sábado, 24 de dezembro de 2011

SONHOS DO NATAL E ANO NOVO

Aproveito o cartão de Natal acima, da autoria de Fernando  di Castro, para ilustrar o poema e para estender os seus votos aos leitores do blog

FRANCISCO MIGUEL DE MOURA

Não se pense o Natal maior do que é:
Um dia, uma noite, uma festa ou a recordação.
Jesus chegou dois mil anos antes
Mas veio o Papai Noel atrapalhar.
Tudo é dinheiro,
Até o tempo que sofremos,
O dia branco e a noite só,
O minuto que amamos,
A eternidade que choramos
E a morte que nos leva.

Todo dia é um dia novo,
Não depende do Natal, nem da Missa do Galo,
Não depende da mudança do calendário.
Quando nele se pensa, já mudou,
Quando se vai ao banheiro, já mudou...

O tempo nos governa em altos juros
De suor, sangue e salário.

Natal, Ano Novo passaram e ninguém não viu...
Tudo é tão veloz!
- Antes de chegar, quem sabe o que novo?

Todos os sonhos morrem no seco,
Sem chegada, sem saída, sem beco.

Teresina, 23/12/2011.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

P E R F I S A C A D Ê M I C O S - LUIZ MENDES RIBEIRO GONÇALVES

Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves e Alice

REGINALDO MIRANDA

Na edição de hoje desejamos destacar a personalidade do acadêmico Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves, um benemérito da Academia. Natural da cidade de Amarante, veio ao mundo em 7 de fevereiro de 1895, filho de Elesbão Ribeiro Gonçalves e de Amália Mendes Carvalho Ribeiro Gonçalves, ambos oriundos de tradicionais famílias piauienses. Foi casado com Alice Ribeiro Gonçalves, de cujo consórcio não houve filhos.
Engenheiro civil, jornalista, político e escritor, iniciou as primeiras letras em sua terra natal, mudando-se depois para a Bahia, onde formou-se em Engenharia Civil pela Escola Politécnica, no ano de 1916.
De regresso ao Piauí depois, exerceu os mais importantes cargos públicos, entre os quais diretor da Secretaria de Agricultura, Terras, Viação e Obras Publicas(1916-1930). No exercício desse cargo revelou grande talento profissional ao projetar e dirigir obras importantes para do desenvolvimento do Estado, a saber: construção dos prédios do Liceu Piauiense e da Escola Normal Oficial do Estado, hoje Palácio da Cidade; construção de pontes, rodovias, planos de abastecimento d’água, luz elétrica, programas de colonização, plantas de cidades e de mapas do Piauí. Em face desse trabalho denodado, projetou seu nome profissional no cenário nacional, sendo convidado para exercer outros cargos de destaque. Nessa conjuntura, ainda ocupou os cargos de diretor-geral do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) no período de 1953/54, membro vitalício do Conselho Diretor do Clube de Engenharia, secretário-geral do Departamento Nacional dos Correios e Telégrafos e membro do Conselho Federal de Engenharia e Arquitetura. Com prestígio internacional, foi homenageado em Paris com o título de sócio da Societè des Engeniers de France. Fora do campo profissional, exerceu o cargo de secretário de Estado da Fazenda no Governo de João Luiz Ferreira(1920 – 1924).
Também brilhou no magistério como professor de Matemática e Física no Liceu Piauiense e na Escola Normal Oficial do Estado.
Jornalista brilhante teve destacada atuação na imprensa piauiense, colaborando nos jornais A Imprensa, O Lírio, Estado do Piauí, Correio de Teresina, Correio do Piauí, Diário oficial e O Momento.
Escritor de raro talento escreveu importantes obras sobre os mais variados assuntos, a saber: Problemas Municipais;Fossas Biológicas; Tipo de Colônia Agrícola para o Nordeste; Mapa do Piauí; Magistratura e Justiça; Aspectos do Problema Econômico do Piauí; A Servidão da Inteligência no Economismo Contemporâneo ; Educação e Democracia; Construções Escolares no Piauí; A Escravidão e o Movimento Abolicionista; O Babaçu na Economia Nacional; Fretes Marítimos Internacionais; Viagem de Inspeção ao Nordeste; Santos Dumont - Glória e amargura; Joaquim Ribeiro Gonçalves - poeta, político e parlamentar; Paulo de Frontin; Mauricio Joppert - engenheiro e professor; Le Mauricio Corbusier- Luz Imperecível; A Formação do Engenheiro e sua função social; Brasão do Piauí; por fim, Impressões e Perspectivas, trabalho organizado pelo professor A. Tito Filho. Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves pertenceu desde a mocidade à Academia Piauiense de Letras e ao Instituto Histórico e geográfico Piauiense, tendo doado à primeira um imóvel na região central de Teresina, hoje alugado.
Seguindo a tradição familiar, ingressou na política elegendo-se por via indireta Senador da República, em julho 1935. Esse mandato encerrou-se com o Golpe de Dez de Novembro de 1937, que instituiu o Estado Novo. Todavia, retorna ao Senado com a redemocratização do País, sendo eleito pela legenda da União Democrática Nacional(UDN) no pleito travado em 17.01.1947, para o mandato de 1947 a 1951. Candidato à reeleição em 1950, não conseguiu eleger-se.
Faleceu no Rio de Janeiro em 1984, sempre gozando da estima e consideração de todos.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO


22 de dezembro

O MALANDRO FALASTRÃO

Elmar Carvalho

Estava eu num dos bares mais tradicionais de Teresina, fazendo hora, enquanto minha mulher e minha filha faziam compra. Aguardava o telefonema delas, para voltarmos para casa. Nisso entrou o meu personagem deste registro. Em gestual e voz expansivos, foi logo chamando a garçonete de meu amor, com certa dose de familiaridade. Cumprimentou um conhecido, que já estava de saída, abraçando-o efusivamente, e dando-lhe pequenas chicotadas no peito com o seu tilintante chaveiro, que lembrava uma pequena chibata.

Estava acompanhado de um rapaz bem mais jovem, que pensei ser seu filho. Trazia um copo, tipo tulipa, desses próprios para cerveja. Pediu uma garrafa dessa bebida, e sentou-se a uma mesa perto da minha. Chamando a garçonete pelo nome, pediu-lhe “sua taça”. Ela logo o atendeu. Só então percebi que as demais pessoas usavam um copo comum, do tipo americano, com capacidade para 150 miligramas. Como falava alto, seja pessoalmente ou ao celular, por mais que eu pudesse ou quisesse ser discreto, não pude deixar de lhe escutar a conversação. Apresentou o jovem como sendo o namorado de sua filha, que estava arranchado em sua casa, e de lá não desejava mais sair.

