quarta-feira, 29 de março de 2017

PARNAÍBA EXPRESSA POR PERÍFRASES

Fonte: Google

PARNAÍBA EXPRESSA POR PERÍFRASES

Alcenor Candeira Filho

     Várias cidades são identificadas não só pelo nome verdadeiro mas também através de um recurso estilístico denominado “perífrase”: rodeio de palavras utilizado em lugar do nome comum ou próprio, destacando algum de seus atributos.
     A perífrase (do grego “periphasis”), também chamada de “circunlóquio”, é uma variedade de “antonomásia” – designação de uma pessoa, objeto ou entidade por outra denominação: “Poeta dos Escravos” [= Castro Alves], “Salvador” [= Jesus Cristo], Última Flor do Lácio” [= latim].
     Normalmente as construções perifrásticas são bem conhecidas e facilmente associadas às palavras substituídas. Quando não se pressupõe conhecido o termo disfarçado por seu intermédio, a perífrase se torna viciosa ou de qualidade inferior, passando a configurar a denominada “perissologia”. Exemplos de circunlóquios de boa qualidade:
     - “Cidade Maravilhosa” [= Rio de Janeiro]
     - “Cidade Eterna” [= Roma)
     - Cidade Luz [= Paris]
     - Cidade Verde” [= Teresina]
     - País do Sol Nascente” [= Japão]
     O poeta cearense Paula Ney usa uma bela perífrase no soneto FORTALEZA:

                     “A Fortaleza – a loira desposada
                     Do sol – dormita à sombra dos palmares. ”

     Manuel Bandeira e Mário de Andrade também se utilizaram
 dessa figura de pensamento para homenagear suas cidades    
natais:

    
 
     “Recife    
     Não a Veneza americana
     Não a Mauritssadt dos armadores da Índias Ocidentais
     Não o Recife dos Mascates
     Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois –
                           Recife das revoluções libertárias,
     Mas o Recife sem história nem literatura
     Recife sem mais nada
     Recife da minha infância”
                         (M. B. – RECIFE)

     “Minha Londres das neblinas finas!
     Pleno verão. Os dez milhões de rosas paulistanas.
                           (M. A. – PAISAGEM Nº 1)

     Em vários poemas sobre Parnaíba publicados no ALMANAQUE DA PARNAÍBA (edições de nºs. 61/1994 a 65/1998), na seção denominada PARNÁRIAS, colhi exemplos de expressões perifrásticas, aqui transcritas para que cada leitor eleja a que melhor retrata a cidade:

     “A invicta Parnaíba, erguendo-se radiosa,
     ...................................................................
     Abre ao sol do Brasil seu lindo relicário. ”
                        (Alarico da Cunha – O CENTENÁRIO DE PARNAÍBA)

     “E que você seja sempre
     Rainha do Igaraçu,
     Princesa do Piauí! ”
         (R. Petit – TERRA CABOCLA)

     “Deusa do Igaraçu, Princesa das Canárias,
     Tens como trono e sólio essas famosas ilhas. ”
                    (Jesus Martins – PARNAÍBA)

     “És a Princesa de Simplício Dias! ”
                  (Oliveira Neto – PARNAÍBA)

     “Foste líder na história piauiense,
     Ao Progresso e à cultura dás abrigo,
     Linda joia do nordeste brasileiro. ”
                 (Fernando Ponte – PARNAÍBA)

     “parnaibano nato declaro:
     é aqui
                  e não ali
                                  ou alhures
     o meu lugar
     a partir de 1762 Vila de São João da Parnaíba
     e de 1844 para cá e para sempre cidade da Parnaíba
     porta do delta único das Américas em mar aberto.”
                         (Alcenor Candeira Filho – O MEU LUGAR)

     “PARNAHYBA, NORTE DO BRASIL, eu conheço bem essa história.”
                           Danilo Melo – PARNAHYBA)

      “Parnahyba, Norte do Brasil” – representa a forma como a cidade era chamada, particularmente em anúncios publicados no ALMANAQUE DA PARNAÍBA, durante o apogeu de seu 
desenvolvimento econômico, na primeira metade do século XX.
     Inácio Marinheiro de Oliveira publicou em 2014 um dos mais belos livros sobre Parnaíba, com muitas fotografias e textos do autor. O título do livro encerra uma perífrase: PARNAÍBA, A PÉROLA DO LITORAL BRASILEIRO.
     “Princesa do Igaraçu” e “Rainha do Delta” são outros exemplos de construções perifrásticas muito usadas pelos parnaibanos.
     Qual a mais expressiva para você, caro leitor?        

terça-feira, 28 de março de 2017

UM FUNERAL NO CARNAVAL

Foto meramente ilustrativa. Fonte: Google

UM FUNERAL NO CARNAVAL

Vivaldo Lemos Fernandes

            Acho que a sua pederastia era inata, congênita. Ele já nasceu guei. O seu verdadeiro nome ninguém sabia. Uns diziam que era Amadeus e outros que era Florisbelo. Mas, isso agora não importava. O que efetivamente vem ao caso é o que aconteceu naquele carnaval, nos idos de cinquenta e dois.

            Lixaba, como era conhecido desde a Palha de Arroz, São José, Paissandu, até o Mercado Velho, apareceu por ali ainda rapazola, no viço, vindo não se sabe também de onde, se do Maranhão, do Ceará ou da Bahia. Era moreno, baixo, grosso, de nádegas roliças e arrebitadas, e tinha uma entorse do lado direito da coluna, que o deixava meio corcunda. Andava sempre de calção apertado, feito de pano colorido e camiseta de mangas cavadas, banhado e perfumado. Tinha os cabelos compridos, ondulados, e, à noite, exercendo a profissão, até os lábios pintava e se travestia de mulher. Era o recadista das prostitutas do pedaço e também o seu mais fiel confidente. Fazia as compras para de mercado para a Maria Aguiar e outras cafetinas, donas de cabarés. Era pau para toda obra. E também bom cozinheiro, diziam.

