Poeta, contista, cronista, romancista, memorialista e diarista. Membro da Academia Piauiense de Letras. Juiz de Direito aposentado. *AS MATÉRIAS ASSINADAS SÃO DE RESPONSABILIDADE DE SEUS AUTORES, E NÃO TRADUZEM OBRIGATORIAMENTE A OPINIÃO DO TITULAR DESTE BLOG.
sábado, 28 de fevereiro de 2026
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026
DOIS CORDELISTAS E UM ARREMEDO
| Charge da lavra do grande Gervásio Castro |
| Criação da AI GPT, por solicitação minha. |
DOIS CORDELISTAS E UM ARREMEDO
Recebi a postagem de um poema de Chico Acoram em que ele tece loas a sua esposa. Fez média para mais de mês; mais até do que se lhe tivesse dado um buquê de rosas vermelhas. Os versos seguem abaixo:
Fiz um pacto de amor
Com minha boa Senhora
Que tanto amo com ardor
Não haverá mais demora
Embora, às vezes, com dor
não sentida que me implora
só um beijo com calor.
(Chico Acoram)
O bravo José Pedro Araújo, que
como cordelista adotou o pseudônimo de Zé Curador, em alusão ao nome primitivo
de sua cidade natal, com o mesmo espírito de Ringo, que não perdoava – matava –,
retrucou com estes versos sarcásticos:
Depois que o ardor se mandou
Sobrou pouco da potência
Pra compensar com o que restou,
Um galanteio é uma penitência
(Zé Curador)
E este arremedo de cordelista,
tomando as dores de Chico Acoram, tentei fulminá-lo com esse quarteto
escacholado:
O nosso Zé Curador
Não cura nenhuma dor,
Mas em seu repente
É pior do que serpente.
Após a
publicação dos versos acima nos mares e sertões internéticos, o escritor e
poeta Carlos Dias, do mais alto dos altos da velha Altos, enviou por WhatsApp
este poema, que fica valendo por um arremate ou por um coroamento:
Venenoso e
afiado
Esse tal de
Curador!
Deixa o Acoram
cantar
As loas do seu
amor,
Pois senão não
terá jeito
De aplacar a sua dor.
domingo, 22 de fevereiro de 2026
SACRIFÍCIO
| Fonte: Google |
SACRIFÍCIO
Elmar Carvalho
Abrir meu ventre
como uma rosa de carne
e de suas vísceras
multicores
pétalas dispostas em
arabesco
projetar uma poesia
feita de flores e de fezes.
Cortar meu corpo
e retalhar minha alma
e fazer uma poesia
de matéria e de espírito
e morrer na última palavra
do último verso por nascer.
Drenar
minhas veias e
com seu sangue
regar um poema canibal
que não fale de morte.
E escrever a obra-prima
com o sangue da alma.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
UM HERÓI DA GUERRA CONTRA O NAZIFASCISMO
| Fotos publicadas no Portal Piracuruca |
UM HERÓI DA GUERRA CONTRA O NAZIFASCISMO
Elmar Carvalho
No domingo, dia 6, ao retornarmos
de Parnaíba, eu e Fátima resolvemos almoçar em Piracuruca. No restaurante
estava o irmão maçônico Francisco Airton de Carvalho. Conversamos rapidamente,
pois ele já estava de saída. Recordou-se ele de que tomei posse como juiz de
Direito em Piracuruca, e que fora ele, na qualidade de escrivão, quem lavrara o
meu termo de posse.
Lembrei-lhe que foi nessa curta
temporada piracuruquense, de apenas vinte dias, que escrevi meu poema Sete
Cidades – roteiro de um passeio poético e sentimental. O grande artista
plástico João de Deus Netto fez um belo cartaz com a primeira parte do poema,
que coloquei em molduras e doei ao Fórum e à Prefeitura. Fiz, na sede da
comarca, pequena e singela solenidade em que lancei o poema e o cartaz. Estavam
presentes os servidores da Justiça, o intelectual Valdemar Meneses e o padre
Oney Braga.
