segunda-feira, 6 de junho de 2011

Centenário de nascimento de Afrânio Coutinho e algumas reflexões à parte


CUNHA E SILVA FILHO

Assisti, ontem, dia 30, a uma homenagem prestada a Afrânio Coutinho numa dos auditórios do Instituto de Letras da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro). Comemorava-se data do centenário do seu nascimento. O escritor e Membro da Academia Brasileira de Letras nasceu em Salvador, Bahia, em 1911 e faleceu no Rio de Janeiro em 2000.
Foi convidado pelo Departamento de Letras daquela universidade a fim de fazer uma palestra alusiva à data o filho do escritor, Eduardo de Faria Coutinho, professor titular PH.D de literatura comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
A apresentação do palestrante coube ao ensaísta e professor Roberto Acízelo de Souza, lecionando hoje na UERJ. Acízelo, segundo relatou no evento, foi aluno de Afrânio Coutinho décadas atrás.
Eduardo Coutinho, por sinal, conhecia de vista nos meados dos anos sessenta quando éramos alunos de graduação no curso de letras da conceituada Faculdade Nacional de Filosofia. Só depois, cheguei a conhecê-lo mais de perto. É pessoa educada e acatado ensaísta e pesquisador na sua área. Fez mestrado e doutorado em universidades americanas de renome. Por conseguinte, ninguém mais indicado para fazer uma exposição sobre o papel sobranceiro que seu dileto pai representou para os estudos literários universitários no país.
Na palestra que de improviso fez (embora tenha afirmado que havia preparado um texto) para um auditório lotado, Eduardo Coutinho revelou abalizado conhecimento da vida profissional do pai e ressaltou, pelo menos, três aspectos que justificariam o respeito e a admiração que gerações de estudantes de letras dispensavam a Afrânio Coutinho. Muitos desses ex-alunos se tornaram também, como o próprio filho, eminentes professores do nosso ensino superior.
O primeiro aspecto diz respeito ao pioneirismo da ação pedagógica exercida pelo critico, historiador literário e ensaísta Afrânio Coutinho ao divulgar, no meio acadêmico-universitário, o chamado new criticism, de procedência norte-americana logo que o crítico regressou ao país e retomou sua atividade docente. Sem dúvida alguma, a novidade de abordagem crítica repercutiu como divisor de águas entre o que os estudos literários eram até então e o que começaram a ser daí por diante.
Com seus estudos realizados na Universidade de Colúmbia, Nova Iorque, aproveitando sua permanência de 1942 a 1947, Afrânio Coutinho pôde entrar em contato com grandes mestres norte-americanos e europeus com os quais desenvolveu sólida formação teórica nos domínios da teoria literária, historiografia literária e crítica literária. Foi lá que conheceu o teórico René Wellek, Roman Jakobson. Com o primeiro fez amizade e manteve correspondência.
Coutinho, como diretor da Faculdade Letras da UFRJ, no final da década de sessenta e início de setenta, convidou, em diferentes oportunidades, aqueles dois scholars a proferirem conferências no auditório daquela faculdade quando ainda se localizava precariamente na Avenida Chile, Centro do Rio de Janeiro.
De posse dessa formação em bases atuais, de regresso ao país, Afrânio Coutinho procurou reestruturar o nosso ensino de literatura e métodos de análises e interpretação da obra literária hauridos nos Estados Unidos. Por certo encontrou vários obstáculos para que suas idéias se materializassem.
Afrânio Coutinho era formado em medicina, porém nunca exerceu efetivamente essa atividade, porquanto sua vocação, ainda quando estudante de medicina, o dirigia aos estudos literários e históricos, chegando mesmo a lecionar, em Salvador, no curso secundário, literatura e história Já em 1941 fora convidado a fazer parte do corpo docente da Faculdade de Filosofia da Bahia.
Sobretudo após a estadia na América, sua carreira docente deslanchou, pois, já em 1947, foi estabelecer-se no Rio de Janeiro quando o nomearam catedrático interino do Colégio Pedro II na disciplina literatura. Em 1951, faz concurso para catedrático efetivo de literatura daquela instituição de ensino defendendo a tese Aspectos da literatura barroca, estudo que lhe deu notoriedade e que, nos anos futuros, o tornaria um respeitado especialista, até mesmo no exterior como citação bibliográfica na conhecida obra Teoria da literatura de René Wellek e Austin Warren e na indispensável obra Teoria literária de Vítor Manuel de Aguiar e Silva.
Em 1951, ainda foi professor da Faculdade de Filosofia do Instituto Lafayette e nela fundou a cadeira de Teoria e Técnica Literária sendo pioneiro na implantação dessa disciplina no país.
Em 1958, prestou concurso para livre docente de literatura brasileira da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil que, depois, passou a denominar-se Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Com a livre docência, obteve o título de doutor em letras clássicas e vernáculas. Aposentando-se Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde) da cátedra de literatura brasileira da Faculdade Nacional de Filosofia, em 1963, Coutinho tornou-se professor catedrático interino daquela disciplina. Em 1965, Afrânio Coutinho foi aprovado em concurso para professor catedrático efetivo, preenchendo, assim, a vaga deixada por Alceu Amoroso Lima. Sua carreira de professor universitário estava agora consolidada só se interrompendo com a sua aposentadoria em 1980.
É preciso não esquecer que essa ação pedagógica visando a mudar práticas conservadoras no ensino de literatura e na crítica literária no país não se fez pacificamente. Coutinho ganhou desafetos notadamente no âmbito da crítica literária. Sua veemência revestida do propósito de divulgar os princípios e métodos do new criticism não deu trégua a seus opositores. Polemizou desabridamente com Álvaro Lins, conforme se pode ver da leitura do livro No hospital das letras (1963).
Entretanto, tanto Álvaro Lins quanto Afrânio Coutinho constituem duas personalidades de intelectuais que deram uma forte contribuição à cultura brasileira. Por terem formação intelectual diversa, embora fossem contemporâneos cronologicamente, infelizmente, exageraram e cometeram injustiças mútuas no desforço polêmico que só o tempo e o distanciamento poderão ser melhor compreendidos em seus papéis e nas suas respectivas visões crítico-teóricas. Álvaro Lins tipificou um modelo de crítico de formação humanística com um impressionismo original e de grande vocação para o julgamento de obras.
