quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

QUANDO O JACARÉ FICOU MILIONÁRIO


JONAS FONTENELE
Advogado e professor

Trabalhava eu, lá pelos idos de 1989, em uma empresa de transporte público aqui em Brasília, no departamento jurídico, e apesar da seriedade do trabalho desenvolvido por mim e às vezes até mesmo pela aparência mais sóbria, não demorou muito para que os companheiros de trabalho notassem o meu espírito alegre e brincalhão, sempre disposto a brincar até mesmo com coisas mais sérias, e talvez ou por isso mesmo, fui convidado a participar de uma brincadeira com um companheiro nosso apelidado de JACARÉ. Apesar do meu espírito brincalhão, algo internamente me alertou para não participar daquela brincadeira que teve um final inesperado como vocês verão ao final da narrativa.
Jacaré era um trabalhador honesto, muito sério e morava na época na periferia de Brasília, levando uma vida muito sofrida, que ele acreditava um dia acabaria, quando ganhasse na loteria (não me lembro se na época era loto, sena ou outro nome parecido), pois segundo ele, um dia – não seria possível que esse dia não chegasse – os números que ele jogava (que depois foi descoberto, apesar de ele os esconder a sete chaves) equivalentes a data de nascimento dele haveriam de ser sorteados, razão pela qual, toda semana, invariavelmente Jacaré jogava os mesmos números, às vezes era sorteado um número daqueles, outras vezes dois números, o que motivava o mesmo a dizer a todos, está quase a chegar o meu dia, qualquer hora sai os meus números e adeus vida de pobre, era o que sempre dizia, chegava mesmo a fazer planos com sua fortuna imaginária, presenteando um sobrinho com um carro zero, uma casa nova para os pais, uma lancha para si mesmo, e quem sabe, dependendo da bufunfa, até mesmo um aviãozinho para poder ir ao seu querido Piauí, de onde era oriundo e não se esquecia um só minuto, lá de um povoado de Luís Correia, local que para ele era simplesmente o paraíso terrestre.
A empresa em que trabalhávamos era pública, e como tal sofria os dissabores da política local, mudando de presidente sempre que mudava o governador, pois este nomeava pessoa de sua confiança e que o tinha apoiado para a presidência da empresa, não sem ferir vaidades dos que ali trabalhavam e sonhavam alçar ao cargo, e estes preteridos sempre achavam um jeito de boicotar o novo presidente, forçando a sua queda, para quem sabe ser o novo nomeado. Faziam de tudo, escondiam informações vitais, davam informações erradas, colocavam apelidos depreciativos, enfim faziam o que chamamos de jogo sujo, para forçar o sujeito a cair do cargo ou desistir e pedir o chapéu.
Mudou o governador, mudou o presidente da empresa, e como não poderia ser diferente, novas táticas de guerra suja, e não se sabe como, alguém descobriu que o novo presidente, que não era lá de muita brincadeira, tinha um apelido que o deixava furioso, não se sabe bem o por que, pois o apelido nem era assim tão jocoso – PÉ DE VENTO – mas se sabia que quem assim o chamasse cairia na desgraça, e logicamente os contrários à sua indicação cuidaram logo de espalhar a notícia dentro da empresa, e na surdina todos tratavam o presidente somente pelo apelido, sabendo que sua menção na frente do mesmo era passível de demissão por justa causa.
Voltando ao nosso personagem JACARÉ, um dia ele recebe um telegrama da família informando que seu pai havia se internado em Parnaíba com uma doença própria da velhice, achando o Jacaré que deveria ir até lá para fazer uma visita ao seu velho pai, então foi falar com o presidente da empresa, para que esse o liberasse por uns dias, o que lhe foi negado, mesmo o Jacaré tendo argumentado que pagaria com horas extras, ou que descontasse de suas férias vindouras, nada, absolutamente nada sensibilizou o coração do presidente para a liberação de alguns dias para que o Jacaré fosse visitar seu pai. A mágoa ficou encruada no coração do Jacaré.
Um dia, recebo um grupo de companheiros da empresa, só de gozadores, desses que perdem um amigo mas não perdem a chance de fazer uma grande sacanagem, me chamando para participar de uma brincadeira que iriam fazer com Jacaré. Eu, apesar de brincalhão, achei aquela brincadeira pesada demais e não topei, apesar de saber o que ia ser feito: Prêmio acumulado, milhões e milhões para quem acertasse as dezenas naquela semana, sonho de muitos, Jacaré incluso, eles planejavam o seguinte: Toda semana, um dos gozadores era encarregado de ligar para a loteria para saber quais os números sorteados, fato que era feito em voz alta, para que todos da seção pudessem anotar os números sorteados, e dessa vez, ele iria dizer os números que eram jogados sistematicamente pelo Jacaré, que ele achava que ninguém sabia, mas a turma já havia decifrado o enigma.
Chega o tão esperado dia, ressalte-se que isto se seu uma semana após o presidente ter negado a licença ao Jacaré ir a Parnaíba, sorteio realizado as 15:00 da quinta-feira, ligação feita às 15:05 da seção para a loteria – lembre-se na época não tinha nem celular e nem internet – Zé Filho então “canta”os números que teriam sido sorteados, números esses que iriam deixar arquimilionário quem os acertasse, e “canta” os números falsos, que eram aqueles jogados pelo Jacaré. Os que sabiam da mutreta, eu era um deles, ficaram só observando disfarçadamente a reação do Jacaré, que após conferir por umas três vezes os números mágicos, se levantou sem nada dizer, abriu a porta, e pra azar do destino, no mesmo momento em que o presidente ia passando, Jacaré então não se conteve e a plenos pulmões berrou : PÉ DE VENTO FILHO DA PUTA, ENFIA ESSA EMPRESA NO C*, EU AGORA SOU MILIONÁRIO E VOU PRA PARNAIBA É NO MEU AVIÃO. O desfecho dessa história? Ora, essa eu deixo para sua imaginação.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

QUATRO POETAS DO PIAUÍ


MINHA VOZ

Clóvis Moura

Minha mãe deu-me um cravo cristalino
quando nasci. Guardei-o na garganta.
Por isto a minha voz parece o eco
de todo sofrimento que não canta.
Com isto a minha voz se fez desejo
dos surdos-mudos, das mulheres mancas.
É o plenilúnio dos abortos tristes
e o gira-sol dos cegos que não andam.
Minha garganta já sentiu o travo
da palavra guardada e não ditada
por causa dos fonemas mutilados.
Há na voz desse cravo que não toca
um desfilar de mortos e de enterros
e gritos por silêncios soterrados.

