No sábado, na sede do Sindicato dos Trabalhadores da Educação, foi comemorado o aniversário natalício do professor, instrumentista e compositor José Francisco Marques. Muitos de seus familiares, amigos e colegas foram abraçá-lo e prestigiá-lo. Zé Francisco foi pouco para tão numerosas pessoas de seu círculo de amizade. Houve farto e variado coquetel. Muitos musicistas compareceram e deram uma boa “canja”, às vezes fazendo dupla com o aniversariante. Entre os instrumentistas, marcaram presença Hércules Amorim, também blogueiro do sistema Meio Norte, e Cláudio Rogério, expert em Fernando Mendes. A equação do sucesso estava perfeita: libações, comida e boa música.
segunda-feira, 2 de abril de 2012
CACHOEIRA DO ROBERTO
Reginaldo Miranda
Presidente da Academia Piauiense de Letras
Uma das mais antigas povoações do sudoeste pernambucano é a vila de Cachoeira do Roberto, cujas raízes históricas remontam ao princípio do século XIX, quando ali se estabeleceu com seus rebanhos o agropecuarista piauiense Roberto Ramos da Silva.
Cachoeira era um inculto terreno que pertencera primeiramente ao português Valério Coelho Rodrigues, estabelecido na fazenda Paulista, hoje Paulistana, no Piauí, onde faleceu em 1783. Depois, teria passado ao seu filho Estêvão Rodrigues Coelho que alguns anos depois, sem desenvolver qualquer atividade econômica no imóvel, o vendeu ao referido Roberto Ramos por cinco contos de réis. Desde então o adquirente estabeleceu-se com sua família e escravos no lugar, assentando a caiçara de seus currais e desenvolvendo laborioso trabalho de agricultura e pecuária. Porém, com seu rebanho já em número avantajado passou a enfrentar dificuldades com a escassez de água e pastagens em face das constantes estiagens que ainda hoje afligem aquela região do semi-árido nordestino. Consta que era católico fervoroso e segundo a tradição em pagamento de promessa pela mantença de seu rebanho, por volta de 1808 deu início à construção da capela de Nossa Senhora das Dores, santa de sua devoção. Também, deu início à tradicional festa do Divino Espírito Santo. Todavia, faleceu sem concluir o templo que iniciara próximo à sua residência. Este somente foi concluído por volta de 1817, por sua filha Ana Maria, juntamente com o esposo José Santana, que tomaram para si a responsabilidade pela construção, assim como pela consolidação da festa do Divino. Desde então, o padre em desobriga passou a celebrar a missa e desenvolver as atividades católicas no novo templo. E o lugar ficou conhecido por “Cachoeira do Roberto”, em homenagem ao seu proprietário e fundador.
Roberto Ramos da Silva, também conhecido por “Roberto da Cachoeira”, era natural da cidade de Oeiras, então capital do Estado do Piauí, sendo filho do português Jorge Ramos, fazendeiro e funcionário do real serviço, e de sua esposa Delfina Rodrigues Seabra, que ao lado de Frei Henrique construiu o cemitério de Cachoeira do Roberto, sendo, porém, sepultada no altar-mor da referida capela de Nossa Senhora das Dores, quando faleceu aos 105 anos de idade. Consta que Roberto da Cachoeira fez-se latifundiário construindo invejável patrimônio que, posteriormente, foi dividido entre seus 16 filhos.
A povoação pertencia originalmente ao Distrito de Santa Maria da Boa Vista, depois cidade e município de mesmo nome. Todavia, pela Lei Provincial n.º 530, de 07 de junho de 1862, que criou o município de Petrolina passou a este, retornando para o município original pela Lei n.º 601, de 13 de maio de 1864, que extinguiu este último. Por fim, retornou a Petrolina pela Lei Provincial n.º 921, de 18 de maio de 1870, que restabeleceu sua autonomia administrativa. No entanto, em face de seu desenvolvimento foi elevado à sede distrital pela Lei Provincial n.º 758, de 05 de julho de 1867, permanecendo integrando o Município de Petrolina e como tal permaneceu por largos anos.
Todavia, o progresso da povoação estacionaria a partir de 1926, como efeito da construção da Estrada de Ferro Petrolina/Teresina que, ao invés de passar pela tradicional vila de Cachoeira do Roberto, em novo traçado passou pela vizinha fazenda “Inveja”, sucessivamente de Francisco Rodrigues da Silva e Francisco Rodrigues Coelho. Então, esse novo lugar que, a partir de 1928 recebeu o nome de São João de Afrânio em homenagem ao Engenheiro Afrânio de Melo Franco, um dos responsáveis pela obra, prosperou em prejuízo de Cachoeira do Roberto. Por fim, essa decadência econômica se completaria com a edição do decreto-lei estadual n.º 235, de 09 de dezembro de 1938, que extingue o distrito de Cachoeira do Roberto, sendo seu território repartido entre os distritos de Afrânio(ex-São João de Afrânio), Rajada e Poço Dantas, hoje cidades de mesmo nome.
E permanece a povoação de Cachoeira do Roberto nessa situação decadente até a criação do novo município de Afrânio, pela lei estadual n.º 4.983, de 20 de dezembro de 1963, com instalação oficial em 31 de maio do ano seguinte. Então, nesse interregno, pela lei municipal n.º 28 de 23 de dezembro de 1963, é restabelecido o distrito de Cachoeira do Roberto, agora com novos limites territoriais e pertencente ao novo município, em cuja situação permanece até a atualidade. Segundo o jovem historiador Ricardo de Araújo Rodrigues – que exerce o magistério em Afrânio –, o distrito sobrevive da agricultura de subsistência, pecuária extensiva e comércio de gêneros alimentícios. Atualmente possui 90 domicílios e 300 habitantes(IBGE – Censo, 2011) e possui um cartório de registro civil das pessoas naturais.
Segundo informações que temos, a festa do Divino Espírito Santo é muito tradicional em Cachoeira do Roberto, reunindo grande número de fiéis no novenário que encerra-se no dia de “Pentencostes”, com festas e quermesses.
No que se refere aos 16 filhos de Roberto da Cachoeira, sei apenas que um de nome Roberto Ramos da Silva Filho, estabeleceu-se no vizinho território de Casa Nova(BA), onde faleceu em avançada idade, no ano de 1934, deixando descendência. Ao que sei a referida filha Ana Maria Ramos foi casada com o fazendeiro José Santana, parece que descendente do português Valério Coelho Rodrigues, gerando entre outros filhos: Francisco Martins Santana, que foi casado com Domingas Santana e Bertolina Maria de Jesus, que foi casada com José Marreiros. O primeiro casal gerou entre outros filhos, meu bisavô Teodoro Francisco Martins, que foi casado com sua prima Adriana Maria de Jesus(minha bisavó), filha do segundo casal e que depois de viúva mudou-se para São João do Piauí, onde faleceu em 19 de fevereiro de 1959, aos 92 anos de idade. Esses últimos são os pais de minha avó paterna, Antonia Maria da Conceição, nascida na Cachoeira do Roberto em 1907, onde viveu sua infância e juventude, casando-se na mencionada capela de Nossa Senhora das Dores, em 07 de julho de 1925, com meu avô paterno Joaquim da Silva Brasil, natural do arraial de Santa Rita, município de Casa Nova(BA), depois de alguns anos passando ao sul do Piauí, onde faleceram.
Com essas notas coligidas entre informações orais e fontes secundárias presto uma homenagem à terra de minha avó paterna, esperando no futuro poder confrontá-las, corrigi-las e complementá-las com informações mais seguras advindas de fontes documentais.
