sexta-feira, 16 de março de 2012

EXISTÊNCIA


Alcione Pessoa Lima

Não sei se tudo é ilusão...
Talvez não, pois sem ela a vida seria um tédio.
Não sei se o que aprendo tem serventia...
Mas, com certeza, a alegria é um bom remédio.
Por isso, escancaro o meu sorriso, sem observar etiqueta...
Desprezo, então, a ampulheta.
O tempo segue.


Eu sei que tudo é efêmero...
A beleza, a juventude, a felicidade...
Eterniza-se, apenas, o amor verdadeiro.
Que importa ser o último ou o primeiro
Se todos iremos para o mesmo lugar...!
Há caminhos que não se pode apagar...
Como uma paisagem fixada na lembrança...
O que nunca pode morrer é a esperança...
Mesmo que o mundo nos renegue...
A vida segue.


Talvez eu saiba um dia
Alguns mistérios que o mundo não revela...
E de que me valerão se o coração não estiver preparado?
O corpo resiste e a alma voa...
E segue na proa do destino.
E o começo do fim se afasta...
A existência me basta!

quinta-feira, 15 de março de 2012

FARMÁCIA POPULAR FORA DO AR


15 de março   Diário Incontínuo

FARMÁCIA POPULAR FORA DO AR

Elmar Carvalho

Na sexta-feira à tarde, passei em uma das mais afamadas farmácias de Teresina, exibi a receita, e perguntei se tinham o medicamento nela indicado, pois desejava adquiri-lo pelo programa Farmácia Popular. O atendente disse ter o produto, mas que o sistema do programa estava fora do ar. Aconselhou-me a retornar no dia seguinte. Sem queixas, aceitei a recomendação. Dezenove horas depois, retornei à mesma farmácia. Para meu desencanto, segundo o rapaz, o sistema continuava sem funcionar. Como eu gemesse alguma queixa, o atendente disse que a farmácia em que trabalhava não tinha culpa, porquanto o sistema não era da firma, mas do governo.

Dirigi-me, então, para a farmácia de uma outra rede, por sinal não menos poderosa e afamada. O vendedor disse que não tinha o medicamento referido naquele momento, mas dentro de duas horas ele estaria disponível. Fui com minha mulher fazer umas compras de supermercado, e retornei no prazo estabelecido. Já temendo outra decepção, dirigi-me ao mesmo atendente, que disse não ter o remédio da marca solicitada, mas apenas um “genérico”. Ante o inelutável e não desejando aborrecer-me, aceitei a imposição. O rapaz me pediu o RG e o CPF, preencheu uns formulários, e pediu-me fosse ao caixa efetuar o pagamento.

Segui em frente. Minha intuição me dizia que algo de errado ainda poderia acontecer. E aconteceu. Quando eu menos esperava, a moça que me atendeu disse que o bendito “sistema” estava fora do ar. Desta feita, contudo, quem ficou fora do ar fui eu. Dirigi-me aos vários clientes da fila, e lhes pedi para contar uma rápida história. Alguns me olharam com certa perplexidade, achando, talvez, que eu fosse pedir algum donativo. Após narrar essa odisseia que acabo de lhes contar, fiz estas singelas perguntas, tentando conter a voz e manter a calma o máximo que pude:
- E se eu fosse um pobrezinho, que tivesse feito essa peregrinação em um ônibus, ou pedalando uma bicicleta? Se o “sistema” não funciona, por que criaram essa tal farmácia popular, que passa mais tempo fora do que no ar?

Um homem, de aspecto humilde, que estava na fila, respondeu-me com a simpatia da solidariedade:
- Se o senhor fosse um pobrezinho, talvez já tivesse morrido...
Agradeci pela atenção e fui embora. Nada desejo acrescentar ou comentar. Deixo que o leitor faça o seu próprio julgamento, usando do critério da empatia, colocando-se em meu lugar, imaginando que esses fatos tenham acontecido consigo mesmo. Acrescento apenas isto: não posso dizer que gostei dessa experiência.

quarta-feira, 14 de março de 2012

O CHORO DA GRATIDÃO


14 de março   Diário Incontínuo

O CHORO DA GRATIDÃO

Elmar Carvalho

Estive conversando com o amigo Paulo Nunes de Almeida, nascido no Rio Grande do Sul, mas cuja ascendência paterna é de Barras. Foi ele meu colega no curso de Direito. Aposentou-se como agente da Polícia Federal e hoje é chefe de gabinete do secretário da Segurança Pública. Disse-me ele que fizera uma pequena boa ação há poucos dias. Uma senhora, já idosa, fora resolver um caso na secretaria, parece-me que relacionado com o fato de que ela, algumas filhas e uns netos morarem em local de alta periculosidade em Teresina.

O Paulo sensibilizou-se com o problema da velhinha e, tendo um bom coração, pediu-lhe que se inscrevesse em determinado programa governamental da habitação. Recomendou-lhe que o procurasse, após a inscrição. Uns quinze dias depois a senhora retornou, dizendo estar inscrita no programa habitacional que ele lhe indicara. O meu amigo imediatamente ligou para um dos superintendentes da prefeitura de Teresina, e pediu-lhe para receber a idosa. O gestor a recebeu e determinou que as assistentes sociais visitassem sua casa, para vistoria e elaboração do respectivo relatório. Como houvesse imóvel disponível num dos conjuntos residenciais do município, poucos dias depois a senhora adquiriu a sua casa.

Muito feliz com a aquisição, ela procurou o Paulo para lhe agradecer a consecução da residência. Enquanto ele atendia um telefonema, observou que a senhora começou a chorar copiosamente, quase a soluçar. Ele ficou preocupado, e lhe perguntou a razão do choro. A velhinha, com a voz embargada, respondeu-lhe:
- Estou chorando porque sou muito pobre, e nada tenho para lhe oferecer, nem mesmo uma simples lembrança...
O Paulo Nunes de Almeida sorriu, e brincou, tentando alegrar a anciã:
- É bom a senhora parar com esse choro, senão os jornalista vão pensar que eu estou é lhe torturando!

Esse fato me fez recordar um episódio que se passou com Landri Sales, sobre quem já escrevi um perfil biográfico. Era ele um administrador competente, sério, honrado, a quem o Piauí muito deve. Já naqueles idos, em que no Brasil fora implantado um governo autoritário, ele observava os princípios da moralidade e da eficiência. Talvez por isso mesmo uma pessoa do povo o abordou, e lhe disse que gostaria de lhe dar uma cesta de frutas, mas que soubera que ele não recebia presentes. Landri, então, lhe respondeu que de sua pessoa receberia o presente, pois quem dava uma cesta de frutas não estava querendo comprar ninguém. O bom Paulo bem poderia ter recebido algumas bananas, mas nem isso a velhinha tinha para ofertar. Mas Deus, que tudo enxerga e tudo perscruta, em sua Onisciência, haverá de lhe dar muito mais.

Meditando na exemplar gratidão da velhinha e no seu choro emocionado, declaro que tenho procurado ser grato a quem já me fez o bem, a quem teve gestos de bondade para comigo. Entretanto, devo dizer que já tenho recebido algumas ingratidões, de pessoas a quem ajudei e a quem prestei serviço. Faz alguns anos uma pessoa me disse, referindo-se a alguém a quem eu já fizera diversos favores:
- Elmar, Fulano parece que não gosta de ti, parece até que tem uma certa inveja...
Respondi de batepronto, monossilabicamente:
- Deve ser a maneira peculiar dele de demonstrar gratidão.
E encerrei esta parte da conversa.

