quinta-feira, 29 de março de 2012

A ZONA PLANETÁRIA

Antigos cabarés da Zona Planetária - Arq. Blog Bitorocara
Escombros da Zona Planetária


29 de março   Diário Incontínuo

A ZONA PLANETÁRIA


Elmar Carvalho


Após a palestra do arquiteto Olavo Pereira da Silva Filho, quando o presidente da APL, Reginaldo Miranda, me passou a palavra, sugeri ao João Alves Filho, presidente da ACALE, que a conferência em defesa da preservação dos casarões fosse apresentada em Campo Maior; a aceitação foi efusiva e imediata. A seguir, expliquei que muitos anos atrás, mais precisamente no dia 23.05.1997, na sede do IATE Clube Laguna, situado à beira do formoso Açude Grande, em meu discurso de posse na Academia do Vale do Longá, eu denunciara a destruição da Fazenda Tombador. Na oportunidade, recitei estes versos do meu poema que lhe leva o nome: “Quando literalmente tombaram / a Fazenda Tombador, / nenhuma voz se levantou, / nem mesmo a voz de alguém, / que clamasse no deserto, clamou. / E a Fazenda Tombador / literalmente tombou.” Foi na sede dessa fazenda que se refugiou Fidié, após o término da Batalha do Jenipapo. Por conseguinte, seu valor histórico era inestimável.

Falei que os velhos prédios iam desaparecendo aos poucos, como se fora em macabro jogo de dama, em que as “pedras” iam sendo “comidas” por voraz jogador. Importantes edificações, de valor arquitetônico e/ou histórico, já foram derrubadas, ou pela insensatez, ou pela ganância, ou mesmo pela ignorância. Com isso, a paisagem urbana que marcou a nossa infância e juventude vai sendo apagada. Dessa forma a nossa memória vai sendo esgotada, as nossas referências vão sendo destruídas. A paisagem arquitetônica que servia de pano de fundo a várias quadras de nossa vida deixam de existir, fazendo-nos mergulhar na nostalgia pelas coisas que ainda nos poderiam encantar com a sua velha presença. Por causa dessas demolições, o velho bardo bradou: “Vão destruir esta casa / mas meu quarto vai ficar / de pé, suspenso no ar”. No ar tênue da memória ou apenas em desbotada fotografia, como assinalaram os versos de outro poeta.

No mesmo discurso em que clamei contra a destruição da Fazenda Tombador, adverti que, se providências não fossem adotadas, a Zona Planetária, de tão poético e sugestivo nome, também seria transformada em ruína. Na minha fala de sábado passado, disse que, infelizmente, fora um bom profeta, porquanto os casarões dessa antiga zona meretrícia, sem nenhum cuidado preservacionista, expostos ao rigoroso inverno de alguns anos atrás, terminaram por desmoronar, deles só restando escombros, e a memória de um tempo em que os prósperos coronéis da carnaúba e da pecuária ali imperavam, rodeados de belas meretrizes, algumas “importadas” de outros estados.

Esse belo nome foi posto pelo major Honorário Bona Neto, que além de comerciante era um músico talentoso, compositor de notáveis valsas. O município de Campo Maior, a exemplo do que foi feito em relação ao musicista e intelectual Possidônio Queiroz, de Oeiras, deveria patrocinar a publicação de álbum com a partitura de suas composições e o lançamento de um CD, abrigando suas principais melodias, em vez de ficar bancando apenas apresentações de bandas de outros municípios e estados, com suas músicas comerciais, apelativas e de evidente mau-gosto.

Com o passar dos anos, o nome Zona Planetária foi caindo no esquecimento. O local passou a ser chamado simplesmente de zona da rua Santo Antônio, com os prostíbulos já em franca decadência. Outrora, cada um dos cabarés ostentava na fachada o nome e a pintura de cada um dos planetas. Lá estavam os anéis de Saturno, a cor azul de Vênus, o vermelho sanguíneo de Marte... Ao cair da tarde, as mulheres assomavam às janelas, situadas acima das altas calçadas. De lá, como de um mirante, espreitavam os passantes, que eram ao mesmo tempo caça e caçadores. À noite, o amor de aluguel acontecia entre espumas de cerveja, perfumes de gardênia e o luscofusco difuso/confuso das luzes negras, ao som dos boleros das velhas radiolas, que soltavam as vozes de Roberto Muller e Waldick Soriano, que dominavam soberanos nos lupanares de então.

Ainda jovem, quando assumi meu cargo de fiscal da extinta SUNAB – Delegacia do Piauí, o chefe da Seção de Fiscalização, o senhor Walter e Silva Mendes, que em sua infância fora amigo de meu pai, instigou-me a escrever um poema sobre a Zona Planetária. Ora, eu já sequer me lembrava de que aquele meretrício tivera esse nome. Desde há muito, ele passara a ser chamado apenas de zona da Santo Antônio, como numa tentativa de unir-se o sagrado ao profano, o divino e o humano. Durante muitos meses conjecturei sobre como poderia elaborar esse poema. Cheguei a achar uma missão quase impossível. Um belo dia, ocorreu-me que os planetas foram denominados com o nome de deuses da mitologia grego-romana. Esses deuses, apesar de poderosos e imortais, tinham as mesmas paixões, vícios e desejos do ser humano. Esse foi o estalo que deu origem ao poema.

A partir daí comecei a pesquisar a mitologia e a astronomia planetária. Anotei as principais virtudes e defeitos dos deuses. Os principais fatos que lhe eram atribuídos. Procurei registrar as principais caraterísticas dos planetas, como órbitas, cor, densidade, satélites e os fenômenos de seu giro ao redor do Sol e de sua rotação sobre o próprio eixo. Resolvi, então, escrever um épico moderno, em que mesclei a astronomia planetária, a vida e as paixões dos deuses do Olimpo e a sociologia dos lupanares. Fiz um poema de abertura e mais nove outras unidades, em que pus as peculiaridades de cada um desses mitos e planetas. Certamente, o que me faltou em talento, sobrou em audácia.