Incontinenti percebi que se tratava de um malandro, aparentemente simpático, como todo malandro que se preza, um tanto fanfarrão, falastrão, e exibido como um galo novo, conquanto já aparentasse haver dobrado o cabo da boa esperança de meio século de vida. Em meio a um telefonema, disse ao interlocutor que desejava continuar com a sua mulher velha, pois já lhe conhecia os defeitos e mazelas, ao passo que com a “aquisição” de uma mulher nova teria que descobrir os seus problemas e se acostumar com eles; portanto, preferia “recuperar” a coroa, com uma recauchutagem médica e protética. Apenas, em compensação, desejava que ela lhe deixasse degustar as suas cervejas e empreender as suas conquistas amorosas.

Em conversa com o genro (ou futuro genro), alardeou que tinha um chip com a lista telefônica de suas namoradas. A seguir, talvez querendo provar o que acabara de dizer, ou mesmo por simples exibicionismo inato e compulsivo, começou a ligar para algumas delas. Cumprimentou a primeira pretensa namorada, chamando-a de meu amor, proclamando em alta voz que estava “morrendo de saudade”; que o seu maior defeito era gostar dela, e que contra isso não havia remédio nem antídoto.

Quando fez outra ligação, talvez pretendo ser engraçadinho ou criativo, disse:
- Bom dia, boa tarde, boa noite, meu amor, qualquer hora é boa hora com você!...
Atendendo recomendação de Cristo Jesus, não pretendo aqui julgar meu semelhante. Tenho bem presente a sua admoestação de que: “Não julgueis, pois, para não serdes julgados; porque com o juízo que julgardes os outros, sereis julgados; e com a medida com que medirdes, vos medirão também a vós” (Mateus, VII: 1-2).

Entretanto, sem nenhum prurido de falso moralismo, fiquei a imaginar o rapaz casado com a filha do nosso dom Juan tupiniquim. Também imaginei a moça descobrindo conquistas amorosas do marido, e indo pedir ajuda e conselho ao pai. Não sei o que ele lhe diria, o que lhe recomendaria. Engendrei a hipótese de a jovem mulher usar seu pai como exemplo de marido ideal. É possível que o jovem fosse um amigo leal e guardasse consigo as aventuras e fanfarronices do sogro. Todavia, é razoável supor que esse jovem marido, fustigado pelas verrinas e catilinárias da mulher, dissesse, um tanto enfurecido e com certo sarcasmo:
- Foi exatamente com o exemplo de teu pai que eu me tornei o que sou...
Deixo ao leitor o trabalho de conjeturar sobre a continuação desse amargo diálogo.  

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

QUATRO POETAS DO PIAUÍ


TÚMULOS

H. Dobal

Trovões distantes trazem
de um horizonte escondido uma tarde de chuva.

A chuva transforma a tarde
nas trevas da noite.

A noite traz de novo os amores perdidos,
uma ambição abandonada
o tremor das almas transidas no túmulo dos corpos.

Extraído de LB – Revista da Literatura Brasileira, nº 6

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Flagrante futebolístico do Gervásio Castro


Texto e charge: Gervásio Castro

De um lado a sobriedade, do outro a indiscrição. De um lado o profissional aplicado, do outro o moleque mimado.
De um lado o craque consagrado, do outro a promessa,  o produto ainda não acabado e já lançado no mercado como um novo Pelé.
De um lado um verdadeiro time de futebol, do outro um grupo de jogadores super avaliados pela ufanista mídia paulista.
Resultado: Barcelona (do Messi) QUATRO, Santos (do Neymar) ZERO, E foi pouco!

DIÁRIO INCONTÍNUO


O grande e injustiçado goleiro Barbosa

20 de dezembro

CARLOS SAID – MESTRE DO FUTEBOL E DA AMIZADE

Elmar Carvalho

Após a melancólica, mas de certa forma já esperada, derrota do Santos para o Barcelona, pelo vexatório placar de quatro a zero, que ainda poderia ter sido pior, não fossem duas ou três magníficas defesas do goleiro santista, e dois chutes barceloneses terem acertado a estaca da trave, resolvi ligar para o jornalista Carlos Said. Sabendo que ele gosta de se concentrar para assistir às partidas de futebol pela televisão e para acompanhar os comentários, deixei passar quase uma hora, depois do apito final, para efetuar o telefonema.

Devo dizer que, com relação aos times de São Paulo, sou torcedor do Santos, desde que, aos 13/14 anos de idade, com a ajuda do padre Deusdete Craveiro de Melo, fundei, na cidade de José de Freitas, um time com esse nome, e contribuí para a criação de um campo de futebol, que se localizava na frente do cemitério velho, quase aos pés do Morro do Fidié, que prefiro chamar de Morro do Livramento; ficava, portanto, perto do teatro, de um antigo clube dançante, aos fundos da casa do finado Levi.

Pedi ao mestre Carlos Said que comentasse três pontos que eu iria abordar. Um, foi o excelente futebol apresentado pelo Barcelona, o mais bonito que já me foi dado ver nos últimos anos, um verdadeiro bailado, diria mesmo uma legítima coreografia de balé, com passes longos e curtos, mas sempre precisos, exatos, perfeitos, em que os jogadores estavam sempre a se deslocar, mudando de posição, desnorteando o adversário; às vezes a tabela era feita em deslocamento circular dos jogadores, que me fez recordar o mítico “carrossel holandês”. Mais parecia uma evolução de dançarinos. Cabe ressaltar que não era um tabelamento inócuo, que visasse apenas à posse da bola pela posse da bola, mas tinha um caráter nitidamente estratégico, ofensivo, com a finalidade de fazer gol, e não apenas dar plasticidade ao espetáculo futebolístico.

Dois, observei que o Messi jogara de forma magnífica, no esplendor de seu estilo característico, de muito domínio de bola; que ele, embora em alta velocidade, mantinha o domínio da pelota, com ela quase colada a seus pés; que tinha dribles imprevistos, desconcertantes, desnorteantes; que ele, mesmo sob pressão de marcadores, era muito hábil no recebimento de passes e na distribuição da bola, com lances de precisão milimétrica, cirúrgica, por assim dizer; que tinha raciocínio rápido, grande visão de jogo, e extraordinária capacidade de improviso. Diante dessas e outras qualidades, não referidas, perguntei-lhe se ele não seria superior ao Pelé, o que para muitos fanáticos seria uma verdadeira blasfêmia. Por último, abordei a pretensa Seleção Brasileira de todos os tempos, na ótica do narrador esportivo Galvão Bueno, declarada em programa apresentado pela Angélica, na tarde do último sábado. Bueno, achando-se muy bueno, fez a sua escalação, levando em conta, assumidamente, as suas amizades, ao menos em duas ou três escolhas.

