segunda-feira, 8 de agosto de 2011

ANTOLOGIA DO NETTO

Charge e texto: João de Deus Netto


CARLOS CASTELO BRANCO

Carlos Castelo Branco, jornalista, contista e romancista, nasceu em Teresina (PI) em 15 de junho de 1920, e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1º de junho de 1993. Manteve uma coluna de política no Jornal do Brasil que se tornou um marco na imprensa brasileira. Foi membro da Academia Brasileira de Letras. Publicou, entre outros: Os Militares no Poder e Introdução à Revolução de 1964.

SAIBA MAIS - A vida deste notável jornalista piauiense está aqui neste link:http://www.carloscastellobranco.com.br/

domingo, 7 de agosto de 2011

Meninos, eu vi


CELSO BARROS COELHO

Para Carlos Said

Foi-me dada a oportunidade de estar presente à solene inauguração do Estádio do Maracanã, na abertura da Copa de 1950, no Rio de Janeiro. Assisti ao jogo de abertura, entre o Brasil e México, com a vitória do Brasil por 4 a 0. Tinha, então, 28 anos de idade.
Se a próxima Copa de 2014 me alcançar vivo, e espero que sim, terei sido um dos raros brasileiros com mais de 92 anos que assistiu às duas Copas com sede no Brasil.
Passei no Rio de Janeiro todo o período de realização da competição, pois dava assistência a um irmão que fora operado no Hospital de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado (IPASE), sofrendo a ablação de uma perna afetada de câncer. Na companhia dele, que veio a falecer meses depois, regressei a Teresina, no mesmo dia do encerramento da Copa, ansiosamente aguardado, com o jogo entre o Brasil e o Uruguai.
A esperança na vitória do Brasil contagiou todo o país, embalado no êxito das partidas anteriores que o apontavam como favorito. Bastaria o empate para ser campeão.
Pelo rádio, acompanhei o jogo em Teresina, momentos após minha chegada. Tarde fatídica. À medida que seguia a narração do jogo, o ataque dos uruguaios se fortalecia, até que o valente Ghiggia apagou, no peito dos brasileiros, a chama do entusiasmo que os jogos anteriores acenderam. Segundo a imprensa, é ele o único jogador daquela partida ainda vivo.
O silêncio dominou o país. As esperanças transformaram-se em frustração e pesadelo.
Outras copas vieram ao longo desses 60 anos. O Brasil segue à frente como pentacampeão. O que nos espera na próxima, em que o futebol se aperfeiçoa técnica e taticamente, e quando uma nova geração de craques passa indiferente às glórias dos ídolos do passado?
O resultado da última e recente Copa América, da qual o Brasil foi eliminado com uma péssima lição na cobrança dos pênaltis, não é animador, mesmo que o próximo gramado seja nosso e o patriotismo esteja vivo no sentimento de amor à camisa verde-amarela.
Farei o possível para de novo lançar os olhos sobre o gramado do Maracanã, e sentir a vibração de uma nação que tem no futebol uma das fontes reveladoras de suas energias físicas e morais. Estarei, então, vivendo novamente os dias inesquecíveis da mocidade. E aguardando que passem outras copas.
Ofereço esta crônica ao amigo Carlos Said, um dos mais antigos e consagrados comentaristas esportivos, convidando-o a ir comigo ao Maracanã em 2014, para vermos o Brasil erguer mais uma taça, sagrando-se hexacampeão.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

SILVIA MELO LANÇA “EDUCAÇÃO E EDUCADORES DE CAMPO MAIOR"


Amanhã, dia 6, no Salão Paroquial, às 19 horas, será lançado o livro “Educação e Educadores de Campo Maior”, escrito pela professora universitária Sílvia Melo. A obra traz a história da educação no município, os principais fatos dessa atividade humana, os mais importantes atos e obras dos gestores municipais nessa área, bem como sínteses biográficas dos mais dedicados mestres campomaiorenses. São feitas referências aos principais educandários e escolas. Ao contar a história da Educação em Campo Maior, o livro contribui para a historiografia do município e do estado. É ilustrado com fotografias da mais alta significação para a memória de nossa terra. Será servido coquetel.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO


4 de agosto

VIAGEM AÉREA

Elmar Carvalho

Mais de duas décadas atrás, quando viajei de avião pela primeira vez, eu era, como ainda de certa forma sou, um “caboclo matuto”, e tinha muito medo de viajar através de “asa dura”. Gostava de sentir a terra sob meus pés, ou pelo menos tê-la perto de mim. Viajava com medo, um tanto inquieto, algo acovardado; raramente arriscava uma rápida olhada pela janela, embora gostasse de apreciar a paisagem lá de cima e de contemplar o rebanho de nuvens abaixo de onde eu estava. Para driblar o meu medo, entretinha-me a admirar a beleza das aeromoças, que nesse tempo eram, geralmente, moças e bonitas, pois o cargo de comissárias de bordo, como antipoeticamente chamam-nas hoje, era um emprego cobiçado. Atualmente, as moças formosas, quase sempre altas e magérrimas, preferem ser modelos, quiçá uma top model. Foi vendo o desfilar das moças aéreas que me inspirei para escrever o meu poeminha A ero moça.

É claro que eu sabia que, com exceção do elevador, o avião era o meio de transporte mais seguro. Contudo, também sabia que, quando um desses pássaros mecânicos se desprendia lá de cima, raramente alguém sobrava para contar a história. Foi num desastre aéreo que Mário Faustino, o grande vate piauiense, que parecia ter a premonição de sua aeromorte, encerrou os seus dias terrenos, quando a aeronave em que viajava se espatifou contra a cordilheira dos Andes, nos arredores de Lima, no Peru. Consta que uma telefônica e enigmática voz de sibila lhe advertira para que não fizesse a viagem em que veio a morrer. Coincidência ou não, o poeta nascera numa casa, na praça do Liceu, em que se instalou, durante algum tempo, a Varig, empresa em cujo avião voou para a morte.

Embora seja Deus um Ser completamente realizado em si mesmo e que tudo realizou, e, por isso mesmo, bem humorado, não têm tido um final feliz e glorioso aqueles que tentaram zombar do Onipotente. Mas eu, ainda jovem, ainda cheio de entusiasmo pela vida e pela poesia, ao olhar pela janela do avião e ver as nuvens – brancas, fofas e brilhantes ao sol – debaixo de mim, perdi momentaneamente o medo que me encolhia, e me tornei audacioso.