O SISTEMA PLANETÁRIO

Elmar Carvalho

Anfion percorre os sulcos
dos discos das vitrolas e as
emoções são alinhadas pedra a pedra.
Apolo é qualquer moço feio
que nos vitrais Narciso se julga.
De repente, Átropos corta o fio da vida
que era tecido pelas Parcas lentamente
pelos golpes de facas, adagas ou estiletes
nas mãos de um velho Pã embriagado.
Baco e suas bacantes celebram suas
lúbricas bacanais e bebem vinho
e sangue em frágeis taças de cristais.
Nas calçadas altas da Zona Planetária
meretrizes expõem suas carnes
em varais de açougues imaginários
aos transeuntes ou faunos eventuais,
nas horas em que Hélio esboça a Aurora.
Ali, os desejos são Ícaros leves que sobem
nas asas de cera do pensamento, quando
Nyx, filha do Caos, com seu negromanto
lantejoulado de estrelas e sua
coroa de dormideiras, a noite,
o sonho e a orgia instaura.
Cupido passa com seu
séqüito de sátiros e de ninfas
pelas calçadas e salões da Zona Planetária
e Eros proclama seu reinado
de orgia, prazeres, orgasmos e pecados.

quarta-feira, 28 de março de 2012

OS VELHOS CASARÕES DE CAMPO MAIOR



28 de março   Diário Incontínuo

OS VELHOS CASARÕES DE CAMPO MAIOR

Elmar Carvalho


Aconteceu no sábado a palestra do arquiteto Olavo Pereira da Silva Filho sobre a preservação dos vetustos solares campomaiorenses. Além de João Alves Filho, presidente da Academia Campomaiorense de Artes e Letras – ACALE, veio de Campo Maior expressiva comitiva, da qual faziam parte vários acadêmicos do sodalício da Terra dos Carnaubais. Entre outros conterrâneos, que a minha memória registra, estavam presentes as escritoras e professoras universitárias Lisete Napoleão e Áurea Paz Pinheiro, João Antônio Aragão, o médico José Luís da Paz, o musicista José Wagner Brasil, o cantor e compositor Raimundo José Cardoso de Brito (Cardosinho), poeta Halan Silva, professora e escritora Ana Maria Cunha e o professor Raimundo Nonato Monteiro de Santana, membro da Academia Piauiense de Letras e ex-prefeito de sua terra natal, além deste diarista.

O conferencista é, atualmente, uma das maiores autoridades sobre o patrimônio arquitetônico do Piauí, tanto pelo seu conhecimento histórico, antropológico e sociológico, como pelo conhecimento técnico dessas construções. Olavo passou mais de duas décadas pesquisando, visitando sítios, fazendo fotografias, empreendendo estudos comparativos para escrever o seu excelente livro “Carnaúba, Pedra e Barro na Capitania de São José do Piauhy”, que arrebatou importante premiação nacional, e que também pode ser tido como um belo álbum de arte, que nos proporciona agradável viagem no tempo, no espaço e na história da arquitetura piauiense.

Ao vergastar as demolições, Olavo demonstrou que, muitas vezes, conservar apenas a fachada externa está muito longe de preservar a cultura, a história, os costumes, as sociabilidades do que representavam esses velhos solares e sobrados. Na parte interna de muitos deles, existiam pátio, varandas, vestíbulos, caramanchões e outras peças, que mostram como a vida se desenrolava na época. Serviam para diferentes modos de estar e receber. Algumas dessas peças e construções se prestavam a preservar a intimidade da casa, outras eram exclusivamente ornamentais, outras eram apenas para fruição prazerosa, enquanto algumas eram somente utilitárias. Um caramanchão e um pátio, por exemplo, bem poderiam servir para uma conversa à lua cheia, para uma confraternização festiva, para um sarau lítero-musical ou para um simples carteado.

Sua notável palestra foi ilustrada com belas fotografias, exibidas através de data-show. Elas mostravam os detalhes arquitetônicos sobre os quais o palestrante discorria. Na parte histórica, em que Olavo reportou-se a importantes edificações já demolidas, algumas pelo tempo e pelas intempéries, mas sobretudo pela ação humana, seja de forma irresponsável e deliberada, seja por pura ganância, seja por inocente ignorância histórica, artística e sociológica. As fotografias ilustravam e tentavam preencher essas lacunas, que ainda mais se acentuavam. As fotos, em muitos casos, traziam belas e pertinentes legendas, muitas da lavra do poeta Odylo Costa, filho, que foi casado com uma campomaiorense, parenta do conferencista. Muitos desses prédios não passam, hoje, de mera “fotografia na parede” como disse outro bardo; outros, sequer, tiveram essa sorte.

Ao término da palestra e da exibição dos eslaides, o presidente da Academia Piauense de Letras, Reginaldo Miranda, compôs a mesa, para emissão de alguns depoimentos, ao tempo em que permitiu a formulação de perguntas. Além dele, compuseram a mesa os presidentes das Academias Campomaiorense e do Vale do Longá, respectivamente, o historiador João Alves Filho e o médico Itamar Abreu Costa, o conselheiro do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, Luiz Phelipe Andrés, que elaborou o relatório sobre os tombamentos de Oeiras e Piracuruca, a superintendente do órgão no Piauí, Claudiana dos Anjos, Olavo Pereira da Silva Filho e eu, na qualidade de campomaiorense e membro da APL.

Todos os membros da mesa fizeram uso da palavra, enaltecendo a palestra e o patrimônio histórico e arquitetônico de Campo Maior. O Cardosinho, quase como se fora em um aboio estilizado, fez ecoar o vocábulo maior do topônimo Campo Maior, no seu refrão melódico, que parecia se espraiar nas campinas formosas, atapetadas de babugem, flores do campo e capim mimoso. Não se pode negar, o velho rincão estava presente, através da palestra, das imagens fotográficas, dos depoimentos, dos questionamentos e de seus filhos, que marcaram presença.

terça-feira, 27 de março de 2012

SUPLÍCIO NO ESCREVER


José Maria Vasconcelos
JOSEMARIA001@HOTMAIL.COM

Orlando Torres, do Rio, habitual leitor desta coluna, envia um texto do jornalista Ricardo Noblat, que retrata a apreensão de quem se aventura a escrever, especialmente na hora H do concurso, quando, além dos costumeiros obstáculos emocionais, tem-se de contar o tempo. Acompanhe o texto de Noblat:

