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domingo, 25 de setembro de 2011

QUEM TE ENSINOU A VOAR?


Goleiro Coló, do Caiçara, o ícone maior de Elmar
Goleiro Beroso, uma das admirações de Elmar
"O velho atleta recorda as jogadas felizes"

JOSÉ FRANCISCO MARQUES
Professor, compositor e instrumentista


Remonto ao início dos anos 70, mais precisamente após o nosso escrete canarinho haver conquistado a tão cobiçada taça Jules Rimet. A nossa seleção (considerada ainda hoje por experts como a melhor de todas as seleções), despertou de maneira ainda mais efusiva e visível a simpatia por esse esporte. Assim, o futebol de várzea efervescia certamente por conta de tal feito.

Eu, não contrariando a toda uma geração, me deixei levar por essa “onda” futebolística. O meu primo/irmão João Bartolomeu Filho fundou na época um time de futebol amador, o qual denominou de Palmeiras. Era de fato um time bem organizado, com reuniões semanais, englobando todos os que faziam parte daquela equipe.
Organizou-se então um Campeonato que tinha como coordenador mor um jovem ao qual chamavam de Pedro Rocha, apelido que acredito ser uma alusão ao então famoso craque do São Paulo naquela época, cujo nome verdadeiro era Antônio Francisco Souza. A citada competição acontecia aos domingos, no Estádio Deusdedit Melo .
Eu era uma espécie de faz tudo. O office boy da equipe por assim dizer. Lembro que, dentre as tarefas a mim delegadas, a que mais me deixava prazeroso era a de literalmente acordar o nosso atleta maior. Refiro-me ao mestre amigo, poeta, cronista, blogueiro dos mais famosos e imortal de várias academias, dentre elas a Piauiense de Letras, Elmar Carvalho, que representava, sem dúvida alguma, a peça que transmitia a toda equipe a segurança necessária. Assim o digo porque, enquanto eu não conseguisse completar a minha tarefa, lá no Estádio, o meu primo usava de todas as artimanhas possíveis para protelar o início do jogo, para iniciá-lo apenas quando o nosso guarda-metas chegasse.
Elmar era de fato um goleiro diferenciado. Elegante em suas defesas e de uma agilidade impressionante, pois muitas vezes arrancava aplausos (fato raríssimo entre expectadores desse nível futebolístico), da platéia que o assistia. Eu, entre orgulhoso e com um nítido sentimento de dever cumprido, sentia-me dentro do contexto feliz por ser parte, ainda que ínfima, desse espetáculo que dominicalmente o nosso atleta oferecia.
Lembro-me, dentre outros feitos, de uma defesa antológica que Elmar praticou. Repassei, durante muito tempo, aos amigos que militavam na área esportiva, tal feito. Era uma espécie de semifinal ou algo parecido. O jogo estava duríssimo e o Palmeiras vencia por 1X0. O jogo já estava quase finalizando, quando o centroavante adversário acertou uma cabeçada no canto esquerdo, tendo o nosso goleiro, em um reflexo incrível, efetuado a defesa. A bola resvalou na trave. A pelota sobrou para outro atacante, que de primeira soltou um “torpedo”; o nosso arqueiro, usando de uma agilidade felina, conseguiu, no canto contrário, fazer uma defesa fenomenal. Mais tarde, ao ver uma defesa de Rojas, atuando no Santos (os mais afeitos ao futebol certamente lembrarão), é que pude estabelecer um comparativo com essa verdadeira façanha malabarística.
Elmar tornou-se um grande goleiro precocemente. Certa feita, ainda criança, jogava com alguns amigos em um campinho de futebol. A sua atuação despertou a atenção de um agricultor que por ali passava. Depois de seguidas defesas e voos, a espalmar a bola, o agricultor, não contendo a sua admiração e espanto, expressou em voz alta: “Meu Deus, parece um passarinzim”.
O lado intelectual falou mais alto, e assim o futebol perdeu um grande goleiro. A magistratura, por sua vez, ganhou um reforço substancial.
Mas, voltando às minhas memórias, jogo terminado, Elmar seguia, agora com alguns amigos, de volta ao seu lar (ou algum boteco), não sei ao certo, entre elogios e expressões de puro contentamento.
Hoje, depois de muitos anos, o mesmo jogador brilhante, que antes imitava com perfeição o voo dos pássaros em suas defesas acrobáticas, transporta-me em suas asas poéticas a voos ainda mais densos e infindos.
Mestre, humildemente vos pergunto: Quem te ensinou a voar?

Depois desta crônica, só me resta dizer, parafraseando o poeta Mário Quintana: Muitos goleiros passarão, eu passarinho.
Elmar Carvalho

Meu amigo Elmar, 
Poeta maior piauiense da atualidade. Sua poesia se ombreia com os grandes poetas do Piauí: Torquato Neto, Da Costa e Silva, H. Dobal, este último seu conterrâneo da querida Campo Maior. Ao lado disso tudo, ainda teve a peripécia de ser goleiro, posição que tive a honra de enfrentar na minha juventude futebolística. Grande abraço,
Roberto Veloso