Entretanto, devo dizer que quando presto algum favor nada espero em troca, exceto de Deus, que nos recompensa segundo nossos merecimentos. Até porque procuro seguir, humildemente, dentro de minhas limitações, a lição de Cristo: “quem de vocês quiser ser grande, deverá ser o servidor de vocês, e quem de vocês quiser ser o primeiro, deverá tornar-se o servo de todos.” Por outro lado, tenho encontrado pessoas a quem nada fiz, e que me têm uma atenção que me desvanece. E há, ainda, outros seres humanos, que nutrem uma gratidão muito maior do que o favor recebido, assim como existem as que “se intrigam” com a pessoa que lhes emprestou dinheiro, não sei se por ingratidão ou se por medo de eventual cobrança.

O que não é recomendável é deixarmos de fazer o bem, quando desejamos fazê-lo, por causa de possível ingratidão. Devemos lembrar do bem recebido, mas devemos, sempre que possível, e sempre é possível, esquecer o favor que fizermos. Agindo assim, nada sofreremos com possível ingratidão. O que não devemos, jamais, é seguir a lição de acendrado pessimismo do grande poeta Augusto dos Anjos, que talvez tenha sido um tanto egoísta, sentimento que se denota até no título de seu único livro – EU, escrito em letras vermelhas: “O beijo, amigo, é a véspera do escarro, / A mão que afaga é a mesma que apedreja.”

Dom Pedro II, que também versejava, após perder o trono e a majestade, como ele próprio disse, e amargar o desconforto do exílio, repudiando a ingratidão de que fora vítima, gemeu nestes versos tão pungentes: “Mas a dor que excrucia e que maltrata, / A dor cruel que o ânimo deplora, / Que fere o coração e pronto mata, / É ver na mão cuspir a extrema hora / A mesma boca aduladora e ingrata, / Que tantos beijos nela pôs – outrora.” Se seguíssemos radicalmente a lição do Divino Mestre, beijaríamos a face que nos escarrou, e afagaríamos a mão que nos apedrejou. Em suma: pagaríamos o mal com o bem.

