domingo, 4 de dezembro de 2011

Um Natal quase na solidão


CUNHA E SILVA FILHO

Naquela velhíssima Casa de Estudante da Rua Senador Pompeu, chamada CESB (sigla para Casa do Estudante Secundário do Brasil), Centro do Rio de Janeiro, ano de 1965, para onde fui graças à bondade de um amigo de Amarante que nunca mais vi, e sobre o qual nem mesmo sei se ainda vive no Rio ou se voltou ao Piauí. Infelizmente, nunca mais soube dessa criatura séria e solidária. Só espero que tenha sido muito feliz na vida.
Eu me preparava para o vestibular da Faculdade Nacional de Filosofia, curso de Letras. Como não tinha dinheiro para pagar o chamado curso pré-vestibular, a única saída que encontrei era estudar sozinho confiante também no meu preparo trazido das escolas de Teresina.
O exame do vestibular era realizado pela própria faculdade escolhida e constava de três provas: língua portuguesa, língua latina e língua inglesa, esta última compreenderia uma prova oral, um ditado, e uma prova escrita. As provas escritas, todas discursivas. As questões eram difíceis. A de latim abrangia tradução para o português seguida de questões gramaticais. Não foi fácil. Os examinadores apertavam na rigidez da correção. Preparei-me durante quase um ano e como local de estudos, usava a Biblioteca Demonstrativa “Castro Alves,” na Rua Treze de Maio, também no Centro. Parece-me que a biblioteca pertencia ao Instituto Nacional do Livro. Era excelente, tinha um bom acervo no campo das letras, bons dicionários, boa bibliografia em filologia, gramática portuguesa, literatura portuguesa, brasileira, universal, alguns bons livros didáticos de língua inglesa, de latim. Essa biblioteca não mais existe no antigo endereço. Disseram-me que o seu acervo havia sido transferido para uma anexo da biblioteca do Colégio Pedro II. Não sei se em São Cristóvão ou em outra unidade deste Colégio. Foi uma pena terem acabado com ela.
Certo é que, na Casa de Estudante, aos sábados e domingos, ficava estudando numa mesa grande da sala principal desse precário prédio.
Comigo também, no mesmo horário, compartilhavam da mesa dois colegas que se preparavam para o vestibular. Um, o Marinho, iria fazer exames para engenharia; um outro - o nome dele não me ocorre agora -, para medicina. Ambos eram, como eu, jovens pobres vindos do interior para a grande cidade carioca. Eram bons em matemática, estudiosos e de bom caráter. A Casa naqueles dois anos quase que lá passei, abrigava uns vinte jovens, a maioria de idade próxima. Mas, havia deles que eram bem mais velhos do que eu, aproximadamente de vinte e quatro a não mais de trinta anos. No geral, todos se davam bem e mantinham bom convívio.
Um outro colega já era estudante do segundo ano de engenharia da UFF (Universidade Federal Fluminense), de cujo nome não me lembro mais, sabendo que todos os outros moradores iam passar o Natal em algum lugar, e vendo que eu não tinha para onde ir passar o Natal, chegou-se até a mim e me disse: “Francisco, estou te convidando para no sábado, que é Natal, almoçarmos juntos. Você não vai pagar nada, tudo por minha conta, sim?” O convite inesperado encheu-me de alegria incomum. Aceitei de imediato. Meu colega e amigo se defendia dando umas aulas particulares em cursinho de pré-vestibular, aulas particulares. Assim, ia se defendendo.
O nosso almoço natalino foi num restaurante da antiga Mesbla, na Cinelândia, coração do Rio de Janeiro. Tudo transcorreu muito bem. Conversamos muito e eu particularmente estava muito contente com a companhia daquela amigo. Era um jovem moreno, magro, de estatura média, cabelos meio crespos, de olhar compenetrado, educado, sério, estudioso. Naturalmente, percebendo a minha solidão, a minha falta de dinheiro e sabendo, por observação, que eu era estudioso e com bom relacionamento com os moradores, logo pensou em conseguir uma forma de me tirar da solidão e do isolamento do sagrado feriado natalino. Foi o que fez o meu amigo estudante de engenharia que, hoje, se for vivo, deve estar também aposentado após ter seguramente exercido com dignidade a sua nobre e profissão.
Se não fosse ele, o meu Natal de 65 seria um desastre. Não tinha aonde ir, nem me atrevia a passar – sem ser convidado - na casa de algum parente que morava no subúrbio. Naquele período, deixei de frequentar casa de parente. Amargar um Natal sozinho no velho prédio da CESB era a última coisa que queria. Por isso foi tão providencial o convite do meu colega de moradia. Principalmente, porque esse feriado sempre me fora especial no tempo em que estava com meus pais lá em Teresina, com um Natal e a galinha assada esplendidamente preparada por mamãe.
Com hoje está tudo tão distante! Não, porém, sem as imagens daqueles anos de infância e adolescência, nem sem o badalar dos sinos da Igreja de São Benedito à meia-noite para a Missa do Galo. Não, porém, sem a alegria da ceia natalina, ouvindo as vozes queridas de papai e de mamãe e o burburinho álacre das vozes dos meus irmãos. Tudo se foi com o tempo. Tudo se foi com o silêncio e a eternidade querida daqueles que me deixaram na orfandade física e na orfandade da memória. Foram-se contra a minha vontade, mera vontade de um simples vivente também marcado com a natureza do efêmero.
Aquele almoço no restaurante da Mesbla com o jovem estudante de engenharia foi mesmo um presente de Natal que, de certa maneira, vinha suprir o vazio de minha imensa solidão na grande cidade.