(Juiz Federal e goleiro)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

Abertura do XXIX Encontro de Magistrados Piauienses


Os juízes Thiago Brandão, Carmem Ferraz e o empresário Raimundo Rios



1º de dezembro

NO CONGRAÇAMENTO DA AMAPI

Elmar Carvallho


O desembargador Lineu Bonora Peinado, do Tribunal de Justiça de São Paulo, ao falar sobre “A magistratura Brasileira e o Projeto do Novo CPC”, observou que no esboço inicial havia um dispositivo, que facilitava a concessão de liminar. O nobre magistrado posicionou-se contra ele, dizendo que a magistratura nacional não estava à procura de mais poder. Na verdade, o que se deseja é maior simplificação na ritualística processual, maior celeridade, mais praticidade e maior efetividade das decisões judicais, no sentido de que se tenha mais mecanismos para que elas sejam cumpridas, sem delongas, sem protelações. O desembargador mostrou-se simpático e acessível, tanto em sua exposição, como posteriormente, ao conversar com os colegas.
Juízes Manoel Soares, Elmar Carvalho, Dioclécio Sousa e Sebastião Firmino
Ressaltou, assim como havia feito anteriormente o desembargador Paulo Henrique Moritz da Silva, a contribuição de nosso colega Thiago Brandão, titular da Comarca de Água Branca, que atuou junto à Comissão responsável pela elaboração do Novo Código de Processo Civil, em tramitação no Congresso Nacional, cujo relator é o deputado federal Fábio Trad. Em e-mail que me enviou, o Thiago teve a humildade de consignar que a sua principal atuação na Comissão foi ter sido aluno dessas e de outras eminentes personalidades do mundo jurídico. O desembargador Lineu tem certa semelhança física, e até um pouco no timbre da voz, com o falecido Carlos Teixeira, procurador da Fazenda Nacional, que exerceu o cargo de delegado do Patrimônio da União no Estado do Piauí por vários anos, do qual fui aluno no Campus Ministro Reis Velloso, da UFPI, em Parnaíba, já falecido há mais de duas décadas em desastre automobilístico.
Como eu não tivesse em meu carro nenhum de meus livros individuais, mas apenas a antologia de poetas brasileiros contemporâneos, intitulada Vozes na Paisagem, editada em 2005 pelas Edições Galo Branco, tendo como organizador o escritor Waldir Ribeiro do Val, um dos maiores estudiosos do grande poeta parnasiano Raimundo Correia, resolvi presentear o eminente magistrado Lineu Peinado com essa obra. Além de seu assessor e magistrado Marcos, abrilhantavam a mesa de que ele fazia parte no Clube da AMAPI os juízes Thiago Brandão, Leonardo Trigueiro, Rafael Paludo, Luiz Henrique Moreira e outros colegas e amigos. Fazem parte da coletânea, entre outras ilustres personalidades, A. B. Mendes Cadaxa, Anderson Braga Horta, Aglaia Souza, Antonio Miranda, Aricy Curvello, Astrid Cabral, Jorge Tufic, Francisco Miguel de Moura, José Jeronymo Rivera, José Santiago Naud e Lélia Coelho Frota, que estão consagrados como integrantes do mais importante rol da lírica nacional contemporânea.
Por essa razão, reconhecendo ser eu um dos mais pálidos bardos da seleta, ao lhe entregar o livro, depois de devidamente autografado, fiz questão de dizer:
- Desembargador, eu sou mesmo um cara metido, um enxerido, e aí estou no meio desses altos nomes, como um penetra!...
O colega Thiago Brandão, com a sua conhecida lhaneza, mas evidentemente em flagrante exagero, disse que eu era um “grande poeta” e um sofrível goleiro. Como eu tenha ficado “carrancudo” com a qualificação “goleirística”, o colega me promoveu a goleiro razoável ou regular; como ainda assim eu fingisse ter ficado chateado, o Thiago, em sua generosidade, em ascendente gradação, terminou me qualificando como um bom goleiro. Aí, escancarei o meu melhor e mais simpático sorriso, e me despedi, não sem antes recomendar que procurassem no Google a crônica http://poetaelmar.blogspot.com/search?q=quem+te+ensinou+a+voar [quem te ensinou a voar], que conta a minha saga de guarda-metas, golquíper, guarda-redes, ou ainda goleiro. E mais não disse e nem precisaria dizer. Esse texto falará por mim.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

JAMES TORRES, A MATERNIDADE E OS VELHOS MÉDICOS



Na 1ª foto do painel, a enfermeira Iracema e Jailton; na 2ª, Jailton e sua mãe Altair, ladeados pelos médicos João de Deus Torres e Sigefredo Pacheco; na 3ª, Altair e Jailton

13 de fevereiro   Diário Incontínuo

JAMES TORRES, A MATERNIDADE E OS VELHOS MÉDICOS

Elmar Carvalho

Neste domingo, em Campo Maior, fui à maternidade Sigefredo Pacheco, para entregar ao médico e diretor daquela casa de saúde os meus livros Noturno de Oeiras e outras evocações, A casa no tempo e PoeMitos da Parnaíba. Fui acompanhado do professor Zé Francisco Marques e de meu irmão Antônio José. James estava, na área de recepção, a conversar alegremente com várias pessoas. Dessa atitude, em pleno domingo de carnaval, bem se pode inferir que ele tem paixão pelo que faz, que é um médico efetivamente vocacionado, uma vez que não apresentava o menor sintoma de mau-humor ou estresse.

Ele me apresentou às pessoas com quem conversava, e me traçou uma breve biografia, sobretudo enfatizando que eu era um poeta e que fora um bom goleiro, a desferir voos nos campinhos de várzea de Campo Maior, como está posto na parte final do livro Bernardo de Carvalho, o Fundador de Bitorocara, que eu lhe dera dias atrás, quando o encontrei, em feliz coincidência, no shopping Riverside. Naquela oportunidade, ele comprou um note book, e eu adquiri um pendrive para armazenar com segurança este Diário Incontínuo, que venho escrevendo há mais de três anos, e que desejo publicar em livro de papel, quando completar sessenta anos de idade.

Eu o conhecia há algumas décadas, principalmente do tempo em que eu trabalhava como fiscal da extinta Sunab, que funcionou no prédio da Delegacia do Ministério da Fazenda, onde o doutor James exercia o cargo de médico, como ainda exerce. Na conversa no shopping, ele me revelou que gostava de ler. Enalteceu as minhas atividades de magistrado e de poeta. Como é raro, hoje em dia, a gente encontrar um leitor de literatura, achei por bem lhe ofertar o meu livro sobre Bernardo de Carvalho, explicando-lhe que eu fora motivado pelo desejo de resgatar a memória dessa grande figura histórica do Piauí, que injustamente estava relegada ao esquecimento.