terça-feira, 13 de março de 2012

VOLTAS QUE A VIDA NOS DÁ



JONAS FONTENELE
Advogado e professor

Naquele dia cheguei mais cedo ao escritório e na sala de espera vi um senhor de cabelos brancos, barba mal feita, olhos tristes fitando o chão, semblante fechado, via-se claramente que a vida não havia lhe dado moleza. Cumprimentei todos e adentrei no meu gabinete, não sem antes notar, pelo bom dia daquele senhor, uma certa familiariedade naquela voz, mas logo pensei que eu estava a imaginar coisas, pois não me recordava daquela pessoa.
Logo que arrumei as coisas na mesa, a secretária anunciou o nome daquele senhor que estava me esperando: BRANDÃO. Naquele momento me veio a mente o BRANDÃO que se formara em direito comigo, jovem, alegre, funcionário graduado do Senado Federal, salário alto, logo que se formara, montou uma banca de advocacia e como bom profissional, estava ganhando bem, lembrei de que ele havia me convidado para uma festa em sua casa em um bairro nobre da Capital Federal, onde se via claramente que era bem sucedido financeiramente, tendo ele me contado que adquirira vários imóveis como investimento e chegou até a me convidar a fazer parte de sua banca, o que gentilmente declinei. Não, não podia ser o BRANDÃO, devia ser apenas coincidência de nomes, que besteira a minha chegar a pensar que aquele senhor lá fora podia ser o BRANDÃO, existem muitos BRANDÃO por aí e assim encerrei aquele pensamento breve e pedi que a secretária fizesse com que aquele BRANDÃO viesse até a minha sala.
Quando a porta se abriu e aquele senhor de barba comprida e mal feita me fitou e disse: E AÍ MEU CAMARADA?, cumprimento dos tempos da faculdade que não deixava dúvida alguma de quem se tratava, quase que não consigo me levantar para abraçá-lo, em face da surpresa junto com a certeza de que a vida havia lhe castigado com severidade.
Não tive coragem de lhe perguntar como a vida lhe jogara naquela situação, deixei que ele mesmo começasse a narrar suas desventuras. Para minha surpresa me disse que estava ali para me pedir, como ele mesmo disse: “Estou aqui para lhe pedir, pedir, pedir e pedir, você é a minha única esperança”.
Queria que eu advogasse para seu filho, que estava sendo acusado de ter matado duas pessoas, me falou que sua situação financeira era tão precária que não trouxera cópia do processo porque não dispunha de numerário para tirar as cópias necessária para que eu pudesse fazer uma análise do caso. Nem precisava dizer isso, suas roupas, sua aparência pessoal denotavam logo que sua situação financeira era a mais precária possível.
Lágrimas nos olhos, me narrou que ganhara muito dinheiro, fato esse que lhe trouxe inúmeros amigos, festas e tudo que advém quando se tem o vil metal. Tinha ele dois garotos, que se não eram gêmeos, eram muito parecidos um com o outro, chegando a confundir quem era quem, mas não eram só parecidos esteticamente falando, os dois também eram muito amigos entre si e para piorar a situação o nome dos dois era igual, mudando apenas a origem do nome, um se chamava PAULO e outro PABLO, sendo PABLO um ano mais novo que PAULO.
PABLO, talvez entediado da vida, ou sabe-se lá qual a razão, passou a sair com uma “galera” mais pesada do bairro, não aceitando conselhos do PAULO, já que BRANDÃO não sabia dessa história, pois a vida que levava, pouco lhe permitia saber da vida dos filhos. A convivência de PABLO com a “galera” levou-o diretamente às drogas, primeiro as mais leves, para logo depois precisar fazer alguns furtos do bolso do próprio pai, já que a mesada que ganhava (03 salários mínimos) já não dava para o sustento do vício, não demorando muito para estar seriamente endividado com o traficante da região de apelido bastante sugestivo de DEDO LEVE, apelido que ganhou pela facilidade que tinha em atirar em seus desafetos.
DEDO LEVE contava só com 16 anos, mas impunha respeito não só pela facilidade com que matava quem não lhe agradava, como pela crueldade que tratava suas vítimas antes do tiro fatal. Furar olhos, decepar órgãos genitais, amputar dedos e até mesmo empalamento faziam parte do rol de sofrimento que suas vítimas amargavam antes da morte. PABLO e consequentemente PAULO, sabiam perfeitamente desse ritual macabro imposto por DEDO LEVE, não só porque saía no jornal o encontro de corpos mutilados, sem que soubessem quem era autor de tamanha barbárie, como porque o próprio DEDO LEVE anunciava com antecedência quem iria passar pelo seu ritual, principalmente aqueles que lhe deviam e não lhe pagavam
PABLO não teve outra alternativa a não ser furtar o PUMA 1996 todo incrementado de seu pai, PUMA esse guardado em uma garagem específica, que BRANDÃO usava só quando estava com tempo sobrando, as vezes passavam seis meses sem que ele sequer fosse até a garagem onde o PUMA estava, e foi isso que encorajou PABLO, pois sabia que antes de seu pai dar falta do PUMA ele já teria saldado a dívida com DEDO LEVE e recuperado o PUMA e colocado ele de volta na garagem, pois o deu em garantia da dívida, coisa de 3.000,00 (três mil reais). O carro, pela conservação e toda incrementação valia em torno de 20.000,00 (vinte mil reais) mas BRANDÃO não o venderia por valor nenhum, pois era pra ele um jóia preciosa.
As coisas não saíram como planejadas, pois uma semana após o PUMA estar em posse de DEDO LEVE, - que mesmo sem habilitação, agora desfilava de PUMA devidamente de capota aberta para exibir não só DEDO LEVE como suas gatas, - BRANDÃO resolveu andar de PUMA, que logicamente não estava na garagem. Ora, raciocinou BRANDÃO se não havia sinais de arrombamento da garagem e sua jóia preciosa ali não estava, um dos meninos o pegara, e só podia ter sido o PAULO, que já contava com 18 anos e tinha habilitação. PAULO não sabia que PABLO entregara o PUMA a DEDO LEVE, mas o vira saindo dirigindo o PUMA e assim relatou ao seu pai. PABLO pego de surpresa com a notícia que o irmão o vira saindo com o carro, não teve outra alternativa a não ser confessar ao pai, que saira com o carro, para impressionar umas gatas, mas depois que estacionara o veiculo num shopping próximo, ao voltar verificou que o carro tinha sido furtado e ficara calado com medo do pai, essa foi a história contada a BRANDÃO, que imediatamente foi à Delegacia mais próxima para registrar a ocorrência de furto do veículo que inclusive era objeto de cobiça de alguns policiais – delegado inclusive, amigos que foram de BRANDÃO na faculdade.
No mesmo dia do registro da ocorrência, o delegado JEFERSON amigo de BRANDÃO, após o expediente foi tomar uma cerveja no barzinho da moda da região e qual não foi sua surpresa ao ver chegando no bar o PUMA mais do que conhecido, com um rapazote e uma loura oxigenada a bordo. Não deu outra, DEDO LEVE foi levado à Delegacia para explicar como estava de posse do possante de BRANDÃO. Melhor para DEDO LEVE assumir que furtara o danado do que dizer que ele o havia recebido em garantia de dívida de droga. Assim, foi recolhido por 03 meses, já que ainda era menor de idade. Alívio para BRANDÃO que teve seu veículo de volta, desespero de PABLO, que sabia que a ira de DEDO LEVE cairia sobre sua pessoa.
PABLO não dormia direito, não comia e até mesmo a droga ficou afastada, tamanho o desespero ao saber que enfrentaria DEDO LEVE logo que ele saísse da prisão. Para PABLO três meses passaram como se fosse três dias, logo a noticia de DEDO LEVE nas ruas, corria solta. Então para alívio de PABLO veio a informação por um amigo comum, que ele ficasse tranqüilo, pois DEDO LEVE mandara lhe dizer que havia entendido que aquela era a única saída de PABLO, e que tudo estava como antes, nada mudara, e que na quarta próxima o procurasse em seu barraco, pois iria receber uma carregamento da “boa”, e era pra ele ir sem falta, pois iriam comemorar a liberdade de DEDO LEVE em alto estilo, era na realidade mais uma convocação que não admitia um não do que propriamente um convite.
PABLO ficou num misto de medo e alegria, alegria por ter recebido a notícia que DEDO LEVE entendera que sua única alternativa era dizer que o carro fora furtado e medo porque até então não sabia de um único perdão dado por DEDO LEVE, mas entendera o recado bem entendido, teria que ir, melhor ir, do que depois enfrentar a ira de DEDO LEVE.
Quando PABLO adentrou no barraco de DEDO LEVE na quarta-feira, entendeu perfeitamente o que iria lhe acontecer quando viu DEDO LEVE juntamente com mais três traficantes perigosos da região, e a senha que ele não gostaria de ter ouvido nunca: PERDEU PLAYBOY. Foi encontrado cinco dias após, enrolado em um cobertor, sem língua, sem dedos, sem olhos e metade de um cabo de vassoura enterrado em seu ânus.
BRANDÃO quando confrontado com a dura da realidade da morte do filho, entrou em crise total, chegando mesmo a ser internado como alienado mental, o casamento se desfez, indo aí metade do seu patrimônio, outra parte se desfez em tratamentos para a alma mente e corpo, o escritório de advocacia foi fechado, sendo que vários clientes o processaram, ganhando indenizações pelo fato dele simplesmente ter abandonado os processos, reduzindo bastante o seu patrimônio, que foi se esvaindo de forma gradativa, até chegar o momento em ter que vender o último patrimônio que era o seu apartamento, tendo que ir morar na garagem da casa de um amigo que o socorreu nesse momento.
PAULO tudo sabia, nada falou nem mesmo para o pai. Sentia-se um pouco culpado também, podia ter impedido PABLO de ter ido ao barraco de DEDO LEVE, podia ter falado ao seu pai da dívida do irmão, do carro dado em garantia que lhe foi confessado por PABLO depois, da fama de DEDO LEVE, da dependência das drogas de PABLO, podia ter falado ao delegado JEFERSON que sabia sim quem era o autor da morte de seu irmão, mas nada disse, simplesmente disse que não tinha a menor idéia, pois já tinha uma certeza em sua mente: ele mesmo iria matar DEDO LEVE. Devia isso a PABLO e a ele mesmo. Sabia do risco caso falhasse na sua empreitada e sabia que mesmo que não falhasse, iria viver o resto da sua vida com a possibilidade de ser morto por um dos amigos de DEDO LEVE, mas nada importava agora, pois isso já estava decidido de forma inexorável. Até mesmo ter abandonado o pai quando da separação, tinha sido feito de forma calculada, sabia que se ficasse junto ao pai, talvez perdesse a coragem de fazer o que tinha que ser feito.
Após a separação dos pais, foi juntamente com sua mãe para UBERLÂNDIA em Minas Gerais, sair do foco dos acontecimentos. Havia visto ou ouvido em algum lugar que vingança é um prato que se deve degustar frio. Aproximou-se da bandidagem em UBERLÂNDIA, em face de ingressar também no mundo das drogas, adquiriu uma pistola .40, dezesseis tiros, arma que depois ficou sabendo foi furtada de um policial de Brasília, aprendeu a atirar, treinando dia após dias, até sentir segurança com o manuseio da danada, que era como chamava a pistola.
Um ano após a morte de PABLO, PAULO retornava à Brasília, ele e sua inseparável DANADA. Não foi sequer atrás do pai, já que foi para um barraco de um bandido devidamente recomendado pela malandragem de Uberlândia. Já se vestia e falava a linguagem do submundo, onde ficou sabendo detalhes de como DEDO LEVE matou seu irmão, soube também que PABLO mesmo depois de ter sido estuprado pelos quatro, implorou por tudo no mundo para não morrer.
Passado dois meses após a sua volta a Brasilia, leu no jornal que a Polícia Militar entrara em greve e que não estavam fazendo rondas enquanto não ganhassem um reajuste em seus salários. Isso acendeu uma luz em sua mente e pensou consigo mesmo: “DEDO LEVE sua hora está chegando”.
DEDO LEVE nem de longe imaginava que PAULO tinha traçado um plano para sua vida e a levava como sempre, muita droga, mulheres e sofrimento para quem o desafiava. Também ele comemorava o fato da Polícia se encontrar de greve, facilitava a sua vida, já fazia dois dias que a greve iniciara e ele dobrara o seu faturamento e para comemorar convidou um amigo e uma gata para irem ao seu barraco para cheirarem um pouco e de quebra um sexo a três.
A farra estava boa demais, dinheiro sobrando, droga da boa, gata bastante disponível atendendo aos dois, quando de repente falta luz na cidade. Probleminha de fácil resolução, pediu a gata que se vestisse e fosse à venda comprar um maço de velas para poder continuar a farra. Ele e o amigo é que não iam sair da cama para ir comprar nada, pra que servem as gatas??? Assim, Márcia se levanta e vai até a venda, na volta não entendeu nada quando ouviu a voz grave de um homem que não era nem de DEDO LEVE e nem do seu amigo dizer antes dos inúmeros disparos que se seguiram: PERDEU TRAFICANTE DE MERDA.
PAULO que pensava estar sozinho passou por Márcia, arma baixa, capuz na cabeça, e mesmo no escuro ainda fitou os olhos daquela que depois o reconheceria na delegacia como o autor dos tiros que ceifaram a vida dos dois amantes dela.
Essa a história de BRANDÃO que ali estava me pedindo para fazer a defesa de seu filho, único filho, já que o outro fora fuzilado por DEDO LEVE, dizendo-me que sequer tinha dinheiro para tirar cópia do processo para que eu fizesse uma análise.
Ali tive a certeza que a vida por vezes dá voltas que ninguém imagina.

