quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A POESIA COMO ELEMENTO DE CRIAÇÃO DA ARTE LITERÁRIA



Daniel Castello Branco CIARLINI 

A Emoção cria o Ritmo;
O Ritmo produz a Beleza;
A beleza desperta a Emoção!
Manuel do Carmo.

RESUMO: o presente trabalho tem como objetivo analisar o sentido da palavra poesia e a sua
influência no ato da criação literária. Parte, inicialmente, do conceito aristotélico para então chegar à essência da expressão metafórica do “eu”, diferenciado em três tipos: “eu-social”, “eu-odioso” e “euprofundo”. Trata-se de uma análise científica à base de uma pesquisa bibliográfica de críticos literários como Boileau-Despréaux (1979), Moisés (2003), Ivo Korytowski (2008), Bosi (2006), Machado de Assis (1946) e Carlos Bousoño (1966). Verificaremos que a importância criadora do elemento poético para os textos literários reflete-se não no plano estilístico de uma estrutura concreta, mas através do abstrato, em um dado momento imaginativo de produção, ou seja, exteriorização do “eu”, de cuja voz ativa resulta a própria arte literária.

PALAVRAS-CHAVES: Poesia. Literatura. Criação.

1. Considerações iniciais
Quando estudamos a arte poética, somos conduzidos a apreciá-la sob dois pontos de
vista: Material (concreto) e imaterial (abstrato). A poesia, no sentido explorado deste artigo,
está situada no plano imaterial, adequada à subjetividade, diferente, portanto, das demais
manifestações literárias como o poema e a prosa, que se situam no campo estético, estilístico.
Sendo os dois campos muito vastos – muitas vezes confundidos –, e a poesia uma
manifestação que transcende as barreiras da literatura, incidindo, inclusive, sob as demais
artes, restringimo-nos, pois, a analisá-la em seu aspecto criativo e essencial à produção
literária, como ponto de partida ao entendimento da mudança de seu estado primitivo
(imaterial) à concretude da escrita configurada polivalente e carregada de sentimento.
Conforme veremos, e como dita a concepção tradicional, a poesia é a essência que
conduz o autor à vontade e o leitor à contemplação da arte. Como não está relacionada ao
campo estético, torna-se comum a todo e qualquer ser humano conscientemente são: “A
poesia é algo tão natural que mesmo pessoas sem instrução formal, homens simples do povo,
às vezes se revelam exímios poetas” (KORYTOWSKI, 2008, p. 7).
A problemática que conduz contemplar a poética em dois prismas de entendimento,
embora não comum, ainda hoje se reflete no ambiente de ensino, no que tange o saber básico
do aluno, e a não especialização docente, por confundirem e/ou dar sentido simples ao
conceito histórico, e etimologicamente amplo, da poesia.
Como diz o verbete do dicionário Aurélio (2001, p. 578), a poesia significa, de forma
denotativa: “Arte de criar imagens, de sugerir emoções por meio de uma linguagem em que se
combinam sons, ritmos e significados”; nesta, e em outras tantas definições práticas, ela
aparece relacionada, apenas, a um sentido estritamente material, e sem análise às concepções
individualistas dos estados emocionais que influem de maneira transformada do abstrato para
o concreto. Entendemos, aqui, abstrata, a poesia, e concreta, a sua estrutura poemática, ou
seja, o poema, a prosa literária e seus respectivos gêneros, enfim, quaisquer manifestações
artísticas que têm por limite o apuramento intelectual lírico através das letras.
Nosso objetivo, portanto, será a leitura da poesia, em suas diferentes dimensões, na
construção da literatura. Para isso, trabalharemos um dialogismo entre autores de diferentes
correntes teóricas como Boileau-Despréaux (1979), por sua visão filosófica e à linha de
Aristóteles, Massaud Moisés (2003) e Ivo Korytowski (2008), que seguem a concepção
estruturalista, Alfredo Bosi (2006), pela explanação e teorização, necessárias, das escolas
literárias das quais se expressa a poesia diferentemente, Machado de Assis (1946) e Carlos
Bousoño (1966), pela visualização abstrata e ampliada acerca do fenômeno poético. Estes
autores nos conduzirão a um estudo que enxergará a poesia expressa nos mais diversos
períodos da arte literária, hoje, pelos críticos e teóricos, divididos, a fim de didática, em
escolas; assim, veremos, também, as singularidades da poética e as formas com que se
manifesta nos gêneros lírico e épico, e quando, e até quando, neste, ela está desenvolvida.
Para isso, analisaremos as características e as formas do “eu-poético”, fator decisivo à
compreensão da imaterialidade poética.
Voltando ao campo de ensino, a diferença que não se costuma, portanto, ensinar da
poesia, como elemento abstrato, e do poema, como elemento concreto (objeto literário), por
exemplo, se deve ao fato natural de se entender, em suas etimologias, as duas palavras como
análogas. De acordo com o nosso estudo, o poema se trata, apenas, de uma ferramenta auxiliar
para a expressão do eu-poético (poesia), não obstante, aquele que transmite e indica uma
carga de sentimentalismo através dos signos linguísticos, até então latentes, não
transformados, senão pela interpretação. Para Boileau-Despréaux (1979), a interpretação da
poesia a partir de um objeto literário trata-se de um processo inverso ao ato criativo, já que
tende da racionalidade para a emoção, ou seja, do concreto para o abstrato: “A sabedoria,
expressa em mil escritos famosos, foi anunciada aos mortais, com auxílio dos versos; e por
toda a parte, seus preceitos venceram os espíritos, introduzindo-se pelos ouvidos, e entrando
nos corações” (BOILEAU-DESPRÉAUX, 1979, p. 69-70).
2. Algumas questões
Quando tratamos a poesia sob jugo de algo abstrato, importante é considerar a sua
essência e o verdadeiro sentido da palavra, já indicada pelo conceito aristotélico como
“filosófica e de caráter mais elevado que a história”, o que nos remete aos princípios da
diferenciação entre o universal (a poesia) e o específico (a história): “[...] é evidente que não
compete ao poeta narrar exatamente o que aconteceu; mas sim o que poderia ter acontecido, o
possível, segundo a verossimilhança ou a necessidade” (ARISTÓTELES, 2007, p. 43).
Este caráter universal, na concepção de Moisés (2003, p. 81-2), é atribuído a um
“indivíduo de determinada natureza, pensamentos e ações que, por liame de necessidade e
verossimilhança, convém a tal natureza”. Para o poeta e crítico literário espanhol Carlos
Bousoño (1966, p. 23), a universalidade não está associada aos “pensamentos e ações que, por
liame de necessidade e verossimilhança, convém a tal natureza”, porque “el pensiamento que
en ella reside no es, en postrer esquematización, nuevo”, ou seja, pensamentos e emoções
nada mais são que uma releitura de mundo e de indivíduo, nada há mais de novo.
Horácio chega a comparar, em um sentido mais amplo, os poetas aos pintores, quando
diz: “Os pintores e poetas sempre tiveram o comum privilégio de tudo ousar” (HORÁCIO
apud BOILEAU-DESPRÉAUX, 1979, p. 55), pensamento este reforçado e ampliado pelo
espanhol, anteriormente citado, quando refere que “La pintura menos figurativa, la poesía más
metafórica, existen en cuanto que se refieren a la vida, y pensar lo contrario es ignorar que los
seres humanos no podrían interesarse por un supuesto arte que no los implique de un modo o
de otro” (BOUSOÑO, 1966, p. 28).
A ousadia citada por Horácio é vista por Boileau-Despréaux (1979, p. 41) como “a
habilidade agradável de um pincel delicado transforma o mais horrendo objeto num objeto
fascinante”, logo, tanto para o poeta como para o pintor, a realidade não é tal qual a
enxergamos, mas como queremos ou podemos, através de nossas sensações e emoções,