No encontro do restaurante,
aproveitei para dizer ao irmão Chico Airton que, sempre que passo por
Piracuruca, recordo o general João Evangelista Mendes da Rocha, parente próximo
do desembargador Manfredi Mendes de Cerqueira, meu colega da APL, e do advogado
e escritor Paulo de Tarso Mendes de Souza. Acrescentei-lhe que, do meu
conhecimento, o general nunca recebeu significativa homenagem de sua terra
natal, como o seu nome ser dado a importante logradouro ou prédio público.
Pedi-lhe que, através da maçonaria, envidasse esforços no sentido de que esse
esquecimento fosse reparado. Chico Airton prometeu-me tratar desse assunto em
sua oficina maçônica.
Quando tomei efetiva posse de meu
cargo (posto que já fora empossado perante o Tribunal de Justiça em
19.12.1997), na Comarca de Piracuruca, no começo de janeiro de 1998, como juiz
auxiliar, o magistrado titular Dioclécio Sousa da Silva, também pertencente à
sublime Instituição, convidou-me para ficar hospedado em sua residência, pelo
que lhe sou muito grato por esta prova de consideração. A casa ficava perto da
velha e inativa estação ferroviária.
Numa manhã fria e nevoenta, fui
conhecer esse prédio. Ficava perto de uma leve curva da ferrovia. Ao longe da
curva, eu via a estrada de ferro se perder na neblina, como em diluída, vaga e
esbatida pintura impressionista. A estação e os pés de oitis quase ficavam
esfumaçados, quase invisíveis, no meio da magia da densa bruma. Os galos, com o
seu canto saudoso, vibrante e metálico, saudavam o amanhecer.
Senti falta, apenas, dos repiques
do sino da estação, a assinalar a chegada ou partida de velha e fuliginosa
maria fumaça, também a badalar o seu sino e a emitir o seu melodioso apito a
vapor. Já de há muito as locomotivas não mais passavam sobre aqueles carcomidos
dormentes e enferrujados trilhos, a arrastar penosamente os vários vagões, que
mais pareciam um bando de pequenas e enfileiradas casas, cheias de gente.
Desde minha juventude, mais
precisamente a partir de 1975, eu costumava passar por Piracuruca, indo para
Parnaíba, ou desta cidade voltando, a bordo de um ônibus azul marinho da
empresa Marimbá. Parávamos em uma das lanchonetes do centro da cidade, que nos
ostentava suas várias praças, solares, sobrados e palacetes.
Muitos desses casarões e
sobrados, por um quase milagre da vontade e esforço de seus moradores e donos,
ainda estão de pé, alguns relativamente bem conservados. Creio que não houve
nenhuma participação e incentivo do poder público para que isso acontecesse.
Suponho que sequer tenha sido feito algum tombamento. Nessas passagens, eu via
as pedras da saída para Parnaíba, que formam uma espécie de pórtico triunfal, a
lembrar as formações rochosas de Sete Cidades, que por essa época conheci.
Desde então alimentei o desejo de
escrever um épico moderno, que falasse nos enigmas, belezas e mistérios das
pétreas cidades encantadas. Sempre adiava a empreitada, porque não encontrava a
forma que me satisfizesse como poeta, e porque o que esboçava em minha mente
julgava indigno da grandeza daquelas caprichosas e monumentais formas
esculpidas pelo vento, pela chuva e pelo tempo.
Todavia, durante os vintes dias
que passei como juiz em Piracuruca, me retornou, com muita força, o desejo de
escrever o poema. Então, como um insight, a sua forma e conteúdo me surgiram.
Mandei-o, em primeira mão, ao ilustre general João Evangelista Mendes da Rocha,
meu conhecido, há algum tempo, quando ele vinha visitar o Piauí e o seu torrão
natal. Acompanhava o poema uma carta evocativa, vertida em prosa poética, que,
com uma pequena adaptação, me serviu para fazer o prefácio de um dos livros do
general, honra que ele gentilmente me concedeu.
Era ele um homem culto, refinado,
mas de um refinamento natural, sem nenhuma ponta de afetação. Era um perfeito
cavalheiro. Dava-me a impressão de que tinha todo cuidado em não ferir e nem
diminuir ninguém. Não tinha nenhum ranço de militarismo nem de disciplina de
caserna. Escrevia artigos e crônicas sobre cultura, literatura, história e
sobre as mazelas sociais do Brasil, que publicava em periódicos ligados ao
Exército e no jornal O Dia, de Teresina. Coligiu esses textos e os publicou nos
livros E o Sono Continua e A Serviço do Brasil. Editou ainda a obra Senha e Contrassenha.