segunda-feira, 12 de março de 2012

JOSÉLIA


JOSÉLIA

Elmar Carvalho

(Em lembrança de minha irmã falecida aos
15 anos de idade, em 02 de julho de 1978.)

Fui pisado
pela terra.
Fui pisado
pela terra,
eu que sempre
procurei pisar
nas nuvens e
no céu.

                                 Sem dormir sonhei,
                                 mas o sonho acabou
                                 antes de haver começado.
                                 (Ainda bem, porque
                                 o sonho era mau.)

Sonhei que minha
irmã morrera,
mas ela não morreu.
Era tão cheia de vida
que continua viva
na lembrança dos
que ficaram.
Ela continua viva
porque houve apenas
uma metamorfose
existencial.

                                 Seu sorriso
                                 seu (e)terno sorriso
                                 sem precisar da
                                 matéria para
                                 ser desfraldado
                                 continua estampado
                                 em seu rosto
                                 imaterial.

Josélia tinha
a pureza dos inocentes
a inocente malícia dos felizes
e a beleza
dos que não são
deste mundo cão.
Por isso foi
para o céu de
onde (vi)era.

domingo, 11 de março de 2012

Fundação Maria Carvalho Santos

Direito, Ensino e Justiça (*)


Ivanovick Pinheiro
Defensor Público e professor

O que a sociedade, os familiares e os amigos esperam dos alunos que concluem o curso nesse momento? E o que os próprios alunos devem propor como objetivo a ser alcançado?

Alguns responderão reconhecimento intelectual, outros, sucesso profissional e financeiro. Alguns dirão: desejo apenas a segurança e a estabilidade de um bom cargo público. São respostas prontas. Aparentemente todas adequadas para equacionar a questão proposta. Todas elas, entretanto, deixam de levar em conta a perspectiva essencial daqueles que se laçam em qualquer atividade profissional e, em especial, no universo jurídico.

A resposta a esse questionamento essencial não interessa apenas aos concludentes ou aos profissionais que labutam na área do direito. Interessa a todos. Diz respeito a todos os presentes nesse auditório porque repercute na vida de todos.

Numa perspectiva global, uma primeira resposta à pergunta lançada poderia ser formulada nos seguintes termos: todos desejam que os futuros profissionais (agora concludentes) ajudem a enfrentar e solucionar adequadamente os maiores desafios da sociedade contemporânea.

Mas muitos dirão que tal resposta é incompleta. Isso é parcialmente verdadeiro, porque não explica qual o maior desafio enfrentado pela sociedade contemporânea. Em outras palavras, não adianta falar para os formandos aqui presentes que esperamos deles a solução do maior desafio atual sem explicitar qual é esse desafio.

Adianto qual é o maior desafio: Os formandos/profissionais devem compreender a Justiça menos como uma questão da epistemologia jurídica e mais como algo que passa a conduzir a própria compreensão do agir. Explico: espistemologia é a disciplina voltada a análise das condições de possibilidade e validade do conhecimento científico (Willis Santiago). Assim, não interessa a nenhum membro da sociedade brasileira e mundial que todos vocês conheçam a justiça sob o aspecto dogmático, filosófico ou sociológico, sem que materializem a repercussão dessa compreensão no agir de vocês.

O ser humano e todos os formandos aqui presentes – diante dos conflitos da sociedade contemporânea, notadamente aquela moldada pós guerra fria e que testemunhou o 11/09 (em Nova Iorque) – deve resgatar as lições de Platão e Aristóteles, narradas por Karl Jaspers, acerca do impulso originário da Filosofia:

a) assombro/admiração diante do Cosmos;
b) dúvida com os resultados obtidos com as tentativas de apaziguar sua inquietação;
c) comoção diante da sua debilidade/impotência impostas por sua situação vital de mortal.

Em outras palavras, vocês devem se assombrar com o Universo, duvidar sempre dos resultados obtidos na tentativa de apaziguar o assombro e reconhecer a debilidade intrínseca do ser humano, diante da sua mortalidade.

Nesse ponto algum de vocês pode se questionar: mas qual é a relação entre o problema da justiça, minhas perspectivas de futuro e as lições de Platão?

Respondo me utilizando das palavras do professor Willis Santiago quando se questionou acerca do que esperar do ser humano numa época de predomínio do pensamento técnico-científico. Disse o professor que a ciência não soluciona adequadamente todas as questões atuais, pois ela não oferece a resposta de como o ser humano deve enfrentar a problemática relativa aos valores e, especificamente, a Justiça.

Além dessa questão, existem problemas criados pelo próprio homem no desenvolvimento das ciências (p.e.: produção de armas de extermínio, possibilidade de manipulação do material genético não utilizado/descartável; o desenvolvimento sustentável, dentre tantas outras que não encontram resposta na abordagem puramente científica. Além disso, lembro a questão dos limites do conhecimento científico, bem como da reflexão acerca de um possível modelo de futuro adequado.

Então vocês se questionam: E como devo agir para avaliar as situações com justiça?

Respondo: esperamos de vocês que reflitam como Platão e que tenham em mente a necessidade de uma compreensão mais axiológica e menos dogmática das situações que os cercam. A Justiça não será encontrada em manuais de direito para concursos, nas aulas de cursinhos preparatórios, nos manuais para a OAB, nem nas obras de ilustres professores.

Mas alguns aqui poderiam me advertir: professor, não existe um modelo de Justiça. Como saberei se o que a sociedade espera de mim eu estarei realmente desempenhando. O que significa – concretamente – agir com Justiça?