            O dinheiro que ganhava tinha dois investimentos certos: sustentar os seus homens e depositar o restante na Caixa Econômica Estadual para custear suas fantasias e orgias do carnaval. Todos os anos tinha indumentárias novas e diferentes: ora de colombina, odalisca, boneca... e outras mais. Porém a que ele gostava mesmo e se esmerava no seu preparo era a de baiana, com saia rodada, colorida, com anáguas engomadas e cesta de frutas na cabeça, braceletes de contas nos braços, pendentes doirados das orelhas, tamancos de salto alto e enfeitados, tudo ao estilo Carmem Miranda. Aliás, vestido assim, a caráter, até que a imitava. Quando ele, desfilando, chegava à Rio Branco e a Pedro II, o povão ululava, ria, batia palmas, dava vivas, chamava seu nome e ele delirava; redobrava-se em requebros e meneios; jogava confetes, serpentinas, na plateia e jatos de lança-perfume. Ele se sentia o máximo, um fausto, um ditoso e alcançava, pela excitação e deslumbramento, um orgasmo mental. Eram três ou quatro dias de delírio, de contentamento, de alegres folguedos. Porém, na quarta-feira, se recolhia solitário ao seu quarto e lá permanecia como anacoreta, em total recolhimento e abstinência, até sábado, quando voltava às suas atividades normais.

            Também, às vezes, ficava em profunda prostração, abatido, deprimido, não se alimentava e não aparecia durante a noite. Quando era acometido por essas crises, não queria saber de ninguém, nem mesmo dos seus homens. Diziam os mais íntimos que aquilo era produto de uma grande paixão recolhida, não retribuída, guardada e sete chaves... um segredo inconfessável. Especulações havia de toda ordem. Uns diziam que era por causa de um filho de um alto funcionário do governo, o que, aliás, promoveu até uma disfarçada investigação. Outros juravam que era por causa do seu procedimento amoral – um pederasta vulgar, disforme e pobre, que só vivia de fato, verdadeiramente, durante os dias de carnaval, existência efêmera como a de uma colorida borboleta. Mas, tudo não passava de meras conjecturas até o momento em que o verdadeiro motivo veio à tona. Foi uma revelação bombástica! Toda a bicharada do pedaço e até mais além, para as bandas dos sobrados e bangalôs, se assanhou, com suspiros, desmaios, faniquitos... foi uma loucura, pô!

            O caso era antigo. Remontava há mais de cinco anos. Aconteceu num domingo, quando ele fazia compras no Mercado Velho. De repente, deparou-se com um crioulo de quase dois metros de altura, bem apessoado, dentes alvos, riso franco e aberto, maneiroso e voz argentina de locutor de rádio. O negrão, também, estava de bermuda e camisa de malha, mostrando o físico de atleta. Lixaba parou extasiado. Olhou-o, discretamente, de cima para baixo, prestando atenção em todos os detalhes, porém, onde se demorou, onde redobrou a sua perspicácia de profissional, foi no meio das pernas do rapagão. Fez um cálculo mental do tamanho do troço que estaria a dormitar ali por baixo da roupa e soltou um ai suspirado. O crioulo não deu muita atenção ao fortuito encontro e foi embora, entretanto, ele ficou ali parado a mirá-lo com o olhar lânguido... sonhador...apaixonado. Amor de primeira vista!

            Nunca tinha visto aquela criatura antes e procurou informar-se, sem alarde, de quem se tratava, até que conseguiu e passou a levar roupas à lavanderia onde ele trabalhava, com o intento de vê-lo mais à miúde, mais de perto, ouvir aquela voz argentina e, acidentalmente, roçar a sua manzorra. Tudo naquele homem era grande, exagerado, imagine “aquilo”, quando inchado, zangado, pensava ele nos seus longos e sonhadores cismares. O negrão, a princípio, de nada desconfiara. Achava até bom a vinda daquele novo freguês que lhe levava muitas roupas, pois isso aumentava o faturamento que, à época, estava em baixa. Mas, num outro domingo, no mesmo mercado, encontraram-se novamente. Agora, já eram conhecidos e tinham até uma certa intimidade. Depois de cumprimentá-lo, Lixaba fingiu que tropeçara e ia cair e, tentando amparar-se, passou a mão nas coisas íntimas do crioulo. Com faniquitos e espantado disse... Meu Deus! ... meu Deus! O negrão pulou para trás e ficou sério. Deu um empurrão no veado e foi embora resmungando e xingando. Os presentes riram a valer e ele ficou ali parado com a mão espalmada, como se quisesse conservar a medida correta das coisas do crioulo, das quais sentiu o volume, mesmo em estado de repouso, e repetia... meu Deus, que loucura! Daí em diante a comédia ficou com o seu enredo muito claro, transparente. Era o crioulo mesmo o bem-querer de sua vida.

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            O carnaval prometia ser o melhor dos últimos anos. A prefeitura havia dado contribuição em dinheiro para as agremiações, como forma de incentivo a melhorar a apresentação e desempenho dos blocos carnavalescos, e outras entidades privadas também participavam para que os folguedos de Momo fossem o melhor. Na Paissandu e na São José o clima era de grande euforia e rivalidade, pois, dali sairiam os dois carros alegóricos vencedores do corso. Porém, para Lixaba, isso não era de todo relevante. O que para ele era importante, verdadeiramente, era o seu desfile durante os três dias de entrudo. Três fantasias diferentes, cada uma feita com mais esmero e riqueza. No primeiro dia, desfilaria com a fantasia Deusa do Maracatu, acompanhada dos seus pajens. Seria um sucesso garantido, comentava. No segundo, Ave do Paraíso. Essa com mais de mil penas de pavão, além de outras tantas de diversos pássaros. E para o terceiro dia estava guardada a melhor surpresa. “O que é que a baiana tem?”, era o nome da fantasia. Na confecção desse costume, ele havia se esmerado em requinte, originalidade e gastos. Estava “um lixo de bonita! ”, dizia. E não foi sem um propósito definido a sua viagem a Salvador, no meio do ano anterior. Fora ver de perto o samba das autênticas baianas, o seu remexido, o seu rebolado e, também, adquirir adereços característicos.

            Os dois primeiros dias, um sucesso absoluto. Como em anos anteriores, o povão não poupou aplausos e vivas para a sua apresentação. Ele era todo alegria, contentamento e alvo de comentários. Até O DIA, do Mundo o Mão de Paca, elogiou a sua exibição e as outras bichas se mordiam de inveja e apontavam falhas imaginárias, no sentido de desvalorizar e menosprezar o desfile da concorrente, porém, secretamente, reconheciam o seu valor. O Totó bateu um seu número de fotos e o Muller, também. O Lauro, como não poderia deixar de ser, pois pertencia à mesma confraria, obteve foto privilegiadas. Muitas delas iriam fazer parte da sua galeria particular de fotografias.