sábado, 3 de dezembro de 2011

P E R F I S A C A D Ê M I C O S - ABDIAS DA COSTA NEVES


REGINALDO MIRANDA

Abdias Neves somente não figura entre os fundadores da Academia Piauiense de Letras porque naquela oportunidade encontrava-se no Rio de Janeiro, exercendo o mandato de senador da República. Porém, aderiu desde a primeira hora à nova instituição cultural, tomando assento em uma de suas cadeiras, a de n.º 11 e participando de suas atividades até quando faleceu em 28 de agosto de 1928, na cidade de Teresina. Naquele tempo era ele um dos três principais nomes da cultura piauiense, dividindo a liderança cultural com Clodoaldo Freitas e Higino Cunha, em torno de quem girava a vida cultural do Estado. Mais tarde, tornou-se também patrono da Cadeira n.º 33 da mesma Academia. Jurista, político, jornalista, professor, poeta, romancista e historiador, foi um dos mais ativos e respeitados intelectuais de seu tempo.
Nascido em 19 de novembro de 1876, na referida cidade de Teresina, era filho de João da Costa Neves, servidor público, e de Delfina Maria de Oliveira Neves. Foi casado com Cristina Neves.
Aos quinze anos de idade ficou órfão de pai, tendo de enfrentar desde cedo as asperezas da vida.
Fez o primário e os estudos preparatórios em sua cidade natal, de onde seguiu para o Recife, a fim de continuar sua formação. Concluiu os estudos jurídicos em 1898, sendo aprovado com distinção, na mesma turma de que fizeram parte os também piauienses Miguel Rosa, Henrique Couto, Laudelino Batista e Heitor Castelo Branco.
De regresso a Teresina, o bacharel Abdias Neves ingressou na magistratura, ocupando os cargos de Juiz de Direito nas comarcas de Piracuruca (1900 – 1902) e Marvão, hoje Castelo do Piauí (1902). Exerceu ainda os cargos de Juiz Substituto da Justiça Federal (1902 – 1914), Secretário de Governo (1914), Procurador Fiscal da Fazenda e Chefe de Polícia.
A par dessa brilhante carreira jurídica, ingressou no magistério, lecionando as disciplinas Inglês, Alemão e Lógica no Liceu Piauiense e Pedagogia, na Escola Normal Oficial do Estado.
Com essa intensa atividade, não tardou a ingressar na política, elegendo-se Senador da República para o período de 08/05/1915 a 31/01/1924. Foi o mais jovem da sua época, chegando a ocupar, sucessivamente, os cargos de 4º, 3º, 2º e 1º Secretário da mesa do Senado Federal, de 1919 a 1922.
Sobre sua estréia no Senado, lembra Monsenhor Chaves: “não foi muito auspiciosa. É que, após sua eleição, o marechal Pires Ferreira, num entusiasmo muito provinciano, havia comunicado à imprensa que Abdias era o Rui Barbosa do Piauí, que ia desbancar o outro Rui Barbosa, da Bahia. Quando desembarcou no Rio, franzino, de narigão vermelho, havia um ambiente desfavorável de prevenção e quase hostilidade contra ele. Mas Abdias não ia se opor a Rui; mesmo com a grande vaidade que possuía, não se considerava um Rui. Vivíssimo, simpático, insinuante, logo desfez a onda e se impôs nas afirmações de seu talento e de sua capacidade de trabalho”.
Intelectual irrequieto, desde cedo militou no jornalismo, distinguindo-se “pelo estilo enxuto, pela cultura, pela linguagem elevada e pela argumentação incisiva”, no dizer de Wilson Carvalho Gonçalves. Desde sua juventude dedicou-se às letras: aos 17 anos já era o redator principal de A Ideia e, posteriormente, fundou os jornais A Crisálida, A Notícia, O Dia e foi co-fundador de A Pátria e do Almanaque Piauiense. Foi também colaborador nos jornais O Redator, A Luz, o Norte, O Estafeta e o Jornal de Notícias, além das revistas da Academia Piauiense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí. Em 1906 escreveu uma série de artigos intitulados “Das Deutschtung In Sud-Brasilian”, negando a germanização do sul do Brasil.
Festejado pela crítica como um dos principais escritores piauienses, Abdias Neves publicou obras de valor histórico-literário, entre as quais se destacam: A Guerra do Fidié (1907), sobre a guerra da Independência no Piauí; Imunidades Parlamentares (1908), obra de cunho jurídico; O Padre Perante a História (1908), conferência; Um Manicaca (1909), romance de costumes e tipos piauienses; Psicologia do Cristianismo (1910); A Elegibilidade do Marechal (1910), versando sobre a eleição do Marechal Hermes da Fonseca; Autonomia Municipal – limites que lhe traçou a Constituição (1913); Direitos Políticos; O Brasil e as Esferas de Influência na Conferência da Paz (1919); O Piauí na Confederação do Equador (1921); Aspectos do Piauí(1926); Guerra dos Balaios; Política das Estradas de Ferro e Finanças da República; Os Mitos Solares dos Índios in Almanaque Garnier, 1908, páginas 238-240, dentre outras.
Foi, portanto, Abdias da Costa Neves uma das maiores inteligências do Piauí, atuando com brilho e distinção, por trinta anos, desde sua formatura até o óbito. Ao falecer, deixou uma lacuna irreparável na vida cultural piauiense.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

Fundadores da Loja Maçônica Hiram Abib nº 3069: 1ª fila: Acídio, Juscelino, Olímpio, Eurivan Sales, prof. Soares, Francisco Augusto e Ribamar Gomes; 2ª fila: Juvenal, Luardo, Edilberto, José Augusto Ximenes e Antônio Carlos; 3ª fila: José Ataíde, Carlos Cardoso (1º venerável), José João Magalhães Braga e Elmar Carvalho. 

2 de dezembro

EURIVAN – VERDADEIRO MAÇOM E MÉDICO

Elmar Carvalho

Outro dia, em Regeneração, fui procurado em meu trabalho por um soldado, que me trazia um bilhete/convite do irmão-maçom Eurivan Sales Ribeiro, em que ele me dizia para que eu não deixasse de comparecer à solenidade em que ele receberia o Título de Cidadão Teresinense, pois temia eu não recebesse o verdadeiro convite a tempo. Quando foi ontem, no fórum, ao meio dia, recebi o convite enviado pela Câmara Municipal de Teresina. Apressei minha vinda à capital, para não perder a justa homenagem ao nobre irmão. Ao chegar, à boca da noite, quando fui ler mais atentamente a data do convite, verifiquei que a homenagem havia acontecido no dia anterior, quarta-feira. A justa honraria lhe fora outorgada por proposição do vereador major Paulo Roberto Bezerra de Oliveira. Chateado com a minha falta involuntária, resolvi prestar-lhe este outro tipo de homenagem, conquanto infinitamente mais singela.

Conheço-o desde o meu tempo de neófito, na loja maçônica Monges do Tibet, através da qual cruzei os umbrais da sublime instituição, ao fazer as viagens iniciáticas e as progressões salariais até o grau de mestre. Depois, por razões que não vêm ao caso aqui relatar, juntamente com ele e vários outros irmãos, fui um dos fundadores da ARLS Hiram Abib, da jurisdição do Grande Oriente do Estado do Piauí – GOEPI. Eurivan foi o terceiro venerável da loja. Sempre respeitado na Ordem, por causa de suas posições claras, firmes, maçônicas, contudo sempre predispostas à conciliação e à fraternidade, em que as arestas e o egoísmo da pedra bruta são inexoravelmente desbastados.