Extraído de LB – Revista da Literatura Brasileira, nº 6

DIÁRIO INCONTÍNUO


Gregório de Moraes, Olavo Pereira da Silva Filho, Elmar Carvalho, Itamar Abreu Costa, Pedro Costa e José Fortes Filho (sentado) 


25 de janeiro

OS VELHOS CASARÕES DE CAMPO MAIOR

Elmar Carvalho


Recebi um telefonema do médico Itamar Abreu Costa, lembrando-me de que no domingo haveria a eleição para preenchimento de uma das cadeiras da Academia do Vale do Longá. Disse-lhe que não faltaria, pois desejava sufragar o nome do escritor e professor Carlos Dias, que concorria à vaga deixada por Chiquinho Cazuza, também altoense como o candidato. Carlos Dias é pesquisador de mérito, já tendo escrito vários trabalhos sobre a história de sua terra, sobre a vida e obra do intelectual a cuja vaga concorria, além de ter feito um importante livro sobre o grande poeta popular Zé da Prata, em que analisa sua obra e lhe enfeixa vários poemas.

No telefonema, Itamar reafirmou a sua vontade de contribuir para a preservação dos vetustos casarões de Campo Maior. Diante desse seu desiderato, expliquei-lhe que o arquiteto Olavo Pereira da Silva Filho, uma das maiores autoridades sobre a situação do patrimônio arquitetônico do Piauí, havia me falado que, não obstante a deterioração e o desaparecimento de muitos prédios antigos e históricos, o patrimônio campomaiorense é ainda um dos mais ricos de nosso estado, mormente considerando-se a parte interna desses antigos solares. Acrescentei que Olavo tinha me falado no seu desejo de que fosse promovido um evento em defesa dessas casas solarengas, e que, por esse motivo, o convidaria a comparecer ao Itacor, onde ocorreria a votação domingueira, para que nós três tratássemos da realização da solenidade cultural.

No horário marcado, discutimos como seria esse ato em defesa do patrimônio campomaiorense. Acordamos em que a Academia Campomaiorense de Artes e Letras e a Academia Piauiense de Letras deveriam participar dessa promoção, que pretendemos seja realizada no auditório desta última entidade, sem prejuízo de uma outra em Campo Maior. Haverá uma palestra do arquiteto Olavo Pereira da Silva Filho sobre o patrimônio arquitetônico campomaiorense, no qual ele deverá discorrer sobre o histórico de alguns prédios, sobre o estado de conservação do conjunto das edificações e sobre o que poderá ser feito em prol de sua conservação, além de seu aproveitamento para efeito de turismo cultural e histórico. Na oportunidade, deverá ser passado um abaixo-assinado, para coleta de assinatura da assistência, a fim de ser enviado ao Ministério da Cultura, para emissão de uma declaração a respeito da paisagem arquitetônica.

Ao tratar desses assuntos, soube, através do arquiteto Olavo Filho, de que o antigo cemitério de Campo Maior estaria sofrendo algum tipo de intervenção em seu muro. Contei-lhe, então, que eu já havia escrito um trabalho sobre esse vetusto campo santo, já desativado há várias décadas, em que eu defendia a ideia de que ele poderia ser transformado numa espécie de museu a céu aberto, com a restauração dos túmulos e das alamedas, com um projeto de criação de jardins, caramanchão, estátuas e um espaço ecumênico para reflexões, palestras e eventuais cerimônias ritualísticas, sem prejuízo das construções existentes. No meu escrito, eu dizia que ele poderia ser transformado, mantidas as proporções, em algo parecido com o Recoleta da argentina. E afirmei que esse projeto seria pioneiro, em termos de Piauí, e bem poderia servir de modelo para outros municípios. Creio que tudo isso será debatido na palestra do Olavo.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

POSSE DA NOVA DIRETORIA DA APL


Será hoje a posse da nova diretoria da Academia Piauiense de Letras, eleita em 17 de dezembro de 2011. A solenidade acontecerá às 19:30 horas, no Auditório Wilson de Andrade Brandão, na sede da APL (Avenida Miguel Rosa, 3300-Sul). A diretoria está assim constituída:
Reginaldo Miranda da Silva – Presidente
Raimundo Nonato Monteiro de Santana – Vice-presidente
Oton Mário José Lustosa Torres – Secretário geral
José Elmar de Mélo Carvalho – 1º Secretário
Nelson Nery Costa – 2º Secretário
Manoel Paulo Nunes - Tesoureiro

JUIZ ABRAÇA E BEIJA ESPÍRITO DE PADRE (*)