            Ele soube, então, que o crioulo dos seus sonhos iria desfilar também num grupo denominado Enterro de Momo. Sairia fantasiado de “O Príncipe das Trevas”, caracterização que, aliás, lhe cairia muito bem, fechando o cortejo. Lixaba desfilaria logo atrás dele. Sabia por convicção que logo seria notado pelo seu príncipe, que não era nada das trevas, mas, sim, ali da Riachuelo mesmo. Seria o máximo desfilar, quase que exclusivamente, para o seu adorado. O sonho estava prestes a se realizar.

            A terça-feira amanheceu com uma chuva fina, molhada, mas, tudo indicava, não comprometedora das festividades de logo mais à tarde. No baixo meretrício a azáfama era total. Todo mundo ajudando todo mundo nas mais diversas tarefas. Os mínimos detalhes eram lembrados e ajustados. Não poderia haver falhas, pois, naquele dia, é que seria escolhido o melhor bloco, o melhor carro alegórico, o melhor grupo e, principalmente, o melhor folião, incluindo fantasia, criatividade, originalidade e desempenho. Era nesse último item que ele se incluía e havia se redobrado em ensaios e posturas. Ao meio-dia, todos ou quase todos os preparativos estavam concluídos. Sairiam, em corso, às três da tarde. Ele iria no carro da Raimundinha Leite até próximo à farmácia da Dona Lili. Ali esperaria a passagem do Enterro de Momo e seguiria, logo atrás, como havia de há muito planejado.

            Ninguém, a princípio, reparou na ausência de Lixaba que, naquelas ocasiões, sempre aparecia para dar palpites e fazer sugestões. Foi Mariinha de Sinimbu quem notou. Vendo a porta do quarto fechada por toda a manhã, foi verificar o que ocorria. Qual não foi o seu espanto, o grito de horror e de medo que soltou. Ele estava morto na cama, de barriga pra cima, a boca aberta escorrendo baba e os olhos esbugalhados, fixos em um ponto do teto. A cabeça pendida no colchão, na mão direita um lencinho branco e na outra uma ampola de lança-perfume, vazia. Havia morrido, por certo, de uma super inalação de éter. No cabide, a fantasia que usaria no desfile de logo mais, gomada e perfumada. Houve muita confusão, histerismo e choro. Foi chamada a polícia. Veio, também, o legista, bêbado que nem gambá, que constatou a morte por inalação excessiva de lança-perfume. Não houve autópsia e o médico nem mesmo tocou o corpo para verificar se Lixaba estava realmente morto. Foi um diagnóstico visual e circunstancial, apenas. A notícia logo se espalhou. Até a Rádio Difusora noticiou o fato, com muito respeito e pesar.

            Houve, então, um generalizado desalento. O que fazer agora com o já programado desfile?, era a pergunta comum. As sugestões vinham de toda parte e de toda sorte. O impasse teria que ser dirimido pelas organizadoras do evento. Reuniram-se as cafitinas mais importantes e resolveram, por unanimidade, não cancelar as manifestações antes programadas, mas, sim, acrescentar a elas um funeral, um funeral diferente, inusitado, sem luto, sem tristezas, sem choro ou lamentação. Um funeral sem marcha fúnebre, mas a toque de samba, marcha-frevo e muita cachaça e lança-perfume. Os participantes aplaudiram a magistral solução. Ninguém queria deixar de festejar naquele dia. Que se danasse a igreja, lá com seus padres e a sociedade com a sua hipocrisia! O importante era a homenagem póstuma que prestariam ao maior pederasta do pedaço.

            E assim foi feito. Às duas da tarde, maquiado a caráter, Lixaba estava comodamente deitado no melhor ataúde que a funerária do Benedito Caixão tinha disponível e vestido com a sua fantasia de baiana, completa, com turbante, tabuleiro e tudo mais de adereços. Parecia estar vivo, apenas adormecido, esperando a hora de entrar na folia. O singular e rápido velório foi no salão do cabaré da Jeruza, por comportar mais gente. De toda a cidade acorreram amigos e curiosos. O salão regurgitava, não cabia mais ninguém. A veadagem assumida, comandada por Napu, compareceu sem nenhuma reserva. Afinal, tratava-se de um ato de solidariedade humana, que não excluía credo, ou cor, fresco ou machão. Dizem até que o crioulo, discretamente, compareceu.

            Às três, o cortejo fúnebre-carnavalesco estava formado. Com o pipocar dos foguetes, sinal convencional, partiu. Na frente, capitaneando, o carro funerário, todo engalanado de coroas de papel crepom e flores das mais diversas. Era um jardim ambulante. Em seguida, os automóveis com as madames, os caminhões alegorizados com as meninas na carroceria e, por último, o povão a pé, tocado a pinga e sambando com a bateria e charanga do bloco dos Artísticos e de outros mais, avulsos, que se juntaram ao funeral. Todo o acompanhamento trazia uma laçada no braço direito de fita roxa, em sinal de respeito, não de luto. Nunca o Bazar das Novidades e a Casa A Fé venderam tanta fita em um só dia. As filas dobraram a esquina do Arquivo Público e da Papelaria do Antônio Lopes. Todo mundo queria participar da homenagem.

            O trajeto seria quase o mesmo programado para o desfile. Pela Paissandu até a Riachuelo, daí até a Estrela, à direita até a Praça do Liceu e, à esquerda, pela Simplício Mendes até o cemitério São José. Pararam em frente à igreja do Amparo em busca de um padre. Não havia. Estavam em retiro na casa paroquial, um pouco mais adiante. Seguiram. De lá, vinha saindo um, era o Cônego de Castelo, que, sorrateiramente, escapulia para tomar um alentado gole no boteco do Otávio Panelada, logo do outro lado da rua, quebrando a abstinência de três demorados e tediosos dias, passados a duras penas, somente com um golezinho pela manhã e outro à noite do vinho da missa. O cortejo parou. Uma das cafitinas desceu e conversou com ele explicando o acontecido. Queria que fosse junto para encomendar a alma do falecido, lá no cemitério. O cônego relutou, mas, vendo aquele mundaréu de gente, aquiesceu e entrou no automóvel do 71, junto com Raimundinha Leite, de quem, já tinha ouvido muito falar dos seus predicados, adjetivos não muito recomendados pela igreja, contudo, muito apreciados pelos mundanos pecadores.