Quando lhe entreguei esse livro, disse-lhe, brincando, que ele não precisava lê-lo na íntegra, mas apenas a crônica que o encerra, escrita pelo Zé Francisco Marques, titulada “Quem te ensinou a voar?”, sobre as minhas atuações goleirísticas. Mas James Torres, com o seu notável senso de humor, retrucou-me:
- Por favor, não me faça um pedido desse; eu gosto de ler, e quero ler o seu livro todo...
Fiquei feliz. Afinal, os leitores compulsivos são “avis rara” cada vez mais raras, ralas e rarefeitas, nesses tempos apressados de internet e de audiovisuais.
Hellena (filha de Jailton), sua mãe e o médico James Torres

Na maternidade, ele me mostrou um modesto painel, onde estavam afixadas, sem nenhuma ostentação, quatro a cinco fotografias, sendo duas bem antigas. Numa delas, apareciam o Dr. João de Deus Torres, seu pai, e o então senador Sigefredo Pacheco, seu tio afim, também médico e ex-deputado federal. João de Deus Torres, já falecido, foi prefeito de Campo Maior, no período de 1963 a 1967. Em outra foto, via-se a saudosa enfermeira Iracema Lima da Costa Santos, antiga parteira campomaiorense. Vim ao mundo com a ajuda de suas mãos, e durante muitos anos a chamei de mãe Irá, em homenagem a esse fato.
Dr. João de Deus Torres

No painel, também estava a imagem de Jailton L. e Silva, filho da senhora Altair Lima de Deus, que inaugurou essa maternidade ao nascer em 05/12/1967, ainda nos bons tempos de Irá e do doutor João de Deus Torres. Nas fotos mais recentes, aparecem o médico James, uma jovem mulher e uma criança; esta infante, de nome Hellena do Vale Lima, nascida em 22/03/2004, é filha de Jailton. Portanto, vê-se nas imagens fotográficas a sucessividade das gerações de médicos e de pais e filhos, na eterna perpetuação da espécie bípede, mamífera e humana, ou homo sapiens, nem sempre tão sábio assim.

Durante um curto período, no início de minha adolescência, residi perto dessa maternidade. Nessa época, com certa frequência, tomava banho no Surubim e em sua velha barragem. Uma ou duas vezes, quando a alta caixa d' água, que lhe fica próximo, derramava água pelo “ladrão”, como se fosse uma bica, tive o prazer de banhar na verdadeira cascata que se formava. Na sua frente, namorei algumas vezes, à noite, uma garota da vizinhança, que nunca mais revi, e cujo nome já não recordo.

A pouca distância, ficava o extinto hospital São Vicente de Paula. Certa feita, quando eu me encontrava nessa entidade hospitalar, ouvi o forte clamor angustiado de uma mãe, que acompanhava o cadáver do filho. Durante alguns meses, a lamentação desesperada não me saía da memória, deixando-me o espírito impregnado de profunda tristeza pelo que a morte contém de irremediável e inelutável.
Senador Sigefredo Pacheco

Como uma homenagem, recordo o nome dos velhos médicos da época, alguns já falecidos: José Francisco Bona, José Laurindo, Antônio de Araújo Chaves, João de Deus Torres, que relevantes serviços prestaram aos campomaiorenses, na área de saúde. O primeiro foi colaborador do jornal A Luta, em que publicou interessantes crônicas e artigos, que bem merecem ser coligidos em livros; doutor Chaves foi grão-mestre da Grande Loja Maçônica do Piauí. José Francisco e José Laurindo foram os responsáveis pela cirurgia cesariana, através da qual nasceu o meu irmão caçula, César Carvalho (Neném).

O Zé Francisco fez questão de proclamar, alto e bom som, e no melhor tom tonitruante, que James, além de médico dedicado e competente, é um exímio violonista, do nível de Turíbio Santos e Dilermando Reis. Devo dizer que o autor dos elogios não lhe deve ficar atrás, além de dedilhar, com rara maestria, um teclado. Dessa forma, marcamos um encontro para um dueto e um duelo entre esses dois mestres das cordas pulsantes e sonoras de violão, que acontecerá no primeiro ou no segundo domingo de março.

Após James Torres afirmar que eu fora um grande goleiro, a empreender minhas voadas nos campos pebolísticos de Campo Maior, tive vontade de lhe dizer que talvez tenha havido certo exagero por parte do Zé Francisco; que as “asas” com que eu voava eram pregadas com cera, como as de Ícaro, e que, como um anjo decaído, eu me estatelava no chão; que apenas fui um admirador dos guarda-metas conterrâneos Beroso, Icade e Zé Olímpio da Paz Filho, este para mim o melhor golquíper na modalidade futebol de salão.

Meu ícone, que procurava imitar, foi o imortal caiçarino Coló, um dos maiores goleiros do Piauí de todos os tempos. Coló colava com cola, como dizia a modinha, cantada no auge de sua glória. E eu, se muito colasse, colava com grude ou goma arábica.
Caiçara, vendo-se à direita, em pé, o goleiro Coló

QUEM TE ENSINOU A VOAR? 

