sábado, 28 de fevereiro de 2015

Mulheres


MULHERES

Jacob Fortes

Falar sobre as mulheres é enunciar o que há de mais sagrado, é referir-se às mães de um modo geral e, mais precisamente, à Maria Virgem, mãe de Jesus.

As mulheres têm sido fonte de inspiração de escritores, cantadores e poetas que lhe exaltam os méritos e os deméritos. Ora são deusas, ora anjos de dedicação e renúncia, ora, no dizer do poeta Wanderley Pereira, “Evas sempre prontas a complicar a vida dos seus Adões”.

Mas o valor das mulheres, de mistérios insondáveis, não vem por outrem, mas por elas mesmas, pela sua distinção pessoal, pela serenidade, pela competência, pela coragem, (ainda mais quando em defesa da prole), pela compreensão, pelo companheirismo. As mulheres são a homenagem de Deus ao amor. Quando mães, instintivamente se esmeram em proteger os filhos, orientá-los, modelá-los na virtude, nas lições do catecismo. No dizer do poeta João Paraibano, as mães deveriam ter dois corações: um para si, o outro para bater pelos filhos. Até mesmo quando impõem castigo à sua prole é possível sentir-se o lado amoroso das mães. 

Se é verdade que o mundo seria mais humano se fosse literalmente evangelizado, verdade maior é dizer que o mundo seria mais justo, mais útil e harmônico se fosse governado pelas mulheres. O poder, que por vezes se presta a tiranizar os homens, nas mãos das mulheres se prestaria à equidade, à concórdia, à benignidade. Vítima de discriminações e muitas vezes alijadas de direitos essenciais, das mulheres muito se tem exigido. Por exemplo, no decorrer dos séculos, acentuadamente durante o primarismo colonial, a elas se impôs todo um código de ética nas relações com o sexo viril. Nas comunidades de populações rarefeitas do interior do Brasil o culto à virgindade foi e continua sendo virtude das mais prezadas. Nisto o sertanejo não transige; do contrário melindra o pudor. Esse culto à virgindade, segundo o escritor Sylvio Rabello, é talvez uma forma residual da adoração à Maria Virgem. Também, nem sempre o trabalho da mulher, eventualmente mais árduo do que o dos homens, é devidamente considerado porque às vezes não é medido com a régua do dinheiro. São as que vivem entregues às atividades caseiras ou lidas do campo. Na cidade ou no campo, em nenhum dos seus múltiplos papeis as mulheres se descuidam das suas obrigações; as fazem com inflamado zelo. Lastimosamente ainda são expressivos, no Brasil e mundo afora, os escaninhos que ocultam a presença dos machistas que — embrutecidos pela ação do seu instinto violento ou sádico — preferem manter as suas mulheres sob o regime da subalternidade, da vassalagem ainda que à custa de mandonismo intimidativo, de ameaças, e, não raro, violências assombrosas. 

Deixo de exaltar a celebração ritualística do dia internacional da mulher, (quando a ela são ofertadas flores e outros mimos), porque faz supor que apenas um dia calendário lhes serve de ocasião às manifestações de apreço. Elas, que valem tanto quanto significam, são dignas de mesuras no decorrer de todos os dias.

Na figura da parentela (genitora, esposa, filha e irmãs) deste subscritor, saúdo todas as mulheres, desde as recentes às anosas: as solteiras, as casadas e descasadas; as viúvas; as ricas e as assistidas pela miséria; as felizes e as infelicitadas nos infortúnios que lhes coube em sorte; as incrédulas e as crédulas que se deixam enganar e escravizar; as que sucumbiram nas mãos dos cruéis uxoricidas; as cientistas, doutoras, contramestras e operárias; as que, debalde, aguardam a maternidade e as exaustas dos aborrecimentos desta mesma maternidade; as religiosas e as leigas; as que sonham com o himeneu e as que se frustraram com ele; as altivas e as que se prestam à servidão consentida; as normais e as acometidas de desorganização psíquica. Que as bênçãos divinas recaiam em messe sobre todas: as que se retiraram da vida terreal, as que cumprem o seu fadário.

Mas não poderia pôr um ponto final nestas singelas considerações sem reproduzir a sextilha do poeta Geraldo Amâncio acerca da essencialidade da mulher.

“Sei que mulher tem defeito:
Maltrata, briga e ciúma;
Tem a mulher que atraiçoa;
Mulher que bebe e que fuma
Mas quer desgraçar a vida
Resolva ficar sem uma”
“sublima-se o homem na dedicação à mulher”.      

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

ZEFERINO E A MATEMÁTICA MODERNA (*)


ZEFERINO E A MATEMÁTICA MODERNA (*)

Elmar Carvalho


No meu périplo campomaiorense, por ocasião da inauguração do Memorial e da sede da Academia Campomaiorense de Artes e Letras revi o Zeferino Alves Neto, um guerrilheiro da cultura e agora blogueiro. Foi meu professor de matemática, creio que em 1969, no meu primeiro ano do antigo curso ginasial, no único ano em que estudei no Colégio Santo Antônio, de que foram fundadores, entre outros, os velhos mestres padre Mateus, professor Raimundinho Andrade e o juiz Hilson Bona.

A seguir, estudei o segundo ano ginasial na cidade de José de Freitas, da qual guardo ótimas lembranças. Fiz o terceiro e o quarto ano, de volta a Campo Maior, no Colégio Estadual, que hoje, com muita justiça, tem o nome do professor Raimundinho Andrade.

Devo dizer que Zeferino, o ZAN, foi o único professor de matemática de que não tive medo, e observo que foi através de suas aulas o meu primeiro contato com a então chamada Matemática Moderna, cheia de sinais gráficos, desenhos geométricos e noções de conjunto, e outros artefatos pavorosos.