            A madame, com acanhamento, ofereceu um trago de conhaque cinco estrelas, por sinal, o preferido do cônego. Afinal, era carnaval!... quando tudo ou quase tudo era tolerado e permitido. Ele, também, com fingido acanho, derramou de goela abaixo uma generosa dose, que desceu redonda, fazendo trinado aos seus ouvidos, já há algum tempo emudecidos. Até o cemitério, foi meio litro. Agora, já flutuava como um anjo e encomendaria a alma até mesmo do satanás, se fosse preciso.

            O povão tomou conta do cemitério. Era um empurra-empurra dos diabos. Todos queriam ver o sepultamento. Rodeando o caixão estavam as madames, os mais íntimos e o cônego. O esquife foi aberto para a última contemplação e uma chuva de flores caiu sobre ele, lançada pelos presentes. O padre fez as orações e recomendações, mas, na hora de aspergir água benta sobre o cadáver, não tinha. Então, disse baixinho para os mais próximos que qualquer líquido servia. Mourinha, que estava ali fantasiado de anjo, tirou de dentro de uma de suas asas uma garrafa de pinga e passou para o padre. Ele cheirou o conteúdo, comprovando que era das boas, salpicou algumas gotas sobre o defunto, dizendo em latim “que desperdício! ”... “que desperdício! ”. O restante da garrafa escamoteou, como profissional, para dentro da batina, visando o futuro.

            O caixão ia ser baixado à última morada. O bloco dos Artísticos começou a cantar “o que é que a baiana tem?”, como a sua última homenagem. O foguetório troou e o povo todo passou a participar da cantoria. Era uma festa de carnaval, em pleno cemitério. Foi um espetáculo pagão, mas bonito de ver todo mundo dançando, pulando e cantando naquele terreiro dos filhos do além. Entretanto, o inesperado estava por acontecer. Quando o esquife ia ser baixado à sepultura, talvez em razão da algazarra e dos estampidos dos rojões, o defunto se mexeu, acordou, abriu os olhos, olhos esbugalhados como os de quem acorda de um grande pesadelo, e sentou-se no fundo do caixão, atônito. Não atinava o que havia acontecido. Olhou em volta e levantou-se, atordoado. Foi uma debandada geral. Somente o cônego ficou ali, perplexo, boquiaberto, parado, porque não tinha ânimo para correr. Instintivamente, escamoteou de dentro da batina a garrafa de pinga e, de um só sorvo, acabou com ela. Agora, estava mais do que pronto para enfrentar alma do outro mundo, fosse fresca ou não.

            O falso defunto começou a acenar para o povo que corria aos tropeções e a gritar que estava vivo, fora só um desmaio. Aos poucos, e ainda com receio, voltaram. Então a charanga do bloco do Artísticos voltou a tocar e cantar a música interrompida e o povão fez coro. Lixaba, já refeito do susto, não perdeu tempo. Pulou do caixão e saiu na frente dos acompanhantes, se desfazendo em meneios e requebros, a dançar e cantar “ o que é que a baiana tem? ” E o povão, em delírio, respondia em coro:

Tem saia rodada, tem...
Tem brinco de ouro, tem...
Anágua engomada, tem...
Só vai ao Bonfim que tem...

Quando você requebrar,
Caia por cima de mim...
Caia por cima de mim...
Caia por cima de mim!
O que é que a baiana tem?

segunda-feira, 27 de março de 2017

Lançamento de "Jurisdição Constitucional" em Campo Maior


Juiz Auxiliar da Presidência do Tribunal de Justiça do Piauí Lançará Livro em Campo Maior

Com o título Jurisdição Constitucional: Diálogos Institucionais como Terceira Via entre o Ativismo e a Autocontenção Judicial, o campomaiorense e atual Juiz Auxiliar da Presidência do TJPI, Antonio Oliveira, lançará livro jurídico na Câmara Municipal de Campo Maior, no próximo dia 31 de março.

A obra, na sua essência, reproduz sua dissertação de mestrado, defendida no ano de 2015, em Lisboa, Portugal. Nela o autor presta contribuição à magistratura e ao meio acadêmico, tendo em vista que aborda, entre outros, temas que continuamente se encontram em delicada tensão, tais como constitucionalismo versus democracia, Poder Judiciário versus Poder Legislativo, supremacia Judicial versus supremacia Parlamentar, além de ativismo judicial versus autocontenção judicial.

Destaca-se, ainda, por sua capital importância no contexto social, tendo em vista que chama atenção para o atual comportamento dos Poderes Constituídos no Brasil no que toca às suas funções constitucionais – mormente em relação à interpretação constitucional -, demonstrando que o descrédito da população perante os Poderes Políticos tem “legitimado” o Poder Judiciário a preencher os “vácuos” deixados pelos atores políticos, sobretudo o Poder Legislativo. Lado outro, alertar para o perigo de uma instância hegemônica, reivindicadora da pretensa última palavra na interpretação da Constituição, de modo a se repensar a adoção de mecanismos que possibilitem o diálogo institucional na construção do melhor sentido e interpretação dos direitos.

O evento ocorrerá na Câmara Municipal de Campo Maior, no próximo dia 31 de março, às 19 h, e, além de familiares e amigos do autor, contará com a presença do Presidente do TJPI, Desembargador Erivan Lopes – responsável pela apresentação do livro -, Magistrados, servidores do TJPI, membros do Ministério Público, Advogados, Professores, alunos e convidados diversos.


Confira trecho da apresentação do livro, realizada pelo Presidente do TJPI, Desembargador Erivan Lopes:

O leitor, doravante, tem à sua disposição uma das mais instigantes e arrojadas obra de Direito Constitucional contemporâneo. O livro de Antonio Oliveira é fruto de adaptações pontuais da sua dissertação de mestrado, defendida no dia 11 de setembro de 2015, junto à Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDUL), em Portugal, perante a seleta banca composta pelos Professores Doutores Marcelo Rebelo de Sousa (Presidente da banca e atual Presidente da República Portuguesa), Luís Pedro Pereira Coutinho (orientador), Alexandre Sousa Pinheiro (arguente) e Alexandra Leitão (vogal), que lhe atribuíram a festejada e merecida nota máxima!

