sexta-feira, 28 de outubro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO




28 de outubro

SERTÕES DE BACHARÉIS

Elmar Carvalho


Foi lançado na quarta-feira, dia 26, à noite, o livro Sertões de Bacharéis – o poder no Piauí entre 1759 e 1889, de Jesualdo Cavalcanti Barros, no auditório do Tribunal de Contas do Estado do Piauí, do qual o autor foi presidente; em sua gestão foi construída a sede própria desse órgão fiscalizador e controlador de contas públicas. Em várias legislaturas, foi deputado estadual e federal, tendo sido constituinte do congresso nacional. Na presidência da Assembleia Legislativa, construiu-lhe um prédio anexo, consolidou o seu sistema de informática, além de haver imprimido melhorias no serviço administrativo da casa. Foi, ainda, dinâmico e realizador secretário da Cultura, Desportos e Turismo do Piauí, tendo, entre várias outras importantes obras, criado o Projeto Petrônio Portella, que editou notáveis obras inéditas e reeditou valiosas obras literárias e historiográficas, sempre através do crivo de um rigoroso Conselho Editorial. O Poemágigo – a nova alquimia,de que fiz parte, juntamente com os poetas Alcenor Candeira Filho, Paulo Véras, Jorge Carvalho e V. de Araújo, foi publicado através desse Projeto, em 1985. Na parte de incentivo ao turismo, construiu vários hotéis e pousadas em cidades que tinham potencial turístico. Em suma: como administrador público sempre se houve com zelo, dinamismo e criatividade, e, portanto, seguiu o princípio constitucional da eficiência.

Ainda faltando alguns anos para ser atingido pela aposentadoria compulsória, resolveu aposentar-se, quando a maioria dos detentores de cargos públicos de tal envergadura só saem no “cisco”, na chamada “expulsatória”, ou por doença, ou quando ceifados pela “indesejada das gentes” do poema bandeiriano. Passou a se dedicar, com afinco extraordinário a suas pesquisas historiográficas, em invejável e hercúleo trabalho de pesquisa, em disciplina quase espartana, a escarafunchar e farejar velhos documentos e carcomidos periódicos de épocas remotas, bem como numerosos livros, devidamente relacionados na bibliografia.

Essa garimpagem investigativa não se limitou aos arquivos piauienses, mas estendeu-se aos anais da Universidade de Coimbra, em Portugal, às Faculdades de Direito de Recife e de São Paulo, e às Faculdades de Medicina da Bahia e do Rio de Janeiro, assim como aos arquivos das demais academias oriundas do Império. Evidentemente, fez todo esse esforço, em que gastou tempo, dinheiro, trabalho e reflexões, para não ser um mero repetidor e condensador das obras básicas da historiografia piauiense. De posse das anotações de suas pesquisas, empreendeu um trabalho de interpretação, estribado em documentos e livros, pautado em raciocínio lógico e verossímil, e não fantasioso, como é comum nos dias de hoje, praticado sobretudo por aqueles que, a pretexto de serem adeptos de pretensa “história moderna”, não se querem dar ao trabalho de ir às fontes legítimas e legitimadoras da possível verdade histórica.

Suas afirmativas e ilações são fundamentadas no cotejo de livros e documentos, e muitas vezes lastreadas em breves intertextualizações e citações, não com o fito de arrotar balofa e enfatuada erudição, mas de provar o que afirma, o que, ademais, é comprovado em sintéticas notas de pé de página. Em algumas laudas, faz a contextualização do corte cronológico que se propôs abordar, registrando o panorama social e histórico do período tratado, bem como se reportando aos seus principais fatos e atos. O livro, fazendo jus ao título e subtítulo, traça o perfil biográfico dos mais notáveis administradores e políticos do Piauí, mormente o de “jovens bacharéis que a Coroa, em rotatividade surpreendente, enviou para governarem o Piauí durante o Segundo Reinado”.

Não se trata, apenas, de verbete biográfico, próprio para dicionários biográficos e enciclopédias, mas de pequenos ensaios, densos de conteúdo, lastreados pelas leituras de diversos documentos, livros e jornais, em que os principais fatos e atos da gestão governamental são referidos. Em relação à pesquisa em jornais, o autor faz grave denúncia, quando afirma que o “Arquivo Público do Piauí, abrigado na Casa Anísio Brito, não mais possibilita o acesso às coleções de jornais dos anos mil e oitocentos, nos quais poderiam ser esclarecidas dúvidas e supridas omissões”. Causa espécie essa situação vexatória, uma vez que com os recursos tecnológicos dos dias atuais, esses periódicos poderiam ser digitalizados (escaneados), e colocados à disposição do consulente, através de CD, com irrisório gasto financeiro e sem dano aos documentos originais. E com mais conforto e menos dispêndio de tempo e dinheiro para o pesquisador, que poderia executar o seu trabalho em casa ou em qualquer outro lugar. Em alguns dos estudos biográficos enfeixados no livro, dá para se perceber as principais características da personalidade e do estilo do biografado. A obra traz importantes anexos, entre os quais destaco o de número III, que relaciona os governantes do Piauí com curso superior, com a indicação do curso e do ano de diplomação.

Ressalto que no período abordado por Jesualdo (1759 – 1889), 61 desses administradores eram formados em Direito, com exceção de 3 médicos, 1 engenheiro, 1 padre e 1 militar. Portanto, fazendo a dedução, 55 eram bacharéis. Daí a razão do título: os Sertões de Dentro, formados pelo atual território do Piauí, em contraposição aos Sertões de Fora, que compreendiam o estado da Bahia, no corte cronológico objeto da obra, foi governado predominantemente por bacharéis, entre os quais avultam as figuras de Zacarias de Góis, Saraiva, Franklin Dória e José Manuel de Freitas.

Curiosamente, a Coroa enviou para a administração do Piauí provincial, ao longo de 46 anos, 8 maranhenses, 7 baianos, 5 pernambucanos, 4 mineiros, 3 cariocas, 3 cearenses “e outros adventícios menos votados”, com a finalidade de impedir o reflorescimento de ciclos oligárquicos, que retornaria no alvorecer do regime republicano. Todas essas interessantes e curiosas informações, além de muitas outras a que não pude fazer referência, foram vertidas em límpida, concisa e direta linguagem, em admirável trabalho de revisão gramatical e de dados e datas, entremeadas por diversas e elucidativas ilustrações e legendas, e sem redundantes circunlóquios e afetados e desnecessários ornatos. 

