitados.  Há muitos   erros  de mores  ocidentais  que  precisam  ser  corrigidos   em  várias  dimensões,  tanto   éticas,  políticas quanto religiosas. Muito lixo moral   ainda se mantém  intacto  na  sociedade  ocidental e, se fôssemos citar alguns,   teríamos  o excesso do hedonismo,  a desigualdade  social,  a corrupção  em  elevado  grau,  a impunidade  em algumas regiões dos continentes sul-americano, asiático, africano,  a criminalidade  e a violência  galopantes,  o populismo  demagógico   de   alguns  governantes e a desmoralização   da classe  política, sem  deixar de mencionarmos   a dissolução   do comportamento    sexual   de  parte do   Ocidente, sendo um  bom exemplo  o  Brasil.
   Alguns  setores da indústria cultural   não  dão  bom  exemplo de formação   moral  e espiritual   da sociedade  afundada  no espelhamento    propiciado   por  algumas  formas  de   arte de entretenimento,  como   o cinema trash,   um incentivador   e  estimulante  da criminalidade e do caos  urbano, que faz  a riqueza  do produtores e  atores em  filmes de   baixo nível  importados  dos EUA. Ora,   essa  películas  assistidas  por  gente praticamente  de quase  o mundo inteiro e por  parte de   consumidores sem nenhum  parâmetro  ou código moral e familiar,  concorrem  em muito para  a desorganização   de um  mundo  high tech     comprometido até às raízes com   os vício das drogas e  o  ingresso, ainda na  infância e adolescência, no  mundo  do crime  organizado,  do narcotráfico,  da violência  sem fim  como a que  temos    presenciado  ad nauseam  na  vida cotidiana  brasileira,  sobretudo  nas grandes cidades,  porém  tampouco  ausentes  nas pequenas   cidades brasileiras.
   Esse planeta  em desassossego, pelo terrorismo já atingiu  a nação mais desenvolvida  do   mundo, os EUA,  já passou, agora,  para  a França,   já atingiu a Bélgica e a Alemanha e tem feito  estragos   sanguinolentos  em conflitos  bélicos  na Síria,  no Iraque,  no Afeganistão, Paquistão e em outras regiões.
   Por outro lado, para enfrentar  o famigerado   terrorismo  é necessário que o Ocidente  cumpra   igualmente    certos deveres de casa, sobretudo   em grupos    de sistemas  ideológicos   neofascistas, como  temos  na Europa  e em outros  países.
  Urge que  o Ocidente  se conduza  da mesma sorte  com   comportamentos    políticos,  sociais à   altura   de suas  conquistas  de direitos   humanos  e de cidadania,   execrando  quaisquer  formas  de    retrocessos   xenófobos, de eurocentrismo, de igualdades apenas aparentes  e não  reais, e de retaliação   com   os  estrangeiros   que  escolheram  países   como segunda pátria e lá  só  desejam   viver em paz com a sua família, como aquele  exemplo de uma família   judia que vivia  em Paris e que,  após o ataque  terrorista ceifando a vida de cartunistas  famosos e de outras  pessoas ao mesmo  tempo,  apavorada, se dizia  sem segurança  na bela e elegante  capital  parisiense e, por esse motivo, seus membros   voltaram  para  Jerusalém onde, segundo  o pater familiae,  pelo menos  lá se  sabia  onde ficava o perigo, ao contrário  de Paris que, para ele,  estava em qualquer parte  da velha  terra de grandes escritores, filósofos e artistas, uma espécie de pátria da cultura  com o fascínio  de irradiação  pelo  mundo.
         Questões fundamentais como controle de  imigração,  fiscalização  rigorosa  da situação   de cada  estrangeiro  residente  na França (o mesmo  valendo  para outros países  que  recebem  estrangeiros asilados),   deles exigindo  direitos e deveres  de  estrangeiros  e realizando  uma   avaliação   precisa e profunda  das condições de vida  social   dos  estrangeiros naturalizados e dos filhos   destes nascidos  na França,  têm   que ser   cuidadosamente  examinadas.
       De nenhuma  maneira,  os  imigrantes  devem ser  discriminados   nem tratados como   cidadão de  segunda   classe. Contudo,   uma revisão  dessas questões  não  pode ser  negligenciada  pelas autoridades   francesas. E essa precauções  devem  ser  igualmente   levadas  em  conta  em outros  países europeus,  ou não.Todos  esses problemas  foram   gerados  após as  guerras   civis   no Oriente e, por força  dessa condição subalterna,   ressentimentos  morais  e de submissão    imposta  pelos  países  colonizadores deixaram  marcas  de  ódio    após  o período de colonização  de  países   por  nações   ocidentais. É o  caso  do Níger em que,  hoje mesmo,   queimaram a bandeira  francesa  em solidariedade   aos terroristas   mortos.