O mestre, após me ouvir sem interrupção, provando que é um arquivo vivo do futebol, senão mesmo uma verdadeira enciclopédia desse esporte bretão, com o seu poder de síntese e análise, deu-me as respostas, que seguem adiante. Com relação ao futebol apresentado pelo Barcelona, não o pôde negar. Todavia, com a sua memória prodigiosa, depois de enunciar a escalação do Santos, nos áureos tempos de Gilmar, Mauro, Pelé, Pepe e futebol clube, esclareceu que esse também foi um time fabuloso. No tocante à comparação entre Messi e Pelé, considerou que o craque brasileiro era superior, entre outras razões, pelas seguintes: jogava com perfeição com as duas pernas, podendo ser considerado ambidestro; era muito bom nas cabeçadas e sabia “tabelar” com o adversário, ou seja, utilizava o oponente para construir as jogadas.

Não concordou com a “seleção do Galvão”. Fazendo uma rápida retrospectiva histórica e biográfica de vários craques do futebol brasileiro de todos os tempos, discordou de alguns nomes dessa seleção. Contudo, quando eu lhe sugeri a publicação do escrete saidiano em sua coluna jornalística, como atleta que foi, conquanto na posição de goleiro, esquivou-se, e me driblou, dizendo que aguardaria que primeiro eu publicasse a minha. Foi uma legítima firula do mestre, porquanto não tenho estofo intelectual futebolístico para tal ousadia, de modo que ficaremos privado de mais uma proeza do Magro de Aço.

Como, por várias vezes, eu o chamasse de mestre, o que ele de fato é, disse que passaria a me chamar de gênio. Diante desse exagero descomunal, diria mesmo alopramento hiperbólico, pedi-lhe:
- Não, mestre, não me levante tão alto, pois ao cair ficarei totalmente esbagaçado!...
Com a sua verve irônica, porém amiga, retrucou-me:
- Não se preocupe, pois o ampararei.

Em confiança, ele, ao telefone, terminou por me escalar o que, na sua visão, seria a Seleção Brasileira de todos os tempos, com atletas das mais remotas épocas. Devo dizer que, em meu parco entendimento, achei mais justa a sua escalação do que a do Galvão Bueno. Nela, certamente, não preponderaram amizades, simpatias ou compadrios, nem quaisquer outros fatores de ordem pessoal. Nela, entre outros que não declinarei, estavam Garrincha, Pelé, Zico e o goleiro Barbosa. Vai que é tua, Magro de Aço!

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Comiam, Bebiam, Acasalavam-se


José Maria Vasconcelos
cronista, josemaria001@hotmail.com

Teria sido num dos badalados restaurantes da Zona Leste de Teresina onde li esses três verbos? Impossível, porque não se adequam a ambientes chiques e corretamente civilizados. Ou em anúncio de confraternização natalina, no glamuroso cabaré da Beth Cuscuz? Antes de lhe responder, repare o que alguns leitores manifestaram sobre o curioso título da crônica, NENHUM HOMEM PENETROU EM MIM.
"Que o título provocou urgência em ler logo, não tenho dúvidas. Essa foi de mestre!", de Aníbal Martins Machado, da Receita Federal. "Tudo que está entre frestas se faz apetitoso, então dispara o gatilho da curiosidade humana", Paulo Roberto Meireles. Professor Geovane Fernandes: "Eficiente estratégia de fisgar o leitor. Só para citar os mais festejados, temos o capítulo Das Negativas, de Machado de Assis, A Paixão Segundo G.H, de Clarice Lispector e Claro Enigma, de Drummond. Mas, assim como os citados, não só por isso, pois seu texto é de todo cativante, substancial." O radialista Alexandre Carvalho colocou: "Concordo com a analogia feita com relação ao mistério da maternidade de Maria..." O escritor Chico Castro: "O canto de Maria, logo após a anunciação, é uma das peças de maior relevância na literatura de todos os tempos..." Coronel Valdinar, por telefone, louvou a descoberta do tema. Antônio Carlos, docente de Teologia, em curso universitário de Fortaleza, teceu longo e profundo comentário, além de achar o título apelativo. Quando o leu, já sabia quem pronunciara. Professor Saraiva, também docente universitário, naquela capital, afirma que as alunas provocaram rebu com o uso da palavra PENETRAÇÃO. Rita Lúciae, lúcida de sinceridade: "No começo, a surpresa... Depois, ufa! o professor não é veado! kkkkkk."
Final de ano, festas em nome da confraternização humana, mas o abuso material, muitas vezes, ofusca o espiritual. Bares e restaurantes empanzinam-se de múltiplas panelas, receitas e cardápios. Famoso buffet de Santa Catarina prepara-se para o reveillon, cobrando por camarote 10 a 20 mil reais. Em Teresina, há uma explosão de riqueza multiplicando novos e luxuosos condomínios, quase dois mil veículos vendidos mensalmente. Nove pontes sobre o Poti não resolvem o tráfego.
A festa natalina do Messias transforma-se em consumismo exacerbado na figura de papai noel. Noel, em francês, traduz-se Natal. Não é uma irreverência ao Natal cristão? Não é diabólico?
Para se festejar sagrada confraternização, em nome do Filho de Deus, precisa esparramar-se em bebedeiras e festins pagãos? Não condeno a confraternização sadia, mas a irracionalidade tapando a reflexão sobre o sentido da presença de Cristo no mundo. Ora, toda civilização quando chega às extremidades do materialismo, da ganância, da sexualidade desenfreada, da degradação da família, da ausência do espiritual e virtudes, entra em decadência. Foi no império romano, egípcio, grego, francês. No Brasil, enquanto nobres do império refestelavam-se de comida e bebida na Ilha Fiscal, republicanos, na véspera, preparavam-lhes o bote final. Americanos e europeus compõem as últimas vítimas do capitalismo irracional.
Então, me vêm os três verbos da decadência moral previstos por Cristo: "Assim como no tempo de Noé, nos dias que precederam o dilúvio, comiam, bebiam e acasalavam-se...nada sabiam no momento em que veio o dilúvio." Não sou culpado de bater com os olhos nos capítulos 6 do Livro de Gênesis e 24 do evangelho de Mateus, adequados aos luzeiros festivos de final de ano, embevecido de gastanças mil. Porém, que tal escrevê-los na entrada dos restaurantes, lojas e departamentos, academias, bufês e mansões, até mesmo nas frontes de gestores insaciáveis de corrupção e burundanga?

sábado, 17 de dezembro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO

Antiga Praça da Graça, vendo-se, à direita, o prédio dos Correios

Igreja N. S. de Fátima, em Parnaíba


17 de dezembro

LEMBRANÇA DE BATISTA COSTA

Elmar Carvalho

Neste final de tarde chuvosa e fria de Regeneração, evoco a figura de João Batista Costa, sobre o qual me referi no último registro deste diário. Quando meu pai assumiu a chefia da ECT em Parnaíba, no primeiro semestre de 1975, ainda o encontrou como funcionário dessa repartição. Era ele remanescente do antigo DCT – Departamento de Correios e Telégrafos. Não tendo optado pelo regime trabalhista (CLT), na mudança organizacional dessa repartição da administração direta federal para ser uma empresa da União, aposentou-se como funcionário estatutário, sob o regime da Lei nº 1711, a fim de não perder a estabilidade funcional.

