terça-feira, 31 de março de 2015

Francisco Hardi Filho


Francisco Hardi Filho

Itamar Abreu Costa

I

"Poeta, que escrevia as coisas do coração,/
De coração, amado, saudoso, prá  corações,/
Adélia, sua musa inspiradora, a maior paixâo,/
Filhos, filhas, netos, netas, noras, genros, devoções.

II

"Meio século de cumplicidade,  e muito amor./
Escrevendo, educando os filhos, com destemor,/
Exímio funcionário, poeta astuto educador/
Á Academia de Letras, integrou, ajudou e honror!

III

"Os confrades da academia, passaram a lhe admirar,/
Francisco Miguel, Paulo Nunes, Celso Barros e Jônatas/
Oton, Nelson, Humberto, Alcenor, Nildomar e Elmar/

IV

"Já nos céus,  encontrou: Palha Dias, Wilson Brandão/
Arimatéia, Fabricio, Ofélio, Da Costa e Silva e Cordão/
Cláudio, José Eduardo. José Lopes, Arthur  e Amélia Brandâo."

domingo, 29 de março de 2015

Rompimento


ROMPIMENTO

Elmar Carvalho

Dedo em riste,
muito feroz e muito triste,
o homem, grosso e imundo, falou:
– Lembra-te, tu já lambeste meu cu!
A mulher, com gestos abstratos
feitos do mais singelo recato,
elegante e delicada, retrucou:
Lambi, mas não lambo mais ...
O homem quedou-se transformado
em pesada estátua de pedra e dor.
A mulher se foi
          –  leve e evanescente –
anjo que se libertou.   

sábado, 28 de março de 2015

Enfim, o livro Escorregões no Português

Professor José Maria Vasconcelos

Enfim, o livro Escorregões no Português

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Parto complicado, a aventura para se editar um livro. Dói. Pior, sair por aí, feito vendedor de beiju, montado em jumento, clamando nas ruas a compra da preciosa guloseima. Acrescentem-se os interessados em receber a obra como brinde de papai Noel, sem reconhecer a dura tarefa de escrever.

         Há 17 anos, publico crônicas e Escorregões no Português em jornais da região. Com perdão da vaidade, uma legião de leitores, Brasil afora. Dezenas de blogs e sites solicitam-me autorização para reproduzir as colunas: Antônio Dall Ólio (Fortaleza), jornalista José Fortes, Zeferino Júnior (São Raimundo Nonato, juiz Elmar Carvalho, entre outros. Textos comentados por estudantes e professores nas salas de aula. Ou leitores, como Pimentel, do judiciário federal de Brasília, que enviam meus textos, por e-mails, aos amigos. Também se destacam dedicados leitores com oportuna “correção fraterna”- termo a que me acostumei no seminário capuchinho: depois do jantar, irmãos reunidos, se corrigiam, em público, por deslizes, quase sempre triviais. Agradecia com a “santa caridade” dos que me botam no picadeiro das escorregadas. E não me perdoo: publico a correção merecida e enviada pelos leitores.

         De tanto me “aporrinharem” amigos e leitores para editar um livro de crônicas ou escorregões no português, cedi aos encantos das mariposas ofuscadas pelos flashes noturnos.

         O livro Escorregões no Português é uma coletânea de colunas publicadas ao longo de 17 anos. Meus arquivos reservam muito mais para outras edições. De início, Interessava-me publicar livro de crônicas, por se tratar de um gênero literário. Todavia, por prometer retorno financeiro imediato de maior público, optei pelo primeiro. Espero continuar na jornada com dinheiro no bolso, sem as expensas do poder público. No livro, aparecem dezenas de colaborações e indagações de leitores.

         Zózimo Tavares, jornalista, escritor e membro da Academia Piauiense de Letras, prefacia o livro com a sua conhecida e inteligente ironia: “Vai doer no ouvido de quem leu? Vai doer na mão de quem escreveu... Ora jocoso, ora impiedoso, sempre em cima do lance... pega nos pés dos coleguinhas de imprensa, de articulistas mais empavonados, acadêmicos, magistrados, políticos, artistas, órgãos públicos... Ninguém se livra das derrapadas, nem ele... e ele, com humildade e espírito de aprender brincando, publica a desforra... Ele já pegou em meu pé? Já, sim, mais de uma vez... eu me envaideço de tê-lo como meu leitor...

     O livro insere opiniões do teólogo Antônio Carlos Machado (Fortaleza), Frei Hermínio, desembargador e acadêmico Lindomar Silveira, escritor e juiz José de Anchieta Mendes, escritor Chico Castro, crítico Orlando Torres, Professor e escritor Francisco de Assis Sousa (São Julião - PI), médico Gisleno Feitosa e juiz João Batista Rios.

         Agradeço a chancela da Editora Zodíaco, do jornalista e advogado Kenard Kruel, que ajudou no parto da obra. Doloroso, mas sem eclampsia.   

