domingo, 26 de fevereiro de 2012

rimance da baleia


Álamo Oliveira
Poeta angolano

estava dona baleia
a regar o seu jardim
com seu repuxo de prata
e sorriso de alfenim
quando o foguete estalou
lá do alto da vigia
anunciando a caça...
(que susto santa maria!)
dona baleia – coitada! –
logo parou de aguar
as algas que floriam
bem à tona do mar.
é então que a tristeza
o medo a aflição
saltam do cais dos olhos
aos ombros do coração.
um grito aberto se ouve
em eco de mar perfeito:
- baleia à vista! baleia!
pão-nosso de qualquer jeito!
e lá vai dona baleia
fugindo pra não morrer.
- deus a salve do arpão!
deus a queira proteger!

ai pobre dona baleia
como te custa viver!

mar manso todo rasgado
baba de espuma à quilha.
dona baleia procura
escapar da armadilha
que é o arpão voador
anjo de ferro esguio.
- foge foge meu amor
até às águas do frio!
só aí te sei segura
a regar o teu jardim
com o teu repuxo de prata
e sorriso de alfenim.
mas a canoa da morte
corre depressa demais.
daqui lhe aceno a vida
feito pedrinhas do cais.
e grito seu nome d'água
(seu matador quem será?).
- procura quantos te amam:
jonas deus iemanjá!
de nada lhe serve o grito.
nada mais posso fazer.
o arpão lá vai direto
no seu peito embater.

ai pobre dona baleia
como te custa viver!

morreu dona baleia
arpada de ódio velho.
todo o silêncio do mar
ficou tinto de vermelho.
gritam as garças ao vento.
os peixes choram também.
envolta em lençol de sangue
dona baleia lá vem
arrastada até o cais.
seu corpo esquartejado
nas caldeiras derretido
dá o pão amargurado.
e alguém há-de gravar
nos seus dentes de marfim
o barco que a perseguiu
o arpão que lhe deu fim.
no céu as aves e as nuvens
correm do sul para o norte.
sobre o mar e sobre a ilha
paira o silêncio da morte.
e há um poeta branco
à minha porta a bater.
não vou abri-la não vou!
já sei o que vem dizer...

ai pobre dona baleia
como te custa viver!

à costa como um poema
a desfazer-se na areia
vieram cinco marés
chorar a dona baleia.
duas choravam espuma
- branca nuvem de verão.
traziam como homenagem
um búzio em cada mão.
as outras duas chegaram
fracas de tanto chorar.
tanto sal nas suas lágrimas!
tanto sal e tanto mar!
a quinta maré não chora.
traz apenas no regaço
um grande ramo de algas
amarrado com um laço.
deixa-o deposto na costa...
de seguida reza e canta.
são cantigas de saudade
versos presos na garganta.
desfeitas são as marés.
eram cinco sois a arder
cinco talhadas da lua
que deus lhe quis oferecer.

agora dona baleia
já não lhe custa viver.

(*) Poema extraído da excelente revista Caderno de Literatura, publicada pela Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul – AJURIS, na qual tive a honra de ter poemas publicados, em número anterior. Publiquei esse belo poema porque ele mostra até onde pode chegar a maldade e a covardia do ser humano.
Elmar Carvalho

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

DIÁRIO INCONTÍNUO

Olavo Filho, Reginaldo Miranda e Elmar




24 de fevereiro

PAISAGEM CULTURAL E PRESERVAÇÃO ARQUITETÔNICA EM CAMPO MAIOR

Elmar Carvalho

Estivemos na Academia Piauiense de Letras o arquiteto Olavo Pereira da Silva Filho e eu para tratarmos de evento cultural com o seu presidente, o historiador Reginaldo Miranda, cujo evento será promovido pela APL, com o apoio da Academia de Letras do Vale do Longá e da Academia Campomaiorense de Artes e Letras, presididas, respectivamente, pelos intelectuais Itamar Abreu Costa e João Alves Filho.

Ficou deliberado que a solenidade cultural acontecerá no dia 24 de março, sábado, às 10 horas, no auditório da APL. Olavo Filho, uma das maiores autoridades sobre o patrimônio arquitetônico do estado, seja na área urbana ou rural, discorrerá sobre a importância artística, histórica e cultural dos casarões e outros prédios de Campo Maior, bem como falará sobre a relevância de esse patrimônio ser declarado como paisagem cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Na oportunidade correrá um requerimento para concessão dessa chancela de paisagem cultural do IPHAN, a ser assinado por todos os presentes que o desejarem, para posterior entrega à autoridade competente. O conferencista é autor do excelente livro “Carnaúba, Pedra e Barro na Capitania de São José do Piauhy”, que lhe custou mais de duas décadas de pesquisas, reflexões e várias viagens aos diferentes sítios das construções, para observações e vistorias.