Após o curso de monitor postal no Recife, no Centro de Treinamento Correio Paulo Bregaro, e depois de ter trabalhado por mais de ano em Teresina, fui removido, através de permuta, para Parnaíba, a fim de cursar Administração de Empresas na UFPI, Campus Ministro Reis Velloso. Exercendo minhas atividades postais, via, quase diariamente, no prédio dos Correios, o saudoso amigo João Batista Costa. É que ele, apesar de já aposentado, vinha receber as correspondências destinadas a moradores do povoado Morros da Mariana, que na época não tinha posto de correios e nem linha regular de ônibus.

Nessa época, a cidade de Parnaíba tinha três Batistas, que mais se destacavam. Batista Leão, jornalista, diretor da rádio Educadora, a mais antiga emissora do Piauí, e do jornal Folha do Litoral, do qual fui colaborador, sobretudo na qualidade de poeta; Batista Silva, também jornalista, que foi eleito prefeito do município, e se tornou impopular, mormente por ter destruído a antiga e graciosa Praça da Graça, que agora passa por ampla restauração; e o saudoso Batista Costa, que fora vice-prefeito, na gestão de Elias Ximenes do Prado. Homem bom, correto, cordato, cordial, bem-humorado, católico praticante, era uma personalidade querida na cidade de Parnaíba e em Morros da Mariana, onde nascera.

Era sempre com um amplo sorriso, com sua voz potente, de timbre agradável, quase de tenor, com uma leve tonalidade metálica, vibrátil, que me cumprimentava, ainda na primeira parte da manhã, chamando-me de professor, profissão que venero, mas que, a bem dizer, nunca exerci, a não ser precariamente, durante curtíssimo período. De forma efusiva e alegre, eu lhe correspondia ao cumprimento, enquanto entabulávamos breve conversação, sem o menor resquício de ressentimento por causa de nossas discussões veementes nas reuniões dos padres redentoristas, conforme assinalei no registro anterior.

Quase toda semana, ele me emprestava os seus velhos discos de vinil, com músicas executadas por grandes orquestras americanas e nacionais, as chamadas big bands. Em troca, eu lhe repassava os discos que eu vinha comprando, com execuções desse mesmo gênero musical. Nesses vinis pontificavam as orquestras de grandes maestros, como Billy Vaughn, Glenn Miller, Ray Conniff e outros bambas da harmonia musical, além de trilhas sonoras de filmes que marcaram época, mormente dos gêneros dramático e épico.

Certo dia, tomado de entusiasmo e alegria musical, quase como se fosse um garoto, Batista Costa, dando à voz uma semelhança de saxofone e trompete, imprimindo-lhe um timbre nitidamente metálico, executou a música Tema de Lara, para que eu me recordasse dessa melodia. Sempre que ouço essa música ou revejo o filme Doutor Jivago, recordo esse amigo que partiu desta vida um tanto precocemente. Aliás, os verdadeiros amigos sempre se vão cedo demais. Mas, como disse, num de meus poemas, meus amigos mortos me acompanham cada vez mais vivos. 

ELEIÇÃO DA NOVA DIRETORIA DA APL

Francisco Miguel de Moura, Assis Brasil, Reginaldo Miranda, des. Paulo Freitas, des. Manfredi Mendes Cerqueira e Celso Barros Coelho


Francisco Miguel, Teresinha Queiroz, Assis Brasil, Hardi Filho, Reginaldo Miranda, des. Paulo Freitas, des. Manfredi Cerqueira, Elmar Carvalho e Celso Barros Coelho
Realizou-se hoje, pela manhã, a eleição para a diretoria da Academia Piauiense de Letras, que dirigirá a entidade no biênio 2012/2013. Em virtude da boa administração do presidente Reginaldo Miranda da Silva, que entre outras realizações promoveu vários eventos culturais, retomou a edição do boletim Notícias Acadêmicas, editou vários livros, publicou vários números da Revista da Academia, e já está com outros números no prelo, com o objetivo de atualizá-la, criação do site da Academia ( http://www.academiapiauiensedeletras.org.br ), não houve disputa. A chapa única estava assim constituída: Reginaldo Miranda da Silva – presidente; Raimundo Nonato Monteiro de Santana – vice-presidente; Oton Mário José Lustosa Torres – secretário geral; José Elmar de Mélo Carvalho – 1º secretário; Nelson Nery Costa – 2º secretário, e Manoel Paulo Nunes – tesoureiro. A chapa recebeu 33 votos a favor, sem nenhum voto contra ou nulo.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A CONSOLIDAÇÃO DA APL


REGINALDO MIRANDA

Fundada a Academia em 31 de dezembro de 1917, foi eleita por unanimidade a nova Mesa Diretora, tendo por presidente o acadêmico Clodoaldo Severo Conrado de Freitas, de 62 anos de idade. Na primeira sessão magna ou solene que realizou-se em 24.05.1918, ao tomar posse o novo acadêmico Pedro Brito declarou sobre a eleição de Clodoaldo: “A Academia elegeu-o seu presidente: ninguém lhe disputaria a cadeira porque é o mais delicado e perfeito dos nossos escritores” (RevAPL, 1923).
Clodoaldo Freitas conduziria a Casa no período de 1917 a 1919, por dois anos, vindo a falecer em 1924. Foi sucedido por Higino Cícero da Cunha(1919 – 1924), de 61 anos de idade, sendo eles os dois principais esteios da nova agremiação literária, vez que Abdias Neves, outro grande talento, estava ausente no exercício do mandato de senador da República, vindo a falecer em 1928. Concluídos esses sete primeiros anos, assumiu a presidência da Academia o então governador Matias Olímpio de Melo, de 42 anos de idade, que acumulou os dois cargos a partir de 1924, deixando o governo do Piauí em 1928 e a presidência da Academia em 1929.
Esses doze anos iniciais representaram um período de implantação e consolidação da Academia como mola propulsora da cultura piauiense. Foi lançada a primeira edição da Revista em 1919, e que passou a ser reeditada com todo o zelo e competência, sendo a 14.ª edição lançada em 1929. Os Estatutos foram elaborados, aprovados e publicados passando a vigorar desde a sessão inaugural, instituindo a existência de trinta cadeiras, que foram preenchidas nas duas sessões que se seguiram à da posse da Diretoria. Em 04 de julho de 1921, pela Lei Estadual n.º 1002, a Academia Piauiense de Letras, juntamente com o Instituto Histórico e Geográfico Piauiense e uma extinta “Sociedade Auxiliadora da Instrucção”, foram reconhecidos de utilidade pública. Em 1929, traz a revista a informação de que todas as cadeiras existentes continuavam devidamente preenchidas. Inclusive, em 25 de janeiro de 1925, ao tomar posse na Cadeira n.º 01, que foi de Clodoaldo Freitas, o padre Cyrillo Chaves informa que enfrentou acirrada disputa contra outro candidato e que foi esta a primeira vez que houve disputa para preenchimento de uma cadeira da Academia, o que demonstra o prestígio de que gozava a Academia e o conseqüente interesse dos escritores locais em ingressar na nova agremiação literária.
Pode-se dizer, então, que a Academia Piauiense de Letras consolidou-se desde cedo como uma das mais atuantes instituições culturais do País, atuando de forma efetiva no meio cultural, dentro do espírito moderno que orientava a produção literária brasileira. As três primeiras diretorias, pelo período de doze anos, foram presididas por dois sexagenários que representavam a mais consolidada cultura do Estado, atualizados das mais modernas correntes filosóficas e políticas em voga no mundo, cujo pensamento, de ambos, foi plasmado na histórica Escola do Recife; por fim, esse ciclo inicial foi coroado com a presença de um jovem e inteligente governador, também intelectual de largos recursos, o que demonstra o prestígio da Academia desde sua fase inicial. Em 1929, retorna à presidência da Academia o sábio Higino Cunha, em cuja gestão se demoraria por quatorze anos. Mas esse é assunto para outra análise.