Olhos nus


Olhos nus

Neide Moscoso

olhos nus
olhos líquidos
nado
mergulho e
me sorriem
sorriso da
alma
nua    

sexta-feira, 27 de março de 2015

Gato preto


Gato preto

Luís Alberto Soares (Bebeto)

Um gato preto de tamanho mediano tem causado um terror em Amarante. Coincidência ou não, as vítimas do bichano são todas professores. As aparições do mal-assombrado, iniciou-se nesta sexta-feira (13\03) quando o gato preto alojou-se no veículo do professor VALDEMIR PEREIRA DOS SANTOS, conhecido como DEMIR. Convém salientar que o carro do professor também é preto. Para o animal sair não adiantou o esforço do coitado do professor. Conta-se que, FRANCIMAR SOARES, também professor, mas, também, um famoso “rezadeiro”, disse que o bichano era uma aparição do demo e que estava ali para “aperriar” DEMIR que deixou de ser padre, abandonando o seminário. FRANCIMAR fez algumas orações e o bichano escafedeu-se.

        Dias depois, o gato fez outra aparição. Desta feita, ele se escondeu no carro do professor RUDYFRAN FERREIRA. O bichano deu um trabalho terrível para sair do carro. Conta-se que nem com jato de água. Foi preciso tirar as rodas do carro e fazer orações. Professores estão com medo de ser uma maldição contra o magistério amarantino. ADRIANO, professor de biologia, disse que vai passar alguns dias sem sair em seu veículo, notadamente em noite de sexta-feira. IRONILSON LIMA, Presidente do SINTE-PI, em Amarante, falou que vai alertar a todos sobre o PERIGO DO GATO PRETO. Alguns docentes estão se valendo de rezas e velas para não se encontrarem com a terrível aparição maligna.    

quinta-feira, 26 de março de 2015

FANFARRA DE BEM-TE-VIS


26 de março   Diário Incontínuo

FANFARRA DE BEM-TE-VIS

Elmar Carvalho

Nestes últimos dias a temperatura de Teresina esteve amena, agradável. Para nosso padrão, chegou a fazer certo frio, durante as madrugadas. Também caíram umas boas chuvaradas. Talvez por isso, nas proximidades do condomínio Vila Formosa, os bem-te-vis estiveram bastante alvoroçados e alegres. Acordei sob uma “alvorada” desses festivos passarinhos.

Em mais de uma ocasião já falei sobre os bem-te-vis da Várzea do Simão. Josué Montello, notável escritor, esmerado estilista de nossa literatura, de linhagem machadiana, já escreveu sobre os bem-te-vis de sua São Luís do Maranhão. Em muitas passagens de sua lavra ouvimos o alvoroço dessas alegres aves.

Num de seus livros, já não recordo qual, Josué discorreu sobre as sutilezas desse cantar, demonstrando que ele não é monocórdio, como muitos desatentos pensam, mas que, ao contrário, tem vários arranjos e variações sobre o mesmo tema – bem te vi. Esses trinados e gorjeios têm as suas repetições, prolongamentos e modulações, que lhes tiram a aparente mesmice.

Sem dúvida o bizarro e original poeta Sousândrade também os ouvia, quando eles alegravam as manhãs e a melancolia das tardes, empoleirados nas árvores da quinta da Vitória, por onde, perto da casa solarenga do vate, corria o Anil, não sei se anilado ou barrento. Dali, na descrição do grande memorialista Humberto de Campos, se descortinava à distância a Ponta d’ Areia e o oceano. O oceano embrulhado em seu barulho azul, como nos versos de Gullar. Segundo HC, em seu Diário Secreto (edição da Fundação Geia, 2010, pág. 360), à sombra das árvores o poeta, “de bruços, no chão”, lia Homero no original.

Voltando aos bem-te-vis, agora mesmo escuto-lhes a cantiga de admoestação. Muitos tentam esconder-se, por causa de seus crimes, mas parece lhes perseguir o olho onisciente do Senhor, através do remorso. O canto do bem-te-vi, segundo a crença popular, é como se fosse, na mensagem da onomatopeia, uma advertência às nossas faltas e pecado: bem te vi, parece dizer a voz onisciente de Deus através dessas aves.


Com a sua vistosa e galante plumagem, e com a sua cantiga álacre, esse brioso passarinho, que chega a afugentar gaviões e carcarás das cercanias de seu ninho, por causa de episódio que já narrei neste Diário, tornou-se, para mim, o símbolo alado de minha saudosa mãe. Por isso mesmo a Fátima fez que lhe desenhassem no painel estampado à entrada do sítio Filomena. Não posso ouvi-lo ou vê-lo, que não me lembre de minha mãe.   

quarta-feira, 25 de março de 2015

Fugir


Fugir

Hélio Soares Pereira

Fugir para dentro das ruas
é sentir-me só
distante da vida
sem palavra
sem eco
no exílio

Fugir para dentro de mim
é encontrar-me nos encontros
dos cantos e das fontes
entre as manhãs e as noites

Fugir para dentro das ruas
é esquecer-me nos dias inúteis
é tornar-me desfigurado
entre os figurantes

Fugir para dentro de mim
é libertar-me em gestos crescentes
de amor e memória          

Índio não aceita tutela do Estado e ongs


Índio não aceita tutela do Estado e ongs

José Maria Vasconcelos 
Cronista, josemaria001@hotmail.com


         Puro índio, moreno, olhos oblíquos, pouca fala, nome e sobrenome indígena. Frequentemente, volta à tribo Canelas, município de Barra do Corda-MA, para visitar os pais e irmãos. Prestou serviços de eletricidade, durante vários dias, na minha residência, quando manifestou um cidadão generoso e responsável. Para não revelar a identidade do índio, escolhi o pseudônimo Taipeba.