distinguir ou criar, isto é, na concepção aqui exposta, a beleza que a poesia nos faz perceber
intrinsecamente.
No saber de Bousoño (1966, p. 43), “El término „poesía‟ es más amplio que el término
„poema‟”. E conforme pontuou Hermes Vieira (19--), a respeito do pensamento de Órris
Soares, o fazer literário, mais precisamente o verso (poema), pode tanto ser construído ao
crivo de poesia como não.
Por seu estado lírico e abstrato, a poesia, como expressão elevada da subjetividade,
“tensão dialética entre vários pares, um dos quais constituído de emoção e pensamento”
(MOISÉS, 2003, p. 174), possui, ainda, caráter de modificador da língua, a-narrativo, ahistórico e, por consequência, a-temporal. Partindo, então, deste pressuposto, notar-se-ão
relevantes diferenças da poesia para a prosa não literária, e a sua consonância com os gêneros
literários, pois sendo a literatura uma linguagem que se desenvolve “como uma constelação
de signos carregada duma enorme taxa de subjetividade” (idem, ibidem p. 34), ou “um tipo de
conhecimento expresso por palavras de sentido polivalente” (idem, ibidem, p. 37), não
estranho fica, portanto, classificar a poesia não como produto, mas veículo que conduz a este
sentido. A par e passo disto, chega-se à constatação de que ela age como núcleo literário,
elemento criador que propaga, através das ferramentas que a literatura aplica no campo de
produção subjetiva, o verdadeiro ato criador, a inspiração e o lirismo, transmitidos pelo artista
em um dado momento fecundo de criação; o sentimento transgredido do abstrato para o
concreto. Como afirma Moisés (2003, p. 90), “A poesia está em nós”, ou seja, está num
conjunto de fatores que desencadeiam a sensibilidade do receptor em interação com a obra
vista.
2. Correntes teóricas
Frederich Hegel (1770-1831), filósofo alemão, sob o ponto de vista metafísico, definiu
a poesia como o “reino infinito do espírito” (HEGEL apud MOISÉS, 2003, p. 84). Suas ideias
foram acolhidas pelos literatos da escola do Romantismo, que também entendiam a poesia de
forma imaterial, consoante à própria vida, como afirmou Bosi (2006, p. 96):
A poesia, o romance e o teatro passam a existir no momento em que as idéias e os
sentimentos de um grupo tomam a forma de composições, arranjos intencionais de
signos, estruturas ou ainda, para usar do velho termo rico de significados humanos,
no momento que os assuntos viram obras (grifo do autor).
Nesta mesma linha, e após a febre parnasianista, que se relacionava unicamente à
estética, os simbolistas retomam os valores abstratos da poesia, classificando-a em um plano
ainda maior: O místico; portanto, integrada a uma espécie de “vida cósmica”, diferenciandose, desta maneira, do pensamento da “arte pela arte”.
Conforme destacou Bosi (2006, p. 263):
[...] recusavam-se a limitar a arte ao objeto, à técnica de produzi-lo, a seu aspecto
palpável; ambos, enfim, esperam ir além do espírito e tocar, com a sonda da poesia,
um fundo comum que susteria os fenômenos, chama-se Natureza, Absoluto, Deus ou
Nada.
Embora tenha existido, da idealização do Romantismo até o Simbolismo, um período
avesso à imaterialidade poética, que foi o Parnasianismo, notamos, porém, que esta visão
estética, material, da poesia, não era acatada com unanimidade pelos parnasianos. Assim foi
que Machado de Assis, considerado o maior prosador brasileiro, e um dos maiores
representantes do parnasianismo no Brasil, como crítico, em prefácio à obra de Enéas Galvão,
“Miragens”, contrariou a visão parnasianista ao enxergar que a arte poética não se constitui
apenas da pureza estética, como também do elemento de inspiração que dá vida a uma obra de
arte, do qual denominou poesia; para tanto, aconselhava, nas páginas alheias, o autor àquele
poeta, até então aspirante ao parnaso nacional, Machado de Assis (1946, p. 338-9):
[...] no esmero do verso não vá ao ponto sem cercear a inspiração. Esta é a alma da
poesia, e como toda alma precisa de um corpo, força é dar-lh‟o, e quanto mais bello,
melhor; mas nem tudo deve ser corpo. A perfeição, n‟este caso, é harmonia das
partes.
Aprofundando o pensamento machadiano, Bousoño (1966) alerta que a poesia não está
relacionada à comunicação ou percepção do sentimento, “evocación serena de impresiones y
de sensaciones”, mas à sua contemplação, visto que se acaso fosse sentida, todas as sensações
do autor se refletiriam no leitor de igual maneira e intensidade, Bousoño (1966, p. 21):
[...] la poesía no comunica lo que se siente, sino la contemplación de lo que se
siente. Si el poema comunicase lo que se siente, cuando el autor escribiese que le
dolían las muelas, le dolerían las muelas al lector; cuando escribise que estaba
enamorado, el lector se enamoraria.
Ainda não diferindo deste plano imaterial da poesia, o famoso crítico Middleton
Murry enxergava-a como a “expressão natural dos mais violentos modos de emoção pessoal”
(MURRY apud MOISÉS, 2005, p. 77). Todas estas ideias complementam a base de um longo
período que identifica a poesia como elemento incorporado ao campo do abstrato, e de cujas
bases serão revistas, apenas, a partir do Formalismo Russo e do New Criticism. Estas duas
correntes teóricas e críticas da literatura surgiram no limiar das primeiras décadas do século
XX, na Ásia e na América do Norte, respectivamente, e abordavam a poesia de forma
materialista, “A poesia é linguagem em sua função estética” (JAKOBSON apud FRANCO
JÚNIOR. In: BONNICI & ZOLIN, 2005, p. 95), reverenciando, neste caso, as estruturas
auxiliares que compunham os recursos poéticos como transmissão cognitiva, já exploradas, na
segunda metade do século XIX, pelos parnasianos.
Embora se concentrasse na reflexão da estrutura estética, o New Criticism,
diferentemente do Formalismo Russo, compreendia que além de uma carga puramente
racional, a poesia, não apenas em sua essência como, de igual maneira, à sua significação,
compunha, também, um leque de entendimento situado em um patamar de difícil
classificação, mas que poderia ser percebido num campo racional-emotivo, cujas mensagens
transgredidas em símbolos a tornavam peculiar e, por isso, relevante: “A poesia triunfa porque
tudo ou quase tudo que nela se diz ou se encontra implícito é relevante [...]” (WIMSATT &
BEARDSLEY apud FRANCO JÚNIOR. In: BONNICI & ZOLIN, 2005, p. 106).
Já tendo explorado algumas correntes acerca da poesia, retomemos sua origem
etimológica grega (poiesis), que nos remete a uma imagem abstrata, relacionada ao ato de
criar, aqui entendido, pois, em seu sentido imaginativo (MOISÉS, 2003, p. 81). Aristóteles,
primeiro filósofo a tomar nota do fenômeno poético em estudo, por sua vez, sabia que para o
seu perfeito ciclo, ou seja, autor/leitor, “a poesia reclama ânimos bem dotados ou capazes de
se entusiasmarem” (ARISTÓTELES, 2007, p. 64), em outras palavras, sabia o filósofo que
sendo a poesia um estado emocional do qual o artista torna concreto, esta concretização nada mais é que um apanhado de símbolos que auxiliam, ou provocam, no espectador, sensações
individualistas; ao que pressupomos: A codificação do artista dificilmente será a
decodificação do espectador. A partir disto, constrói-se a distinção entre forma e fôrma, em
que consistindo a primeira em abstração, sentimento, ato criativo; a segunda exerce uma
função concreta, como de ferramenta, de “invólucro” (CORTEZ & RODRIGUES, 2005, p.
61) carregado de elementos que conduzem o leitor a pistas que decodifiquem as angústias e
alegrias expressas pelo autor no ato criativo. Há, porém, críticos que inferem a interrelação
entre abstrato e concreto de tal maneira que, sem as estruturas fônicas, morfossintáticas, ou
mesmo semânticas, “a poesia está morta ou rasteja sem vigor e o poeta não é mais que um