FÁTIMA CAMPOS


Amigos, familiares, todos que puderem nos ajudar: minha mãe Maria de Fátima Campos Sousa Medeiros vai fazer uma cirurgia na terça, dia 20/12, ou na quarta, dia 21/12, e precisa de 58 doadores para doar plaquetas e concentrado de Hemácias! Pode ser qualquer tipo de sangue, o doador tem que ter de 18 a 65 anos acima de 50Kg, tem que estar alimentado. Se for mulher não pode estar menstruada nem grávida. Quando chegar ao HEMOPI, favor se identificar como doador da paciente Maria de Fátima Campos Sousa Medeiros, que vai fazer uma cirurgia no Hospital HTI, dessa forma as bolsas chegarão ao hospital!!! Por favor, compartilhem com todos! Que deus abençoe a todos nós! Grata!

Marina Medeiros


quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

DIÁRIO INCONTÍNUO



15 de dezembro

O DESTINO E A RELATIVIDADE

Elmar Carvalho


No ardor e na bisonhice de meu final de adolescência, no segundo semestre de 1975, fui, algumas vezes, com meu pai a reuniões no salão paroquial da igreja de Fátima, perto do chamado arsenal, antiga sede da Polícia Militar em Parnaíba. Seguíamos a pé, do apartamento dos Correios, onde morávamos, na Praça da Graça, até o local das reuniões. Nessa época, ainda me afirmando, eu gostava de debates e discussões intelectuais. Por duas ou três vezes, com a mediação de um dos padres redentoristas, entrei em calorosa discussão com o senhor João Batista Costa, funcionário aposentado dos Correios e vice-prefeito de Parnaíba, na gestão Elias Ximenes do Prado. Era ele colega e amigo de meu pai.

Ele esposava o entendimento de que existia destino, no sentido de que o homem já vinha com a trajetória de sua vida previamente traçada por Deus. Eu tinha o entendimento diametralmente oposto, e argumentava com ênfase muito incisiva que se não fosse assim a Justiça divina não existiria, ou, ao menos, não poderia existir o pecado. Ora, argumentava eu, se uma pessoa trazia o destino de cometer pecado, como, por exemplo, matar alguém, essa culpa não lhe poderia caber, já que ela nasceu com essa determinação do destino, da qual não poderia fugir, pois seria algo semelhante ao maktub dos árabes, cujo vocábulo pode ser traduzido por “já estava escrito”. Por outro lado, a virtude também não poderia existir, porquanto se um ser humano veio ao mundo predestinado a ser bom, a fazer caridade, nenhum mérito lhe caberia, uma vez que nascera “programado” para fazer o bem, para ser virtuoso. Logo, não poderia existir o destino. E se este existe, no sentido de predestinação, não pode existir o livre arbítrio.

Numa dessas vezes, quando a reunião terminara, procurei conversar com um dos padres, procurando sondar sua opinião e ao mesmo descobrir se ele tinha o mesmo pensamento meu, ou se também era adepto de que existiria o chamado destino humano. Ele deu uma resposta sibilina, enigmática, que eu interpretei como se ele estivesse se equilibrando em cima de um muro, ou tateando nas trevas de dúvidas e indecisões. O certo é que eu não o compreendi completamente. Hoje, passadas mais de três décadas e meia, penso que ele tinha uma postura mista, em que o destino não era totalmente descartado, como uma possibilidade, ainda que parcial ou que pudesse sofrer modificação ou interferência humana.

Com a maturidade, já começando a descambar para a chamada terceira idade, verifico que nunca um homem tem controle total sobre sua vida; que todos dependem de certas circunstâncias e acontecimentos, que lhe podem ou não ser favoráveis; que a vida de um homem, a começar pelo seu nascimento, é cheia de tempos e contratempos, de percalços, de acidentes de percurso, de fatos fortuitos ou aleatórios, de acontecimentos que não poderíamos prever, de acontecimentos que independem de nossa vontade ou poder decisório.

Vou mesmo além: se o óvulo de sua mãe tivesse sido fecundado por um outro espermatozóide, entre os milhões que disputavam a maratona em busca do único óvulo disponível, um homem seria outro homem. Por outras palavras, os acontecimentos se vão sucedendo, e nós vamos indo, às vezes de roldão, influenciando e sofrendo influência, tentando impor as nossas vontades, os nossos desejos. Em suma, tentando exercer influência. Em muitos casos, temos poder decisório, mas esse mesmo limitado pelas leis, pelos fatos, pelas convenções sociais, pela nossa personalidade, que por sua vez foi moldada pela herança genética, pela educação, pela experiência de vida, pela inteligência, e assim por diante.

Para não me alongar, parece que nada é absoluto neste mundo. A relatividade parece ser uma certeza, ou, ao menos, uma certeza relativa. Na mecânica quântica existe o princípio da incerteza; quanto mais um ponto é determinado, mais a velocidade se torna imprecisa. Por outro lado, cada vez são descobertos mais mistérios no mundo do infinitamente pequeno, como certas subpartículas de comportamento bizarro. Dizem que algumas parecem ora se comportar como ondas, ora como matéria.