         O jovem Taipeba veio a Teresina, há alguns anos, trazido por missionários evangélicos, para tratamento de saúde. Hospedou-se no abrigo para índios, logo depois da Ladeira do Uruguai. Batizado, fiel aos cultos, estabeleceu-se aqui, onde estudou. RG, CPF, carteira do trabalho, certificado de eletrônica e ensino médio, e-mail, pilota moto, atende pedidos para serviços, paga impostos. Em Teresina, conheceu uma garota, casaram-se, residem na periferia. “Minha religião não me permite prostituir”.

         O índio orgulha-se de sua etnia, mas não aceita a tutela imposta por órgãos governamentais. “Lá, a gente não evolui, sempre dependendo dos caprichos, interesses e vigilância”. Para Taipeba, as entidades indigenistas tentam preservar os índios fechados em primitivos hábitos e culturas, sem evoluir em conhecimentos como os brancos. Índios permanecem atrasados e analfabetos; pior, só poucos, como eu, conseguem evoluir, livres e civilizados. Os chefes tentam vender a imagem que não é verdade. Exigem que o índio se enfeite de adereços e pinturas para as câmeras de tevê. Somos vigiados e protegidos, mais pelo interesse deles do que pela nossa independência financeira e cultural. Por trás da vida miserável na tribo, tem gente levando vantagem, inclusive o cacique. Só aprendemos o rudimentar. Lá dentro, ninguém cresce e se liberta. Para a FUNAI, quanto mais atrasados, melhor. Até para construir uma igreja, botam empecilho. Acham que a gente vai evoluir na vida... Alguns chefes indígenas ficam ricos, explorando madeira e tráfico de drogas.

         A questão indígena nacional vem causando preocupações, desde a conquista de imensas reservas para poucos índios às demarcações em áreas de fronteiras. Além de intromissões estrangeiras em seus domínios, camufladas de ONGS humanitárias, controlam entrada de brasileiros nas reservas.  

      A presença indígena em zona de fronteira internacional, principalmente na região amazônica, constituiu uma preocupação permanente para o Estado brasileiro. A demarcação de terras indígenas nessas regiões é um dos principais focos de tensão política. Os povos indígenas em região de fronteira são vistos como uma ameaça à nação. Embora sejam brasileiros e suas terras propriedade da União, sua nacionalidade é questionada e são frequentemente acusados de servir, de modo ingênuo, a interesses estrangeiros, ameaçando a integridade e a soberania nacional na região.

      Taipeba convidou-me para visitar sua tribo, em breve. E avisa para não me surpreender com a nudez dos seios das mulheres. “Minha esposa segue o mesmo costume, lá”. Pureza edênica, lição de pudor à maliciosa civilização.     

segunda-feira, 23 de março de 2015

domingo, 22 de março de 2015

Confissões de um juiz nas livraria de Teresina


Já se encontra à venda o livro Confissões de um juiz, da autoria do poeta e escritor Elmar Carvalho, o qual poderá ser adquirido nas livrarias Entrelivros (avenida Dom Severino, 1045 – Fátima), Nova Aliança (rua Olavo Bilac, 1259 – Centro), Anchieta (avenida Nossa Senhora de Fátima, 1557), Monsenhor Melo – UFPILivraria Universitária (shoppings Riverside e Teresina) e Leonel Franca (rua Barroso, 353 - Centro e shopping Riverside).

O ESSENCIAL FAZ A VIDA VALER A PENA

   
O ESSENCIAL FAZ  A VIDA VALER A PENA      
                                            
          Ferrer Freitas (*) 

Mário Raul de Moraes Andrade, amplamente conhecido  por Mário de Andrade, nasceu em  São Paulo, capital, em 9 de outubro de 1893, e lá faleceu em 25 de fevereiro de 1945, há 70 anos, portanto.  Foi poeta, escritor, crítico literário, musicólogo, folclorista, ensaísta e um dos pioneiros da poesia moderna brasileira com a publicação, em 1922, ano da realização da “Semana de Arte Moderna”,  de seu livro “Pauliceia Desvairada”, obra considerada um marco da literatura brasileira.  Merece ser registrado que a “Semana de 22”, como ainda é conhecido o movimento, contou  com a participação de expressivos nomes do “modernismo brasileiro”, além de Mário, a saber:  Oswald de Andrade, que não era seu irmão, como muitos pensam,  Menotti Del Pichia, Guilherme de Almeida, Heitor Villa-Lobos, Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral,  para citar os mais conhecidos.

Mas,  o que me fez lembrar de Mário de Andrade?  Para ser preciso, sem me perder em elucubrações literárias,  foi  a leitura recente de  texto   (não sei precisar se poesia ou prosa) dele, Mário,  a mim enviado  pelo mano Benedito Freitas,  poeta nas horas vagas, amplamente conhecido em Oeiras por “Armônio”    por conta  do nosso avô paterno, Benedito Amônico de Freitas,  conhecido de todos pela alcunha de Burane,  músico,  pintor e  tabelião  (foi titular  de cartório em Oeiras).   O texto, que me apraz reproduzi-lo abaixo, expressa austeridade  ímpar com o comportamento do  ser humano  que não atenta para  o passar  dos anos e permanece useiro e vezeiro em lidar com mediocridades.