Sempre tive terror dessa matéria, e por isso escrevi em versos:  A matemática / me enlouquece: / por isto meu pensamento / salta de mais infinito / a menos infinito (…).   Alguns professores dessa disciplina aparentam ter certa inclinação para o sadismo, e parecem se comprazer com o medo que infringem aos discípulos. ZAN sempre foi um humanista, um guerreiro do bem, e não torturava seus alunos com ameaças e perspectivas de reprovação.

Como em 1975 deixei definitivamente Campo Maior, com minha ida para Parnaíba e depois Teresina, por décadas o perdi de vista. No começo dos anos 2000, quando lancei meu livro Rosa dos Ventos Gerais em Brasília, voltei a vê-lo, uma vez que ele foi a essa solenidade cultural. Depois, consegui rastreá-lo através dos mares internéticos.

Com o seu retorno a nossa cidade natal, tenho-o visto mais amiúde. Conversamos algumas vezes. Em seus comentários em blogs e sites, nota-se o seu apurado senso de humor e a sua preocupação com a cultura e o bom andamento da administração pública. Além de escritor, radialista, jornalista, blogueiro, é eminentemente um homem de teatro, tanto como teatrólogo, como também na qualidade de ator e diretor.

Embora a sua veia humorística esteja sempre afiada e armada, noto-lhe a preocupação constante em não ferir as pessoas, mas apenas em divertir-se e diverti-las. Portanto, o caríssimo ZAN sempre será Zeferino, mas jamais Zé Ferino, para fazer um trocadilho cretino, e continuar no meu rimar genuíno, sem perder o tom e o tino. 

(*) Republico este meu texto, datado de 17 de março de 2010, em virtude do falecimento de Zeferino Alves Neto, o ZAN, ocorrido no dia 25.02.2015, quarta-feira, como uma homenagem a ele que foi eminentemente um ser cultural e humanista.    

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

NA TOCA DO VELHO MONGE




26 de fevereiro   Diário Incontínuo

NA TOCA DO VELHO MONGE

Elmar Carvalho

No dia 15, domingo, recebemos, no Sítio Filomena, Várzea do Simão, uma comitiva integrada pelos amigos José Hamilton Furtado Castelo Branco, Antônio Alves, Francisco de Canindé Correia e Paulo de Tarso Mendes de Souza. Já se encontravam presentes Fátima, minha mulher, o tenente Nonato Freitas (Natim) e a professora Conceição Teles.

No alpendre da casa, passamos a praticar leve libação e rápida degustação, antes de nos deslocarmos até a margem direita do rio Parnaíba. Um pouco mais tarde, chegaram Vicente de Paula Araújo Silva (o nosso historiador e amigo Potência), e seu irmão Crisóstomo, acompanhado de sua esposa.

O Zé Hamilton foi um dinâmico prefeito de Parnaíba, em suas três gestões. Fez importantes obras públicas, mormente nas áreas da Educação, da Saúde e do desenvolvimento urbano, tendo construído e ampliado vários colégios, postos de saúde, hospitais, rótulas, ruas, avenidas e pavimentação de vias públicas. Manteve o serviço público em regular funcionamento e promoveu vários eventos culturais.

Edificou ainda praças, galerias e casas populares. Travamos relação de amizade muitos anos antes de seu primeiro mandato (1993-1996). O Canindé Correia, inteligente e probo, foi um ótimo secretário da Educação, em seu primeiro governo. Hoje, é membro do Conselho Municipal dessa área administrativa. O professor universitário e advogado Paulo de Tarso foi assessor jurídico do prefeito Zé Hamilton. É ainda notável articulista e contista.

Após o pontapé inicial desse domingo de confraternização, conversa e cultura, nos deslocamos até perto das barrancas do “rio de águas barrentas”, o “rio grande dos tapuias”, onde inauguramos a Toca do Velho Monge. Trata-se de um ponto de apoio rústico que criamos, para melhor observarmos a beleza da paisagem proporcionada por esse curso d’ água. A mesa de pedra quase bruta, rodeada de bancos de carnaúba, fica à sombra de imenso e frondoso tamboril, em cujo tronco foi afixada uma talha de madeira, confeccionada pelo artesão Barradas, amigo de meu irmão César Carvalho (Neném).

Quando, em companhia do Neném, encomendei essa talha ao mestre Barradas, expliquei-lhe que ela ficaria exposta à beira do Parnaíba. Também lhe disse que o excelso poeta Da Costa e Silva apelidou esse rio de Velho Monge porque, ao que se supõe, de certo local da sua bela Amarante, ao olhar para determinado ponto dele, talvez a sua confluência com o Canindé, a paisagem parecia desenhar o perfil de um monge, cujas espumas seriam as barbas brancas desse asceta. Por isso, na talha foi esculpido o perfil de um rosto, cujas barbas aos poucos se transformam em um rio. No meu discurso, expus essas circunstâncias explicativas e lamentei a degradação do Parnaíba.

José Hamilton, sentado num dos bancos, apreciou a beleza da paisagem, mas nem por isso deixou de notar o quanto esse rio se encontrava largo e raso, com imensas coroas e bancos de areia expostos, evidentemente por causa dos desmatamentos e queimadas, fora outras mazelas, como a redução de seu volume d’ água por motivos diversos. Prometeu que tão logo assuma o mandato de deputado estadual, cargo esse que foi exercido por seu pai, coronel Epaminondas Castelo Branco, em várias legislaturas, levantará sua voz em defesa do Parnaíba. Quase todos os presentes, cujos nomes já foram referidos nesta crônica, discursaram na Toca do Velho Monge.