(Artigo publicado originalmente no jornal Meio Norte, de Teresina – PI, edições de 23 e 30 de março de 2012).
domingo, 1 de abril de 2012
Vicente de Paula Araújo Silva “Potência”
A Ilha Grande de Santa Isabel, após a construção do Canal de São José foi dividida, surgindo na parte ocidental desse leito, a partir do Rio Parnaíba até o lugar Tucuns (Porto da Mangueira), a Ilha do Tabuleiro, permanecendo a parte oriental com a denominação tradicional. Hoje, a atual Ilha Grande de Santa Isabel, está dividida nos territórios dos municípios de Parnaíba e Ilha Grande do Piauí.
A existência do município de Ilha Grande do Piauí, confunde-se com a história da Parnaíba. É que a mesma, tendo sido desmembrada de Parnaíba em 1994, historicamente teve em João Gomes do Rego Barros e sua esposa Maria do Monte Serrate Castelo Branco, os seus primeiros exploradores legais, pois o Capitão-Mor na Villa Nova da Parnaíba,fundada pelo mesmo em 1711, foi distinguido pelo Governador de Pernambuco em 1725, com a posse da Ilha Grande no Delta do Parnaíba.
O seu descendente, Ten.Cel. João Leite Castello Branco, a vendeu a Sebastião da Silva Lopes, cujos herdeiros a retalharam em
19 possessões. Em 1827, estava em poder dos herdeiros do Cel. Manoel Antonio da Silva Henriques; dos Dias da Silva : Cel. Simplício Dias da Silva, seu meio-irmão Cap. Antonino Ferreira de Araújo e Silva , os herdeiros de seu irmão Raimundo Dias da Silva e sua falecida esposa Eulália Justina Dórea da Silva) ; O Cap. Bernardo Antônio Saraiva e seus filhos, herdeiros da terça de seu avô o Cap. Manoel Antonio Saraiva; os herdeiros do falecido Cândido Silva; o Doutor Ouvidor Antonio Saraiva; o Alferes Francisco Domingos Fernandes; os herdeiros do Cap. Manoel Joaquim de Sousa; e o Cap. José Francisco de Miranda Osório;
Hoje a maior área de posse é dos descendentes do Capitão Claro Ferreira de Carvalho e Silva, sobrinho e herdeiro da viúva de Isidoro Dias da Silva, neto de Domingos Dias da Silva, embora, algumas glebas de terras tenham sido vendidas a europeus, voltados à implantação do ecoturismo, fato não consumado até o momento.
Assim, é importante ilustrar quem foram os primeiros donatários legais da Ilha Grande de Santa Isabel :
JOÃO GOMES DO REGO BARROS
Casou-se em primeira núpcia com Anna Castello Branco Mesquita, filha da primeira esposa do português Dom Francisco da Cunha Castello Branco – irmão do Visconde de Castello Branco e 1º conde de Pombeiro - introdutor da família Castelo Branco no nordeste brasileiro.. Foi preposto de Pedro Barbosa Leal , na região deltense do Rio Parnaíba, até quando, em 1725, o governador de Pernambuco concedeu sesmaria em seu favor, entre as barras dos rios Igaraçu e Parnaíba.
MARIA DO MONTE SERRATHE CASTELLO BRANCO
Casou-se com seu cunhado João Gomes do Rego Barros, viúvo de sua irmã Anna Castello Branco Mesquita. O seu esposo, como preposto do rico empreendedor baiano, Pedro Barbosa Leal, solicitou e obteve do Bispado do Maranhão, em 1711, a autorização para que fosse eregida uma igreja para veneração de Nossa Senhora do Monte Serrathe na Villa Nova da Parnahiba ( hoje Parnaíba), quando a dita vila, passou a ser chamada de Villa de Nossa Senhora de Monsarrate da Parnahiba.
PHB. Março/2012
sábado, 31 de março de 2012
HOMENAGEM AO “SEU COSTA”
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| Foto: Campo Maior em Foco |
JOSÉ FRANCISCO MARQUES
Professor e musicista
Não, definitivamente não morreu naquela tarde fatídica de quarta-feira (21/03/2012) uma pessoa comum. Morreu um amigo que traduzia em suas poucas palavras a generosidade em ações eficazes de entrega pelo zelo com que as praticava. Morreu um pai de família que transpirava preocupação ao oferecer aos seus o conforto necessário. Morreu enfim um trabalhador cuja entrega pelo que praticava transcendia as raias da responsabilidade.
A sua presença sempre habitará os longos corredores de nossa escola. Os seus passos firmes rumo à execução de suas tarefas diárias serão sempre ouvidos por aqueles que o acompanhavam. A sua voz ressoará em cada canto daquele prédio que, órfão de seu zelador maior, apenas contemplará o enorme vazio por ele deixado. Ele era conhecedor de cada tijolo que formava aquela construção, conhecia como ninguém os detalhes que cercavam aquela engrenagem da qual ele mesmo era a peça principal. Relacionava-se com a direção do colégio com uma sintonia impressionante. Tinha à sua maneira, o jeito e a forma solícita de tratar bem a todos os professores e demais funcionários. Possuía por fim, a difícil fórmula de agradar praticamente a todo o alunado.
Seu Costa nos deixa um legado de virtudes fabulosas: Um homem cujo significado literal de seu nome se confunde com a palavra: trabalho. A responsabilidade, a disponibilidade, a cordialidade e a sua extrema humildade o fizeram um trabalhador diferenciado de seus pares.
Era da categoria de pessoas que se sentem bem em servir e não ser servida. A cada tarefa executada, havia no seu rosto o sentimento de uma missão cumprida. Essa virtude dentre outras, era a sua marca patente, talvez porque nos nossos dias haja a escassez disso, se faça realçar tanto esse atributo.
As crianças, termômetros infalíveis de sinceridade, foram provas inequívocas do grande carinho que a ele era dispensado. Elas choraram como só as crianças sabem a sua morte com a alma de um adulto como a pressentirem a perda irreparável de um amigo insubstituível.
Agora que você partiu para outro plano, nos resta o consolo de suas ações constantemente benéficas e produtivas. Você atendeu ao chamado do Supremo e novas delegações na esfera superior lhes serão impostas.
Ah, se tivéssemos o dom da premonição, o seu voo derradeiro seria por nós aparado, teríamos sido o seu macio tapete a amortecer a sua queda fatal.
Não... Não morreu uma pessoa comum...
sexta-feira, 30 de março de 2012
O GINÁSIO MUNICIPAL DE OEIRAS - GMO
Antonio Reinaldo Soares Filho
O Ginásio Municipal de Oeiras foi a entidade pública de ensino mais importante de Oeiras e de todos os municípios circunvizinhos, entre os anos 50 até o final dos anos 60. As gerações de jovens estudantes oeirenses, desse período, se submeteram ao seu exame de admissão. No exame, uma espécie de vestibular, só era aprovado quem realmente estava preparado. Ele credenciava o jovem a ingressar na sua primeira série.
A história do GMO principiou do anseio do povo de Oeiras em ter um curso ginasial. Os intelectuais abraçaram a causa, as famílias aderiram e participavam quando chamadas, o que exigiu muita luta e sacrifícios. Foi o operoso prefeito Orlando Barbosa de Carvalho quem adquiriu para a Prefeitura Municipal, em 1945, um grande terreno. Foi murado e ficou reservado pelo lado norte uma vasta área que alcançava a Avenida José Tapety. Na sua frente foi deixado um agradável espaço aberto para uma ampla praça pública. E, iniciou a construção majestosa do prédio para abrigar a instalação de um curso ginasial. A obra foi ambiciosa. O Ginásio Municipal de Oeiras – GMO foi inaugurado no ano de 1952.