Escrever é um suplício para quem gosta de escrever. E para quem leva a sério o ofício de escrever. Não acreditem em quem diz o contrário.
Paris pode ser uma festa. Escrever não é uma festa. Não é, sequer, um ato prazeroso.
Dá prazer ler um texto bem escrito. Fazê-lo não dá prazer. Dá trabalho.
Escrever não é um dom que se tem. É uma habilidade que se adquire como qualquer outra habilidade.
Entrei em crise quando li o colombiano Gabriel García Márquez, pela primeira vez, ali pelos idos de 70. A leitura de “Cem Anos de Solidão”, o romance de estreia dele, deixou-me confuso.
Parei de escrever durante quase seis meses, depois de ter me deslumbrado com a descrição do momento em que o velho coronel Aureliano Buendia descobriu o gelo, e com o relato da ascensão aos céus de Remédios, a bela, envolta num imaculado lençol branco.
Se era possível ler com naturalidade que borboletas amarelas sempre precediam às aparições do namorado de uma das filhas de Buendia, e se era possível a um escritor extrair tanta beleza do simples ato de alguém tocar uma pedra de gelo pela primeira vez, bem... tudo que eu lera até então envelhecera de repente. Tudo.
E aqueles contos, ou esboços de conto, ou ainda fiapos de contos que guardava no fundo de um baú, herdado da minha bisavó, estavam condenados a permanecer ali, para sempre. Como de fato permanecem até hoje.
Não existe uma receita única para que se escreva bem. Na verdade, não existe receita alguma. Pode-se dizer, como disse Samuel Johnson, que “o que é escrito sem esforço geralmente é lido sem prazer”. Pode-se dizer também, como disse Miguel de Unamuno, que “só escreve claro quem concebe claro”.
De García Márquez, por exemplo, não se dirá que é um escritor econômico de palavras. Nem se dirá o mesmo de Jorge Amado.
Graciliano Ramos, autor de “Vidas Secas”, esse, sim, economizou todas as palavras que pôde economizar. Torturava-se sem piedade quando se debruçava sobre uma folha de papel em branco.
Graciliano reescrevia suas histórias de maneira obsessiva. Cortava parágrafos inteiros, amputava tudo que fosse dispensável, barrava a entrada no texto de qualquer adjetivo, até que sua prosa parecesse tão esquálida, tão enxuta, tão árida quanto os personagens que lhe davam vida.
O modelo de texto que pede o jornalismo está mais para o despojamento de Graciliano do que para o excesso de espuma e de fogos de artifício de Jorge Amado.
Enfim, coitados dos que se devotam a escrever e sonham em fazê-lo bem. Todos os pecados lhes deveriam ser perdoados.

COMENTÁRIO
Como você viu, não é fácil escrever, especialmente correto e apetitoso de se ler. Noblat classifica vários estilos para se produzir um texto, conforme alguns exemplares escritores: há os que são floridos(adjetivos), como Jorge Amado; os que extraem o máximo de uma bolota de gelo, como Garcia Márquez; ou contenção de palavras(adjetivos) em Graciliano Ramos, comum nos textos jornalísticos.
A melhor saída para quem deseja escrever bonito e correto é exatamente o que o jornalista Noblat desenvolve, desde a adolescência: Ler, descobrir virtudes de grandes nomes. Uma simples leitura semanal da revista Veja já abre um universo de informações e textos bem elaborados. Nada de copiá-los, mas imitá-los. Por aí, você vai longe, mesmo dominado pelo sacrifício e apreensão. Receber aulas de redação às vésperas de um concurso, você não vai a lugar nenhum. Vai só ficar sentado, mordendo a caneta, olhando pro céu, implorando uma graça, uma inspiração. Necas!

PANEGÍRICO A WILLIAM PALHA DIAS


O presidente da Academia Piauiense de Letras, Reginaldo Miranda, convida os interessados em cultura e literatura para o panegírico ao saudoso Acadêmico William Palha Dias, falecido no último dia 14 de fevereiro, a ser proferido pelo imortal Oton Lustosa, às 19 horas do próximo dia 29, quinta-feira, no Auditório Acad. Wilson Andrade Brandão, na sede da APL (Av. Miguel Rosa, 3300/Sul).

segunda-feira, 26 de março de 2012

MÍSTICA II


MÍSTICA II

Elmar Carvalho

Meu anjo da guarda
em sete anjos transmudado
minha guarda de honra revistava
e com sua espada de fogo
ou raio laser
franqueava-me a entrada
da gruta dos leões
enquanto Daniel dormia
à minha sombra.

Flagrante do Gervásio Castro

Texto e charge: Gervásio Castro


Tem chovido homenagens a Chico Anysio, depois de seu falecimento ocorrido dia 23 passado. Internado no Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro, permaneceu por três meses na UTI. Mas já estava há vários anos na UTI da Globo que optou por apresentar o "Zorra Total" e merdas que tais. Na minha opinião ele não foi apenas o maior humorista brasileiro. Foi também o melhor ator.
Tem chovido homenagens a Chico Anysio... depois do seu falecimento. Que pena!

Gervásio

domingo, 25 de março de 2012

O riso brasileiro silenciado

Chico Anysio em Maranguape

CUNHA E SILVA FILHO

O humorismo brasileiro é tão típico, tão particular que Chico Anysio, lamentavelmente falecido hoje à tarde, já madurão, tentou uma vez ir trabalhar na América, procurar abrir uma brecha ao humorismo em palcos ianques. Não dera certo.
Nunca dera certo nem daria por motivos vários e contrastantes: a barreira da língua, a formação de sua cultura artística tão impregnada de nordestinidade ainda que estivesse por tanto tempo fora do Ceará. Nordestino tão-só. Um norte-americano, afeito às tecnologias do humorismo adquirido nas suas sofisticadas escolas de teatro, de cinema, para expressar a realidade na prática os valores e as mazelas da terra do Tio Sam, jamais teria entendido o que visceralmente estava implantado na alma do humorista brasileliro. Chico Anysio, era todo ele voltado para fazer rir – isso sim - o brasileiro, o seu povo tão identificado com os seus personagens multifários, compostos de uma galeria de tipos quase todos enraizados em figuras populares: o fazendeiro bronco nordestino e loroteiro, o malandro carioca, o preto mandingueiro, o professor Raimundo – personagem que o tornou famosíssimo dada a alta audiência da série na TV Globo.
O seu humorismo, entretanto, vai bem mais fundo, porque sabe explorar o tipo representativo de um segmento social, em geral, de extração baixa ou média. Interessava ao humorista talentoso a captação do momento exato, do ponto perfeito na combinação do retrato moral do personagem com a situação vivida. Se nele podemos rastrear elementos da comédia que remontam a um, por exemplo, Martins Pena (1815-1848), nele também podemos divisar tomadas de humorismo mais bem sofisticadas do ponto de vista cênico-temático, como a figura daquela personagem cujo interlocutor exerce a função mais relevante do país. Era aí, neste diálogo de mão única que o fio contundente da denúncia social-política – veio amplo e material farto para a exploração do humorismo de natureza frequentemente paródica (lembram-se daquele personagem dele, imitando um conhecido cantor e compositor baiano?) em clave maior de sutileza crítica, reforçada admiravelmente por uma capacidade original do próprio uso da linguagem, em que a repetição de uma palavra, por via iterativa, se dava num crescendo até o ponto decrescente, cujo limite era o silêncio como metáfora dos absurdos do cotidiano da política nacional: “eu juro, juro, juro, juro...”

O humorismo anisiano se fez dessa fragmentação, desses pedaços do povo e do país, divertindo mas castigando como na comédia de Sêneca.
Não há bom humorista que passa incólume com os percalços e os desconcertos do seu país, com os seus costumes, suas misérias, suas enganações e sua hipocrisia. No humorismo bem estruturado e feito com criatividade, como era o dele, desvela-se com facilidade uma realidade que é nossa, um grito mesmo contra as situações aflitivas de um povo. Enquanto o riso rola, existe, nas camadas subtextuais, a revelação e síntese do comportamento de um povo, de tudo o que forma a sua célula moral, amoral ou imoral. O humorismo levado a sério não se contenta com a superficialidade da bufonaria, do clown, dos bobos da corte. Estes fazem o riso pelo riso, são inócuos, não desalienam.