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO



27 de outubro

MEUS LIVROS

Elmar Carvalho

Em outubro do ano passado, mudei-me para minha atual residência, juntamente com minha mulher e meus filhos. Mas somente agora, um ano depois, estou a concluir a reorganização de minha biblioteca. No dia 15 de setembro de 1975 fui admitido como empregado dos Correios (ECT), lotado em Teresina. A partir dessa data, comecei a comprar os livros que ao longo de todos esses anos formaram seu acervo. No começo de 1977, consegui minha remoção para Parnaíba, a fim de cursar Administração de Empresas, no Campus Ministro Reis Velloso, da UFPI. Continuei a adquirir livros. Para assumir o meu cargo de fiscal na extinta SUNAB, a 10/08/1982, retornei para Teresina. Prossegui em minha aquisição de obras literárias e revistas. Enquanto solteiro, mudei-me de casas e “repúblicas” algumas vezes. Nessas mudanças, perdi alguns livros. As traças e cupins me devoraram muitos outros, assim como antiliterárias goteiras. Os empréstimos a amigos e conhecidos, sem observância do VV (Vai e Volta), me deram cabo de outros mais, cuja perda de alguns ainda sinto e lamento.

Como estava dizendo, em outubro passado saí da casa em que morei durante mais de vinte e cinco anos, no bairro Memorare. Durante esse tempo conservei o mesmo número de telefone fixo. Como não a vendi, mantive a biblioteca nela, durante vários meses. Gradativamente, fui levando alguns volumes, por necessidade de rápidas consultas, conquanto não seja propriamente um pesquisador, como sabem meus raros leitores e amigos. Depois de reparar e pintar a velha morada, para poder alugá-la, fui forçado a retirar os livros, que já atingiam alguns poucos milheiros. Fátima, minha mulher, providenciou o encaixotamento desses milhares de amigos de papel. Ajudei a carregar as pesadas caixas de papelão, tendo que subir ou descer várias vezes íngreme escada. Na minha idade, essas travessuras são arriscadas, e não sei como não sofri alguma avaria em meu esqueleto, uma vez que muitas pessoas ficam “descadeiradas” por causa desses esforços inabituais.

Embora a casa fosse simples, ao longo de 25 anos a fui reformando e ampliando, de modo que pude abrigar os meus livros, em três diferentes compartimentos, embora nem sempre de forma muito adequada. Somente após ampliar a nova casa, com a construção de um dormitório e uma varanda, pude, como já disse, levá-los. Por vários meses, as várias caixas ficaram empilhadas na varanda, até que eu pudesse tomar um fôlego financeiro, e mandasse construir uma estante, no compartimento que será uma espécie de escritório e biblioteca. Minha mulher se encarregou dessa parte, discutindo com a empresa o formato do móvel embutido. Dei alguns palpites, no sentido de ampliar a parte destinada aos livros. Finalmente, na quinta-feira, dia 13, a bendita estante foi montada. Desde então, até o domingo passado, em meus dias de folga, estive pessoalmente a colocar os volumes na prateleira, com a ordem que lhes queria dar, conforme o tamanho, o assunto e observando o fato de formarem ou não coleção, bem como para executar novos e mais radicais descartes, cuja necessidade logo antevi.

Como dizem os demagogos de plantão, tive de cortar na própria carne. Ao adquirir a nova casa, sabia que iria ter de desfazer-me de várias obras, por insuficiência de espaço, mesmo tendo feito a aludida ampliação. Quando comecei a colocá-las na estante, logo percebi que teria de descartar muito mais do que havia pensado. Para mim já é um prenúncio das coisas que haverei de deixar, quando fizer a viagem definitiva. Começo, pois, a aprendizagem de meu processo de desapego aos bens materiais, de que me considero apenas procurador ou vaqueiro. Já no trabalho de encaixotamento, fui separando alguns livros, de literatura ou história, para doar à biblioteca pública de Campo Maior; os jurídicos, doarei à biblioteca do CENAJUS, órgão dirigido pelo amigo Carlos Brandão, juiz federal; entregá-los-ei ao magistrado Paulo Roberto Barros, maçom paradigmático, que lhes há de dar a adequada destinação.

Os destinados a Campo Maior, entregarei pessoalmente ao meu amigo Soares (José Soares da Silva), com algumas orientações, para que ele os repasse ao acervo da Biblioteca Pública Municipal, onde, entre outros dedicados servidores, o escritor, historiador e acadêmico Moaci Ximenes velará por eles. Somente agora me dou conta de que, na intermediação do Soares, há um simbolismo muito expressivo e importante para mim; é que, no início de minha adolescência, ele me repassou vários romances, sobretudo da autoria de José de Alencar, pertencentes à biblioteca do senhor Antônio Cardoso de Oliveira, que fora coletor estadual e chefe da Mesa de Renda no município. Leitor extremamente voraz, na época, eu logo os devolvia, para receber sucessivamente novos volumes. Muitas das obras que doarei ostentam o autógrafo de seus autores, alguns de minha profunda amizade e admiração. Espero que me perdoem. Mas preferi entregar os seus livros aos cuidados da biblioteca pública de minha terra natal, onde os leitores maduros, de longa cabotagem, e os jovens estudantes poderão apreciar suas páginas, do que deixá-los encaixotados, como em urna fúnebre, na varanda de minha casa.

 Caro amigo Elmar Carvalho:
Na parte em que você fala nesta crônica – Meus livros – sobre o destino de seus livros, senti uma ponta de desânimo seu com respeito a descartes de volumes, falta de espaço e outras coisas. Não, Elmar, meu poeta lido e em parte estudado por mim, Você não pode pensar em ideia de limites existenciais ainda, pois é ainda muito moço e tem muito tempo para manter seu talento e sua criativade em movimento e em momentos de grande nível literário em relatos, em textos, enfim, que agradam a quem sabe reconhecer a responsabilidade do ato de escrever com amor e prazer pelo que faz.
Há muita água pela qual passar no caminho da vida intelectual. Esteja certo disso.
Cumprimentos do amigo,
Cunha e Silva Filho

O MEU PRIMEIRO LAR


ALCENOR CANDEIRA FILHO

Grande mangueira do meu lar primeiro
A cuja sombra, sozinho, sonhei
Os sonhos puros da mais pura infância
Em que ora eu era escravo, ora era rei!
(A.C. F.)