Nos seus primeiros anos, o curso ginasial funcionou com os rapazes frequentando as aulas em local diferente do das moças. Tempos depois, todos os seus alunos foram reunidos e o prédio passou a sediar as turmas masculinas e femininas.
No prédio do GMO havia duas entradas. A principal só permitida para acesso das alunas e uma porta lateral oeste, ao lado do salão nobre, que dava passagem aos rapazes. Os professores ingressavam por onde desejassem. A frente era cercada por uma mureta onde todos ficavam ao seu redor, aguardando que os portões se abrissem.
O primeiro dia de aula de cada ano era temido por todos os calouros. O receio do trote, de como seriam recebidos pelos veteranos. Os alunos se juntavam no balaústre, veteranos para um lado e os novatos timidamente na outra posição, à espera da abertura dos portões. Nos seus primeiros tempos o trote foi praticado, mas, com o passar dos anos, entrou em desuso. A aula de abertura do ano letivo era no salão nobre, com a presença de toda a comunidade escolar. Espaço magnífico onde se faziam as comemorações e festas estudantis. Todos se encantavam com a beleza e suntuosidade do recinto. O Diretor apresentava aos alunos os seus professores, fazia um discurso de boas-vindas, agradecia a Deus em forma de oração e éramos encaminhados para conhecer as respectivas salas de aula.
Os educandos usavam duas fardas. Uma de gala, para as apresentações nas solenidades sociais e religiosas, e a outra para ser usada no dia a dia das aulas. A de gala era formada por calça/saia azul-marinho e blusa branca de mangas compridas com viés azul, complementada por uma boina para as moças e gravata escura para os rapazes. E, a comum, para os homens, era constituída de sapatos pretos, meias pretas, calça e blusa de cor cáqui de mangas compridas, com viés vermelho. A graduação da série era em forma de estrelas em cima dos ombros – primeira série, uma estrela em cada ombro e assim por diante - o símbolo GMO nos braços e gravata vermelha. Para as mulheres, sapato preto, meias brancas, saia vermelha e blusa branca, com viés vermelho e os mesmos complementos externos.
O primeiro diretor foi o padre Balduíno Barbosa de Deus. Muito jovem, preparado, dinâmico, orador sacro brilhante, latinista, culto e inteligente. Acabava de chegar de Roma,onde concluíra o doutorado na formação católica romana. Naquela época, um diploma universitário ou da Escola Normal de Teresina eram sinônimos de respeito, de domínio de sua respectiva profissão e plenitude da língua pátria. Reuniram-se os detentores do saber, residentes da cidade, para serem os primeiros professores do GMO.
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| Foto do GMO nos seus primeiros anos |
O primeiro Exame de Admissão ao ginásio, na primeira Capital, foi realizado no final do ano de 1951. No ano seguinte, teve início o curso ginasial em Oeiras. Os rapazes assistiam às aulas no majestoso e imponente prédio localizado na Praça Dom Expedito Lopes, antigamente chamada Praça do Ginásio. As moças no sobrado dos Governadores da Província, naquele período ocupado pelas Irmãs de Santa Teresinha, onde mantinham um colégio.
Em dezembro de 1955, a cidade viveu a festa de solenidade de formatura da primeira turma de concludentes do Ginásio Municipal de Oeiras.
A turma masculina teve inicio com 22 alunos aprovados, mas apenas 12 colaram grau nesse ano. Os homens frequentavam suas aulas no turno da tarde no próprio prédio do GMO. As mulheres, pela manhã, ministradas no Colégio das Irmãs, sediado no sobrado do Palácio dos Governadores da Província. A masculina foi constituída por: Antônio Ubiratan Reis de Carvalho, Benedito Barros (B. Barros), Benjamim Madeira Reis, Geraldo de Carvalho Martins, João Borges Caminha, Joel Campos Filho, José Amorim, José Nauto Macedo Reis, Juarez Martins dos Santos, Pedro Barroso Neto, Plácido José Ferreira Neto e Robert Rêgo Amorim. No salão nobre daquele prédio esteve durante muitos anos uma maquete, onde, em cada janela do seu frontispício, estava preenchida pela fotografia dos seus primeiros concludentes.
A turma feminina foi formada por: Maria do Socorro Praça, Irene Clementino Santos, Maria Soledade, Teresinha Clementino do Rêgo Brandão, Maria das Dores Campos Ferreira, Camélia Nunes Queirós, Maria da Conceição Carvalho, Luzia Áurea Campos Ferreira, Maria das Dores Ferreira Freitas, Maria do Socorro Freitas Martins, Rita de Cássia Campos, Maria do Socorro Rêgo, Irmã Jacinta, Teresinha de Jesus Carvalho, Maria de Lourdes Carvalho, Madre Barreto (Francisca Barreto), Maria da Conceição Oliveira, Valdália Reis Freitas, Célia Maria Barreto, Isabel de Freitas Lima, Maria das Dores Pereira (Maria Silva) e Irmã Juliana.
Os primeiros mestres: Padre Balduíno Barbosa de Deus - diretor e professor de história e língua francesa. Dom Francisco Expedito Lopes, substituído pelo Padre, depois Bispo Dom Joaquim Rufino do Rêgo – geografia. Gerardo Helcias – matemática. Raimundo Barbosa de Deus (Mundiquinho) – latim e português. Dr. José Expedito Rêgo – Ciências. Dr. José Coelho Reis – inglês, para os rapazes e a irmã Juliana, para a turma feminina. Padre (depois Monsenhor) Leopoldo Portela Barbosa – religião. Irmã Cristina, professora de educação doméstica. Amália Nogueira Campos – trabalhos manuais. Nadir Martins Tapety – artes e Zuleica de Freitas Tapety – desenho.
As
aulas de educação física eram realizadas em locais diferentes:
para as moças no pátio interno do GMO, às cinco horas da manhã,
ministradas pela magnânima professora Aldenora de Moura Nunes. Para
a rapaziada, na sede do Tiro de Guerra 199, pelo seu comandante e
instrutor, o sargento Edelberto de Sousa Costa.
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| Primeiros professores |
Assim, o GMO passou a receber alunos dos municípios de Ipiranga, Simplício Mendes, Santa Cruz do Piauí, Itainópolis e até de Jaicós. Para acolher essa procura, durante um tempo, foi criado um internato. Como o prédio era muito grande eles passaram a residir no próprio local. Padre Balduíno se doou à educação dos oeirenses.
Os ginasianos constituíam a mocidade estudiosa do lugar, se preparando para assumir responsabilidades, posições e ajudar a impulsionar o progresso desta nação. Ao tempo era a alegria da cidade. Enquanto estudantes aprontaram ações, divertimentos esperados de toda juventude saudável. Uma delas aconteceu em uma noite escura, a cidade silenciosa a dormir, quando os estudantes Sigmund Lewinter, Luiz Ubiraci de Carvalho e Mário Portela da Silva, com um tubo de linha zero, após ter burlado a vigilância do sacristão, amarraram-na ao sino da igreja e pela meia-noite deram ao badalo. A população despertou assustada e acorreu ao patamar da Catedral. Depois foi sabido ser uma brincadeira dos alunos do ginásio.
Certa feita, em maio de 1960, após o sargento Miguel Carvalho dispensar a aula de educação física, uma parte dos alunos combinou subir o Morro do Leme, aventura para poucas pessoas. A escalada era difícil e um tanto perigosa, pois exigia coragem. Na descida, resolveram tomar banho no poço dos fundos do Hospital, abandonado. Decidiram que a ordem de primazia do banho era pela chegada ao poço. Quem primeiro o alcançou foi Moisés Ângelo de Moura Reis, seguido por Norbelino Lira de Carvalho. Pedro Mendes se encarregou de girar a alavanca mecânica da bomba para que Moisés tomasse banho. Nessa hora, Norbelino se descuida e um dedo de sua mão entrou na engrenagem da roda dentada do engenho, que só parou quando já havia esmagado sua falange. Judas Tadeu de Andrade Maia, Abel Alves Avelino e Helvídio Moreira Reis chegaram a seguir, presenciaram a tragédia, e o conduziram imediatamente ao Dr. Expedito Rêgo.