Por outro lado, Afrânio Coutinho representa a reação crítica ao mau impressionismo, sobretudo baseado no chamado “achismo” no julgamento de obras. O new critcism, sem desprezar completamente os aspectos subsidiários da obra, fundamentados no contexto histórico-social-biográfico, desloca a atenção do analista da obra para os seus elementos constituintes, de base supostamente científica, assentados no objeto da análise da obra, ou seja, na autonomia do texto literário que somente o conhecimento teórico pode propiciar ao crítico: a linguagem, o conhecimento interno de que se compõe uma obra, o exame de suas partes, sua visão da vida, suas técnicas suas estratégias, sua formalização em gêneros, suas especificidades estilísticas, ou como resumiria T.S. Elliot, a autonomia do fenômeno literário é o pilar primordial do entendimento da obra ( apud Martin Gray) Quer dizer, ao historicismo prevalente da crítica tradicional preferiu-se a close reading, na qual o texto seja visto como uma estrutura em que as partes formadoras de uma obra permaneçam num estado de “tensão de paradoxo”, ‘ironia” e “ambiguidade”, “palavras”, símbolos, “imagens” (Martins Gray, ibidem)
É bem verdade que, no caso de Álvaro Lins, com rigor, não poderíamos rotulá-lo de “impressionista”, mas de um crítico em permanente inquietação com novas aberturas e perspectivas de tratar o fenômeno literário., i.e., um critico arguto “...muito próximo do modo de ler dos franceses pelo gosto da análise psicológica e moral” (Alfredo Bosi).
Álvaro Lins não abomina o new criticism anglo-americano Ele se indispunha contra o exagero de alguns seguidores dessa corrente crítica, os quais passaram a dar uma sensação de que a obra literária seja um objeto que possa ser dissecado com frieza e excesso de cientificismo, meramente como uma abordagem mecanicista que afastasse o crítico, o professor de literatura, e o leitor do que, mais tarde, já no período pós-estruturalismo, alguns teóricos (à frente Todorov) chamariam de análise dissociada do “prazer da leitura”.
Afrânio Coutinho era homem de temperamento forte e combativo, mas capaz de atitudes reconhecidamente humanas e corajosas – sobretudo quando diretor da Faculdade de Letras nos anos difíceis da ditadura militar. Não poucas vezes lidando com agentes da repressão, sempre que possível, procurou proteger alunos ideologicamente adversários da ditadura implantada ao país.
O segundo aspecto digno de anotação na carreira de Afrânio Coutinho foi seu pertinaz trabalho de educador e de organizador da vida acadêmica universitária. Nesse ponto, seu esforço foi igualmente notável. Conseguiu desmembrar o curso de letras da Faculdade Nacional de Filosofia transformando-o em Faculdade de Letras da UFRJ, com a ajuda, conforme assinou Eduardo Coutinho na palestra, de professores como Celso Cunha, Thiers Martins Moreira e outros. Isso foi uma decisão nova e original no ensino de letras do Rio de Janeiro que provavelmente deve ter se alastrado por outras regiões do país. Em suas muitas viagens ao exterior ( Estados Unidos, Alemanha e França), países nos quais também foi professor visitante, Afrânio Coutinho examinou minuciosamente as estruturas burocráticas e curriculares de cursos de humanidades que resultaram na formação de Faculdade de Letras naqueles lugares visitados. Daí, pois, aquele desejo de aqui implantar uma faculdade de letras.
Claro é que nessa mudança burocrático-administrativa muita coisa deixou, no inicio, a desejar, sobretudo na infraestrutura parte burocrática, como, por exemplo, a questão da implantação de créditos, os períodos de inscrição nos cursos que, por vezes, prejudicavam a vida acadêmica de alunos que não dispunham de horário integral para fazer o curso, atrasando-os no itens cruciais que são a conclusão dos créditos para a obtenção dos diplomas de bacharelado e licenciatura.
Contudo, no plano pedagógico, como diretor da Faculdade de Letras, o professor Afrânio Coutinho revelou-se sempre dinâmico e progressista, compensando, desse modo, deficiências pontuais de natureza burocrática.. Exemplo disso foi a criação dos cursos de pós-graduação (mestrado e doutorado, os quais obrigavam,, pela necessidade de sua continuidade e aperfeiçoamento, os próprios professores da Faculdade de Letras, que ainda não tinham mestrado pelo menos, a fazerem o mestrado e doutorado, ou mesmo, em alguns casos, a procurarem realizar tais cursos no exterior. Com os anos, os cursos de pós-graduação stricto sensu, coordenados por ele, se tornaram um centro de alta qualidade no país. Realizações como essas só dignificam a trajetória bem-sucedida de Afrânio Coutinho na vida acadêmica brasileira, em especial no âmbito dos estudos e ensino de literatura. Finalmente, foi também de sua iniciativa a criação da Biblioteca a Faculdade de Letras, considerada hoje a melhor de que o Rio de Janeiro dispõe na área de humanidades.
Seu dinamismo intelectual também se refletiu no plano pessoal, como é exemplo a dedicação e amor aos livros (segundo seu filho, era um leitor voraz), reunindo, ao longo da vida, uma quantidade assombrosa de obras, de documentos, de arquivos, pastas, manuscritos que ia adquirindo e que se transformou numa das mais preciosas bibliotecas particulares. Foi dessa biblioteca, de seu valioso acervo, que fundou a sua Oficina Literária Afrânio Coutinho (OLAC), espaço cultural destinado a uma multiplicidade de eventos culturais, com maior ênfase para a divulgação e conhecimento da literatura brasileira. Com a sua morte, em 2000, a biblioteca pessoa do escritor foi vendida e incorporada à Biblioteca da Faculdade de Letras da UFRJ. Nada mais justo que o fundador da Faculdade de Letras, pelo menos no plano material, se juntasse ao seu espaço de direito e de fato.
O terceiro aspecto da vida desse crítico e educador está fortemente conexionado com a sua produção literária e às suas iniciativas de poder legar à posteridade relevantes realizações no campo editorial. Foi ele quem dirigiu, orientou e planejou a ambiciosa obra Literatura no Brasil, em seis volumes (1968-1971), trabalho empreendido por uma equipe de especialistas de diversas orientações críticas, precedido cada volume de uma introdução do organizador. Essas várias introduções lhe renderam uma das melhores obras de sua produção intelectual, que é a Introdução à literatura brasileira, já traduzida para o inglês e o espanhol. Sobressai nesta obra a riqueza da bibliografia criteriosamente selecionada pelo autor, bibliografia abrangente, atualizada e fonte de consulta obrigatória para o estudioso de letras.De sua produção ressaltaria a obra A tradição afortunada, os seus estudos do Barroco, a Coleção Fortuna Crítica por ele dirigida e editada pela Civilização Brasileira, reunindo importantes textos críticos escritos por grandes nomes da literatura brasileira, além de incluir introdução ao volume, cronologia da vida e obra do autor selecionado e bibliografia ativa e passiva. Mencionaria ainda a sua prestimosa e utilíssima Enciclopédia de literatura brasileira, em 2 volumes (2001)