O pensamento pós-moderno, fundamentado nos estudos da teoria da Justiça de John Rawls, na teoria da argumentação de Alexy e na teoria do agir comunicativo de Habermas repercute no tratamento de dois temas que podem ser colocados como centro desta questão e se apresentam como uma resposta sobre a proposição acima: os direitos humanos (e o direito internacional dos direitos humanos) e a Democracia.

Os direitos humanos são o requisito para que as pessoas possam construir sua vida em liberdade, igualdade e dignidade. Eles são compostos por direitos civis, políticos, econômicos, sociais e coletivos e foram primeiramente consolidados nas legislações nacionais (até a II Guerra Mundial), antes de se tornarem matéria do direito internacional.

O genocídio dos nazistas contra os judeus na Europa e sua brutal repressão aos opositores políticos foi a catástrofe no século passado. Desde os horrores da Segunda Guerra Mundial, a comunidade internacional traçou, em 1945, a meta de “preservar as gerações vindouras dos flagelos da guerra”, que deveria ser alcançada por meio de um sistema de segurança coletiva, através da ONU.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi o ponto de partida para a construção do sistema de direitos humanos das Nações Unidas e é o ponto de referência para todos os outros tratados internacionais. Logo no preâmbulo destaca que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo.

Mais adiante, a Declaração prescreve que o advento de um mundo em que os homens gozem de liberdade de palavra, de crença e da liberdade de viverem a salvo do temor e da necessidade é a mais alta aspiração do homem comum. Além disso, proclama a convicção nos direitos humanos fundamentais, na dignidade e no valor da pessoa humana e na igualdade de direitos dos homens e das mulheres, como indispensáveis para alcançar o progresso social e melhores condições de vida em uma liberdade mais ampla.

Hoje – além da Declaração Universal dos Direitos Humanos – existe uma codificação global dos direitos humanos em sua totalidade e em relação a determinados grupos e situações. A tarefa de todos aqueles que se lançam no universo do Direito é trabalhar diariamente para que as disposições da Declaração Universal dos Direitos Humanos sejam alcançadas, consagrando-se um padrão universal de direitos humanos.

Cito apenas um dentre muitos exemplos de comportamento que esperamos de vocês: compreendam as situações que se lhes apresentam sob uma ótica solidarista e despatrimonializante, reconhecendo “maior hierarquia axiológica à pessoa humana – na sua dimensão do “ser” – em detrimento da dimensão patrimonial do “ter”.” Trabalhem em favor do personalismo – superando o individualismo e a patrimonialidade como fim de si mesma. As situações patrimoniais devem ser funcionalizadas em favor das situações existenciais, notadamente no âmbito das relações voltadas à tutela de bens essenciais à pessoa humana, como a habitação, o trabalho, o projeto familiar, entre outros. A construção do pensamento jurídico de todos vocês deve ser baseado em valores e princípios democráticos, igualitários, solidaristas e humanistas. (Guilherme Calmon Nogueira da Gama)

Diante do quadro aqui moldado, retiro uma primeira conclusão: vocês atuarão com justiça quando defenderem os direitos humanos e consagrarem no agir diário o modelo de Estado Democrático de Direito, com todos os consectários daí advindos. Mas não finalizo minhas palavras aqui.

Sigo adiante apenas para ressaltar que em grande medida a concretização desses direitos humanos e a consagração da Democracia (e do modelo Estado Democrático de Direito) envolvem questões centrais da Filosofia, da Sociologia e da Metodologia Jurídica contemporânea.

Tanto é assim que os estudiosos se lançaram sobre o tema e formularam importantes conclusões (Boaventura Santos):

a) Existe uma discrepância entre o direito vigente e o socialmente eficaz. O modelo jurídico normativista anterior a II Guerra Mundial é incapaz de tratar adequadamente as novas questões.
b) Houve uma mudança do paradigma normativista para o sociológico no pós-guerra, impulsionada por razões teóricas (Desenvolvimento da Sociologia das Organizações; Desenvolvimento da Ciência Política; Desenvolvimento da antropologia do direito ) e sociais (Lutas Sociais protagonizadas por novos grupos e a Crise na Administração da Justiça (capitaneada pelo aumento dos conflitos)).

Assim, diante do quadro atual, todos aqueles que atuam no Direito devem se ocupar de três temas fundamentais: a) o Acesso a Justiça; b) a Administração da Justiça e c) a Litigiosidade Social e os (novos) mecanismos de resolução de conflitos presentes na sociedade.

Os formandos aqui presentes devem compreender essa realidade que os cerca e contribuir para a solução dessas questões fundamentais, que podem ser resumidas nas seguintes palavras:

A ciência é (parcialmente) incapaz de tratar da questão da Justiça, dos limites da ciência e das conseqüências do desenvolvimento científico. O equacionamento dessas questões reclama a atuação do Direito (e do profissional do Direito). As principais variáveis dessa equação são a proteção dos direitos humanos e a construção do Estado Democrático de Direito.

Assim, para vocês agirem com justiça devem compreender a problemática que envolve temas como o acesso a justiça, a administração da justiça e das novas formas de solução dos conflitos, bem como compreender a Justiça menos como uma questão da epistemologia jurídica e mais como algo que passa a conduzir a própria compreensão do agir.

Esse agir humanista e democrático exige de vocês que avaliem as situações que se lhes apresentam sob uma ótica solidarista e despatrimonializante, reconhecendo maior hierarquia axiológica à pessoa humana. O personalismo deve superar o individualismo e a patrimonialidade como fim de si mesma.

A construção do pensamento jurídico de todos vocês deve ser baseado em valores e princípios democráticos, igualitários, solidaristas e humanistas.

Obrigado pela Homenagem. O tempo em que estivemos juntos em sala de aula foi recompensador. Trabalhei para que essa compreensão de respeito a dignidade estivesse presente em todos os momentos. A fraternidade foi recorrente em nossos encontros e hoje não foi diferente.

(*) Discurso pronunciado por Ivanovick Pinheiro, na qualidade de paraninfo de turma de formandos em Direito da Faculdade NOVAFAPI.

sábado, 10 de março de 2012

DEPOIMENTO SOBRE O PROFESSOR JOSÉ RODRIGUES E RODRIGUES

Colégio Diocesano, antigo Instituto São Luiz Gonzaga

Antônio Augusto dos Reis Velloso (*)