A vontade de ensinar de seus primeiros professores e o campo fértil receptivo, encontrado nos alunos matriculados, logo impuseram respeito por toda região. Os que concluíam o curso ginasial em Oeiras sempre logravam êxitos logo nos exames e concursos a que se submetiam. No ano de 1964, o Banco do Nordeste do Brasil realizou um concurso para acesso àquela instituição. Foram inscritos cento e trinta pessoas, tendo sido aprovados apenas treze deles; desses exatos dez por cento, doze foram oriundos do GMO. O primeiro lugar coube a Benedito do Carmo Tapety. Os outros aprovados foram: Francisco Nunes Raposo, Moisés Ângelo de Moura Reis, Joaquim Alves Ferreira, Getúlio Borges Caminha, Ariosto de Carvalho Rêgo, Rodolfo Pereira Filho, Ângelo Leal, uma sobrinha de Sinhá Torres,................... Pinheiro... O único que não pertencia ao ginásio foi Devaldino Fernandes Lima, natural de Floriano, Piauí.
Prosseguindo com os acontecimentos, o GMO recebe o seu segundo diretor, o padre José Pereira de Maria, um florianense, abnegado educador, intelectual dedicado. Embalado pelas respostas que recebia dos seus discípulos, o padrão de ensino se manteve o mesmo. Padre Pereira circulava pela cidade, com sua lambreta – influência romana. O clero, então, o transferiu para Goiânia e recebemos o padre David Ângelo Leal, conterrâneo de seu antecessor, como o novo diretor. Sacerdote íntegro, moralista, latinista brilhante, exegeta, professor da língua pátria e de francês, sempre vestido em sua batina preta. Enquanto dirigiu o GMO, o fez da melhor forma e com dedicação integral, mantendo o mesmo padrão de qualidade do ensino. O povo de Oeiras, muito lhe deve.
Os nossos professores, no início da década de sessenta, foram: Gerardo Helcias, de matemática. Possidônio Queirós, de português, no pleno domínio – intelectual de cultura eclética, jurista, historiador, músico, compositor, esteio do saber linguístico de muitos, extravasava os limites do saber. Suas aulas eram, sobretudo, lições de vida. Padre David, de francês e também grande latinista. Padre Leopoldo Portela Barbosa ensinava religião e latim com suas declinações, a cada semana uma declinação, o que nos fez compreender melhor a nossa língua. Dr. Raimundo da Costa Machado, de história, com sua saudação ao entrar na sala de aula: Glória a Deus nas alturas, ao que nós alunos respondíamos: Paz na terra aos homens de boa vontade. Dona Eva Feitosa, com o seu profundo conhecimento ministrava geografia ao mesmo tempo em que orientava suas descrições, em vernáculo castiço. Dona Waldália Reis Freitas, de Canto Orfeônico. Amália do Espírito Santo Nogueira Campos, de artes manuais. Ana Amélia de Mendes Freitas Barroso de inglês. Celina Vieira de Sousa Martins ensinava a língua inglesa, para a segunda série. A secretária do GMO naqueles dias era a boníssima Belisa Portela Barbosa, sempre com uma palavra de carinho para com todos nós.
Em latim, o professor Leopoldo nos ensinou a rezar a Ave Maria. Todas as vezes que ouço esta prece cantada, procuro interromper o que estou a fazer, para dar vez à emoção, à devoção e às lembranças das aulas na primeira série do ginásio.
Em 1961, mais uma geração de jovens ingressava no ginásio e passava a vestir a farda daquela instituição tão bem conceituada pela sociedade oeirense. A primeira série foi dividida em duas, uma masculina e outra feminina. A turma masculina foi composta por 27 alunos.
Em 2009, estas foram as últimas notícias deles: Abraão Lincol do Carmo Batista - bancário aposentado do Banco do Nordeste do Brasil BNB, funcionário do Tribunal Regional do Trabalho TRT, compositor, músico, advogado. Afrânio Vieira de Sá, o bedel - comerciante em Oeiras. Airton de Freitas Sousa - funcionário aposentado da Secretaria da Fazenda do Piauí. Alcir Oliveira Nunes, Aldir Oliveira Nunes (Aldir gêmeo de Alcir), Ângelo Leal - bancário aposentado do BNB. Antônio de Alencar Freitas Neto (Freitinhas) - engenheiro civil, funcionário da COHAB-Piauí. Antônio Reinaldo Soares Filho - geólogo do Serviço Geológico do Brasil - CPRM. Aroldo Alves, funcionário público aposentado. Francisco das Chagas Nunes Ferraz - bancário aposentado do Banco do Estado do Piauí-BEP, empresário. Francisco Tavira dos Santos – funcionário da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafo, graduado em Administração Postal e em Economia. Getúlio Mendes de Mesquita - funcionário público aposentado, em São Paulo. João Damasceno de Oliveira Leite - proprietário, vereador de Oeiras em várias legislaturas. José Alves Teixeira - comerciante em Oeiras. José Barroso Maia Filho - funcionário aposentado da CHESF, graduado em história, professor. José Inácio Rufino, bancário aposentado do Banco do Brasil. José Ribamar de Morais Rêgo - bancário aposentado do BNB. Juscelino Luz Nunes - bancário aposentado do BEP, funcionário do Tribunal de Contas do PI, advogado. Manoel Moreira Amorim Filho- corretor, em São Paulo. Manoel Inácio Dantas - bancário aposentado do BB. Nicolau Melo - residente em São Paulo. Pedro Caramuru – falecido, bancário aposentado do BNB. Raimundo Nonato do Carmo Tapety, bancário aposentado do BNB. Raimundo Nonato Nunes Ferraz, arquiteto, funcionário da SEPLAN-Piauí. Romão da Cunha Nunes, médico veterinário, aposentado pelo CNPq., professor universitário da UFGO. Sebastião Cronemberger Sobrinho, médico, doutor-professor da Escola de Medicina, em Belo Horizonte, Minas Gerais. Wartene Portela Lopes, médico renomado, em Goiás.
No segundo dia de aula era realizada uma eleição para escolher o bedel e o seu vice. Ao detentor do cargo cabia fazer o controle da turma quando da ausência de um professor. Anotava-se o nome do suposto infrator e o levava à diretoria para ser punido. Aquela pequena autoridade era representada por um veterano que liderava o ato.
Naquele primeiro semestre, certo dia antes das aulas se iniciarem, José Maia Filho se desentendeu com Pedro Caramuru e partiram para uma refrega entre as carteiras geminadas. A algazarra foi muito grande e logo o padre David chegou apressado. Ao ver aquela balbúrdia ordenou peremptoriamente que todos se retirassem da sala. Estavam suspensos das aulas, por aquele dia. E mais, que aquela ocorrência iria constar nas cadernetas de registro diário. Portanto, a caderneta escolar estreava com a anotação de uma suspensão e tinha que ter a assinatura do pai, como ciente. A educação era severa.
Noutra ocasião, Antônio Camarço Neto, em meio a uma aula de francês, perguntou ao padre David como seria a pronuncia de seu nome em francês, ao que lhe foi dito: “Antoine Petit Fils”, e assim ele passou a ser identificado pela turma.