prosador tímido” (BOILEAU-DESPRÉAUX, 1979, p. 46). Em síntese, a poesia, no sentido de
criação, é a arte não transformada, e a sua forma expressa, em verso ou prosa literária, é a
própria arte concluída. Assim, retomemos a afirmação construtivista que impunha que a
poesia “está em nós”, não no objeto, onde experiências e/ou conhecimentos prévios é que
mediam, individualmente, o seu grau de intensidade: “a la transmisión verbal de un contenido
psíquico particular que nuestro espírito ha conocido previamente” (BOUSOÑO, 1966, p. 63).
Para Moisés (2003, p. 217):
A poesia é, ao fim de contas, a procura de uma palavra que, intuída nas brumas do
poema a escrever, se torna o ponto de partida de toda a criação poética: o poeta
desdobra em infinitas metáforas a palavra que não conhece ainda, mas que paira
sobre o seu afã de exprimir-se, como um norte ignorado e implícito, ao qual
estivesse imantado sem saber.
Neste sentido, a poesia surge como o sentimento primitivo e próprio do ser humano,
este, por sua vez, a fim de torná-lo codificado, precisa utilizar de convenções para que ela se
torne expressão.
3. Das características da poesia
A poesia possui em sua essência características que a tornam peculiar em sentido de
transformação da realidade concreta. São elas que a configuram num patamar amplo e não
específico, como é o caso das limitações do verso e da prosa.
Antes de tratarmos de sua primeira característica, que é a de modificadora da língua,
necessário se faz a compreensão do que se é, enfim, a língua.
Para Ferdinand Saussure (2006, p. 24), a língua “é um sistema de signos que
exprimem idéias, e é comparável, por isso, à escrita, ao alfabeto dos surdos-mudos, aos ritos
simbólicos, às formas de polidez, aos sinais militares”. Com este pensamento, o mestre
genebriano da linguística sincrônica deixa claro que a língua, em si, pode se caracterizar, tal
qual já nos foi aqui estudado sobre poesia, de duas maneiras, concreta e abstratamente. Assim,
concluímos que a poesia, como elemento modificador da língua, está relacionada aos fatores
que influem, por exemplo, a transformação semântica que as palavras sofrem através das
figuras de linguagem, expressas tanto na escrita quanto na fala. As figuras de linguagem,
como a metáfora, o eufemismo, a metonímia, entre outras, principais ferramentas que
modificam a língua a partir da poesia,
La necesidad de justeza, de propiedad expresiva es, por conseguiente, el origem de
los procedimientos o sustituciones líricas: es la razón de su frecuencia, tanto em la
poesía escrita como em la hablada; tanto em las composiciones literarias, cuanto em
las frases del lenguaje ordinario (BOUSOÑO, 1966, p. 72, grifo do autor).
estão, segundo o crítico espanhol, presentes não apenas em nossa manifestação literária como,
também, em nossa fala cotidiana, sendo, por isso o motivo pelo qual:
[...] hablamos com metáforas o com esqueletos de metáforas, com onomatopeyas o
com esqueletos de onomatopeyas; gran parte de nuestro léxico és, em efecto, o
sincrónica o etimológicamente metafórica (idem, ibidem, loc. cit).
Moisés (2003, p. 89) também acentuou esta mesma visão modificadora da poesia à
realidade, condição que faz com que entendamos que “a obra toda de um poeta é uma
macrometáfora ou uma polimetáfora”. Para Bousoño (1966, p. 63), este caráter modificador é
que dá o real sentido ao ato poético, a condição necessária para a sua existência: “la labor
poética consiste em modificar la lengua: el poeta ha de trastornar la significación de los
signos o las relaciones entre los signos de la lengua porque esa modificación es condición
necesaria de la poesía”.
“O tempo da poesia é o tempo da palavra” (MOISÉS, 2003, p. 149), com isto, o citado
deixa claro que o tempo explorado na poesia não é o mesmo explorado na história, eis o
motivo de ser considerado “a-temporal” ou, antes, “a-histórica”; o tempo na dimensão poética
está mais relacionado ao “carpe diem, a efemeridade da existência, a saudade do passado, as
incertezas do futuro, enfim, tudo quanto constitui, desde sempre, matéria de angústia e
meditação [...]” (idem, ibidem, p.147, grifo do autor) que se refletem através da decodificação
dos signos linguísticos. Usemos, pois, uma citação que, apesar de se relacionar ao gênero do
poema, não declina a visão ampliada à prosa literária, Moisés (2003, p. 149-150):
[...] o tempo da poesia se manifesta na enunciação das palavras que constituem o
poema; a sucessão de vocábulos articula-se num tempo que não é histórico, nem
psicológico, nem mítico – é um tempo imanente, gestado pela enunciação dos signos
verbais e numa seqüência irrepetível, pois cada poema é único.
Conforme veremos no capítulo seguinte, a análise das diferentes formas de
manifestação do eu-poético pode nos levar ao pensamento de que o eu-social, por exemplo,
localizado no campo da poesia épica, por situar o leitor em um plano histór ico-narrativo, não
sustente o caráter “a-histórico”, e por cantar os anseios de uma nação, não o situe em um
estado “a-narrativo”, todavia, valemo-nos da expressão que dita que o “eu-poético” não influi
sobre o tempo em seus sentidos específicos, ou seja, nas três dimensões conhecidas:
Cronológico, psicológico e mítico; o tempo poético é mais amplo, ele está como “substância
da poesia (ou/e do poema), o tempo da poesia (ou/e do poema), o tempo no qual a poesia
transcorre, não o tempo a que se refere, nem o tempo gasto na leitura” (MOISÉS, 2003, p.
147-8), sua análise, portanto, tende, sempre, no campo da poética, para uma quarta e única
dimensão, agregadora das demais dimensões, embora, com elas, não se confunda: “o tempo
da poesia pode conter laivos de cada uma das três dimensões, sem identificar-se com qualquer
uma delas” (idem, ibidem, p. 148). No geral, o tempo da poesia segue uma regra: “principia
no tempo histórico e finaliza no mítico” (idem, ibidem, loc. cit). É como se pudéssemos, ainda
na visão de Moisés (2003), dizer que a poesia se movesse em um tempo, mas esse tempo não
pudesse ser medido pela História, porque está localizado na enunciação das palavras, estas,
por sua vez, estabelecem vínculos à “natureza rítmica, emotiva e conceptual ou semântica”
(MOISÉS, 2003, p. 150), o que nos faz recordar o já dito acima, em que a poesia não é
produto, mas veículo que conduz à expressão do sentimento.
Em resumo, a quarta dimensão, que configura o tempo da poesia, é a da dialética,
razão pela qual se utiliza dos elementos emotivo, rítmico, semântico e, até, gestual.
4. Das diferentes formas de manifestação do eu-poético
Na construção poética, existem dois “eus”. Embora o núcleo da poesia seja o “eu do
poeta”, em outras palavras, o impulso sentimental que conduz a emoção tornar-se explícita,
analisaremos aqui o “eu-poético” (a emoção explicitada), meio este com que o “eu do poeta”
usa para tornar-se expressivo, forma com a qual o artista vê, se enxerga e se expressa no
mundo: “um „eu‟ tornado objeto de um „eu‟ sujeito” (MASSAUD, 2003, p. 140); neste caso,
objeto, o eu-poético, sujeito, o “eu do poeta”. Como este artigo tem por finalidade a expressão
da poesia como ato de criação, eis que necessário se faz analisar o “eu-poético”, por ser ele o
“eu do poeta” manifestado.
Através dele, o autor, de certa forma, “dialoga” com o leitor. Trata-se da representação
interior, a forma com que captamos a nossa realidade e a exprimimos, e que na visão de
Bousoño (1966), constrói-se em três estados interrelacionados: o conceitual, o sensorial e o
sentimental. Estes estados, na linguagem de Moisés (2003), recebem nomes diferentes: “eusocial”, “eu-odioso” e “eu-profundo”; nomenclatura esta que, aqui, utilizaremos. Embora