Em seguida, fomos inaugurar o Cantinho do Poeta, situado num dos alpendres da casa do Sítio Filomena. Ali, com muita arte, beleza e perfeição, sem necessidade de régua nem esquadro, portanto à mão livre, o homem de sete instrumentos, também conhecido como faz-tudo ou artista de mil e uma utilidades, ou simplesmente o flamenguista Zico, desenhou o nome desse espaço etílico-lírico-degustativo-cultural. Nele se encontravam afixadas, em molduras metálicas, duas excelentes charges do também flamenguista Gervásio Castro.

Numa foi estampado o meu poema Bar do Augusto e as figuras inesquecíveis de Dom Augusto da Munguba, dono do bar Recanto da Saudade, e o carnavalesco e boêmio Dourado, que já partiram para o reino infinito. Na outra charge, elaborada há alguns anos, o Gervásio parece me ter antevisto como aposentado, porquanto estou quase deitado numa cadeira de praia, à sombra de um coqueiro, sorvendo um coco gelado; envergo uma camisa flamenguista, tendo ao lado a gloriosa bandeira do Mengão. Houve vários discursos, inclusive o meu, em que enalteci todos os amigos presentes.

Em seguida, fomos até o Grupo Escolar João Simão (João Rodrigues de Sousa), situado logo em frente, do outro lado da estrada. O Zico pintou em sua fachada, perto do nome da unidade escolar, o retrato de seu patrono. Em minha fala, discorri sobre seu pai, o velho Simão Pedro, um dos pioneiros na povoação da localidade, que nela se fixou há mais de um século. Falei do empreendedorismo de meu sogro, mormente no auge do extrativismo vegetal, nos áureos tempos da cera de carnaúba, da maniçoba, dos tucuns e do cultivo do algodão, mas também em sua atividade de produtor agropecuário.


Acrescentei que outro filho do pioneiro Simão Pedro – Severiano Neves – é considerado o fundador de São Félix do Araguaia – Mato Grosso, tendo sido seu primeiro prefeito. José Hamilton, Natim Freitas (neto do homenageado), Canindé Correia e Paulo de Tarso Mendes de Souza também fizeram uso da palavra.


O Natim, ao enaltecer as qualidades de seu avô, João Simão, se emocionou e comoveu todos os presentes. Em seguida, retornamos ao Cantinho do Poeta, onde encerramos a feliz confraternização, com mais uma sequência de brindes e discursos relâmpagos. 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Lançamento da revista Revestrés


Lançamentos de livros na APL


A Academia Piauiense de Letras tem o prazer de convidar V. Exa. e distinta família para o lançamento dos seguintes livros: Flores da Noite e Noite de Luar, nª 34, de Licugo de Paiva, Canto da Terra Mártire, nº 40, de Júlio Martins Vieira, e Memória Cronológica Histórica e Corográfica da Província do Piauí, nº 43, de José Martins Pereira de Alencastre, todos da Coleção Centenário, bem como A História de um Imortal, de Gervásio Costa.


Nelson Nery Costa
Presidente



Data: 28 de fevereiro de 2015
Horário: 10 horas
Local: Sede da Academia Piauiense de Letras (Auditório Acad. Wilson de Andrade Brandão)
Av. Miguel Rosa, 3300/S – Fone/ Fax :(86)  3221 1566–   CEP.: 64001-490  –  Teresina-PI    

Lábios


Lábios

Neide Moscoso

no contorno dos lábios
sinuosas curvas de
oceano sem vento
de uma boca em
restos de orvalho
encontro a seiva que
flui como uma flor
na chuva
lívida de possuir
o beijo       

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

O ESTRANHO MUNDO DA PENA DE MORTE


            O ESTRANHO MUNDO DA PENA DE MORTE

Valério Chaves
 - Des. Inativo do TJPI e membro
   da UEB-PI e da Academia de Letras da Magistratura Piauiense

            A decapitação do jornalista americano James Toley, a execução por fuzilamento do brasileiro Marco Archer Cardoso Moreira, e de outros cinco presos na Indonésia; o recente ato de selvageria praticado por grupos extremistas do Estado Islâmico contra o piloto jordaniano Muath al-Kassasbeth, queimado vivo e mostrado o vídeo na internet, e o enforcamento da terrorista iraquiana Sajida al-Rishami, tudo a pretexto de chamar a atenção mundial, conter o tráfico de drogas, espalhar o medo e ganhar poder, nos dão uma visão bem nítida do quanto o mundo está em perigo e tão carente de dimensionamento humano.
            Não resta dúvida de que atos dessa natureza - verdadeiros assassinatos a sangue-frio conduzidos por facções radicais travestidas de agentes públicos – representam uma forma cruel e desumana de violação de direitos da pessoa humana.
 Com efeito, aceitar a decapitação de prisioneiros, o fuzilamento de jornalistas e o enforcamento de terroristas como uma suposta solução de segurança em face dos crimes de que foram acusados pelos seus algozes, não passa de mera ilusão quando se sabe que países onde esse tipo de punição foi abolida, experimentam outras alternativas à abordagem da repressão total das drogas, tratando como uma questão de saúde pública, e não de crime punido com a pena capital.
            Sabemos que a execução de políticas eficazes de segurança é tarefa difícil no mundo competitivo e alienante em que vivemos, e que sua efetivação tem de passar por medidas que comecem com a implantação de forças policiais bem entrosadas com a comunidade, com um poder judiciário eficiente e com a eliminação de dois fatores responsáveis pelo alastramento da violência: a pobreza e a discriminação.
            Nesta era de livres denúncias ainda não se comprovou até hoje nos países onde é aplicada, que a pena de morte tenha provocado a diminuição da violência e dos delitos vinculados, nem tampouco tenha impedido a atuação de pessoas na prática dos crimes cominados com a pena capital, máxime quando não existem evidências confiáveis que atestem sua eficácia na prevenção de crimes.
            Embora sejam recorrentes as críticas mundiais a este respeito, ainda é grande o número de países (90) que utilizam a pena de morte, principalmente de governos totalitários, tais como: Cuba, China e Irã. Felizmente, no Brasil, em razão da proibição constante da cláusula pétrea da Carta Magna, não existe a pena de morte, salvo em caso de guerra declarada, nos termos do art. 84, inciso XIX), não obstante saber-se que algumas pessoas, sem perceberem a impossibilidade jurídica, e sem fazer uma análise mais humana do assunto, defendem sua aplicação nos casos de crimes hediondos.
            O certo é que, mesmo sob os escombros desses atos de brutalidade funesta contra vítimas indefesas, é difícil aceitar que as magnitudes dos atos terroristas mostrados ao mundo pelos meios de comunicação, não atingem somente as famílias das vítimas, mas todos os povos que exercitam e buscam a paz mundial.
            Vale ressaltar, contudo, que o sentimento crítico mundial e a reação indignada da maioria contra a sentença de morte decretada por governos que pregam o terror e usam as vidas de prisioneiros e de minorias étnicas/religiosas como instrumento de propaganda e fortalecimento do poder, são uma forma de não submissão à tirania imposta a quem desrespeita as leis.
            O grande jurista italiano, Cesare Beccaria, que nunca deixou de expressar seu amor pela humanidade, talvez antecipando o resultado de longos estudos da ciência jurídica ou inspirado nas condições particulares de sua época, dizia que a pena de morte é contrária à própria essência do direito. “Um país onde o próprio soberano exerce a autoridade, onde as riquezas apenas podem significar prazeres e não poder,  não deve existir qualquer necessidade de tirar a existência de  um cidadão” (in Dos Delitos e das Penas, pág. 46)
Espera-se, portanto, que o bom senso e a tolerância prevaleçam no coração de governantes mutilados pelo egoísmo, e que o retrato idealizado de deuses e heróis fanáticos, cedam lugar a imagens realistas de homens cultores do amor e da paz, e que representem, ao mesmo tempo, um forte chamado à oração a fim de que o desamor pelo próximo, possam dar lugar à reflexão e ao debate democrático num clima memorável de harmonia entre as nações rumo ao ideal de paz e fraternidade universal.
Caso contrário, estaremos sujeitos a perigos ainda maiores pelos caminhos do tempo e da história.  