O humorismo é a rebaixamento dos valores para o reino da carnavalização, usando esse termo no sentido bakhtiniano. Mostrar a deformidade, a feiúra, a idiotice dos seres, o absurdo humano, que constituem a vida em sociedade, é uma das funções dessa arte do riso e da alegria misturada a com o patético e tragicômico da condição humana, múltipla, variada, camaleônica.
Chico Anysio, nordestino vitorioso na grande cidade, foi desses artistas que encontraram seu próprio caminho, seu domínio de eleição para uma carreira que o tornou respeitado e admirado pelo brasileiro. Por isso, me indignava quando alguém dizia que o grande humorista já deveria pendurar as chuteiras. Qual nada! Todo seu esforço teve decerto um projeto de implantar uma escola de humorismo distante das improvisações e dos sucessos efêmeros e cmerciais. Não o seu sucesso, que teve uma linha ascendente de grandeza, de criações, sempre em direção ascendente nas suas virtualidades e nas suas realizações no palco ou na tela da tevê.
O programa “Chico City”, bem como outros de sua lavra, torna-se um exemplo obrigatório de quanto o humorista cearense-carioca fez em termos de criação de personagens, de situações cômicas, de uma grande construção de um universo do riso, da galhofa, da diversão, da denúncia, e de uma síntese de caracteres do Brasil brasileiro, sem a maquiagem e as muletas da indústria norte-americana. Sua obra de humorista ressuma brasilidade, nos seus defeitos e virtudes, nas suas imperfeições e na sua originalidade.
Além disso, ao humorista virtuose aliaram-se outras facetas artísticas, a de escritor, de pintor, do compositor musical, de roteirista, de ator dramático, faceta esta que, a meu ver, não o via com muito talento. Mas, ninguém é perfeito em tudo.

Com o desaparecimento do grande humorista brasileiro, o riso, a alegria, a gargalhada, o mundo criado por ele feito de arte e de inegável criatividade, se encolhe e silencia. Obrigado, Chico Anysio, pelos anos de alegria e de divertimento não isentos de ironias e de sutilezas proporcionados a todo o país. Dizem os ingleses e com razão que o melhor remédio é o riso.

sábado, 24 de março de 2012

ANTOLOGIA DO NETTO

Texto e charge: João de Deus Netto


CINEAS SANTOS

Cineas das Chagas Santos nasceu em Campo Formoso, município de Caracol (PI), em setembro de 1948. Vive em Teresina desde 1965. Professor, editor e livreiro, fundou, com alguns companheiros de geração, o jornal alternativo “Chapada do Corisco” (76/77). É proprietário da Oficina da Palavra, espaço cultural teresinense, e coordenador do grupo A Cara Alegre Do Piauí, projeto de interiorização da cultura – música, literatura e artes plásticas. Publicou: Miudezas em Geral (poesia); Tinha que Acontecer (contos); ABC da Ecologia (cordel); Aldeia Grande (humor) e o Menino que Descobriu as Palavras (infantil).

“Ancião”, professor de Português e Literatura de várias gerações de estudantes piauienses, foi um dos idealizadores e organizador do SaLiPi (Salão do Livro do Piauí), evento que anualmente reúne livreiros, editoras e público leitor em torno a diversas atividades culturais, palestras, debates, oficinas e exposições.

Cineas Santos é também o autor da letra do Hino oficial de Teresina, em parceria com o músico Erisvaldo Borges, que compôs a melodia.
SAIBA MAIS:
http://www.revista.agulha.nom.br/1ecaminha4.html

sexta-feira, 23 de março de 2012

DISCURSO DE POSSE DO DES. HILO DE ALMEIDA SOUSA (*)