José Francisco Marques
Professor, compositor e instrumentista

Remonto ao início dos anos 70, mais precisamente após o nosso escrete canarinho haver conquistado a tão cobiçada taça Jules Rimet. A nossa seleção (considerada ainda hoje por experts como a melhor de todas as seleções), despertou de maneira ainda mais efusiva e visível a simpatia por esse esporte. Assim, o futebol de várzea efervescia certamente por conta de tal feito.
Eu, não contrariando a toda uma geração, me deixei levar por essa “onda” futebolística. O meu primo/irmão João Bartolomeu Filho fundou na época um time de futebol amador, o qual denominou de Palmeiras. Era de fato um time bem organizado, com reuniões semanais, englobando todos os que faziam parte daquela equipe.
Organizou-se então um Campeonato, que tinha como coordenador mor um jovem ao qual chamavam de Pedro Rocha, apelido que acredito ser uma alusão ao famoso craque do São Paulo naquela época, cujo nome verdadeiro era Antônio Francisco Souza. A citada competição acontecia aos domingos, no Estádio Deusdedit Melo .
Eu era uma espécie de faz tudo. O office boy da equipe, por assim dizer. Lembro que, dentre as tarefas a mim delegadas, a que mais me deixava prazeroso era a de literalmente acordar o nosso atleta maior. Refiro-me ao mestre amigo, poeta, cronista, blogueiro dos mais famosos e imortal de várias academias, dentre elas a Piauiense de Letras, Elmar Carvalho, que representava, sem dúvida alguma, a peça que transmitia a toda equipe a segurança necessária. Assim o digo porque, enquanto eu não conseguisse completar a minha tarefa, o meu primo, lá no Estádio, usava de todas as artimanhas possíveis para protelar o início do jogo, para iniciá-lo apenas quando o nosso guarda-metas chegasse.
Elmar era de fato um goleiro diferenciado. Elegante em suas defesas e de uma agilidade impressionante, pois muitas vezes arrancava aplausos (fato raríssimo entre expectadores desse nível futebolístico), da plateia que o assistia. Eu, entre orgulhoso e com um nítido sentimento de dever cumprido, sentia-me, dentro do contexto, feliz por ser parte, ainda que ínfima, desse espetáculo que dominicalmente o nosso atleta oferecia.
Lembro-me, dentre outros feitos, de uma defesa antológica que Elmar praticou. Repassei, durante muito tempo, aos amigos que militavam na área esportiva, tal feito. Era uma espécie de semifinal ou algo parecido. O jogo estava duríssimo e o Palmeiras vencia por 1X0. O jogo já estava quase finalizando, quando o centroavante adversário acertou uma cabeçada no canto esquerdo, tendo o nosso goleiro, em um reflexo incrível, efetuado a defesa. A bola resvalou na trave. A pelota sobrou para outro atacante, que de primeira soltou um “torpedo”; o nosso arqueiro, usando de uma agilidade felina, conseguiu, no canto contrário, fazer uma defesa fenomenal. Mais tarde, ao ver uma defesa de Rojas, atuando no Santos (os mais afeitos ao futebol certamente lembrarão), é que pude estabelecer um comparativo com essa verdadeira façanha malabarística.
Elmar tornou-se um grande goleiro precocemente. Certa feita, ainda criança, jogava com alguns amigos em um campinho de futebol. A sua atuação despertou a atenção de um agricultor que por ali passava. Depois de seguidas defesas e voos, a espalmar a bola, o agricultor, não contendo a sua admiração e espanto, expressou em voz alta: “Meu Deus, parece um passarinzim”.
O lado intelectual falou mais alto, e assim o futebol perdeu um grande goleiro. A magistratura, por sua vez, ganhou um reforço substancial.
Mas, voltando às minhas memórias, jogo terminado, Elmar seguia, agora com alguns amigos, de volta ao seu lar (ou algum boteco), não sei ao certo, entre elogios e expressões de puro contentamento.
Hoje, depois de muitos anos, o mesmo jogador brilhante, que antes imitava com perfeição o voo dos pássaros em suas defesas acrobáticas, transporta-me em suas asas poéticas a voos ainda mais densos e infindos.
Mestre, humildemente vos pergunto: Quem vos ensinou a voar?


sexta-feira, 4 de julho de 2014

A INGRATA POSIÇÃO DE GOLEIRO

Goleiro Coló e o Caiçara
Comercial e o goleiro Beroso
Pintura de Amaral - acervo de Cineas Santos/Oficina da Palavra

René Iguita


4 de julho   Diário Incontínuo

A INGRATA POSIÇÃO DE GOLEIRO

Elmar Carvalho

Desde minha infância e adolescência, fui um admirador dos goleiros Beroso e Coló, como já tive ocasião de dizer. Era meu ícone, sobretudo, o segundo, tanto por suas pontes ou voadas espetaculares, como pelo fato de ser integrante do Caiçara. O Coló, na minha concepção, era mais estiloso, exercitava mais a elasticidade e ornamentava as suas defesas com suas acrobacias felinas e pontes estaiadas, em que parecia desafiar a lei da gravidade.

O Beroso, titular do Comercial por muitos anos, era mais objetivo; procurava se posicionar corretamente, fechando os ângulos para a trave o máximo possível. As suas atuações eram sóbrias, sem ornamentos, contudo, quando necessário, realizava belas jogadas. No futebol de salão campomaiorense se destacava o goleiro Zé Olímpio (José Olímpio da Paz Filho). Fazia arrojadas defesas, em que praticava bonitos e acrobáticos saltos, sem medo do cimento rústico e áspero das quadras esportivas de então.



Mormente na minha adolescência, pratiquei, quase todo dia, o futebol. Quase sempre optei por ser goleiro, mas algumas vezes atuei na lateral direita ou na ponta direita. Como guarda-metas procurei imitar o grande Coló. Quase sempre minhas atuações eram tidas como regulares ou boas, e nunca fui defenestrado de nenhuma partida ou time. O professor, intelectual e musicista Zé Francisco Marques, na crônica “Quem te ensinou a voar?”, que se encontra publicada na internet, narra algumas de minhas peripécias goleirísticas da minha adolescência.

O acrobático e elegante Coló, quando a bola vinha numa altura e numa velocidade que ele julgava apropriadas, simulava deixar passar a pelota, para em seguida espalmá-la ou mesmo agarrá-la em suas mãos habilidosas. Isso arrancava urros e aplausos da torcida alvirrubra, que ficava com os nervos em frangalhos nas arquibancadas do velho Estádio Deusdeth de Melo. Era um arqueiro de “voadas” dignas de um trapezista circense, um verdadeiro artista do picadeiro futebolístico.

Contou-me o notável craque Zé Duarte uma audaciosa façanha do inesquecível Beroso, que assim narrei no meu livro “O Pé e a Bola”: “(...) certa vez, estando Beroso muito adiantado, houve um chute a gol por cobertura, que forçou este extraordinário goleiro a dar dois passos em recuo, arremessar-se de costas para trás, desviar a trajetória da bola, enquanto girava seu corpo, em legítimo salto mortal, para cair de bruços.”

Em tempos mais recentes, fez sucesso o espetaculoso golquíper Iguita, que além de fazer verdadeiras acrobacias circenses, metia-se a atuar como se fora um líbero, ou até mesmo atacante; nessas “loucuras” extravagantes tanto cometia inesperados dribles como fazia defesas com as pernas e pés, como se fora um zagueiro. Algumas vezes perdia a bola, e sofria melancólicos e ridículos gols. Teve alguns imitadores, que jamais superaram o mestre. Rogério Ceni se tornou o goleiro artilheiro, mas sobretudo em cobranças de faltas e penalidades máximas.