Hoje, o magistrado Batista Rios é o titular da 2ª Vara da Comarca de Picos

José Maria Vasconcelos
josemaria001@hotmail.com

O maior inimigo do ser humano é o mistério, os enigmas. A maior riqueza, porém, é a fé. Entre as duas fronteiras, a ciência tateia só o visível e experimental, em busca, quase sempre, das vãs e improváveis respostas.
O juiz João Batista Rios, residente em Teresina, atualmente assistindo em Picos, fervoroso católico, colaborador paroquial, meu amigo de longa data, desde o seminário capuchinho, em Messejana-CE, nas beiradas de Fortaleza. Um afeto que amadureceu, depois que nossos colegas de antanho resolvemos nos confraternizar anualmente. Em Fortaleza, ocupamos um ônibus alugado e partimos para a Serra do Estêvão, em Quixadá, e nos hospedamos no mosteiro de freiras, pousada barata e confortável, além de enorme e florido jardim. O clima serrano nos aproximou do céu, regado a vinho, seresta, recordações esticando as noites, 13, 14 e 15 de janeiro, 2012.
Coisas de Deus não se discutem, experimentam-se. Vivenciando a presença do Altíssimo, Ele nos revela seus mistérios e zomba da vã ciência. João Batista percorria, a pé, o centro de Teresina, à tarde, por trás do Colégio Sagrado Coração de Jesus, nas proximidades da Embratel. De repente, o juiz encontra Padre Geraldo Vale, virtuoso capitão e capelão da PM, diretor espiritual da Renovação Carismática. Batista emociona-se, depois de longa ausência amiga, abraça-o e lhe beija a mão, como de costume. Conversam demoradamente, meio ao barulho do trânsito. E se despedem. Logo mais, o juiz se dirige à residência da amiga, Célia, e lhe relata o encontro com o sacerdote. Célia estranha a revelação do amigo: "Batista, já faz um ano que o Padre Geraldo faleceu, agora você vem me dizer que o encontrou na rua?!" Quase o juiz cai para trás, e lhe conta o que aconteceu. Envergonhado, João Batista temia o episódio virar boataria, atingindo-lhe a dignidade profissional. Duvidando de Célia, o juiz procurou outra amiga, Ivanir, e lhe narrou o encontro com o padre. "Batista, é verdade, mesmo: faz um ano que o padre Geraldo morreu!"
Ouvindo história tão estranha e fotográfica, lembrei-me de Jesus Cristo, ressuscitado, aparecendo a dois discípulos, na estrada de Jerusalém a Emaús. Conversaram, depois jantaram, em seguida o Mestre desapareceu. Antes, tachou-os de retardados da fé.
Quem acredita em inumeráveis aparições de Maria, quem reza aos espíritos de Antônio, Francisco e centenas de "santos"- uns que nunca existiram - não deve questionar a experiência transcendental do juiz João Batista. Tem de aceitar o que ocorre longe dos altares, especialmente em territórios de outras crenças. Espíritos de índios, negros e cidadãos que marcaram a passagem pela terra com a prática do bem. O difícil é filtrar o misticismo psicopata da revelação sadia e divina.
Juiz João Batista, homem de espírito e conduta exemplar, perseguido por desbancar prefeitos do trono, conseguiu o privilégio de experimentar "coisas" de Deus que arrebentam a vã ciência. "Zé, pelo amor de Deus, não me leve no deboche e humor, ao relatar esse episódio." Prometo, Batista, inclusive de lhe dar um cheiro, se morrer primeiro. Bem no meio da Avenida Frei Serafim. De assombrar transeuntes.

(*) Neste blog, sob o título de No Reino do Surreal, contei essa narrativa, embora sem o brilho do mestre José Maria Vasconcelos. Minha crônica também foi publicada na revista Nossa Gente, nº 9, de dez./2011, editada pelo jornalista Belchior Neto, que prestou significativa homenagem ao padre, com mais duas matérias, uma de sua autoria, e outra, escrita pelo juiz João Batista Rios. As fotos foram extraídas da referida publicação.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

FLAGRANTES & INSIGHTS



SERRA AZUL DE SANTO ANTÔNIO DO SURUBIM

Elmar Carvalho

Diz-se que se montanha não vai até Maomé, Maomé vai à montanha. Não podendo eu ir até ela, trouxe a Serra Azul encantada até mim, através das lentes poderosas de um binóculo. Através da imaginação, percorri as veredas de mocó, desbravei suas furnas, escalei os paredões de arenito, contornei as macambiras, colhi araticuns e coroatás, procurei as boticas de ouro dos jesuítas, finquei uma bandeira no seu cume... E me cansei de tão exaustivas atividades.

domingo, 22 de janeiro de 2012

DEPOIMENTO DO DR. ITAMAR ABREU COSTA

O médico e intelectual Itamar Abreu Costa, em seu consultório no Ita'cor


Gregório de Moraes, Olavo Pereira da Silva Filho, Elmar Carvalho, Itamar Abreu Costa, Pedro Costa e José Fortes Filho (sentado) 
Dia 7 de dezembro de 2011, estou completando 34 anos de formado em Medicina.
A Turma de 1977 da Faculdade de Medicina da UFPa, ao comemorar mais um Aniversário, não devem deixar de pensar na situação caótica da assistência médica no nosso país.
Governos entram e governos saem e quase nada muda. Filas e mais filas, escândalos, desvio dos recursos destinados à asssistência Médica.
O Brasil é um país continental e é quase impossível de ser administrado, principalmente enquanto estiver sendo dado oportunidade de rapôsas(pessoas desornestas), tomarem de conta do galinheiro(dos recursos destinados à assistência à saúde).
Espero que alguma coisa possa acontecer de bom, e , que as novas gerações de médicos, deixem de assistir as cenas grotescas que assistimos nos diversos serviços médicos espalhados pelo nosso Brasil.
Formado em Medicina, já havia obtido classificação para fazer o Curso de formação de Cardiologista do Hospital da Beneficênça Portuguesa em São Paulo, no meu caso Equipe do Prof. Dr. E.J ZERBINI.
Em Janeiro de 1977, criou-se em Belém uma verdadeira escola de cardiologia(Jovens cardiologistas: Dilce Léa, Paulo Fernandes, Landry, Cláudio Moura e AARÃO SERRUYA), Angiologista(Chiquinho e Cascaes) e o grande cirurgião geral Vitor Moutinho. Alugaram o Hospital Anchieta que ficava na Avenida Governador José Malcher. Fizeram seleção para sextanista da UFPa, isto mudou uma história "a minha".
Fiquei seis (6) meses em Belém e o último semestre no Hospital Matarazzo em São Paulo, no Serviço da AngioCardiologia do Professor Quintiliano Hugo de Mesquita.
Em São Paulo, me incorporei ao Serviço do Médico Paraense com decendencia gregaTeofanis Kontatidinis(Hemodinamocista de Scoll).
O grego me orientou e me guiou, estágio no Instituto Dante Pazzanesi de cardiologia (Radiologia Professor Hortêncio de Medeiros Sobrinho e Eletrocardoigrafia Professora Maria Helena).
Em 1978, me incorporei ao serviço de Cardiologia do Hospital da Beneficênça Portuguesa em São Paulo, Equipe do Prof.Dr.E.J.Zerbini, foram 2 anos e meio de muito estudo e participação em cursos na capital Paulista, ganhei a confiança do grande "Mestre" o Pioneiro do transplante de Coração na América do Latina.
Em julho de 1980, resolvi retornar ao Piauí, já são 31 anos de dedicação aos corações dos meus irmãos do estado e visinhos, tenho plena certeza que tenho tentado fazer o melhor que posso na minha area de atuação.
Construi um grande familia e ergui um belissimo lar tendo edilane como companheira, Patricia, Ilanne, Lhoanna e agora Lana para meu coração ocupar.
Minha esposa é a grande administradora de toda a obra física e espiritual do Hospital Itacor.
Meus ´pais e sogros são e foram os meus pilares de sustentação.
Meus amigos (que não são poucos) e meus assistidos (que também não são poucos e todos amigos), os colegas Médicos que trabalham comigo e são todos cúmplices deste desenvolvimento.
À minha querida vovó JOANA ROSA( Deus está com ela desde primeiro de novembro de 2010), enquanto existiu me encheu de cheiros, cheiros e mais cheiros ,pensamentos bons e principalmente amar ao próximo.
Meus irmãos, irmã, cunhado, cunhadas, sobrinhos, sobrinhas , afilhados, compadres e comadres, tios e tias e afilhadas e colaboradores do Itacor a  certeza que serei sempre grato e presente com vocês em qualquer situação.
A meu bom Deus!, à Santa Joana Dárc, Santo Agostinho, Santo Antonio, Santa Ernestina e a Nossa Senhoara do Vaqueiro, venho pedir sempre proteção e que minha estrada seja sempre bem iluminada e segura com as suas bençãos
obrigado!!!!!