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Seleta Piauiense - Raimundo Alves de Lima (RAL)


Bel

Raimundo Alves de Lima – RAL (1956)

há em mim paixões esvaídas
rabiscos
coisas antiquíssimas
há em ti cicatrizes
breves gestos
garatujas   

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Sarapatel do comendador


Sarapatel do comendador

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

Não sou tão bicudo, a ponto de negar méritos das novelas televisivas, especialmente da Globo. Fui seduzido pela novela Império, logo no princípio, pela mitológica e encantadora montanha de Roraima, onde se escondiam tesouros e mistérios. A trilha sonora de abertura, Lucy In The Sky With Diamonds (Lucy no céu com diamantes), dos Beatles, suprassumo de interpretação de Dan Torres.

Infelizmente, o que seduz os noveleiros é o puro entretenimento, sem filtrar o que se esconde por trás dos novelistas e da televisão. Exige-se conhecimento de técnicas empregadas em um gênero literário que se popularizou, mais pelos efeitos visuais do que pela tradicional novela escrita. No mais, o telespectador fixa-se somente no enredo, sem filtros da consciência crítica, filosófica e moral. Torna-se um refém do banquete narrativo oferecido pela empresa televisiva com gigantesca fonte de renda: belos corpos, lançamento de produtos, bulevares, praças e praias, carros, indumentárias, utensílios, códigos de condutas, turismo. Ao formador de opinião e educadores cabe a responsabilidade de apontar virtudes e vícios de um gênero que está mais para impor comportamentos do que extraí-los da sociedade. Um simples colorido e corte de cabelos da personagem cai logo no gosto popular.

Há algum tempo, novelistas globais, notadamente os gays, determinam exagerada apologia a personagens homossexuais, que dão graça e audiência à novela, mais pelo escrachado humor do que pela opção do gênero. O polêmico autor, Agnaldo Silva, resolveu abordar tipos diferentes da tribo gay: a mãezona Xana, o enrustido Cláudio, bicha má e invejosa Téo, além de outros. Mais que homossexualidade, o que está em jogo é o lado humano, os conflitos por que eles passam.

A novela Império segue o princípio básico do gênero: pluralidade de enredos (histórias) e personagens em torno de um núcleo comum: um cidadão rústico e pobre do interior nordestino aventura-se, no Rio, em busca de trabalho e ascensão social. Herda fortuna de um amigo garimpeiro, vira magnata do comércio de diamantes, milhões em bancos suíços, título de comendador, constrói mansão cheia de empregados, guarda-costas; filhos da prosperidade, preguiça e incompetência; o prazer em vez do trabalho e esforço. O comendador, porém, conserva a simplicidade e rusticidade interiorana. Aprecia a cachacinha, a comida frugal, especialmente o sarapatel, acompanhado de fiéis amigos trabalhadores em redor da mesa do boteco. A novela desenvolve-se em dois universos sociais paralelos e confluentes, onde se destacam virtudes de gente simples e honrada, paixões amorosas entre ricos e pobres.

O conflito do comendador com os filhos, inclusive com a esposa, é a vidinha que levam de consumo e exacerbado exibicionismo burguês, que desembocou em desabafo de profunda filosofia sertaneja: “Vocês vão ter que me aturar, comer sarapatel comigo”. Com jeitinho crítico, é possível se extrair alguma coisa de bom de uma novela. Tomara que ela acabe logo, pois vem me roubando precioso tempo de preciosos programas.   