Alcançou o colombiano René Iguita, com a sua basta cabeleira encaracolada, o ápice de sua glória quando, após exaustivos treinamentos, conseguiu executar uma defesa quase suicida, designada como escorpião, na qual ele deixava a bola passar por sobre suas costas, e, em pleno voo e na horizontal, realizava a defesa, ao devolver a bola com os calcanhares. Na verdade, seria muito mais simples e eficaz encaixar a bola nas mãos ou entre o peito e os braços. De qualquer sorte foi um grande, ousado e abusado goleiro, embora, às vezes, suas intervenções fossem suicidas e irresponsáveis.   

  

Uma ocasião, talvez tentando inconscientemente imitar o meu ídolo Coló, num campinho de areia que existia às margens do Açude Grande de Campo Maior, ao lado da vivenda do tenente Jaime da Paz, vi a bola ser arremessada para o atacante adversário; tive uma loucura momentânea, e no auge do entusiasmo de meus quinze ou dezesseis anos, empreendi maluca correria para me lançar num grande e alto salto, e dessa forma interceptar o lance. Devo dizer que, já em pleno voo, tive medo do que poderia me acontecer no impacto com o solo, mas então já era tarde para arrependimento e executei a defesa.

A posição de goleiro é mesmo esdrúxula. O atleta fica solitário, sempre na proximidade da meta. Sua preocupação exclusiva é impedir os gols, enquanto a de seus companheiros é principalmente fazê-los. Estes jogam, sobretudo, com os pés, e são proibidos de usar as mãos; o guarda-redes atua principalmente com as mãos. Até a sua indumentária é diferente, tanto na cor como por ter geralmente mangas longas, além de fazer uso de luvas.



Algumas vezes, após uma magnífica defesa, um “montinho artilheiro” pode ludibriar um goleiro, por melhor e mais experiente que seja. Mesmo os melhores arqueiros, aceitam, em momento infeliz, o mais desmoralizante “frango”, ficando apenas a segurar as penas do galináceo. O goleiro Júlio César, titular da Seleção Brasileira de 2014, consagrou-se como herói na partida contra o Chile, quando defendeu dois chutes, na decisão dramática por pênalti.



Entretanto, tempos atrás, ficara um tanto depressivo, ao lhe ser atribuída a responsabilidade de uma derrota de nosso escrete nacional. O grande Barbosa amargou até o fim de sua vida o estigma de culpado de o Brasil não ter se sagrado campeão na Copa de 1950, cuja partida ficou conhecida como Maracanazo. E ele é tido por vários expertos como o melhor goleiro de nosso esquadrão canarinho. Muitos entendem que esse gol não poderia ser classificado como um “frango”.

Quanto o goleiro brilha, é sinal de que o seu time está apagado. Quando muito aparece é sinal de que os seus companheiros não estão bem. Por outras palavras: quanto menos o goleiro atuar e for destaque, menos preocupação o técnico e o time têm. Os gols e os dribles são mostrados com destaque na TV, inclusive reprisados na transmissão ao vivo, enquanto raramente são exibidas as defesas espetaculares e mesmo milagrosas dos goleiros.


Todos podem falhar, menos o solitário defensor. Uma falha desse guardião das traves é sempre fatal. Portanto, é mesmo ingrata essa posição. Contudo, como é bela e gloriosa uma defesa espetacular de um goleiro, em que ele arranca suspiros e urros da plateia. É por isso que sinto saudade dos meus tempos de goleiro, em que me quedava solitário sob o travessão, mas sempre atento, à espreita dos chutes certeiros, para frustrar os possíveis gols do adversário.    

quinta-feira, 18 de julho de 2013

ERROS FUTEBOLÍSTICOS OU EM DEFESA DE MIM MESMO


17 de julho   Diário Incontínuo

ERROS FUTEBOLÍSTICOS OU EM DEFESA DE MIM MESMO

Elmar Carvalho

Vindo passar uns dias de minhas férias em Parnaíba, tomo conhecimento de que eu teria cometido erros graves em meu trabalho Craques do Futebol Parnaibano. Irei aqui fazer um mea culpa, em que tentarei justificar ou mesmo fazer a expiação de meus supostos ou verdadeiros equívocos.

Quando o escrevi, no começo deste século XXI, fiz questão de enfatizar que me fundamentava na memória prodigiosa de meu amigo Genésio da Silva Costa. Fiz uso de recurso da chamada história oral, que é sempre suscetível de falhas, pois como todos sabemos a memória é muitas vezes frágil e enganosa. Evidentemente, lancei mão de eventuais artigos ou registros e anotações a que tive acesso, além de consulta a algumas outras pessoas. Publiquei-o em sites e jornais, com a esperança de que alguém me enviasse eventuais retificações ou mesmo me desse novos subsídios, que pudessem enriquecer o meu modesto ensaio historiográfico. Todavia, não recebi nenhuma carta ou e-mail com reclamações, retificações ou sugestões, de forma que o considerei digno de publicação em livro.

Por conseguinte, o enfeixei no opúsculo O Pé e a Bola (publicado em 2003), que traz excelente prefácio do intelectual e comentarista esportivo Carlos Said, cujo nome dispensa qualificativos, por ser uma legenda da crônica futebolística piauiense. A obra, que tem como subtítulo “Craques do futebol campomaiorense e parnaibano”, é divida nas seguintes seções: a) O Pé e a Bola, que é um ensaio sociológico sobre o futebol, mormente o amador ou dos campinhos de várzea, e as suas sociabilidades; b) Craques do futebol campomaiorense; c) Craques do futebol parnaibano e d) Memória iconográfica.

Nas partes b e c fiz uma síntese histórica do futebol em Campo Maior e em Parnaíba, e relacionei os principais atletas, na avaliação de meus informantes (Genésio da Silva Costa e Zé Duarte, além de outros). Minha intenção primordial ao publicar essa obra foi relembrar o nome de grandes craques, que já se encontravam em quase completo esquecimento. Ressaltei que não tinha a pretensão de esgotar o assunto, e que outros poderiam fazer mais e melhor do que eu. Deixei bem claro que em todas as listas de melhores, sempre alguém poderia apontar alguma inclusão indevida ou alguma indevida exclusão. Mas, como disse, não tinha eu o objetivo de exaurir a matéria.