A BÍBLIA, NO LIVRO DE ECLESIASTES, CAPÍTULO 3, ENSINA QUE "TUDO TEM SEU TEMPO DETERMINADO, E HÁ TEMPO PARA TODO PROPÓSITO DEBAIXO DO CÉU".
HOJE, PARA MIM, É TEMPO DE ALEGRIA. TEMPO DE ESCANCARAR MEU MELHOR SORRISO E AGRADECER A DEUS POR TUDO QUE ELE TEM FEITO.
NASCI EM 1957, NO MUNICÍPIO DE MIRADOR, ESTADO DO MARANHÃO, E ATÉ OS 05 (CINCO) ANOS DE IDADE CRESCI, JUNTAMENTE COM MEUS OITO IRMÃOS, EM UM CONTEXTO RURAL.
MINHA VISÃO DE MUNDO LIMITAVA-SE ÀS PORTEIRAS E CURRAIS DA FAZENDA MOCAMBINHO... MAS MEUS PAIS SE EMPENHARAM EM AMPLIAR ESSA VISÃO. APESAR DE NÃO TEREM QUALQUER FORMAÇÃO ESCOLAR, ELES ACREDITARAM NO VALOR DA EDUCAÇÃO E MUDARAM COM A FAMÍLIA PARA A CIDADE DE COLINAS, ONDE EU E MEUS IRMÃOS PUDEMOS INICIAR NOSSOS ESTUDOS.
DE COLINAS, FELIZ E ORGULHOSO, RELEMBRO A VIDA SIMPLES E HUMILDE NA RUA DUQUE DE CAXIAS, TRADICIONAL RUA DO FOGOSO, A CONVIVÊNCIA FRATERNA COM OS IRMÃOS E OS AMIGOS. COM OS IRMÃOS, DIVIDINDO O PÃO DE CADA DIA E ALIMENTANDO SONHOS E ESPERANÇAS. COM OS AMIGOS, COMPARTILHANDO BRINCADEIRAS SAUDÁVEIS E MOMENTOS DE ENTRETENIMENTOS PRÓPRIOS DA IDADE, ORA JOGANDO PELADAS, EMPINADO PIPA E ORA COLHENDO MANGAS NOS FUNDOS DOS QUINTAIS.
PARA OS INCRÉDULOS QUE PORVENTURA OBSERVASSEM MEU CONTEXTO, O DIA DE HOJE E TUDO O QUE ELE REPRESENTA PARECERIA IMPROVÁVEL. MAS PARA DEUS NÃO HÁ IMPOSSÍVEIS. É O QUE POSSO TESTEMUNHAR, QUANDO CONSIDERO TODOS OS SEUS MARAVILHOSOS FEITOS. FOI ELE QUEM ME SUSTENTOU E ME DEU SONHOS E ABRIU AS PORTAS CERTAS.
EM 1968, A PRIMEIRA DELAS FOI ABERTA. TIVE O FELIZ PRIVILÉGIO DE INTEGRAR O CORPO DISCENTE DO CENTRO INTEGRADO DE EDUCAÇÃO DE COLINAS, O CINEC, DIRIGIDO PELO QUERIDO E VANGUARDISTA PROFESSOR JOSÉ MANOEL DE MACEDO COSTA. A ESCOLA DESTACOU-SE POR SUA EXCELÊNCIA NO ESTADO DO MARANHÃO E FOI OBJETO DE REPORTAGEM PELA REVISTA VEJA, NA DÉCADA DE 60, QUE ENALTECEU SEU PROJETO INOVADOR.
TAL QUAL A FLOR DE MANDACARU, AQUELA ESCOLA NASCEU COMO MARCO DE VIDA, EM MEIO ÀS AGRURAS E DIFICULDADES DO INTERIOR NORDESTINO. COMO MANANCIAL NO DESERTO, AQUELA FONTE DE SABER NOS SACIAVA E ESTIMULAVA A SEGUIR EM BUSCA DE NOVOS HORIZONTES.
NÓS, ALUNOS, FICAMOS MARCADOS PELO IDEAL DE BUSCA INCESSANTE PELO SABER, TÃO BEM FRISADO NA INSPIRADORA LETRA DO HINO DA REPÚBLICA ESTUDANTIL COLINENSE, DE AUTORIA DO SAUDOSO MAESTRO E PROFESSOR JUAREZ MACEDO E SEMPRE ENSINADO COM DEVOÇÃO PELA NOSSA QUERIDA PROFESSORA DE EDUCAÇÃO ARTÍSTICA, HOJE MESTRE EM PRÁTICA DE ENSINO, PELA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO, PARA MIM, SEM DESMERECER SUAS INÚMERAS CONQUISTAS, MINHA QUERIDA PROFESSORA ESTELA ROSA.
TOMADO PELA SAUDADE PEÇO VÊNIA PARA LEMBRAR EM VOZ ALTA UMA ESTROFE DAQUELE CANTO QUE EXALTAVA O SABER:
"COLINENSES DE PÉ CONTEMPLAI
O NOVO SOL NO HORIZONTE A NASCER
ENTRE OS VERDES DAS NOSSAS COLINAS
VAI SURGINDO O FAROL DO SABER ".
COM O SUCESSO DA INOVADORA PROPOSTA PEDAGÓGICA E RECONHECIMENTO DE PROPORÇÃO ESTADUAL E NACIONAL, O PROFESSOR JOSÉ MANOEL DE MACEDO COSTA FOI CONVIDADO PELO GOVERNO DO ESTADO PARA COMPOR O GRUPO RESPONSÁVEL PELA IMPLANTAÇÃO DO CENTRO EDUCACIONAL DO MARANHÃO - CEMA, PERÍODO QUE A ESCOLA PASSOU A SER DIRIGIDA PELO JUIZ DE DIREITO DA CIDADE QUE TAMBÉM LECIONAVA AS DISCIPLINAS DE FRANCÊS, HISTÓRIA GERAL E O.S.P.B., FALO DO SAUDOSO MAGISTRADO, DIRETOR E MESTRE DR. JETRO SUL DE MACEDO, NATURAL DE PEDRO II - PI, EXEMPLO DE MAGISTRADO, PAI E MESTRE. HOMEM DE VASTO CONTEÚDO SÓCIO-HUMANÍSTICO.
A MINHA RELAÇÃO COM O PIAUÍ TEVE INÍCIO AINDA NA DÉCADA DE 70, QUANDO, AOS QUINZE ANOS AQUI CHEGUEI E FUI ACOLHIDO PELA FAMÍLIA GOMES CALADO, QUE TEM NAS PESSOAS DO SAUDOSO VILMAR VASCONCELOS E DEUSELITA CALLADO DE VASCONCELOS, ESTA AQUI PRESENTE, MARIDO E MULHER, OS SEUS REPRESENTANTES.
MESMO NUNCA TENDO SAÍDO DO SEIO DE MINHA FAMÍLIA, NÃO FOI DIFÍCIL ADAPTAR-ME AO NOVO MUNDO QUE PASSEI A VIVER, FACE TER A FAMÍLIA QUE ME ABRIGAVA EM SOLO PIAUIENSE OS MESMOS VALORES QUE ALICERÇAVAM A FORMAÇÃO DA MINHA PERSONALIDADE.
COM A MUDANÇA DE MEUS ANFITRIÕES PARA BRASÍLIA, FUI MORAR NO CENTRO DE PROMOÇÃO JUVENIL, DIRIGIDO PELO SAUDOSO PROFESSOR, JORNALISTA, SOCIÓLOGO, FILÓSOFO E TEÓLOGO, PADRE JAIME DE ALBUQUERQUE NEGROMONTE, CUJOS ENSINAMENTOS E EXEMPLOS MARCARAM INDELÉVEL NA FORMAÇÃO DO MEU CARÁTER.