Nascido no município de Brejo, Maranhão, veio para o Piauí em 1952, aos sete anos de idade. Sua mãe era natural de Brejo (outrora Brejo dos Anapurus), enquanto seu pai nasceu em Campo Maior. Contou-me, muitos anos atrás, que uma das coisas que mais admira, pela beleza bucólica, pastoril, é contemplar os rebanhos de carneiros, na época das chuvas, a pastarem o capim mimoso, nos tabuleiros ou nas suaves colinas campomaiorenses, atapetados de babugens. Já cantei essa paisagem em alguns de meus poemas. Quem chega à cidade de Campo Maior, vindo de Barras, contemplará a sinuosidade alongada da colinas; quem proceder de Altos ou de Cocal de Telha, admirará os planos tabuleiros, que se desdobram a perder de vista, pontilhados de carnaubeiras. Eurivan, portanto, admira o bem, o bom e o belo.

Em sua vida de luta e de salutar liderança, foi presidente da Associação dos Professores do Estado do Piauí, que deu origem ao atual Sindicato dos Trabalhadores em Educação Básica do Piauí – SINTE-PI. Foi candidato contra chapa tida como governista, que tentou lhe tomar o cargo, através de uma espécie de intervenção ou administração provisória, mas ele venceu a nova eleição, e se manteve no cargo. Em reconhecimento a sua liderança e esforço, o professor Wall Ferraz, em sua segunda gestão como prefeito de Teresina, o nomeou secretário municipal da Educação. Por duas vezes foi suplente de vereador, mas chamado a ocupar esse cargo na Câmara, preferiu declinar da convocação.

Professor de Química, enfrentou, já na idade madura, vestibular para o curso de Medicina, tendo sido aprovado. Fez esse difícil curso tendo que trabalhar, para sustentar a família. Quase aos 53 anos tornou-se médico, especializando-se em psiquiatria. Foi membro da Junta Médica de Saúde Psiquiátrica, da qual fazia parte o escritor Humberto Guimarães, membro da Academia Piauiense de Letras, que já narrou em alguns de seus textos as vicissitudes e tormentos da loucura. Tanto na vida particular, como na maçonaria e na medicina, Eurivan Sales Ribeiro é um homem desprendido, humanitário, humanista, fraterno, solidário, caridoso, virtudes que lhe ornam a rica personalidade de homem desprovido de empáfia.

Posso atestar isso porque, quando tive que lutar contra uma neoplasia, ele me visitou algumas vezes, em minha convalescença, tanto no hospital como em casa, e eu lhe pude sentir a energia benfazeja, positiva, e a sua palavra amiga, de força e incentivo. Nas minhas conquistas, pude sentir-lhe o regozijo; a alegria de quem fica feliz com os triunfos alheios. Por tudo isso posso dizer que o irmão Eurivan Sales Ribeiro é um verdadeiro médico e maçom, que fez por merecer a distinção honorífica que recebeu. Um médico e maçom que segue à risca o juramento de Hipócrates e o da Sublime Ordem, cujas colunas ele honra e ajuda a sustentar.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

Abertura do XXIX Encontro de Magistrados Piauienses


Os juízes Thiago Brandão, Carmem Ferraz e o empresário Raimundo Rios



1º de dezembro

NO CONGRAÇAMENTO DA AMAPI

Elmar Carvallho


O desembargador Lineu Bonora Peinado, do Tribunal de Justiça de São Paulo, ao falar sobre “A magistratura Brasileira e o Projeto do Novo CPC”, observou que no esboço inicial havia um dispositivo, que facilitava a concessão de liminar. O nobre magistrado posicionou-se contra ele, dizendo que a magistratura nacional não estava à procura de mais poder. Na verdade, o que se deseja é maior simplificação na ritualística processual, maior celeridade, mais praticidade e maior efetividade das decisões judicais, no sentido de que se tenha mais mecanismos para que elas sejam cumpridas, sem delongas, sem protelações. O desembargador mostrou-se simpático e acessível, tanto em sua exposição, como posteriormente, ao conversar com os colegas.
Juízes Manoel Soares, Elmar Carvalho, Dioclécio Sousa e Sebastião Firmino
Ressaltou, assim como havia feito anteriormente o desembargador Paulo Henrique Moritz da Silva, a contribuição de nosso colega Thiago Brandão, titular da Comarca de Água Branca, que atuou junto à Comissão responsável pela elaboração do Novo Código de Processo Civil, em tramitação no Congresso Nacional, cujo relator é o deputado federal Fábio Trad. Em e-mail que me enviou, o Thiago teve a humildade de consignar que a sua principal atuação na Comissão foi ter sido aluno dessas e de outras eminentes personalidades do mundo jurídico. O desembargador Lineu tem certa semelhança física, e até um pouco no timbre da voz, com o falecido Carlos Teixeira, procurador da Fazenda Nacional, que exerceu o cargo de delegado do Patrimônio da União no Estado do Piauí por vários anos, do qual fui aluno no Campus Ministro Reis Velloso, da UFPI, em Parnaíba, já falecido há mais de duas décadas em desastre automobilístico.
Como eu não tivesse em meu carro nenhum de meus livros individuais, mas apenas a antologia de poetas brasileiros contemporâneos, intitulada Vozes na Paisagem, editada em 2005 pelas Edições Galo Branco, tendo como organizador o escritor Waldir Ribeiro do Val, um dos maiores estudiosos do grande poeta parnasiano Raimundo Correia, resolvi presentear o eminente magistrado Lineu Peinado com essa obra. Além de seu assessor e magistrado Marcos, abrilhantavam a mesa de que ele fazia parte no Clube da AMAPI os juízes Thiago Brandão, Leonardo Trigueiro, Rafael Paludo, Luiz Henrique Moreira e outros colegas e amigos. Fazem parte da coletânea, entre outras ilustres personalidades, A. B. Mendes Cadaxa, Anderson Braga Horta, Aglaia Souza, Antonio Miranda, Aricy Curvello, Astrid Cabral, Jorge Tufic, Francisco Miguel de Moura, José Jeronymo Rivera, José Santiago Naud e Lélia Coelho Frota, que estão consagrados como integrantes do mais importante rol da lírica nacional contemporânea.
Por essa razão, reconhecendo ser eu um dos mais pálidos bardos da seleta, ao lhe entregar o livro, depois de devidamente autografado, fiz questão de dizer:
- Desembargador, eu sou mesmo um cara metido, um enxerido, e aí estou no meio desses altos nomes, como um penetra!...
O colega Thiago Brandão, com a sua conhecida lhaneza, mas evidentemente em flagrante exagero, disse que eu era um “grande poeta” e um sofrível goleiro. Como eu tenha ficado “carrancudo” com a qualificação “goleirística”, o colega me promoveu a goleiro razoável ou regular; como ainda assim eu fingisse ter ficado chateado, o Thiago, em sua generosidade, em ascendente gradação, terminou me qualificando como um bom goleiro. Aí, escancarei o meu melhor e mais simpático sorriso, e me despedi, não sem antes recomendar que procurassem no Google a crônica http://poetaelmar.blogspot.com/search?q=quem+te+ensinou+a+voar [quem te ensinou a voar], que conta a minha saga de guarda-metas, golquíper, guarda-redes, ou ainda goleiro. E mais não disse e nem precisaria dizer. Esse texto falará por mim.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