Aqui estou, nesse momento, para, em meu nome pessoal, dar um testemunho daquilo que foi para mim a convivência maravilhosa com o Professor José Rodrigues e Silva, durante mais de 50 anos. Comecei essa convivência quando tinha 10 a 11 anos de idade, no então Instituto São Luiz Gonzaga, em Parnaíba-Pi. Guardo do Professor a mais encantadora impressão, por tudo aquilo que ele representou diretamente para mim e para toda a minha família.
O Professor, como sempre nos acostumamos a chama-lo, foi uma figura ímpar, realmente singular, tal o conjunto de valores que reunia. Ele era íntegro, pessoa dura e doce, firme, definido, consistente, personalidade rica de conhecimentos e de sabedoria humana. Ele representou para mim e para toda a minha família, a partir dos meus irmãos mais velhos, Francisco de Assis e João Paulo dos Reis Velloso, uma bela e rica experiência. Foi um professor maravilhoso e um grande mestre: no seu caso particular, professor de português, com profundos conhecimentos e excelente didática, transmitiu a todos nós uma visão profunda da língua. E sobretudo ensinou-nos o hábito de ler, ler sistematicamente, diariamente, a vida toda.
Foi ele um pai exemplar, um marido exemplar, um mestre exemplar, um ser humano exemplar. Tudo nele irradiava permanência, permanência nas convicções políticas, nas convicções de cidadão, nas convicções religiosas, permanência no amor, o amor a D. Bernadete, o amor aos filhos, a amizade permanente com os alunos, com os amigos.
A forte e permanente convicção religiosa, isso sempre me impressionou: em Parnaíba, no interior do Piauí, no litoral do Piauí, ele sempre foi aquela figura impressionante de homem religioso e íntegro, religião consciente, pelo amor a Deus que ele transmitia nas suas ações diárias, nos seus atos, na sua vida cotidiana. Esse foi um dado característico de sua personalidade: um homem religioso, crente em Deus, fervoroso, consistente na fé. Aprendi a admirar essa preciosa qualidade do seu caráter; é como se ele estivesse dizendo a todos nós, nos nossos encontros, nas suas aulas, na sua vida particular, em tudo, que havia um valor maior a ser perseguido, ou seja, a fé em Deus, o amor a Deus.
Volto a repetir, a figura humana do Professor nos dava aquela ideia da pessoa sempre voltada para as coisas permanentes, a partir da fé imensa, a partir da sua religiosidade, a partir das suas ações de pai de família, das suas ações de Professor equilibrado e diligente, tudo nele impressionava pela permanência. Aparentemente duro, exigente, determinado, cobrador, rigoroso, principalmente nas coisas de caráter, gostava de tudo certinho, arrumado, tudo nos conformes. Foi realmente na sua vida toda, uma pessoa preocupada com as coisas duradouras. Ensinava a todos nós coisas para ficar, desde a base. Nos estudos, transmitia as condições necessárias do aprendizado em português, em toda a sua complexidade, mesmo naquelas aulas complicadíssimas do português histórico, da origem das palavras, origens da língua. A sua preocupação era dar a todos nós um patrimônio de conhecimento, e sempre foi assim conosco, e ainda hoje tenho essa impressão, guardo essa feliz e agradável impressão. Tudo que recebi dele, durante todo aprendizado de português, no meu curso ginasial no antigo São Luiz Gonzaga, tinha a configuração de um belo patrimônio a ser guardado, acumulado, e que ficou dentro da gente, e que nos ajudou durante toda a nossa vida profissional, na nossa vida futura. Isso era maravilhoso, foi para todos nós realmente maravilhoso.
Outro traço muito importante do Professor José Rodrigues era a sua coerência, a coerência entre o que ele imaginava, o que ele tinha de ideias, as suas concepções, e a sua vida prática, os atos de sua vida. Acentuei muito o caráter religioso da sua personalidade. Registro também o caráter prático de suas ações, sempre preocupado em ajudar as pessoas , não só em ajudar as pessoas, mas em fazer refletir, por atos e ações, as suas convicções pessoais e religiosas. Cultivava as amizades , pelo menos essa é a recordação que tenho dele. Fizemos uma amizade desde os bancos escolares até hoje, de uma forma interessante. Não precisávamos estar juntos, não precisávamos estar um ao lado do outro. Saí de Parnaíba com 20 anos de idade e, mesmo em São Paulo, no Rio, em Brasília, onde eu estivesse, a minha ligação com ele se dava de uma forma intensa e duradoura. Quando nos encontrávamos, era como se tivéssemos nos visto no dia anterior, retomávamos o papo, retornávamos as conversas, ele se atualizava, ele estava permanentemente atualizado nos problemas locais, nos problemas do País, e isso tornava agradável o convívio com ele, qualquer que fosse a faixa de idade do seu interlocutor, porque ele tinha uma capacidade enorme de se aproximar das pessoas, do jeito que elas eram. Ele vinha com o seu jeito suave, inteligente, culto e transmitia devagarinho toda a consciência das suas ideias, e ele tinha uma ideia própria sobre cada tema. Era impressionante: mesmo quando se desligou de todas as atividades escolares, mesmo quando deu por encerrada a sua tarefa de mestre e de professor, mesmo depois disso ele cultivou o conhecimento das coisas; é claro que não era mais com todo aquele cabedal de conhecimentos captados nos livros, mas já agora sob a forma de uma experiência realmente ímpar , uma experiência que ele utilizava em favor das outras pessoas, em favor de todos que mantinham contato com ele. Ele passava toda essa experiência de vida, instalado lá no litoral do Piauí, mas ainda com muita coisa a transmitir a quem viesse do Rio, de São Paulo, ou de Brasília. Era gostoso esse contato, era, de fato, gostoso conviver com ele, mesmo que só de tempos em tempos.
Pois bem, eu estava comentando que a distância não mudava nada, que a gente se comunicava por cartas, por telefonemas ou por qualquer via. Uma via certa, absolutamente certa, era o cartão de Natal no final do ano, comemorando a vinda de Deus, a vinda do Filho de Deus.
Eu falei que ele se apresentava para mim, como uma pessoa firme e doce, ele se apresentava assim eu acho que para todos, para a família, para os amigos, para todos. No curso da vida, a gente ia observando progressivamente, na medida em que um de nós, eu por exemplo, caminhava em idade, caminhava em aprendizado, caminhava em conhecimento, caminhava em maturidade, toda aquela visão dura e firme, cobradora, ia desaparecendo, ia se transformando em doçura, a doçura do Professor que via em cada pessoa a realização dos seus sonhos, a realização dos seus objetivos. E cada vez mais, nesse contato que era mantido com ele, passávamos a perceber somente à distância aqueles sinais de dureza, para entrarmos numa faixa de convivência com a sua placidez crescente, aumentada a cada dia, aquela doçura paciente de mestre, de Professor, de amigo, ensinando, ensinando, ensinando.