Conquanto não fosse propriamente
um crítico literário, escreveu alguns artigos sobre a minha produção poética,
que considero muito pertinentes, argutos e apropriados, tanto que recolhi dois
deles nos meus livros Sete Cidades – roteiro de um passeio poético e
sentimental e Rosa dos Ventos Gerais (2ª edição). Herói da luta contra o
nazifascismo, chegou a comandar, na Itália, uma das companhias da Força
Expedicionária Brasileira – FEB. Foi condecorado com a medalha da Cruz de
Combate.
Foi exatamente por causa desses
serviços, de militar e de escritor, e por causa de sua bela e marcante
personalidade, que pedi ao prefeito de Campo Maior, Antônio Lustosa, lhe
concedesse a Medalha do Mérito do Jenipapo, a maior honraria do poder executivo
local. Fiz a justificativa para a concessão, e a medalha lhe foi outorgada, em
solenidade em que discursei, exaltando os altos e indiscutíveis méritos desse
notável homem público, humilde e discreto em sua honrada aposentadoria.
Peço aqui e agora que Piracuruca,
sua amada terra natal, coloque o nome digno do general João Evangelista Mendes
da Rocha num dos logradouros desse belo e histórico torrão. Tenho certeza de
que será uma justa e merecida homenagem.
9 de fevereiro de 2026
domingo, 15 de fevereiro de 2026
CETICISMO
| Imagem criada pela IA GPT Imagem criada pela IA Gemini |
CETICISMO
Elmar Carvalho
Náufrago de uma tempestade
num copo dágua,
escuto o canto da desgraça
como um chamado de sereia.
Pregado numa cruz
invisível,
de cabeça para baixo,
tenho os braços fechados
em sinal de protesto.
Herói morto de
um sonho desfeito,
tenho como epitáfio
a solidão e o
esquecimento.
Cantor do silêncio,
tenho a lira sem cordas
e as mãos paralíticas.
Pássaro-símbolo da
liberdade,
tenho as asas quebradas e a
garganta afônica.
Mendigo da solidão,
tenho as mãos vazias.
Descendente de troglodita,
sou menos que um
macaco.
Partícula de mim mesmo,
sou menos que uma célula
fragmentada.
Resumo de mim mesmo
uma expressão me resume:
o NADA absoluto.
Parnaíba, 04.09.77
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026
UM MESTRE E DOUTOR, DE FATO E DE DIREITO
| Cunha e Silva Filho em retrato recriado pela IA Grok |
UM MESTRE E DOUTOR, DE FATO E DE DIREITO
Elmar Carvalho
Será lançado no próximo sábado,
dia 05, às 10 horas, no auditório da Academia Piauiense de Letras, o livro As
Ideias no Tempo, da autoria de Cunha e Silva Filho. Pelo subtítulo ficamos
sabendo que a obra contém crônicas, artigos, resenhas e ensaios. O autor é um
mestre dos gêneros literários referidos. Seu estilo é límpido, correto na
gramática e fluente, como escritor que domina sua língua, seu assunto e sua
linguagem.
Sua erudição lhe permite fazer
analogias, e trazer exemplos da história e da literatura, se necessário e
oportuno. Trata das mazelas dos dias atuais, mas também versa assuntos
agradáveis, bem como também escreve crônicas de caráter memorialístico, recheadas
de emoção e saudade – de pessoas que já partiram para a eternidade ou de um
tempo mais ameno, mais feliz, sem a brutalidade e a pressa dos dias de hoje.
Na crítica, Cunha e Silva Filho
foge de certos modismos, em que o crítico, para se fazer passar como profundo,
constrói uns períodos herméticos, sibilinos, que ninguém entende, ou em que,
para demonstrar que é atualizado, envereda pela chamada crítica estruturalista,
cujo conteúdo o leitor mediano jamais poderá alcançar. Embora seja um erudito,
professor universitário, mestre e doutor em Literatura Brasileira, faz uma
crítica moderna, contudo de fácil entendimento, uma vez que procura contribuir
para aclarar a obra analisada, tornando certos aspectos dela mais perceptíveis
a um leitor menos atento ou com menos traquejo na fruição literária, em que
analisa a linguagem, o estilo e o conteúdo da obra, todavia sem rechaçar, de
todo, as boas lições da velha crítica impressionista, no que ela tem de eterno,
de permanente.