Antonio Oliveira, em seu “Jurisdição Constitucional: diálogos institucionais como terceira via entre o ativismo e autocontenção judicial”, não submete o leitor a uma narrativa enfadonha acerca do papel assumido pelas diversas Cortes Constitucionais mundo afora, tampouco se restringe a conceituar e descrever os famigerados fenômenos da judicialização e do ativismo judicial.

Cuida-se, na realidade, de ousada obra pautada numa densa e refinada pesquisa científica, na qual o autor, lastreado em diferentes teóricos nacionais e estrangeiros, apresenta reflexões críticas sobre o ativismo e a autocontenção judicial, associando esses fenômenos aos modelos de supremacia judicial e supremacia parlamentar, respectivamente.
[...]
As argumentações do Autor, conquanto bastante balizadas no meio acadêmico, não se esgotam unicamente na ótica doutrinária, haja vista que se espraiam por diversos precedentes de distintos Tribunais do país, destacadamente, polêmicos julgados do Supremo Tribunal Federal (STF), que, chamado a se manifestar acerca de uma miríade de demandas, não apenas se contenta em decidir, mas reivindica abertamente o status de último intérprete da Constituição.
[...]
            Fica evidente, pelas pistas até aqui deixadas, que o livro do Professor e Magistrado Antonio Oliveira transcende a ciência do Direito Constitucional, porquanto seu conteúdo transita facilmente entre o Direito, a Ciência Política e a Filosofia. Conquanto elaborada em apurado âmbito acadêmico, sua obra não fica adstrita a alunos de pós-graduação e graduação, servindo de preciosa fonte de consulta para profissionais de distintas áreas – jurídica ou não -, ávidos por conhecer e entender assunto tão caro e relevante em tempo coetâneo, mas que escapam das lentes míopes e tradicionais que não vislumbram a expansão global do Poder Judiciário e seus desdobramentos numa sociedade pluralista como a brasileira.
            [...]
O Autor é Juiz de Direito no Estado do Piauí – atualmente Juiz Auxiliar da Presidência do TJPI -, onde exerce com escorreita vocação seu mister. Ao lado da judicatura, exerce com elevado entusiasmo e paixão o magistério, no qual se notabiliza na área do Direito Público, designadamente o Direito Constitucional, Direito Processual Penal e Direito Penal, tendo vasta contribuição na pós-graduação lato sensu da Escola Superior da Magistratura do Estado do Piauí (ESMEPI), nos cursos institucionais promovidos pela Escola Judiciária do Piauí (EJUD), além de experiências exitosas na graduação e em cursinhos da área jurídica, sendo reconhecido por seus alunos como docente que alinha com destreza conteúdo, didática e humildade.
            [...]

Desembargador Erivan Lopes
Presidente do TJPI

domingo, 26 de março de 2017

Seleta Piauiense - Elmar Carvalho

Fonte: Google

A PONTE NA MEMÓRIA

Elmar Carvalho (1956)

O vento passavoante
               pássaro voante
sob o arco-da-velha
sob o arco da ponte.
Baloiça os pés de oitis,
joga confete com suas folhas
e empurra o casario antigo
com suas: arcadas dóricas
                   volutas jônicas
                   ogivas góticas
                   sacadas exóticas
com suas parábolas e abóbadas.
O vento passalígero passalísio
e empurra o casario antigo
que navega parado
no tempo que navega
como um mar que navegasse
sob um navio ancorado
que se deixasse navegar.
Meu sonho de malas prontas
é passageiro e tripulação
do casario – navio que navega
ao se deixar navegar.   

quinta-feira, 23 de março de 2017

Antenor Rêgo e seu dicionário de “Piauiês”


Antenor Rêgo e seu dicionário de “Piauiês”

Elmar Carvalho

Logo no início de seu prefácio, o escritor Ribamar Garcia consigna: “Há uma lei estadual, de iniciativa da ex-deputada Margarete Coelho, que instituiu o ‘Piauiês’ como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Piauí. E o define como sendo a pronúncia característica do falar do piauiense, ‘bem como as palavras e expressões típicas do estado’”. A obra em comento é uma maneira de preservar e difundir esse patrimônio. A autora da lei foi minha colega no curso de Direito (UFPI) e é a atual vice-governadora de nosso estado.

Antenor Rêgo Filho é autor de vários e importantes livros. Foi um dos fundadores da Academia de Letras do Vale do Longá – ALVAL, da qual foi presidente em mais de um mandato. Numa de suas gestões a entidade obteve a sua sede própria, em cuja inauguração festiva estive presente. Já tive o ensejo de me pronunciar sobre “Barras – histórias e saudades”, notável obra de sua autoria sobre a história barrense, suas “coisas”, seus prédios, logradouros e seus costumes.

Em seu Dicionário do Piauí – a língua piauiense, de 160 páginas, estão catalogados em forma de verbetes, conforme consta na capa, o linguajar, as expressões, as sabenças, os falares, os costumes e as curiosidades de nosso povo. Segundo ele próprio me informou, passou vários anos à cata desses vocábulos, expressões e ditados regionalistas, notadamente de nosso estado. Quando em conversa com amigos e diferentes pessoas, anotava as palavras e expressões que lhe interessavam. De outras ia à procura, em livros e em indagações pessoais.

Muitas são bem conhecidas, mas algumas são quase inauditas, mesmo para um leitor atento e curioso como eu. Nos verbetes, quando é o caso, ele indica os seus sinônimos ou o seu significado, muitas vezes exemplificando com frases entre aspas, que facilitam a exata compreensão. Em outros casos, explica a origem da expressão que se tornou popular. Termina contando fatos interessantes e pitorescos de forma sucinta, como convém a um dicionário.

Não raras vezes somos surpreendidos pela explicação ou interpretação de certos ditados, que, vez ou outra, diferem de nossa própria interpretação ou conhecimento. Mesmo quando isso acontece, aceitamos a explanação, porque ela segue uma lógica, e, sem dúvida, não se afasta do que é razoável, crível ou pelo menos verossímil. Não significa dizer que a nossa interpretação também não fosse razoável ou pautada por um raciocínio aguçado. É que o dicionarista perquiriu a etimologia do regionalismo ou o que deu origem à expressão ou ditado, de que muitas vezes não temos conhecimento.