Guardo com muita alegria a forte impressão de todos os encontros e reencontros mantidos com o Professor José Rodrigues, em Parnaíba, em Fortaleza, no Rio de Janeiro e em Brasília. Foram momentos encantadores. Era agradável manter aqueles contatos pessoais com ele, depois de longos períodos de ausência, em que se desfrutava de uma conversa amena, produtiva, positiva e propiciadora de um grande enriquecimento intelectual e humano. Era muito curioso observar nele aquela capacidade especial de estar sempre em dia com as coisas do País e do mundo. Como eu disse, não se tratava de um conhecimento específico, apenas apoiado em livros, mas um conhecimento muito maior, fortalecido com a exuberância da riqueza humana de sua personalidade, no amadurecimento feito com toda a consciência e sabedoria. Por mais que estivéssemos atualizados nos conhecimentos da vida no sul do país, da vida de cidade grande, da vida acostumada com os melhores meios de comunicação, era curioso ver como ele sempre tinha algo a nos propiciar, principalmente algo relacionado com a capacidade humana de ver as coisas, com maturidade de uma pessoa tão rica, em sentimentos e valores humanos. Dava gosto sentir nessas conversas e nesses reencontros todo o seu pique, toda a sua curiosidade, todo o seu desejo de avaliar com os seus ex-alunos, com seus amigos permanentes as coisas da vida, os problemas do País, os problemas do sul, os problemas da humanidade.
Relembrando esses momentos, revejo as transformações que se operavam nele, ao retomar contato com pessoas que eram os seus garotos de estudo, seus garotos de colégio e que agora se apresentavam de igual para igual, como adultos, e sempre revelando no íntimo um grande orgulho por tudo isso. Eu senti muitas vezes, nesses reencontros, que o Professor José Rodrigues refletia silenciosamente, delicadamente, um extremo orgulho pelo nosso sucesso, pelo nosso eventual sucesso.
Gostaria de lembrar alguns fatos singelos da minha vida, que estão intimamente ligados à convivência com o Professor José Rodrigues. São fatos muitos e muitos anos atrás, de modo que seria difícil relembrar de todos os detalhes, mas o que importa é a natureza desses fatos. Eu era um dos primeiros alunos da classe; aliás, nessa época de ginásio, ser o primeiro aluno era quase uma obrigação para mim, uma vez que, no Instituto São Luiz Gonzaga, isso fazia com que eu estudasse de graça, o que ajudava muito a minha família. Embora não fosse muito estudioso, eu estava sempre atento às aulas, muito cuidadoso nas aulas, dedicado mesmo às aulas, justamente para dispor de mais tempo, lá fora, para as brincadeiras, cinemas e lazer. Pois bem, o Professor José Rodrigues já reconhecia em mim um aluno razoável, um dos primeiros alunos, o primeiro aluno no cômputo geral das matérias. Mesmo assim, o senso de justiça dele, a preocupação com o educar e instruir para toda a vida, me colocou diante da seguinte situação, numa dada oportunidade: aparentemente, ele estava fazendo uma exposição muito difícil, exigindo da turma toda a atenção, e ele cobrava essa atenção da turma. Por alguma razão, que não era muito frequente, ele viu em mim um pouco de desatenção e me cobrou isso na hora, de forma impiedosa e direta, ou seja, dirigiu-se diretamente a mim e fez a colocação crucial: ‘Antônio Augusto, sobre o que eu estava falando? Por favor, reproduza todas as minhas explicações’. Aquele foi um importante teste para um garoto de 11, 12 anos de idade, pois me colocou numa situação embaraçosa de perceber que, mesmo na condição especial de bom aluno, eu não poderia me atribuir o direito de desviar a atenção da aula. Para sorte minha, como eu já estava acostumado a, inconscientemente, me voltar intensamente para o conteúdo das suas aulas, consegui me sair bem, relatando com alguma precisão aquilo que o nosso querido Professor havia explicado. Suei frio, mas me safei, e a grande alegria foi, mais adiante, saber que o Professor havia contado em casa o episódio, de certa forma enaltecendo a minha argúcia de, mesmo embaraçado, me desvencilhar daquela situação. Como se vê, homem justo e bom.
Outra situação de que me recordo dá um sinal de toda a singeleza do seu caráter. Esse fato se refere a 1 ou 2 anos depois do primeiro episódi0o.Eu estava concluindo o curso ginasial, a 4ª série, e a título de desafio pessoal havia me proposto a obter notas máximas em todas as provas finais, justamente as provas mais difíceis, aquelas que obrigavam o aluno naquela época a rever a matéria do 1° e 2° semestres. Tarefa difícil, mesmo isoladamente para cada matéria, e muito mais difícil pelo compromisso pessoal, não revelando a ninguém, de obter nota máxima em todo o conjunto. O que me apavorava era justamente a prova de português, pois eu bem sabia o que seria exigido nela, seja em termos de redação, seja em termos de gramática, seja em termos de conhecimentos finais requeridos. Além disso, eu nunca havia conseguido nota máxima em português, em qualquer das provas semestrais de todos os anos anteriores. O certo é que, ao final, cheguei lá: 10 na prova final de português, na conclusão do curso ginasial. Uma alegria indescritível! No fundo, no fundo, eu estava vivendo uma gratidão enorme, pois tinha consciência de que era um bom aluno, tinha feito uma boa prova, mas a nota 10 havia sido dada como um prêmio pelo meu querido Professor José Rodrigues, refletindo a sabedoria, a justeza do seu caráter de Mestre e Professor.
O terceiro fato que me ocorre está ligado a mim e ao João Paulo. Estávamos em São Paulo, já depois do vestibular para o curso de economia, isso por volta de 1957, fazendo o 1° ano daquele curso. Tratava-se da primeira experiência de prova semestral, num ambiente novo, completamente diferente daquele a que estávamos acostumados no Piauí, com toda a agressividade de um centro maior, e com todo o espírito de competitividade existente na turma. A nossa grande curiosidade girava em torno do resultado dessa primeira experiência de provas no curso superior. Havia um professor que tinha por hábito devolver as provas para que cada aluno confirmasse ou contestasse a respectiva nota. Antes de fazer a distribuição, o professor fez um alerta em tom sério: ‘existem dois alunos na turma que representam grande perigo para os demais. As duas notas máximas que lhes atribuí guardam uma enorme distância para a segunda nota, a nota 9, e a razão é muito simples: eles têm uma qualidade singular, eles sabem escrever, escrever bem, transmitindo claramente e com precisão as suas ideias’. Após isso, fez questão de saber onde e com quem tínhamos aprendido português. Foi uma alegria enorme, e particular orgulho para nós revelar para todos o nome do nosso Querido Professor José Rodrigues e Silva.
Acredito ainda que esteja faltando neste meu relato uma palavra de realce para aquele ponto que considero talvez o mais relevante de toda a personalidade do nosso querido Professor. Refiro-me ao seu extremado sentido de família. Ele cultivava a família. Ele cultivava a família, ele tinha um grande amor pela família, ele vivia em torno da família, a partir de D. Bernadete e junto com todos os seus filhos. Era bonito vê-lo como o líder do grupo, em torno do qual giravam todos os acontecimentos. Era uma bela unidade, uma bela unidade familiar, mostrando a importância da família como valor definitivo e permanente. Fico feliz por isso, porque associo esse fato com uma preocupação semelhante do meu pai, que fez também da família o seu centro de interesse.
Caríssimo Professor José Rodrigues: a nossa gratidão por tudo, o nosso abraço saudoso, as nossas orações fervorosas.