“Contei meus  anos e descobri que tenho menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Tenho muito mais passado do que futuro. Então, já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero reuniões em que desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos cobiçando o lugar de quem eles admiram.
Já não tenho tempo para conversas inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas idosas, mas ainda imaturas.
Detesto pessoas que não debatem conteúdos, mas apenas rótulos!...
Quero viver ao lado de gente que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade.
Quero caminhar perto de coisas e pessoas de verdade.
Apenas o essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!”

É isso aí, “Armônio”!    

 (*) Ferrer Freitas é do Instituto Histórico de Oeiras   

sexta-feira, 20 de março de 2015

SOLENIDADE DE LANÇAMENTO DE “CONFISSÕES”




20 de março   Diário Incontínuo

SOLENIDADE DE LANÇAMENTO DE “CONFISSÕES”

Elmar Carvalho

Conforme previsto, aconteceu no sábado, dia 14, a partir das 10 horas, o lançamento de meu livro Confissões de um juiz. Posso dizer que o auditório da Academia Piauiense de Letras estava lotado, pois pouquíssimas cadeiras não foram ocupadas. Tudo transcorreu na mais perfeita ordem e conforme o planejado por mim e pelo sodalício.

A mesa de honra foi composta por Nelson Nery Costa, presidente da APL, Leonardo Trigueiro, juiz de Direito e presidente da AMAPI, professor Paulo Nunes, acadêmico e presidente do Conselho Estadual de Cultura, des. Pedro Macedo, representando o Tribunal de Justiça do Piauí, des. Joaquim Santana Filho, corregedor do TRE-PI, Antônio Pedro de Almeida Neto, presidente da Academia de Letras do Vale do Longá, Reginaldo Miranda, ex-presidente da APL, Ivanovick Feitosa Dias Pinheiro, defensor público, e Elmar Carvalho, autor do livro.

Com muita competência, o poeta e imortal Herculano Moraes comandou o cerimonial. Prestaram depoimento sobre o livro e seu autor os escritores e juristas Nelson Nery Costa, Leonardo Trigueiro, Ivanovick Pinheiro e Reginaldo Miranda. Os dois últimos apresentaram peça escrita, em que analisaram em profundidade a obra memorialística objeto do lançamento. Os dois textos, claros e concisos, muito bem redigidos, foram publicados em meu blog (poetaelmar.blogspot.com.br). Oportunamente, serão publicados em outros sítios internéticos.

Em seu depoimento, o nosso presidente Nelson Nery, após ter discorrido sobre o livro e seu autor, tendo citado passagem que considerou emblemática, chamou a atenção da assistência para foto estampada na página 166, dizendo em seu estilo brincalhão, que ali eu estava novo, esbelto, bonitão, em meus tempos de goleiro e no apogeu de meus 17 anos de vida. A colega Mara Rúbia, com a sua simpatia e alegria contagiante, saltou com “quatro pedras na mão” em minha defesa, ao proclamar: “Ele está mais bonito é agora; na foto da capa ele está muito mais bonito!” Mesmo não mais alimentando ilusões, não posso deixar de dizer o quanto esse episódio engraçado me deixou feliz.

Meu último livro lançado festivamente foi Lira dos Cinqüentanos, comemorativo, como o seu nome indica, de meu meio século de vida, fato ocorrido faz oito anos. Nessa época utilizávamos quase tão somente o convite de papel, enviado pelos Correios ou entregue pessoalmente, fora o telefone fixo que ainda imperava.

Desta feita, além dos convites enviados pela APL e pela AMAPI, fiz um grande esforço pessoal e utilizei os recursos da internet. Assim, lancei mão de e-mails, blogs, portais, facebook, torpedos e telefonemas, mormente através de aparelhos celulares. Naturalmente, publiquei vários outros livros entre o “Lira” e as “Confissões”, mas não precisei me envolver pessoalmente para o êxito da solenidade de lançamento. Outras eram as circunstâncias e realidade.

Em meu discurso, fiz uma apertadíssima síntese de meu livro. Falei de minha vida de servidor público, por mais de 39 anos, e de minha judicatura de 17. Por sinal, meu pedido de aposentadoria foi deferido no dia 19 de dezembro de 2014, quando eu completava exatamente 17 anos em meu cargo de juiz de Direito (titular do JECC de Oeiras – entrância final), porquanto tomei posse nesse dia, no ano de 1997. Aduzi que ingressei na magistratura quando eu tinha 41 anos de idade, portanto já com muita experiência na vida particular e na de servidor público, posto que comecei a trabalhar aos 19 anos de vida.

Sobretudo, falei de minha atividade judicante. Expliquei que na obra memorialística procurei enfocar peripécias e fatos que pudessem aguçar o interesse do leitor, muitos deles sérios, alguns trágicos, vários interessantes, outros engraçados, jocosos, hilários e mesmo anedóticos.

Sendo eu formado em Administração de Empresas e tendo sido servidor público por quase quatro décadas, dediquei um capítulo ao serviço público, no qual narrei episódios verídicos, contudo hilários e anedóticos em sua maioria, mas que no seu simbolismo sarcástico e irônico são emblemáticos das mazelas da administração pública brasileira, nas três esferas de governo e no tocante aos três Poderes.

Sem empáfia e sem fanfarronice, disse que nunca senti medo no exercício de meu cargo, uma vez que nunca me senti ameaçado por ninguém; que de nada tenho remorso, porque sempre procurei agir com Justiça e com imparcialidade, e que nunca propositadamente tirei a razão de quem tinha para dar a quem não a tivesse.