separados pelos autores, cada um deles, em apuração artística, tendem para uma mesma razão,
“revelar o que há de belo, de hediondo e de trivial o que há no mundo o que é nosso”
(CORTEZ & RODRIGUES, 2005, p. 88), papel este que configura a poesia como um todo
refletido em palavras. Sobre este todo, Moisés entende que “A Poesia não aprisiona o todo,
mas a sua imagem refletida num espelho, a imagem reduzida do todo da realidade, a
condensação do real com todas as suas partes originárias” (2003, p. 220).
Em primeiro caso, o “eu-social”, manifestado na épica, o escritor se coloca em contato
direto com o mundo, não prevalecendo, nele, a essência individualista (intimista), mas os
fatos e as cotidianidades que influem sob sua percepção de existência. Neste sentido,
observam-se as inércias e ascensões que caracterizam os ditames sociais, e o “eu” coloca-se
na dualidade de aceitação ou rejeição, qualidade esta, inclusive, que explica o ser ou, antes, o
“eu”, inserido numa estrutura sociológica ambígua, própria da estrutura psicológica,
diferenciando-se dela, porém, pela transportação desta visão interna para um contexto
histórico e em sintonia com o meio ambiente. Em outras palavras, o escritor reflete a sua
realidade sob realidades congêneres, buscando explicações através da natureza, crenças ou
mitologias, a razão que o esclareça como parte de um todo ou mesmo o entendimento deste
todo; vê-se, pois, com isso, uma preocupação com o externo, com o “não eu”, que, para
Moisés (2005), implica numa “dilatação do „eu‟”, diferente do lírico, focado, completamente,
em seu interior. O “eu” incorpora na sua voz a voz coletiva e passa a cantar e representar os
anseios de um povo, de uma nação. Esta reflexão é o que o diferencia dos demais estados
poéticos, já que “O poeta esteta seria, essencialmente, o lírico, e o poeta filósofo o épico”
(MOISÉS, 2003, p. 172).
Ainda Moisés (2003, p. 238):
[...] todo poeta “superior” tende para o épico. Dispondo em partes o pensamento,
observamos que o poeta épico se caracteriza pela dilatação do “eu” ao infinito de
suas possibilidades, a ponto de romper as próprias barreiras e invadir o plano do
“não-eu”.
Neste “não-eu” “As agruras poéticas deixam de ser aquelas do simples „eu-te-gostovocê-me-gosta‟ do verso drummondiano, para ser as que nascem das universais inquietudes
humanas: ser e não-ser” (idem, ibidem, p. 242). O caráter universalista do “eu-social” ainda é
classificado por Moisés (2003) de duas formas: Universalismo individualista e universalismo
universalista; ou seja, enquanto aquele “resulta do encontro e subsequente expressão das
universais e perenes inquietações humanas” (idem, ibidem, loc. cit), este “o poeta está voltado
integralmente no sentido de captar e expressar os grandes conflitos humanos situados via de
regra fora do seu „eu‟, e por casualidade identificáveis por ele” (idem, ibidem, loc. cit).
O “eu-odioso”, relacionado ao campo da poesia lírica, é, na realidade, o próprio “eu”
“que supomos que somos” (MOISÉS, 2003, p. 85), instável para consigo, muito bem
observado na literatura no período do barroco, onde o “eu” é sempre visto em dualidade, e é
neste campo que o “eu-odioso” de Moisés trava profundo dialogismo com o aspecto sensorial
de Bousoño, já que para o artista barroco “A paisagem e os objetos afetam-no pela
multiplicidade dos seus aspectos mais aparentes, logo cambiantes, com os quais a imaginação
estética vai compondo a obra em função de analogias sensoriais” (BOSI, 2006, p. 30).
No “eu-profundo” o ser visita o próprio interior e faz uma releitura, a partir da
imaginação e da sensibilidade, dos demais “eus”. É, pois, neste “eu” que está centralizada a
poesia, e dele se desenvolve todo o processo da literatura. Como afirma Moisés (2003, p. 85),
é a camada íntima:
[...] onde se depositam as vivências decorrentes do contacto com o mundo exterior, e
transfiguradas pelos outros “eus” e pela imaginação, recalques, complexos, etc.,
reino de caos, anarquia, alogicidade, composto de sensações vagas, difusas, ainda
não verbalizadas, impermeável ao mundo exterior, salvo na medida em que abriga
os arquétipos, analogias profundas entre o inconsciente individual e coletivo.
Como se vê, o “eu-profundo” é uma espécie de subconsciência que absorve,
compreende e transforma profundamente um plano subconsciente em consciente, e através
dos signos, figuras e gêneros o coloca na superfície. Dos “eus”, o mais ampliado. Seu caráter
de busca pela compreensão, a partir da percepção e da anamnese, e expressão
verossimilhante, o faz dialogar com os níveis da materialidade e imaterialidade ao mesmo
tempo.
5. Considerações finais
O estudo da poética é um campo muito vasto e palco milenar de discussões entre
teóricos, filósofos e tratadistas. Isto se deve pela importância que teve, e tem, para a produção
da arte e, em especial, à literatura. Como dito pelo teórico Moisés (2003), “[...] a poesia
remonta aos inícios da cultura ocidental, e presidiu ao nascimento de todas as literaturas. E
não só inaugurou as literaturas ocidentais como nelas predominou durante séculos”
(MASSAUD, 2003, p. 80).
Seus entendimento e implicação confundem-se, por vezes, à análise da própria
essência humana: Uma parte se liga ao sentimento, que dá vida ao objeto; e a outra, ao estudo
deste objeto, como meio de se chegar a mais pura forma do estado lírico de um mundo
transcendental, situado, talvez, paralelo ao que vivemos, e que na filosofia de Platão
denominou-se o “mundo das ideias”.
Uma sentença, porém, pode ser defendida: Há poesia em toda e qualquer manifestação
que gere, em reflexão ao nosso íntimo, uma carga emotiva. Sua existência, se colocada restrita
ao campo literário, independe de signos linguísticos, embora estes auxiliem como espelhos a
sensibilidade humana. A poesia está em tudo quanto se resuma em conotação ou polivalência.
Se houvesse uma regra da qual pudéssemos utilizar para bem defini-la, poderíamos
dizer que a poesia é a própria ferramenta que transforma o sentimento em arte, e que a arte,
sem a poesia, é apenas um objeto, à procura de uma interpretação lírica para, enfim, tornar -se
artístico.
6. Referências
ARISTÓTELES. Arte poética. São Paulo: Martin Claret, 2007.
MACHADO DE ASSIS. Crítica literária. São Paulo: W. M. Jackson, 1946.
BOILEAU-DESPRÉAUX, Nicolas. A arte poética. São Paulo: Perspectiva, 1979.
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 45.ª edição, São Paulo: Cultrix,
2006.
BOUSOÑO, Carlos. Teoría de la expresión poética. 4.ª edição, Madri: Gredos, 1966.
CARMO, Manuel do. Consolidação das leis do verso. São Paulo: Casa Duprat, 1919.
CORTEZ, Clarice Zamonaro; RODRIGUES, Milton Hermes. Operadores de leitura da
poesia. In: BONNICI, Thomas; ZOLIN, Lúcia Osana. Teoria literária: abordagens
históricas e tendências contemporâneas. 2.ª edição, Maringá: Eduem, 2005, p. 57-89.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio: século XXI. 2.ª edição, Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
FRANCO JÚNIOR, Arnaldo. Formalismo russo e new criticism. In: BONNICI, Thomas;
ZOLIN, Lúcia Osana. Teoria literária: abordagens históricas e tendências
contemporâneas. 2.ª edição, Maringá: Eduem, 2005, p. 93-107.
MOISÉS, Massaud. Criação literária: poesia. 18.ª edição, São Paulo: Cultrix, 2003.
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de lingüística geral. 27.ª edição, São Paulo: Cultrix,
2006.
VIEIRA, Hermes. Humberto de Campos e sua expressão literária. São Paulo: Cultura
Moderna, (19--).
KORYTOWSKI, Ivo. Manual do poeta. Rio de Janeiro: Ciência Moderna, 2008.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO


Charges: Gervásio Castro

24 de agosto

O LANÇAMENTO DE POEMITOS DA PARNAÍBA

Elmar Carvalho

Quando as coisas têm que dar certo, até o acaso parece conspirar para isso. Certo dia, encontrei-me com o advogado Valdeci Cavalcante, que havia sido meu professor no curso de Direito da UFPI, nas escadarias do Tribunal de Justiça, por pura casualidade. Aproveitei para lhe entregar meu livro PoeMitos da Parnaíba, que por sorte conduzia em minha pasta, junto a papéis da burocracia oficial. Espontaneamente, sem nenhuma insinuação de minha parte, ele me perguntou se eu não gostaria de lançá-lo em Parnaíba, através do SESC, pertencente ao sistema FECOMÉRCIO, do qual é ele dinâmico presidente. Diante disso, fiz os devidos contatos com a equipe da instituição em Parnaíba, através da coordenadora de eventos, Lili Machado, e tudo aconteceu na mais perfeita ordem e organização, de acordo com o que fora planejado. Nessa empreitada, muito contribuiu o Fernando de Castro, irmão do genial chargista Gervásio Castro, autor das belas ilustrações dos poemas, tanto nos contatos comigo e com o SESC, como nos contatos entre este e seu irmão, bem como no assessoramento à confecção dos grandes banners, com os textos e as charges, que ficarão expostos na Galeria Carlos Guido até o dia 30 de setembro.
Lili Machado, Mestre Ageu, Elmar, Cego Bento e Janaína Sampaio

Vicente de Paula, Zé de Maria, Elmar e Cosme Sousa
O evento foi bastante divulgado pela equipe do SESC, através das emissoras de TV parnaibanas, dos portais e blogs noticiosos, de convites e folders, cabendo ressaltar a beleza e funcionalidade destes últimos. A TV Costa Norte fez uma excelente cobertura da exposição, dando-lhe um bom espaço, em que falei da concepção dos PoeMitos e de algumas figuras retratadas na obra. Recitei o poema Bar do Augusto, com que extemporaneamente encerrei essa série poética, ainda inédito em papel impresso, com o qual homenageei as figuras emblemáticas e legendárias de Dourado e dom Augusto da Munguba, templário mor do Recanto da Saudade. A Lili Machado complementou as minhas informações e acrescentou outras. A equipe dessa TV filmou minuciosamente os banners com os textos e as charges, para melhor ilustração da reportagem televisiva.
Flagrante da exposição

Janaína Sampaio, Fernando Gomes e B. Silva
Na noite de sexta-feira, dia 19, aconteceu o lançamento, com bela apresentação, seguindo roteiro bem elaborada pelo cerimonial. Segundo consta, de meus “poemitos” apenas três continuam vivos: Cego Bento, admirável sanfoneiro do mais legítimo forró pé de serra, Mestre Ageu, verdadeiro Pigmalião e mago da arte escultórica, e Bernardo Carranca, inenarrável e inimitável cantor/ator, mestre de improvisadas performances músico-teatrais. Os dois primeiros se fizeram presentes, e ficaram exultantes com as homenagens recebidas. A professora Rossana Silva, em gesto de profunda generosidade e compreensão humano, leu para o Cego Bento o poema em sua homenagem, e lhe descreveu a charge estampada no banner, em que ele surfa na crista de uma onda, ao som mágico de sua sanfona, em cuja ilustração não faltou o detalhe de um coco da praia e a elegância esbelta e flexível de um coqueiro. Quanto ao Marechal, existem muitas controvérsias e dúvidas sobre se morreu ou se está vivo; tenho para mim que ele ficou encantado, nem morto nem vivo, visível e invisível, num reino mítico, a ostentar seus galões, galardões e condecorações.
Alcenor Candeira Filho
Alcenor Candeira Filho, mestre da poesia e da prosa, inexcedível orador, excedendo-se a si mesmo, fez uma brilhante palestra sobre este poeta e sobre o autor das charges, Gervásio Castro, que telefonou do Rio de Janeiro, para dizer que estava num boteco, do qual já estava de saída para comparecer espiritualmente à solenidade, à qual gostaria de estar presente também de corpo. Mas estava bem representado por seu irmão Fernando de Castro, igualmente extraordinário chargista e artista plástico, além de arquiteto. Como eu estava dizendo, o Alcenor proferiu excelente improviso, com sua boa voz de dicção irretocável, em que teceu pertinentes comentários sobre os textos e as ilustrações, além de discorrer sobre a amizade que o liga fraternalmente ao poeta e ao chargista, há várias décadas. Em seguida, leu um texto que escreveu para o lançamento anterior, ocorrido há mais de ano, por todos aplaudido entusiasticamente. Na verdade não saberia dizer qual o melhor, se o texto escrito ou se a peroração ao sabor do improviso, em que não vislumbrei um único equívoco, titubeio ou gaguejar.
Idelmar Cavalcante Jr. e Rossana Silva
Rossana Silva, uma das melhores professoras de literatura de Parnaíba e do Piauí, e Idelmar Cavalcante Jr., professor de História, e grande contista, de vertente moderna, em que a narrativa e a descrição de cenários são diluídos e mitigados ao longo do texto, foram os responsáveis pela mesa de discussão denominada “Literatura e Oralidade: uma síntese poética dos tipos humanos da velha urbe parnaibana”. Rossana leu um texto escrito, na verdade um pequeno ensaio, em que ministrou lições de história da Linguística, empreendendo uma passeio no tempo, da antiguidade aos dias atuais, para demonstrar que PoeMitos da Parnaíba contém recursos da oralidade, e não apenas da linguagem escrita e culta. O professor Idelmar fez uma abordagem compatível com vertentes da historiografia contemporânea. Disse que o livro poderia ser útil a historiadores, vez que a História não deveria falar apenas das grandes personalidades, mas também das figuras miúdas, que compuseram o cenário humano de uma cidade, que contribuíram para a construção de uma cidade, através do trabalho, da arte, da cultura e até dos costumes, delineando a sua paisagem humana. Foi uma bela mesa de discussão, em que aspectos instigantes da oralidade foram abordados com percuciência e acuidade pelos dois conferencistas.
O ator Fernando Silva
Em suma, foi uma magnífica festa da literatura, como disse em minha breve fala, em que agradeci ao poeta Alcenor Candeira Filho por suas generosas palavras, que tanto emocionaram meus pais, especialmente meu genitor, de natureza acentuadamente emotiva, bem como à equipe do SESC, que se excedeu em cuidados para que a solenidade pudesse ter o brilhantismo que teve. De maneira especial cito os nomes de Janaína Sampaio, gerente do SESC/Avenida, de Lili Machado e do sonoplasta Manuel, aos quais agradeço pelo esmero na realização do evento e pela atenção que dispensaram a todos os convidados. A Janaína e a Lili tiveram todo o cuidado com o Cego Bento e Mestre Ageu, pessoas idosas, e dois dos maiores artistas populares de Parnaíba, sobre os quais já tive o ensejo de escrever também trabalhos em prosa, em que lhes abordei a vida e a arte.
Foi exibido o clipe Parnaíba no Coração, em que faço um depoimento de meus tempos e labutas na cidade, em que falo do meu encantamento pela paisagem do litoral piauiense e da importância das amizades que construí e conservo, e em que recito os meus poemas que enaltecem a velha urbe, com belas imagens citadinas e praianas. Como corolário da festiva noite de cultura, Fernando Silva apresentou uma performance de sua autoria, em que ele, travestido de jardineiro letrado e amante inveterado de livros, leu alguns PoeMitos e outros textos, com invulgar capacidade interpretativa, que bem revelou o competente ator que ele é.
Lili Machado, Diá, Fátima, Elmar e Sérgio Prado
Compareci acompanhado por meus pais, minha mulher, minha irmã Maria José, cunhada e dois sobrinhos. Vários amigos estavam presentes, entre os quais cito, numa enumeração apenas exemplificativa e incompleta: Canindé Correia, Vicente de Paula (Potência), B. Silva, Wilton Porto, Sérgio Ximenes do Prado e Cosme Sousa. Também compareceram vários confrades e amigos da Academia Parnaibana de Letras e do Instituto Histórico e Genealógico de Parnaíba, entre os quais ressalto Dilma Pontes e Dr. Carlos Araken, além do vereador e conterrâneo Fernando Gomes. Como se tudo isso não fosse o bastante, ainda foi servido lauto coquetel, com fartas e variadas iguarias, para deleite e confraternização dos convidados. Ou para escândalo de nossos estômagos, como disse o mítico Pacamão, em célebre carta dirigida a Dom Filipe Conduru Pacheco, primeiro bispo da Diocese de Parnaíba, comunicando o nascimento de uma das “edições” de seu amor, que ainda se encontrava em estado anônimo, aguardando a nomeação do registro público e da pia batismal.
Flagrante do coquetel