Sua atividade de crítico militante e combativo na imprensa (Diário de Notícias, Última hora, em livros e revistas especializadas foi fecunda e incessante. Seus diversos ensaios críticos merecem ainda ser lidos e pesquisados por estudiosos da literatura brasileira e, last but not least, seus criteriosos trabalhos de organizador de edições críticas de diversos escritores brasileiros do passado que, com suas judiciosas introduções, compõem um retrato intelectual desse escritor que, durante toda a existência, se empenhou, de corpo e alma, na defesa dos valores estéticos da produção literária brasileira, de um ensino atualizado e da profissão e valorização do professor brasileiro em todos os níveis.Seu centenário de nascimento é digno de comemoração e sua obra está ainda a merecer justificada atenção da intelectualidade brasileira.

Referências:

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 38 ed. Cultrix: São Paulo, 2001, p. 491-492
GRAY, Martin. A dictionary of literary terms. Second Edition, 3rd impression, 1994,. Longman York Press, p. 195-196.
LINS, Álvaro. Teoria literária. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1970, p. 119-150.

sábado, 4 de junho de 2011

ANTOLOGIA DO NETTO

TEXTO E CHARGE: JOÃO DE DEUS NETTO



JÚLIO ROMÃO DA SILVA

Júlio Romão da Silva nasceu em Teresina em 22/05/1917. É jornalista, poeta, etnólogo, teatrólogo, bacharel em Letras, em História e Geografia. Publicou: “Evolução do Estudo das Línguas Indígenas do Brasil, entre outros. No teatro: “José, o Vidente ou as Videiras do Faraó” – Prêmio Academia Brasileira de Letras.

DALILÍADA - épico moderno baseado na vida e na obra de Dalí

Elmar Carvalho


XXXV

Nos justapostos cubos suspensos
em forma de cruz, um Cristo
dolorido retorcido pelos séculos
ainda sente as mesmas dores
dos cravos, da lança e da maldade
humanamente desumana.
Uma Madona solitária contempla
triste rainha em xeque –
mate no chão de xadrez
a agonia do “corpus hipercubicus”.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

A LIBERDADE SONHADA


ALCIONE PESSOA LIMA

Por anos tendi a me tornar semelhante aos meus pais.
Mas, de olhos abertos, esforço-me por alcançar a espécie de grandeza da felicidade que me é própria.
Passei a me definir em todo esse emaranhado em que se revela o mundo.
E adentro a portas diferentes...
Há sorrisos e lágrimas, como de um mortal.
Descubro um caminho a cada dia
Cheio de temores e de esperanças.
Uma realidade tão óbvia.
Sinto os perigos que são possíveis conjurar.
Há mãos que me afastam de grandes males e outras que apenas observam o meu caminhar.
Sou fruto de muitos acontecimentos: raça, solo e clima.
Mesmo preso a um ciclo fatal,
Percebo asas querendo sobrevoar os vastos limites.
Há algo de poderoso em mim!
E a servidão que abandono é a ponte para alcançar toda a liberdade que almejo.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

Anita não perdoa, morde

Belinha, paz e amor

2 de junho

ANITA ATACA NOVAMENTE

Elmar Carvalho

Continuando a ler os diários titulados Cadernos de Lanzarote, de José Saramago, cujo exemplar me foi emprestado pelo professor Manoel Paulo Nunes, na anotação referente ao dia 10 de fevereiro de 1995, li interessante trecho, que faço questão de transcrever literalmente: “Vá lá uma pessoa entender os cães. Desde que apareceu aqui a cadela Rubia (mudamos-lhe o nome, este é o que lhe vai bem à figura), Greta, por ciúme, despeito ou descabida inveja, declarou-lhe guerra total. Os escarcéus que as duas têm levantado nesta casa, só vistos e ouvidos. Por vontade de Rubia, discreta e tranquila, haveria paz, mas Greta não lhe deu, em todo este tempo, um minuto de descanso. Ladrava-lhe de manhã à noite, focinho contra focinho, irritada porque a outra se deitava, irritada porque se chegava a nós, irritada porque fazíamos festas, irritada porque lhe púnhamos comida. Já dizíamos: 'Isto não pode continuar, a ver se alguém quer ficar com a Rubia', o que seria a maior das injustiças, uma vez que a malcomportada era a outra – e eis que hoje de manhã viemos dar com as duas na mais bela brincadeira que imaginar se pode, qual de baixo, qual de cima, fervorosamente empenhadas num jogo que só elas devem conhecer. Agora mesmo, enquanto escrevo, aqui estão as duas, a rolar, caladas e felpudas, sobre os tapetes, felizes, apressadas, insistentes, como se quisessem recuperar o tempo que haviam perdido em vãs querelas. Um conflito que tinha visos de vir a terminar com a morte ou o afastamento de uma das contendoras, está resolvido. Não sei como. Que conversas terão tido estas duas a noite passada, enquanto a casa dormia? Se perguntasse a Pepe o que pensa ele do caso, sendo cão também ele, estou certo que me responderia: 'Eu sou homem, de mulheres não percebo nada...'”