       É forçoso  que os organismos internacionais  de defesa das nações, grandes  ou pequenas,  se debrucem  para   encontrar  pontos  de   convergência  em direção   ao confronto, infelizmente   já estabelecido,  entre   terroristas  ditos muçulmanos  e  nações  ocidentais. É preciso  que,  nos debates  que virão   dos impasses  trazidos   pelo alastramento do terrorismo, localizado ou   internacional, saibamos   separar  o  joio do trigo. Não confundir   muçulmanos  bem intencionados  com  jihardistas ou "Estado  Islâmico" é uma das vias  mais   fecundas  em direção  a uma  paz ainda que,  provisória.  Não é uma questão magna entre bárbaros  e civilizados, mas  entre  o justo  desejo  de  combater  quem  realmente  é o inimigo  que  não admite   processos   civilizatórios  diferentes.  O respeito ao outro  nem sempre  vale como  uma premissa  de reconhecimento   justo e de justiça   isenta.    

domingo, 18 de janeiro de 2015

Seleta Piauiense - Israel Correia


Paixão, Amor e Rotina

Israel Correia (1955)

Paixão ogiva
Artefato atômico
Explode orgasmo
Somos Hiroshima

Sobrevive imune
O coração que ama
A radioatividade
De qualquer rotina   

sábado, 17 de janeiro de 2015

A fúria pela fé


A fúria pela fé

José Maria Vasconcelos
Cronista

            Não me esqueço daquela cena cruel, no fundo do quintal, cercado de talos de buriti, na minha infância, na Piçarra. Meu pai não queria galinhas de vizinhos em nosso território e me ordenava que as tangessem de volta. Um dia, enfurecido com a persistência de um pinto, torci-lhe o pescoço até morrer. Não senti pena, nem remorso por atender a ordem de meu pai.

         Neste momento, a França ainda chora o ataque bárbaro de três terroristas islâmicos contra jornalistas. O mundo aglomera-se nas praças, reza e protesta. E se pergunta: “Por que tanta fúria, em nome de truculenta obediência religiosa?”

         A paixão determina intenso interesse por um ideal, causa ou atividade, que resulta, muitas vezes, em exacerbada e irracional excitação de descontrole emocional. Paixões -  amorosa, esportiva, política e religiosa - sem freios emocionais,  podem desencadear ódio, vingança, morte e suicídio. Temas de encher páginas de romances, novelas, contos, crônicas, poesias e manifestações artísticas. Inclusive do jornalismo e judiciário.

         O mundo vive de paixões e conflitos amorosos e partidários. O equilíbrio emocional, porém, é resultado da educação sadia dos instintos e temperamento. Na história da educação religiosa, a fé quase sempre se manifesta pela intransigência e conflitos.

         No Antigo Testamento, judeus arvoravam-se únicos herdeiros das promessas divinas. Não entravam nas casas de pagãos, não se aliavam a outros povos, não se uniam em casamento. Em nome de Javé, matavam adversários, conspurcavam bens e territórios. No salmo 138, que retrata a escravidão dos hebreus, na Babilônia, encontra-se o sentimento de ódio e vingança que arrepia: “Ó filha da Babilônia, a devastadora, feliz aquele que te retribuir o mal que nos fizeste! Feliz aquele que se apoderar de teus filhinhos, para esmagá-los contra o rochedo!