Ruminei mentalmente uns versos, em que dizia ao Criador que ali estava eu, acima das nuvens, para um ajuste de contas, e para enfrentá-lo, cara a cara. Ora, dizem que nem mesmo o mais ungido dos homens pode contemplá-Lo face a face. Quando eu pensava esses versos, o avião foi chacoalhado fortemente, a um tal ponto que uma passageira, ao meu lado, começou a chorar em alto clamor. Ante a reação da mulher, tive medo, arrependi-me dos versos que fazia, orei, e resolvi abortar definitivamente o poema, que não chegara a ser lampejo, como diria Augusto dos Anjos. Não se zomba de Deus, nem mesmo em inocente traquinagem versificada. Vi, então, que as estradas celestes das aeronaves também podem ser “esburacadas” como as da terra. Hoje, verificando, pragmaticamente, que o medo é inútil, em se tratando de viagem aérea, e apenas me fazia sofrer, resolvi ter medo de ter medo. Agora, deixo-o do lado de fora do avião.


A ERO MOÇA

Elmar Carvalho

A aeromoça
abre os braços
e mostra as saídas
de emergência...

E eu a sonhar
que ela abrisse
as pernas e mostrasse
as entradas de quintessência.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho, Danilo Melo, Assis Brasil, Juarez Moreira Filho e Reginaldo Miranda

3 de agosto

LITERATURA PIAUIENSE NO TOCANTINS

Elmar Carvalho


A convite do secretário da Educação do Tocantins, Assis Brasil, Reginaldo Miranda da Silva, presidente da Academia Piauiense de Letras, e este diarista proferimos palestra em Palmas, na tarde do dia 29 de julho. O titular da pasta, o notável poeta Danilo Melo, é um velho amigo de lutas literárias, desde os tempos do jornal Inovação, época em que ele editou o tabloide cultural Litoral News, que bem merecia uma edição faquissimilada, em formato de livro, enfeixando seus vários números. Em sua rápida e ascendente carreira, foi secretário da Cultura do município de Parnaíba, da Educação de Palmas, durante seis anos, e agora é o secretário estadual da Educação. Segundo as informações de que disponho, exerceu esses cargos com dinamismo, competência e probidade.

Fomos participar da Feira Literária Internacional do Tocantins – FLIT, que na versão deste ano homenageou o escritor Juarez Moreira Filho, nascido em Ribeiro Gonçalves – PI. O auditório da FLIT também ostentava o seu nome. Deu-nos total atenção e assistência, durante todo o tempo em que estivemos no evento. Presenteou-nos com livros de sua autoria, e enviou alguns para os acadêmicos Humberto Guimarães e Palha Dias. A Feira foi arrojada e de vasta programação. Houve palestra de escritores famosos, em nível nacional e internacional. Houve, ainda, mesas redondas, oficinas, apresentações musicais e de violeiros, além de performances e exposição de livros. Entretivemos conversa com os escritores Odir Rocha, Osmar Casagrande, Mário Ribeiro Martins, todos membros da Academia Tocantinense de Letras, que nos presentearam com livros de sua autoria. Tivemos boa recepção e acolhida, graças à equipe da Secretaria da Educação, de que fazia parte Adriana Dias, nosso contato em Palmas.

Assis Brasil falou sobre literatura e ecologia. Embora ele seja muito contido em conversa e não seja dado a rasgos de oratória, avesso a frases bombásticas e de efeito, sem voz tonitruante e vibrátil, e refratário a performáticas gesticulações, pode ser considerado um mestre na arte da conferência, e sabe usar o microfone com eficácia, de modo que a sua voz, de pouca extensão, ganha corpo, textura, timbres e ritmo, que captam a atenção do ouvinte. Sem nada levar nas mãos – nem livros e nem anotações – proferiu a sua palestra como se estivesse lendo um texto, ou como se estivesse “atuado”. Não titubeou, não gaguejou e nem precisou retificar afirmações no decorrer de sua fala. Citou datas, lugares, nomes de autores, sem equívocos e sem dubitações, apesar de sua conferência haver sido rica em detalhes e novidades, e em informações polêmicas e ousadas, que passavam ao largo das trivialidades ecológicas. Em suma: era senhor de seu tema.

Eu e o Reginaldo Miranda discorremos sobre literatura piauiense. O Reginaldo, por ser eminentemente historiador, abordou com proficiência o início da educação no Piauí, os primeiros textos informativos, de caráter descritivo e historiográfico, bem como teceu considerações sobre alguns de nossos primeiros poetas e escritores. Também falou sobre a fundação da Academia Piauiense de Letras. Fiz uma síntese de nossa literatura. Expliquei os gêneros mais praticados por nossos escritores. Discorri sobre como e quando o modernismo chegou ao Piauí. Recitei de cor, para ilustrar minha conversa, rutilantes versos de Da Costa e Silva e Mário Faustino. E acredito ser esta a maior homenagem que se pode prestar a um poeta, vivo ou morto.



EDUCAÇÃO INTEGRAL EM PALMAS

Elmar Carvalho

Atendendo convite do secretário da Educação de Palmas, professor Zenóbio Júnior, fomos – Assis Brasil, Reginaldo Miranda e eu – conhecer uma das recém inauguradas escolas de tempo integral. Era um prédio grande, bem construído, no qual foram empregados materiais de boa qualidade. Vimos os laboratórios para as aulas práticas e experimentais, as salas de aula, a biblioteca, o auditório/teatro, as quadras polivalentes para jogos, o campo de futebol, devidamente gramado, e as piscinas, sendo uma semi-olímpica. Ressalto que as quadras, que tinham piso adequado e moderno, e o campo futebolístico possuiam arquibancadas. As piscinas tinham uma cobertura, que imitava um livro aberto sobre elas. Os alunos recebem três refeições por dia. Durante o périplo da visita, quase uma vistoria, o secretário da Educação e a diretora do colégio nos prestavam explicações e respondiam nossas indagações.

Segundo eles, a educação integral desse educandário, além da viabilidade social (que não se mede em moedas), por tirar o jovem do ócio e das ruas, também é vantajosa financeiramente, uma vez que a unidade comporta mais de 1.500 alunos, pois, em sistema de revesamento por turno, enquanto a metade dos alunos está na sala de aula, para a educação formal, a outra metade fica em atividades experimentais, culturais e esportivas, ocupando os laboratórios, o espaço dos computadores, as quadras, o teatro/auditório, as piscinas, a biblioteca, etc. Devo confessar que ao contemplar esse grande esforço em prol de uma educação, que sempre preguei em palestras e conversas, fiquei tomado de emoção, sobretudo por ver e sentir que ainda existem pessoas idealistas, abnegadas e que amam o que fazem. Fiquei orgulhoso de ser piauiense, porquanto o secretário repetiu, algumas vezes, que tudo isso só foi possível graças à vontade política do prefeito de Palmas, Raul Filho, que é piauiense do município de Gilbués. Posso dizer que eu, Reginaldo Miranda e Assis Brasil aplaudimos esse projeto, que deveria ser paradigmático em termos de educação integral no Brasil.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O MILAGRE DA VIDA