No dia a dia do período escolar, entre as duas primeiras aulas e as duas últimas, havia um horário de recreio. Os alunos ficavam no pátio interno a conversar, por vezes ao redor das inúmeras colunas que compunham as coberturas dos pequenos alpendres internos. Quando os professores sabiam que algum deles estava namorando uma das garotas, os dois não podiam participar de uma mesma roda de conversa. Era complicado controlar um bando de adolescentes, mas o que se fazia à vontade era flertar.
Um fato marcante naqueles dias foi à inauguração de um bebedouro, com várias torneiras. Ficava ao lado do salão de festas, próximo da entrada dos homens, na parede da cantina, que era administrada por dona Elisa Caetano. Muitos alunos foram suspensos das aulas por molhar os colegas.
Durante o mês de maio, mês de Maria, o Padre David celebrava todas as noites, na Catedral de Nossa Senhora da Vitória, a novena a Mãe de Deus. Ritual romano solene, com pompas e ladainhas à Maria. O turíbulo incensava o altar mor, irradiando a fragrância do incenso por toda a nave. A cada semana, uma série do Ginásio ficava responsável pela freqüência, arranjos e organização do ato litúrgico. Os alunos da série responsável pela semana assistiam às novenas trajados com a farda de gala. Após o término das solenidades religiosas diárias, todos ficavam por algum tempo conversando no patamar. No encerramento da festa, o ginásio completo participava do evento. As freiras do Colégio das Irmãs promoviam uma semana de quermesses e convidavam os alunos do ginásio. Era muito animado. Havia apresentações de cantores, declamações, peças teatrais religiosas e venda de comidas. Durante os festejos, os portões do Colégio das Freiras se abriam, a partir das dezenove horas, encerrando as vinte e três. O Colégio participava das tradicionais procissões da cidade, entre elas, a de Corpus Christi que passava pelas três igrejas católicas.
Duas outras festas eram marcantes no calendário escolar do GMO. Em junho, as festas de São João com a dança das quadrilhas, liderada pelas meninas, que faziam as composições dos pares de rapazes e moças. Com um mês de antecedência, uma vez por semana, eram realizados os ensaios no pátio interno, entre dezenove e vinte e duas horas. O diretor acompanhava e coordenava os encontros. Nas inesquecíveis noites de São João se dançava a quadrilha, onde eram vendidos aluás, bolos de milho, cocadas, manuês e sucos de frutas ao som das músicas juninas. Um sanfoneiro, com triângulo e zabumba, animava a festa. Pelas ruas da cidade pontilhavam fogueiras de lenhas na escuridão.
Outro acontecimento era a comemoração da independência no dia 7 de setembro. Com algumas semanas de antecedência eram realizados os treinos preparatórios para aparada. Por duas a três vezes na semana, entre as dezesseis e dezoito horas, todos os alunos saíam marchando pelas ruas do centro histórico. O toque dos tambores, ditando o passo da marcha, era comandado por Freitinhas no domínio da caixa. O desfile oficial, no dia da independência, era aberto pelos soldados do Tiro de Guerra, ao som da corneta e rufando seus tambores, seguidos pelos pelotões dos ginasianos, acompanhados pelos estudantes dos grupos Armando Burlamaqui e Costa Alvarenga. À frente dos ginasianos desfilava uma baliza, escolhida entre as alunas, tendo sido representada por Gleice Martins, Regina Sá e Isone Cronemberger – o Péricles Martins Portela se encantava e se apaixonava por todas elas.
Em 1962, o Padre David comprou uma fanfarra com muitos instrumentos e todos queriam fazer parte da banda. Raimundo Nunes Queirós, oficial músico do Exército Brasileiro, servindo no Rio de Janeiro, que se encontrava na cidade visitando seus pais, Possidônio Queirós e Otacília Carneiro, organizou e treinou a banda. Nesse mesmo ano, três jeeps participaram como carros alegóricos no desfile. No ano seguinte, coloquei o Jeep azul de meu pai como um deles, tendo eu como motorista. À noite que antecedia o desfile já era de festa, com as moças animadas colocando os adereços em cada Jeep que ia desfilar.
Por algum tempo, os aniversariantes do mês eram homenageados em cada sala de aula. Padre David pronunciava uma saudação, sequenciada por declamações de sonetos, poesias e recitais. Antônio de Sá Camarço Neto tinha uma voz boa e era muito aplaudido, ele sempre era requisitado por todos para cantar os sucessos do momento. Muitos gostavam das músicas de Silvinho e a preferida era “Amor Perdido”. O Padre, a tudo espreitava e preferia Maria das Graças Amorim cantando a Ave Maria. Ela soltava a voz: “Ave Maria, nos seus andores. Rogai por nós, os namorados, abençoai! Nestas terras morenas, seus rios, seus campos e as noites serenas. Abençoai as cascatas, e as borboletas que encantam as matas. Ave Maria, cremos em vós. Virgem Maria rogai por nós. Ouvi as preces, murmúrios de luz, que aos céus ascendem e o vento conduz, conduz a vós, Virgem Maria. Rogai por nós”. Pura beleza.
Com efeito, aquele cotidiano deixava todos maravilhados, principalmente quando Antonio Neto e Maria das Graças cantavam em dueto. Alegria e juventude caminham juntas. Tudo isso fazia parte da vida saudável dos jovens adolescentes de uma cidadezinha de interior, cheia de magias. No entanto, quem transgredisse a disciplina estabelecida era punido com uma suspensão das aulas. Três suspensões, durante o ano, conferiam ao aluno a expulsão do ginásio.
Naquele núcleo de cultura não havia desperdício. Um mesmo livro era repassado e usado repetidamente pelos novos alunos daquela série. Suas mensalidades não agrediam os orçamentos financeiros familiares. Foram beneficiários de bolsa escolar em 1969: Antônio Borges Leal, Francisco de Assis Alves Ferreira (Tatico), Itamar Lima Ferreira, Isac de Sousa Mendes, Maria do Rosário Alves, Paulo Jorge Campos e Reis, Alcides de Alencar Freitas Júnior, Arlete Maria de Freitas Sá, Celso Mendes da Costa Filho, José Epifânio Batista Filho, Raimunda Maria Cassiano de Sene, Rosa Ester Madeira dos Santos*. O mérito prevalecia. Muitas gerações de jovens passaram por aquele templo de educação. Cada uma com sua história, saudosas lembranças.
O GMO por não ser um empreendimento comercial, tampouco ter o lucro como meta, sucumbiu. O tão conceituado centro de excelência em educação, que tanto beneficiou muitas gerações de toda aquela região, fechou suas portas no final do ano de 1969. Ficou a saudade do ensino eficiente e barato.
Eterna homenagem àqueles abnegados auxiliares de ensino, serventes, diretores e professores que, mesmo sendo tão pouco remunerados, dedicavam-se com amor ao ofício de ensinar.
Por favor, não deformem o prédio do antigo GMO, não ocupem os espaços das suas laterais, não alterem a sua estrutura interna, respeitem sua arquitetura. Não cometam esta barbaridade, contenham-se.
quinta-feira, 29 de março de 2012
A ZONA PLANETÁRIA
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| Antigos cabarés da Zona Planetária - Arq. Blog Bitorocara |
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| Escombros da Zona Planetária |
29 de março Diário Incontínuo
A ZONA PLANETÁRIA
Elmar Carvalho
Elmar Carvalho
Após a palestra do arquiteto Olavo Pereira da Silva Filho, quando o presidente da APL, Reginaldo Miranda, me passou a palavra, sugeri ao João Alves Filho, presidente da ACALE, que a conferência em defesa da preservação dos casarões fosse apresentada em Campo Maior; a aceitação foi efusiva e imediata. A seguir, expliquei que muitos anos atrás, mais precisamente no dia 23.05.1997, na sede do IATE Clube Laguna, situado à beira do formoso Açude Grande, em meu discurso de posse na Academia do Vale do Longá, eu denunciara a destruição da Fazenda Tombador. Na oportunidade, recitei estes versos do meu poema que lhe leva o nome: “Quando literalmente tombaram / a Fazenda Tombador, / nenhuma voz se levantou, / nem mesmo a voz de alguém, / que clamasse no deserto, clamou. / E a Fazenda Tombador / literalmente tombou.” Foi na sede dessa fazenda que se refugiou Fidié, após o término da Batalha do Jenipapo. Por conseguinte, seu valor histórico era inestimável.