         A pregação de Jesus fugia totalmente à intolerância religiosa de seu povo: comia e bebia com os pecadores, entrava nas residências das autoridades romanas, acolhia prostitutas, curava pagãos. Foi condenado à morte, por defender a conciliação, perdão, tolerância, amor aos excluídos e o reino de um mundo sem fronteiras do ódio.

         Na Bíblia do Antigo Testamente, encontram-se mais estímulos à violência do que no Alcorão. De ambos, porém, as paixões religiosas tentam extrair interpretações para a prática do ódio, geralmente alicerçada em domínios e defesa da fé. A Igreja Católica herdou, durante séculos, a crueldade pagã do império romano, com as Cruzadas e Inquisição, esta utilizada, também, por correntes protestantes. Na década de 1960, o candidato à presidência dos Estados Unidos, Robert Kennedy, defendia, em livro, caso fosse eleito, maior aproximação com o Oriente. Segundo Robert, o Ocidente (ingleses, americanos e franceses) devia aos orientais um acerto de contas pelos regimes de escravidão e usurpação no Oriente, acelerado nas descobertas de petróleo. A cultura oriental cultiva anos de paciência para alcançar objetivos. O passado de domínios e humilhações não lhes escapa da memória. Paixões baseiam-se em obediência e interpretações religiosas cegas. Neste caso, nem um pinto se salva de uma degola.      

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

NA VÁRZEA DO SIMÃO, ENTRE POETAS E PASSARINHOS



10 de janeiro   Diário Incontínuo

NA VÁRZEA DO SIMÃO, ENTRE POETAS E PASSARINHOS

Elmar Carvalho

No sábado, dia 3, eu e a Fátima recebemos, no sítio Filomena, na Várzea do Simão, os poetas Alcenor Candeira Filho e Neide Moscoso, Ana Lúcia (Aninha), esposa do vate, e Canindé Correia. Ficamos num dos alpendres, a contemplarmos as árvores e as flores do jardim, a sentirmos a brisa suave, que tornava agradável a temperatura, e arrancava suave música das palmas dos coqueiros e das carnaubeiras próximas.

O Alcenor e o Canindé são meus amigos desde a segunda metade da década de 1970. Fizemos parte do grupo de colaboradores do jornal Inovação, que relevantes serviços prestou à cultura e à sociedade parnaibana. A Aninha tornou-se nossa amiga, desde o seu casamento com o poeta. Foi uma manhã memorável, pela conversa amena, variada, com pitadas de história, poesia, humor e tiradas espirituosas, ao sabor do improviso. O Dico e o Diá, irmãos da Fátima, também estiveram presentes, mas logo se ausentaram, em virtude de compromissos pessoais e familiares.

Não conhecia Neide Moscoso, exceto através de seus ótimos poemas, concisos, densos, subjetivos, líricos, mas sem transbordamentos eivados de pieguice. Conheci os seus textos, através da intermediação inicial do poeta Alcenor. Foram enviados por e-mail, e eu grata e gradativamente os fui publicando em meu blog. As conversas, entrelaçadas, paralelas ou não, foram secundadas por sábias libações e sóbrias degustações, como bem poderia dizer o imortal Pacamão, que já partiu para o outro lado do mistério, ou hemisfério, como consta numa das anedotas que ele protagonizara.

Na quinta-feira seguinte, dia oito, sozinho, do observatório do mesmo alpendre, enquanto esperava pelo almoço, fiquei a contemplar as árvores e os passarinhos. Como temos procurado evitar, na área do sítio, que se espantem os pássaros, que se lhes atirem pedras ou paus, verifiquei que um deles chegou a fazer seu ninho num dos cantos da varanda, enquanto outros o fizeram nas árvores próximas. Desse fato tirei a conclusão de que as aves se sentem protegidas no sítio Filomena.