CUNHA E SILVA FILHO

Uma vez a saudosa professora da UFRJ Gilda Salem que, num semestre nos anos noventa, durante o período do meu mestrado, deu um curso sobre a crônica de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), no meio de uma de suas aulas, deixou escapar esta confissão, que tento reproduzir com minhas palavras e talvez misturando palavras delas em tom epifânico com imaginação rememorativa: “Que bom que estejamos vivos, é uma bênção. Sentir que temos algo a fazer, ver que a vida que pulsa dentro e fora de nós não deixa de ser um milagre”.
Suas palavras ressoam na minha retina e me estimulam a dar realmente peso às palavras da brilhante professora, ensaísta e crítica literária. Gilda era de origem judia. Tinha a tez clara e os cabelos castanhos claros também. Era séria, mas também acessível quando sentia que o aluno era responsável e aplicado. Fizera, se não me engano Letras, português-francês, na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil. Estudara ainda na Universidade de Brasília nos tempos sombrios da ditadura. Militar. Tinha um visão aberta e profunda da existência e de um pensamento filosófico bem afinado com a obra de Walter Benjamin (1892-1940) que, de resto, constava, na bibliografia do curso sobre Drummond, um dos poetas de sua estimação, como um dos autores-chaves do curso ministrado. Com ela, fizera mais um curso, desta vez sobre a poesia drummondiana.
Por falar na bibliografia que nos recomendou para o primeiro dos cursos, a maioria dos autores era de procedência judia, o que fez com que um dos meus colegas do curso, o Francisco Igreja, já falecido, chegasse até a ser-lhe um tanto irônico, ao comentar que a bibliografia oferecida pela professora tinha excessos de autores judeus. Gilda não lhe respondeu à ironia. Mas, Igreja era do tipo que dizia o que pensava e ainda, em outra aula, saiu com esta tirada mordaz: “Drummond não passa de um resmungão.” Nenhum colega do grupo que compunha o curso lhe deu atenção. Soube, mais tarde, através da revista Lavra, de Brasília, que o Igreja era poeta, professor, ensaísta e dicionarista. Com ele, na universidade, troquei poucas palavras. Nascera em Portugal e, antes de falecer precocemente, aos 43 anos, lecionava na Universidade Estácio de Sá.
Em Brasília, Gilda, a par de certo envolvimento político contra o regime militar, que lhe custou, se não me engano, a perda de uma gravidez, foi aluna de literatura brasileira ou portuguesa (não sei ao certo) dileta do grande ensaísta e poeta Cassiano Nunes (1921-2007). Foi ela que me pôs em contato com o Cassiano na época em que já estava iniciando o meu doutorado a respeito da obra de João Antônio ( 1937-1996). Gilda era, neste aspecto, muito obsequiosa e me forneceu o endereço do Cassiano, que, por sinal, tinha sido muito amigo de João Antônio, e lhe dedicara pelo menos três excelentes estudos que muito me auxiliaram na preparação de parte da minha tese. Cassiano, a quem escrevi e enviei um exemplar do meu estudo da saudade em Da Costa e Silva (1885-1950), respondeu-me gentilmente, falou sobre a Gilda e a satisfação de ter sido seu mestre.
Além disso, Cassiano me enviou livros autografados de sua produção poética e de um texto chamado Carta da Prisão (2000). Nele o ensaísta comenta magistralmente um original de um texto que lhe chegou às mãos e que o impressionou pelo inusitado do seu conteúdo e até mesmo pela sua expressão literária. O autor do texto, Manuel de Maria, é um presidiário, sem preparo formal no campo das Letras, mas com talento suficiente para narrar circunstâncias relacionadas à vida prisional e a formas de como resolver alguns problemas afetos a esse tipo de isolamento. A carta é dirigida a um amigo.
No Rio de Janeiro, Gilda foi aluna de literatura francesa do ensaísta e dicionarista Roberto Alvim Correia (1901-1983), autor do excelente Dicionário francês-português e português-francês, publicado pela antiga FENAME, MEC, do qual tenho um exemplar comprado no Rio, em 1964. Ela se deliciava com uma maneira de Alvim Correia desenvolver suas aulas. Segundo ela, Alvim Correia gostava de ler longos textos de autores franceses e de comentar sobre eles.
O leitor vê como a vida se faz de liames que se conectam uns nos outros e nos fazem descobrir que o mundo está todo interligado, pois não é que muitos anos atrás, antes mesmo de iniciar a universidade, eu já tinha lido um livrinho de viagens. Sabem de quem? De Cassiano Nunes. O título: A sedução da Europa, da Editora Saraiva. Perdi o exemplar não sei onde, mas dele me ficou uma frase que lança alguma luz de mistura com ironia quando declara dirigindo-se ao leitor: “O abracadraba, a palavra mágica, é personalidade”. Isso porque se costuma dizer que as viagens são metas que se devem cumprir durante a vida. Elas alargam nossos conhecimentos de outros povos e culturas. Porém, para o ensaísta santista Cassiano Nunes, que teve tantas experiências, sobretudo docentes em universidades de projeção na Europa e nos Estados Unidos, o que talvez a citação queira significar, em relação às viagens e ao conhecimento do mundo, nada tem a ver de relevo ou de mais vantajoso a quem não conheceu plagas estrangeiras . O que importa é a personalidade do homem, suas virtudes, sua integridade, sua determinação de aprofundar – mesmo sem viagens – um conhecimento mais visceral dos homens e da existência.
Ao Piauí Cassiano Nunes esteve ligado graças ao conhecimento e amizade que teve com o crítico e ensaísta Manoel Paulo Nunes que, por coincidência priva de minha amizade.
Gilda tinha mesmo motivos de se espantar com o milagre da vida, com essa concessão temporária de existência material propiciada aos homens da Terra que só pode mesmo ter sido obra de um Ser superior.
É mesmo um milagre estarmos vivos, falando, andando, executando uma tarefa, simples ou menos simples. É um milagre podermos ver o que nos cerca, a paisagem próxima ou mais distante, a linha do horizonte encontrando-se com o mar. É um milagre da vida sentirmos a força da vida entrando pelos movimentos duplo da inspiração e respiração. Milagre por temos ainda o coração batendo, o sangue correndo nas veias, por sermos úteis e partilharmos, de uma forma ou outra, da existência com todos os seus grandes percalços, com todas as suas ciladas e, ao final, sairmos ilesos e podermos afirmar que “amanhã será outro dia”, que “o sol novamente se levantará” e que o ciclo da vida, embora tão pequeno, tão frágil, por vezes tão atordoado pelo atropelo sobretudo dos dias atuais, valerá a pena ser percorrido.