Quando publiquei o meu livro em 2003, fiz pequenas alterações, de modo que alguns dos erros apontados já foram corrigidos. Por exemplo, na página 29 do meu livreto está dito que um dos introdutores do futebol foi Septimus Clark, de ascendência inglesa (e não James Clark), de modo que o reparo já foi solucionado. No texto anterior eu tinha optado por atualizar a grafia do nome do Parnahyba, mas no livro resolvi manter a grafia original, ou seja, conservei o nome como sendo Parnahyba Sport Club, de sorte que esse outro “erro” também já fora sanado, desde 2003.

Outro senão que me imputaram foi o de não saber o significado da palavra escrete. Na verdade, as palavras têm o sentido denotativo e conotativo. No meu texto, dei a essa palavra a conotação de time, e não de seleção. De qualquer sorte, alguns dicionários registram esse vocábulo como tendo também o significado de time. Por conseguinte, tanto no sentido denotativo como no conotativo, eu não estaria errado. Assim, a censura teria foro de preciosismo linguístico, que não tentei seguir, mesmo porque sei que a semântica está sempre sendo enriquecida, com as palavras adquirindo outras e novas significações, tornando-se, às vezes, plurissignificantes.

Quanto a antigos dirigentes que citei, esclareço que eu não disse terem sido presidentes, mas que teriam exercido cargo na direção, e não exatamente na presidência do time. De qualquer modo, a informação me foi passada oralmente, e é possível que o meu informante possa ter se equivocado. Foi o meu amigo Genésio Costa quem me informou que foram disputados campeonatos em campo de futebol localizado onde hoje se ergue a Praça Santo Antônio, o que não impede que outros torneios possam ter sido praticados em outros locais. Eu não disse, em momento algum, que o Ginásio São Luiz Gonzaga já existisse no tempo em que o empresário Zeca Correia criou o seu campo de futebol; disse apenas que ele foi instalado em local perto de onde (hoje) se ergue esse educandário.

Conheci Mário Carvalho, e lhe tinha respeito, admiração e amizade, principalmente porque ele era colaborador do Jornal Inovação, do qual fiz parte, com muita honra para mim. Não lhe omiti a participação no episódio referido na crítica. Aliás, ele é o primeiro nome relacionado no meu livro O Pé e a Bola, conforme pode ser visto na página 30, quando eu afirmo: “No início da década de 60, os proprietários quiseram desativar o estádio [do International], dando-lhe outra destinação, o que gerou uma acirrada revolta popular, com vários manifestantes, em cuja linha de frente estavam Mário Carvalho e Mário Pereira (...)”.

Quanto ao nome de Jesum Messias já corrigi o equívoco no original do texto. Realmente Galdino foi ourives, desportista e líder comunitário, mas não foi escritor e nem compositor; quem me deu essa informação deve ter se equivocado, ou então o equívoco foi meu, quando fiz a sua anotação manuscrita. Com relação ao atleta Genésio, escrevi o seguinte: “nossa principal fonte informativa, Genésio da Silva Costa, o Geruca (Guarani e Ferroviário), meia-direita e centroavante, invicto nos campeonatos de 1943 e 1944”. Acredito ter sido fiel ao que ele me disse, e que imediatamente anotei. Contudo, no dia 16/07/2013 o velho atleta desfez seu engano, e me disse que a invencibilidade ocorreu apenas no ano de 1943. Já fiz a devida correção.

Peço ao leitor de meu livro que me perdoe por esses erros (que infelizmente acontecem quando se recorre à história oral), que tentei justificar. Esforcei-me para fazer o melhor que podia. Não tive o desiderato de exaltar ou escamotear de forma injusta o brilho e o mérito de ninguém. Entretanto, acrescento que na época em que o escrevi não existia nenhum livro sobre o futebol parnaibano, ao menos do meu conhecimento, e ao qual pudesse ter acesso. Ressalto que publiquei o meu opúsculo com o objetivo de resgatar a memória dos grandes craques do futebol campomaiorense e parnaibano, que se encontravam imersos em quase absoluto esquecimento, e penso que o atingi. Em resumo: alguns erros apontados já estavam corrigidos, quando publiquei o livro em 2003, e os outros já estão retificados no original.

Encerro esses esclarecimentos, com o seguinte trecho do aludido livreto:

Sem dúvida, as belas e caprichosas jogadas de grandes craques rapidamente caem no esquecimento. Diria mesmo que essas jogadas de arte, verdadeiros malabarismos, verdadeiras coreografias e balés, têm uma glória magnética e eletrizante, mas tênue, passageira, comparáveis a belas esculturas executadas com neve, tão mais precárias quanto mais delicadas.


Desejo também registrar que a glória dos estádios muitas vezes é fugaz e traiçoeira, pois não raras vezes um craque, após uma jogada de gênio, comete logo a seguir um lance infeliz, como um passe para o adversário, ou mesmo o suicídio melancólico de um gol contra. A torcida, implacável, transforma os aplausos em apupos e vaias, o êxtase em sofrimento, ainda mais quando o atleta atua na posição ingrata de goleiro, em que uma falha é quase sempre fatal.”


(*) Em minha juventude, joguei futebol, tendo atuado preferencialmente na posição de goleiro. Remeto o leitor, caso tenha interesse, para as crônicas "Quem te ensinou a voar?" e "Despedida de Goleiro", ambas publicadas em vários blogs e portais. 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

BERNARDO DE CARVALHO, O FUNDADOR DE BITOROCARA


O professor João Borges Caminha


BERNARDO DE CARVALHO, O FUNDADOR DE BITOROCARA (*)

João Borges Caminha (**)

Li o livro histórico-romântico-poético sobre o mestre-de-campo BERNARDO DE CARVALHO E AGUIAR, povoador e pacificador de civilizações e acerca de aspectos de nossa inesquecível Campo Maior, de autoria do já renomado escritor, José Elmar de Mélo Carvalho.