Até a ideia de Einstein de que nada poderia suplantar a velocidade da luz parece estar sendo superada, pois o neutrino, uma subpartícula atômica, que não se detém ante nada, como se fosse um espírito, um ser (quase) imaterial, seria mais veloz que a luz. Agora mesmo, os cientistas estão a rastrear o chamado bóson de Higgs, apelidado de partícula de Deus, do qual parecem vislumbrar tênues indícios, ainda não totalmente comprovados. Em síntese: existem muitas incertezas e muitas coisas e acontecimentos sobre os quais não temos nenhum controle.

Diante de tudo isso que acabo de expor e ante as descobertas em torno do código genético (DNA), faço uma pequena revisão em minha crença de que o destino, no sentido de predestinação, não existiria. Ao que parece, algumas heranças genéticas parecem influenciar o comportamento do ser humano. Nesse aspecto, algumas pessoas poderiam ter predisposição para adotarem certos comportamentos, certas atitudes. Se isso for realmente confirmado, alguns crimes e pecados poderiam ser cometidos por causa do tipo de DNA do portador? E se isso for verdade, qual o grau de culpabilidade da pessoa, até que ponto ela seria responsável pelo seu pecado ou crime? De qualquer maneira, isso não elide o fato de que a sociedade tem necessidade de se defender dos criminosos e violentos, sejam eles sanos ou insanos, psicopatas ou não.

Outro dia, ouvindo meu pendrive, que tem mais de mil músicas, que fui selecionando ao longo de várias décadas, através de discos de vinil, de CDs, de mp3, da internet, etc, e que uso sempre no modo de seleção aleatória, ou seja, através do programa que faz uma espécie de “sorteio” das músicas, pensei na vida e no destino. Quando, por algum motivo, eu não estava disposto a ouvir a faixa “sorteada”, eu apertava o botão que provocava nova escolha aleatória. Quer dizer, eu tinha o poder de elidir, naquele momento, aquela determinada canção, entretanto eu não tinha o poder de escolher que música viria a seguir.

A vida, fazendo uma analogia, permite que descartemos algumas “músicas”, mas parece não nos dar muito poder de decisão sobre o que nos reserva o futuro, pois todos influenciamos e somos influenciados, numa tremenda interação, em que todos decidem algumas coisas, no varejo, e são destinatários, no atacado, de decisões alheias, coletivas ou individuais. Ortega y Gasset disse que “eu sou eu e minhas circunstâncias”. Sem dúvida. De acordo. Entretanto, com certeza, em muitas ocasiões, ele não foi o artífice de suas próprias circunstâncias. Como diz minha mãe, nós não sabemos sequer de que modo iremos morrer. Por isso mesmo, os humildes e precavidos, rezam para ter uma morte.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

QUATRO POETAS DO PIAUÍ


PARA ILUDIR O CORAÇÃO

Da Costa e Silva

Como me enleva e quanto me impressiona
Conservar sempre nítido comigo
O teu perfil judaico de Madona
Na iluminura de um missal antigo!

A saudade, que nunca me abandona,
(Oh! sombra de minha'alma, eu te bendigo!),
Ficando a tua imagem se fez dona
Do pensamento em que te dei abrigo...

Para iludir o coração que pena,
No espelho móvel da memória trago
Teu vulto amado, na expressão serena...

E iluminas meu ser, num sonho vago,
Como estrela a abrir-se em luz serena
Sobre a quietude límpida de um lago...

Extraído de LB – Revista da Literatura Brasileira, nº 6

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Ter livros em casa ou não tê-los: eis o dilema