No,
       -- onde nasci brinquei sonhei
       e donde só saí crescido
       mala barba bigode
       para lá longe para o Rio de Janeiro

       apartamento materno dos avós Lourdes e Fenelon
       com retorno anos seis depois
       para a amada cidade amiga
       a Parnaíba onde ainda estou

       feliz envelhecendo à espera da
       inevitável fera essa bacante fúnebre
       que me espreita a mim como a outros
       a toda hora de qualquer instante --,

casarão da rua Grande
com jardim de belas flores
                                           dália
                                           lírio
                                           rosa
regadas por minha avó
com água do fundo poço
em balde puxado por corda
muitas árvores no quintal
                                          manga
                                          goiaba
                                          banana
                                          cajá
                                          sapoti
                                          maracujá
e em volta do casarão em suas paredes
janelas várias pó duas ruas
uma estreita outra mais larga
duas portas duas calçadas
sem contar com o portão que dava
direto para o quintal adentro
morada paterna de meus avós Raimundo e Gracita
e de meus pais até morrerem
e de um irmão e de duas irmãs
que por casarem os três
os três de lá saíram para suas casas novas
como igualmente assim também comigo
casado com casa na Costa Fernandes agora
e por isso tudo
do que abrigou família e pertences dela
nos perfumados ares de priscas eras
                                                             geladeira
                                                             fogão
                                                             mesa
                                                             poltrona
                                                             rádio
                                                             vitrola
                                       e assim em frente
                                       porque todo se perdeu
                                       sumiu desapareceu
sobramos só os irmãos nós
casados os quatro em suas casas novas
em verdade já um pouco velhas
sem a velhice remota e verdadeira
do velho casarão nosso
do qual como dizia nada mais existe
que tudo tombou sem tombamento
                                                      despensa
                                                      dormitório
                                                      varanda
                                                      banheiro
                                                      corredor
                                                      copa
                                                      cozinha
                                                      jardim
                                                      porão
                                                      quintal
a não ser
erigido sobre os escombros
na área tombada agora
um centro comercial
por onde às vezes ando
para pequenas compras
como em véspera de natal.

                                                2011

terça-feira, 25 de outubro de 2011

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS


UM BELO FANTASMA DE MULHER

Elmar Carvalho

Meu nome é Jonas. Mas não sou nenhum profeta. Muito menos estive, por três dias e por três noites, no ventre de algum peixe. Nem mesmo em prosaico submarino. Contudo, não sou cético. Entretanto, não saberia dizer o tamanho de minha fé. Não sei se ela seria do tamanho de um grão de mostarda, ou se ainda menor, como uma subpartícula quântica. Às vezes, tenho a impressão de ter uma fé robusta, inabalável; outras vezes, embora em menor escala, fico quase a vacilar entre a dúvida e a crença. Nunca vi almas, nem abantesmas, nem discos-voadores. Para mim, realidade é realidade, mito é mito, fantasia é fantasia. Portanto, posso dizer, como no ditado popular, que nunca vi rastro de alma nem couro de lobisomem. Apesar de tudo isso, acredito que existem mistérios, que só são mostrados como sinais a uns poucos, que devem dar o seu testemunho. É exatamente isso que pretendo fazer. Devo dizer que, no meu entendimento, não existe mérito nem demérito em ter fé; simplesmente a temos ou não a temos, independentemente de nossa vontade. No entanto, acho que a fé é um consolo, e quem a possui sofre menos, por isso mesmo. Em muitas searas, acho mais prudente não acreditar nem desacreditar. Até os físicos quânticos parecem duvidar de suas próprias certezas ou incertezas. Por vezes, tudo parece ser incertas certezas ou relativas in-certezas.

Acredito que a vida vai continuar, de alguma forma. Não sei se imediatamente após a morte ou se depois, com a anunciada ressurreição do dia do Juízo Final. Não sei se há outras dimensões, se há universos paralelos. Numa dimensão infinita e eterna, tudo é provável ou possível. Sei que Cristo disse que na casa do Pai há muitas moradas. Como serão essas moradas? Variam em conforto, em bem-estar, em bem-aventurança, conforme o merecimento de seu ocupante? Tenho dúvidas, muitas dúvidas, mas apesar de tudo creio. Ou pelo menos creio que acredito; ou quero acreditar. Me apego a isso, com todas as minhas forças. Um dia saberemos, ou nunca saberemos. Tenho fé em que um dia o grande mistério da vida além da vida ou da vida após a morte nos será desvendado. Como disse, não sou nenhum Tomé, julgo que existem mistérios, além desta realidade prosaica, vulgar, cotidiana. Se víssemos os sinais e não acreditássemos, a nossa culpa seria imensa. Talvez por isso os mistérios sejam mostrados a uns poucos, de forma mitigada e em raros momentos, como sutis exceções. Talvez por isso Cristo tenha dito que bem-aventurados são os que não viram os seus prodígios e sinais, mas que acreditaram. Como disse, quero dar o meu testemunho. Relutei muito em fazê-lo, pois tinha medo de cair no ridículo e no deboche dos maldizentes. Todavia, senti-me no dever de relatar o que vi. Isso passo a fazer agora, já não me importa o escárnio a que possa ser submetido.

Meses atrás, estava eu num dos shoppings da cidade, perto do playground, num dia de domingo, enquanto minha mulher fazia compras no supermercado. Era cedo e quase não havia ninguém, já que as demais lojas ficam fechadas nesse dia. De repente, de meu banco, vi uma linda mulher à distância. Enquanto ela se aproximava lentamente, fiquei a contemplar sua beleza, suas curvas, sua epiderme clara, delicada, seus louros e encaracolados cabelos. Entretanto, ela não transmitia sensualidade nem energia vital, tal como a conhecemos. Aparentava não fazer esforço em seu lento caminhar. Dir-se-ia não notar a realidade circundante, da qual, ao que tudo indicava, não fazia parte. Parecia não ver, ou pelo menos não ver as mesmas coisas que eu via, como se não fosse deste mundo. Aparentemente não sentia o impacto da gravidade, quase como se estivesse a levitar, conquanto seus pés tocassem o chão, ou quase tocassem, não tenho certeza quanto a isso.