É de estilo atraente, fluente, escorreito, preciso e objetivo. Por isso, não foram numerosas as páginas dedicadas ao inexcedível biografado, oportunamente, nomeado para o lugar-tenente de Antônio da Cunha Souto Maior, por morte deste em 1708. Mas foi o bastante para coligir fontes bibliográficas suficientes à demonstração cabal dos fatos e feitos gloriosos atribuídos ao citado marechal-de-campo nestas longínquas e ermas plagas piauienses com relação à Coroa Portuguesa, na época de seu povoamento e independência.

Completo ao concluir que o famoso biografado foi um inexcedível libertador e protagonista das liberdades indígenas ou miscigenadas de todas as raças das terras de “Mafrense” e dos “Timbiras”. Por isso não lhe faria nenhum favor, a concessão em lápide, da comenda de libertador dos povos indígenas dessas paragens.

No trabalho, como em outros, de sua lavra, não olvidou em enaltecer, com sua verve, as belezas naturais e artificiais de nossa antiga BITOROCARA. Seja sobre o “Açude Grande”, porém “pequeno na paisagem...”. A Serra Grande de Campo Maior, da cor da terra, mas o autor pensava que de “longe era azul”, que, como o açude, também, não é tão grande assim. “A Catedral de Santo Antônio do Surubim”, como “uma escada em demanda do céu”. “O Rio Surubim, o Monumento aos Heróis da Batalha do Jenipapo, símbolo da coragem dos filhos da Terra dos Carnaubais. Elegia a Campo Maior” e outros escritos induzem o leitor a uma útil e agradável leitura.

Afinal, alegrei-me em saber que, profissionalmente, o insigne campomaiorense não é somente escritor, ex-servidor, magistrado prudente e competente, mas também, um grande jogador de futebol, na categoria de goleiro, conforme narrou o Professor José Francisco Marques em seu artigo cognominado “QUEM TE ENSINOU A VOAR?”, de ps. 47/48. Cujas proezas em defesa do time de casa deram-lhe fama e respeitabilidade.

Em I.B.G.E, ENCICLOPÉDIA DOS MUNICÍPIOS BRASILEIROS, XV VOLUME, edição de 31.01.1959, contendo 660 páginas, dedicadas a municípios maranhenses e piauienses, planejada e organizada por JURANDYR PIRES FERREIRA, presidente à época do I.B.G.E, sendo supervisor da edição DYRNO PIRES FERREIRA, superintendente do Serviço Gráfico, em minha rápida pesquisa, encontrei o registro de pouquíssimos feitos do mestre-de-campo, Bernardo de Carvalho e Aguiar.

Em Barras (PI), por exemplo, além de muitos outros dados históricos e geográficos, a Enciclopédia registra que seu principal fundador é o Coronel Miguel de Carvalho de Aguiar, filho de Bernardo, “natural do Estado da Bahia, quando deu início à construção da primeira capela, dedicada a N. S. da Conceição”, sendo o seu maior benfeitor o cidadão “José Carvalho de Almeida”.

No espaço de doze páginas consignado à cidade de Campo Maior, se não me equivoquei, infelizmente, nenhuma delas foi destinada ao fundador de Bitorocara. Contudo informa de sua ereção em fazendas do fidalgo português, D. Francisco da Cunha Castelo Branco (página 447).

São Miguel do Tapuio, com uma população de 18.867 habitantes e área de 5.220,513 km2, é hoje o mais extenso município dentre todos os que integram as Mesorregiões Norte, Centro-Norte, Sudeste e Sudoeste do Piauí. Com superfícies superiores à sua somente os municípios de Uruçuí, Baixa Grande do Ribeiro, Bom Jesus e Santa Filomena, todos situados no sul do Estado. Consta que primitivamente era a mesma fazenda DELICIOSA pertencente a Dona Rosaura Muniz Barreto, proprietária da sesmaria denominada Cabeço do Tapuia, da qual fazia parte, também, aquela fazenda, que por insistência de um genro seu, doou-a ao Arcanjo São Miguel, para constituição não só do patrimônio do seu orago, como para o de um núcleo comercial, cujo topônimo por força dos nomes do Santo devoto e da antiga tribo indígena foi mudado para São Miguel do Tapuio (p. 608).

Quanto ao município de São Bernardo (MA), a Enciclopédia deixa inteiramente in albis a contribuição prestada pelo Biografado à fundação daquele aglomerado humano. A contrario sensu, consigna que sua fundação se deveu aos jesuítas, auxiliados pelos índios Canelas da tribo Tupinambá, sendo São Bernardo o seu padroeiro e o padre Manoel de Almeida Brandão, seu primeiro vigário paroquial (p.328).

Finalmente, agradeço o notável escritor pela não expressa, mas subentendida menção do meu nome no rol dos intelectuais, Membros da Academia Campomaiorense de Artes e Letras, ainda que, apenas, cidadão bitorocarense. No mais siga em frente, para trás, nenhum milímetro.

(*) O vertente trabalho, da lavra do eminente historiador João Borges Caminha, demonstra o quanto Bernardo de Carvalho (“uma das mais gloriosas figuras de nossa História e o verdadeiro criador da unidade piauiense”, no dizer do Pe. Cláudio Melo) foi importante na História do Piauí e o quanto tem sido um grande injustiçado da historiografia piauiense (com honrosas exceções), inclusive pelas omissões da obra I.B.G.E, ENCICLOPÉDIA DOS MUNICÍPIOS BRASILEIROS, XV VOLUME, edição de 31.01.1959. Com a obra biográfica do padre Cláudio Melo (publicada em 1988), os seus feitos e o seu estofo moral começaram a emergir do esquecimento. (Nota de Elmar Carvalho)

(**) João Borges Caminha é historiador, escritor, advogado e professor aposentado da UFPI. Foi chefe da Assessoria Jurídica do Banco do Brasil no Piauí por muitos anos. (Nota de EC)

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Gênese de Emoção no Circo


Fonte das fotos: Google

Gênese de Emoção no Circo 

Elmar Carvalho

Neste sábado fui assistir ao espetáculo vespertino do Le Cirque Amar. Mais uma vez fui tomado de forte emoção ante uma apresentação circense. Anos atrás, aproximadamente em 1998, quando o João Miguel e a Elmara tinham 12 e 10 anos respectivamente, eu e a Fátima os levamos a um grande circo, também instalado nas proximidades do Teresina Shopping. Não tenho vergonha em confessar, por isso confessarei: nessas duas ocasiões, sobretudo na primeira, cheguei ao ponto de chorar, por motivo que abaixo explicarei.