Foto meramente ilustrativa


CUNHA E SILVA FILHO

Não são boas as notícias sobre o destino dos livros que possuímos. Algumas delas falam em brigas de casal por causa de excesso de livros num dos cômodos, ou nas dependências de empregada, já que estas estão sumidas do poder econômico da classe média ou média baixa ou sei lá em que se transformou a designação da pirâmide social, hoje preferindo rotulações que me soam um tanto cabalísticas ou mesmo esotéricas: classes a, b, c, d, e ... Nunca vi país mais chegado à virtual divisão de estratos sociais quanto o nosso. Mas, leitor, esse não é bem o ponto central desta crônica. O que quero pôr em discussão, ou senão em forma de monólogo, ou no mínimo num incerto diálogo, é o destino, triste sina, dos livros de que dispomos em nosso “Home, home, sweet home”, ou no “My home is my castle,” como preferem os ingleses muito inclinados aos jardins tão bem cuidados e de fazer inveja.
Sei de um amigo que já em parte se separou dos seus amados volumes adquiridos em tantos anos de leitor compulsivo; sei de outro que está destinando parte de sua biblioteca a uma biblioteca pública; sei de outro que, aos poucos, está doando livros que já foram lidos e, muitas vezes, relidos. Sei de outros que andam também com a mesma ideia de ter que se separar de seus bem-queridos livros adquiridos em longos anos em volumes que chegaram a compor uma modesta biblioteca privada.
Uma vez, estava numa velha livraria de sebo quando um senhor magrinho, baixinho, chegou-se até ao livreiro e lhe perguntou se queria comprar algumas coleções inteiras de grandes autores da literatura universal. Este mesmo senhor, dirigindo-se também a mim, perguntou se eu também queria comprar-lhe alguns volumes e foi direto me passando, numa espécie de cartão de visita, o endereço e o telefone. Guardei o cartão por algum tempo, contudo, não sei como, terminei perdendo o cartão e a possibilidade de ir procurar aquele senhor magrinho com cara de leitor voraz.
Dessa experiência com notícias sobre descarte de livros, aprendi uma lição: a pessoa que consegue ter uma média ou grande biblioteca, em determinada época do balanço da vida, resolve livrar-se dos próprios livros. As razões são múltiplas e, muitas vezes, inconfessáveis: tédio da vida, sentimento de quem acha que morte está se aproximando com o peso dos anos, tirar algum ganho por necessidade num tempo em que a aposentadoria ficou corroída com os anos, certeza de que não terá mais tempo e paciência para reler aquela montanha de livros, motivo de mudança de uma casa para um apartamento ou para uma casa menor, onde não haverá espaço suficiente para caber tantos livros.
No meu caso, me situo numa experiência diferente e talvez única. Muitos livros que tinha, assim como coleções de jornais, de revistas de material, de anotações, ou melhor arquivos com centenas de folhas, livros didáticos que gostaria de ter comigo para sempre, com tantas mudanças que fiz, foram se perdendo para enorme tristeza minha. Se existe algo que me entristece é perder um livro de que gosto. Uma vez – se é que não estou me repetindo -, fiz uma crônica, dolorosa crônica lamentando a perda de um livro. O mesmo vale para coleções de suplementos literários, como os do JB, do Globo, da Folha de São Paulo, da coleção de revistas do Piauí, da coleção do Jornal de Letras dos irmãos Condé, da revista Forum, excelente publicação americana para professores de inglês, da coleção da revista Contato, da Cesgranrio, da coleção Plain Truth, nos áureos tempos do Pastor americano Armstrong, que lia a fim de melhorar meu inglês, de obras de autores piauienses, da coleção de artigos de meu pai publicados durante décadas em alguns jornais do Piauí, de coleção de artigos meus antigos remontando a 1963, muitos exemplares dos quais perdi pela vida afora.
O fato é que fui perdendo muitos livros, mas, aos poucos, sentindo as dores em doses menores, porque o mais lamentável é perder todos os livros de um só vez, assim como é profunda a dor de perder os originais de um livro que nos deu tanto trabalho, canseira - e por que não! – alegria de escrever. Uma vez, o contista João Antônio (1937-1996), tendo escrito Malagueta, Perus e Bacanaço (Civilização Brasileira, 1963), considerada sua obra-prima, teve a desdita de perder os originais que foram queimados em um incêndio. O pobre e talentoso contista teve que reescrevê-lo todinho, aproveitando o espaço de um biblioteca em São Paulo. Foi um milagre o havê-lo reescrito. Como, pergunto eu, teria sido mesmo a primeira versão? Não é possível que a recomposição tenha sido cem por cento a mesma. Já me aconteceu de haver escrito um texto longo no computador e, de repente, or deslize meu de não o ter salvo, perdê-lo, sendo forçado a refazê-lo de forma diferente e, a meu ver, inferior, à versão primeira.
Para quem ama na verdade os livros, separar-se deles é uma tormento, uma realidade que passa a ser angustiante, sentimento de desvalia, de carência, de desgosto, de abandono. A vida é mesmo cheia de perdas constantes. Os livros são como pessoas queridas, animais domésticos que estimamos e tratamos como se fossem um ser humano. Ao perdermos livros, perdemos parte de nosso universo afetivo, o que nos deixa num vazio inconsolável, sobretudo quando decididamente sabemos que não mais voltarão para nós.
Assim, venho me desfazendo, por mera falta de espaço, de alguns velhos livros, companheiros que me têm acompanhado por longos anos. Invejo, pois, aqueles que têm à disposição um lugar separado em que possam ser guardados a salvo do descarte. Sei que sou mesquinho quando não pretendo me desfazer de algumas obras que foram compradas com sacrifício, que foram encontradas por sorte em sebos. Triste e sombria cena presenciarmos o desmonte de uma vetusta biblioteca, cujos volumes vão parar numa lixeira, enxotados que foram por herdeiros que não amam os livros e nem se interessam por determinada área do conhecimento artístico, literário, científico.
Sabemos igualmente que não lemos todos os livros que temos conosco. Todavia, eles estão lá nas prateleiras, ao nosso alcance, para qualquer dia ser objeto de nossa leitura. Muita gente pensa que quem tem uma grande biblioteca leu todos os volumes ali contidos. Já ouvi alguém afirmar que o prazer do bibliófilo é possuir seus livros, pouco lhe importa se não ler todos eles. Cada livro tem o seu momento de leitura. Poderá ser hoje, amanhã, daqui a anos. O deleite é tê-los lá nas inúmeras estantes, prontos para serem buscados, escolhidos, lidos e admirados.
Os livros, na biblioteca, explicam gostos e preferências de seus donos. São pistas indicativas da formação de um indivíduo. Em silêncio, dizem muito de quem os coleciona. Da mesma forma, os livros iluminam aspectos da biografia de seus donos. Por isso, é tão traumático para alguém ter que se separar de seus livros. Ninguém, em sã consciência, estimaria perder um único livro de seu acervo particular. Se isso acontece é porque alguma coisa anda errada entre os moradores de uma casa, ou apartamento, onde existe uma biblioteca. A angústia do possuidor de uma biblioteca é a incerteza que nele paira sobre o destino que terão seus livros quando não mais estiver entre os mortais.
Enquanto puder, leitor, preserve os seus livros, lendo-os, amando-os, cuidando bem deles, e, quando não mais o puder, doe-os ou venda-os a quem deles precisa, seja uma pessoa física, seja um instituição privada ou publica. Se possível, faça um testamento expressando claramente a quem destinará seus livros, com quem ficará ou o que será feito deles na forma legal. Que, enfim, seus livros, sua biblioteca tenham um tratamento à altura de sua importância para a cultura do saber democraticamente divulgado e compartilhado. Só assim a angústia dos bibliófilos talvez fique mais aplacada ante a dor da separação.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

ODE À VIDA!

CARLOS COSTA
Escritor amazonense

Quando a vida lhe parecer pesada demais para ser transportada às costas; transporte-a e viva-a!
Quando a vida lhe parecer cansada demais, pesada demais, para ser vivida; viva-a!
Quando a vida lhe parecer chata demais, cansada demais, pesada demais para continuar vivendo; viva!
Quando a vida lhe for alcançada pela solidão, o desespero, a amargura e a insegurança lhe afligir e, junto, lhe vierem o cansaço e o peso; viva-a mesmo assim, porque sua vida é bela!
Quanto tudo lhe parecer difícil, torne fácil e viva intensamente!
Quando o desespero lhe bater à porta, não atenda. Mande alguém dizer que você saiu, não está em casa. Invente uma mentira qualquer, mas não o atenda. Uma mentirinha boba dessas não lhe levará para o inferno.
Se tudo lhe parecer desabando, reconstrua com os cacos que lhe restaram e faça com que novamente a vida se torne bela e adorável para ser vivida! Una todos os pedaços de sua vida, tijolo por tijolo, caco por caco e ponha-se de pé mais uma vez! A vida é sempre bela!
Só deixe de viver quando parar de respirar. Aí terá a certeza que todos seus órgãos vitais pararam mas, se puder, tente pela última vez mais um fôlego, mais uma respirada para sentir pela última vez o perfume da rosa sempre bela e desprezada. Com tudo isso, essa garra, essa certeza, lhe terá valido a pena viver!
Acordar pela manhã e poder respirar o ar fresco da noite, e sentir o vento lhe beijando o rosto, saiba:  é uma dádiva de DEUS e ninguém poderá lhe roubar isso, nunca!
Arme-se com as armas da vida e transforme tudo em uma batalha para viver sempre mais e intensamente. Essa é a única razão porque estamos no mundo e devemos agradecer sempre a essa razão!
Viva de forma intensa, mas com responsabilidade. A todos é dado o direito à ignorância. Mas a ninguém é dado usar da igorância para prejudicar aos outros.

domingo, 11 de dezembro de 2011

FOCO (*)



Luiz Ayrton

enxergo melhor você pelos gestos
a posição dos dedos
a velocidade do respiro
a ericidade dos pelos

enxergo você
pelo cabelo assanhado
o cruzar da sala de estar
de seu caminhado

quase sempre não preciso
virar o rosto
abrir os olhos
limpar os óculos
para entender os seus recados

enxergo melhor você
no espreguiçar das pernas
no balançar dos braços
o punho levantado

pouco importa que me puxe pelo queixo...
o gesto é o espelho dos segredos

(*) O poema faz parte do livro Objeto Presença, do médico e professor universitário Luiz Ayrton, a ser lançado em janeiro próximo.