QUATRO POETAS DO PIAUÍ


CANÇÃO MELANCÓLICA

Clóvis Moura

Nasci coberto de luas.
Minha mãe silenciou:
vai ser poeta das ruas,
e o vaticínio acertou.
Por isto nas praças públicas
meu verso se faz fumaça,
ama o silêncio, a penumbra
que os cadáveres fabricam
ou o riso emurchecido
dos vagabundos notívagos.
Dentro da noite navego
no meu barco sem comando
enquanto o mundo transita
em um mar feito de gritos.
Solto nuvens sonolentas
com o meu verso de fumaça:
que importa se ele naufraga
se sou poeta que passa?
A Santa me olha solene:
será Saudade ou tristeza?
Fico perdido na dúvida
e me duplico: incerteza.

Por isto é que sou poeta
pois a mãe sentenciou:
não caminho em linha reta
e fujo do que já sou.

Extraído de LB – Revista da Literatura Brasileira, nº 6

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS


A MÃO DO DIABO

Elmar Carvalho

João Brígido era dono de seu próprio caminhão, financiado pelo Bradesco. Era trabalhador como poucos o são. Algumas vezes, para não atrasar as prestações, fazia uso de comprimidos contra o sono, conhecidos como arrebites. Quando de folga, em Picos, gostava de ir a algum cabaré ou ponto de encontro, para beber e ficar com alguma mulher. Não raras vezes, ainda estava sob efeito do arrebite quando começava a ingerir bebida alcoólica, o que lhe deixava bastante eufórico e “fora de tempo”, como se estivesse numa quase desgovernada “banguela”, ladeira abaixo. Sóbrio, não havia melhor pessoa, mas tomado pelo álcool era um tanto turbulento, precipitado, impulsivo e por vezes temerário, já tendo se envolvido em brigas e confusões.

Numa dessas vezes, já bastante alcoolizado, e ainda sob o efeito de energético, que potencializou o efeito da bebida, foi até sua casa, onde morava em companhia de sua mãe, uma velhinha viúva. Fora pegar mais dinheiro para gastar num cabaré situado perto do povoado Gaturiano, na beira da BR. Guardou a chave num jarro, colocado sobre um móvel. Tomou um banho, às pressas, e retirou parte do dinheiro que guardava para pagar a prestação do carro. Sua mãe implorou para que ele não saísse, tanto porque ele já estivesse embriagado, como para que ele não gastasse o dinheiro que mal dava para pagar a parcela. O caminhoneiro se irritou com a mãe, e disse que nem o diabo o impediria de voltar ao cabaré. A velhinha, abraçando-se a ele, pediu-lhe, pelo amor de Jesus, que se deitasse um pouco, até cessar o efeito da embriaguez. Mas ele deu um safanão em dona Florisa, e foi à procura da chave. Não a encontrou onde supunha tê-la colocado. Imediatamente achou que sua mãe a escondera, e perguntou, aos berros, onde ela a escondera. A mulher disse não ter feito o ato de que era acusada, e o abraçou novamente, sendo repelida com um tapa na face.
- Tenho fé em Cristo que a tua mão não mais se levantará contra mim, disse a velhinha a chorar.

Como um furacão, a quebrar e a derrubar objetos, João Brígido terminou encontrando a chave da “jamanta” no mesmo jarro em que a pusera. Saiu como um louco, dirigindo apenas o “cavalo” da carreta, em alta velocidade, para chegar logo ao Beleza da Rosa, onde Helena o esperava. Tirou o cd de Roberto Muller, que ouvia, para colocar um de Bartô Galeno. Acelerou mais ainda, enquanto procurava a faixa da música que dizia – “no toca-fitas de meu carro uma canção me faz lembrar você”. Embotado pelo álcool e pela ansiedade de chegar logo ao cabaré, onde o aconchego e o perfume de Helena o esperavam, resolveu ouvir um cd de Roberto Carlos, que falava nos perigos das curvas da estrada de Santos. Não percebeu os perigos dos picos e das curvas picoenses, cego pelas belas curvas de Helena, que voluteavam em sua cabeça; perdeu o controle, e não conseguiu fazer a curva fechada. Precipitou-se no abismo, arrancando com o forte impacto a barreira metálica de proteção.Por não estar usando o cinto de segurança, foi sacado da cabina. O aparelho de som ainda tocava Roberto Carlos, a grande volume, quando as primeiras pessoas vieram tentar socorrê-lo.

Por mais que a procurassem, não lhe encontraram a mão direita. Surgiu então a lenda urbana picoense de que ela fora amaldiçoada pela mãe espancada, e que, por isso, o diabo a carregara juntamente com o espírito do caminhoneiro João Brígido. Conquanto as lágrimas e o clamor maternos desmentissem tal mistificação, a lenda ficou cristalizada no imaginário popular.