NESSE TEMPO, PUDE CONCLUIR O SEGUNDO GRAU, ATUAL ENSINO MÉDIO, NO LICEU PIAUIENSE.
AS PORTAS CONTINUAVAM A SE ABRIR. APROVADO NO VESTIBULAR DA UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA, SEGUI PARA A CAPITAL DAQUELE ESTADO, ONDE NO ANO DE 1980 ME GRADUEI EM DIREITO. TAMBÉM, PELA UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA, GRADUEI-ME EM LICENCIATURA PLENA EM ADMINISTRAÇÃO, CONTABILIDADE E SECRETARIADO.
AINDA EM JOÃO PESSOA, FUI PROFESSOR DA DISCIPLINA "DIREITO E CONTABILIDADE" NA ESCOLA TÉCNICA ESTADUAL OSVALDO PESSOA. COMO O BOM FILHO A CASA RETORNA E COMO DIRIA O POETA "REGRESSAR É REVIVER E NA VOLTA A GENTE NUNCA SE PERDE", VOLTEI PARA O MEU ESTADO, ONDE ATUEI COMO ADVOGADO DA SECRETARIA DO INTERIOR DO ESTADO DO MARANHÃO. NESTA OPORTUNIDADE, REGISTRO, AINDA, O APRENDIZADO E A EXPERIÊNCIA QUE ADQUIRI, DURANTE QUASE DOIS ANOS, COMO ADVOGADO DA FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES RURAIS DO ESTADO DO MARANHÃO-FETAEMA, OS QUAIS COLABORARAM PARA MINHA FORMAÇÃO PROFISSIONAL E A CONQUISTA DA MINHA APROVAÇÃO NO CONCURSO DO MINISTÉRIO PÚBLICO DO PIAUÍ.
EM 1983 FUI APROVADO NO CONCURSO DO MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PIAUÍ E PUDE RETORNAR PARA ESTE ESTADO, QUE ADOTEI COMO MEU LAR, POIS FOI AQUI QUE ME DESENVOLVI PROFISSIONALMENTE E TAMBÉM AQUI NASCERAM MINHA AMADA ESPOSA E MEUS TRÊS FILHOS.
COMO MEMBRO DO MINISTÉRIO PÚBLICO, TRABALHEI NA DEFESA DA ORDEM JURÍDICA, DO REGIME DEMOCRÁTICO E DOS INTERESSES SOCIAIS E INDIVIDUAIS INDISPONÍVEIS. FUI TITULAR DAS PROMOTORIAS DE GUADALUPE, PAULISTANA, JOSÉ DE FREITAS, PIRIPIRI E TERESINA (ONDE RESPONDI PELA 5a VARA CRIMINAL E PELA CURADORIA DA INFÂNCIA E JUVENTUDE). ATUEI, AINDA, NAS COMARCAS DE COCAL, PARNAÍBA E PIRACURUCA.
ENQUANTO PROMOTOR DE JUSTIÇA, COORDENEI O CENTRO DE APOIO OPERACIONAL DAS PROMOTORIAS DA INFÂNCIA E DA JUVENTUDE E ASSESSOREI O CORREGEDOR GERAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO DR. ANTÔNIO GONÇALVES VIEIRA.
NOS ÚLTIMOS ANOS, EXERCI O CARGO DE PROCURADOR DE JUSTIÇA, ONDE ATUEI NAS CÂMARAS REUNIDAS CÍVEIS E CRIMINAIS E NA Ia CÂMARA CRIMINAL, DESTE EGRÉGIO TRIBUNAL.
HOJE PREENCHO A VAGA DESTINADA AO QUINTO CONSTITUCIONAL RESERVADO AO MINISTÉRIO PÚBLICO, PREVISTO NA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA, EM SEU ART.94. INGRESSO NO PODER JUDICIÁRIO COM O MESMO ENTUSIASMO COM QUE ENTREI NO MINISTÉRIO PÚBLICO, A QUASE 30 (TRINTA) ANOS.
O TEMPO, COM SUAS FRUSTRAÇÕES E DESALENTOS, NÃO FOI SUFICIENTE PARA DESTRUIR MEUS SONHOS E MINHA CRENÇA NA JUSTIÇA E NO BEM.
AO LONGO DOS ANOS DE CARREIRA, CONHECI AS MAIS DIFERENTES PARTES, LITIGANDO NAS MAIS DIFERENTES CAUSAS, OBTENDO AS MAIS VARIADAS RESPOSTAS DO PODER JUDICIÁRIO.
APRENDI QUE:
- MAIS QUE ARGUMENTOS OU DISPOSIÇÕES LEGAIS, AS PEÇASPROCESSUAIS TRAZEM SENTIMENTOS, EXPECTATIVAS,
SONHOS, DESEJOS;
- PARTES SÃO PESSOAS, APRESENTANDO SUAS RAZÕES,ESPERANÇOSAS DE QUE O ESTADO AS AMPARE E CRENTES DEQUE A JUSTIÇA PREVALEÇA;
  • A LIBERDADE É O BEM MAIS VALIOSO E, POR ISSO MERECE O MAIS FINO TRATO. PORTANTO, DEVO EMPENHAR-ME AO MÁXIMO EM GARANTIR O CONTRADITÓRIO E A AMPLA DEFESA, CUIDANDO PARA QUE A PRISÃO NÃO SE SUSTENTE EM DÚVIDAS;
  • A IMPARCIALIDADE DEVE VIR ASSOCIADA À MODERAÇÃO;
- O BOM JULGADOR É, ANTES DE TUDO, UM ATENTOOBSERVADOR E OUVINTE, UM CUIDADOSO LEITOR, QUE VAIALÉM DAS LINHAS, SEM, CONTUDO, FUNDAMENTAR-SE EMFATOS ESTRANHOS AO PROCESSO.
COMO SÓCRATES JÁ DIZIA: "TRÊS COISAS DEVEM SER FEITAS POR UM JUIZ: OUVIR ATENTAMENTE, CONSIDERAR SOBRIAMENTE E DECIDIR IMPARCIALMENTE."
- DIANTE DOS CONFLITOS ENTRE VALORES E DIREITOS,DEVEMOS PESÁ-LOS CUIDADOSAMENTE, OBSERVANDO-OS NOCASO CONCRETO E PONDERANDO COM EQUILÍBRIO O JURISTA LUÍS ROBERTO BARROSO, AO DIRIGIR-SE A UMA TURMA DE FORMANDOS CERTA VEZ, DISSE:
"A JUSTIÇA NÃO É INCOMPATÍVEL COM O PERDÃO, COM A COMPAIXÃO, COM A SOLIDARIEDADE ÀS VIDAS QUE NÃO DERAM CERTO. OUVI DE UM GRANDE JUIZ A SEGUINTE CONFISSÃO: 'AO LONGO DA VIDA, JÁ ME ARREPENDI DE TER SIDO JUSTO, MAS NUNCA DE TER SIDO BOM'. A JUSTIÇA NÃO É FEITA DE CERTEZAS ABSOLUTAS OU DE VERDADES PLENAS. A VIDA TEM MUITOS PONTOS DE OBSERVAÇÃO. ÀS VEZES, CADA UM TERÁ DÚVIDA INTERNA REAL SOBRE O QUE É CERTO E JUSTO."