Quando passou por mim, foi como se não existisse ninguém. Caminhou em direção ao parque, que estava fechado e sem ninguém. Seguiu em direção ao Portal do Paraíso, cujo portão de madeira, apesar do nome, era bastante concreto e maciço, e estava hermeticamente fechado. Voltei a olhar no sentido contrário ao que ela tomou. Mas, de repente, saído do nada, sem nenhuma razão de ser, me veio um pensamento bobo, fora de propósito: “E se ela atravessasse o Portal, como se fosse um fantasma, uma mulher do outro mundo?...” Volvi minha cabeça para trás, no exato instante em que ela atravessava o pesado portão, como se ele sequer existisse, como se ela estivesse a entrar numa simples neblina ou cortina de fumaça. Poderia dizer que vi uma mulher do outro mundo, metaforicamente, pela sua beleza inefável, angélica, mas digo que vi, de fato, uma mulher do outro mundo. Não tenho explicações, não busquei e nem quero explicações. Quem quiser que as procure, para seu próprio uso e consumo. Apenas julguei do meu dever dar este testemunho. Como advertência, faço minhas as palavras de Jesus: “Felizes são os que não veem, contudo, creem.”

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

LANÇAMENTO DE SERTÕES DE BACHARÉIS


Os presidentes do Tribunal de Contas do Estado do Piauí e da Academia Piauiense de Letras, Joaquim Kennedy Barros e Reginaldo Miranda da Silva, já expediram os convites para o lançamento do livro Sertões de Bacharéis – o poder no Piauí entre 1759 e 1889, da autoria de Jesualdo Cavalcanti Barros, cuja solenidade acontecerá no dia 26 do corrente mês, às 10:30 horas, no auditório do Tribunal de Contas do Estado do Piauí.

domingo, 23 de outubro de 2011

UM DIA DE CHUVA



ALCIONE PESSOA LIMA

O dia promete: chuva, calor e o cansaço da luta...
Taxistas na escuta...
A cidade se movimenta.
E o sol se apresenta mostrando o horizonte.
No alto do monte, antenas de tevês...
Eu vejo a todos, mas ninguém me vê.
Cidade tão bela, que com o verde contrasta...
A plana chapada de raios e trovões...
Já é outro dia. E a promessa se cumpre...
Prenúncio de um tempo feliz...
Daqui, posso apreciar a vida, mesmo na cor cinzenta...
Imaginar os frutos que virão...
Saúdo a felicidade, com um brinde de cajuína...
E ninguém imagina o prazer de toda essa gente...
No frenesi aceso em cada farol...
Por onde anda o sol que quase não dá sossego?
Com vergonha, deve ser...
E a chuva não dá trégua...
E o dia será todo assim.

sábado, 22 de outubro de 2011

O S F U N D A D O R E S - LUCÍDIO FREITAS

REGINALDO MIRANDA
Presidente da APL



Nasceu em Teresina, a 5 de abril de 1894, filho do intelectual Clodoaldo Severo Conrado de Freitas e sua esposa Corina Freitas.
Fez os primeiros estudos no Liceu Piauiense, onde concluiu os Preparatórios. Orientado pelo pai, desde cedo adquiriu sólida cultura humanística. Compôs seus primeiros poemas ainda na adolescência.
Em 1912, aos 18 anos de idade, estreou em livro com Alexandrinos, coletânea de versos, em parceria com o irmão Alcides Freitas. O livro foi bem recebido pela crítica literária, angariando elogios. Por aquele tempo, a casa de seu pai era um dos pontos de encontro da intelectualidade piauiense. Nesse mesmo ano, preocupado com a preservação da memória cultural do Estado, distribuiu questionário aos intelectuais, depois publicando as respostas, com o objetivo de definir, na visão dos mesmos, quem era e quais foram os principais intelectuais do Estado, bem como avaliar o movimento literário local e as expectativas para o futuro (QUEIROZ, Teresinha. Os Literatos e a República. Teresina: FCMC, 1994).
Em 1914, aos 20 anos de idade, seguiu para o Recife, matriculando-se na Faculdade de Direito. Mais tarde, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde concluiu o curso, bacharelando-se em Direito no ano de 1916. Ainda estudante chegou a ser nomeado promotor público da comarca de Amarante, não tendo assumido efetivamente o cargo.
Durante sua estada no Rio de Janeiro, participa da vida literária, guiado por seus parentes Amélia de Freitas e Clóvis Bevilacqua.
Depois da formatura, retorna para Teresina, onde se demora por pouco tempo. Ainda em 1916, mudou-se para Belém do Pará, onde iniciou intensa atividade profissional. De imediato, passou a militar com destaque na imprensa local. Em 1917, publica Vida Obscura, seu segundo livro de poesia, que adquire grande aceitação no meio literário. Segundo a crítica especializada, Lucídio Freitas se afirmaria como um dos maiores líricos da poesia piauiense, com versos sonoros, rítmicos e perfeitos.
Por concurso público, assumiu a titularidade da cadeira de Teoria e Prática Processual na Faculdade de Direito do Pará. Sua tese foi publicada em 1919, com o título de Direito Processual. Por esse tempo, ingressa na magistratura, sendo nomeado Juiz Substituto da 4ª Vara Criminal de Belém. Portanto, ainda jovem estava com seu nome consolidado no Pará, como poeta, jornalista, magistrado e professor.
Em Belém, casou-se com a jovem paraense Maria Oceanira Amazonas de Figueiredo, de cujo consórcio gerou alguns filhos, entre esses Genuino Amazonas de Figueiredo Neto, residente no Rio de Janeiro.
O poeta Lucídio Freitas foi descrito por seu primo Cristino Castelo Branco, como loiro, bonito, amável, simples, alegre, comunicativo, bem educado, trajando sempre com esmero, causer delicioso, pleno de elegância, de graça, de espírito, de finura e de distinção, parecendo um ser à parte, baixado do Olimpo à terra (CASTELO BRANCO, Cristino. Vida Exemplar. Teresina: APL, 1922).
Todavia, conforme anotou Monsenhor Chaves, “quando tudo na vida lhe sorria, apareceram os primeiros sintomas da pertinaz moléstia que cedo o levaria ao túmulo” (CHAVES, Joaquim. Apontamentos Biográficos e outros).
No final de 1917, doente, veio a Teresina repousar por alguns dias. Entretanto, a atividade literária não permitiu o completo repouso. No início do mês de dezembro, no jardim público da Praça Rio Branco, profere conferência sob o título Elogio do Heroísmo, versando sobre a Guerra Mundial. Reuniu-se com a intelectualidade piauiense por diversas vezes e, em 31 de dezembro, presidiu a reunião fundadora da Academia Piauiense de Letras, passando a ocupar a Cadeira n.º 09, tendo por patrono seu falecido irmão Alcides Freitas. Mais tarde, também ele foi escolhido patrono da Cadeira n.º 23.
Com a saúde abalada pela tuberculose, retornou a Belém, onde continuou a sua atividade profissional. A doença agravou-se, retornando a Teresina por algumas vezes, e onde faleceu a 14 de maio de 1922, aos 28 anos de idade. Pouco antes do óbito, por iniciativa de seu venerando pai, foi publicado seu último livro, Minha Terra.
Essa síntese biográfica deixa transparecer a pujança intelectual de um jovem promissor falecido no alvorecer da vida, quando muito ainda poderia contribuir para o fortalecimento da cultura brasileira. Todavia, mesmo em sua curta existência legou ao povo piauiense a Academia de Letras, como seu principal idealizador. A ele, portanto, rendemos sinceras homenagens.
Enfermo, no leito de morte, com a família sofrendo muito, arrancou do velho pai, que já perdera outro filho, emoções em forma de sonetos: “Dou-te esperanças que não tenho, e ponho/ Nessa doce ilusão minha ventura.../Mártir do amor de pai, quanta amargura/Me punge ao despertar de cada sonho!//Eu nunca me prostei ante os altares/Nem jamais invoquei de Deus o nome;/Vendo entretanto o mal que te consome,/Ergo, contrito, ao céu tristes olhares!//Bem sei que as leis fatais da natureza/Não se amoldam jamais ao nosso pranto,/Não têm jamais da nossa dor piedade!//Na agonia mortal dessa certeza,/Contemplo a definhar, cheio de espanto,/Gênio, glória, beleza e mocidade!”. Também: “A esperança é o pão dos desgraçados.../Dele há muito me venho alimentando!/Onde o coração humano e quando/Golpes tão fundos recebeu dos fados?//Pobre Corina, companheira aflita,/Mais do que eu, talvez, desatinada!/Ai mãe! Triste mulher! Tão malfadada/Foste em tua prole, Niobe bendita!...//Sofro, dobrado, filho, o teu tormento,/Todo o meu ser concentro em tuas dores,/Minha vida, minh’alma e pensamento!// Sofresse o teu sofrer e eu pudesse/Transferir para mim tantos horrores,/Talvez menos horrores padecesse...”
Para finalizar, sobre a própria dor, bradou Lucídio Freitas: “Perscrutadoramente os olhos ponho/No que fui, no que sou, no que hei de ser,/E alucinado dentro do meu sonho/Sinto a inutilidade do nascer.//Nem o Amanhã da Vida me conforta./E eu sigo, enquanto minha estrela foge,/Amparado na minha própria sombra...//Para vencer, em meio à Vida,/Montei, fogoso, o meu corcel./De pluma ao vento, lança erguida,/Sonhando achar, em meio à Vida,/De ouro montanhas a granel...//Ah! Fui vencido em meio do combate/Pela força brutal da Realidade,/.............................../Os meus sonhos de glória feneceram./E eu fui sempre um sonhador divino./Cedi à leis fatais do meu Destino,/Doença da qual os meus Irmãos morreram...”.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO


21 de outubro

MEMÓRIAS DE FRANCISCO CARDOSO

Elmar Carvalho


Devidamente convidado, para gáudio meu, fui ao lançamento do livro Memórias de Campo Maior, da autoria de Francisco da Silva Cardoso, meu conhecido há vários anos, de quem me tornei amigo e admirador. A obra foi patrocinada, organizada e prefaciada por Paulo Castello Branco Vasconcellos Filho, que ainda lhe fez a apresentação de lançamento. Contém belas ilustrações de Guimarães Júnior. O autor é parente próximo de três importantes amigos meus: Carlos Cardoso, José Ataíde e Otaviano Furtado do Vale. Os dois primeiros são irmãos sanguíneos, dos quais sou irmão maçônico. O lançamento “pegou carona” no aniversário de dona Lourdinha Brandão, mulher do escritor. Sentei-me à mesa em que estavam os amigos e professores Demerval Sousa e Sílvia Melo Sousa, com cujo casal entretive agradável e proveitosa conversa.


Posteriormente, sentou-se à nossa mesa o arquiteto Olavo Pereira da Silva Filho, parente do autor e dos três amigos referidos acima. Embora nascido em Teresina, passou parte da infância em Campo Maior, na fazenda Rocio, então situada nos arredores da cidade, mas que faz algumas décadas se constituiu em bairro da velha urbe. Na velha casa, salvo engano, nasceu o grande teatrólogo Francisco Pereira da Silva, um dos maiores do Brasil; uma de suas peças ficou em cartaz na Alemanha durante vários anos, o que demonstra o seu imenso valor. O poeta H. Dobal, em versos, disse haver tomado banho de leite em fazenda campomaiorense. Naturalmente, também deve ter bebido leite mungido, morno, gostoso, tirado na hora, no momento da ordenha.

Olavo é hoje uma das maiores autoridades a respeito do patrimônio arquitetônico do Piauí, já tendo escrito trabalhos sobre a construção das velhas casas de fazenda, e sobre a arquitetura urbana de Oeiras, Amarante, Parnaíba e Campo Maior. Segundo ele, apesar da destruição e mutilação de muitos prédios, o conjunto arquitetônico campomaiorense é ainda hoje um dos mais ricos do estado, sobretudo pelo fato de que muitas casas e solares, ao menos na parte interna, ainda conservam suas linhas e formas originais. Combinamos fazer algum evento em prol da conservação desses velhos edifícios. Talvez uma caminhada pelos velhos casarões e uma mesa redonda, com palestra, em que serão discutidos os impactos das novas construções sobre o entorno paisagístico dos vetustos prédios.

Francisco Cardoso, anteriormente ao Memórias de Campo Maior, já andou aprontando algumas “reinações”. Entre os seus sonhos mais caros e acalentados, tinha ele o desejo de descer de canoa o rio Surubim, de Altos a Campo Maior, e subir, à noite, a pequenina Serra Grande desse município, também conhecida como Azul ou de Santo Antônio, numa incursão que só findaria ao amanhecer. O rio, de poucas e rasas águas, ele o percorreu, ainda na juventude, flutuando sobre o tronco de uma carnaubeira, da Primavera até a ponte, como um Tarzan tupiniquim, realizando parcialmente o seu sonho de adolescência. Para a escalação noturna da serra, ele me convidou, já homem maduro, assim como a vários outros amigos e parentes. Era um verdadeiro programa de índio, para o qual não tive disposição física nem coragem, pelo que declinei da difícil empreitada. Mas ele encontrou seguidores, e a aventura foi realizada na íntegra. Contudo, para não ficar como uma molenga e medroso, devo dizer que já fui ao cume da serra, em outra ocasião, à luz do dia.