terça-feira, 23 de agosto de 2011

CONVERGÊNCIA


ALCIONE PESSOA LIMA

Eu vejo assim. Tem gente que vê assado.
De olhos arregalados...
E eu, nem aí, de peito lavado...
Não acho nada tão feio, tampouco exalto o belo.
E, então, pergunto:
Para que sapato e gravata? Melhor é andar de chinelo!
O homem é o que a sua história revela.
Cabeça, tronco e canela.
A vida é essa novela...Reflexos da vaidade!
E todos querendo achar o caminho da felicidade.
Mudam-se as direções, o modo e as emoções...
Mas todos convergem ao um ponto, que a outros pontos se une,
Formando a linha da vida, que é cara para ser vivida.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

NO REINO DO SURREAL


NO REINO DO SURREAL

I – FUTEBOL

Elmar Carvalho

último rei
          dec/apitado
fiz o gol
          da vitória
com minha própria
          cabeça
nas traves da guilhotina
(e o goleiro era o carr’asco)

sábado, 20 de agosto de 2011

A PROFISSÃO DOS PEIXES

Rubervam Du Nascimento





“A Profissão  dos Peixes”, de Rubervam du Nascimento, 150 págs., 1987, Teresina, PI,  é uma edição do próprio autor.  


DEPOIMENTO MAIS QUE NECESSÁRIO

Francisco Miguel de Moura*


Pelos meados dos anos 70, tempo do boom e do desbunde, da ficção e da revista Cirandinha, quando Leila Diniz já se tinha ido e a fobia dos generais comia os cordeiros poetas da todamérica, inclusive no Brasil, onde o Nordeste era menos cabra da peste e mais o país-dos-coitadinhos, nesta Teresindia dos rios Poty e Parnayba, eis que numa boca-de-noite aparece em minha casa um rapaz bigodudo como um gato preto, desengonçado, inquirindo as menores coisas da vida e do mundo para entender as grandes navegações que fazíamos, os filhos do silêncio, neste planeta de espanto. E não vinha só, trazia debaixo do braço um calhamaço de muitas páginas bem cuidadas, em forma de livro, e me queria opinião.
 
Fui-lhe sincero como sempre sou: “Quer deixar, deixe; não garanto o tempo, que eu não tenho pressa para a arte”.
 
Pouco sabia eu que minha pressa não-transparente menos transparecia ainda em Rubervam du Nascimento (1). Assim mesmo o seu nome esquisito, com uma ligação sonora tal qual se fala: d = u = du.  Era certeza já? Era dúvida? Não, era só de teimosia. Que tempos revoltos para Rubervam, meus irmãos! Era a revolução política, era a revolução nas artes, e a revolução dele no corpo e na alma, na vida e na lida.

Digo isto para remembrar, dez anos depois, ou mais...  Continuamos no jornal, na revista, nas coletâneas, e na repartição do pão de cada dia e do sono de cada noite.
 
Agora temos Rubervam du Nascimento aqui, e outro: Poeta crescido até mais não poder mais, com A Profissão dos Peixes, ovo que vi naquele calhamaço de lembrança e raiz e no qual acreditei.

Contei a única história que tinha para contar, em poucas linhas, de nosso primeiro encontro de poetas – eu já, ele ainda. Que quereis mais que diga sobre a A Profissão dos Peixes?  É um balbucio como de crianças. Quem sabe o que elas dizem? E elas dizem tão profundamente que chega a gente a adivinhar. A poesia de Rubervam parece com ele mesmo, não é singular isto? Poderia tecer comentários sobre as metáforas intrigantes como a de aprendiz de peixe, atividade que o poeta se atribui (2).  Farei noutro lugar, onde possais ler e reler, e rir do crítico.
 
Mesmo assim, reconheço que o cachimbo de crítico me faz a boca torra, e encaminho-vos para essas poucas observações, quando na leitura de Rubervam du Nascimento:

- A singular disposição das palavras no verso e do verso no poema (espaço, repartição, vocabulário, sintaxe entrecortada etc.);
- O artesanal encadeamento num todo-tempo, formando sua visão épico-lírico-dramática fundamental e fundadora do mundo (3);
- E as metáforas e figuras encadeadas e entrelaçadas, umas sobre as outras, tornando o texto denso e difícil, mas não obscuro.
 
Se se pode lembrar um grande poeta relativamente ao conteúdo, no momento me ocorre Fernando Pessoa, também um épico moderno, naquele Poema em Linha Reta, o poema da porrada (4). Porque o livro de Rubervam du Nascimento é um livro sonhado, vivido e até sofrido, mas não confessional, haja vista a poderosa dose de invenção ou re-invenção dos seus personagens e símbolos: os peixes podres e as pipas, os miguelitos, as manhãs de canoa entre Teresina e Timon, e a infância na palavra perdida e reencontrada na Ilha de Si Mesmo.
 
Como um detetive que se detém nas menores coisas, o poeta está na palavra, na raiz da palavra, no sumo da palavra, no fio da palavra. Vai buscá-la mais feia e sem sentido e lhe dá alma, parte e reparte, junta e agrupa umas às outras na tentativa de restaurar a verdade do homem, onde o grito primal e os demais sons são os elos da vida, da inteligência e do sentido do ser (5).

A poesia vem quando o homem se quebra, a totalidade deixa de existir e o homem acredita num deus decaído – ele mesmo – o homem moderno.
 
A propósito, cabe lembrar uma passagem de Theodore de Banville, num tributo ao poeta Charles Baudelaire: “Foi capaz de conferir beleza a visões que não possuíam beleza em si, não por fazê-las  romanticamente pitorescas, mas por trazer à luz a porção de alma humana ali escondida.” (6)

Era isto que eu queria dizer-vos de Rubervam du Nascimento e não tive palavras. Pois fique dito: - O poeta é grande e a poesia, maior; poesia que não morre e se morrer vai demorar muito, porque é um rastro de cometa, caminho de luz na escuridão do mundo.
________________________
Notas:
 1 - “O poeta palavra poeta / pra que tudo / no homem / se inicie”
(A Profissão dos Peixes, pg. 24);
  2 - “O não / pastor de almas / mas aprendiz / peixe”. (Idem, pg.23);
  3 - “Reafirmo nas constantes remontagens dos textos e dos anos a     difícil tarefa de domar a vida e a palavra no corpo do poema” (Idem, pg. 14);
 4 - “Nunca conheci quem tivesse levado porrada / Todos os meus conhecidos têm sido campeões de tudo (...) / Eu, que tenho sido vil, literalmente vil, / Vil, no sentido mesquinho e infame da vileza.” (Fernando Pessoa, Poema em Linha Reta, in Obra Poética, Nova Aguilar, Rio, 1983, pg. 352); 
 5 – “Escuto som que insisto / não / verbal / em nome dele me acho / sem fala não há urgência / principal / mente na escrita (A Profissão dos Peixes, pg. 23);
6 – “Ele não aceitou o homem moderno em sua plenitude, com suas fraquezas, suas aspirações e seus desesperos. Foi assim capaz de conferir beleza a visões que não possuíam beleza em si, não por fazê-las romanticamente pitorescas, mas por trazer à luz a porção de alma humana ali escondida; ele pode revelar, assim, o coração triste e muitas vezes trágico da cidade moderna. É por isto que assombrou, e continuará a assombrar a mente do homem moderno, comovendo-o, enquanto outros artistas o deixam frio.” (Tudo o que é Sólido se Desmancha no Ar, Marshal Berman, pg.130, Caminho das Letras, 1987).