A sua dissertação de mestrado foi
transformada num belo livro, talvez o mais importante, sobre a poesia de Da
Costa e Silva, enquanto a sua tese de doutorado abordou a contística de João
Antônio. Em ambas, se houve como o mestre e doutor que é, de fato e de direito.
Conheci Cunha e Silva Filho em
sua terra natal, em 1990, Amarante, por ocasião de um evento cultural de que
participei. Estava ele num dos vetustos casarões da avenida Desembargador
Amaral, quando o vi pela primeira vez. Logo notei tratar-se de uma pessoa
afável, simpática e acessível; numa palavra, amigável, como dizem os jovens dos
dias atuais. Imediatamente, entabulamos uma conversa sobre literatura, em que
se notava a sua erudição, repassada de forma discreta, espontânea, conforme o
rumo da conversa, contudo emitida sem empáfia e sem um pingo de afetação.
Pode ser considerado um mestre da
conversação, com sua voz agradável e de boa dicção. Contudo, não obstante todas
essas qualidades, é franco em suas análises, e não contemporiza com
mediocridades para se tornar simpático ou para agradar quem quer que seja. Com
efeito, já o vi partir para o confronto intelectual, quando lhe quiseram atacar
injustamente, sem o perfeito conhecimento de sua obra de crítica literária.
Nessa época, falei-lhe da
primeira edição de A Rosa dos Ventos Gerais, através da editora da UFPI.
Prometi enviar-lhe esse meu livro de poemas, quando voltasse a Teresina, o que
efetivamente fiz. Fui premiado com uma excelente crítica que o Cunha escreveu,
o que muito me desvaneceu e incentivou. A partir de então construímos uma
sólida amizade, regada e alimentada através de cartas, de telefonemas e agora,
com o avanço tecnológico, mediante e-mails e recíprocas “visitas” que fazemos
aos nossos blogs. Posteriormente, ele me prefaciou livros e escreveu ensaios
sobre textos de minha autoria, um dos quais foi enfeixado no livro que será
lançado no sábado vindouro.
À noite, no cais do Parnaíba, o Cunha e Silva Filho e o José Pereira Bezerra entabularam uma ferrenha (porém amistosa), e infindável discussão sobre aspectos da literatura universal. Essa discussão não nos impediu de falarmos sobre a literatura de nossa aldeia, que também é universal. E será tanto mais universal quanto mais falar de nossa aldeia, conforme entendia Tolstoi.
2 de fevereiro de 2011
domingo, 8 de fevereiro de 2026
DEUS
| Imagem elaborada pela IA ChatGPT |
DEUS
Elmar Carvalho
Inefável e indefinível Senhor,
incriado Criador,
Supremo conteúdo e continente,
que tudo enche,
que tudo extravasa,
que tudo permeia.
Alfa e ômega.
Infinitamente grande
e infinitamente pequeno.
Ponto fora e dentro da curva.
Roda grande dentro da pequena.
Soma e suma
do tudo e do nada.
Deus é tudo —
até o nada.
Pura e eterna existência.
Suma de tudo.
Sem ti nada somos.
Inefável Senhor,
tentei te definir,
mas talvez nada
tenha dito,
bendito Senhor.
Teresina, 1º de fevereiro de 2026.
Meu canto de cisne
Imagem elaborada pela IA ChatGPT
Após anos sem escrever poemas —
exceto, por simples blague, alguns versos brincalhões e circunstanciais —,
neste domingo (01/02/2026) pedi o auxílio do Espírito Santo para compor o poema acima,
intitulado Deus. Quase diria, sem querer tomar o Seu santo nome em vão, que
Deus me deu o poema Deus.
Como já não conseguia alcançar,
na seara poética, os meus melhores momentos, preferi dedicar-me a outros
gêneros literários, que, aliás, já cultivava em escala menor.
***
Um amigo, talvez para me
encorajar, com exagerado entusiasmo, diante desse meu poema — esperado e
inesperado ao mesmo tempo — disse, em tom pretensamente profético, que a minha
poesia havia voltado a jorrar.