O CONSTITUINTE, PREOCUPADO EM PRESERVAR OS VALORES MAIS CAROS DE NOSSO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO, ESTABELECEU NO ART. 60, § 4o, DA CONSTITUIÇÃO, A FORMA FEDERATIVA DE ESTADO; O VOTO DIRETO, SECRETO, UNIVERSAL E PERIÓDICO; A SEPARAÇÃO DOS PODERES; E OS DIREITOS E GARANTIAS INDIVIDUAIS COMO CLÁUSULAS PÉTREAS. HOJE ELEJO COMO CLÁUSULAS PÉTREAS DE MINHA VIDA: A HUMILDADE, A FÉ NO DEUS SOBERANO, A IMPARCIALIDADE NO JULGAR.
NUNCA QUIS SER O PRIMEIRO, NEM O ÚLTIMO. MINHA META FOI SEMPRE ESTAR NO MEU LUGAR, NO TEMPO DETERMINADO POR DEUS, TRABALHANDO COM DISCRIÇÃO E EMPENHO. NÃO LUTEI POR DESTAQUE OU RECONHECIMENTO. O FATO DE EU ESTAR AQUI, DIANTE DOS SENHORES, SENDO RECEBIDO POR ESTA ALTA CORTE, NA RESPEITÁVEL FUNÇÃO DE DESEMBARGADOR, É APENAS A CONSEQÜÊNCIA NATURAL DE ANOS DE DEDICAÇÃO À JUSTIÇA, RECONHECIDA OPORTUNAMENTE PELOS MEUS COLEGAS DO MINISTÉRIO PÚBLICO QUE ME HONRARAM FAZENDO CONSTAR MEU NOME NA LISTA SÊXTUPLA; PELOS MEMBROS DESTA CORTE, ATUALMENTE MEUS PARES, QUE, PRATICAMENTE, À UNANIMIDADE, INCLUÍRAM MEU NOME NA LISTA TRÍPLICE, E, POR ÚLTIMO, PELO EXCELENTÍSSIMO SENHOR GOVERNADOR DO ESTADO, DR. WILSON NUNES MARTINS.
CREIO QUE A MINHA ESCOLHA REPRESENTA A CONCRETIZAÇÃO DOS PLANOS QUE DEUS SONHOU PARA MIM, ANTES MESMO QUE EU FOSSE FORMADO NO VENTRE DE MINHA MÃE. NÃO ME TORNO MAIOR OU MAIS IMPORTANTE. VEJO ESTE MOMENTO COMO MAIS UMA ETAPA DE MINHA MISSÃO ENQUANTO SERVO DA JUSTIÇA E DO DIREITO. AGORA, MAIS DO QUE NUNCA, TENHO A RESPONSABILIDADE DE SERVIR À SOCIEDADE, ESFORÇANDO-ME PARA APRESENTAR RESPOSTAS JUSTAS E EQUILIBRADAS ÀS MAIS DIVERSAS E INUSITADAS SITUAÇÕES QUE BATEM AS PORTAS DO JUDICIÁRIO E ZELAR PELA PAZ SOCIAL.
OS COLEGAS JUÍZES AQUI PRESENTES SABEM BEM O PESO DESTA RESPONSABILIDADE.
CALAMANDREI CONSEGUE DESCREVER TAL CARGA:
"CONHECI UM QUÍMICO QUE, QUANDO NO SEU LABORATÓRIO DESTILAVA VENENOS, ACORDAVA AS NOITES EM SOBRESSALTO, RECORDANDO COM PAVOR QUE UM MILIGRAMA DAQUELA SUBSTÂNCIA BASTAVA PARA MATAR UM HOMEM. COMO PODERÁ DORMIR TRANQÜILAMENTE O JUIZ QUE SABE POSSUIR, NUM ALAMBIQUE SECRETO, AQUELE TÓXICO SUTIL QUE SE CHAMA INJUSTIÇA E DO QUAL UMA LIGEIRA FUGA PODE BASTAR, NÃO SÓ PARA TIRAR A VIDA, MAS, O QUE É MAIS HORRÍVEL, PARA DAR A UMA VIDA INTEIRA INDELÉVEL SABOR AMARGO, QUE DOÇURA ALGUMA JAMAIS PODERÁ CONSOLAR?"
ATÉ AQUI A SIMPLICIDADE FOI A TÔNICA DE MINHA VIDA. CARREGO OS VALORES DO CAMPO, AS MARCAS DAS MUDANÇAS, AS EXPERIÊNCIAS DA VIDA. CONTINUO O MESMO MENINO DO INTERIOR, O MESMO HOMEM DE CHAPÉU, O MESMO ESPOSO E PAI. SE FOI COM HUMILDADE QUE CHEGUEI ATÉ AQUI, É ASSIM QUE PRETENDO CONTINUAR.
DEPOIS DE MAIS DE TRÊS DÉCADAS DE CONVIVÊNCIA COM ESSE VALOROSO POVO PIAUIENSE, SINTO-ME COMO FILHO DA TERRA, CONTERRÂNEO DE PIAUIENSES ILUSTRES DO PRESENTE E DO PASSADO TAIS COMO O JORNALISTA CARLOS CASTELO BRANCO - "O CASTELINHO", TORQUATO NETO, MARIO FAUSTINO, EVANDRO LINS E SILVA, MIN. REIS VELOSO; ALBERTO SILVA, PETRÔNIO PORTELA, DA COSTA E SILVA, ESTE QUE TÃO BEM CANTOU AS BELEZAS DO RIO PARNAÍBA, BELO RIO, VELHO MONGE, MANANCIAL QUE NAS PALAVRAS DO PRESIDENTE JOSÉ SARNEY "NÃO SEPARA, MAS UNE ESSES DOIS ESTADOS". CONFESSO QUE ME SINTO, ÀS VEZES, VERDADEIRAMENTE UM HOMEM DIVIDIDO ENTRE O PIAUÍ E MARANHÃO. UMA METADE PERTENCENDO AO PIAUÍ E A OUTRA AO MARANHÃO, NÃO SABENDO EU IDENTIFICAR QUAL DAS METADES PERTENCE AO PIAUÍ, SE A QUE ESTÁ COM A RAZÃO OU A QUE ESTÁ COM CORAÇÃO. A GEOGRAFIA, EM MEU SOCORRO, FELIZMENTE, RESPONDE À MINHA AFLIÇÃO ME PERMITINDO DIZER QUE PERTENÇO AO MEIO NORTE DO BRASIL.
CONHEÇO A REALIDADE HUMILDE DO POVO DESTE ESTADO. SINTO-ME BEM AO CONVERSAR COM OS SIMPLES, MESMO ESTANDO ENTRE OS NOBRES. INGRESSO NESTA CORTE COM O PROPÓSITO DE SOMAR ESFORÇOS COM MEUS PARES PARA DAR CONTINUIDADE À PROPOSTA DE GARANTIR A TODOS, INDISTINTAMENTE, E DE FORMA CÉLERE, O ACESSO À JUSTIÇA.
TOMO COMO LEMA A MENSAGEM DO MESTRE DOS MESTRES, QUANDO INSTRUÍA: "SE ALGUÉM QUER SER GRANDE SEJA ESTE QUE SIRVA."
AGRADEÇO A DEUS, POIS SEM ELE, EU NÃO ESTARIA AQUI. A ELE, POIS, SEJA SEMPRE TODO O LOUVOR!