Agora, remeto o leitor mais curioso a meu registro deste diário relativo ao dia 17 do corrente mês, em que falo dos temperamentos díspares de nossas cadelas Anita e Belinha. A primeira veio morar conosco há mais tempo, quando ainda era bebê, ao passo que a segunda veio mais tarde, e já adulta, de sorte que a primeira sempre teve ciúme da outra e nunca a aceitou de bom grado. A situação piorou recentemente, quando a Pantica foi embora, e a Belinha passou a dormir no mesmo quarto em que dorme a Anita. Como expliquei na referida anotação, a Belinha é mansa, tímida, humilde, pratica a política da boa vizinhança e da resistência pacífica, evitando os confrontos e até mesmo fugindo, quando possível, dos enfrentamentos físicos. Hoje, após o almoço, trouxe a pequenina Anita para o meu quarto, nos braços, uma vez que ela, envelhecida e já um tanto gordinha, não mais consegue subir a escada.

Quando ela ouviu os passos da Fátima a subir os degraus, postou-se à porta, como se estivesse à espreita ou de tocaia. No momento em que sua desafeta passou pelo umbral, avançou contra ela, e a atacou com vontade, tendo a outra que se defender. Minha mulher interveio, levantando a Belinha. Porém, a fúria da Anita era de tal monta que pulou e mordeu a parte traseira da rival, ficando com a boca cheia do pelo arrancado da adversária. Portanto, enquanto as cadelas do Saramago terminaram se apaziguando, a rolarem ludicamente no chão, como velhas amigas, a Anita parece ter feito voto de ódio eterno a sua semelhante, o que me faz lembrar o título de um filme de faroeste, do meu tempo de garoto: “Django não perdoa, mata”, estrelado por Franco Nero. Penso até, como uma espécie de homenagem à rainha do cangaço, em mudar o nome de Anita para Maria Bonita, que seria muito apropriado uma vez que ela é bonita e “braba pra cachorro”, no caso, cachorra. Pensando bem, na verdade o seu nome é muito adequado, porquanto Anita foi uma mulher corajosa, de fibra, na qualidade de companheira de Garibaldi, herói gaúcho e italiano.   

PARNAÍBA - 300 ANOS DE HISTÓRIA


Programação Alusiva aos 300 Anos de História da Parnaíba
Dia 06/06 : Segunda-feira às 08 h
Local : Ermida de Nossa Senhora de Monserrathe
- Abertura das Festividades com Instalação do Memorial “ Parnaíba 300 Anos”
- Apresentação da Banda de Música Municipal Simplício Dias
Outros Locais : Visitações à sede do IHGGP , e ao Memorial Humberto de Campos, na sede da Academia Parnaibana de Letras (APAL) .
Dias 09/06 : Quinta-feira - Auditório da Associação Comercial de Parnaíba
Local : Porto das Barcas
Horário: 08h30min
- Solenidade alusiva aos 300 anos de história da Parnaíba
- Lançamento de livros de autores parnaibanos
- Lançamento do concurso de redação ¨Parnaíba 300 anos”
- Premiação do vencedor da logomarca ¨Parnaíba 300 anos ”
- Exposição de Artes Plásticas com artistas da terra
- Abertura da Feira Cultural.
Horário: 10h30min
- Abertura do Fórum ¨Parnaíba 300 Anos de História¨
- Apresentações culturais.
Horário : 14 h
- Continuação do Fórum ¨Parnaíba 300 Anos de História¨
- Apresentações Culturais com artistas da terra.
Horário: 19 h
- Feira Cultural
- Show com artistas da terra
- Desfile de Modas
- Exposição de Artes, Artesanato e Culinária Regional.
Dia 10/06 : Sexta-feira
08h30min
Local : Auditório da Associação Comercial de Parnaíba
- Continuação do Fórum ¨Parnaíba 300 Anos de História¨
- Apresentação Cultural;
- Atendimento à população com serviços comunitários
- Continuação da Feira Cultural no Porto das Barcas.
14h30min
- Continuação do Fórum ¨Parnaíba 300 Anos de História¨
- Apresentação Cultural
17h - Monumento da Independência no Piauí – Praça da Graça
- Apresentação da peça teatral “ Auto da Independência do Piauí “ .
18h - Sede do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba
- Sarau (música, teatro, dança, culinária e poesia)
18h - Porto das Barcas
- Continuação da Feira Cultural ¨Parnaíba 300 anos¨ e show com artistas parnaibanos.
19h - Auditório da UFPI
- Apresentação do 1º Censo de Cultura da Parnaíba.
Dia 11/06 : Sábado
06h - Alvorada com fogos de artifícios em diversos bairros
07h30min - Catedral de Nossa Senhora da Graça: Praça da Graça
- Tedeum Laudamus
08:00 h, Praça da Graça, em frente à Câmara Municipal
- Hasteamento das Bandeiras
08:15 h - Desfile militar em alusão aos ¨ 300 Anos de Parnaíba ¨;
08:45 h - Procissão de Nossa Senhora de Monserrathe, saindo da Matriz de Nossa Senhora da Graça, até a Ermida de Nossa Senhora de Monserrathe, onde a imagem da primeira Padroeira da Parnaíba será entronizada.
09:30 h -Auditório da Associação Comercial de Parnaíba
- Sessão Solene da Câmara Municipal para outorga de comendas
- Lançamento da 4ª edição da Revista Histórica do IHGGP.
- Apresentação da Banda Municipal “Simplício Dias” .
16:30 h – Av. Dr. João Silva Filho (Após Conjunto Betânia)
- Largadas do Passeio Ciclístico “Parnaíba 300 Anos”, e da “Corrida de Rua da Parnaíba 300 anos” , com saídas da Av. Dr. João Silva Filho, na confluência dos Bairros Piauí, Planalto Conselheiro Alberto Silva, e Planalto Monserrathe , com chegadas ao Porto das Barcas .
19:00 h - Porto das Barcas
- Continuação da Feira Cultural ¨Parnaíba 300 anos¨ , e show com artistas parnaibanos
- Entrega das premiações aos vencedores da corrida de rua e sorteios de brindes aos participantes do passeio ciclístico.
Dia 12/06 - Porto das Barcas
08:00 h- Concentração para roteiro dirigido de visitas a pontos históricos e culturais da Parnaíba, entre eles , Ermida de Nossa Senhora do Monserrathe, Instituto Histórico,Solar dos Dias da Silva, Academia Parnaibana de Letras, Museu do Trem, Estação de Floriópolis, e Testa Branca.
Phb, junho/2011.