____________________________    
*Francisco Miguel de Moura, poeta, ficcionista e critico literário, editor da Revista Cirandinha, membro da Academia Piauiense de Letras, residente em Teresina - PI.
E-mail: franciscomigueldemoura@superig.com.br          

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

INSTALAÇÃO DA VILLA DE SÃO JOÃO DA PARNAHIBA



Vicente de Paula Araújo Silva “Potência”

A Villa de São João da Parnahiba, foi criada em 1761, e diferentes das outras villas , ela e Valença do Piauy, deixaram de cumprir a ordem real para instalação das mesmas nas sedes das freguesias. João Pereira Caldas, governador da Província de São José do Piauy, em 18 de agosto de 1762, na Igreja Matriz da freguesia de Nossa Senhora do Carmo da Piracuruca, presidiu reunião com moradores da região, para tratar da instalação da sede da Vila , sob o comprometimento dos presentes, em construir casas de moradas no local, num prazo de um ano. Assinaram o documento, o Vigário da Igreja Matriz, e pessoas influentes da Freguesia.
Mas, já naquele momento, os ricos fazendeiros Diogo Alves Ferreira (Diogo Álvares Ferreira de Véras) e José Lopes da Cruz , residentes em Frecheiras e Burití dos Lopes, respectivamente, comandaram o movimento para que a sede e as casas, fossem construídas no lugar “Cítio dos Barcos”, na beira do Igaraçu, onde havia florescido em 1711, a Villa Nova da Parnahiba, também conhecida como Villa de Nossa Senhora de Monserrathe da Parnahiba.
Havia a previsão e outros interesses, de que sendo a sede da vila no litoral, o local seria o arraial Testa Branca. Entretanto, a realidade, é que o Sítio dos Barcos(atual Porto das Barcas), era um porto mais seguro, e já existia uma pequena infra-estrutura, contendo 05 oficinas de beneficiamento de carne e courama bovina, bem como, a antiga igrejinha de Monserrathe, onde, na época, era venerada Nossa Senhora de Nazareth, santa de devoção da influente família Abreu Bacellar, estabelecida na região.
Para a verificação das proposições, foi enviado ao litoral, Manoel Francisco Ribeiro - Escrivão das Missões e Deligências- que ignorando o Testa Branca, prestou informações apenas da existência do “Cítio dos Barcos”, onde além dos prédios mencionados, haviam duas casas habitadas pelos cidadãos José Pinheiro e Apolinário Godinho , bem como, outra de Luiz Carlos Pereira de Abreu Bacellar, em que residiam alguns escravos. Esse, fato foi atestado pelo próprio emissário do Governador da Província, através de documento assinado em 12/10/1762, na capital , Oeiras do Piauy,
Antes, em 26 de agosto de 1762, dentro dos procedimentos legais para a instalação da Villa, foram empossadas as primeiras autoridades e membros do Senado da Câmara, assim constituídas :
- Juiz Ordinário e dos Órfãos, e Capitão-Mor das Ordenanças
Diogo Alves Ferreira (Diogo Álvares Ferreira de Veras)
- Vereadores
José da Costa Oliveira e Domingos Alves Barroso
- Procurador-Tesoureiro
Manuel de Sousa Guimarães
- Sargento-Mor
João Lopes Castelo Branco (filho de José Lopes da Cruz)
Posteriormente, após, algumas disputas políticas, já no governo de Gonçalo Lourenço Botelho de Castro, prevaleceu a influência das famílias “ Véras” e “Lopes Castelo Branco”, consolidando-se o atual Porto das Barcas, como a sede legal, onde prosperou a Villa de São João da Parnahiba, hoje a cidade da Parnaíba, originária, em termos de existência, da Villa Nova da Parnahiba, surgida sob a égide de Nossa Senhora de Monserrathe, posteriormente adotada por Nossa Senhora de Nazareth, e hoje abençoada por Nossa Senhora Mãe da Divina Graça.
Outrossim, é importante salientar que a data 26/08/1762, foi efetivamente a data em que Parnaíba, iniciou suas atividades legislativa e administrativa, independente da Igreja Católica, passando a vivenciar legalmente a condição política de Villa de São João da Parnahiba.
Parnaíba, é o município brasileiro que contempla através de Lei Municipal, três datas magnas de sua existência , e neste ano está comemorando a sua história de “300 anos de Villa Nova da Parnahiba” , 249 anos de “Villa de São João da Parnahiba”, e 167 anos de “Cidade da Parnaíba” .

Phb, 18/08/2011-Vic.-

Da Série : Estórias a Respeito da História da Parnaíba

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO


18 de agosto

PARA ONDE VÃO OS CIGANOS?

Elmar Carvalho

Surgiu ontem o boato, não sei se inteiramente verdadeiro, de que um alcaide de cidade vizinha do Médio Parnaíba teria “mandado” para Regeneração um bando de ciganos, que teriam ficado acampados no centro da urbe. Consta que teriam vindo num ônibus escolar do município remetente. Os comentários diziam que, na verdade, os ciganos desejavam ir para Floriano. Diante desse último rumor, alguém deu o palpite de que seria melhor para a municipalidade regenerense fornecer transporte para que eles seguissem para o destino desejado. Um espírito, não sei se de porco, mas com certeza mais voltado para o interesse econômico local, “palpitou” de que melhor seria devolvê-los à origem ou encaminhá-los para Amarante, bem mais perto que Floriano. O imbróglio nodoso ainda está por ser desatado.

O fato é que os ciganos, que outrora eram predominantemente nômades, hoje se fixam nas cidades por muitos anos ou para sempre. O zunzum dava conta de que vários dos componentes do bando nasceram em cidades do Piauí. Com razão ou sem razão, com preconceito ou não, eles sempre foram vistos com desconfianças e suspeitas. Muitos os associam a negócios escusos ou, pelo menos, a cometerem espertezas em suas atividades e escambos. Contam-se casos jocosos, anedóticos, acontecidos em suas práticas, digamos, comerciais. Dizem que um zíngaro propôs vender um cavalo muito bonito a certo homem, que, desconfiado, por causa da má fama cigana, inspecionou o animal com extremo cuidado, sem encontrar nenhum defeito. Sem acreditar na hipótese de que o animal não tivesse alguma deficiência oculta, perguntou ao vendedor se aquele quadrúpede não tinha mesmo defeito. O outro respondeu laconicamente:
- Ganjão, o defeito está na vista...
O comprador entendeu que ele estava a dizer que o alazão era perfeito, e o comprou. No dia seguinte, descobriu que o cavalo era cego de um dos olhos. Encontrou o vendedor e propôs o desfazimento do negócio, uma vez que houvera ludíbrio. O cigano se manteve irredutível:
- Ganjão, eu lhe avisei que o defeito estava na vista! – e deu o caso por encerrado.

Não sei como será resolvido esse caso dos ciganos. Mas isso me fez recordar que, nos tempos em que eles eram nômades, a vagar por diferentes cidades e povoados, um bando deles armou suas tendas, em meados dos anos 1960, num terreno baldio perto da casa em que eu morava. Os gitanos armaram suas tendas e exibiram suas bugigangas mercantis, às vezes produtos artesanais que eles mesmos fabricavam. As mulheres, geralmente morenas, com grandes brincos e pulseiras, vestiam longas saias coloridas. Os homens usavam grossos colares. Menino, eu observava os grandes tachos de cobre em que as ciganas coziam os alimentos; usavam, em abundância, pimentões e tomates, e eu achava que aquela comida deveria ser muito saborosa. Confesso que cobicei degustar aquela iguaria, que nunca provei, mas cujo cheiro ainda mexe com o meu imaginário. Ficou um travo de coisa proibida, cobiçada, mas nunca provada.