Todavia, reconheci que certamente devo ter cometido erros, em razão de que nem sempre a parte consegue provar os seus argumentos e porque posso não ter tido a inteligência para compreender certas sutilizas e filigranas, mormente as controvertidas e ainda não pacificadas pela jurisprudência e pela doutrina. Enfatizei que ao longo de minha vida, seja a pública ou a particular, enfrentei algumas dificuldades, mas que nesses momentos orava a Deus, e sempre esses percalços foram solucionados.

Afirmei que sempre mantive um relacionamento cordial com os servidores, jurisdicionados e operadores do direito, com uma única exceção, que remeti ao livro. Discorri sobre as minhas campanhas e pregações nas áreas da educação, cultura, esporte, arte e ambientalismo (sugerindo uma espécie de segundo turno letivo informal), no intuito de retirar o jovem da rua, do ócio e dos atos infracionais, mas que preguei no deserto da indiferença dos gestores municipais, que sempre tiveram ouvidos surdos a essas sugestões, e também à de criação de um espaço cultural, no qual houvesse um auditório-teatro, uma biblioteca e uma videoteca.

Contei sobre os reais motivos que me levaram a requerer minha aposentadoria, quando ainda tinha mais de 11 anos para ser atingido pela famigerada e implacável compulsória, que talvez venha a ter um acréscimo de mais cinco anos. O motivo principal está narrado no livro. Quanto às “gotas d’ água”, que também contribuíram para minha decisão, ainda não quis torná-las do conhecimento público, para não ferir a suscetibilidade de ninguém. Entretanto, afirmei que estou plenamente satisfeito com minha vida de aposentado, embora esteja muito ativo em minha condição de literato, inclusive com a execução de novos projetos literários e ambientalistas, sobretudo em defesa do rio Parnaíba.

Ao falar dos motivos que me levaram a requerer a aposentadoria, resolvi invocar o tribuno romano Cícero: "Se ao lado da biblioteca houver um jardim, nada faltará." Disse que construí minha biblioteca ao longo de quase toda minha vida, e que agora usava o leitor de ebook Kindle, que me permitia ter uma livraria móvel e portátil. Quanto ao jardim, fica no sítio Filomena, à margem direita do Velho Monge. Ainda parafraseei a célebre citação de São Paulo, que é paradigmática: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé.”

Transmiti a seguinte citação de Lourenço de Médici, que pela sua profícua administração de Florença, em todos os setores, inclusive da cultura, da arte e da literatura, mereceu o cognome de Magnífico, embora tenha deixado a vida pública aos 41 anos de idade: “Pode haver algo mais desejável para um espírito bem equilibrado do que desfrutar do lazer com dignidade? É o que todos os homens bons almejam, mas que só os notáveis conseguem.” É o chamado otium cum dignitate. Advirto para que não se confunda o ócio produtivo (das leituras e reflexões criativas) com preguiça e inércia.


No fecho de minhas palavras, disse que gostaria que os médicos, os advogados, os policiais, os representantes do Ministério Público, os magistrados, enfim todos os profissionais que tratam da vida e da liberdade humana pudessem ler o meu poema Vida in Vitro; que esse texto enfoca o ser humano em sua grandeza e miséria, em sua sublimidade e vicissitudes, em sua força e fragilidade, virtudes e vícios.

Esclareci que a sua gênese mais remota aconteceu quando, ainda criança, à noite, em companhia de meu pai, das colinas que antecedem o bairro Flores, ainda bucólico e florido como seu nome, avistei as luzes do casario de Campo Maior, e tive como que uma epifania, ao me sentir adentrar cada uma daquelas casas, e me irmanar aos seus moradores, em perfeita comunhão.


Acrescentei que sempre persegui esse poema, mas que ele sempre me saía insatisfatório; que a sua outra gênese foram as luzes noturnas do conjunto Promorar, pois eu imaginava que em cada uma daquelas pequenas casas existia um micro mundo, com alegria e tristeza, angústia e esperança, sofrimento e êxtase. Como o poema é um tanto longo para os padrões de hoje, encerrei meu improviso recitando-lhe apenas alguns poucos versos, que tiveram o aplauso dos amigos presentes.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Encontro na livraria


Encontro na livraria

Neide Moscoso

te encontro
na livraria
Nietzsche
vamos folhear
filosofar
o áureo
momento
cultuar o
tesouro
em minhas
mãos
nas tuas
com as
minhas
mãos.......  

Depoimento sobre "Confissões de um juiz"

O juiz e escritor Elmar visto por Gervásio Castro


Depoimento sobre "Confissões de um juiz" (*)

Ivanovick Feitosa Dias Pinheiro
Defensor Público e professor universitário

Sr. Presidente da Academia Piauiense de Letras, professor Dr. Nelson Nery Costa,
Senhoras e Senhores, Meu nobre amigo Elmar Carvalho,

evidentemente não sou a pessoa mais indicada para a tarefa de apresentar o novo trabalho do escritor e Juiz Elmar Carvalho. Certamente não tenho o conhecimento necessário para extrair da obra “Confissões de Um Juiz” tudo aquilo que ela é capaz de transmitir. Somente a amizade e a sensibilidade do autor justificam que a escolha de apresentar o Livro tenha recaído sobre a minha pessoa. E notadamente por tais motivos eu não poderia deixar de aceitar o desafio de estar na presença das maiores autoridades literarias do nosso Estado do Piauí para falar brevemente acerca do novo livro de Elmar Carvalho.