quarta-feira, 1 de junho de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO


1º de junho

FÉRIAS E PERIPÉCIAS CULTURAIS

Elmar Carvalho

Neste meu primeiro dia de férias, saí para resolver algumas coisas. Passei inicialmente no Tribunal de Justiça, para solucionar duas pendências funcionais, onde terminei encontrando o doutor Márcio Mendes de Cerqueira, sempre educado e afável, e que tem invariavelmente uma piada novinha em folha para nos contar. Lembrou-se ele de que no início de minha carreira, quando da inauguração da reforma do prédio do fórum de Oeiras, na gestão do desembargador José Luís Martins de Carvalho, assistira à encenação de meu poema Noturno de Oeiras, feita pelo ator Bonifácio, e que se emocionara com a performance.

Por associação de ideias, lembrou-se de que o espaço aberto, existente no anexo do TJ, construído na gestão do des. Luiz Gonzaga Brandão de Carvalho, poderia ser utilizado em apresentação cultural. Recordei-lhe que nesse “pináculo” do templo a cantora Fátima Castelo Branco já realizara um sarau, em que fomos homenageados este diarista e o des. Albuquerque. Foi um belo e memorável evento lítero-musical. Ia contar-lhe uma piada, mas o Márcio disse que seu pai, o des. Manfredi Mendes de Cerqueira, igualmente sempre bem humorado, já a contara. Portanto, indiretamente, eu já lhe contara a anedota. Sendo ele de família piracuruquense, disse-lhe que havia escrito um texto sobre o saudoso general João Evangelista Mendes da Rocha, seu parente, herói da guerra contra o nazifascismo, no qual eu reivindicava fosse esse militar e escritor homenageado em sua terra natal, que injustamente não lhe reverencia a memória. O Márcio argumentou que eu deveria dar uma palestra sobre esse ilustre patriota, e ficou de falar com seu pai a esse respeito.

A seguir, fui ao gabinete do des. Brandão de Carvalho, presidente da Academia de Letras da Magistratura, de que faço parte, para apresentar-lhe uma sugestão. Após relembrar-lhe que o prédio anexo do TJ fora construído em sua profícua gestão, disse-lhe que o espaço aberto situado em seu topo poderia ser usado em eventos culturais promovidos pela Academia, e sugeri-lhe a realização, bimestral ou trimestralmente, em noite de lua cheia, de sarau lítero-musical. O desembargador pediu-me que eu fizesse a sugestão por escrito, para que ele a submetesse à apreciação dos acadêmicos. No arremete, brincando, eu lhe adverti que o único risco que corríamos era o de que algum confrade pudesse ser lobisomem, que viesse a se revelar no plenilúnio.

Por fim, fui à agência da Caixa Econômica Federal do shopping Riverside, pagar umas dívidas e cumprir uma promessa, que também é dívida. Dirigi-me ao Roosevelt, meu conterrâneo, dinâmico e carismático gerente da unidade. Disse-lhe que vinha pagar a promessa que lhe havia feito, que consistia em dar um exemplar do livro Noturno de Oeiras e outras evocações a uma funcionária oeirense e um do opúsculo |PoeMitos da Parnaíba a um servidor natural de Parnaíba. Roosevelt me falou brevemente de suas realizações e inovações na agência, de seu diálogo constante com os servidores, na busca de melhorar e dinamizar os serviços. Falou-me que era um visitante de meu blog, e aproveitou para divulgá-lo perante umas pessoas que se encontravam presentes.