As donas de casa tinham receio das visitas das gitanas, pois havia a suspeita de que elas furtavam objetos dos lares, ao menor descuido da proprietária. Corria o boato de que elas pediam, às vezes, um copo d' água, para com esse artifício subtraírem pequenas coisas ou mesmo dinheiro. Liam as mãos em troca de dinheiro. Algumas pessoas desejavam que elas lessem o seu passado, outras, o futuro. Algumas, pragmáticas ou medrosas, diziam que não desejavam tal leitura; que isso era apenas perda de tempo e de dinheiro, porquanto o passado já era de seu conhecimento, e o futuro também o seria, no tempo certo. Se a predição fosse ruim, iriam sofrer por algo que não acontecera e que, talvez, nunca viesse a acontecer. Seria melhor não saber, não antecipar os acontecimentos. E assim caminham os ciganos e a humanidade – entre a verdade e a mentira, entre a sinceridade e a falácia, entre o passado e o futuro, buscando o possível equilíbrio na corda bamba da vida.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO



Antônio Souza na grande arte de João de Deus Netto

17 de agosto


ALGUNS COLEGAS DO ESTADUAL

Elmar Carvalho



Um pouco antes do início da solenidade de lançamento do livro “Educação e Educadores de Campo Maior”, de Sílvia Melo, conversei brevemente com sua irmã, a ex-deputada Margarida. Perguntou-me ela sobre em que época fomos colegas de estudo e sobre os nomes de nossos condiscípulos. Respondi-lhe que fomos colegas no Colégio Estadual, onde fiz a terceira e a quarta série do antigo ginásio, a envergar seu uniforme azul e branco, nos anos 1971 e 1972, salvo engano. Foram nossos professores, entre outros, Dr. Hilson Bona, Francisca Teresa Andrade, Luís Francisco Miranda, Eidene, Aracéa de Araújo Rodrigues e o advogado e colega de meu pai no antigo DCT, Francisco das Chagas Moreira e Silva – Dr. Chaguinhas, que nessa época ainda se aventurava a jogar bola; era pai do meu amigo Zé Moura, que ficou na história do futebol campomaiorense. Nesse período, foram diretores do Colégio Estadual a professora Maria Zenita Almendra Pires Ferreira e o jovem advogado Carlos Antônio Souza.


Em 1975 fui embora de Campo Maior. Como não mais voltei a morar em minha cidade, é natural que tenha esquecido o nome de muitos de meus colegas de turma dessa época. De alguns recordo a fisionomia, mas não o nome. Não mais revi vários deles. Casualmente, tive a oportunidade de reencontrar menos de meia dúzia, ao longo desses 36 anos. A vida junta e a vida se encarrega de separar, cada um com as suas circunstâncias e injunções, na luta renhida pela sobrevivência. Além da Margarida Melo, fui colega da Jandira Leite Cavalcante, do Pedro, filho do senhor Agostinho da Água Branca, do Deus Luís, do Valdemar Higino, do Celso, do Otaviano Furtado do Vale e do Antônio Francisco Souza. O Otaviano era uma liderança esportiva. Irmão do grande craque Augusto César, de quem, no meu livro O Pé e a Bola, tive a oportunidade de dizer: “quarto zagueiro, bom no domínio, boa visão, inteligente (também bom no arremesso de copo)”. Em sua posição, com seu estilo clássico, elegante, foi considerado um dos melhores atletas de Campo Maior, tendo atuado em time da capital. Sobre o Otaviano, no referido livro, disse: “Recordo o campo próximo ao colégio Leopoldo Pacheco, em Campo Maior, onde jogava bola todo dia, sob a liderança do amigo Otaviano Furtado do Vale, o Tavico, jogador rápido, hábil e vigoroso, que transitava pela defesa e pelo ataque, funcionando como um coringa e líbero, com atuação predominantemente pela lateral esquerda; era uma espécie de capitão dos dois times, mas tinha o defeito de não gostar de perder, por mais amistosa que fosse a partida”.

O Deus Luís era filho do senhor Luís Pinto, dentista prático e colega de meu pai no velho DCT. Era uma inteligência viva e tinha notável senso de humor. Fazia gozação na base do improviso, aproveitando-se de eventual gafe dos colegas. Tornou-se funcionário de um banco federal. O Pedro formou-se em Direito e exerce a advocacia. O Celso, ao que me parece, era o mais velho da turma. Concentrado, focado sempre na explanação dos professores. Morava para os lados da estação ferroviária. Não tive mais notícias desse bom e aplicado colega. O Valdemar Higino tornou-se servidor do INCRA e hoje é maçom da melhor linhagem, respeitado pelos irmãos. A Jandira era filha do senhor Valdemar Cavalcante, que foi amigo de meu pai, mormente nos tempos da juventude. Graças a ela, que conseguiu um preço camarada com seu pai, como comemoração de nossa colação de grau, como se dizia na época, fomos, num dos ônibus da empresa V. Cavalcante, passar um final de semana em Fortaleza. Foi a primeira vez em que vi “os verdes mares bravios” de José de Alencar. Jovem e ainda um tanto afoito, acostumado apenas com as mansas ondinhas de nosso pequenino Açude Grande, fui “tirar onda” com o Atlântico; ao “pegar um jacaré”, imitando um banhista cearense, acostumado com as manhas das marés, fui levemente arrastado pela onda. Isso me ensinou a ser mais cauteloso, e a tentar driblar os perigos, pois, como já dizia Vinicius de Moraes, são demais os perigos desta vida. Por falar nesse grande menestrel, injustamente chamado de poetinha, vez que é um poetão, recordo que a Margarida tinha um álbum, em que anotava alguns poemas de sua predileção, sendo que um deles era um soneto da autoria desse bardo.

O Antônio Souza residia na Rua do Sol, de poético e brilhante nome, mas jogava futebol no campinho do Leopoldo Pacheco. Era também uma liderança do esporte, e organizava torneios pebolísticos. Atuei em algumas partidas por ele organizadas, a defender o time do Bartolomeu, hoje economiário, primo do amigo Zé Francisco Marques, que me recordou esse fato. O Assis Capucho, hoje neurologista respeitado em São Paulo, primo do Otaviano, também era craque desse time. O Antônio foi um dos colegas mais brilhantes que tive. Era bom em todas as disciplinas, fossem elas da área de ciências exatas, fossem da área de humanidades. Tinha uma memória elefantina, prodigiosa, e sabia de cor a escalação de vários times. E ao que parece não precisava estudar em disciplina espartana, a se martirizar em longas horas de estudo, porquanto jogava todo dia e frequentava as festas do Campo Maior Clube e do Grêmio Recreativo (e, talvez, ainda atacasse em bailes periféricos e alternativos, fora as tertúlias caseiras, então na moda).

Durante muitos anos não tive notícias dele. Localizou-me através da internet, e frequenta meu blog, com relativa assiduidade. De vez em quando, posta comentário. Recentemente, comentou no blog Bitorocara, do João de Deus Netto, dois pequenos trechos de uma matéria que escrevi sobre meus ancestrais. Eis o que ele disse: “É sempre bom ver as intervenções do meritíssimo Elmar Carvalho. Como escreve fácil. Esse dom, aliás, era notório nessa grande figura, na época em que éramos colegas de classe, no glorioso Colégio Estadual, quando tínhamos um amigo comum e também um colega de sala de aula, o Otaviano do Vale, irmão do craque Augusto César, becão de primeira dos melhores times de Campo Maior. Elmar já era um poeta, esse dom veio do berço. Hoje, se revela um grande magistrado. Eu bem que pensei em seguir o Direito, mas vi que não era minha praia, acabei 'virando' jornalista”. E o educandário, com muita justiça, acabou virando Colégio Estadual Jornada Ampliada Professor Raimundinho Andrade, em homenagem a um dos maiores homens da história recente do município. Sempre achei que o Antônio seria um engenheiro civil, pois na época do Estadual era essa a vocação que ele dizia ter. Mas os caminhos e os mistérios da vida também são demais e insondáveis. Tornou-se um notável jornalista em Cuiabá, diretor de um grande portal noticioso, e mereceu receber o título de Cidadão Matogrossense. Esse seu comentário foi postado um pouco depois de a Margarida perguntar pelos nossos colegas. Não sei se foi mera coincidência. Dizem que não existe acaso.