Caro Elmar:

Muito bom seu relato que guarda alguns componentes do sobrenatural, o que empresta ao texto ficcional aquele necessário estado de expectativa na mente do leitor que, graças à utilização, por parte do ficcionista, da boa e velha técnica dos narradores de estofo tradicional, aos poucos vai se envolvendo – este , a meu ver, é um dos mais caros objetivos estéticos e perseguidos pelos narradores em todos os tempos -, com o fascínio do relato e termina por se surpreender com o seu desenlace, contentando, assim, a curiosidade do leitor.
Outra vantagem do texto seu consiste no cuidado de ajustar a estória(história ) a um ambiente ou atmosfera adequada ao relato. É desse poder conquistado pelo narrativa que você consegue motivar o leitor a continuar a ler, enlaçando-o ao canto de sereia que não é mais do que o testemunho de um narrador dotado do domínio e da capacidade de saber usar a linguagem e transformá-la em matéria literária.
Você, com seus textos, com o seu conhecido "Diário Incontínuo", vai prosseguindo com o firme propósito de alcançar seu antigo projeto em prosa, o de dar ao leitor a oportunidade de bons momentos de leitura, de demonstrar que também sabe manejar os fios da ficção e de torná-la atraente, sedutora, tendo como espaço físico e humano o cenário, a paisagem, os costumes e modos de vida do povo piauiense.
Entre parênteses; As postagens de autores diversos que você insere no seu Blog são também uma forma de divulgar os valores de autores piauienses e, nos limites sem limites cibernéticos, você presta um tributo à inteligência do Piauí.
Que seu Blog sempre frutifique é o desejo do seu amigo e conterrâneo

Cunha e Silva Filho

domingo, 27 de novembro de 2011

A TERRA PROMETIDA


ALCIONE PESSOA LIMA

Amanhece e o galo canta
E a cidade se levanta tão cedo...
Ruma ao mercado, ao cercado, ao trabalho...
Segue o atalho da vida. 
Anoitece e a cidade é festa...
É forró, é seresta ou roda de São Gonçalo.
Até que o galo cante outra vez.
Há histórias prá contar...
Uma Santa prá louvar...
Um destino a traçar.
É um chão de muitas bênçãos!
Tem poeta, tem doutor, político e professor...
E quem ficou nesta terra: o amigo lavrador.
E outros que nela chegam
Traçam também seu destino...
É padre, é pastor, é poeta, 
Novo, velho, menino...
Conheço as suas raízes
Veredas e matizes...
Sonhos? Talvez.
Por isso a adotei de uma vez.
Angical, do Médio Parnaíba uma flor...
Que em dia de carnaval deu-me um grande amor
Pra ser feliz, afinal.

sábado, 26 de novembro de 2011

O S F U N D A D O R E S - ÉDISON DA PAZ CUNHA


REGINALDO MIRANDA

Nasceu Édison da Paz Cunha no dia 15 de dezembro de 1891, na cidade de Teresina, Capital do Estado do Piauí, filho de Corina da Paz Cunha e do intelectual Higino Cícero da Cunha.
Iniciou as primeiras letras em sua terra natal, cursando os estudos regulares no Liceu Piauiense. Em 1908, mudou-se para Recife, matriculando-se na Faculdade de Direito, onde se formou no ano de 1912, aos 21 anos de idade. Nessa época deixou-se impregnar pela idéias filosóficas agitadas sobretudo por Tobias Barreto e Silvio Romero. Durante os anos de estudos no Recife, morou em repúblicas de estudantes com outros piauienses, entre esses: Cristino Castelo Branco, Antonio Francisco da Costa e Silva, Simplicio Mendes, Odorico Rosa, Esmaragdo de Freitas, Jaime Rios, Nogueira Tapety, Corinto Andrade, Lucídio Freitas, Hugo Napoleão e Giovanni Costa, todos figuras de realce na carreira jurídica e na vida literária, política e social do País. Ainda ao tempo do Recife, foi nomeado secretário do Liceu Piauiense e para um cargo na Secretaria de Governo do Piauí.
De regresso a Teresina, ingressou no magistério e militou com destaque na advocacia e no jornalismo. Atuou com desenvoltura nos jornais Coelho Neto(1912), Correio de Teresina(1913), A Cultura, Habeas Corpus(1916) e O Piauí(1916); também, na revista de letras e humorismo, Chapada do Corisco(1918) e na Revista da Academia Piauiense de Letras(1918). Professor de português em diversas escolas. Na carreira jurídica, exerceu com destaque a advocacia, assumindo também os cargos de Subchefe de Gabinete do governador Eurípides de Aguiar (1917 – 1920) e diretor da Imprensa Oficial do Estado. Em 1917, em face da Guerra Mundial, foram realizadas em Teresina diversas conferências de cunho “cívico e patriótico”, entre essas “A América na luta”, proferida por Édison Cunha. Nesse mesmo ano participou ao lado do pai, da fundação da Academia Piauiense de Letras, tomando assento na Cadeira n.º 05. Foi o primeiro bibliotecário da nova instituição, onde se demorou por alguns anos, organizando com esforço e determinação a sua biblioteca.
Mais tarde, ingressou no Ministério Público, assumindo o cargo de Promotor Público da comarca de Parnaíba, para onde se mudou por volta do ano de 1923. E ali se radicou pelo restante da vida, constituindo família. Em Parnaíba continuou sua atividade no magistério, como professor de Português do Ginásio Parnaibano por longos e dilatados anos. Seu ex-aluno Manfredi Cerqueira, que ainda o encontrou nesse estabelecimento de ensino, no ano de 1938, quando ali se matriculou, testemunhou: “Inteligente, culto, humilde, consagrado como Professor e Advogado, possuía ele, com certeza, belas virtudes que lhe exornavam a rica e forte personalidade. (...). Excelente professor, sabia como nenhum outro, estabelecer uma impressionante empatia com os alunos. Era um autêntico educador, na ampla acepção do vocábulo. Com rara habilidade, sabia formar e plasmar consciências voltadas para o Bem”(Os fundadores, p. 132). Continuou também sua intensa atividade na imprensa, atuando nos jornais A Pátria(1923), Gazeta da Parnaíba(1923), Almanaque da Parnaíba(1923), A Tribuna(1924), A Verdade(1924), A Praça(1927) e A Voz da Parnaíba.
Édson Cunha escreveu pouco, sua grande paixão foi mesmo o magistério. Publicou apenas Razões Finais(1941), em co-autoria, Correspondência para você(1943) e Vozes Imortais(1945), esta última um misto de biografias, comentários e criticas em torno da Academia Piauiense de Letras. Deixou esparsos algumas poesias e discursos.
Édison Cunha faleceu em 1973, na cidade de Parnaíba, onde está sepultado.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

Ivanildo Di Deus, Assis Brasil, Elmar Carvalho e João Pinto




25 de novembro

AINDA O FESTIVAL LITERÁRIO DE LUZILÂNDIA

Elmar Carvalho

Na minha palestra no I Festival Literário das Águas, em Luzilândia, ao discorrer sobre entretenimento, disse que os audiovisuais dominam os consumidores de forma avassaladora, seja através da televisão, seja através da internet, ou ainda nas salas de exibição de filme. Na TV são exibidas as novelas, que alguns entendem como sendo uma espécie de literatura, algo semelhante aos antigos folhetins, que eram romances publicados de forma seriada a cada edição do jornal. Vemos ainda nesses meios de comunicação os clipes de música e, mais raramente, os de poemas, com legendas ou sem legendas. A música faz dobradinha com imagens, sejam fotográficas (fixas) ou cinematográficas, enquanto o poema pode ser divulgado de forma escrita e/ou falada, com acompanhamento de fundo musical e imagens. Referi-me às pavorosas músicas de hoje, de letras escabrosas, de péssimo gosto, de duplos sentidos, geralmente de cunho sexual grosseiro, muitas vezes ofensivas às mulheres, que ainda vão aplaudir esses “artistas”, que antes chamaria de empulhadores e impostores da arte musical, em suas apresentações pagas.