domingo, 31 de julho de 2011

FLAGRANTES & INSIGHTS


PLACA DE BRONZE

Elmar Carvalho

Na exploração despudorada e desenfreada da vaidade humana, o rapaz insistiu, por várias vezes, para que um amigo meu lhe desse determinada importância para a realização de uma “obra social”, sob a promessa de que ele seria homenageado com uma grande placa de bronze, a ser outorgada pelo prefeito. Já incomodado e aborrecido com o assédio, meu amigo disse ao “benfeitor”, que não passava de conhecido picareta:
   - Olhe, façamos o seguinte: não precisa me dar a placa; peça ao prefeito para lhe dar o valor correspondente a ela em dinheiro, e você terá mais lucro do que com o que eu poderia lhe dar.

sábado, 30 de julho de 2011

TRABALHO DE CESTARIA E RENDA

ELMAR CARVALHO


tramas e tramóias
arma(dilha) a(r)mada
a(r)mada arma(dilha)
entocadas nas tocaias

amantes amadas
amando (tr)amando
entre teias e r’amas
com as armas a(r)madas

entre rendas e redes
a engrenada moenda
do amor entrelaçado

faz uma teia de renda
em forma de rede de pe(s)car
e me amor(tece) e me amor(daça)

quinta-feira, 28 de julho de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

28 de julho

O JARDIM DOS POETAS

Elmar Carvalho

No domingo, fui ao mercado central com a Fátima, com o objetivo de que o Didi e a sua mulher comprassem roupa de banho, pois iríamos à praia de Pedra do Sal. Como sei que essas compras sempre demoram um pouco, para passar o tempo fui visitar o Jardim dos Poetas, e dessa forma rever a placa com o meu poema, que ali existia. Era um poema integrante dos PoeMitos da Parnaíba, em que eu homenageava a Luse, que eu conheci, quando morei na Praça da Graça, no apartamento dos Correios. Era ela uma figura interessante, alegre, algo extrovertida, que gostava de usar umas saias com belas estampas florais. Era professora de piano. Apesar de um tanto gorda, curiosamente, segundo depoimento de um amigo meu, dançava com muita leveza, graça e elegância. É falecida há vários anos.

O Jardim dos Poetas foi construído na gestão do prefeito Paulo Eudes, idealizado pelo teatrólogo e escritor Benjamim Santos, quando este era o secretário municipal da Cultura. Era na verdade, em síntese, uma espécie de antologia em concreto da poesia e dos poetas parnaibanos, natos ou não. Ali estavam, nas quase duas dezenas de placas metálicas verdes, afixadas em pedestais, que imitavam uma espécie de tribuna, poemas dos vates consagrados pelas antologias, pelos críticos e pela história da literatura parnaibana. No painel central (uma grande coluna retangular) estavam expostos, em grandes letras em relevo, os imortais versos de Alcenor Candeira Filho e Luíza Amélia de Queiroz. Numa placa metálica azul foram colocados, da forma mais exaustiva possível, os nomes de quase todos os poetas parnaibanos, tantos os nascidos no município, como os que ali se radicaram ou se vincularam radicalmente à literatura local.

Quando o jardim estava sendo planejado e construído, despertou muita espectativa e curiosidade entre os poetas, inclusive quanto à inclusão ou exclusão de nomes. O local da obra foi visitado por vários literatos, inclusive de Teresina. Eu mesmo, em companhia de outros poetas, visitei o local e achei que fosse uma grande homenagem aos bardos, mormente numa época de tanto hedonismo, em que a música e os audiovisuais imperam de forma avassaladora; numa época em que a poesia se queda como “a mais discreta das artes”, no dizer de Eugénio Montale. A sua inauguração foi comemorada com uma série de eventos culturais, inclusive teatralização de poemas, dança, música e palestras. Tive a elevada honra de ser convidado para proferir uma palestra sobre literatura parnaibana, tendo na oportunidade lançado meu opúsculo Aspectos da Literatura Parnaibana, em que faço referência aos principais aedos da cidade, dentro de uma síntese histórica de sua literatura.

Estive recentemente em Caxias, Maranhão, e vi nessa cidade, numa praça central, o poeta Gonçalves Dias, a recitar versos em seu pedestal. Vi também a Praça do Pantheon, na qual foram colocados os bustos dos seus principais poetas e escritores. Ali estavam, esculpidos, os poetas Gonçalves Dias, justamente considerado um dos maiores poetas do Brasil, que tinha orgulho de carregar em suas veias o cadinho de três raças – a índia, a negra e a branca; Coelho Neto, poeta e escritor, considerado um parnasiano da prosa, um dos mais lidos escritores em seu auge; Vespasiano Ramos, um lírico de alto coturno, cujos versos do soneto Samaritana regurgitavam na boca dos sedentos boêmios de outrora; e o poeta e industrial Francisco Dias Carneiro, sobre o qual me reportei da seguinte forma: “Vi apenas um poema desse último vate e capitão de indústria, mas considero que ele cantou belamente os rumores e as ramagens do Itapecuru, em versos sonoros, melodiosos, refertos de imagens e sentimentos”. Essa viagem foi registrada neste mesmo Diário Incontínuo, sob o título de “O Pantheon de Caxias”, cujo texto foi lançado aos mares internéticos.

Pois bem, falei na Praça do Pantheon porque ela me fizera lembrar o Jardim dos Poetas. Contudo, ao adentrar este último logradouro senti o seu estado de abandono. Lixo e ervas daninhas infestavam o local. Foi em vão que procurei a placa do meu poema, que homenageava a Luse. Ela e quase todas as demais haviam sido retiradas dos pedestais em que foram postas. As letras do painel central, a que me referi, haviam caído. Só restavam duas ou três placas, mas deterioradas e ilegíveis. Não posso omitir que fiquei triste. Todavia, não quero, aqui, criticar ninguém; desejo apenas apresentar uma sugestão, para um problema que está posto. Inicialmente, faço uma pergunta, já que alguém disse que o local não seria adequado: será se as suas peças em concreto, mormente os pedestais e as componentes dos caramanchões, não poderiam ser levadas para outro local, que fosse considerado mais apropriado?