As aves canoras de maior prestígio e de mais alto valor comercial se afastaram das imediações, fugindo dos passarinheiros, das baladeiras ou estilingues e dos alçapões. Contudo, ante nossas providências em nosso pequeno imóvel, inclusive plantação de árvores frutíferas, constatei que alguns desses passarinhos já começam a tomar chegada, a nos encantar com o seu canto mavioso. Espero que em breve já possamos escutar o canto de corrupiões e chicos-pretos. Os corrupiões, valentes, galantes, metidos em sua fatiota colorida, ostentosa; os chicos-pretos, discretos, envergando o seu discretíssimo fraque negro. Entretanto, ambos igualmente mestres em seus encantadores trinados e gorjeios.

Sempre ouvimos o estribilho alegre dos bem-te-vis: “bem-te-vi, bem-te-vi”, que me serve de advertência quanto ao olho onisciente do Senhor, que tudo vê, que tudo sabe. Amiúde escutamos o canto saudoso e melancólico das ariscas rolinhas “fogo-apagou”, que também nos serve de admoestação contra os percalços e intempéries. Aliás, por falar em tantos passarinhos, a Fátima, junto ao portão de entrada, mandou pintar um painel, pelas mãos hábeis de mestre Zico, em que aparecem um bem-te-vi, em memória de minha mãe, que tanto admirava esse brioso, alegre e belo passarinho, uma sabiá, representando sua irmã Remédios, que gosta de cantar, e duas corujas de bom agouro, por causa de meu apego aos livros.

Ao meio dia, como se estivesse cumprindo uma missão, chegou um pressuroso e diligente bando de anuns pretos. Essas aves são quase sempre silenciosas, e não se destacam pelo cantar. Pousaram sobre um cajueiro, que ficava bem perto de onde eu estava. Embora negras como um corvo ou um urubu, não são aves de rapina e nunca se lhes atribuiu a pecha de serem agoureiras. Jamais se disse que um anum preto assombrasse alguém, como uma rasga-mortalha ou como o célebre corvo de Alan Poe, este a entoar, melancólica e tetricamente, o seu refrão “nunca mais”, despojado de qualquer esperança.

Em poucos minutos, seguindo uma tática que eu já lhes tinha observado anteriormente, derrubaram dois cajus maduros, e logo desceram para bicar a polpa tenra e suculenta. Passado um curto instante, veio uma impertinente e inoportuna galinha em direção a um dos cajus. Os anuns, sabiamente, não a enfrentaram, nem se agastaram, e se concentraram em apenas um deles. Após três ou quatro bicadas, a galinha enjoou o repasto e se retirou.

Essa mesma situação repetiu-se, tendo como “herói” outro robusto galináceo. Pude, então, perceber a sabedoria dessas aves, tão discretas em suas vestes negras, tão humildes em seu silêncio. Não foram quinhoadas com bela plumagem e nem foram dotadas de um mágico cantar, mas por isso mesmo não são perseguidas por caçadores e meninos, com suas arapucas, armadilhas e alçapões. Mas Deus as contemplou com salutar esperteza e providencial sabedoria.     