Mandou chamar os dois servidores a quem eu iria autografar os livros, que eram a Francineide e o Edgard Júnior. A Francineide me falou que sua irmã participara do lançamento de meu livro em Oeiras, na qualidade de aluna do IBENS – Instituto Barros de Ensino, e que na agência havia uma outra servidora oeirense, que era homônima, sobrinha e afilhada de Celina [Vieira Martins], regente da Orquestra de Bandolins de Oeiras. Pedi-lhe chamasse a colega, porquanto no texto Minha Geografia Oeirense eu homenageara a maviosa orquestra e sua maestrina. Foi uma verdadeira solenidade cultural relâmpago, feita ao sabor das circunstâncias e do improviso. Para coroar tudo, paguei minhas contas e me fui embora contente e satisfeito. 

terça-feira, 31 de maio de 2011

Não está chovendo lá fora


CUNHA E SILVA FILHO


Olho da janela do meu edifício e lá está o sol límpido de final de maio me convidando pra uma caminhada. Talvez eu siga a tentação da luz solar que me arrasta pelo pensamento a sair de casa. Gosto de casa tanto quanto gosto da rua. Só que em casa há o conforto, a proteção, o aparente abrigo de quem se imagina seguro. Nada, porém, é seguro neste mundo, pelo menos quando se pensa naquilo tudo que nos cerca vindo da rua, da cidade, do país, do mundo. As vozes são múltiplas e dissonantes. Não há harmonia nesse ruído polifônico.
No interior de casa volto à janela. Penso novamente em descer o elevador e ganhar a rua. Procurando a rua, estarei procurando algum sentido do viver. Dobro a esquina da minha rua e desço uma longa rua que vai dar numa via principal da Tijuca, a São Francisco Xavier. O importante foi que me decidi a sair e a espairecer, encher os pulmões de ar puro e continuar podendo ver o céu aberto de um azul claro matizado, aqui e ali, de nuvens mais claras.
À medida que continuo caminhando com aquele prazer de Jean- Jacques Rousseau (1712-1778) contado em página antológica de um livro didático de Marcel Debrot, penso em quantos livros ainda não li por preguiça ou por falta de ânimo. Eles estão esperando que a minha mão os alcance e os devore com o sabor dos bons vinhos e de deliciosos manjares. São muitos. Alguns são de autores piauienses que trouxe da minha mais recente viagem a Teresina. Estão separados no alto de uma das minhas estantes. Lá estão eles mudos convidando-me a penetrar nos seus segredos, conflitos, dores e alegrias, ou na simples transmissão de sabedoria e de conhecimento erudito. Gosto muito dos livros, mas não sou um leitor compulsivo como o meu amigo M. Paulo Nunes. Leio-os compassadamente. Alguns por necessidade, por mera sede de conhecimento; outros, por vontade mesmo de ler atraído por um motivo ou outro; outros, porque não os havia ainda lido posto que tivesse sido minha obrigação. Leio-os devagar.
Uma falecida professora minha do mestrado me recomendou que lesse com mais pressa - mas como? -, se meu ritmo é o lento, o pausado. Por outro lado, costumo ler mais de um livro ao mesmo tempo. Agora mesmo, recebi um livro de ficção de José Ribamar Garcia, Filhos da mãe gentil(2011) ainda não lançado, publicado pela mesma editora, a Litteris, que há muito vem editando as obras do autor.É seu décimo livro no campo da literatura. O título é bem sugestivo e cataforicamente fala em parte pelo que a obra possa revelar.
Prometo a mim que darei conta dessa safra de livros de autores piauienses de que falei atrás. É que são tantas as ocupações do dia-a-dia que um esforço maior tenho que fazer pra superá-las.
Continuo na minha caminhada. Ouço, ao passar pela entrada do Colégio Militar, o toque forte da campainha indicando término de uma aula pra outra. Lá me vejo lecionando diante de uma turma meio inquieta. Início de aula. Entro, cumprimento os alunos em inglês e, seguindo o ritual do colégio, peço a um aluno que me faça a apresentação (em inglês) da turma. Em seguida, no alto do quadro, canto esquerdo, vou escrevendo mais uma provérbio da língua inglesa, que uso como gancho para uma breve discussão do seu conteúdo com meus alunos. Dizem alguns que provérbios não expressam verdades ou lições. Discordo. Vejo que eles têm muitas lições de relevo a nos transmitir. Meus alunos, quando eu esquecia de colocar um provérbio no início da aula, me cobravam: “What about the proverb, teacher ?”
Meus passos, firmes, me levam a percorrer todo o muro da frente do Colégio naquela calçada velha e sob a sombra dadivosa das árvores. Deixo o muro pra trás. Dobro a rua e prossigo por outra bem arborizada e de construções meio antigas, algumas belas e acolhedoras. Uns raios solares penetram nas pequenas brechas das copas das árvores e me atingem uma das faces. Mais adiante, dou com uma pracinha onde crianças brincam, sob os olhares vigilantes das mães, avós ou babás. Cumprimento um dos vigias da rua. Vou em frente.
A caminhada equivale a uma quadrado meio irregular, com sinuosidades no alinhamento de uma das ruas interrompido por um pequeno largo que vai dar continuidade a uma rua de nome diferente, rua cheia de casas velhas algumas possivelmente da metade dos anos cinquenta do século passado. As casas não são bonitas, estão maltratadas com algumas exceções, e estas por serem construções mais novas e ainda bem cuidadas.
No final da rua arborizada, volto pra rua Barão de Mesquita. O sol, embora já mais quente (já é meio-dia e meia) é refrescado por uma leve brisa. Sinto, aí, quanto é bom o sol, quanto bem nos faz quando a temperatura está amena como nesta manhã benfazeja.
Volto bem melhor e é bem provável que vá buscar no alto de uma estante um livro que me complete o dia e os sonhos. Não sei se é o melhor dos livros, mas é um livro.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS



TRAIÇÃO EM DOSE DUPLA

ELMAR CARVALHO



O empresário Cristino Mapurunga, dono da maior revenda de carros de Fortaleza, além de outras empresas do grupo que levava o seu sobrenome, era exigente, severo nas punições e não admitia o que considerava traição ou infidelidade de seus empregados. Era reservado, discreto, um tanto frio, e não deixava transparecer seus sentimentos e emoções. Mesmo quando repreendia algum empregado, não alterava seu tom de voz, conquanto as palavras pudessem ser ferinas e humilhantes. Porém sabia promover e incentivar os que, como ele dizia, “vestiam a camisa da empresa”.