Creio que a Secretaria de Cultura poderia discutir a restauração do Jardim dos Poetas, seja no local em que se encontra, seja em outro que fosse considerado mais atraente, com a Academia Parnaibana de Letras, com o Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba, com a Fundação Cultural Assis Brasil e com a “sociedade dos poetas” vivos. Obviamente, outros equipamentos, peças e poemas poderiam ser acrescidos ao projeto original. Placas maiores, mais vistosas e modernas, talvez até com ilustrações de pintores locais, poderiam dar um novo brilho a essa antologia poética “impressa” em concreto. Acredito que prejuízo maior é o logradouro/monumento permanecer do jeito que está, pois, sem os poemas expostos em suas placas, o Jardim dos Poetas terá perdido todo o seu sentido e finalidade.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO


27 de julho

PAULO CÉSAR E O LIRISMO DA VIDA

Elmar Carvalho

Quando fui à banca do Louro, em Parnaíba, para adquirir a revista Repaginando e os jornais culturais O Bembém e O Piagüí, encontrei o amigo Paulo César Lima (Curicaca). Sem delongas, disse-lhe que estava a me apropriar do livro Memórias e Memórias Inacabadas, de Humberto de Campos, publicado pelo Instituto Geia, em bela e caprichada edição, e que só o devolveria quando ele expressamente me solicitasse isso. O livro lhe fora presenteado pelo desembargador Lourival Serejo, que também é escritor e professor da Escola Superior da Magistratura do Maranhão, além de ser membro da Academia Maranhense de Letras e de outras congêneres municipais.

Tempos atrás, eu havia conversado com Paulo César sobre poetas maranhenses, em cuja capital ele havia se formado em engenharia. Disse-lhe que havia gostado de alguns poemas esparsos de Bandeira Tribúzi, que havia lido em antologias, e que desejava comprar um livro desse vate, mas que não o encontrava à venda no Piauí. PC disse que tentaria adquiri-lo para mim. Com efeito, pouco tempo depois esse bom e prestimoso amigo, através do des. Lourival Serejo, conseguiu-me um exemplar de poemas desse grande bardo maranhense. Através desse livro, fiquei sabendo que o senador José Sarney tinha grande apreço e amizade pelo poeta, e lhe fizera uma bela e comovida apologia por ocasião de sua morte precoce, que se encontra enfeixada na obra. Tribúzi, além do grande poeta que era, foi um cidadão exemplar e um alto funcionário da administração pública maranhense, talvez um dos precursores do planejamento estadual.

Conheço Paulo César desde os idos finais dos anos 1970. Em diversas ocasiões entretive boas conversas com ele, inclusive sobre literatura e poesia, e sempre lhe admirei a alegria contagiante, o senso de humor e a inteligência fina, em que sempre ele tinha algum episódio humorístico para contar. De família humilde, sem autoproclamados brasões de pretensas e pretensiosas nobiliarquias, formou-se em engenharia; por concurso público, é auditor fiscal do Ministério do Trabalho, cargo igualmente exercido por seu irmão Francisco José, o Zié, este formado em Direito. Seu outro irmão, o Augusto César, é médico no Rio de Janeiro. Devido a seu espírito alegre, brincalhão, é um dos mais animados foliões do carnaval parnaibano, do qual é uma das lideranças e incentivadores. A propósito dessa sua vertente momesca, colho na internet a informação de que “Francisco José Lima - o Zié manterá a tradição e vai desfilar na escola Unidos da Ponte, além dos irmãos Paulo Curicaca e o renomado médico Augusto César Lima - que vem especialmente do Rio de Janeiro para a festa momesca na Marquês [avenida] de Chagas Rodrigues”. Sei que a notícia se realizou, pois eu vi o PC, de apito na boca, a comandar o desfile de sua agremiação carnavalesca.

Faz algum tempo, fiquei de ir comer uma galinha caipira no sítio Serragem, do Paulo César. Por uma série de tropeços e contratempos, seja por minha parte, seja pela do PC, esse encontro gastronômico e de lazer ainda não aconteceu. Por isso mesmo, o Paulo comunicou-me, por e-mail, que a galinha já estava gorda demais, e poderia morrer por causa da obesidade. Não fiquei preocupado, porquanto tenho certeza que o seu plantel de galináceos é numeroso, e não há de faltar “penosas” para a programada e sempre adiada degustação. Como o sítio fica na margem direita do Pirangi, a sua sede sofreu uma grave ameaça, quando do arrombamento da barragem de Algodões, em Cocal. Contudo, apesar de lambida pela catastrófica “pororoca”, a casa permanece de pé, incólume, a nos esperar para o sacrifício do galináceo, que agora deverá ser um capão erado, porém de tenra e suculenta carne.

Quando eu disse que só devolveria o livro Memórias, um dos melhores livros no gênero, que tive o prazer de ler várias vezes, sempre com interesse e satisfação, e sempre com proveito espiritual pelas lições e experiências de vida, que ele transmite, mormente o esforço laboral e capacidade de superação de seu autor, Humberto de Campos, que emergindo da pobreza tornou-se um dos escritores mais aplaudidos em seu tempo, além de haver sido congressista e membro da Academia Brasileira de Letras, exceto se isso me fosse exigido explicitamente, o Paulo César, com o seu jeito expansivo, alegre e bonachão, não titubeou ao responder-me:
- O livro é seu, eu o consegui para você!
Como uma mísera e magra compensação, ofertei-lhe, ali mesmo, na Praça da Graça, um exemplar de meu livro Rosa dos Ventos Gerais, que por sorte trazia em meu carro. Rosa simples, rosa singela, rosa talvez sem perfume literário, mas na qual o amigo Paulo César talvez possa encontrar alguma beleza perdida, algum perfume fugidio e errante nos vários versos que ali estão estampados.

terça-feira, 26 de julho de 2011

EGOCENTRISMO

ELMAR CARVALHO



     espirrei
na réstia de luz
da janela do meu quarto
e fiz surgir um
              arco-íris
              arco-do-triunfo
sob o qual
napoleonicamente passei
sobre o qual caminhei
em busca do
                   velocino de ouro
coroado com o
                      l’ouro
de minha própria
    alquimia

segunda-feira, 25 de julho de 2011

REPAGINANDO Nº 02 À VENDA EM PARNAÍBA E TERESINA



O segundo número da revista Repaginando, de circulação mensal, já se encontra à venda; em Parnaíba, na banca do Louro, na Praça da Graça, e em Teresina, na banca do Tomaz. As matérias de capa são uma reportagem sobre o interminável porto de Luís Correia, uma crônica sobre Mário Carvalho, uma entrevista com Stefano Florissi, professor pernambucano, sobre economia e cultura, e um poema de Dom Pedro Casaldáliga. Vários outros textos de cunho literário e social enriquecem a revista, que contém muitas fotos e ilustrações produzidas por Flamarion Mesquita. A principal matéria analisa toda a história e vicissitudes, que têm entravado a construção do porto marítimo piauiense, ao longo de várias décadas. Entre outros, foram colaboradores: Juarez Oliveira Filho, Bernardo Silva, João Maria Madeira Basto, Jonas Fontenele, Mário Pires Santana e o editor, Reginaldo Costa.