O título fala muito sobre o livro. Confissão, segundo os mais notórios dicionários nacionais, pode ser definido como o ato ou efeito de confessar(-se). Tais dicionários traduzem o ato de confessar em variados comportamentos.

Inicialmente fala-se em revelação que alguém faz de um ato censurável que cometeu. Em seguida, diz-se o reconhecimento, por uma pessoa, da culpa ou da acusação que lhe é imputada. Noutro sentido, desabafo, confidência. Por fim, aproxima-se a confissão da revelação do que se sabe, sente ou pensa.

Na obra não há confissão como o reconhecimento de uma culpa. Certamente que não. A leitura da obra permite concluir que o termo “Confissão” foi utilizado certamente com o último significado: “revelação do que se sabe, sente ou pensa.”

E o livro certamente é obra do saber, do sentir e do pensar.

Do saber e do pensar, pois o autor Confessa aquilo que sabe, aprendeu, ensinou e vivenciou nos anos de Juiz. Ele revela na Primeira Parte do livro experiências de vida, como o episódio no início de 1997 que o levou a comprender com maior rigor a importância do Poder Judiciário. Confessa as angustias da quimioterapia e de como absolutamente não utilizou a doença para angariar qualquer benefício na remoção para Capitão de Campos.

E segue nessa Primeira Parte discorrendo sobre decisões interessantes e, como ele mesmo descreve, “senão mesmo folclóricas” (pág. 32). Cita episódios anedóticos e narra que praticara futebol até completar certa idade e de como a sua participação em um campeonato fora do Estado do Piauí lhe rendeu numa tarde, após o almoço, uma experiência nada comum.

No sétimo item (pág. 40) há uma frase que revela um pouco do autor Elmar Carvalho. Indagado certa vez sobre o motivo de haver comparecido ao Tribunal de Justiça do Estado do Piauí para esclarecer questão alusiva a valores monetários que deveria receber e de que sendo poeta deveria viver de brisa ele imediatamente retrucou: “Perfeitamente, o poeta vive do éter e da brisa, mas o juiz precisa de dinheiro para sustentar o poeta”.

E, ainda na Primeira Parte do livro, apresenta revelações acerca de sua participação como Educador e estimulador da Cultura, do Esporte e da proteção ao Meio Ambiente, desde longa data.

Já defendeu com vigor a tese de que “os restos mortais do poeta Da Costa e Silva fossem trasladados para sepultamento na sua Amarante” (pag. 47), bem como e noutra seara, lutou pela defesa do Rio Parnaíba que, segundo revela na pág. 48, é o mais importante patrimônio do nosso Piauí.

A primeira parte do livro, como acima revelado, é obra do saber e do pensar.

E ouso concluir que a Segunda Parte, intitulada “Mémorias Afins” é obra do sentir e do pensar. Conta com elogiável “Oração à Vila de São Gonçalo de Regeneração”, local no qual tive o imenso prazer de conviver com o autor por alguns anos, quando no exercício do cargo de Defensor Público. Na Oração à Vila, o autor demonstra imenso carinho pelo local, e cita que lá esteve no auge da adolescência, e revela carta que na época o descrevia como sendo parecido com famoso galã das telenovelas de então (pág. 57).

Na Segunda Parte também são confessados os Tempos Ribeirenses. Foram quatro anos (pág. 67) dedicados à Justiça, mas também aos eventos culturais, literários, macônicos e cívicos. Lembra que chegou a lançar livro de sua autoria, bem como de participar de lançamento de outros. Cita que foi eleito por seu amigo e meu tio Adovaldo Medeiros como membro honorário da Fundação Leôncio Medeiros.

Ainda na Segunda Parte o autor revela dois interessantes textos de sua autoria “Exortação à Justiça e à Bondade” e “Evocação de Piracuruca”. Em razão do tempo destinado para essa Apresentação atenho-me tão somente a destacar como é prazerosa a leitura dos citados trechos do livro.

Merece referência, ainda que breve, as notas sobre o seu encontro com pessoa admirável, a Dra. Estelita Guerra. Os “Tempos Recifenses” e a “Visita a Um Lutador Obstinado” são trechos bastantes ricos na obra.

Além desses, a Segunda Parte revela também o tempo na Comarca de Oeiras, o qual descreve como tendo sido entre “Anjos e Poetas”. Conta na Obra sobre o “Memorial a Quatro Poetas de Oeiras” e o “Memorial ao Poeta Da Costa e Silva”.

A terceira parte do livro certamente revela obra do Sentir. São as “Memórias Afetivas” do Poeta e do Juiz. No início dessa Terceira Parte o autor faz um “Retrato” de sua mãe. Diz com especial orgulho que sua vocação (pág. 126) era “ser esposa, mãe e exímia dona de casa”. Tinha o espírito forte e uma grande energia vital.

E o sentir pode ser vislumbrado no trecho “Morte de Josélia”, que certamente apenas a leitura completa pode revelar todo o carinho e sofrimento externado nessa parte do Livro.

E toda a capacidade de transmitir sensações através de suas palavras e escritos pode ser percebida num texto aparentemente simples, mas revelador: “Memorial da Cachorra Belinha”. O trecho que descreve a alegria da chegada de Belinha, bem como aquele que revela o falecimento da cachorra demonstram como o autor tem a natural capacidade de prender o leitor nos mais variados contextos e situações.