AOS MEUS PAIS, ANTÔNIO ALVES DE SOUSA, SEMPRE ETERNO EM MINHA MEMÓRIA, HOMEM SIMPLES, UM HOMEM DO CAMPO QUE MESMO SEM ESTUDO, FOI UM HOMEM SÁBIO, QUANDO ACREDITOU NO ESTUDO E NO TRABALHO COMO A RECEITA IDEAL PARA EDUCAÇÃO DOS FILHOS. CÂNDIDA DE ALMEIDA SOUSA, PURA COMO SEU NOME, TAMBÉM SÓ ACREDITAVA NO BEM. SUA PUREZA D'ALMA, GENEROSIDADE E AMOR AO PRÓXIMO ERA TAMANHA QUE EXTRAPOLAVA OS LIMITES DO LAR, DA FAZENDA E DA CIDADE, ONDE PASSOU MAIOR PARTE DE SUA VIDA, COLINAS. O DOM DA PARTILHA E O AMOR AO PRÓXIMO SEM DÚVIDA FORAM SEUS MAIORES LEGADOS AOS FILHOS.
À MINHA IRMÃ, HILDA, E AO ESPOSO FAID, POSSO DIZER QUE ELA SE HOUVE COM MUITA COMPETÊNCIA NO POSTO DE IRMÃ PRIMOGÊNITA, NA PROTEÇÃO DOS MAIS NOVOS, NOS DANDO UM CUNHADO QUE MAIS QUE CUNHADO EM ALGUNS MOMENTOS FOI UM IRMÃO MAIS VELHO, EM OUTROS PAI, AMIGO, ETC.
AOS MEUS IRMÃOS HILTON, HILZA, MILDENIR, HIANIR, HILSONIR, HILMAR E KÁTIA QUE SEMPRE ESTIVERAM PRESENTES EM MINHA VIDA.
AOS CUNHADOS FRANCISCO, RAIMUNDO BRANDÃO E ANTÔNIO DE GUIMARÃES OLIVEIRA. ÀS CUNHADAS MARIA CELESTE E JESUS. AO MEU PRIMO JUCELINO FERRO. AO MEU PRIMO E COMPADRE JOSIMAR FARIAS.
AO MEU SOGRO, ANTÔNIO JOSÉ DA SILVA, QUE ME ACOLHEU EM SUA FAMÍLIA COMO O VERDADEIRO FILHO.
AO MEU AMIGO DE INFÂNCIA E COMPADRE JOSÉ BARROSO FEITOSA.
AO PROFESSOR JOSÉ MANOEL DE MACEDO COSTA, QUE ME DESPERTOU PARA AS LETRAS E ME DEU ASAS PARA SONHAR.
À FAMÍLIA CALADO, REPRESENTADA AQUI NA PESSOA DA DONA DEUSELITA GOMES CALLADO, PELA FORMA CARINHOSA COM QUE ME ACOLHERAM, QUANDO EU ERA APENAS UM MENINO SIMPLES DO INTERIOR.
AO PADRE JAIME, ENTRE NÓS EM MEMÓRIA, QUE FOI COMO UM PAI EM MINHA JUVENTUDE.
AOS AMIGOS DO MINISTÉRIO PÚBLICO, COMPANHEIROS DE LUTA, COM QUEM PUDE TER UMA CONVIVÊNCIA HARMÔNICA EM TODOS ESSES ANOS.
RESERVO-ME, AGORA, A UMA SAUDAÇÃO ESPECIAL AOS NOVOS COMPANHEIROS COM OS QUAIS DIVIDIREI A RESPONSABILIDADE DE DISTRIBUIR JUSTIÇA. ESTAREI ATENTO À EXPERIÊNCIA E AO ENSINAMENTO DE CADA UM DE VOSSAS EXCELÊNCIAS. E EM NOME DE VOSSAS EXCELÊNCIAS, SAÚDO O POVO PIAUIENSE, QUE ME ACOLHEU DESDE OS TEMPOS DE ESTUDANTE SECUNDARISTA. DO TAMBÉM AMIGO E CONTERRÂNEO DR. TRAJANO BRANDÃO, IRMÃO DO DESEMBARGADOR SEBASTIÃO MARTINS, MEMBRO DESTA CORTE.
AGRADEÇO E REGISTRO, AINDA, A PRESENÇA DOS MEUS AMIGOS E CONTERRÂNEOS:
DR. JOSÉ RIBAMAR DOS SANTOS BONFIM.
DR. HIEDO LOBÃO, CONSELHEIRO DO TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO DO MARANHÃO.
RAIMUNDO JOSÉ DA SILVA RAMOS, "MEMEU".
PROFESSORA NONATA SILVA E SOBRINHA MARTINHA AQUI REPRESENTANDO SUA MÃE NOSSA QUERIDA PROFESSORA ESTELA ROSA
MEUS AMIGOS DE INFÂNCIA DR. RICARDO MODESTO DE OLIVEIRA FILHO, DR. DIOGO PEREIRA VARÃO, DR. HILSON FONSECA, CORONEL TORRES, ANTÔNIO FONSECA, LUIZ GONZAGA FONSECA, JOSÉ HENRIQUE BRANDÃO.
AO MEU ESTIMADO AMIGO E CUMPADRE NATAN PINHEIRO.
A DESEMBARGADORA EULÁLIA RIBEIRO GONÇALVES DO NASCIMENTO, MINHA AMIGA E COMADRE, E DR. MANOEL DE SOUZA MARTINS, AMIGO E CUMPADRE, PELA AMIZADE SINCERA E POR ME OMBREAREM NESTA LUTA.
AO DESEMBARGADOR ERIVAN LOPES, HOMEM DE INÚMERAS VIRTUDES, TAMBÉM EGRESSO DO MINISTÉRIO PÚBLICO E QUE DESDE O INÍCIO DA MINHA CAMINHADA ESTEVE AO MEU LADO.
AO PRESIDENTE DESTA CORTE DESEMBARGADOR EDVALDO MOURA E AO EXCELENTÍSSIMO SENHOR GOVERNADOR WILSON MARTINS, PELO VOTO DE CONFIANÇA QUE DEPOSITARAM EM MIM. VOCÊS SÃO EXEMPLOS DE HOMENS DE CORAGEM E FORÇA, QUE MUITO ME INSPIRAM.
A MINHA ESPOSA EDILEUZA MARIA SILVA DE ALMEIDA. AQUELA COM QUEM PUDE PASSAR A MAIOR PARTE DE MEUS DIAS, COMPARTILHANDO ALEGRIAS E TRISTEZAS. AQUELA QUE HONRA OS VOTOS FEITOS EM NOSSO CASAMENTO E QUE ME PRESENTEOU COM TRÊS MARAVILHOSOS FILHOS: ANDRÉ, ALINE E HILO SEGUNDO. VOCÊS SÃO BÊNÇÃOS DE DEUS EM MINHA VIDA.
A TODOS OS FAMILIARES E AMIGOS E AOS COLEGAS QUE COMPARECERAM AQUI ESTA NOITE TÃO BONDOSAMENTE.
MINHAS SENHORAS E MEUS SENHORES, MOMENTO COMO ESTE ME FAZ ACREDITAR, MAIS AINDA, QUE O HOMEM NÃO NASCEU PARA SER SOZINHO. COMO SER SOCIAL, PRECISA AMAR, SER AMADO, COEXISTIR EM SOCIEDADE. TÊ-LOS AQUI AO MEU LADO ENCHE-ME DE ALEGRIA E FAZ COM QUE ME SINTA UM HOMEM ABENÇOADO. 
(*) Discurso de posse do Des. Hilo de Almeida Sousa, ocorrida no dia 02/03/2012, no auditório do Tribunal de Justiça do Piauí, em que se fizeram presentes seus familiares e amigos, além de altas autoridades do Piauí e do Maranhão, seu estado natal.