sábado, 21 de janeiro de 2012

MANAUS, A CAPITAL DO SUJO


JOÃO PINTO

Amigo internauta, um texto para se pensar a capital do
Amazonas, que pode ser também a sua onde mora.
JP

É assim a visão quase romântica que se tem dela. Mas, por trás dessa sujeira,
sai o rosto dócil do manauara, que me parece perdeu a essência de ver sua cidade
ao transitar entre caixas de papelões, sacos de lixo, bosta de cães, o óleo
de odor insuportável que vem das batatas ou bananas, ou dos jaraquis. Que
traz a febre cancerígena oculta. Ou entre os vendedores nas calçadas, os donos
com o alvará do gestor.

Se você anda pelo centro ou, na periferia dela, o camelô te sufoca com
os espaços, com os badulaques da China. Quem mora num espaço, que
aceita a sujeira, acaba perdendo a capacidade de indignar-se.
O manauara não só aceita a condição como contribui como agente que suja.
Perdão apenas para os que não sujam.

E parece que esse lado porco da cidade se acentua mais no inverno. O
gestor nunca aparece com os garis. Com o inverno o casario de Manaus
fica mais doentio com as paredes enegrecidas e os telhados cheio de lodo
e poeira causado pela umidade. Os esgotos, meu Deus, que a gente tenha
sorte de não atolar o pé neles. Quem anda de carro, fecha os vidros, pouco
tem interesse pela paisagem. Os ônibus desceram do céu com a carga gé-
tica lotada de passageiros invisíveis, aqui também há sujeira e demora, ou
raiva.  

Estou farto de ser manauara adotado. Já moro mais 20 anos no Manoa. Ao
lado de casa tem um beco que, de manhã espio do meu muro o matagal que
oscila o pigmento das folhas com a maior paciência e muito lixo que os próprios
moradores desovam sem piedade.

Mas, continuo a dizer, quem convive com o lixo um dia pode acordar
e protestar. Deixar de sujar e culpar quem suja. Voltar a artilharia contra
o mal gestor que nunca anda pelas bibocas da sua cidade. Só para enganar
os tolos.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

FLAGRANTES & INSIGHTS


MANEQUIM DESPUDORADO

Elmar Carvalho

Na vitrina da butique, vi o manequim com uma tarja negra de plástico sobre os seios e outra sobre o sexo.
Ante tamanho pudor e autocensura da loja, fiquei a pensar que o sexo da boneca plástica teria o mesmo designe, textura e detalhes de uma genitália feminina de verdade.
Ou será se o tapa-sexo seria um novo modelo de biquine?

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

DIÁRIO INCONTÍNUO

Mário Faustino


19 de janeiro

O POETA WALTER LIMA

Elmar Carvalho

Quando eu estava atravessando um grande lençol de areia, no percurso que vai da cidade de Jijoca para a vila de Jericoacoara, com o veículo devidamente tracionado, e imprimindo-lhe a velocidade adequada à topografia da trilha, meu celular tocou. Pedi a minha filha Elmara que o atendesse e explicasse ao responsável pela ligação que eu não poderia atendê-lo, em virtude dessa circunstância, até porque eu já atolara o carro anteriormente, quando me descuidei, e não adotei a velocidade correta. Era o poeta Walter Lima quem ligava, de São Paulo, onde trabalha. Para me justificar, mandei-lhe um e-mail, no qual, como prova, pedia que ele lesse uma matéria sobre essa aventura, que publicara na internet. Em sua resposta, além de aceitar as minhas exculpas, mandou-me um poema recente, que já postei em meu blog.

Faz alguns anos que conheço o poeta Walter Lima. Nascido em Altos, veio cedo para Teresina, onde morou durante vários anos. Além de ser contador (da contabilidade, e não de conversa fiada ou de estória de trancoso), fazia serviços de revisão gramatical, mormente em obras literárias. Foi nesta última condição que travei relações de amizade com ele. Prestou-me serviços de revisão em alguns de meus textos e opúsculos, sobretudo em meu livro Lira dos Cinqüentanos, que passou pela sua chancela gramatical. Conversávamos sobre literatura. Logo constatei que era dado a leituras criteriosas, atentas, seletivas.

Pude perceber que ele lia com cuidado, ruminando o que degustava, sem pressa e sem afoitezas; antes, fazendo reflexões sobre a linguagem e estilística do autor. Era familiarizado com os clássicos da literatura brasileira, e com as obras seminais da literatura feita no Piauí. Entretanto, em virtude da necessidade de uma melhor perspectiva em sua vida profissional, teve que se mudar para São Paulo, onde hoje exerce suas atividades contábeis, mas sem se desligar de seu compromisso com a literatura, seja como leitor exigente, seja como homem de letras, senhor de seu itinerário poético.

Com o passar do tempo, passou a mostrar-me as suas produções poéticas. São textos sintéticos, em que, por vezes, rompe com a sintaxe tradicional, com o objetivo de alcançar uma maior densidade e fluidez. Contudo, não abandonou as lições da tradição poética ocidental, e, portanto, segue uma linha também discursiva e metafórica, porém desdenhando os lugares comuns, as imagens demasiado exploradas.