Creio que sua “profecia” não se
cumprirá. As nascentes dela secaram. A cacimba de minha inspiração bateu na
laje e já não mina.
Assim, suponho tenha sido esse poema um jorro temporão e temporário — o meu canto de cisne nesse gênero literário.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
CATARINA, BONECA DE PANO
| A antiga Zona Planetária, em imagem melhorada e colorida pela IA Gemini |
CATARINA,
BONECA DE PANO.
(Torquatinha Braz).
Ao amigo
E confrade
Elmar Carvalho
Com a estima
Do Poeta da Estação.
Corria a era de 1980.
A lua campomaiorense,
Parecia um grande ovo
Estrelado na frigideira
Do infinito de um bonito
Céu nervurado niveamente.
..............................................
Zero hora!... a aura noturna
E fria, corria devassamente
Na rua famosa dos bordéis,
Efervescente e indecente.
..............................................
Rua Santo Antônio!
Padroeiro de Campo Maior.
Coliseu da vida prostibular.
De mancebas tão guapas -
Hetaíras no leilão da vida.
..............................................
Nesse mercado
De corpo feminino,
Belo, moço e venal
E de balzaquiana...
Acendi um continental,
Corri o curioso olhar
Pela sala do lupanar.
Num canto, a mesinha
De madeira, artesanal.
Noutro a radiola Philips
Amarela, o disco tocando.
Agulha enganchando...
O tempo todo. Alguém
Aborrecido, socorria ...
E a música então, seguia.
............................................
O ar do recinto
S'enchia de fumaça,
Odores, fedores diversos
De cachaça pitu, cerveja...
Risadas, prosas, cantadas
Obscenas no pé do ouvido.
.............................................
Torquatinha Silva y Braz
Linda no seu vestido azul,
Ia dançando e sempre rindo
Pela sala pequena de piso
De cimento avermelhado.
...............................................
Torquatinha Braz
Bela e moça cortesã
Estonteante e hilariante.
Deixava meu ser rapaz,
Ali atento e petrificado
Ante tanta beleza e leveza.
.............................................
Enfim, ela deixou a dança.
Cansada, sentou no rubro
Sofá, tomou no copo
Americano uma dose
De velho barreiro, quente.
Cruzou de leve as pernas.
Acendeu o cigarro charme.
...............................................
Por breves segundos
Viajou na fumaça do cigarro
E pensou na razão da vida.
Distraída aí, não percebeu
A minha aproximação.
................................................
Se assustou. Depois riu.
Se ajeitou melhor no sofá.
Gentil e tímida me convidou
Sentar. Aceitei e me sentei.
................................................
Meu caro leitor!
Imagine o fim de tudo.
Entre o aprendiz de poeta
E a aprendiz de cortesã
Na vida prostibular...
Que pena!...
Uma menina pequena.
Que sonhava ser bailarina.
Deixou em sua casinha,
Sua boneca de pano
Chamada de Catarina.
..............................................
Helano Lopes.
Poeta da Estação.
Campo Maior Piauí.
05/02/2026; 17:51.
Bairro Estação.
Quinta feira.
Ante o poema acima, resolvi emitir o seguinte comentário:
Inicialmente, agradeço a amável dedicatória, que muito me honra e enaltece.
Seu poema acaba por se constituir também em uma crônica de um tempo menos apressado e ainda analógico, retratando com fidelidade a atmosfera psicológica e sociológica dos lupanares. Neles, não faltava — por incrível que pareça — certo romantismo: um adolescente podia se apaixonar por uma “mulher-dama”, e uma prostituta, por vezes, acabava se afeiçoando a um homem a ponto de, em vez de receber seus “proventos”, gratificar o favorito.
Com maestria, você constrói uma bela evocação desses velhos lupanares, destroçados pelas mudanças de costumes e pela voragem dos novos tempos. Parabéns, caro Helano, imortal Poeta da Estação.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
Meu pequeno Açude Grande
| Imagem pescada na internet |
Meu pequeno Açude Grande
Elmar Carvalho
Através de WhatsApp, Helano Lopes, o Poeta da Estação, fez as
seguintes postagens:
“Açude grande de Campo Maior Piauí, carro pipa improvisado
numa carroça e puxado por mula. A água era para abastecer algumas casas no
centro da cidade, era vendida. Também, havia o transporte d'água através de
ancoretas sob o lombo de jumentos. Além do escambo. O carregador colocava um
pedaço de pau sobre os ombros, nas extremidades destes, uma corda de cada lado.