Porém, creio ter sido uma das maiores travessuras de Francisco Cardoso o fato de haver ele escrito o livro Memórias da Adolescência, em que narra episódios engraçados e surpreendentes de sua vida, mas ainda, além de outros fatos e costumes do cotidiano, consignando notas memorialísticas sobre figuras populares e folclóricas da velha urbe, no que elas tinham de mais pungente ou de mais engraçado. Nesse livro ele conta façanhas dessas pessoas, que nos emocionam, alegram ou nos enternecem, que nos podem arrancar lágrimas sentidas ou risos que nos fazem gargalhar, mesmo em solitária leitura. Na época, dispondo de mais tempo do que hoje, pude colaborar em sua organização e revisão, bem como apresentar sugestões, tendo algumas sido acatadas pelo escritor, mas sem interferência no estilo e na essência narrativa da obra.

Em Memórias de Campo Maior, o autor tece comentários descritivos e historiográficos sobre os seus mais antigos prédios e logradouros. Descreve usos, modas e costumes da época. Narra fatos que foram objeto de comentários em toda a cidade, mas que não foram registrados pelos historiadores, por não serem fatos relevantes da administração pública, e por não envolverem as figuras proeminentes do município, seja do setor político, seja da seara econômica. Todavia, foram acontecimentos importantes, uma vez que tiveram forte repercussão em toda a cidade, alimentando as conversas, as fofocas e o imaginário das pessoas mais simples. Alguns desses episódios foram crimes, motivados pela cobiça, pela paixão ou pela política atrasada e acirrada do período enfocado. O autor registra o nome das importantes firmas comerciais da época, em que imperavam os coronéis da carnaúba e da pecuária.

Discorre sobre a boêmia e sobre os velhos cabarés de antigamente. Enumera as pessoas simples, do povo, mas que eram conhecidas de todos, pela singularidade de suas personalidades ou pelos serviços que prestavam, como os carregadores de malas, os transportadores de água potável em “roladeiras” (barris ou tonéis, que eram rolados pelas ruas da cidade) e os locadores de bicicletas e velocípedes. Através de suas páginas podemos imaginar como era a vida, os costumes, as atividades profissionais, as diversões dessa época, que corria sem pressa e sem violência, ao contrário dos dias conturbados de hoje. Francisco Cardoso recolheu fatos que jamais iriam para os pomposos e pernósticos fastos da considerada grande história. Muitas vezes composta de pequeninos e enfatuados “grandes homens”.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

JOSÉ CASTELLO VENCE O PRÊMIO JABUTI NA CATEGORIA ROMANCE


O escritor José Castello arrebatou o Prêmio Jabuti, 53ª edição, na categoria Romance, com a obra “Ribamar”, editada pela Bertrand Brasil. Segundo a Folha de São Paulo, nesse romance o autor mistura realidade e ficção, nos entrechos em que aborda a sua relação com o pai. A premiação é composta por 29 categorias, cada uma com dez títulos em disputa. A cerimônia de premiação acontecerá no dia 30 de novembro. Segundo o poeta Alcenor Candeira Filho, seu parente e amigo, “José Castello é carioca, mas tem vínculos familiares com Parnaíba, cidade em que se passam alguns episódios do premiado romance, que já li e reli com entusiasmo”. Segundo o crítico Carlos Herculano Lopes, o romance tem uma estrutura musical, cuja base é a canção de ninar Cala a Boca. Acrescenta esse comentarista que o livro “em sua essência, trata da relação conflituosa entre pai e filho. Mas está longe de ser autoficção, gênero muito em voga atualmente”.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

BEBETO SOARES, O CONTADOR DE HISTÓRIAS, TRANSFORMA-SE EM REFERÊNCIA DA CULTURA DE AMARANTE

Bebeto Soares, o autor do livro
O poeta Virgílio Queiroz e o advogado Walter Moura

Depois de conseguir reunir um público que superou a casa de mil pessoas no Centro Cultural "Odilon Nunes", por ocasião do lançamento de seu livro "Amarante - Personalidades e Fatos Marcantes", Luís Alberto dos Santos Soares, o "Bebeto Soares", também conhecido como o "Contador de Histórias", transformou-se em uma referência cultural para a cidade. Quase todos os dias ele é abordado por populares que desejam abraçá-lo, trocar ideias, elogiá-lo. Simples, comedido, Bebeto não consegue conviver com tamanho sucesso. O nosso blog que se fez presente ao evento, sentiu o carinho que o povo devota ao nobre escritor. Durante o lançamento, políticos, estudantes, intelectuais, artistas e, principalmente, pessoas humildes lotaram as dependências do Museu de Amarante.

Foi o maior evento literário ocorrido em Amarante. Nunca um autor foi tão festejado em lançamento de um livro como ocorreu com Luís Alberto dos Santos Soares (Bebeto Soares). Sem nenhuma outra atração, afora a instrumental "Banda Nova Euterpe", o livro "Amarante Personalidades e Fatos Marcantes" foi recebido por um público digno de um espetáculo de artistas famosos. Ele foi aplaudido, abraçado, beijado, em uma noite que começou as 19 horas do dia 08 e terminou nas primeiras horas da manhã do novo dia. Bebeto Soares, em seu livro, fala da história de Amarante, dos vultos intelectuais e políticos, das religiões, do folclore e das pessoas humildes que tiveram participações marcantes na sociedade amarantina.