Algumas expressões, embora tenham sido muito usadas no passado, hoje estão quase em desuso, e por isso são pouco conhecidas. Soam como um estranho ou exótico anacronismo que nos remete ao passado. E por isso aviventam as lembranças e as saudades, trazendo-nos emoções dos tempos de outrora, que pensávamos esquecidas. Umas têm um fundo moralista, no bom sentido da palavra, ou podem nos servir de advertência; outras, têm algo de humor ou de evidente jocosidade.


É um livro de grande importância, não só para os filólogos e os doutos, mas para todos que amam o Piauí, a sua cultura, o seu linguajar e costumes, e lhe seguem os usos e fusos, pois, como sabemos, “cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso”.

quarta-feira, 22 de março de 2017

A Pedro Costa

Fonte: Google

A Pedro Costa

Antônio Francisco Sousa
Auditor-Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)

Conheci mestre Pedro Costa – era assim que o chamava – lá por volta de mil, novecentos e oitenta e cinco do século passado. Frequentava eu uma churrascaria na zona leste, - localizada em frente ao que hoje é o DNIT, depois de haver sido NOVATERRA e VEMOSA, revendedoras autorizadas Volkswagen – que, a propósito, servia o melhor “arrumadinho de carne de sol” da cidade, além de “paçoca” e “picanha” nacional excelentes.

                Naquele período, enquanto degustávamos quitutes da casa, não raras vezes, na presença, mais que companhia, do recluso amigo de escola, professor e contista Airton Sampaio, Pedro Costa circulava de mesa em mesa -  dali e de alhures, certamente - cantando seu repente e vendendo cordéis.

                A picanharia mudou de endereço, deixei de frequentá-la no novo e perdi de vista, por um tempo, Pedro Costa, que continuou com seu repente, enquanto assumia outros misteres: ator teatral; na organização de eventos envolvendo a poesia repentista e seus cantadores; enveredou pelo marketing, unindo-se a humoristas que despontavam no cenário artístico da capital, fazendo propagandas e tecendo loas. Até que criou, passou a editar, distribuir e buscar patrocínio para a Revista De Repente; não satisfeito, meteu-se na constituição da Fundação Nordestina do Cordel (FUNCOR). Com esses empreendimentos, ganhou diversos prêmios e comendas Brasil afora, que contribuíram para que se transformassem em importantes monumentos à cultura popular da cidade, do estado e do país. Passou o poeta a ser requisitado para, com seu repente, panfletar, disseminar e tornar públicas diversas ações do poder público, notadamente, nas áreas de educação e saúde.

                Adoeceu, ou melhor, descobriu-se doente, primeiramente, das vias superiores: caro lhe custou, inclusive, financeiramente, um tratamento ocular, ao qual superou com desagradáveis consequências. Turrão, tinha – pelo menos foi isso que percebi em incontáveis conversas que tivemos – verdadeira ojeriza por medicamentos alopáticos: considerava-os veneno e não antídoto para doenças; certamente, somente deles se utilizava porque apesar de teimoso e ranzinza tinha grande amor pela vida que esperava tê-la em tempo bastante para ver concluídos os projetos em que se envolvia.

                Mas eles eram tantos que a natureza – ou o criador que, também, por vezes chegou a ser objeto de particular contestação por parte do poeta – resolveu não esperar e o levou no curso de muitos deles já em fase de execução.

                Dizem que ninguém é insubstituível. Tal premissa terá uma chance de se provar verdadeira, a partir de agora, com a partida prematura e inesperada de Pedro Costa, em relação aos seus empreendimentos, sonhos, anseios e desejos. Vamos poder constatar como – ou se – sobreviverão, sem ele, obras que possuem sua cara, seu modo de ser e de agir, dentre outras: a Revista de Repente, circulando, ininterruptamente, há mais de duas décadas; e a própria Fundação Nordestina do Cordel, ancoradouro e porto seguro de tantos que a ela recorreram. Terão seus “discípulos” ou “seguidores” força e estômago fortes o suficiente para tocarem em frente tais instituições? Levando as mesmas bordoadas ouvindo, tantas vezes, os mesmos “nãos” ou os “sins” dissimulados, já que a pretensão era meramente livrar-se dos pedidos formulados pelo insistente poeta? Não vai ser fácil: esta é certeza; senão, verdade absoluta.

                Outra verdade inquestionável é que a cultura popular do estado do Piauí perdeu um esteio, um baluarte, alguém que dava a cara a tapas e, dificilmente, desistia. Um sujeito batalhador; um guerreiro, nada quixote.

                Pedro Nonato da Costa, imortal das Academias Brasileira e Piauiense do Cordel, da Academia de Letras do Longá, presidente da Fundação Nordestina do Cordel; um dos mais bem-sucedidos criadores, produtores e editores do “cordel” engajado, funcional, porta-voz de ações de estado, no nordeste brasileiro.

 Velho companheiro de bons papos e de discussões saudáveis, alegres e prazerosas, isso lá era hora de partir? Por que a pressa, meu camarada?

Mas se teve que ser assim, só podemos nós, seus amigos que ficaram, esperarmos que sua obra continue viva, forte, vicejante e viçosa: a cultura popular local e regional precisam disso. Sua memória estará com e nelas, mestre. Descanse em paz. Aos que ficam, mãos à obra!


                  Fonte: portal Entretextos

terça-feira, 21 de março de 2017

A literatura que dá voz ao povo



A literatura que dá voz ao povo

O romancista, poeta e professor Dílson Lages Monteiro, ocupante da cadeira 21 da Academia Piauiense de Letras, lança no sábado, 18, em Teresina, a novela Capoeira de Espinhos (Nova Aliança Editora). O lançamento da obra acontece na Livraria Entrelivros, situada na Av. Dom Severino, 1045, Fátima, a partir das 19h. A apresentação da obra será feita pelo historiador e professor da Universidade Federal do Piauí, Fonseca Neto, que também é membro da APL.

Capoeira de Espinhos centra-se no cotidiano de um aposentado que, transmutando-se entre o presente e o passado, leva o leitor à sátira sobre situações que agridem a condição humana. A rua e a própria casa do protagonista são os espaços das ações e, mais que eles, os significados instaurados pelo viver em ambientes de limitadas perspectivas sociais e econômicas. 