Sustentando cada uma lata de querosene contendo água para a serventia de casa
ou para vender. Memórias de minha
cidade.
Poeta da Estação.
31/01/2026.”
“Lata de querosene que se usava como se fosse um balde,
antigamente. Se tirava a tampa dela. No meio da lata se colocava um pedaço de
madeira. No meio deste, se amarrava uma corda e uma ponta dela se amarrava no
meio do cabo de madeira da roladeira, e ia se buscar água no açude grande de
Campo Maior Piauí. Ou no cambo, que era uma vara, que se colocava nas costas ,
em cada extremidade dela se botava uma lata de óleo com água do açude.”
Devo dizer que ainda alcancei esse sistema de abastecimento d’água,
quando criança. Cheguei a ver o que o poeta descreve acima. Vi as chamadas
roladeiras, que eram umas pipas, em torno das quais eram colocadas umas
espécies de rodas de borrachas, creio que feitas de pneus velhos. Nas laterais
da pipa era fixado um cambo, que o aguadeiro puxava pelas ruas da cidade, para
vender o precioso líquido em diferentes casas.
A orla do açude era de terra nua, onde eram cavadas cacimbas,
umas pequenas, outras maiores e fundas; umas mais perto, outras mais distantes
da lâmina d’água. O sistema de abastecimento d’água canalizada foi crescendo e
se aperfeiçoando, até que a atividade dos aguadeiros foi desaparecendo.
Joguei bola, nos anos de 1971 e 1972, num campinho de areia macia que existia na beira
do açude, perto da herdade do tenente Jaime da Paz. O açude ainda não era poluído,
de modo que após os jogos costumava tomar um gostoso banho nas águas tépidas do
pequeno Açude Grande.
A urbanização do açude, através da avenida de contorno e de
praças, sepultou as cacimbas e o meu pequeno campo de futebol, de areia tão
fina, tão branca e tão macia, que amortecia as minhas voadas e pontes de
goleiro do futebol amador.
Sobre o açude, em tempos que já se esfiapam e se esgarçam na
memória, tive a oportunidade de escrever estes versos:
Açude Grande
apenas no nome, mas pequeno
na paisagem ampla dos descampados.
Tuas águas cinzentas
azularam-se em minha saudade.
Tuas águas barrentas
são tingidas de azul pelo
azul do céu que se espelha
em tuas águas de chumbo.
Vendo a lata de querosene postada pelo poeta Helano, postei
estes versos brincalhões:
Seu José,
Quero já
Querosene
Jacaré.
Helano Lopes me respondeu e me homenageou com este belo
poema, de sua lavra:
Na lata de querosene
“Não dava para fazer café,
Então, Dona Irene Juraci,
Esquentava a água
Para fazer a bebida escura
Numa lata de leite ninho.
Passava no cuscuz
A manteiga Itacolomi.
Na mesa a lata intacta
Do leite em pó, Mococa.
.............................................
Que feliz hora matinal.
O galo cantava no quintal.
O padeiro passava a rua,
A fazer o seu comercial
De pão massa grossa e fina
A mãe preparava a menina
E depois o menino traquino,
Para irem ao Valdivino Tito.
.............................................
.
Ao amigo e confrade Elmar Carvalho, que me atiçou a escrever
este poema, baseado no seu poema Seu José.”
Agradeço ao poeta Helano Lopes pela sua dedicatória e encerro esta crônica feita com a sua luxuosa ajuda.
domingo, 1 de fevereiro de 2026
PINTURA
| Imagem elaborada pelo chatgpt |
PINTURA
Elmar Carvalho
Minha estrada
é a esteira de luz
que o Sol traça no mar.
Meu arco-do-triunfo
é o arco-íris
que o Sol pinta no céu.
Meu louro
é o pentelho dourado
que cobre tua nudez.
Então eu,
laureado com tua
pubescência de ouro
percorro a estrada de luz
do sol no mar
passo por baixo do
arco-íris-do-triunfo,
herói anônimo que se venceu
a si mesmo.