Falei que os velhos prédios iam desaparecendo aos poucos, como se fora em macabro jogo de dama, em que as “pedras” iam sendo “comidas” por voraz jogador. Importantes edificações, de valor arquitetônico e/ou histórico, já foram derrubadas, ou pela insensatez, ou pela ganância, ou mesmo pela ignorância. Com isso, a paisagem urbana que marcou a nossa infância e juventude vai sendo apagada. Dessa forma a nossa memória vai sendo esgotada, as nossas referências vão sendo destruídas. A paisagem arquitetônica que servia de pano de fundo a várias quadras de nossa vida deixam de existir, fazendo-nos mergulhar na nostalgia pelas coisas que ainda nos poderiam encantar com a sua velha presença. Por causa dessas demolições, o velho bardo bradou: “Vão destruir esta casa / mas meu quarto vai ficar / de pé, suspenso no ar”. No ar tênue da memória ou apenas em desbotada fotografia, como assinalaram os versos de outro poeta.
No mesmo discurso em que clamei contra a destruição da Fazenda Tombador, adverti que, se providências não fossem adotadas, a Zona Planetária, de tão poético e sugestivo nome, também seria transformada em ruína. Na minha fala de sábado passado, disse que, infelizmente, fora um bom profeta, porquanto os casarões dessa antiga zona meretrícia, sem nenhum cuidado preservacionista, expostos ao rigoroso inverno de alguns anos atrás, terminaram por desmoronar, deles só restando escombros, e a memória de um tempo em que os prósperos coronéis da carnaúba e da pecuária ali imperavam, rodeados de belas meretrizes, algumas “importadas” de outros estados.
Esse belo nome foi posto pelo major Honorário Bona Neto, que além de comerciante era um músico talentoso, compositor de notáveis valsas. O município de Campo Maior, a exemplo do que foi feito em relação ao musicista e intelectual Possidônio Queiroz, de Oeiras, deveria patrocinar a publicação de álbum com a partitura de suas composições e o lançamento de um CD, abrigando suas principais melodias, em vez de ficar bancando apenas apresentações de bandas de outros municípios e estados, com suas músicas comerciais, apelativas e de evidente mau-gosto.
Com o passar dos anos, o nome Zona Planetária foi caindo no esquecimento. O local passou a ser chamado simplesmente de zona da rua Santo Antônio, com os prostíbulos já em franca decadência. Outrora, cada um dos cabarés ostentava na fachada o nome e a pintura de cada um dos planetas. Lá estavam os anéis de Saturno, a cor azul de Vênus, o vermelho sanguíneo de Marte... Ao cair da tarde, as mulheres assomavam às janelas, situadas acima das altas calçadas. De lá, como de um mirante, espreitavam os passantes, que eram ao mesmo tempo caça e caçadores. À noite, o amor de aluguel acontecia entre espumas de cerveja, perfumes de gardênia e o luscofusco difuso/confuso das luzes negras, ao som dos boleros das velhas radiolas, que soltavam as vozes de Roberto Muller e Waldick Soriano, que dominavam soberanos nos lupanares de então.
Ainda jovem, quando assumi meu cargo de fiscal da extinta SUNAB – Delegacia do Piauí, o chefe da Seção de Fiscalização, o senhor Walter e Silva Mendes, que em sua infância fora amigo de meu pai, instigou-me a escrever um poema sobre a Zona Planetária. Ora, eu já sequer me lembrava de que aquele meretrício tivera esse nome. Desde há muito, ele passara a ser chamado apenas de zona da Santo Antônio, como numa tentativa de unir-se o sagrado ao profano, o divino e o humano. Durante muitos meses conjecturei sobre como poderia elaborar esse poema. Cheguei a achar uma missão quase impossível. Um belo dia, ocorreu-me que os planetas foram denominados com o nome de deuses da mitologia grego-romana. Esses deuses, apesar de poderosos e imortais, tinham as mesmas paixões, vícios e desejos do ser humano. Esse foi o estalo que deu origem ao poema.
A partir daí comecei a pesquisar a mitologia e a astronomia planetária. Anotei as principais virtudes e defeitos dos deuses. Os principais fatos que lhe eram atribuídos. Procurei registrar as principais caraterísticas dos planetas, como órbitas, cor, densidade, satélites e os fenômenos de seu giro ao redor do Sol e de sua rotação sobre o próprio eixo. Resolvi, então, escrever um épico moderno, em que mesclei a astronomia planetária, a vida e as paixões dos deuses do Olimpo e a sociologia dos lupanares. Fiz um poema de abertura e mais nove outras unidades, em que pus as peculiaridades de cada um desses mitos e planetas. Certamente, o que me faltou em talento, sobrou em audácia.
O SISTEMA PLANETÁRIO
Elmar Carvalho
Anfion percorre os sulcos
dos discos das vitrolas e as
emoções são alinhadas pedra a pedra.
Apolo é qualquer moço feio
que nos vitrais Narciso se julga.
De repente, Átropos corta o fio da vida
que era tecido pelas Parcas lentamente
pelos golpes de facas, adagas ou estiletes
nas mãos de um velho Pã embriagado.
Baco e suas bacantes celebram suas
lúbricas bacanais e bebem vinho
e sangue em frágeis taças de cristais.
Nas calçadas altas da Zona Planetária
meretrizes expõem suas carnes
em varais de açougues imaginários
aos transeuntes ou faunos eventuais,
nas horas em que Hélio esboça a Aurora.
Ali, os desejos são Ícaros leves que sobem
nas asas de cera do pensamento, quando
Nyx, filha do Caos, com seu negromanto
lantejoulado de estrelas e sua
coroa de dormideiras, a noite,
o sonho e a orgia instaura.
Cupido passa com seu
séqüito de sátiros e de ninfas
pelas calçadas e salões da Zona Planetária
e Eros proclama seu reinado
de orgia, prazeres, orgasmos e pecados.
quarta-feira, 28 de março de 2012
OS VELHOS CASARÕES DE CAMPO MAIOR
28 de março Diário Incontínuo
OS VELHOS CASARÕES DE CAMPO MAIOR
Elmar Carvalho
Aconteceu no sábado a palestra do arquiteto Olavo Pereira da Silva Filho sobre a preservação dos vetustos solares campomaiorenses. Além de João Alves Filho, presidente da Academia Campomaiorense de Artes e Letras – ACALE, veio de Campo Maior expressiva comitiva, da qual faziam parte vários acadêmicos do sodalício da Terra dos Carnaubais. Entre outros conterrâneos, que a minha memória registra, estavam presentes as escritoras e professoras universitárias Lisete Napoleão e Áurea Paz Pinheiro, João Antônio Aragão, o médico José Luís da Paz, o musicista José Wagner Brasil, o cantor e compositor Raimundo José Cardoso de Brito (Cardosinho), poeta Halan Silva, professora e escritora Ana Maria Cunha e o professor Raimundo Nonato Monteiro de Santana, membro da Academia Piauiense de Letras e ex-prefeito de sua terra natal, além deste diarista.