Observei que na virada do milênio, em que o imaginário popular se exacerba com catastróficas previsões apocalípticas de teólogos, místicos e mistificadores, ganhou terreno a literatura de auto-ajuda e a que explora o filão do misticismo, geralmente eivada de apelativas filosofias e sabedorias de vida, em que é explorada a religiosidade das pessoas mais simples e menos instruídas, de pouca visão crítica. Também dentro desse contexto pretensamente místico, surgiram umas crônicas de caráter edificante ou moralizante, como as antigas fábulas, que tinham uma lição de vida ou fundo moral, a chamada moral da história. Geralmente, são impregnadas de sentimentalismos e apelos emocionalizantes, não raras vezes citando conhecidos escritores e filósofos, com que pretendem dar lições de caridade, generosidade, perdão e sabedoria de vida. Nesse aspecto, parecem sucessoras dos textos dos antigos moralistas. Embora como literatura possam não ser grande coisa, contudo cumprem bem a sua finalidade utilitarista de disseminar as suas pregações.

Entretanto, pelo que tenho lido e observado, o leitor de internet não gosta de textos longos, talvez até porque lhes falte a comodidade e mobilidade que um livro impresso permite, porquanto pode ser lido com a pessoa sentada numa cadeira ou num vaso sanitário, deitada numa rede ou numa cama, sem necessidade de fios e de liga/desliga, de conexões, plugues e outras parafernálias. Desse modo, imperam na grande rede os textos curtos, superficiais, com muitas ilustrações, sejam fotográficas ou produtos da arte plástica. De qualquer sorte, os profetas do fim do livro de papel ainda não tiveram êxito em suas predições. Mas seja no suporte impresso, de papel, seja no suporte de um monitor internético, a literatura é feita com palavras, alinhavadas em frases, e terão que ser lidas do mesmo modo como sempre foram. Engenhocas estão sendo inventadas e aperfeiçoadas para a leitura dos chamados e-books, que tentam imitar o livro, seja na opacidade e textura da tela, no tamanho, peso e formato, e na mobilidade e comodidade, que pretendem proporcionar.

De minha parte, sem ganância, sem açodamento e forçações de barra, tenho divulgado meus textos, ao longo de muitos anos, através de diferentes modos e suportes, como jornais, livros, revistas, cartões postais, cartazes, baners, rádio, televisão, performances, clipes, blogs, sites, projetores, aparelhos de data show, etc. Mas sempre que houvesse receptividade e eu fosse bem-vindo ou bem-ido, e jamais como uma persona non grata, que estivesse querendo empurrar seus “produtos” goela abaixo do receptor/leitor.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

Ivanildo Di Deus, Assis Brasil, Elmar Carvalho e João Pinto


24 de novembro

NO I FESTIVAL LITERÁRIO DAS ÁGUAS

Elmar Carvalho

No sábado, estivemos em Luzilândia, eu e o romancista Assis Brasil, onde falamos sobre literatura contemporânea e entretenimento. Em virtude de que o ilustre escritor morou fora do Piauí desde os seus tempos juvenis, e que somente há uns três anos fixou residência em Teresina, aproveitei a viagem de ida para lhe comentar algumas coisas sobre as paragens que íamos vendo, bem como sobre a história das cidades pelas quais passamos, mormente José de Freitas e Barras. Perguntou-me sobre a origem da denominação da primeira. Falei-lhe sobre o homem que lhe deu o nome, o português José Rodrigues de Almendra Freitas, e fiz uma rápida síntese de seus principais descendentes. Fiz referência ao chalé, onde residiu José de Freitas, ao morro de Fidié, que tantas vezes escalei em minha meninice, ao açude Pitombeira, tão prenhe de beleza bucólica, com a parede repleta de criolis, e a antiga fazenda Ininga, fonte de lendas e mistérios, onde nasceram figuras históricas do Piauí, como o engenheiro Antônio José Sampaio e o seu irmão padre Sampaio, confessor da princesa Isabel. Essa vetusta casa-grande foi adquirida pelo ator e professor universitário Paulo Libório, que a restaurou, e pretende transformá-la em espaço cultural e museu.

A respeito de Barras disse o que quase todo mundo sabe: ser ela terra de governadores e intelectuais, que importantes personalidades legou à história de nosso estado. Ao passarmos pelo seu memorial, contei a Assis Brasil a tragédia da finada Alda, que teve o busto esmagado pelo pneu de um ônibus, no dia de seu casamento, quando se dirigia em seu cavalo para o local das bodas. Em razão de atravessarmos as pontes do Longá e do Marataoã, não pude deixar de falar das barras que lhe originaram o nome, e que cantei no meu poema Barras das Sete Barras. Falei de outras coisas de caráter pessoal, em referência a minha ligação com essas duas mimosas cidades, que não desejo agora relatar. 

As nossas palestras foram de improviso. Abrilhantaram a mesa, o Ivanildo Di Deus, coordenador do evento, que fez a apresentação dos palestrantes, e o escritor João Pinto, notável contista, que fez importantes intervenções, como mediador. Como chegamos com um pequeno atraso, procurei resumir o que tinha a dizer, pois preferi que a estrela maior de nossa literatura atual tivesse mais tempo e não pegasse a assistência cansada e entediada com a minha peroração, o que felizmente não ocorreu, porquanto os ouvintes e estudantes se mantiveram atentos durante as duas locuções, inclusive com participação no momento dos debates. Não fiz citações de nomes; apenas procurei demonstrar que a literatura, assim como ocorre na ciência, nas invenções, nas descobertas e nas demais manifestações artísticas e culturais, é uma transmissão de conhecimentos e experiências por intermédio da sucessividade das gerações, que deixam seus legados para os pósteros.