Brasília, 27 de dezembro de 1996.

(*) O Dr. Antônio Augusto dos Reis Velloso é Economista, Superintendente da Confederação Nacional das Indústrias Financeiras-CNF, em Brasília(DF). É irmão do Ex-Ministro João Paulo dos Reis Velloso, ex-alunos do Professor.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Campanha da Fraternidade: Sucesso há 50 anos

Fila quilométrica em hospital público

José Maria Vasconcelos 
josemaria001@hotmail.com

"Lembra-te que és pó e em pó transformar-te-ás!" Que recado aterrador, bíblico, principalmente para quem se esbaldou no carnaval e se farreia de comilança, bebedeiras, corrupção e sem compromisso social. Feliz quem aceita o convite para uma quarentena de reflexão: a vida é só comer, beber, alongar músculos, acumular bens, praticar sexo, disputar poder e pensar no corpo? Todo espiritualista, de qualquer confissão religiosa, sabe que não é só por aí que se vislumbra a vida em toda sua plenitude. Que existem outras esferas, além do corpo. Que vale a pena exercitar certas atividades que, em vez de puxar o corpo para a cova, elevam o espírito.
A Igreja Católica do Brasil, há 50 anos, conclama a sociedade a refletir e exercitar a mais nobre virtude cristã, a fraternidade, sem a qual, vã a nossa fé. Em vão, trilhar caminhos para o céu.
"Fraternidade e Saúde Pública", oportuno tema de campanha, em momento de escandalosa omissão de gestores, mais atentos à ganância pessoal do que ao exercício fraterno. Neste exato momento, milhares de irmãos, velhinhos, crianças, pobres em geral, aguardam horas e dias para morrer nos corredores dos hospitais, gemendo e agonizando, clamando pelo investimento que lhes foi surrupiado. Pelo desprezo à convocação do Mestre: "Tive fome e me deste de comer; sede, e me deste de beber; peregrino, e me acolheste; nu e me vestiste; enfermo, e me visitaste..."(Mateus,25). Sem fraternidade, viramos só pó. Fraternidade é vida, saúde e felicidade. Eternamente.
Desde 1962, a Campanha da Fraternidade, que começou no Rio Grande do Norte, depois encabeçada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e aplaudida pelo papa, aproveita o período de recolhimento quaresmal para incentivar a reflexão e prática de temas inerentes à responsabilidade cristã, de enorme interesse social, sem vínculos políticos nem sectarismo religioso.
Temas da Campanha da Fraternidade ficaram famosos pela contribuição oferecida à sociedade brasileira, expondo pecados sociais e cobrando providências, quase sempre atendidas. Mensagens e lemas mexeram com a consciência nacional: Preserve o que é de todos(1979); Repartir o pão(1975); Descubra a felicidade de servir(1972); Trabalho e justiça para todos(1978); Saúde e Fraternidade(1981); Quem acolhe o menor a mim acolhe(1987); Vida sim, Drogas não(2001); A Família, como vai?(1994); Fraternidade e os desempregados(1999); Comunicação para a verdade e a paz(1989); Vocês vão servir a Deus ou ao Dinheiro?(2010).
A música que lançou Raul Seixas ao estrelato, "Ouro de Tolo", dizia:"Eu devia agradecer ao Senhor/Por ter tido sucesso.../Eu devia estar contente/Por ter conseguido tudo o que eu quis/Mas confesso abestalhado/Que eu estou decepcionado.../Porque foi tão fácil conseguir/E agora eu me pergunto "e daí?"/Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar/E eu não posso ficar aí parado./Eu que não me sento/No trono de um apartamento/Com a boca escancarada cheia de dentes/Esperando a morte chegar.../Porque longe das cercas embandeiradas/Que separam quintais/No cume calmo do meu olho que vê/Assenta a sombra sonora de um disco voador..." O poema é longo, porém os poucos versos extraídos provocam certa reflexão em tempo de quaresma: libertar-nos do egoísmo que cerca nossos quintais e olharmos mais longe. De braços dados e fraternos. Senão, apenas nos transformaremos em pó. O recado bíblico não é um libelo, mas uma advertência para "uma porção de coisas grandes a conquistar". Menos o egoísmo.

quinta-feira, 8 de março de 2012

DIÁRIO INCONTÍNUO

Elmar Carvalho e Geraldo Magela


8 de março

DA COSTA E SILVA, POETA MAIOR

Elmar Carvalho

O doutor Lauro Correia, eminente cidadão parnaibano, que exerceu elevados cargos em nosso estado, entre os quais o de presidente da FIEPI e o de prefeito de sua terra natal, de quem tive a honra de ser aluno na UFPI – Campus Ministro Reis Velloso, quando ele era o diretor dessa unidade administrativa, costuma dizer que maior só a girafa, e assim mesmo por causa de seu enorme pescoço. Há os historiadores literários que fazem em seus compêndios a distinção entre “poetas maiores” e “poetas menores”, que tem gerado polêmicas, críticas e insatisfações; outros, em lugar da segunda categoria, usam a expressão “outros poetas”, que também tem desagradado os poetas nela incluídos.

Bem por isso, soube que um poeta estava agastado porque um intelectual andara questionando sobre quem seria, atualmente, o maior poeta vivo do Piauí. Embora eu tenha minhas preferências, jamais entrarei numa discussão desse tipo, mesmo porque existem aqueles que possuem um gosto eclético e variado, que gostam das diferenças, diversidades e peculiaridades, sem que por causa disso algum bardo possa ser considerado maior do que seu confrade. Houve mesmo um poeta que, enfrentando essa questão, disse não existir trena que possa medir o tamanho de um vate. Entretanto, posso dizer que alguns ficam no topo da cordilheira, como se fossem condores andinos, enquanto outros jamais deixam a planície em que sempre estiveram e estão.

Outro dia estava a conversar com o erudito magistrado federal, Dr. Geraldo Magela e Silva Meneses, nas escadarias da Academia Piauiense de Letras, e pude constatar, mais uma vez, a profunda admiração que ele nutre pelo nosso excelso poeta Da Costa e Silva, que é também uma das minhas mais antigas e constantes admirações, que, aliás, remontam aos meus dias de criança. Em outra ocasião, ele me havia dito considerar Da Costa e Silva o maior poeta da língua portuguesa. Como eu lhe tenha indagado se mesmo em relação a Fernando Pessoa e Luís Vaz de Camões, respondeu-me que sim. Depois, para espancar qualquer dúvida que pudesse existir, disse de modo firme e enfático: “E se não for o maior, é o melhor!”

Disse-lhe que, de fato, Antônio Francisco da Costa e Silva era mesmo um poeta extraordinário. Aliás, ouso afirmar que ele merece um lugar no panteão dos grandes poetas nacionais. Quando fui presidente da União Brasileira de Escritores do Piauí desenvolvi uma campanha para que os seus restos mortais fossem trasladados para o cemitério da sua querida e por ele exaltada Amarante. No meu discurso de posse na APL, bradei, ainda que como uma voz clamando no deserto da indiferença: “(...) se não for pedir demais, talvez seja o momento de se trasladar para Amarante os despojos de Da Costa e Silva, já que ele, quando cantou sua terra, implorou em versos de incomparável maestria: “Terra para se amar com o grande amor que eu tenho!/ Terra onde tive o berço e de onde espero ainda/ Sete palmos de gleba e os dois braços de um lenho!” Em Amarante, o seu mausoléu-memorial seria visitado e reverenciado, em verdadeira peregrinação turístico-cultural”.


O nobre magistrado Geraldo Magela é um amante inveterado da cultura e dos livros, gastando boa parte de seu subsídio com a aquisição, sobretudo, de obras literárias e afins. É partícipe de nossos principais eventos literários. Sabe de cor e salteado vários poemas do nosso Da Costa e Silva. Isso é a maior prova de sua admiração pelo poeta. Conhece vários episódios da vida do vate amarantino. Creio que somente o médico e intelectual Tatá Almeida, que erigiu portentoso memorial em honra do imortal bardo, poderá ombrear-se com ele nessa seara de beleza e perfume literário. Em nosso último encontro, tive a honra de ter um poema de minha autoria recitado por ele. Disse-lhe que isso me valia bem mais que certas honrarias e condecorações, concedidas, às vezes, ao sabor das circunstâncias, interesses, pedidos e insinuações.