Conversando sobre os temas da obra, diz Dílson Lages que “nas caminhadas pelo lugarejo, em busca de longevidade e de interação, o protagonista Constantino se depara com as fisionomias da injustiça social das pequenas cidades. Inquieta-o a obscuridade quanto ao futuro, o atraso social, o fuxico das calçadas, o mandonismo, a destruição dos recursos naturais, a corrupção, o egoísmo, a ambição sem limites, o descaso para com o patrimônio público, a desigualdade de gênero etc. Inquieta-o uma cultura que envenena as relações sociais e se reflete em vícios que se perpetuam no comportamento da comunidade e fragilizam os laços de convivência”.

Apensar de construir uma narrativa de traços neo-realistas, para Dílson Lages, a preocupação com os aspectos documentais se transforma em segunda natureza, para valorizar a linguagem, rica em analogias e relações semânticas de vizinhança, expressas no abundante uso de metáforas e metonímias. O escritor afirma que, “para além de um retrato social das pequenas cidades brasileiras, para além, da dimensão política que dá sustentação ao texto, Capoeira de Espinhos é novela cujo investimento na linguagem revela-se como traço evidente desde as primeiras linhas”.
A literatura que dá 

Ele acrescenta que, “embora todo o texto circule em torno das instâncias de poder, o que vigora é o liame da preocupação social ao lirismo e à sátira. Vigora um narrador protagonista que busca reinserir-se na paisagem afetiva e, para isso, reage às provocações do espaço, ora com melancolia, ora com revolta, mas principalmente com graça”.

Outro traço peculiar ao texto é a escolha por personagens de menor visibilidade na escala dos valores econômico-sociais. "Ao valorizar personagens como o vigia, o relojoeiro, o pedreiro, o caçador, o agente de endemias, a dona de casa e principalmente aposentado, vai o narrador, em linguagem cercada de fragmentação e digressões, expondo os interesses obscuros que movem a dinâmica social e, ironicamente, mergulhando o leitor na perplexidade e indignação do tempo presente”, esclarece.

Explicando sua técnica, Dílson Lages enfatiza que o livro, apesar de ser uma novela, pode ser lido como conto e crônica, dada sua natureza fragmentária, que tenta reproduzir o próprio fluxo da memória. “Fundindo crônica, conto e novela, procurei subverter a classificação trivial dos gêneros textuais, a fim de projetar a memória como elemento determinante nos núcleos dramáticos. Ao agir assim, busquei criar ritmo próprio para a escritura, ritmo que se confunde com as vivências e percepções do próprio leitor, convocado a construir analogias a partir da abundante utilização dos tropos, a qual faz do passeio pela linguagem agradável e divertido jogo com as crenças, os comportamentos e as atitudes do leitor”, finaliza.

Dílson Lages Monteiro é autor de 14 obras publicadas. Escreve poema, conto, novela, crônica memorialista, ensaio acadêmico e texto didático. Professor, desde 1993, com atuação na área de linguagens, ocupa a cadeira 21 da Academia Piauiense de Letras. Mantém na web, desde 2002, o Portal Entretextos (www.portalentretextos.com.br). Vive em Teresina-PI.

Ascom Editora Nova Aliança  

segunda-feira, 20 de março de 2017

BIBLIOTECAS PARNAIBANAS E GABINETE DE LEITURA RANULPHO TORRES RAPOSO

Manuel Domingos Neto
Gabinete Português de Leitura - Fonte Google



BIBLIOTECAS PARNAIBANAS E GABINETE DE LEITURA RANULPHO TORRES RAPOSO



Alcenor Candeira Filho

I.                   BIBLIOTECAS PARNAIBANAS

     Apesar de ser uma das cidades do Nordeste brasileiro de grande tradição cultural, tendo hoje diversas faculdades públicas e privadas (inclusive duas de medicina), com cerca de treze mil estudantes universitários, - Parnaíba é dotada de poucas bibliotecas, destacando-se pelo acervo de livros e revistas, organização, direção e atendimento ao público a do SESC/CAIXEIRAL e a do Campus Ministro Reis Velloso/Universi - Federal do Piauí.
     Na administração de Mirocles de Campos Veras,foi inaugurada em 19.04.1942 a Biblioteca Pública Municipal, que leva o nome desse grande médico e administrador, organizada e estruturada pelo secretário do município, professor Benedicto Jonas Correia, que adotou, de acordo com as instruções do Instituto Nacional do Livro , o Sistema de Classificação Decimal Dewey, então o mais difundido e conhecido como classificação universal.
     Ao longo de 75 anos  de existência a biblioteca pública de Parnaíba mereceu pouca atenção dos gestores municipais, encontrando-se atualmente em precárias condições de instalação e funcionamento e com acervo completamente desatualizado e desorganizado, além de pouco frequentada pela população.
     Em qualquer cidade, especialmente nas que possuem poucos espaços culturais, como ocorre em Parnaíba, a biblioteca pública deveria ser a instituição cultural mais importante no município.
     Pelo acesso fácil e direto, as bibliotecas concorrem para a formação de leitores e promoção do hábito de leitura, indispensáveis à informação e à transmissão de conhecimentos.
     A missão essencial de centro de difusão cultural de uma cidade só pode ser cumprida se suas bibliotecas dispuserem de acervo constantemente renovado com publicações de diversos gêneros artísticos, científicos e filosóficos, bem como com equipamentos e funcionários suficientes para mantê-las em funcionamento.
     A biblioteca moderna necessita não apenas de bom acervo de livros e revistas, mas também precisa ser informatizada de modo a propiciar aos frequentadores pesquisas na internet e acesso a CDs e DVDs.

II. A BIBLIOTECA NO PLANO DECENAL DE CULTURA DE PARNAÍBA

     O Plano Decenal de Cultura de Parnaíba – 2015/2020 reconhece  a precariedade de nossa biblioteca pública:

“O município de Parnaíba possui diversas bibliotecas municipais, sendo a principal uma localizada no centro histórico, em condições precárias, sem iluminação adequada, estantes quebradas, ausência de climatização apropriada, livros velhos, rasgados, edições desatualizadas, sem ficha catalográfica e sem um sistema de catalogação informatizado.”