Por conseguinte, invocando Eclesiastes, onde está a advertência de que nada há de novo sob o sol, deixei claro que muitos modismos literários já existiram no passado, ainda que sob outra denominação, ainda que sob outra roupagem. O chamado poema visual não é absolutamente novo, porquanto num passado não tão distante tivemos o concretismo, em que a disposição das palavras no branco da página buscavam o aspecto plástico. Por outro lado, o carmem figuratum, que foi praticado pelo nosso Da Costa e Silva, na sua vertente experimental, remonta aos antigos poetas do classicismo. A meu ver, o recurso visual não pode olvidar o componente discursivo, pois se chegasse ao exagero, ao paroxismo, certamente deixaria de ser poema, para ser um artefato qualquer das artes plásticas, e não mais da literatura, uma vez que esta se faz com palavras, com linguagem. Ousei dizer, nominando as exemplificações que dei, que os próprios super-herois das recentes histórias em quadrinhos muito bem devem ter sido inspirados em deuses e semideuses da mitologia grega. Mostrei as evidências e similitudes.

Acrescentei que apenas Deus cria do nada. Entretanto, como advertência e conselho, expliquei que todo artista, inclusive o da palavra, deve buscar com todas as forças a possível originalidade, sem contudo esquecer a “contribuição milionária” de todas as escolas, de todas as correntes, de todos os “ismos”. Até porque mesmo a mais radical vanguarda poderá chegar a um impasse, e tornar-se repetitiva e esgotar-se, se não buscar a renovação em outras fontes e vertentes, pois é certo que todo novo envelhece, que toda a novidade, com o tempo, deixa de sê-lo. Citei o escritor português Correia Garção, que não negava imitar Horácio e Virgílio, além de outros, mas que, no entanto, ressalvava que quem imitasse devia procurar fazer suas as imitações. Contudo, digo eu, devemos procurar o nosso próprio caminho, devemos nos manter fiéis a nós mesmos, à nossa individualidade, às nossas idiossincrasias.

Assis Brasil, embora seja contido na conversação, como já tive ocasião de observar, talvez porque sabiamente prefira mais escutar que ser ouvido, a recolher material para seus contos e romances, nas estórias e experiências que escuta, é um mestre da conferência. Falou sem titubeios e vacilos, sem nenhuma anotação, sem nenhuma consulta a livros. Embora homem de seu tempo, conhecedor dos grandes escritores da modernidade e da contemporaneidade, e ele próprio seja cultor do que existe de mais atual, afirmou que suas pesquisas apontam no sentido de que o romance nasceu na Grécia antiga, e não apenas no século XVIII, como alguns teóricos afirmam. Foi uma bela lição, que muito me enriqueceu, e que bem mereceu o caloroso aplauso da plateia.

Após sua palestra, observei-lhe que a Odisseia e a Ilíada, ambas do velho Homero, eram verdadeiros romances em versos, posto que são narrativas ficcionais de longa extensão, com muitas peripécias, cenários e entrechos, com o que ele concordou. Ainda mais quando a tradução é vertida em prosa. De tudo isso recolho a lição de que nada é inteiramente novo nem inteiramente velho; que tudo está em permanente mudança e renovação; que a tradição deve ser reinventada, e que a invenção deve ser conservada, e algum dia será tradição. Nada há de novo sob o sol, exceto o próprio sol, que a cada dia se renova, se transforma e permanece.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