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

O Facebook: uma ferramenta útil para a democratização da escrita


O Facebook: uma ferramenta útil para a democratização da escrita

Cunha   e Silva Filho

        Ninguém  pode  negar  o  grande passo dado a milhões  de  pessoas  que,  no  Face, como  é  com certa intimidade  tratada essa rede   social,  trocam  ideias e    se comunicam  por   escrito. E  não seria exagerado  afirmar:    grande  chance tem o  usuário de   poder expressar-se livremente tanto quanto  possível através desse meio  grandioso que  - não podemos    esconder esse fato - possui, sim,  seus defeitos  quando  empregado  para  fazer o mal. No entanto,  o saldo  é  positivíssimo. Tornou-se um  modo  autodidático  de   levar as pessoas  a  pesquisar, refletir,   organizar  seu pensamento, muitas vezes de  forma  extraordinária  dependendo  do talento e da competência de cada um.
     Algumas vezes,  me queixei  de que o Face seria  um espaço para  futilidades,  fofoca e exibicionismo. Pode até ser em alguns  aspectos, mas,  no geral,   é  uma  fonte geradora   de ideias,  de discussões,   de  expressão  livre  do pensamento, ainda que  o seu seja  algumas  vezes discordante de  outros.  Pouco  importa.
   O que  é evidente é sua capacidade aglutinadora,    de fórum  de  debates, de permitir  o extravasamento  da indignação  contra  injustiças,  de  divulgar   ideias   iluminadoras,  de suscitar   novos  ângulos  de  ler o mundo, as pessoas. Todos  os  aspectos   do cotidiano  nacional  ou mesmo   do exterior  no Face  podem ser    veiculados  com erros,  com acertos,  mas  sempre com  a  liberdade  dos que  pensam  de forma igual ou  diferentemente.  O Face vive desses contrates,  dessa espécie de  “melting  pot”   de fatos e acontecimentos  que   atiçam  a curiosidade  e  a  intervenção  por escrito dos indivíduos. O Face veio para ficar.
     Já se disse que ele   estava  alimentando  o mau hábito de escrever errado ou  de forma  excessivamente   abreviada. Qual nada!”  Tenho  lido  textos,   frases  que   bem poderiam   ser assinadas  por  bons  jornalistas,   escritores,  cronistas,  pensadores, filósofos,  poetas, dramaturgos, cientistas, enfim, profissionais de  várias  áreas, enfim, uma  gama de   pessoas  comuns ou com  maior ou menor  visibilidade. Porém, refuto  aquele argumento  visto que o usuário,   ao  escrever,  em geral, de  maneira  rápida,   com esse ritmo   fortalece e desenvolve  a habilidade  de  selecionar    ideias,  formas  de escrita,  sentido   de  concisão e coerência  a fim de  poder   organizar  os  enunciados.
    Politicamente, o Face muito tem ajudado a  evitar  o pensamento  chamado  “único,”   mostrando, através de seus  diversos   usuários, que   aquele  é múltiplo e nenhuma ideia  semanticamente  unívoca  pode ser   geradora    de avanços    em qualquer   campo  da  inteligência. Reconhecer o outro,  o diferente,  ainda que  possamos   achar que  ele está errado, é não  perceber que   algumas  ideias  podem ser  relativizadas.  O pensamento  único  é próprio  dos governos   antidemocráticos, que   julgam  o mundo  sob  um  só  lado, uma  só dimensão.  Sua natureza  tem  traços  fascistas, autoritários,  absolutistas.  O pensamento deve ser exercido  de  modo  construtivo,   dialeticamente,  sem donos das verdades.
   Outro papel saliente do Face é  conceder  a possibilidade   de liberdade  de  crenças,   religiosas,  políticas,  filosóficas,   de modos de vida,  de mostrar   diversidades culturais,   nacionais,   universais. .
    É pena que o Face  possa  por vezes  levar, como  já  aludi linhas atrás,  a certo exibicionismo, excessos   de  narcisismos, exposições  sensualistas  que  não   se ajustam  a  uma  ética    desejável  neste sentido.  
   Mas, o que  centraliza  a linha  deste artigo  são os   pontos   qualitativos   do usos da linguagem,  do    treinamento,   do  escrever  continuadamente e ao mesmo  tempo  do ler  o que  se escreve  nessa  rede  social.  Ler e escrever são habilidades que  se harmonizam e  só produzem      melhoria    de nível   de  escrita, propiciando  a “fluência”   da linguagem  escrita. Acredito que em  nenhum tempo,  antes  da internet,  o mundo  tenha  escrito tanto.