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

CAPTORES DE CANÁRIOS


CAPTORES DE CANÁRIOS

Jacob Fortes

A Fazenda Triunfo, sopé da montanha, era uma vivenda aprazível não apenas por suas várzeas complanadas, abundantes em carnaúbas de copa densa, mas pelas melodias que emanavam das suas frondes. Eram os canários da terra, gregários, que, na vida alegre dos campos, viviam ali despreocupadamente. Centenas deles, animados pelo número, concertavam gorjeios durante toda a luz natural. Seus cânticos eram, a bem dizer, hinos consagrados a Deus ou, sabe-se lá, para celebrar as suas liberdades ou, ainda, reafirmar a angelitude das suas figuras dulcíssimas. Essa paisagem remonta aos tempos em que contos de fada impressionavam as mentes infantis. Ainda ouço as suas canções, terapêuticas, antisoledade.

Numa certa manhã limpa de sol erguido, os enxadeiros suavam no eito em prol da limpeza de um talhão de leguminosa: consórcio de milho e feijão. Durante uma pausa na labuta — para atiçar o fogo e ferver um café ao abrigo de um Angelim — um deles, o corcunda, ouviu rumores vindos do tabuleiro; ataviado de carnaúbas.  Juntos, e cheios de resguardos puseram-se em marcha. Não tardaram a distinguir dois forasteiros de meia idade: um branquelo, cabeça escalvada; o outro moreno, cabeleira a Castro Alves. Eram captores de canários que, arteiramente, aprestavam-se à tarefa de armar os alçapões com que pretendiam capturar as aves canoras.

Surpreendidos que foram pelos rurícolas, os captores desandaram a correr por rumos desfrequentados deixando as armadilhas que foram facheadas depois de postos em liberdade os desventurados “chamas”; que se prestavam, inconscientes, ao papel de atrair os seus iguais para destino fatídico. Ninguém lhes soube os nomes.

E no escoar dos anos: a inconsciência cresceu; a impunidade se estabeleceu; o tráfico de mortalha recrudesceu e o canário desapareceu. Na Fazenda Triunfo, em estado de apagamento e obscuridade, já não triunfa a glória dos cantadores; finou-se o som festivo das figurinhas queridas. Restou no lugarejo — assaz desnudado e adornado com ossadas que retratam a seca e a fome — a figura desengonçada e insossa do anum rabo de palha, produto inservível à mercancia do tráfico odioso.

Em mim, tatuada por dentro, a lembrança saudosa daqueles cancioneiros alados, que os mantenho presos, porém distantes das gaiolas, que as deploro, que me inspiram a escaramuçar disfarçado de zorro para encontrá-las e libertar os delicados menestréis a quem escutava e contemplava com aquela admiração do meu tempo de menino. Eles são minhas mascotes prediletas; significam mais do que valem!

Ao dar por terminada a tarefa que me impus de enunciar o episódio dos captores de canários, reproduzo parcialmente o soneto do poeta, Padre Antônio Tomás, com que exprimiu o seu compadecimento aos canários engaiolados:

“Por mãos cruéis um dia arrebatados
Aos vossos brandos, delicados ninhos,
Viveis cantando, ó meigos passarinhos,
Nestas tristes prisões, encarcerados.
....................................................................
Eu sinto ao escutar vossos lamentos,
Minhas horas de tédio e dissabores
Converterem-se em rápidos momentos.
Cantai, cantai, formosos trovadores;
Enquanto relatais vossos tormentos
Eu me esquecendo vou das minhas dores”     

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Ombros nus


Ombros nus

Neide Moscoso

ombros nus
queimados de sol
na tarde violeta
e rosas grenás
amparam-me no
relento dos meus
braços nus
encobertos de ilusão
esquecidos da vida
longe de casa 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Oh abre alas, que eu quero passar


Oh abre alas, que eu quero passar

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

             Antes de a maior festa coletiva do Brasil começar, que tal um passeio ao passado? Afinal, em se tratando de qualidade musical, carnavais antigos dão ainda de letra na mediocridade atual e continuam a encantar foliões e apreciadores do belo artístico. Velhas marchinhas que seduzem, em momento em que só restam rebolados regados a bebedeira, erotismo e refrãos insossos.

         Iniciemos por Chiquinha Gonzaga (1847-1935), filha de escrava com general do império, que a adotou e a privilegiou com educação aristocrática: afilhada de Duque de Caxias, aluna de famosos professores, entre os quais Maestro Lobo. Chiquinha Gonzaga ou Francisca Edwiges Neves Gonzaga estudou e compôs músicas, a partir dos 11 anos. Pianista, Chiquinha produziu sambas, polcas e choros, regeu orquestra. Mulher avançada para seu tempo de cultura machista e preconceituosa. A mulata pesquisava suas raízes musicais em contato com escravos. Casada com almirante, separou-se, anos depois, um escândalo para época. Aos 52 anos, apaixonou-se por aluno de música de 16 anos. Para fugir à rejeição da família e da sociedade, adotou-o como filho, ambos apaixonadamente perdidos, tiveram filhos.

                Em 1899, Chiquinha Gonzaga compôs a primeira música carnavalesca, o celebre Ó ABRE ALAS, QUE EU QUERO PASSAR/ Eu sou Lira/Não posso negar/Ó abre alas/Que eu quero passar/Rosa de Ouro/É quem vai ganhar. Canção composta para o cordão carnavalesco Rosa de Ouro. Muitas outras composições de Chiquinha popularizaram-se, graças à adaptação das mesmas a instrumentos menos aristocráticos que piano. Chiquinha tocava em saraus do Catete, ritmos populares que sofriam críticas da sociedade, que não aceitava “vulgaridades” artísticas em ambiente nobre. O presidente Hermes Lima acatava, porém, o gosto de sua esposa, amiga de Chiquinha Gonzaga.