O conferencista é, atualmente, uma das maiores autoridades sobre o patrimônio arquitetônico do Piauí, tanto pelo seu conhecimento histórico, antropológico e sociológico, como pelo conhecimento técnico dessas construções. Olavo passou mais de duas décadas pesquisando, visitando sítios, fazendo fotografias, empreendendo estudos comparativos para escrever o seu excelente livro “Carnaúba, Pedra e Barro na Capitania de São José do Piauhy”, que arrebatou importante premiação nacional, e que também pode ser tido como um belo álbum de arte, que nos proporciona agradável viagem no tempo, no espaço e na história da arquitetura piauiense.
Ao vergastar as demolições, Olavo demonstrou que, muitas vezes, conservar apenas a fachada externa está muito longe de preservar a cultura, a história, os costumes, as sociabilidades do que representavam esses velhos solares e sobrados. Na parte interna de muitos deles, existiam pátio, varandas, vestíbulos, caramanchões e outras peças, que mostram como a vida se desenrolava na época. Serviam para diferentes modos de estar e receber. Algumas dessas peças e construções se prestavam a preservar a intimidade da casa, outras eram exclusivamente ornamentais, outras eram apenas para fruição prazerosa, enquanto algumas eram somente utilitárias. Um caramanchão e um pátio, por exemplo, bem poderiam servir para uma conversa à lua cheia, para uma confraternização festiva, para um sarau lítero-musical ou para um simples carteado.
Sua notável palestra foi ilustrada com belas fotografias, exibidas através de data-show. Elas mostravam os detalhes arquitetônicos sobre os quais o palestrante discorria. Na parte histórica, em que Olavo reportou-se a importantes edificações já demolidas, algumas pelo tempo e pelas intempéries, mas sobretudo pela ação humana, seja de forma irresponsável e deliberada, seja por pura ganância, seja por inocente ignorância histórica, artística e sociológica. As fotografias ilustravam e tentavam preencher essas lacunas, que ainda mais se acentuavam. As fotos, em muitos casos, traziam belas e pertinentes legendas, muitas da lavra do poeta Odylo Costa, filho, que foi casado com uma campomaiorense, parenta do conferencista. Muitos desses prédios não passam, hoje, de mera “fotografia na parede” como disse outro bardo; outros, sequer, tiveram essa sorte.
Ao término da palestra e da exibição dos eslaides, o presidente da Academia Piauense de Letras, Reginaldo Miranda, compôs a mesa, para emissão de alguns depoimentos, ao tempo em que permitiu a formulação de perguntas. Além dele, compuseram a mesa os presidentes das Academias Campomaiorense e do Vale do Longá, respectivamente, o historiador João Alves Filho e o médico Itamar Abreu Costa, o conselheiro do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, Luiz Phelipe Andrés, que elaborou o relatório sobre os tombamentos de Oeiras e Piracuruca, a superintendente do órgão no Piauí, Claudiana dos Anjos, Olavo Pereira da Silva Filho e eu, na qualidade de campomaiorense e membro da APL.
Todos os membros da mesa fizeram uso da palavra, enaltecendo a palestra e o patrimônio histórico e arquitetônico de Campo Maior. O Cardosinho, quase como se fora em um aboio estilizado, fez ecoar o vocábulo maior do topônimo Campo Maior, no seu refrão melódico, que parecia se espraiar nas campinas formosas, atapetadas de babugem, flores do campo e capim mimoso. Não se pode negar, o velho rincão estava presente, através da palestra, das imagens fotográficas, dos depoimentos, dos questionamentos e de seus filhos, que marcaram presença.
terça-feira, 27 de março de 2012
SUPLÍCIO NO ESCREVER
José Maria Vasconcelos
JOSEMARIA001@HOTMAIL.COM
Orlando Torres, do Rio, habitual leitor desta coluna, envia um texto do jornalista Ricardo Noblat, que retrata a apreensão de quem se aventura a escrever, especialmente na hora H do concurso, quando, além dos costumeiros obstáculos emocionais, tem-se de contar o tempo. Acompanhe o texto de Noblat:
Escrever é um suplício para quem gosta de escrever. E para quem leva a sério o ofício de escrever. Não acreditem em quem diz o contrário.
Paris pode ser uma festa. Escrever não é uma festa. Não é, sequer, um ato prazeroso.
Dá prazer ler um texto bem escrito. Fazê-lo não dá prazer. Dá trabalho.
Escrever não é um dom que se tem. É uma habilidade que se adquire como qualquer outra habilidade.
Entrei em crise quando li o colombiano Gabriel García Márquez, pela primeira vez, ali pelos idos de 70. A leitura de “Cem Anos de Solidão”, o romance de estreia dele, deixou-me confuso.
Parei de escrever durante quase seis meses, depois de ter me deslumbrado com a descrição do momento em que o velho coronel Aureliano Buendia descobriu o gelo, e com o relato da ascensão aos céus de Remédios, a bela, envolta num imaculado lençol branco.
Se era possível ler com naturalidade que borboletas amarelas sempre precediam às aparições do namorado de uma das filhas de Buendia, e se era possível a um escritor extrair tanta beleza do simples ato de alguém tocar uma pedra de gelo pela primeira vez, bem... tudo que eu lera até então envelhecera de repente. Tudo.
E aqueles contos, ou esboços de conto, ou ainda fiapos de contos que guardava no fundo de um baú, herdado da minha bisavó, estavam condenados a permanecer ali, para sempre. Como de fato permanecem até hoje.
Não existe uma receita única para que se escreva bem. Na verdade, não existe receita alguma. Pode-se dizer, como disse Samuel Johnson, que “o que é escrito sem esforço geralmente é lido sem prazer”. Pode-se dizer também, como disse Miguel de Unamuno, que “só escreve claro quem concebe claro”.
De García Márquez, por exemplo, não se dirá que é um escritor econômico de palavras. Nem se dirá o mesmo de Jorge Amado.
Graciliano Ramos, autor de “Vidas Secas”, esse, sim, economizou todas as palavras que pôde economizar. Torturava-se sem piedade quando se debruçava sobre uma folha de papel em branco.
Graciliano reescrevia suas histórias de maneira obsessiva. Cortava parágrafos inteiros, amputava tudo que fosse dispensável, barrava a entrada no texto de qualquer adjetivo, até que sua prosa parecesse tão esquálida, tão enxuta, tão árida quanto os personagens que lhe davam vida.
O modelo de texto que pede o jornalismo está mais para o despojamento de Graciliano do que para o excesso de espuma e de fogos de artifício de Jorge Amado.
Enfim, coitados dos que se devotam a escrever e sonham em fazê-lo bem. Todos os pecados lhes deveriam ser perdoados.
COMENTÁRIO
Como você viu, não é fácil escrever, especialmente correto e apetitoso de se ler. Noblat classifica vários estilos para se produzir um texto, conforme alguns exemplares escritores: há os que são floridos(adjetivos), como Jorge Amado; os que extraem o máximo de uma bolota de gelo, como Garcia Márquez; ou contenção de palavras(adjetivos) em Graciliano Ramos, comum nos textos jornalísticos.
A melhor saída para quem deseja escrever bonito e correto é exatamente o que o jornalista Noblat desenvolve, desde a adolescência: Ler, descobrir virtudes de grandes nomes. Uma simples leitura semanal da revista Veja já abre um universo de informações e textos bem elaborados. Nada de copiá-los, mas imitá-los. Por aí, você vai longe, mesmo dominado pelo sacrifício e apreensão. Receber aulas de redação às vésperas de um concurso, você não vai a lugar nenhum. Vai só ficar sentado, mordendo a caneta, olhando pro céu, implorando uma graça, uma inspiração. Necas!