Admirador confesso de Mário Faustino, creio que ele vem desenvolvendo uma poética algo semelhante ao que Faustino pretendia fazer, e ainda esboçou. Um poema longo, um tanto fragmentário, composto de sucessivas unidades, elaboradas ao sabor dos acontecimentos pessoais, sociais, culturais ou históricos, que lhe impulsionam a criatividade. Entretanto, como dito, não aboliu os recursos discursivos; antes os adequou ao seu estilo e ao que pretende, em sua luta com as palavras. Portanto, absorveu as lições dos grandes mestres – do passado mais longínquo e da contemporaneidade – porém colocando nas suas produções a sua marca pessoal, a sua individualidade.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

QUATRO POETAS DO PIAUÍ


ORAÇÃO PARA INVOCAR AS QUE NÃO VIERAM

H. Dobal

Venham a mim todas as que não me quiseram,
todas as que deixaram de conhecer, no sentido bíblico,
um homem competente não só na palavra amor
mas também nos carinhos mais fundos.

Venham todas:
as que morreram,
as que engordaram,
as que se enterraram
na rotina dos casamentos.
Venham todas as que o destino não quis.

Extraído de LB – Revista da Literatura Brasileira, nº 6

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Cimério Ferreira no sarau da Oficina da Palavra

Foto extraída do blog Kenard Kaverna
Irmãos e irmãzinhas: iniciar o ano curtindo boa música e excelente poesia é, no mínimo, animador. Dia 19 (quinta-feira), [às 20 horas] faremos, na Oficina da Palavra, o primeiro sarau de 2012, homenageando dois líricos incorrígíveis: Climério Ferreira e Cid Teixeira de Abreu. Para dar maior brilho à noitada, Climério lançará o livro Poesia mínima & frases amenas. A música correrá por conta de Josué Costa e Rosinha Amorim. É pouco? O último a chegar lavará os copos!

Estive no sarau do violonista André, no final do ano no auditório da Oficina da Palavra, André, garoto que conheci garoto, que não via há mais de trinta anos, não me reconheceu depois de tanto tempo, e que amadureceu em sua arte e personalidade. Na ocasião Cineas me saudou dizendo que meu blog era um dos melhores que ele conhecia no Piauí e que me deixou mais convencido ainda (rs rs rs...Cineas é muito amigo do Netto...)

Zeferino Alves Neto

Texto surrupiado do Blog do Zan

UM POEMA DE WALTER LIMA


1119

Walter Lima

por mais pequeno
ou grande que seja
um príncipe ou plebeu
do longínquo país

não consigo imaginar
o esboço do arauto do Rei
derrotado pelo tempo dos anos

numa tumba de vidro
des-cansa das atrocidades tantas

por mais carpideiras
pinguem águas de crocodilos
em esquife lacrada
:
mais fácil rabiscar
desenho pequeno infante Saint-Exupéry
cobras lagartos elefantes jibóias

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Os doze trabalhos de Kenard Kruel

Capa 3a edição Torquato Neto ou a Carne Seca é Servida
Kenard Kruel



Durvalino Couto Filho

Conheço o Kenard Kruel há mais de 30 anos, desde quando ele chegou de Parnaíba, em 1977, magrinho, franzino, logo escrevendo nos jornais de Teresina - O Estado, O Dia, Jornal do Piauí, Jornal da Manhã, Correio do Piauí, Jornal de Serviço e aqui fazendo o seu O Cobaia, mimeografado. Ele que já vinha de uma experiência nos jornais de lá - Folha do Litoral e Norte do Piauí, além do mimeografado Batalha do Estudante, que editava no Colégio Estadual Lima Rebelo, de onde foi expulso.
De lá para cá, foram muitas empreitadas, muitas jornadas, jornais, suplementos, revistas, livros, shows, manifestos, seminários, congressos, encontros, salões, debates, brigas e mil confusões que fazem de Kenard Kruel uma figura ímpar.
Eu sempre comento com os amigos que talvez a maior qualidade do Kenard Kruel seja o fato de ele ser um grande arregimentador, um incansável tarefeiro cultural. Já se tornou uma legenda a figura de Kenard Kruel sempre apressadíssimo, agora grandão, pesadão, com pastas e papéis debaixo do braço, entrando de rompante nos salões, terraços, redações, agências, palácios governamentais, sempre com uma nova empreitada por fazer. Pode demorar, mas dá conta do recado, porque não abandona nunca a ideia (fixa).
O Kenard Kruel é um louco.
O Albert Piauí, confessadamente o seu melhor amigo, já se intrigou com ele umas sessenta vezes, e perdi a conta dos fantásticos Salões de Humor que os dois organizaram, trazendo a Teresina figuras como Angeli, Ares (Cuba), Borjalo, Biratan Porto, Clériston, os irmãos Caruso (Paulo e Chico), Cláudio Oliveira, Cláudio Paiva, Edgar Vasques, Glauco, Jayme Leão, Jaguar, Jorge de Salles, Lailson, Laerte, Lapi, Lor, Mino, Millôr Fernandes, Mariano, Márcia Braga (Z), Nani, Otto, Reinaldo, Sinfrônio, Ziraldo, Zélio Alves Pinto e outros grandes humoristas do traço brasileiro. Sem falar de mil outras realizações, como a de criar, também, a Fundação Nacional do Humor, que Albert Piauí preside desde então.
Kenard Kruel é polêmico, intempestivo e carinhoso. Cuida com competência dos seus projetos e também arregaça as mangas para tocar os projetos dos outros. Nunca se omite. E é um dos mais entusiasmados, até parecendo que defende a própria cria. E nada quer em troca. Kenard Kruel é o sujeito mais solidário que conheço.
Agora tenho em mãos esta imensa pesquisa que ele fez sobre Torquato Neto. Confesso que discordei frontalmente dele quando começou a fazer este trabalho. Ele havia me mostrado um dos primeiros poemas de Torquato Neto, entusiasmado. Fui ver, era um poemeto de menino, que Torquato Neto havia escrito, num remoto dia das mães, para a Dona Salomé. Eu fiquei puto, falei que publicar aquilo era uma aberração, que Torquato Neto rasgaria a relíquia se vivo fosse, que Kenard Kruel esquecesse e tal. Mas hoje tenho em mãos um trabalho gigante, obstinado, bem documentado - e o que é melhor - cheio de inéditos de e sobre o anjo torto da Tropicália.
Kenard Kruel fez um levantamento minucioso da biografia de Torquato Neto desde os bisavós, os avós, os tios, os primos, colheu depoimentos de velhos amigos; resgatou inúmeros textos, como o que Torquato Neto escreveu, aos vinte anos, sobre Arte e Cultura, no jornal O Dia, em  fevereiro de 1964, e poemas inéditos, como você verá; desencavou documentos que, com certeza, irão encher os olhos dos milhares de torquateiros espalhados por esse Brasil-mundo afora.
Posso dizer mesmo que o trabalho de Kenard Kruel, tal como se apresenta , é fundamental para todos aqueles que querem aprofundar seus estudos e conhecimentos sobre a não-obra deste poeta inquieto, sempre marginal, de nosso país.
Por isso mesmo, não gostaria de tecer mais considerações sobre Torquato Neto. A diagramação é do próprio Kenard Kruel, um faz tudo, com capa do nosso Paulo Moura, artista gráfico de mão cheia. Um outro talento raro. Raríssimo, se me permitem!
O livro que você tem em mãos está cheio de preciosas novidades sobre sua vida e sua produção descontínua e abundante.
Nesta edição, a terceira, conta com revisão de Dodó Macedo, que eliminou erros de toda espécie, inclusive dando nomes aos ilustres até então desconhecidos. Foram acrescidos novos trabahos, novos poemas canções, novas fotos, e Kenard Kruel, ainda assim, me confessou que tem material para fazer um outro grande livro.
Dinâmico, já se prepara para nova edição deste seu / nosso Torquato Neto ou a Carne Seca é Servida, com novo formato, mais fotos e textos inéditos. É um bom sinal, que corrobora o que disse Leminski sobre Torquato Neto: um homem sem obra, como Buda, Confúcio, Cristo. Obra desencavada pela obstinação da história e de pessoas como Waly Salomão, Ana Maria, Georde Mendes, Paulo José Cunha, Fifi Bezerra, Edwar Castelo Branco, Toninho Vaz e, notadamente, Kenard Kruel, para quem a voz do poeta não cala e não cessa. Olhos à obra.
Kenard Kruel, grande tarefeiro e velho amigo, é um prazer lhe dizer, com orgulho: missão cumprida.