    A prática da redação, diria   positivamente  forçada,  a fim de  dar conta   de uma   pergunta e de um  fato ilustrativo de um texto,   de um vídeo, veio  auxiliar enormemente   o ato da escrita e,  em consequência,    melhorar   o uso  da linguagem   das  pessoas. Não sei se a ciência  linguística  já havia previsto  essa    mudança  revolucionária  da comunicação    virtual.
   Deixando  de lado  o  mau uso  da  internet  e das redes sociais,   os ganhos   com  o mundo virtual    são incalculáveis.  Depois da Imprensa de Gutemberg,  a internet é a segunda  mais   importante   invenção  do  mundo  da comunicação. E imagine o leitor que, a princípio, este colunista   até  tinha  receio de  não  aprender a lidar  com  o básico   do computador.Veja-se o  função  informativa do Google. Não obstante  nele muita coisa  não seja  fonte segura,   não deixa de ser  um  instrumento   valiosíssimo  de pesquisa,  em muitos casos   fazendo  as vezes  de  verdadeiras  bibliotecas.  além disso,    pondo  o  usuário,    em fração  de segundos, com dados   que esteja    procurando.
   O Google é uma gigantesca  obra  de referência, indispensável  a várias categorias de profissionais no mundo  inteiro. É claro que é um work in  progress. Contudo,  como seria   o  mundo   atual,   o da pressa, do imediatismo (com  muitas  negativas  desvantagens  para  os mortais) sem a invenção  do computador e de todos os seus  desdobramentos  tecnológicos?
   Não aconselho que  os  viciados  no Face e em  outras redes  sociais  abandonem  esses recursos,  mas que  o   utilizem  com  moderação, porquanto   eles tomam  muito  o nosso   precioso  tempo.
   Não  o substituam  pelo  contato  pessoal,  que é muito mais    importante e não  tem  substituto  à altura.  As amizades  têm  que ser cultivadas no tête-à-tête de preferência. O Face,  ao contrário,  para as  muitas funções  a que  me referi. Da mesma sorte,   outras mídias  escritas não podem ser nunca  negligenciadas,  os jornais, as revistas,  os livros impressos, as exposições,  as feiras  de livros,  as visitas aos museus,  as vernissages,  o  cinema, o teatro,  o circo,   a conferência (presencial), a televisão, o rádio. O grande  barato  é  saber como  combinar  de maneira  harmônica,  sem   excessos  de preferência,  todos  esses meios  de  comunicação,  de conhecimento,   de saber.
   O professor de língua  portuguesa, ou, para outros,  de  língua  brasileira,   deve estar  atento a tudo isso. Na multiplicidade  de  recursos  audiovisuais,  virtuais,  escritos,  falados,   há que  saber  dizer onde  um  deve ser  de preferência   usado, e principalmente  o  professor  competente  há de saber como   lidar  com proveito  e sem  discriminações   com  todo  esse  enorme leque   de opções  em que a língua  falada  se contamina com a  escrita  de modos  variados, a par de  ainda ter que situar  bem  o  papel  da  língua  literária,  seu estudo  e   sua  prática de leitura,  e  hermenêutica.  Tudo isso  não deixa de ser  um   vigoroso   desafio: encontrar   elos  sem embaralhá-los  e confundir  a cabeça  dos jovens  e adultos no sentido de  conquistar, simples e didaticamente   o usos multifacetado da língua na situação própria  e desejável.
   O que nunca será  de bom alvitre  é  dificultar   o  estudo   da  gramática e a prática da redação   empregando  uma metalinguagem  que  às vezes me parece  competir   com   o jargão  tecnicista-terminológico  das ciências. Tecnicalidades em demasia não  significam  uma correspondência  práxis  no  estudo  da língua  e  no manejo de  expressar o pensamento   do espírito  humano.  O caminho  mais  adequado  é  o progresso  nos estudos  linguísticos  sem os vezos   ainda   remanescentes   do estruturalismo que, pelo  exagero   e  ensinamento  mal conduzido,  apavorou,   pelo menos,  a minha geração  nos anos  setenta.