domingo, 24 de julho de 2011

Visibilidade e invisibilidade em novos e confusos tempos literários


CUNHA E SILVA FILHO

O que é ter visibilidade restringindo-se este termo ao domínio da literatura? Faço esta indagação de sorte que não se confundam várias formas de visibilidade, já que a condição de visibilidade pode se instalar até no submundo da criminalidade, ou das chamadas celebridades do mundo contemporâneo.
O espectro da visibilidade – reconheço - está mais circunscrito às mídias, a formações de grupos acadêmicos e, quando digo acadêmico”, me reporto aos recintos das universidades, geralmente públicas, Lá é onde germinam as sementes que, positiva ou negativamente, se reverterão em sujeitos visíveis que, inter pares, ganharam notoriedade por algum tempo, porquanto notoriedade, fama, consagração são temporalmente conceitos limitados. São situações de projeção pessoal dependentes de momentos culturais históricos e perfeitamente demarcados. São diferentes dos consensos universais apenas restritos a algumas figuras de primeira grandeza na história da cultura e, neste caso, independentes dos humores temporais regionalizados.
O mecanismo dos grupos restritos é que propiciará os eleitos ou incensados. Só que essa eleição grupal sem voto, felizmente, também tem limites e seus valores são relativos. Funciona mais ou menos tal mecanismo sócio-cultural como nos grandes clubes de futebol ou de outros esportes mais em voga.
Se deslocarmos a visibilidade do campo estrito da literatura para outros domínios do conhecimento, notadamente o científico, o tecnológico, aquela visibilidade na literatura se apaga como vela acesa aos poucos se derretendo.
A história literária ocidental – fiquemos no nosso país – ao longo do seu percurso – tem provado suficientemente que a visibilidade tão prezada pelo elitismo intelectual brasileiro contemporâneo não é mais do que uma vã ilusão. Os tempos mudam, os homens morrem, as teorias (muitas) também envelhecem (?) como peças de museu e não mais exerceriam quase nenhuma influência ou utilidade face ao surgimento de correntes estéticas do pensamento crítico de nossos dias. Isso gera crise e impasses que levam intelectuais a, por assim dizer, falarem em morte da crítica literária, morte da poesia, morte do romance e assemelhados. A situação da literatura, em suas múltiplas formas e gêneros, fica tão frágil na atual conjuntura que nem seus próprios cultores parecem diferenciar o que estão escrevendo, se crítica , se resenha, se ensaio. Não paira dúvida de que o contexto literário está diante de impasses para os quais devemos divisar caminhos com objetividade e espírito desarmado.
O mundo contemporâneo se molda pelo tempo presente – sacrossanta era de uma certa ilusão de que o hic et nunc dita conceitos, normas, tendências nos vários segmentos da sociedade afluente e utilitarista, sociedade dos excessos, dos objetos e seres descartáveis. Ao dispensar todas as honrarias ao primado do presente, os fenômenos culturais, em todas as suas configurações de gêneros e estilos, tenderão, em pouco tempo, a provocar mais dissensos e crises do que encontrar uma via de equilíbrio entre a tradição e a contemporaneidade,sendo que esta, de resto, é sempre um termo de abrangência fugidia. O apressado homem do presente semelha um deus de barro mais pretensioso do que aquilo que lhe corresponde ao talento e saber, com seu olhar supostamente altaneiro no que concerne a valores e competências adquiridas em anos de estudos, pesquisas, atualizações de saberes e talento indiscutível.
Cada sujeito da visibilidade possui sua duração mais ou menos com data, marcada. Poucas são as exceções. O tempo do surgimento do sujeito visível se mede dentro da contemporaneidade. Por isso, comumente se reveste de um caráter cronológico. Quando deslocado para o passado, em razão de reavaliações e pesquisas feitas no presente, a visibilidade do sujeito, póstuma como é, tende a atribuir-lhe o devido merecimento. É o caso, por exemplo, do poeta Sousândrade (1832-1902), recuperado aos tempos atuais graças aos esforços dos irmãos Campos. Fernando Pessoa (1888-1935) não teve também visibilidade em vida. Ainda hoje sua obra poética se vai acrescendo de novos inéditos e o valor de sua poesia vai readquirindo novos sentidos de visibilidade e grandeza para os pósteros.

A questão da visibilidade está intimamente também conexionada com o fator negativo do olvido por parte da posteridade. Os movimentos literários confirmam validade e olvido, ou seja, visibilidade e invisibilidade. A chamada tradição literária nunca foi assim tão bem recebida pela posteridade, quer dizer, pelas gerações dos diversos estilos de escrita que a história literária ocidental já conheceu e se convencionou chamar de periodização literária, estilos que sempre se diferenciavam pelo movimento pendular entre razão e emoção, i.e., objetividade e subjetividade, para lembrar as duas tendências da alma humana que remontam aos conceitos de Friederich Nietzche (1844-1900) discutidos na obra Nascimento da tragédia ou helenismo e pessimismo (1872).
As vanguardas europeias aparecidas no final do século 19 e continuando até a década do século passado, como manifestações artísticas que adentraram igualmente outras artes, como a pintura, a escultura, promoveram uma radical ruptura das formas de artes literárias, bem como de outras artes, segundo referi acima, pondo por terra maneiras de expressão artística já superadas e que não mais poderiam ressignificar a realidade dos tempos modernos modificados pelas alterações da vida dos indivíduos nos centros industrialização, pelos desastres sociais e econômicos trazidos pela Primeira Guerra Mundial de 1914, pela queda da monarquia russa com a revolução bolchevique de 1917.
As vanguardas, no campo da poesia principalmente, e para o que interesse a esta discussão, foram responsáveis pelas profundas mudanças de índole experimental, substituindo o que se poderia chamar lato sensu de ordem clássica para a “desorganização” estética moderna de visões de vida e de formas de linguagem.
Após o Modernismo de 1922, a literatura entre nós conheceu movimentos de renovação tão amplamente estudados em nossas principais histórias literárias que não seria o caso aqui de historiá-los novamente. Entretanto, cumpre fazer algumas considerações com respeito ao sentido de subversão que eles tiveram para o atual quadro de valores, especialmente tendo em vista que seus autores, nas diversas vanguardas brasileiras, se assim as posso denominar, adquiriram visibilidade graças às alterações formais diante da tradição literária, embora muitos deles hoje retomam uma dicção poética que muito tem a ver com antigos ou menos antigos procedimentos na utilização do discurso poético – espécie de amálgama obtida por incansáveis buscas de exploração do poético em fontes tradicionais da lírica brasileira ou europeia.
A moderna lírica brasileira, em tempos de pós-modernidade, de imediatismo, de alta tecnologia, de bizarrias eletrônicas, da era virtual, da internet, da cibernética, da robótica, do homem-máquina, do vazio individualista – figura um momento de encruzilhada de uma contemporaneidade feita de diluídas fronteiras e de características múltiplas.
Lírica de tempos pós-modernos, de poéticas sem ismos, nas quais o lirismo se sente senhor de suas próprias escolhas, tendências, temas, ritmos e técnicas, porém tendo em vista, na maior parte de sua produção, não perder certos liames da tradição, retrabalhando-a e reajustando-a aos tempos correntes e aos modos pessoais de instrumentalizar a substância – ideologia, recursos formais e técnicas - pela fatura de versos que exprimam os anseios estéticos e temáticos do homem de agora.
Em síntese, a questão do sujeito da visibilidade se oferece, assim, como um desafio mais do âmbito da formação de grupos hegemônicos, compostos do tripé – imprensa literária, editoras de grande porte e de grupos da intelligentsia brasileira recrutados em geral nos umbrais das universidades. Dessa convergência, a que não faltam doses de protecionismo e reserva de mercado, poderão ou não surgir os novos midiáticos da cultura brasileira. Quem, por acaso, estiver fora dos parâmetros mercadológico-elitista-midiáticos desses grupos que se repartem em filiais pelo país afora, estará, pelo menos, para o tempo presente com pretensão de eternidade, relegado à condição de sujeito da invisibilidade.
Superar este óbice me parece tarefa quase instransponível porque, embutidos no emparedamento do sujeito da invisibilidade, existem componentes de natureza idiossincrática, de isolamento, de timidez, de ética individual e de certo enfado existencial que se colocam entre o artista e a arte literária.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO


22 de julho

HERMES E AFRODITE

Elmar Carvalho

Outro dia, um conhecido meu me contou que um seu parente, tido e havido como rapaz, inclusive porque era namorador e gostava de jogar futebol, estava se transformando numa moça, com o corpo se enchendo de curvas e botando seios, cujos bicos pareciam querer espetar a camisa ou blusa. Acrescentou que esse (ex) rapaz já não se interessava mais por moças, mas, sim, por outros rapazes. Contudo, não me soube explicar se o caso seria de hermafroditismo ou se o jovem tomara hormônio, para conseguir o arredondamento feminil das formas. Contei-lhe, então, dois casos, que aqui vão resumidamente.

Um conhecido meu, que tinha grande intimidade com o pai, narrou-me o que seu velho lhe contara. Na cidade em que ele morava, existia uma prostituta muito bonita, mas que parecia encerrar algum mistério, pois raramente os homens a procuravam por mais de uma vez, e nunca se ouviu algum deles comentar qualquer coisa sobre sua intimidade. Ante tamanha beleza, o pai desse meu conhecido resolveu marcar um encontro com a moça, no local em que ela recebia os seus clientes. Na hora marcada, adentrou a alcova. A mulher era de fato muito bela, tanto de rosto, como de corpo. Ela foi se desnudando aos poucos, ficando apenas de calcinha, sempre na penumbra, sem que nenhum defeito lhe fosse percebido.

Todavia, quando o pai do meu colega conseguiu fazer com que ela retirasse essa peça, pode perceber que ela tinha o clitóris bem avantajado, quase como se fosse um pequeno pênis. O velho, algo chocado, desistiu do que viera fazer, e bateu em retirada. É de se supor que a mulher tenha se sentido humilhada, ante a rejeição repentina, e que essa proeminência de sua anatomia lhe trouxesse alguns constrangimentos, ainda mais diante do fato de ser uma prostituta. Também é de se imaginar que alguns aceitassem essa anomalia, senão ela não poderia exercer a “profissão” que exercia. O fato é que todos silenciavam quanto a isso, seja para evitar comentários, seja para que outros caíssem na mesma “armadilha”.

No início de minha juventude, vi, algumas vezes, uma parenta de um amigo meu, de acentuado buço. Feia de rosto, de corpo desengonçado e sem curvas, vivia metida num vestido de chita, que lhe descia escorrido pelo corpo magro e linheiro. Tinha uns modos esquisitos, arredios e ariscos, e não me recordo de ter ouvido sua voz. Era uma moça completamente feia e sem nenhum atrativo, cuja penugem labial provocava mesmo certa repulsa, embora ela não tivesse nenhuma culpa por ser tão desprovida de dotes físicos. Morava ela na zona rural, com seus pais; poucas vezes a vi, e apenas quando fui a sua casa, em companhia de meu amigo.

Fui embora dessa cidade, que não desejo identificar, e por mais de 20 anos não tive notícia desse ser tão desprovido de graça e encanto, até reencontrar o meu amigo, que também fora morar em outros lugares. Ao recordarmos certas aventuras de nosso tempo de mocidade, perguntei-lhe por sua prima. A sua resposta foi direta e chocante:
- Virou homem, e agora vive traçando tudo quanto é mulher que encontra pela frente!
Decerto, havia certa dose de humor e evidente exagero em suas palavras. O parente passou a vestir-se como homem, com calça e camisa, e não mais com vestido, como antigamente. Passou a nutrir forte atração por mulheres. Meu amigo não sabia detalhes sobre sua anatomia. Mas, pelo visto, nada tinha de Afrodite, senão de Hermes. Fico na suposição de que sua genitália fosse a de um hermafrodita, porém com predominância masculina, inclusive na parte espiritual e psicológica. Talvez um exame médico tivesse resolvido todas as dúvidas. Entretanto, por preconceito e ignorância, os pais a criaram e vestiram como mulher, até que o apelo e a força do sexo fizeram com que esse ser tolhido em sua sexualidade pudesse se libertar, e seguir o seu próprio caminho.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

BAR DO AUGUSTO


Charge: Gervásio Castro

BAR DO AUGUSTO

Elmar Carvalho

No bar do Augusto
o passado era sempre presente,
e o futuro a Deus pertence.
No Recanto da Saudade

de outra dimensão do espaço-tempo
o Dourado continua a vestir a fantasia
de a sua própria pessoa ser ou não ser
heterodoxos heterônimos pessoanos.

Onde, agora, o Augusto?
Onde, agora, a vitrola, a música e o bar?
Como nos versos sublimes de Bandeira,

ficaram de pé, suspensos no ar. . .
Encantados no destempo de um tempo
sem passado, sem futuro, sem presente.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

Foto meramente ilustrativa


20 de julho

O GOL DO MACUMBEIRO

Elmar Carvalho

Em meados dos anos 80, estive em Amarante, participando de evento lítero cultural. No quintal sombreado por grandes árvores de um casarão, que foi hotel durante alguns anos, quase na esquina da avenida Des. Amaral, perto da escadaria do morro da Saudade, participávamos de alegre libação, entre outras pessoas cujos nomes já não recordo, o Zé Elias Arêa Leão, a Sulica Figueiredo, a Sônia Setúbal e este diarista. O poeta Virgílio Queiroz, que funcionava como uma espécie de anfitrião e cicerone cultural, nos contou curioso episódio cômico, de que ele fora um dos protagonistas. Ao conversar com ele recentemente, puxei esse assunto, para que ele me reavivasse a memória.