Fonte: Blog Amarante, de Virgílio Queiroz


terça-feira, 18 de outubro de 2011

Setenta anos

Ferrer Freitas, o mais jovem setentão


Antonio Reinaldo Soares Filho (*)

Todas as cidades têm seus filhos emblemáticos, aqueles que ao se falar do lugar logo é lembrado seu nome. Assim é hoje Oeiras e Ferrer Freitas. Pedro Ferrer Mendes de Freitas completa seus setenta anos, uma dádiva Dele para sua família, amigos e dos que têm o privilégio de conhecê-lo. Atencioso, finamente educado, memória privilegiada, intelectual refinado é uma referência no meio intelectual piauiense. É muito agradável um encontro com o nosso Comendador, compartilhar uma cervejinha no final de semana, quando o tempo perde a razão de ser medido. Somos de gerações diferentes. Sou contemporâneo de seu irmão Benedito, também intelectual, amante das belas letras, cronista e um grande redator. Mas, no passado, compartilhamos das tertúlias do Velho Oeiras Clube e das sessões do Instituto Histórico de Oeiras, comandadas por Possidônio Queirós, Costa Machado e Expedito Rêgo. Hoje, é um dos guardiões de nossa memória, quando procura compartilhar, com as para as novas gerações, os nossos valores, o que somos e o que vivemos.
Ferrer pertence à geração de Luís Ronaldo Sá, Albérico Vieira de Sá, Antônio Amorim Guida, Silizinho, Paulo de Tarso Ribeiro Gonçalves Filho, Turene Rêgo, Gerson Campos, Gerardo Queirós... Tempo de anos dourados, de novas batidas do violão de João Gilberto. De romantismo, de quando a cidade adormecia e eles saíam pelas ruas, fazendo paradas nas portas das donzelas em desabrochar, de violão afinado a dedilhar canções inesquecíveis. Isso durante seu tempo de ginasiano. Depois, buscando continuar os estudos, se muda para o Rio de Janeiro, onde se graduou em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Como estudante frequentou a Lapa, a Praça Tiradentes, a Estudantina e muita boemia. Mas, com saudade dos seus, a sua terra retorna e faz morada em Teresina, onde constitui família. Por mérito, conquista o cargo de Sub-Secretário de Cultura do Estado do Piauí e, depois, Chefe de gabinete do Secretário de Fazenda do Piauí, Moisés Reis. Torna-se membro do Conselho de Cultura do Piauí, incentivando a divulgação de nossos valores. Assume a presidência do IHO por vários períodos, emprestando seus esforços na busca incessante de posicionar essa entidade com uma referência de credibilidade literária. É um paladino da sua Revista, quer como colaborador quer como seu editor, viabilizando algumas de suas edições.
Na capital, se fez amigo de todos que o procuram. De espírito boêmio, era frequentador do Bar Nós e Elis, de encontros com jornalistas e escritores e nos saraus do Ágora. Foi colaborador do jornal O Cometa e de todos os noticiosos que surgiram em sua terra, mantendo, atualmente, uma coluna no Portal da Fundação Nogueira Tapety. Estreitou laços com intelectuais consagrados, como Celso Barros, Paulo Nunes, Dagoberto Carvalho, João Gonçalves, Elmar Carvalho, Carlos Rubem e tantos outros e, mais recentemente, com Joca Oeiras. É de muitos amigos.
Em Ferrer, as letras fluem e se juntam, formando belas construções de locuções que encantam e cativam, aprisionam o leitor na sua leitura, na ânsia do nunca desejar acabar. Em suas crônicas publicadas na Revista do IHO, nos jornais de Teresina e no seu livro “Solo Distante” ele sempre nos presenteia com suas belas exposições. No seu amor telúrico à velha capital ele vai registrando fatos vividos pelos seus contemporâneos ao tempo que presta homenagens àqueles que fizeram por ser louvados. É a trajetória de um vencedor.
Que Deus lhe conceda muitos anos de vida.

(*) Ex-presidente do Instituto Histórico de Oeiras

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

MÚSICA VIVA




ELMAR CARVALHO

Passarinhos cantando
saltitavam e dançavam
sobre os fios elétricos
pássaros ou dedos sobre cordas
de violinos, violas ou violões –
eletrocutando corações.
Aladas notas vivas
fazendo acrobacias e coreografias
sobre as paralelas da pauta.
O vento que passava fazia
coro e uma música celeste
se evolava.

domingo, 16 de outubro de 2011

A IMPORTÂNCIA DO 19 DE OUTUBRO DE 1822 – DIA DO PIAUÍ



Vicente de Paula Araújo Silva “Potência”