Por fim, a última e Quarta Parte do livro contém interessante “Memória Fotográfica”, a qual revela uma época na qual a fotografia digital ainda não tinha dominado o cenário fotográfico mundial. Destaco dois momentos das Confissões Fotográficas: primeiro, a sua Solenidade de Posse (foto 12), na qual aparece professor e Juiz a quem sou imensamente grato e que é amigo comum do Poeta e Juiz Elmar Carvalho, o Doutor Carlos Augusto Brandão; e segundo, a foto 28, em frente a essa Academia Piauiense de Letras, local que ele sempre revelou imenso carinho.

Seguramente essa apresentação não consegue dar a dimensão das “Confissões de Um Juiz”, do Poeta e Juiz Elmar Carvalho; mas penso que talvez sirva como um estímulo à leitura de tão prazerosa obra literária.


Obrigado por me permitir demonstrar um pouco da admiração que tenho pelo Poeta e Juiz, ser humano amável, educado, humilde e inteligente, que sempre se revelou em todas os nossos diálogos jurídicos e literários como merecedor de muitos elogios e que certamente nunca se deixou impressionar por nenhum deles.

(*) Título engendrado pelo titular do blog. Discurso pronunciado pelo Dr. Ivanovick Pinheiro, no dia 14.03.15, no auditório da APL, por ocasião do lançamento de Confissões de um juiz.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Teresina


Teresina

Hélio Soares Pereira

Hoje eu te contemplei
na fantasia
dos meus olhos

E te senti
no calor da terra solta
de minha infância

E subi
nas tuas árvores verdes
de minha juventude

E te molhei
na água filtrada
de minha saudade    

CONFISSÕES DE UM JUIZ


CONFISSÕES DE UM JUIZ

Reginaldo Miranda
Da Academia Piauiense de Letras

No dia de hoje o acadêmico José Elmar de Melo Carvalho, festejado autor de Rosa dos ventos gerais, lança mais um livro de sua autoria. Trata-se de Confissões de um juiz, bela obra, onde relata sua vivência de quase dezessete anos na magistratura piauiense.
 
Mas o juiz, poeta, memorialista e acadêmico não para por aí. Faz mesmo uma retrospectiva de seus trinta e nove anos de vida pública, em que serviu ao País e ao seu Estado, o Piauí, como monitor postal dos Correios (ECT), desde setembro de 1975; fiscal da extinta SUNAB, depois redistribuído ao Ministério da Fazenda (a partir de 1982) e, por fim, juiz do Tribunal de Justiça do Estado do Piauí, onde ingressou no ano de 1997.

Em sua interessante obra, Elmar Carvalho, como é mais conhecido, desce a minúcias sobre sua passagem pelas comarcas onde atuou ainda ao tempo de juiz substituto, tais como: Piracuruca, Socorro do Piauí, Inhuma, São Pedro, Teresina e Curimatá. E, sobretudo, não esquece comunas onde se demorou por mais tempo, na qualidade de titular. É assim que conhecemos facetas da vida judicial e comunitária de distantes localidades, a exemplo de Ribeiro Gonçalves, antiga vila de Remanso, terra de nosso estimado confrade Humberto Guimarães. Ela está viva e presente em sua obra, sobretudo no capítulo intitulado Tempos Ribeirenses. Da mesma forma, surge Capitão de Campos, no norte do Estado, e, também, a vetusta Regeneração, onde se demorou por mais de seis anos, aqui representada pelo ilustre filho M. Paulo Nunes, uma das glórias da Academia e daquela cidade, que também posso chamar de minha, dados os laços de afetividade que nos unem. Essa cidade recebe atenção especial em sua obra, inclusive com inclusão de eloquente discurso onde relata sua história e relembra seus vultos, ao receber o título de cidadania honorária.

Por fim, na obra ora lançada aparecem Oeiras e Teresina, onde por último prestou seus relevantes serviços. A primeira foi homenageada com célebre poema, Noturnos de Oeiras, que caiu no gosto do povo e hoje está definitivamente incorporado na literatura piauiense. Teresina, sem maiores comentários, é a cidade do dia-a-dia, definitivamente incorporada em sua obra.

Esses relatos de vida profissional, como vai perceber o leitor, além de trazer à baila a lida forense, a convivência com representantes do Ministério Público, com advogados, com serventuários, com os jurisdicionados em geral, são, também, entremeados com episódios pitorescos e anedóticos, onde a vida comunitária surge em toda a sua inteireza. Por essas razões, a obra de Elmar Carvalho interessa não só a ele próprio, mas a todos aqueles que com ele conviveram e, sobretudo, é um registro contemporâneo da vida comunitária, além de um retrato do judiciário piauiense na visão de um magistrado.

Mas o magistrado José Elmar de Melo Carvalho não se prende apenas a essas questões. Vai mais além. Relembra os idos tempos de esportista, quando atuou como goleiro de time amador. Traz crônicas sobre o cotidiano e sobre entes queridos, além de rica memória fotográfica.

Também, aborda a sua atuação em defesa dos valores literários, da cultura, do esporte e das causas ambientais, sobretudo a defesa do rio Parnaíba, que é vital para a economia piauiense.