Surrupiado sub-repticiamente do blog Kenard Kaverna

domingo, 15 de janeiro de 2012

ARTE-FATOS ONÍRICOS E OUTROS



A VINGANÇA DA CASCAVEL

Elmar Carvalho

Eram cinco horas da tarde quando Expedito Malaquias, ao retornar para sua casa, após árdua jornada de trabalho em sua roça, na chapada Malhada de Areia, avistou acerca de oito metros uma cobra atravessar a vereda. Ele poderia ter seguido seguido seu caminho, uma vez que o réptil não lhe ofereceu nenhuma ameaça ou perigo. Mas o caboclo tinha uma raiva antiga e inexplicável contra esse tipo de ser rastejante, e preferiu persegui-lo, para tentar matá-lo.

Quando o viu novamente, ele já estava entrando em sua toca, no meio dos pedregulhos. Expedito, que já vinha de facão em punho, desferiu-lhe um golpe rápido. Contudo, conseguiu apenas decepar-lhe a parte final do corpo, onde ficava o chocalho. Essa modalidade de serpente costuma sacolejar esse apêndice, quando se sente acoada, mormente pelo cancão-de-fogo, que a enfrenta destemidamente, azucrinando-lhe a paciência, com certeiras e dolorosas bicadas, na solidão da chapada. A insolente ave consegue enfurecê-la tanto, que a cobra termina morrendo de tanto ira que lhe envenena o corpo.

Expedito apanhou o chocalho da cascavel e o levou para casa, onde o guardaria, como um troféu. Pegou a cabaça d'água, que deixara no caminho, para ter maior mobilidade na perseguição que empreendeu, e seguiu para casa satisfeito, com o mimo que levava, mas um tanto chateado por não ter conseguido matar o animal peçonhento. De instantes a instantes, como se fosse um menino encantado com o brinquedo que acaba de ganhar, sacudia e contemplava o guizo. O barulho lhe soava como refinada melodia. Pela quantidade de “enrugas” do maracá, tratava-se de cascavel refeita, em plena maturidade, no apogeu de sua força e agilidade. Certamente, uma picada sua era mortal, pois o seu veneno é poderoso e de rápido efeito. Amarrou o guizo numa embira de tucum, em local onde o vento podia sacudi-lo. No silêncio da noite, o chocalhar lhe soava como música de anjo.

No sábado seguinte, ao contar o fato a uns amigos, num botequim de cachaça, localizado no terreiro de uma latada onde acontecia um forró, foi prevenido por um deles para que tomasse cuidado, pois cascavel não perdoava; era animal rancoroso, vingativo, e um dia poderia surpreendê-lo, e lhe armar um bote mortal. Expedito Malaquias não levou a sério a advertência, achando que era apenas uma superstição matuta, como tantas outras, e seguiu sua rotina de lavrador sem nenhuma preocupação, a não ser a de sustentar a mulher e os filhos.

Certo dia, ao se aproximar de sua casa, sentiu uma dor na batata da perna. Imediatamente se lembrou do que dissera o amigo, e logo viu a serpente a seus pés. Num ato instintivo, sacou o facão, que trazia na bainha, e decepou a cabeça da cobra. Desta feita teve a certeza de que ela não mais picaria ninguém, mas, por via das dúvidas, após verificar que ela não tinha a parte final da cauda, que lhe decepara da vez anterior, cortou o seu corpo em várias pedaços, e ainda lhe esmagou o crânio com uma pedra jacaré, encontrada na beira da vereda. Arrancou uma corda que trazia no cofo de palha de carnaúba, e amarrou fortemente a perna esquerda na altura da virilha, em apertado torniquete. Seguiu para casa em passos rápidos.