PANEGÍRICO A WILLIAM PALHA DIAS
O presidente da Academia Piauiense de Letras, Reginaldo Miranda, convida os interessados em cultura e literatura para o panegírico ao saudoso Acadêmico William Palha Dias, falecido no último dia 14 de fevereiro, a ser proferido pelo imortal Oton Lustosa, às 19 horas do próximo dia 29, quinta-feira, no Auditório Acad. Wilson Andrade Brandão, na sede da APL (Av. Miguel Rosa, 3300/Sul).
segunda-feira, 26 de março de 2012
MÍSTICA II
MÍSTICA II
Elmar Carvalho
Meu anjo da guarda
em sete anjos transmudado
minha guarda de honra revistava
e com sua espada de fogo
ou raio laser
franqueava-me a entrada
da gruta dos leões
enquanto Daniel dormia
à minha sombra.
Flagrante do Gervásio Castro
Texto e charge: Gervásio Castro
Tem chovido homenagens a Chico Anysio, depois de seu falecimento ocorrido dia 23 passado. Internado no Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro, permaneceu por três meses na UTI. Mas já estava há vários anos na UTI da Globo que optou por apresentar o "Zorra Total" e merdas que tais. Na minha opinião ele não foi apenas o maior humorista brasileiro. Foi também o melhor ator.
Tem chovido homenagens a Chico Anysio... depois do seu falecimento. Que pena!
Gervásio
Gervásio
domingo, 25 de março de 2012
O riso brasileiro silenciado
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| Chico Anysio em Maranguape |
CUNHA E SILVA FILHO
O humorismo brasileiro é tão típico, tão particular que Chico Anysio, lamentavelmente falecido hoje à tarde, já madurão, tentou uma vez ir trabalhar na América, procurar abrir uma brecha ao humorismo em palcos ianques. Não dera certo.
Nunca dera certo nem daria por motivos vários e contrastantes: a barreira da língua, a formação de sua cultura artística tão impregnada de nordestinidade ainda que estivesse por tanto tempo fora do Ceará. Nordestino tão-só. Um norte-americano, afeito às tecnologias do humorismo adquirido nas suas sofisticadas escolas de teatro, de cinema, para expressar a realidade na prática os valores e as mazelas da terra do Tio Sam, jamais teria entendido o que visceralmente estava implantado na alma do humorista brasileliro. Chico Anysio, era todo ele voltado para fazer rir – isso sim - o brasileiro, o seu povo tão identificado com os seus personagens multifários, compostos de uma galeria de tipos quase todos enraizados em figuras populares: o fazendeiro bronco nordestino e loroteiro, o malandro carioca, o preto mandingueiro, o professor Raimundo – personagem que o tornou famosíssimo dada a alta audiência da série na TV Globo.
Nunca dera certo nem daria por motivos vários e contrastantes: a barreira da língua, a formação de sua cultura artística tão impregnada de nordestinidade ainda que estivesse por tanto tempo fora do Ceará. Nordestino tão-só. Um norte-americano, afeito às tecnologias do humorismo adquirido nas suas sofisticadas escolas de teatro, de cinema, para expressar a realidade na prática os valores e as mazelas da terra do Tio Sam, jamais teria entendido o que visceralmente estava implantado na alma do humorista brasileliro. Chico Anysio, era todo ele voltado para fazer rir – isso sim - o brasileiro, o seu povo tão identificado com os seus personagens multifários, compostos de uma galeria de tipos quase todos enraizados em figuras populares: o fazendeiro bronco nordestino e loroteiro, o malandro carioca, o preto mandingueiro, o professor Raimundo – personagem que o tornou famosíssimo dada a alta audiência da série na TV Globo.
O seu humorismo, entretanto, vai bem mais fundo, porque sabe explorar o tipo representativo de um segmento social, em geral, de extração baixa ou média. Interessava ao humorista talentoso a captação do momento exato, do ponto perfeito na combinação do retrato moral do personagem com a situação vivida. Se nele podemos rastrear elementos da comédia que remontam a um, por exemplo, Martins Pena (1815-1848), nele também podemos divisar tomadas de humorismo mais bem sofisticadas do ponto de vista cênico-temático, como a figura daquela personagem cujo interlocutor exerce a função mais relevante do país. Era aí, neste diálogo de mão única que o fio contundente da denúncia social-política – veio amplo e material farto para a exploração do humorismo de natureza frequentemente paródica (lembram-se daquele personagem dele, imitando um conhecido cantor e compositor baiano?) em clave maior de sutileza crítica, reforçada admiravelmente por uma capacidade original do próprio uso da linguagem, em que a repetição de uma palavra, por via iterativa, se dava num crescendo até o ponto decrescente, cujo limite era o silêncio como metáfora dos absurdos do cotidiano da política nacional: “eu juro, juro, juro, juro...”
O humorismo anisiano se fez dessa fragmentação, desses pedaços do povo e do país, divertindo mas castigando como na comédia de Sêneca.
Não há bom humorista que passa incólume com os percalços e os desconcertos do seu país, com os seus costumes, suas misérias, suas enganações e sua hipocrisia. No humorismo bem estruturado e feito com criatividade, como era o dele, desvela-se com facilidade uma realidade que é nossa, um grito mesmo contra as situações aflitivas de um povo. Enquanto o riso rola, existe, nas camadas subtextuais, a revelação e síntese do comportamento de um povo, de tudo o que forma a sua célula moral, amoral ou imoral. O humorismo levado a sério não se contenta com a superficialidade da bufonaria, do clown, dos bobos da corte. Estes fazem o riso pelo riso, são inócuos, não desalienam.
O humorismo é a rebaixamento dos valores para o reino da carnavalização, usando esse termo no sentido bakhtiniano. Mostrar a deformidade, a feiúra, a idiotice dos seres, o absurdo humano, que constituem a vida em sociedade, é uma das funções dessa arte do riso e da alegria misturada a com o patético e tragicômico da condição humana, múltipla, variada, camaleônica.
Chico Anysio, nordestino vitorioso na grande cidade, foi desses artistas que encontraram seu próprio caminho, seu domínio de eleição para uma carreira que o tornou respeitado e admirado pelo brasileiro. Por isso, me indignava quando alguém dizia que o grande humorista já deveria pendurar as chuteiras. Qual nada! Todo seu esforço teve decerto um projeto de implantar uma escola de humorismo distante das improvisações e dos sucessos efêmeros e cmerciais. Não o seu sucesso, que teve uma linha ascendente de grandeza, de criações, sempre em direção ascendente nas suas virtualidades e nas suas realizações no palco ou na tela da tevê.
O programa “Chico City”, bem como outros de sua lavra, torna-se um exemplo obrigatório de quanto o humorista cearense-carioca fez em termos de criação de personagens, de situações cômicas, de uma grande construção de um universo do riso, da galhofa, da diversão, da denúncia, e de uma síntese de caracteres do Brasil brasileiro, sem a maquiagem e as muletas da indústria norte-americana. Sua obra de humorista ressuma brasilidade, nos seus defeitos e virtudes, nas suas imperfeições e na sua originalidade.
Além disso, ao humorista virtuose aliaram-se outras facetas artísticas, a de escritor, de pintor, do compositor musical, de roteirista, de ator dramático, faceta esta que, a meu ver, não o via com muito talento. Mas, ninguém é perfeito em tudo.
Com o desaparecimento do grande humorista brasileiro, o riso, a alegria, a gargalhada, o mundo criado por ele feito de arte e de inegável criatividade, se encolhe e silencia. Obrigado, Chico Anysio, pelos anos de alegria e de divertimento não isentos de ironias e de sutilezas proporcionados a todo o país. Dizem os ingleses e com razão que o melhor remédio é o riso.
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