Recordo-me do ano 1979, quando em Teresina, intelectuais ligados a Academia Piauiense de Letras, promoveram uma campanha de menoscabo a importância do movimento brasílico em Parnaíba, que culminou com a proclamação da Independência do Brasil no Piauí, em 19 de outubro de 1822, data essa instituída em Lei proposta pelo Deputado José Auto de Abreu, como o Dia do Piauí. O objetivo principal daqueles ilustres senhores, foi a tentativa de mudança da data maior do calendário cívico a nível de Estado, para 24 de janeiro de 1823, data da adesão à Independência do Brasil, por brasileiros de Oeiras, a capital da Província.
A reação na Parnaíba, foi imediata e objetiva, através de manifestações vibrantes de vários segmentos da sociedade, onde se destacaram as pessoas de Anchieta Mendes, Lauro Correia, Canindé Correia, Reginaldo Costa, Sólima Genuína, entre outras. Também, participei escrevendo um artigo no Jornal Inovação com o título “A Respeito da Independência no Piauí” , do qual, destaco para conhecimento nos dias atuais, o seguinte trecho da série “ MISSIVOS PARA SIMPLÍCIO DIAS” , uma correspondência imaginária com o defensor maior das causas brasílicas na então província do Piauí :
Ora, Fidalgo, essa plêiade de intelectuais que quer apagar o escrito em 19 de outubro de 1822, sabe muito bem, em sã consciência, que aderir não é principiar. E, é exatamente dentro deste contexto, que, está inserido o 24 de janeiro de 1823 – data da adesão – quando o então governo civil da Província do Piauí, já pressionado pela arregimentação de tropas das lideranças parnaibana, cearense e baiana, não resistiu a sublevação de Oeiras, levada a cabo pelo grupo adesista comandado pelo Brigadeiro Manoel de Souza Martins.
É estranho, Coronel Simplício, o porquê deste atentado ao brio e tradição do povo piauiense, quando o próprio grupo contestador é sabedor dos fatos que geraram aqui na Parná, o brado de Independência do Piauí, aceito posteriormente por toda a Província.
Assim sendo, todos sabemos que a promulgação dos decretos nos 124 e 125 da Corte Portuguesa, datados de 29 de setembro de 1821, através dos quais, o Brasil perdia a condição do Reino-Unido, provocaram o elenco de ocorrências que culminaram com os acontecimentos de 7 de setembro de 1822, em São Paulo e 19 de outubro de 1822 em Parnaíba.
Muitas são as razões que me levam a acreditar que por trás dessa intenção dos nossos historiadores em questão, está oculta a grande cartada para provocar a polêmica em torno do assunto, promovendo com isto, o estudo da História do Piauí, até hoje, pouco conhecida pelo seu povo.
Porém, a mais forte de todas, é a seqüência de fatos que se sucederam ao longo do movimento, dentre os quais, para confirmação do 19 de outubro de 1822, como data mágna da Independência do Piauí, destacam-se:
  1. A articulação política na Região Sul, que provocou o Dia do Fico;
2. A incrementação da campanha de emancipação política em nível nacional, que, teve como desfecho o manifesto de D. Pedro, em 1o de agosto de 1822, no qual anunciou que mandara convocar a Assembléia do Brasil-Reino, com o intuito de solidificar a Independência Política da Nação, sem romper os vínculos de fraternidade portuguesa;
3. A chegada do Sargento-Mor João José da Cunha Fidié, a Oeiras, o qual assumiu o Governo das Armas em 9 de setembro de 1822, com a finalidade de implantar a política das Cortes Portuguesas – conseqüência dos decretos nos 124 e 125 - objetivando conservar pelo menos a região norte do Brasil como Colônia, visto que era inevitável a Independência política do país;
  1. A visualização pelos conspiradores parnaibanos dos objetivos de Fidié, com a remessa de armas para Oeiras;
5. O ofício do Dr. João Cândido, de 30 de setembro de 1822, informando à Junta de Governo do Piauí que a Vila de Granja-CE (próxima a Parnaíba), já proclamara D. Pedro “PROTETOR E DEFENSOR DO BRASIL”, e demonstrava sua posição em relação ao movimento separatista, com os dizeres: “A melhor, a maior, a mais rica, a mais populosa parte do Brasil tem-se declarado a favor da causa da Independência; como persuadir-nos que o resto não siga a mesma causa”;
6. A Junta de Governo do Piauí, em 6 de novembro de 1822, toma conhecimento do evento de Parnaíba, e, em 13 do mesmo mês, o Governador das Armas, Fidié, já estava a caminho do foco libertário com a tropa e armas que pode arregimentar;
  1. A chegada do vaso de guerra infanto D. Miguel – enviado pelo Governo do Maranhão – e a marcha de Fidié com destino a Parnaíba, provocaram o deslocamento estratégico dos líderes parnaibanos ao Ceará, com a finalidade de recrutarem combatentes, e, de volta, sitiarem o inimigo na área em que o povo já despertava para a importância do movimento;
  2. O florescimento em Oeiras da idéia de adesão à Independência, inclusive com atos de sabotagem em dezembro de 1822;
  3. A invasão de Piracuruca em 22 de janeiro de 1823, por Leonardo de Carvalho Castello Branco, componente do movimento de Parnaíba , a frente de combatentes recrutados no Ceará;
  4. O conhecimento da Junta do Governo em janeiro de 1823 de que Crateús, pertencente ao Piauí naquela época, já lutava a favor da emancipação;
  5. A tomada do Governo do Piauí, em 24 de janeiro de 1823, por elementos adesistas, os quais, comunicaram as câmaras municipais da província que elas deveriam reconhecer em D. Pedro “O IMPERADOR CONSTITUCIONAL E PERPÉTUO DEFENSOR DO BRASIL”;
  6. A correspondência da Junta Interventora enviada ao Dr. João Cândido,datada de 26 de janeiro de 1823, na qual ele era convidado a deslocar-se para Oeiras a fim de dar orientações no destino político da Província;
  7. A tomada de Piracuruca por Leonardo Castelo Branco em 22 de janeiro de 1823,o combate na Lagoa do Jacaré (Piracuruca) , e a Batalha do Jenipapo em Campo Maior, em 13/03/1823 ;
  8. O enfraquecimento do poder de fogo da tropa de Fidié, com o roubo de provisões e armas efetuados por soldados cearenses durante o combate, o que provocou a fuga de Fidié para o Maranhão, onde, posteriormente, foi derrotado em Caxias;
  9. O retorno de Simplício Dias a Villa da Parnahiba, que a frente da tropa organizada e mantida a suas custas, expulsou da Villa da Carnaubeira os europeus constitucionalistas de Parnahiba, que se haviam refugiado naquela ilha do Maranhão, sob a proteção do aparato militar português de tropa de 1ª Linha, duas sumacas armadas, o brigue de guera Infante D. Miguel e três canhoneiras, consolidando-se então, a Independência Política do Piauí, no âmbito da nação brasileira.

E assim, Simplição, para ratificar o meu ponto de vista e terminar esta missiva, tu deves te lembrar muito bem, que em retribuição ao apoio que deste à causa da Independência do Brasil, D. Pedro de nomeou Presidente da Província, cargo que deixaste de assumir por livre e espontânea vontade.”

Cordialmente,

DEPAULA


Inovação, novembro 1979 – 24ª edição

. Os Europeus Constitucionais desta Vila, com outros de Maranhão se haviam refugiado, e fortificado no lugar Carnaubeira sete léguas de distância à margem do rio, tendo tropa de 1ª linha do Maranhão duas sumacas armadas, o Brigue Infante D. Miguel, e três canhoneiras com as quais devastando o rio, e esta Vila causaram os maiores estragos e pavor aos povos. Esperavam os inimigos tropas de Portugal; era seu plano, e do Governo do Maranhão para tornarem a atacar, e fortificar-se nesta mesma, Vila, a fim de poderem do novo invadir todo o Piauí, entrar no Ceará, e seguirem até Pernambuco. Vi a necessidade de prevenir projeto tão arriscado, antes que se realizasse a vinda dos Batalhões Lusitanos, dispus conseqüentemente as tropas que tinha apesar da falta de pólvora, foi acometida inopinadamente a Carnaubeira, com tal denodo que os inimigos aterrados um só tiro não tiveram valor de disparar, fugiram para o Maranhão nas embarcações, levando todos os seus efeitos, e muitos a (…) como os cofre dos órfãos, e os (…) que para ali haviam conduzido em reféns, no tempo do major Fidié. Não menos eficaz fui para que o grito da Independência, e o Augusto nome de Vossa Majestade Imperial ressoasse em outras Vilas da Província do Maranhão, contribuindo portando fortemente para enfraquecer o partido Constitucional Lusitano, que obstinadamente resistia naquela cidade, e facilitando o triunfo da Independência, quando foi vista a Nau D. Pedro. E ainda assim me dispus a marchar em tropas desta Vila para aquela cidade, unido ao capitão-mor Filgueiras, a destruir as cabalas perigosas que o partido Europeu suscitava, ameaçando uma revolta do que desistimos pela eleição do benemérito Governador de Armas o capitão-mor Rodrigo Luís Salgado de Sá Moscoso, cujo patriotismo e probidade soube por termo às desordens.