                Marchinhas de carnaval, depois de Chiquinha Gonzaga, caíam na boca do povo, esquentavam salões de clubes sociais, dão, até hoje, audiência às rádios, neste período. Lembro-me bem da obra-prima de Zé Kéti, MÁSCARA NEGRA (Tanto riso/ Oh quanta alegria/ Mais de mil palhaços no salão/ Alecrim está chorando pelo amor de Combina/ No meio da multidão/ Foi bom te ver outra vez/Tá fazendo um ano/Foi no carnaval que passou/Eu sou aquele pierrô/Que te abraçou/Que te beijou, meu amor/A mesma máscara negra/Que esconde o teu rosto/Eu quero matar a saudade). A canção estourou no final dos anos de 1960. Tantas e tantas que pipocavam, a partir do réveillon, até chegar o carnaval, vendidas aos montes e decoradas à exaustão: Mamãe, eu quero; Cidade Maravilhosa; A Banda; Atrás do trio elétrico; Chiquita bacana; Tomara que chova três dias sem parar; Alá laô, mas que calor, ôôô; Acorda Maria bonita...

         Carnaval, origem pagã, depois adaptada ao espírito cristão de alegria, comes-e-bebes com racionalidade.  Caro Valet, vai-te carne, carnaval, porque, depois de três dias, vem o período quaresmal de jejuns e reflexões. Queira Deus que a indisciplina carnavalesca não reviva o império romano da comilança, que desembocava nos vomitórios construídos nos salões nobres. Uma farra que encurtava vários anos de vida. E pode se repetir.     

domingo, 15 de fevereiro de 2015

ETERNO RETORNO


ETERNO RETORNO

Elmar Carvalho

memória:
lâmina de desassossego
cornucópia insana insaciável
a jorrar o passado
que não morre nunca
sempre ressuscitado
no eterno regresso
a nós mesmos.

ó emoções redivivas
e ampliadas
das sensações
de nervos expostos
nas carnes pulsantes
de um passado
sempre lembrado.

recordações
que dão e são vida
de becos escuros, sem saída
de amores
            hoje boleros
                     bolores em flores
de ilusões perdidas
que se fazem dores
na florida ferida da saudade.

evocações
de dribles esquecidos
de gols frustrados e acontecidos
de um jogo que nunca termina
de uma malsinada sina sinuosa
de lágrimas caudalosas
incontidas, vertidas
das vertentes profundas
do peito – porto
sem tino e sem destino
feito somente de desatino.

as mulheres amadas
na juventude fugaz
            não envelhecem
            não se corrompem
            não morrem jamais
preservadas intactas e belas
na câmara ardente
incandescente da memória.

recordações de fantasmas
que já nos abandonaram
de amigos mortos
que nos acompanham
cada vez mais vivos
de sustos e gritos
de proscritos e malditos
de agouros e assombrações
de desdouros e sombras vãs, malsãs,
oriundos dos porões escavados
nos subterrâneos dos sobrados
       subterfúgios e refúgios
da memória.

O passado poderoso e renitente
retorna e continua vívido e presente
se contorcendo se retorcendo
       e se reacontecendo.   

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Estranho Homem


Estranho Homem

Cunha e Silva Filho

         Aquele  homem  grande,  meio calvo,  corpulento e de cara amarrada  bateu  três   vezes na  porta  principal  com os dedos em punho. Do lado de dentro, eu achei esquisito  a chegada ali  daquela  pessoa. O homem foi logo   dizendo que  tudo estava errado.  Eu e minha  família, isto é,  minha esposa e meu  filho não entendemos  o porquê  do  transtorno  daquele  homenzarrão de cara feia que, sem  motivos,  vinha  nos  importunar  do nada. “Quem  é o senhor? O que  quer de nós? Não fizemos nada errado.A casa é minha, pago meus  impostos em dia e sou  um funcionário  público em final de carreira”.
      “Tudo quase aqui em sua casa está irregular, até a arrumação  da casa, a mesa  não deve   estar neste lugar aqui,  o sofá  é grande demais  pra casa,  a geladeira,  o fogão,  o tanque,  enfim, tudo  na casa  está  irregular.”
“Mas, por que me diz  tudo  isso,  senhor?’ “Não quero  saber de sua  resposta. O senhor, que se diz  dono da casa deve me acompanhar"
    Era noite.  Mas, o que  disse era da boca  pra fora,  pois, como se verá, no final   da conversa,  ia exigir que fosse na manhã seguinte prestar  declarações ao chefe  sobre  todas  as "ilicitudes"  que  conseguiu anotar  numa caderneta.  
  "Vejo,  inclusive,   que  sua cama   é grande demais,  não  tem  o tamanho  adequado  para  um casal  tão  pequeno e com  pouco  peso  se somados  os dois. O quintal  está, da  mesma  forma,   todo  fora da lei,  assim como  os bichos que cria. Eu vou  precisar de ter  documento  seu  comprovando  que o senhor  foi quem   comprou   os bichos: galinhas,   patos,   uma tartaruga,  um cachorro vira-lata e um gato  branco.E até os passarinhos nesta gaiola  não são permitidos   por lei.Vou ter que levar  bichos  e aves”.
    Esqueci de  informar que  o  brutamontes  estava acompanhado  de um   homem   pequeno,   de olhos  vesgos  e  trazia, debaixo do braço, uma pasta   marrom, dessa  pastas que  comumente  vemos  na  cidade  gente  carregando cheia de  papéis com ares de   burocrata  certinho  e bem organizadinho.
          “Se o senhor  não  arrumar sua casa conforme  as recomendações   legais,  será  daqui  expulso e até mesmo,   caso   reclame de alguma coisa, sairá preso, perderá  o emprego 'para o bem do serviço  público.’   E nem  pense  que  conseguirá algum  advogado  pra defendê-lo. De nada  adiantará, se for o caso de prisão,  será prisão mesmo” Habeas corpus para nós,  diz  o armário, é conversa  mole  de excesso de proteção  a criminoso”.
         “Mas, nada fiz  de errado,  levo  uma vida  correta,   não tenho vícios,   não tenho, ao que pareça,  inimigos,  e  só tenho  um hobby,  o  de  colecionar  velhos   livros  de matemática,  matéria  que  sempre  estudei, dela fui  aluno exemplar. Como são,  em geral,   livros   raros ou  de  décadas  atrás,  encomendo-os pelas livrarias virtuais. Eles chegam  sem problemas. Veja, ali naquela   estante,  quanto  deles   coleciono. Se disponho de mais tempo,   leio-os  e  resolvo  os problemas  propostos  por seus autores. Até os mais cabeludos.Alguns deles  têm a chave dos exercícios, destinada aos  professores, então designada “Parte do Mestre” (se não me engano,  introduzida  pelos  Maristas   da Coleção  primorosa,  a F.T.D.) para  que  confira  se  acertou  resolver  os problemas  ou  não.”
   “O senhor está me fazendo  perder  o tempo  com  conversa fiada. O meu  assunto  aqui  nesta casa é vir  cumprir  o que meu chefe  me  determinou e lembre-se  de que eles são  tão sensíveis  quanto   os robôs e os programas   de computador. São frios e calculistas e, ao  lidarem com  o ser humano,    pouco  ou  nenhum valor lhe dão. Portanto,  vá cuidando do que  tem  a declarar ao chefe  superior. Aqui está  o endereço  a que deve comparecer, leve  o máximo  possível de documentos e notas   fiscais  de compras  dos objetos   que  a sua casa possui. O grandalhão  entregou-me um  papel  timbrado e  me  pediu   que o assinasse. O comparecimento  ao chefe seria  no dia seguinte,  às 9 00:hs.
     O brutamontes, acompanhado do homúnculo, saíra  da casa sem  despedir-se. Ao contrário,  bateram  com a porta e sumiram  para um  lugar   desconhecido. Era noite.    Em casa, agora sozinhos,  não sabíamos   o que  dizer, tomados de medo  e desespero.  Descobri, de repente,  que  apenas mal  acordara  de um pesadelo e, agora, nem me recordo bem  se  os fatos se deram  conforme  o relato  precedente. Me acuda, leitor, que o mundo é louco mesmo  e sem sentido.