DIÁRIO INCONTÍNUO

Foto meramente ilustrativa


11 de dezembro

UM CASO DE PISTOLAGEM

Elmar Carvalho

Outro dia, enquanto esperava a conclusão de um serviço de confecção de capas para os bancos de meu carro, ouvi na oficina uma história, dada como verídica, que mais parecia um conto policial. Inicialmente, pensei em exagerá-la, dar-lhe alguns “enfeites”, acrescentar-lhe alguns diálogos e entrechos, e transformá-la numa narrativa ficcional. Porém, pensando mais, preferi contá-la neste diário, tal como a retive em minha memória, sem nada além do que me foi narrado.


Certo rapaz, cujo nome não foi revelado, alugou uma casa, em certo conjunto residencial de Teresina. Tinha todo o conforto na residência – geladeira, aparelho de som, televisor, ar condicionado, poltronas, etc. Dizia ser sustentado pelo pai, suposto fazendeiro maranhense. Quando uma moça da vizinhança foi comemorar um aniversário, ele patrocinou o churrasco e as cervejas. Quando essa mesma moça teve um celular roubado, ele, não se sabe com que artes mágicas, conseguiu encontrar o aparelho e lhe devolver. Embora ninguém lhe conhecesse os parentes, amigos e procedência, tornou-se querido, conquanto nunca ninguém lhe tenha adentrado a casa, que nunca era aberta para visitas.

Um ou dois meses depois de ele se instalar nessa casa, um jovem delinquente apareceu morto, vítima de dois ou três balaços. Suspeitava-se, pelo menos corriam rumores a esse respeito, de que esse rapaz, anos antes, matara um fazendeiro maranhense, atendendo “encomenda”. Como vingança, a família do proprietário assassinado supostamente teria contratado um pistoleiro de aluguel, que seria o prestativo e educado vizinho referido nos parágrafos acima. Suspeitaram fosse ele o executor do homicídio porque logo após a notícia do assassinato do jovem delinquente esse bom e solícito vizinho sumiu, sem deixar o menor rastro ou notícia, deixando todos os móveis e eletrodomésticos na casa.

Dele ficou a lembrança de um rapaz simpático e atencioso com os vizinhos, e essa insidiosa suspeita pairando no ar. Contudo, é legítimo supor que ele não tenha cometido nenhum crime, e qualquer dia reapareça, ou que tenha cometido outro tipo de crime, que não o assassinato de um pistoleiro de aluguel. Afinal, para cometer o último crime talvez não precisasse passar mais de dois meses em uma casa mobiliada por ele. O aluguel, a compra dos móveis e aparelhos, bem como a relação com os vizinhos sempre deixariam rastros.

sábado, 10 de dezembro de 2011

O MURO DA MINHA ESCOLA


JOÃO PINTO
Cronista e contista


Todo dia que acordo, acordo meio sobressaltado por não estabelecer boa maneira com a minha aula. E aula, com certeza, é um núcleo que pode ser esmiuçado em muro, portão, mesa do professor ou carteiras, meus cacarecos pedagógicos, assoalho dos pés, paredes e, finalmente, aluno. Tudo isso minha aula, que não posso te dar o endereço porque se encontra em cada esquina.

Cada parte desse mundo me deixa com amargura. E não sei de onde me vem esse vazio existencial, que vem sendo constante quando vou à escola. Não sei mais conviver com esses elementos da escola, todos são comuns e me passam uma triste sina de coisa velha numa paisagem sem vida, que não mudam nem se renovam. Há muita liberdade e pouco sucesso. E nada de atípico aparece para me devolver a paz. Se eu encontrasse uma escola que tivesse esses mesmos elementos mas dentro de uma paisagem diferente, poderia com certeza conviver, manter diálogo renovado, mas o cérebro de quem fez e gerencia a minha escola por bem não é de gente que se fascina pelos livros. Dentro deles não há criança, há velhos rabugentos que o tempo nunca vai escrever na história.

O muro da minha escola não tem fachada que me agrade, seu corpo é doentio e precisa de reparos, o portão que lhe faz brecha é desbotado e abocanhado de ferrugem. Assim tudo se parece com tragédia. A sala dos professores precipita meus passos para fora, o bebedouro é outra lástima e a merenda me ajuda com esses quilinhos a mais, o banheiro é flex. As salas dos alunos representam uma corrida, quanto à escrita, para quem se saia melhor como pichador ou analfabeto da escrita, agora imagine o banheiro estudantil, essa parte monumental da escola que o aluno encontra para explodir bombas de festim nos vasos e criar sua linguagem anárquica em meio a urina e torneiras quebradas e vasos entupidos, de qualquer forma as meninas ali se pintam e os garotos mijam fora.

Quando toca a campa ao iniciar as aulas, meus passos seguem um corredor longínquo que não acaba mais. Eu o atravesso camuflado com meu tênis surrado, o meu material dissipado no lado esquerdo e os óculos que arribo de vez em quando para o topo do nariz. Cá comigo, penso, contabilizo 40 tempos semanais, por eles contabilizo o cansaço e esse medo que tenho de ambientes carcomidos, o tempo aqui é cheio como era ao tempo dos escravos nas senzalas. Tudo tem um preço na escola. O preço que pagamos com as decepções. Às vezes, em sala, minhas sílabas ficam cortadas numa exposição, só percebo quando os risos me colocam ao ridículo.

Entro numa sala repleta de alunos e, ali, em vez de o aluno levantar-se como era costume antigo para sinalizar respeito, o que ouço são os sons renitentes dos celulares, como pequenas balas de artilharia. E fico embriagado pela falta de lucidez do aluno, que são voltados apenas para o lado de uma sociedade que se molda no consumo. Fico desarmado. Relanceio a vista atrás de outros valores e nada encontro. Minha aula está precisando de um choque de urgência, que reponham a disciplina e a competição entre os alunos, afastem o bolor das paredes e dos livros nas bibliotecas, que de leitura ninguém morre, e é esse que é o alimento verdade do homem.

Mas, hoje, o professor tira o jeito de um muro de escola com sua cobertura de tinta apagada e enferrujada e que por ele vão passando muita gente, alguns ainda dizem algum valor, já outros gostam mesmo é de soltar xaveca para que a mofa fique presente na vida de todos.