J. L. Campos Jr.: um mestre notável


CUNHA E SILVA FILHO

Da sua biografia pessoal, familiar, de sua formação primária, secundária, superior nada sei, infelizmente. Somente sei, por informações contidas nas edições do autor, que estudou inglês em Nova Iorque, provavelmente no final da segunda década do século passado, pelo “American Progressive Method”, método cuja abordagem desconheço nem tampouco por qual escola ou curso ou universidade era ministrado, bem como detalhes sobre seus professores, duração do curso, assim como período em que o jovem estudante permaneceu na América do Norte. Só posso deduzir que, em virtude da época em que atuou José Luís Campos Jr, o que aprendeu com os americanos equiparava-se ao chamado método de tradução, versão, gramática, exercícios gramaticais, conversação, ou seja, a abordagem já aproveitava o que anos depois, com o direct method, do início década de trinta, iria utilizar. De resto, foi precisamente em 1932, que o Externato Pedro II introduziu esse novo método por iniciativa, conforme dá notícia num prefácio a um dos seus livro da série From facts to Grammar(Editora Globo) outro grande autor didático de língua inglesa, J. de Mattos Ibiapina, do Colégio Militar, do Dr. Henrique Dodworth, diretor do Externato Pedro II, e por sugestão do filólogo e professor Dr. Delgado de Carvalho.Segundo o citado J. de Matos Ibiapina, o novo método atualizaria nas escolas brasileiras o que se estava fazendo no ensino de idiomas modernos nos países cultos.
O novo approach consistia em elaborar o livro didático todo em inglês, e exigir que, por sua vez, o professor, o chamado lente de então, ministrasse as aulas em inglês. Aboliu-se a tradução. Na prática docente, porém, alguns professores não seguiam à risca o direct method, na maioria das vezes porque eles mesmos não dominavam o inglês falado nem perspectiva, por parte das autoridades do ensino público, tinham, com poucas exceções, de aperfeiçoar-se no exterior.
No direct method valorizava-se a conversação, o que, de alguma maneira, o aproximava da abordagem mais recente no ensino de línguas, a communicative approach, que possivelmente ainda se vem firmando cada vez mais entre os professores de inglês. O professor J.L. Campos Jr., que vem de mais longe, aderiu ao direct method mas adaptando-o à sua visão pedagógica, porquanto nos seus livros escritos só em inglês, como é exemplo a serie em três volumes, The máster key, ainda se utiliza de exercícios de tradução e versão, mas não como aspectos dominantes de apredizagem.
Os livros de J. L. Campos Jr. eram sugestivos, bem dosados, interessantes, ilustrados, em suma, eram obras escritas com competência didático-pedagógica que muito devem ter ensinado a gerações de estudantes pelo país afora.
Nem mesmo sei se é de São Paulo, nem quando nasceu e faleceu. Nunca vi uma foto sua ou da família. Provavelmente seja de São Paulo, se levar em conta que deve ter passado a maior parte da vida lecionando, em diversos colégios da capital paulista e tendo seus livros, se não incorro em erro, sido publicados por editoras de São Paulo, com exceção do primeiro, que foi editado em Nova Iorque, em 1916, cujo título é The entertainer . O professor Campos Jr. também teve seu próprio curso, o Curso de inglês Washington Irving , na Rua Bento Freitas, São Paulo. Não sei por quanto tempo funcionou esse curso. Suponho que por muito tempo e que tenha tido muito sucesso.
Só sei que o primeiro contato que tive com o nome do autor foi através da biblioteca de meu pai, em Teresina. Estava mais ou menos nos meus quatorze anos, ou menos, não sei bem, quando, examinando livros de papai - eu tinha este costume -, naquele quarto que uma vez chamei de “quarto-biblioteca”, lá encontro um dos livros de J. L. Campos Jr. Era uma edição velha com páginas faltando do How to learn English, publicado pela Editora Globo, de Porto Alegre. A edição datava possivelmente dos anos quarenta. Estava com muitas páginas iniciais faltando.
Em 1964, a trouxe para o Rio comigo. Depois, a perdi não sei onde, mas encontrei um exemplar dela mais novo, a edição de 1956, da mesma Editora Globo, que, nos anos setenta, mandei encadernar.
Aqui, no Rio de Janeiro, passando por um sebo do Centro, vi um outro titulo do autor, Let’s speak English, edição antiga, publicação da Livraria Editora Pauliceia, São Paulo, sem indicação da data da edição.
Em casa, vendo, página por página, verifiquei que estava faltando uma página e havia, em outra parte do livro, uma página com a extremidade inferior esquerda contendo um rasgão, impedindo de ler na sua inteireza a página e o verso. Fiquei chateado, mas não fui reclamar com o vendedor.
Uma vez, indo à Biblioteca Nacional, de repente me bateu a ideia de saber se ali havia um exemplar do Let’s speak English. Com alegria o encontrei. No entanto, me lembrei que teria que ir outra vez à Biblioteca a fim de copiar à mão as duas páginas que estavam faltando. Assim o fiz: voltei à Biblioteca Nacional e copiei, em duas folhas de papel, os textos que faltavam. Ótimo!
Ainda hoje, no meu velho exemplar encadernado ( aliás encadernação feita com esmero por um antigo aluno meu de um curso preparatório na Penha, bairro carioca), estão inseridas as duas folhas de papel contendo os textos que faltavam. Estas duas folhas, hoje, já estão amarelecidas e mesmo em alguns pontos, rasgando-se. Como o tempo é implacável!
Estão, agora mesmo por sobre a minha escrivaninha onde digito esta crônica.. Releio-as e observo que a minha antiga letra está firme e legível. Apesar do computador, ainda faço muitos textos à mão, em seguida, o digito.Não posso perder o contato com a escrita manual. Seria um desastre!
Além dos livros citados, J. L. Campos escreveu outras obras importantes didáticas sobre a língua inglesa. Tenho quase todas elas, pelo menos as mais importantes. Entre as editoras que deu a lume suas obras , contam-se a Companhia Editora Nacional, que publicava, sob a direção de Fernando de Azevedo, um grande número de bons livros didáticos da sua chamada Biblioteca Pedagógica Brasileira, as Edições LEP LTDA., que, inclusive, publicou o monumental Dicionário Inglês-Português, ilustrado pelo próprio autor, o que significa que era também um artista, um desenhistas de mão cheia. A preparação desse dicionário custou ao autor oito anos de pesquisa lexicográfica num trabalho hercúleo feito individualmente. A aquisição dessa obra juntamente com outra, Correspodência comercial inglesa, estão ligadas, por laços de afeto e de amor, às minhas memórias biográfico-bibliográficas e sobre elas já escrevi uma crônica publicada nesta Coluna.
Se algum ex-leitor, ou familiar descendente de J. L. Campos Jr. por acaso me lerem este texto, e queiram me subsidiar com algumas outras informações, muito antecipadamente agradeço a deferência.
Que o leitor me desculpe pela mania de querer prestar homenagem a livros e autores do passado que me deram e ainda estão me dando como o fez J. L. Campos Jr. e outros mais, uma grande contribuição no que se refere à minha formação intelectual no estudo de línguas da minha preferência, sobretudo em época que era tão difícil procurar aprimorar-se em idiomas, pois não contavam os jovens com as facilidades que hoje têm, com a Internet e as possibilidades de aprender línguas estrangeiras, com cursos de todos os tipos, espalhados pelo planeta e com tantos recursos pedagógicos oriundos dos avanços dos estudos de linguística aplicada, professores mais atualizados tecnicamente, com livros didáticos já contemplando as vantagens eletrônicas tão distantes dos queridos livros didáticos de antigamente.
Já disse alhures que os meus grandes autores didáticos de ontem fizeram milagres com os parcos recursos de que dispunham, contando só com o talento e a sabedoria que, graças a Deus, neles sobejavam.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

QUATRO POETAS DO PIAUÍ


INVERNO


H. Dobal

Debaixo de chuva os campos anoitecem
preparando a sua ressurreição.
Amanhece com o dia a vida nova
na sangria dos açudes,
nas veias abertas dos riachos.

Chuva cantando nas folhas
água correndo,
água nova cantando no chão.
De novo o resplendor da vida restaurado
num concerto geral
que pássaro nenhum, nenhum instrumento,
nenhuma garganta de homem ou mulher
jamais pode alcançar.

Extraído de LB – Revista da Literatura Brasileira, nº 6

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

RONALDINHO & FLAMENGO


Charge: Gervásio Castro

O Gervásio Castro me enviou a charge acima por e-mail, acompanhada da mensagem abaixo:

Meu caro Elmar,

lembra das juras de amor eterno do Ronaldinho pelo nosso MENGO? O gaúcho, rapidamente, virou carioca e voltou a jogar com a alegria que marcou seus melhores dias de sua brilhante carreira, lá no Barcelona. FLA e R10, uma parceria perfeita!
Receita pra acabar tudo isso: três meses de salários atrasados.Acabou o milho, acabou a pipoca.

domingo, 20 de novembro de 2011

MÍSTICA I



MÍSTICA I

Elmar Carvalho

Arrebatado por um carro de fogo
eu próprio em fogo transformado
os céus galguei
as fúrias todas como louco aplaquei
e a escada cintilante de Jacó
passo a passo subi.
Devassei as vísceras mecânicas
da baleia do profeta
e a gênese do primeiro
átomo desvendei.
Penetrei o caos primacial
e o primeiro vagido
da vida escutei.
E Deus estava lá
por trás de tudo:
logo após em regressão
a explosão do átomo primordial.