Ele e um amigo prepararam um saboroso frito de galinha caipira, que ele fez questão de enfatizar que não fora confiscada do quintal do vizinho. A farofa estava deliciosa, de modo que o cheiro era um verdadeiro perfume sacrificial aos deuses. O Virgílio colocou no matulão um litro de pinga da terra; cana pura, sem “batismos” e desdobramentos espúrios. Talvez um tanto por galhofa de jovem brincalhão ou por espírito de aventura, seguiu para um dos terreiros de macumba existentes na cidade. Ao chegar ao local do culto, o babalorixá se preparava para os trabalhos, com incensos e essências aromáticas de plantas, com que ungia o corpo. O poeta, maliciosamente, colocou uma dose da branquinha no copo e a sorveu de um só gole. Lambeu os beiços, e retirou um pedaço apetitoso do galináceo.

O macumbeiro Tomé não resistiu, e a revirar os olhos pediu um pedaço da ave. O Virgílio disse que havia feito uma promessa de que só comeria do frito quem tomasse antes uma dose da cachaça. O outro respondeu que não poderia beber, pois iria iniciar a sua função religiosa, mas terminou não resistindo, e tomou uma golada, inicialmente pequena. Depois, outra e mais outra, cada vez mais volumosas, sempre acompanhadas de um pedaço do frito, que o poeta lhe dava. Finalmente, prestes a iniciar a dança e as cantigas, virou um copo da calibrina; ficou bastante “calibrado”, e foi executar sua tarefa.

Em determinado momento, a cantiga se transformava numa espécie de responso, em que o Tomé respondia os “pontos” que uma pessoa cantava. Assim como Pôncio Pilatos entrou meio atravessado no “credo”, o Virgílio Queiroz achou de introduzir futebol na cantoria ritualística, de tal arte que, esdruxulamente, perguntou:
- Quem foi, quem foi que fez o gol?
Ante o inesperado da pergunta, o pai-de-santo arregalou os olhos e fitou o vazio, como em busca de inspiração. Depois, caindo em si e se julgando no dever de responder a tão inusitada indagação, cantou, a rodopiar pelo salão, a driblar e atropelar rimas e ritmos, sob efeito etílico:
- Ou foi Pelé, ou foi Pelé, ou foi Pelé... – e não atinando com o nome de nenhum outro jogador, com a mente anuviada pelo álcool, saiu-se com este improviso algo desatinado: … ou foi Pelé, ou foi Pelé ou foi quem foi.
Durante alguns anos, a irmã do Tomé ficou “intrigada” com o Virgílio Queiroz, pois ela levava muito a sério as cerimônias da umbanda, e atribuía ao poeta a culpa de haver premeditado a embriaguez do irmão e chefe umbandista. Mas hoje já não resta sequela desse episódio, que faz parte do anedotário da terra dacostiana.

terça-feira, 19 de julho de 2011

ODE A FERNANDO PESSOA



ODE A FERNANDO PESSOA


ALCENOR CANDEIRA FILHO

Pessoa, genial pessoa
que me ensinou a mim
e a milhões de outras pessoas
que o início é o fim
do começo do meio
do mar sem fim.

Pessoa plural
porquanto um além doutros
que me ensinou a mim
e a muitos outros
que a lição sem igual é igual
à essência do superficial.

Pessoa de confusa coerência
poeta de louca lucidez
de um não convicto
sempre atentamente
alheio a tudo
ator/mentadamente
igual a todos
e sinceramente
fingidor
a ponto de fingir que é dor
a dor do alcoólico
tabagista
solitário
esquizóide
fóbico
compulsivo
depressivo
mediúnico...

imortal morto de Portugal
e do mundo todo total
que entre o tudo e o nada
por não ser pensador
pensou sem pensar
e que entre o nada e o tudo
por não ser sonhador
sonhou sem sonhar.

poeta de bastantes importantes lições
você contudo Pessoa
com ser mestre
não me ensinou a mim
nem a outras pessoas
em suas largas preces
se rezar é sonhar
ou pensar
ou se as duas coisas juntas
ou se nem uma coisa nem outra


- mas tão somente
ORAR, ou seja:
balbuciar



silenciosa
e simplesmente
alguma coisa
que só o céu
pode escutar.

2011



Belíssima ode dirigida, com o coração (pelo louvor) e com a razão( pelo conhecimento lúcido) a um poeta que, ao lado de Camões, embora as diferenças de tempo e de estilos, não se esgota em ganhar admiradores, pesquisadores, analistas, críticos e leitores comuns mas amantes da poesia no mais alto sentido que o termo possa alcançar. Não é necessário conhecer toda uma obra de um poeta como Pessoa para que de sua produção, sempre crescente em novos inéditos, se possa dele falar com orgulho e  grandeza.
Alcenor, ao que me parece, lhe faz comovida homenagem de poeta para poeta sem servilismos acachapantes mas com a dignidade de dar ao leitor o alcance estético e humano que a poesia do bardo luso atingiu na alma de outro poeta, um poeta do Piauí. de Parnaíba.
Conhecendo um pouco de pessoa, nem é preciso sublinhar o diálogo ou o monólogo( não sei) que Alcenor neste poema manteve com relação a aspectos gerais e cruciais da poética pessoana. A ode é aqui um resumo, nos interstícios intertextuais, indispensáveis nesta composição poética para dizer o mínimo do máximo e com justiça do dever intelectual de um leitor-poeta a um poeta de dimensão universal.
Cunha e Silva Filho 

Poeta Elmar. Que você e Alcenor Candeira Filho têm marcado a fogo a poesia piauiense, que é a mesma brasileira, é um fato inconteste! Que a caneta corre frouxa nos seus dedos, não deixa dúvida! Mas que a poesia ODE A FERNANDO PESSOA, em homenagem ao aplaudido  poeta português: Fernando Pessoa, é uma pérola à Parte, isso não se pode desacreditar. E olha! vocês já escreveram coisas belíssimas, em termos de literatura!  Nesse poema, o poeta parnaibano Penetrou com uma sensibilidade íncrível no veio poeta de Fernando Pessoa. E na dança das palavras, deitou e rolou naquilo que vocês mais gostam de fazer: poetar. Obrigado por nos brindar, publicando, tão lindos versos, tão bem traçada poesia . Wilton Porto