Como não poderia deixar de ser em obra dessa natureza, o juiz Melo Carvalho, mesmo não sendo um estudioso da área, traz algumas informações sobre suas origens genealógicas assentadas no norte do Piauí, entre os carnaubais de Campo Maior, as Barras do Marataoan e o vale do rio Piracuruca, onde viveram os Furtado, os Rego, os Melo e os Carvalho de sua ascendência familiar.

Convidado para prefaciar o livro, destaquei naquela oportunidade, entre outros aspectos, o belo e pungente perfil por ele traçado de sua saudosa mãe, mostrando as suas qualidades de escritor, mas também a pureza de ser humano que é, assim como o berço de onde saiu, razão da fortaleza de seu caráter no enfrentamento das adversidades da vida.

Nesse aspecto, é interessante ressaltar na personalidade do juiz José Elmar de Melo Carvalho, dois belos traços: a simplicidade e a humildade. Essas virtudes foram exaltadas pela população de Baixa Grande do Ribeiro, termo judiciário de Ribeiro Gonçalves, onde atuou esse magistrado. E foram ditas por populares a outro magistrado, o Dr. João Batista da Silva Rios, também portador das mesmas virtudes, nosso amigo comum e que o conheci há vários anos, na qualidade de Juiz de Direito da cidade de Bertolínia, onde nasci. De fato, esse é um traço marcante da personalidade do autor, que muito o honra e dignifica. E eu também posso assim testemunhar, porque o conheço de longa data, vez que formamos na mesma turma do curso jurídico na Universidade Federal do Piauí, em julho de 1988. E, também, na qualidade de advogado tive com ele muitos contatos profissionais.

Um parecer precisa ser dito sobre a obra ora lançada. Confissões de um juiz sobreviverá ao tempo e permanecerá na literatura piauiense, sobretudo pela franqueza e honestidade intelectual de seu autor. Elmar Carvalho não fugiu aos fatos, não sonegou informações. Foi de uma franqueza elogiável ao referir-se a problemas particulares ao tempo de redução salarial na SUNAB e, sobretudo, aos problemas de saúde que o afligiram ao longo de sua bem sucedida jornada. Nesse aspecto, sua obra lembra as Memórias de Humberto de Campos.

Por fim, meu velho amigo Elmar, o mais eu já disse no prefácio do livro. É essa mais uma obra de sua lavra. Uma boa obra que vem enriquecer a literatura piauiense. Parabéns.

·        Oração proferida no auditório “Wilson de Andrade Brandão”, da Academia Piauiense de Letras, na manhã de 14 de março de 2015, por ocasião do lançamento da obra Confissões de um juiz, de autoria do magistrado e acadêmico José Elmar de Melo Carvalho.   

segunda-feira, 16 de março de 2015

CORRUPÇÃO: NÓDOA QUE PERSISTE


CORRUPÇÃO: NÓDOA QUE PERSISTE

Jacob Fortes

A corrupção vem de longe, chegou debaixo dos panos como passageira clandestina das caravelas.

Por mais que existissem controles enérgicos, monitorados por exatores régios de grande valimento, (governadores, ouvidores e provedores) imbuídos de poderes majestáticos, de prerrogativas supremas para vigiar as riquezas da Fazenda Real, cobrar o quinto, julgar e decidir, o fisco régio era driblado; insondáveis modos corruptivos vigiam: imagens devocionais recheadas de ouro.

Enquanto escoava o rito com que El-rei drenava as riquezas da colônia, oprimida, infetada de corruptos, os rebentos tupiniquins iam surgindo aos milhares, e, nestes, o ardor da liberdade. Suas aspirações libertárias fustigavam-lhes o sangue! Enquanto a emancipação amadurecia, aqui e acolá levantes separatistas glorificavam heróis da independência; pena de morte ou degredo. Finalmente, sem bacamarte, sem baioneta, sem clavinote, sem derramamento, a independência, — por meio apenas de um grito sonoro vindo de especialíssimas circunstâncias históricas —, se fez realidade. Vexados por séculos de exploração os tupiniquins cantaram, se refestelaram.   Porém, remanesceram as bactérias virulentas da corrupção, principalmente na política e na gestão da coisa pública. O que era tomado dos brasileiros à força, pelos mecanismos reinóis, passou a ser tomado à surdina, à matreirice, pelos corruptos e corruptores. Desgraçadamente o povo continua sendo defraudado por uma corrupção sombria e trágica, quase hegemônica. Nisto deriva o sobrepeso escanchado no cangote dos que, com seu trabalho, forjam a identidade brasileira; embora por vezes rotulados de tolos porque se pautam pela correção.

Enquanto a corrupção, viciosa, endêmica, se devota ao santo sacrifício de drenar os recursos públicos, a pátria, — cambaleante, emperrada, de semblante demudado, — desapressa os passos da prosperidade.

Tomara que as mãos equânimes do Supremo Tribunal Federal, ao rigorismo da lei, possam desvendar e punir os corruptos que, por meio de tramoias, vivem parasitariamente à custa do suor dos tributários brasileiros. O país — saqueado, esvaído, — já não tem sangue suficiente para saciar a gula de esponja de tantos fraudadores hematófagos. Ainda que os embusteiros — no papel de diversivos e entregues ao hábito de pretextar para não assumir responsabilidades —, aleguem que a culpa é de Getúlio Vargas por ter criado a Petrobrás, a crença é de que o primado da justiça se imporá. Com ou sem lava jato, urge água e sabão, abundantemente, para remover essa nódoa que persiste.