   Não  viu o que fizeram   com  aquele famoso  personagem de Kafka, preso  sem saber  por quê? E mesmo  a figura real  de  Graciliano Ramos,  o que de errado  fez  pra merecer  uma prisão no Estado Novo? Experiência  de preso injustiçado   que  lhe rendeu literariamente  uma grande  obra,  Memórias do  Cárcere. O pai  deste narrador também  foi preso em 1935, no mesmo  período  discricionário,     injustamente  somente  porque  tinha  em casa  uns livros marxistas que, de resto,  tinham  sido deixado na  casa dele  por um  seguidor  do comunismo,   o qual por acaso  estivera de passagem  por Amarante,  cidade  piauiense.Um dedo-duro  denunciara  meu  pai  que,  por isso,   amargara  um período de cadeia em Teresina. A experiência de prisão de meu pai o inspirou a escrever  um  dos  melhores capítulos  do  seu livro, Copa e cozinha.     

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

AS MISSIVAS DE ELISABETO RIBEIRO GONÇALVES



12 de fevereiro   Diário Incontínuo

AS MISSIVAS DE ELISABETO RIBEIRO GONÇALVES

Elmar Carvalho

Não resisto à tentação de trazer para este Diário uma pequena carta internética, datada do dia nove, que me foi enviada pelo Dr. Elisabeto Ribeiro Gonçalves, neto do coronel Orlando Carvalho, reconhecido como um dos mais operosos prefeitos de Oeiras, terra natal do missivista. Ei-la, na íntegra:

“Prezado amigo e poeta (maior) ELMAR CARVALHO,

          Recebi neste final de semana o seu livro AMAR AMARANTE. Fiquei encantado com o presente e por algumas boas razões. Primeira delas, é que o livro é de sua autoria e isso nos dá a certeza de uma antecipada garantia de qualidade literária e estilística. Depois há uma razão, digamos sentimental: Amarante é o berço da família Ribeiro Gonçalves, pois lá se fixaram os três irmãos vindos de Portugal.
           Aliás, segundo sei, eram quatro irmãos, mas um foi para o sul e nunca mais ninguém teve notícias dele. Então a família nasceu lá e continuou lá por muito tempo, quando se dispersaram entre Oeiras, Teresina e Floriano, principalmente. Lá nasceram meus avós paternos, meu avô materno e meu pai, embora nascido em Manaus, voltou para lá ainda criancinha, com quatro anos, e viveu em Amarante até formar-se, quando foi exercer a Medicina em Oeiras, casando-se com minha mãe, oeirense.
            Amarante ainda tem a honra de ter dado ao Piauí o maior poeta brasileiro de todos os tempos.  Lembro-me de que num dos sonetos do vate amarantino ele canta Amarante dizendo que minha terra é um céu se há um céu sobre a terra. E tem um de seus versos (acho que de A Moenda) eleito o melhor e mais bonito de toda a poética de língua portuguesa: Saudade, asa de dor do pensamento.
            De modo, poeta, tenho motivos de sobra para ler o seu Amar Amarante com todo interesse, buscando nele o encanto, o prazer e a emoção que sua prosa, já minha conhecida, certamente vai me propiciar. Se não for pedir demais, peço-lhe que não se esqueça de mim, enviando-me, oportunamente, todo o produto de sua criação literária e poética.
            Ao ler e reler seu “Noturno de Oeiras” passei a entender o sentido do que Guimarães Rosa disse em seu Grande Sertão: Veredas: tem horas em que penso que a gente carecia, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto. É isso aí, poeta: a leitura de sua obra me dá essa espécie de encanto, que a gente tenta esticar, prolongar, mesmo sabendo que devemos, embora a contragosto, fugir à magia e ao doce torpor desse deslumbramento.
            Abraços afetuosos, poeta, do amigo que o estima e admira muito, mesmo sem conhecê-lo.