Como já tive oportunidade de dizer, numa época em que os pais não tinham muita preocupação em conduzir os filhos a eventos culturais ou esportivos, ou mesmo de simples entretenimento, meu pai me levou, várias vezes, ao velho Cine Nazaré e ao Estádio Deusdete Melo, em Campo Maior.

No primeiro, vi a exibição de grandes películas do faroeste macarrônico e americano, e os épicos bíblicos e da mitologia greco-romana, em que apareciam Ringo, Django, Sartana, Medusa, Hércules, Moisés, Ben-Hur, Sansão e Dalila, Espártaco e Maciste, este uma espécie de versão italiana do semideus grego, além de Tarzan, estreladas pelos fortões e galãs da época, como Franco Nero, Marlon Brando, Kirk Douglas, Victor Mature e Johnny Weissmuller. O galã do bang-bang italiano era Giuliano Gemma. Gigliola Cinquetti e o ingênuo “Dio, come ti amo” fizeram muitas adolescentes verterem profusas e sentidas lágrimas, com direito a profundos soluços e palpitações. Na Semana Santa era projetado o filme Paixão de Cristo ou outro similar sobre a vida de Jesus, cujas velhas fitas de celuloide sempre davam um jeito de quebrar.

No Deusdete Melo assisti às acirradas disputas entre o alvirrubro Caiçara e o alviceleste Comercial. Ali presenciei desconcertantes dribles, no tempo em que esse estádio (não se usava o termo arena, hoje tanto em voga) mereceu o epíteto de alçapão dos carnaubais, porque esses dois times metiam medo nos times da capital. Vicentinho se excedia em suas esmeradas cobranças de faltas, com chutes fortes e certeiros.

Vi as espetaculares e, por vezes, espetaculosas defesas do goleiro Coló, em que ele parecia voar, levitar ou imitar os grandes trapezistas de circos. Beroso, mais contido, talvez por ser um tanto tímido, era mais objetivo, e não era afoito em dar saltos ornamentais, exceto quando necessários. Foram dois dos maiores arqueiros do Piauí. Caiçarino, eu “puxava” mais para o Coló, que procurava imitar em minhas ousadias goleirísticas, mormente em minha adolescência. O Zé Francisco Marques recordou essa minha esquecida faceta na crônica “Quem te ensinou a voar?”, publicada em livro e na internet (vide Google).

Mas, voltando ao tema inicial, fui algumas vezes a espetáculos de circos que aportavam em minha cidade, levado por meus pais, ainda jovens. Admirava os números de equilibristas, mágicos, malabaristas, acrobatas e trapezistas, e também as palhaçadas dos grandes clowns e comediantes de minha infância. O picadeiro se transformava em palco teatral, e também eram apresentadas peças dramáticas e comédias.  Ao segurar as mãos de meu pai e de minha mãe, parecia que nada me poderia atingir, nem doença, nem morte, nem tristeza e nem velhice. Agora que os perdi, e que já começo a descambar para a chamada terceira idade, sei que tudo não passava de uma doce ilusão. E eu fui o meu próprio mago e ilusionista. E hoje sei que os palhaços também sofrem e choram, como nos poemas de Heinrich Heine e Pe. Antônio Tomás.  

Foi num desses velhos circos mambembes, em que havia uma linda equilibrista e malabarista, de sinuosas paisagens e miragens, de maiô enfeitado de lantejoulas e outros adereços de brilhos e vidrilhos, que despertei para os mistérios e encantos de um perfeito corpo feminino. Foi, talvez, o meu mais remoto desabrochar de minha puberdade. Evocando o velho e excelso bardo Manuel Bandeira, poderia dizer que foi um verdadeiro alumbramento, como expresso no seu poema de igual título.

Quando levei meus filhos ao circo, me comovi com o esforço dos artistas, dando o melhor de si, na busca de agradar, e de nos contagiar com a magia circense; no esforço supremo de atingir o seu momento culminante de beleza, qual disse Martins Napoleão em versos sublimes.

Observei de perto o esforço da malabarista e acrobata, a girar os inúmeros bambolês prateados com os seus pés pequenos, voltados para o céu; vi suas jovens mãos espalmadas no picadeiro, como se não fizessem esforço, como se o corpo fosse uma pluma ou estivesse em levitação.

E, no entanto, bem sei como o seu belo corpo pesava, e como a lei da gravidade não tem as “brechas” das leis humanas, imperfeitas, injustas e casuísticas tantas vezes. Vi a coragem e perícia dos motociclistas no globo da morte, e torci para que esse número logo terminasse. E quando eu pensei que tudo terminara, eles ainda saltaram, cavalgando suas rugidoras máquinas, por cima do próprio globo. 


A magia do circo, com a presença dos meus filhos, quando ainda crianças, me fez recordar a lembrança de meu pai, surgindo das brumas do tempo de minha meninice, como se o tempo não tivesse passado; senti como se ele sentasse ao meu lado, e me tomasse a mão esquerda na sua destra. Foi dessa forma, da lembrança de minha infância e sob o impacto de forte comoção, que nasceu o meu poema Emoção no Circo (que segue transcrito abaixo).

EMOÇÃO NO CIRCO 

Elmar Carvalho

                         Para João Miguel e Elmara Cristina
                                                                              
Pelas mãos tenras
de meus filhos
a magia do circo me chegou.

Atropelado por emoção e saudade
meu coração foi atirado de
lado              a                         lado
pelas piruetas de
         capetas e palhaços
infiltrou-se nos malabares
e me trouxe meu pai e o circo
encantado de minha infância.

As lágrimas escorriam
e eram estrelas e vaga-lumes
que pingavam da cartola
ensopada de um mago...

A lembrança de meu pai
assomou da sombra do passado
suavemente sentou-se ao meu lado
tomou-me as mãos
as mãos de uma criança.