     No que se refere à Biblioteca Pública Municipal e às de  escolas da rede pública, o Plano Decenal de Cultura estabelece como principais metas:

“- Reformar com a máxima urgência a Biblioteca Pública Municipal de Parnaíba, conforme as normas de segurança, climatização, biblioteconomia, catalogação de livros, informatização de acervos para consultas, empréstimos, devoluções, etc.; 
- Ampliar o número de atendimentos através do aumento de unidades pela cidade de bibliotecas, informatizando acervos, ampliando a quantidade de livros e otimizando recursos para revitalizar o acervo clássico de toda a rede de bibliotecas municipais da cidade;
- Desenvolver projetos que dinamizem o espaço das bibliotecas como: espaço de áudio/vídeo, saraus, oficinas e workshops, rodas de leitura e contação de histórias, debates literários, palestras etc., com programação divulgada na agenda cultural da cidade.”

     Como esse Plano, aprovado pela Lei nº 3011, de 10.08.2015, terá vigência até 2025, fica a esperança de que  tais metas sejam alcançadas.

III.             A BIBLIOTECA NO PLANO NACIONAL DE CULTURA

     Segundo o livro AS METAS DO PLANO NACIONAL DE CULTURA (Ministério da Cultura, outubro de 2013, 3ª edição), “a pesquisa ‘Retratos da leitura no Brasil’, realizada pelo Instituto Pró-Livro em 2007, revela que a média anual de leitura da população brasileira, fora do que é solicitado pela escola, é de 1,3 livros. Esse é um número considerado baixo, em comparação com outros países. Nos Estados Unidos, por exemplo, em 2006, a média de leitura fora da escola era de 5,1 livros por ano. Na França, a média foi de 7 livros lidos, na Inglaterra 4,9 e na Colômbia 2,4”.      
     O Plano Nacional de  Cultura (Lei nº 12.343, de 02.12.2010), com duração de 10 anos, apresenta na área de bibliotecas  as seguintes metas a serem alcançadas até 2020:

     “- Média de quatro livros lidos fora do aprendizado formal por ano, por cada brasileiro;
      - 100% dos municípios brasileiros com ao menos uma biblioteca pública em funcionamento;
      - 50% de bibliotecas públicas modernizadas;
      - 100% de bibliotecas públicas disponibilizando informações sobre seu acervo no SNIIC (Sistema Nacional de Informatizações e Indicadores Culturais).”

IV.             GABINETE DE LEITURA RANULPHO TORRES RAPOSO
     
     Ranulpho Torres Raposo, natural de Miguel Alves-Pi, nasceu em 28.05.1900, passando a residir em Parnaíba com quatro anos de idade, cidade em que viveu, com pequeno período de ausên- cia,  até o falecimento em 23.09.1980.
     Casado com Benedita do Rego Torres, com quem teve cinco filhos: Maria José, Alba, Florice, Ranulpho e Socorro.
     Empresário bem sucedido, fundou a empresa de representações, comissões e consignações Ranulpho Torres Raposo, com filial em Fortaleza.
     Ranulpho foi dirigente de diversas entidades: presidente da Associação Comercial de Parnaíba, fundador e presidente do Rotary Clube de Parnaíba, presidente da Companhia de Luz e Força de Parnaíba, presidente da Federação do Comércio Ata-
cadista do Piauí, presidente do Conselho Regional do SESC no Piauí, tendo sido ainda membro fundador de várias entidades culturais: Cenáculo Piauiense, Grêmio Literário Dramático Jonas da Silva e Jornal do Comércio de Parnaíba.
     Foi diretor-proprietário do ALMANAQUE DA PARNAÍBA (fundado por Benedicto dos Santos Lima em 1924, que o manteve até 1941) no período de 1942 a 1982, com 41 edições ininterruptas. Patrono da Cadeira nº 29 da Academia Parnaibana de Letras-APAL. Publicou: “A Bacia do Parnaíba”, “A Navegabilidade do Rio Parnaíba” e “Lar Paterno”.
     Dedicado à família, aos amigos e ao trabalho, guardo nitidamente na memória, já que morava bem próximo de seu estabelecimento comercial, na avenida presidente Vargas, a imagem do senhor elegante, que não dispensava paletó e gravata, deslocando-se de segunda a sábado de sua residência na rua coronel José Narciso para o escritório comercial, em passos vagarosos mas firmes. Logo reconhecido, dificilmente se detinha, mas para todos transmitia um gesto de simpatia e uma palavra amável.  Como dirigente do SESC no Piauí, poderia dispor facilmente de automóvel e motorista para o trajeto de casa para o trabalho e deste para casa, mas preferia fazê-lo a pé.
     Teve atuação marcante na construção do Parnaíba Pálace Hotel, do SESC  na av. pres. Vargas e do SESC na beira rio. Definitivamente, foi um grande cidadão que até hoje não recebeu uma homenagem à altura de sua trajetória de vida.
     Faço  essas referências ao senhor Ranulpho para me reportar a um importante empreendimento  a que vem se dedicando seu neto, o professor Manuel Domingos Neto, com apoio de familiares, no sentido de dotar Parnaíba de um espaço cultural – o Gabinete de Leitura Ranulpho Torres Raposo.
     Historiador, pesquisador, escritor, deputado federal pelo Piauí (1089/1991), doutor em História pela Universidade de Paris, superintendente da Fundação CEPRO (Centro de Pesquisas Econômicas e Sociais do Piauí), vice-presidente do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), professor aposentado da Universidade Federal do Ceará e que já residiu em Parnaíba, Teresina, Fortaleza, Rio de Janeiro, Londres e Paris, - Manuel Domingos Neto retornou em 2016 à cidade natal, onde coordena cursos de doutorado na Universidade Estadual do Piauí-UESPI e se dedica à recuperação do prédio da avenida presidente Vargas em que seu avô mantinha atividade empresarial, com o propósito de nele instalar
O Gabinete de Leitura Ranulpho Torres Raposo.
     O Gabinete de Leitura, que deverá ser inaugurado no decorrer deste ano, vai dispor de um acervo de cerca de sete mil livros e será informatizado. A coleção completa do ALMANAQUE DA PARNAÍBA, com 69 edições, fará parte desse acervo.
     Para uma cidade de 150 mil habitantes e de grande tradição cultural, mas de poucas bibliotecas, o Gabinete representará importante conquista.

     Parabéns, professor Manel Domingos Neto. Você é um grande cidadão que honra a cidade natal, o país e a tradição familiar.