A mulher conseguiu levá-lo a Barras, a cidade mais próxima, no carro de um vizinho mais próspero. Aplicaram-lhe o antiofídico próprio. Mas o veneno e a falta de circulação provocaram-lhe a temida gangrena, de modo que os médicos acharam por bem amputar-lhe a perna ofendida, que era a esquerda, à altura, quase, da virilha. Diante desse fato, Expedito Malaquias terminou conseguindo aposentar-se por invalidez, passando a receber benefício do INSS. Nunca se queixou da sorte. Ao contrário, dizia mesmo que fora melhor assim. Alardeava que a aposentadoria fora um prêmio, e passou a considerar o guizo pendurado na embira como o seu amuleto da sorte. Sendo preto retinto e gostando de pitar cachimbo, terminou mimoseado com o apelido de Saci, do qual tinha orgulho.

sábado, 14 de janeiro de 2012

ANTOLOGIA DO NETTO

Texto e charge: João de Deus Netto

ASSIS BRASIS

Francisco de ASSIS Almeida BRASIL nasceu no dia 18 de fevereiro de 1932 em Parnaíba, Piauí, cidade onde existe uma fundação cultural com o seu nome. É romancista, cronista, crítico literário e jornalista. Como crítico literário, atuou intensamente na imprensa brasileira, especialmente no Jornal do Brasil, Diário de Notícias, Correio da Manhã e O Globo e na revista O Cruzeiro, Enciclopédia Bloch e Revista do Livro. Ele é o membro número 36 da Academia Parnaibana de Letras. Embora ainda não faça parte da Academia Brasileira de Letras, existe uma forte movimentação neste sentido.

Recuando a carreira artística, Assis Brasil começou com teatrinho organizado por sua mãe em Parnaíba. Era uma espécie de vaudeville musicado e falado. A representação ficava a cargo de alguns garotos da cidade, revertendo o valor das entradas em benefício da igreja local. A mãe tocava piano e declamava, e ASSIS BRASIL, num trio fazendo o papel de engraxate, cantava e dançava, aos dez anos de idade...
SAIBA MAIShttp://assisbrasil.org/almeida.html

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

As águas contra as terras


CUNHA E SILVA FILHO

A mesma cantilena de sempre, sobretudo da parte das autoridades municipais, estaduais e federais. Chega o período das chuvas torrenciais, morrem as pessoas e só depois surgem algumas providências.Porem, isso não basta. É obvio que toda ajuda é bem-vinda, quer dos governos, quer da iniciativa voluntária, das pessoas generosas que muito dão de si em prol do bem comum.
A tragédia brasileira das chuvas fortes do verão implica outras causas, outros motivos, os quais não são vislumbrados com antecedência. Esta é a maior parcela de culpa que atribuo ao governo federal, ao Ministério competente. Nenhuma ação eficaz e séria se toma. As verbas existem mas só vêm em cima da hora, quando a tragédia já aconteceu.O Brasil é um país que tem o péssimo vício do improviso.
No ano passado e em outros anos, a tragédia sempre tem sido um acidente anunciado. Não há pois, planejamentos de alta envergadura para essas chuvas, essas inundações que transformam as pequenas, médias e grandes cidades em autênticas Venezas brasileiras, só que inundadas e com correntezas que alargam os rios e invadem as cidades sem clemência, derrubando o que encontra pela frente, causando mortes e transtornos às populações, que perdem seus bens móveis e imóveis e, o que é mais grave, passam a engrossar a fileira enorme de sem-teto. A televisão, nas reportagens in loco, dia a dia, mostram os estragos incalculáveis da fúria das águas. Só há desespero, choros, tristezas.. “O que fazer?”, dizem as as pessoas afetadas, sem esperança alguma, sem saber o que fazer.
Sua desesperança tem o sofrimento atroz da fatalidade que a natureza, indiferente, imprime, principalmente aos deserdados da sorte.A população perde tudo o que acumulou em anos de trabalho árduo, de dinheiro pingado, de sacrifícios mil que, de repente, mais do que de repente, se esvai como uma bolha de sabão.Sofrem o Rio de Janeiro, principalmente no interior e na região serrana, Belo horizonte, o interior de Minas Gerais, sofrem outras cidades brasileiras no Centro-Oeste, no Nordeste. Deslizamentos de terras vindo dos morros.Casas construídas quase nas ribanceiras são as primeiras a viraram pó e lama. O luto se agiganta. Bombeiros, a Defesa Civil, os sobreviventes, todos juntos, arregaçam aas mangas e vão à luta para salvar vidas e bens na medida das possibilidades. As águas não param, os rios sobem, saem das margens, invadem as cidades. Pessoas, em geral mais humildes, sãos as vítimas que mais padecem. Ficam soterradas. O único recurso agora é encontrar os corpos . Um trabalho hercúleo dos bombeiros e de voluntários amigos.
Não é só a visita de governadores ao lugar das tragédias que irá melhorar esta angústia coletiva. Lamentar tudo o que ocorreu é muito pouco e inócuo. O que vale mesmo é procurar estratégias que resolvam grande parte desses males, a começar do planejamento urbano, da fiscalização rígida dos espaços que não podem ser construídos. No entanto, as prefeituras não fiscalizam devidamente as ocupações do solo urbano ou interiorano. E as construções, em geral perto do perigo, lá se vão a todo o vapor. Uma atrás da outra, em cima, embaixo, na encosta, no morro, perto da ribanceira, em solo instável e inadequado. Campeia a improvisação, das famílias ávidas de ter uma moradia própria ainda que sob a mira do perigo, das intempéries. E o resultado ano a ano: as tragédias. A ponto de um ministro, que mora certamente em casa confortável e luxuosa, ou apartamento, não sei, afirmar : “Todos os anos vão morrer pessoas em inundações.” “Meu Deus, quanta fatalidade no pensamento do ministro! Sabemos que a engenharia moderna pode reverter grande parte dos males das inundações e das chuvas torrenciais.
Os governos podem fazer muito neste sentido desde que tenham o sentimento de solidariedade para com as populações mais pobres, embora saibamos que a raiz dos problemas vem de dois lados. Primeiro, da falta de planejamento, como já acentuei, da fiscalização das construções, proibindo essas realizações em lugares de risco. Segundo, o problema vem mais de longe, visto que está intimamente ligado às condições alteradas do clima na Terra.Com o aquecimento do planeta, com a evaporação mais e mais intensa e constante, com o aumento de poluidores em escala global, emissão gigantesca e criminosa de CO2 , notadamente pelos países ricos, alguns dos quais não aceitam a diminuição dos agentes poluidores, piorando gradativamente o efeito estufa, não é de se espantar que o nosso planeta desequilibre suas condições climáticas. Antigamente, se falava muito do período das secas no Nordeste, causadora também de outro mal, a indústria da seca, ação predatória de políticos que lucravam eleitoralmente com a manutenção desse estado de coisas, agente realimentador da miséria oficializada do flagelo das secas, tão bem retratado por alguns escritores, à frente Graciliano Ramos (1892-1953), com a obra-prima Vidas Secas (1938). Hoje, já se tornou comum no Sul do país surgir as altas temperaturas, dias de seca e perda consequente da lavoura. As periódicas reuniões de cúpula de países ricos, com suas discussões sobre a questões climáticas, ao que me consta, não têm feito muita coisa para resolver os gravíssimos problemas da poluição mundial. Inclusive, países como os Estados Unidos nunca se dispõem a aprovarem as recomendações dos signatários nestas reuniões. As advertências, contudo, dos especialistas não têm sensibilizado algumas nações poluidoras.
O planeta Terra, através das reações da natureza, estará cada vez mais arriscando as possibilidades de sobrevivências das gerações futuras. Mexer com as geleiras é brincar com fogo. A conclusão que se tem é que as condições meteorológicas perderam seu rumo e o resultado está aí: inundações pelo planeta todo, destruição de populações, perda de bens materiais, desolação e choro em toda a parte, prejuízos enormes para a economia. Tenhamos pena de nosso planeta antes que seja tarde demais e aprendamos a ouvir a linguagem da Natureza e os sinais do tempo. 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