Seu superintendente e homem de confiança era Geraldo Dias Carneiro, seu amigo desde os tempos juvenis e colega no curso de Administração de Empresas. Por coincidência, Geraldo fazia aniversário três dias antes de sua mulher, de sorte que Cristino comprou dois telefones celulares de última geração ou top de linha, do mesmo modelo, que mostravam na tela a pessoa com quem se falava, além de terem várias outras funções, que não vem ao caso especificar. Chamou Geraldo à sala da presidência, pelo interfone, e lhe deu o mimo. Fez-lhe várias recomendações e anunciou que iria a São Paulo, a negócio.

O superintendente, para lhe demonstrar alegria, foi logo mudando o chipe de seu velho celular para o novo, e o inaugurou telefonando, claro, para o patrão. Viu a imagem do chefe na tela, a lhe responder, e lhe exibiu o visor para que ele se visse. Ao chegar em casa, Cristino entregou o presente para a mulher, e lhe ensinou a usar o aparelho, nas funções mais básicas. Informou-lhe que iria viajar a negócio, mas que na quinta-feira já estaria de volta, para a comemoração de seu aniversário.

Na quinta-feira, conforme dissera, Cristino já estava de volta a Fortaleza, ainda na parte da manhã. Quando chegou a sua residência, perto das sete horas, sua mulher ainda estava a dormir. Marta não trabalhava, e sua única preocupação era cuidar da decoração da casa, comprar roupas e calçados, e malhar, para manter o seu belo e jovem corpo em forma. O empresário resolveu passar a manhã em casa, a pretexto de descansar do enfado que dizia estar sentindo. Mas às 14 horas seguiu com seu motorista para a sede de seu grupo empresarial.

Logo ao chegar, interfonou para Geraldo. Este ficou certo de que o seu patrão e amigo ia contar-lhe as novidades da viagem e lhe dar instruções sobre os negócios que fizera. Após os cumprimentos, sentou-se na cadeira de costume, perto da grande mesa do empresário. Este abriu sua pasta de couro, e disse que ia lhe fazer uma surpresa. Numa rapidez impressionante, Cristino desfechou três balaços contra o coração de Geraldo. A morte foi instantânea. O revólver tinha silenciador e ninguém ouviu nenhum barulho, até porque Cristino dissera à secretária que desejava conversar a sós com o homem de sua confiança, sem interrupção. O empresário ligou para o chefe de sua assessoria jurídica. Quando o advogado Celso Furtado Coelho chegou, expôs-lhe a tragédia, e disse que desejava seguir com ele para se apresentar ao delegado do distrito, e assim evitar a prisão em flagrante.

Relatou à autoridade policial como praticara o delito e por que o fizera. Disse que desconfiava de que sua mulher o estava traindo, por causa de um telefonema anônimo que recebera. Disse que fora acostumado a não aceitar traições, sobretudo das pessoas que lhe eram mais próximas. Por essa razão, para ter a certeza e a prova, comprara dois telefones celulares, nos quais mandara colocar um programa especial de gravação de telefonemas, tanto da imagem como da voz. Disse que ficara chocado com o que vira e ouvira no telefone de sua mulher e no de seu amante.

No dela, ao verificar o que fora gravado, assistira o amante dizer frases de forte conteúdo erótico e, em descarado exibicionismo, ostentar o membro sexual em estado de ereção, enquanto os dois combinavam o horário e o local do encontro. No telefone do amante, ouvira Marta dizer frases lascivas, despudoradas, enquanto acariciava a genitália, simulando uma masturbação. Como prova cabal do que dissera, entregou ao delegado os dois telefones; o de Marta, sua mulher, que pegara ao sair para o trabalho, e o de Geraldo Dias Carneiro, seu empregado de confiança, que retirara do bolso de sua camisa manchada de sangue. Achou por bem não contar ao delegado que já passara essas gravações para o seu computador, antes de vir apresentar-se. Ficara louco, transtornado, e por isso matara o seu melhor amigo. O delegado tomou sua confissão por termo, que naturalmente seria usada como atenuante pela defesa. Ainda pensou em perguntar porque ele optara em matar o amigo, e não a mulher, que poderia continuar a ser infiel, mas por causa do abominável politicamente correto resolveu recolher a sua curiosidade.

O que Cristino Mapurunga não revelou, e jamais revelaria, é que ele poderia até perdoar a traição da mulher, que era uma fútil, e que já não lhe despertava mais nem a libido nem a paixão, e muito menos o amor, mas jamais poderia perdoar a traição de seu amigo e amante, a quem cobria de dinheiro e carinho na alcova luxuosa do apartamento em que se enclausuravam. Não podia admitir que tudo não passara de mentira, dissimulações e talvez asco disfarçado por parte do homem a quem matara.

domingo, 29 de maio de 2011

REPAGINANDO JÁ ESTÁ NAS BANCAS



B. SILVA

Quem quiser conhecer a verdadeira história da queima dos tapumes da Praça da Graça, nos idos de 1978, é só adquirir a Revista Repaginando que já está nas bancas da cidade.
Claro, fiquei por demais lisonjeado pelo fato de rever fotos minhas, aos 22 anos de idade, e alguns artigos publicados por mim, àquela época, no Jornal Inovação.
Vale à pena ver também e ler um pouco do que foi o Bar Recanto da Saudade(bar do Augusto)na antiga Munguba.
A revista tem como editor Reginaldo Costa, fundador do Inovação.
Na foto, um time de primeira, no Bar do Augusto. Dentre eles:Bernardo Silva, Elmar Carvalho, Reginaldo Costa, Canindé Correia, Flamarion Mesquita,Vicente Potência, Danilo Melo,Wilton Porto, Jonas Fontenele, Paulo Martins, Isarael Correia e o próprio Augusto.

sábado, 28 de maio de 2011

Cumé mermo, mermão?