           Elisabeto”

Consta que o grande poeta Augusto Frederico Schmidt, então proprietário de uma editora, ao ler um relatório do prefeito Graciliano Ramos, ficou com a convicção de que o alcaide deveria ter algum romance escondido em alguma gaveta. De fato Graciliano havia escrito seu romance Caetés, que Schmidt veio a publicar. Depois veio a série de obras importantes do grande ficcionista alagoano.

Da mesma forma, quando dona Anatália Gonçalves de Sampaio Pereira, sua irmã, me deu a ler uma carta do Dr. Elisabeto, fiquei com a desconfiança de que ele deve ter importantes textos guardados, que certamente merecem ser dados à estampa da publicidade.

Dona Anatália lhe remeteu o meu livro Noturno de Oeiras e outras evocações. Poucos dias depois, recebi uma carta, por e-mail, em que ele comentava com muita propriedade essa obra. O texto tinha algo de boa crítica literária, e muitos comentários e observações que somente um bom escritor e leitor arguto poderia fazer.

As cartas de Elisabeto são feitas com frases bem construídas, elegantes e gramaticalmente corretas, mas sem empolações e desnecessárias pulutricas estilísticas. Concisas, exatas, precisas, mas de denso conteúdo. Consoante se depreende de suas judiciosas observações e análises, de seus abalizados e pertinentes comentários, ele poderia ser, se o desejasse, um exímio cronista ou um notável ensaísta. 

Pelas intertextualizações, pelas referências a textos e autores, e pelas eventuais citações diretas, nota-se que Elisabeto é um leitor de largas, longas, profundas e meditadas leituras, cujas ressonâncias transparecem no teor de seus escritos e em seu estilo límpido, escorreito, rítmico. Não é somente um bom redator; é um estilista esmerado, atento, perfeccionista, que chega ao ponto de elidir o “que” (elipse), para que esse conectivo não tenha excessivas repetições num mesmo período.

De qualquer forma, suas cartas, pelo que me foi dado conhecer, merecem ser enfeixadas em livro. Aliás, muitos escritores tiveram suas missivas organizadas e editadas. Algumas dessas publicações são compostas de dois ou mais literatos que trocavam correspondências. Muitos desses textos são tidos como grandes obras literárias, por suas observações, reflexões, análises, críticas, depoimentos, comentários a fatos ou obras de arte. As cartas de Elisabeto contêm todos esses ingredientes, tudo vazado em refinada linguagem.  

Mário de Andrade era um incansável missivista. Enviava cartas para diversos escritores, tecendo comentários, emitindo sugestões, apresentando palavras de estímulo e encorajamento. Tento imaginar o que ele faria hoje, com as facilidades proporcionadas pela internet, através de sites, blogs, e-mails e facebook. Godofredo Rangel e Monteiro Lobato se corresponderam por 40 anos. Li uma dessas missivas. Era uma verdadeira obra de arte, e me comoveu e encantou.


As cartas do Dr. Elisabeto Ribeiro Gonçalves, médico como seu pai, um dos mais respeitados oftalmologista de Belo Horizonte, são verdadeiras obras-primas, pelas qualidades que lhes ressaltei acima, e por reunirem atributos de crônicas, ensaios, memórias e artigos, merecem ser compiladas em volume impresso, ainda que ele julgue necessário fazer uma seleta dessas excelentes missivas.   

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Loucura


Loucura

Neide Moscoso

controlo a própria loucura
entre o livro e o som
ouvindo Billie outra vez
libero emoções contidas
angústias fúteis queixas
de histórias pessoais
deságua numa xícara
de café
salvo a página em branco
esvaziando palavras
na caneta entre os dedos  

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

COGITAÇÕES


COGITAÇÕES

Jacob Fortes

Há momentos em que a mente abandona o seu posto de vigilância e, entre prostração e calundu, mergulha em profundos e silenciosos devaneios.  É uma circunstância inesperada. Numa introversão indefinida se põe a ruminar sobre quase tudo: o ontem, o hoje, o amanhã, enfim, um cortejo de vultos pardacentos dentre os quais figuram as vitórias, que tonificam; as derrotas, que deixam o travo; a desopressão pelos benefícios recebidos e concedidos; a compunção pelos atos malévolos (quem nunca os cometeu, ainda que involuntariamente, que se professe imaculado), mais das vezes acesos, martelando, fazendo o seu autor purgar em arrependimentos. É o seu jeito paciencioso de vingar-se.

Enquanto perdura o alheamento letárgico, a mente se detém nas suas escavações particulares fazendo desfilar o cortejo das legendas nevoentas: saudades, de pessoas e coisas; lembranças: esquivas, desgastadas, memoráveis; a carta fechada do porvir; o jardim da mocidade — que se dizia eterno, imarcescível, — progressivamente emurchecido ante o escoamento incontornável dos anos. E o filme segue exibindo legendas múltiplas que se alternam entre a melancolia, a taciturnidade, a alacridade.

Mas, assim como desperta o corpo que se estira em sesta dormitiva, os devaneios também acordam.  A mente, como que alfinetada, estremunha-se de súbito e dá-se por encerrada a introspectividade.

Reativado o radar da mente o nauta, que se houve retido por falta de bússola, dar prosseguimento à faina de navegar. Restabelece-se, então, a rotina; o discernimento reassume o leme. 

Este enunciado, ainda que exprima apenas o imaginário do narrador, é factível; pode acometer a qualquer um. É o que sucede aos que apascentam o olhar na pradaria do vago ou nas baforadas de um cigarro.