DIÁRIO INCONTÍNUO




12 de janeiro

ALMAS, BITUPITÁ OU PANCADA DE VENTO

Elmar Carvalho

Nesse meu passeio a Jericoacoara, como dito no registro anterior, passei pelo antigo povoado de Barroquinha, que não é mais nenhuma “barroquinha”, se é que já o foi. Ao contrário, é atualmente uma progressista cidade, com bela igreja, florescente comércio, e é cabeça de Comarca. Mais de três décadas atrás, passei por ela, em demanda de Camocim. Era uma pequena povoação. Mais ou menos na mesma época, passei no seu entorno, quando fui a um passeio no povoado Bitupitá, também chamado de Almas, que é um reduto de pescadores. Fomos eu, o Vicente de Paula (Potência) e o Volta Redonda, no Corcel II deste, um dos mais festejados automóveis da época.

O Volta Redonda era um funcionário aposentado do Banco do Brasil, que fez sua carreira profissional no Rio de Janeiro, mais precisamente na cidade de Volta Redonda, de onde lhe adveio a alcunha com a qual se tornou conhecido em Parnaíba. Era ele já um sessentão, simpático, bem-humorado, que parecia haver adquirido uma espécie de espírito carioca, que é uma maneira de ser e de ver a vida. Como é sabido, muitas pessoas, ao começarem o processo inexorável de envelhecimento, sentem uma nostalgia de sua infância e juventude, e por isso, em muitos casos, retornam ao seu pago natal. São como certos animais, que, ao pressentirem que a morte se aproxima, retornam ao seu local de nascimento. Volta Redonda talvez tivesse a premonição de que o termo de seus dias já estivesse próximo. Com efeito, três ou quatro anos após sua chegada a Parnaíba, veio a falecer, quando já morava em uma chácara no bairro Rosápolis.

Logo que ele retornou a Parnaíba, sua terra natal, fez amizade com o Canindé Correia, e através deste, comigo e com o Vicente de Paula. Ele combinou a viagem a Bitupitá com o nosso bravo Potência, que tinha vários parentes no povoado, inclusive o Borracha, já falecido, que era próspero comerciante do ramo de pesca. A estrada era de piçarra, mas o Volta Redonda tinha o pé de ferro, de forma que imprimiu boa velocidade ao veículo. O certo é que chegamos ao nosso destino sem maiores problemas, já ao entardecer.

Tomamos umas cervejas, tendo por tiragosto ova de peixe, e fomos a uma festa que estava havendo. O Volta Redonda era um boa praça, de alegria contagiante, e logo fez amizade com umas moças, e, não sendo mão fechada, antes um bonachão, lhes pagou a entrada no clube; o velho Volta era realmente um sujeito “indo e voltando”. Um pouco depois fui embora, para dormir, de modo que não sei se ele arranjou alguma namorada. No dia seguinte, à tarde, fomos convidados a “despescar” uns currais de pesca, que ficavam a aproximadamente um quilômetro e meio da praia.

Os pescadores, em seus barcos a vela, iam cantando ou fazendo algazarra, felizes, pegando parelha ou apostando corrida, por simples diversão. Gritavam, a incentivar os companheiros. Pilheriavam, quando um veleiro ultrapassava o outro. Para darem mais consistência às velas, de modo a que melhor aproveitassem a força do vento, jogavam água do mar nas velas; molhadas, elas recebiam com mais impacto o impulso da ventania, e assim obtinham maior velocidade. Quando chegaram aos currais, desativaram as velas e começaram o trabalho de recolher os peixes, presos entre as cercas labirínticas da armadilha. As águas eram verdes e transparentes, de uma beleza ímpar.

Comecei a olhar para as águas, cujas ondas passavam a sacudir o barco em que eu estava. Estando o veleiro parado, mas agitado pelas ondas, senti uma sensação estranha, uma forte tontura, como se o mundo estivesse girando. Eu havia sido advertido, antes da saída, de que poderia enjoar. O fato é que, sem nenhuma experiência em navegação pelo mar, tive ânsia de vômito, e não pude resistir a devolver o alimento, como diria o célebre conselheiro Acácio, criatura imortal da pena de Eça de Queiroz.

Já em terra firme e já recuperado do enjoo, considerando que não havia visto nenhuma alma – penada, depenada ou não – perguntei ao De Paula qual o motivo para o povoado se chamar Alma, e qual era o significado da palavra Bitupitá, que me era estranha. O Vicente, quando não sabe inventa, contudo não deixa ninguém sem resposta. Sobre a origem da denominação Alma já não me recordo de sua explicação, mas me parece que era um tanto fantasiosa.

Quanto à tradução de Bitupitá, palavra indígena, respondeu-me ele, sem titubeios, com o seu conhecido senso de humor:
- Olha, poeta, significa pancada de vento; mas eu senti mesmo foi pancada de cachaça!
É vero que esvaziamos algumas garrafas de cerveja, embora não tanto assim. De fato, deu para sentir na pele as agradáveis pancadas de fortes sopros marítimos. Felizmente, não vi nenhuma alma, nem mesmo o rastro, mas fui fustigado por “bitupitá”, que me açoitava a pele e os cabelos, então vastos, bastos e encaracolados.