JOSÉ MARIA VASCONCELOS


         
O livro de Português da autora Heloísa Ramos, “Por Uma Vida Melhor”, em que defende o português peba como inserção social, lançado, há pouco com as bênçãos do Ministério da Educação, constitui a anulação do estudo, cultivo, honra e soberania nacional do nosso idioma. Não quero afirmar que a linguagem popular tem a ver com falta de honra e soberania. O português de Luís Gonzaga é digno da literatura popular. Cada qual em seu lugar. Em toda cultura, a educação é a busca da perfeição, condicionada ao aprendizado de regras. Até a comidinha caseira torna-se palatável e elogiável, se preparada com temperos e técnicas adequadas. Feliz quem se habilita à arte do bem cozinhar, do bem escrever, falar, construir, pintar, arquitetar, prosperar, ajuizar, liderar, chefiar, enfim viver harmoniacamente em sociedade.  


        
A política de esquerda, fecundada nas brenhas urbanas da miséria e cultura apostilesca e marxista, em vez de evoluir, enquanto está no governo, vive a preservar índio na sua nudez como peça de museu e a defender ignorância como valor cultural, com embromações mixurucas para “uma vida melhor”.


       
O maior mérito dessa autora é alcançar notoriedade pela imbecilidade. E um recheio na conta bancária. Como tantos outros que, antes na lama da miséria, hoje tapeiam os cidadãos com desvios de conduta e malandragem. 


         
Transcrevo o texto do jornalista Reinaldo de Azevedo:



Falar errado para não ficar com fama de bicha!
Há pouco, dona Heloísa Ramos, a autora do livro “Por Uma Vida Melhor” — que não é de aconselhamento matrimonial, mas de língua portuguesa — concedia uma entrevista à rádio CBN. Tio Rei é ligadão, hehe… Sempre com um olho no peixe e outro no gato. Disse coisas espantosas, assustadoras mesmo. Tentando justificar as barbaridades contidas em seu livro — entre elas, afirma que o estudante deve dominar as normas culta e inculta da língua e escolher a mais adequada; logo, o erro pode ser melhor do que o acerto a depender do caso —, disse que, muitas vezes, existe um preconceito sexista contra a norma. E citou caso de estudantes que lhe teriam confessado que, caso falem corretamente nas comunidades onde moram, ficarão com fama de “homoafetivos” — ou “veados”, como se diria nessas áreas preconceituosas…


Ah, bom! Então agora entendo melhor o propósito da dona. Eu até havia escrito, com alguma ironia, que o combate de seu livro à norma culta era o correspondente lingüístico ao combate à heteronormatividade. Mas vejo agora que é o contrário! O livro “Por Uma vida Melhor”, na verdade, busca deixar mais confortáveis os jovens heterossexuais. Assim, a heterodoxia gramatical de Heloísa Ramos daria um suporte acadêmico para a heteronormatividade, e a gramática é que estaria, assim, mais próxima da coisa homoafetiva, pelo menos nas tais comunidades populares, né?


No Globo Online, Heloísa teve um chilique. Reclamou que todo mundo dá pitaco em educação. Afirmou que isso é coisa para especialistas… Ah, bom!  A autora fica macaqueando a suposta língua do povo para demonstrar o respeito que teria pela cultura e pela verdade populares, mas, quando contestada, sobe na torre de marfim e grita: “Não me toquem! Eu sou especialista!”.


Conhece, professora Heloísa, a expressão bem popular “Uma Ova!”? Então… Uma ova! Vai ter de se explicar, sim! Eu continuo esperando que a valente me diga em que situação o erro é mais adequado do que o acerto. Seu livro sustenta essa possibilidade. Segundo a entrevista que ela concedeu à CBN, só há uma: cumpre falar errado para não ficar com fama de bicha!


Não é impressionante que a gente tenha de debater uma questão como essa no Brasil?

sexta-feira, 27 de maio de 2011

PALESTRA "PSICOPATOLOGIA DA VIOLÊNCIA HUMANA"


Amanhã, sábado, às 9:30 horas, no Auditório Acadêmico Wilson Brandão, da Academia Piauiense de Letras, o acadêmico e psiquiatra Humberto Guimarães proferirá a palestra "Psicopatologia da Violência Humana".

O conferencista é considerado um dos maiores psiquiatras do Brasil. Leitor compulsivo, e, portanto, um erudito, já escreveu romances, contos, crônicas e poemas. Seu livro Abyssus é um conjuntos de ensaios, de caráter biográfico sobre ilustres personalidades mundiais, mormente ligadas à cultura. Sem dúvida será uma palestra agradável, em que curiosos e importantes aspectos da psicologia humana serão abordados, sobretudo os patológicos.

LÍRICA EXISTENCIAL


ALCIONE PESSOA LIMA

Eu sei que sou assim...
Um poeta solitário...
Que escreve o seu diário
Em segredo...

Eu sei que traço os rumos
E as marcas de um destino...
Um lado feminino
Em trajes de mãe...

Eu sei que sou no mundo
Um bêbado e mendigo
Que às vezes é abrigo...
O colo de um pai...

E sei que exijo muito...
E não sou perfeccionista
Apenas um artista...
Em uma corda bamba...

Eu sei que nada sei...
Nem o meu vocabulário...
Consulto o dicionário
Para dizer um palavrão...

Eu sei que tenho medo...
E ele é o meu freio.
O começo, fim e meio.
E assim eu sou feliz.

Eu sei que existem mágoas
Que o tempo não apaga
E o vento as propaga
Deixando o ressentimento...

Eu sei que cada ser
Tem a sua história
E cabe à memória
Não jogá-la ao vento.

Eu sei que tudo é breve
Uma gota que cai
A vida que se esvai
E, então, desaparece...

quinta-feira, 26 de maio de 2011

DALILÍADA - épico moderno baseado na vida e na obra de Dalí

ELMAR CARVALHO


XXXIV

A cabeça de Rafael é
uma cúpula de catedral
estalando em fragmentos
com os quais seu gênio
construía as obras em
que seu crânio se refazia.