Todo esse esforço lhe possibilitou a elaboração das belas e profusas fotografias e ilustrações, que permeiam toda a obra, que constitui, dessa forma, um verdadeiro álbum, diria mesmo uma obra de arte. Foi por essas e outras razões – inclusive a inserção de dados e contextualização históricos, além da parte ensaística referente ao urbanismo e arquitetura, nesta incluídos os solares e sobrados das urbes, as casas grandes das fazendas e as casas simples, de taipa e cobertura de palha, dos vaqueiros e agregados – que “Carnaúba, Pedra e Barro na Capitania de São José do Piauhy” arrebatou importante premiação nacional.

O MAR (CONTEMPLAÇÃO)


ALCIONE PESSOA LIMA

Contemplo o mar somente para pensar na vida...
E a vida segue o seu curso...
Ondas quebram sufocando a alma...
E escrevo na areia as minhas angústias...
Ouço o lamento daquelas águas...
Sinto a pulsação de tantas vidas aos meus pés...
O horizonte é apenas a linha de meus sonhos...
Até posso vê-los, embora pareçam tão distantes...
Não desejo acordar desse sono profundo
Em que sinto a felicidade tão de perto.
Pareço uma criança correndo pela areia e catando conchas...
Saltando as ondas como se fossem os obstáculos da vida...
Aqui é o meu ponto de parada.
Uma estada breve para imaginar os caminhos que ainda percorrerei...
 Percebo, ao seguir viagem, molhando os pés,
Que os meus rastros não apagados, como em minha mente...
À frente, tudo parece novo.
Sigo, então, por uma trilha imaginária, sob o sol do entardecer...
E um barco ao longe me diz que navegar e preciso...
Mesmo que o destino nos faça seguir sozinho.
O mar é para mim como se fosse um afago do seu Criador...
 Um gestou de amor sem limites...

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Flagrante futebolístico do Gervásio Castro


Texto e charge: Gervásio Castro

Não é muito confortável sentar o cacete no cara, porque ele parece ser gente boa, é discreto, tem comportamento exemplar e é um profissional dedicado, mas time que tem Deivid não precisa de adversário. Ao sair do campo, depois de perder o gol mais feito do planeta, fez outra "eme" ao declarar: "só acontece com quem está lá!"
Na minha opinião, só acontece com quem não deveria estar lá.

Será o Fim do Mundo?


José Maria Vasconcelos 
josemaria001@hotmail.com

Se depender das produções cinematográficas, do Globo Repórter focalizando famílias recolhidas em refúgios paradisíacos, da apreensão dos ambientalistas, estou frito. Todos os seres vivos estamos fritos.
Ambientalistas e brigadas apocalípticas não podem assistir a um degelo ou fúria da natureza, logo apregoam o fim dos tempos. Apreensão tanta, ao ponto de atribuir peidos de vaca como provocadores do efeito estufa. Os mais apressados anunciam até a data da fatalidade planetária: dezembro de 2012, baseados no calendário maia. Fundam-se seitas religiosas só para aguardar os últimos dias.
Datas fatalísticas vêm de longas datas. Nos primeiros séculos do cristianismo, pensadores, como Tertuliano, anunciavam o fim do mundo antes do ano 1000, bem como Sto. Agostinho, em seu livro "A Cidade de Deus", apontava a segunda vinda de Cristo para final do primeiro milênio. Esses e outros visionários, chamados de quiliastas ou milenaristas, propunham atitudes radicais de abandono da vida material. Pregadores apaixonados, visionários de Maria e messias do sertão comovem multidões, indicando dia e hora do Juízo Final com risíveis premonições.
Como adepto de Cristo, só acredito nas informações apocalípticas que se encontram nos evangelhos. A profecia sobre o final dos tempos refere-se a dois períodos históricos bem distantes e distintos, que se compactam, provocando alguns mistérios e dúvidas: o primeiro estágio estabelece a destruição de Jerusalém, seguida da dispersão do povo judeu; o segundo, a agonia dos povos e do sistema solar, acompanhada de terríveis tragédias.
A primeira parte da profecia cumpriu-se à risca: Jerusalém foi totalmente destruída, ano 72, não ficando “pedra sobre pedra” - conforme predissera Jesus. Flávio Josefo, cronista das legiões romanas, durante o cerco e destruição de Jerusalém, relatou episódios que confirmam detalhes da profecia. O comandante Túlio, mais tarde imperador romano, exigiu que a cidade santa se entregasse, para não ocorrer derramamento de sangue. As forças israelenses não recuaram. Túlio, então, fechou todas as portas dos muros da cidade, não permitindo qualquer saída ou entrada de pessoas, de água e provimentos. Jesus predissera:"Quem estiver no campo não entre na cidade...E os da cidade fujam”(Lucas, 21, vers.20).
Após seis meses de cerco, as legiões romanas invadiram Jerusalém. Os judeus mal dispunham de alimentos para os seus soldados. Corpos apodreciam, gente faminta atacava as mulheres, chupava-lhes os seios em busca de líquido ou devorava-lhes os filhos. A profecia rezava: “Ai das mulheres que estiverem grávidas ou amamentando, pois haverá grande angústia e ira contra o povo”(Lucas, 21). Quando li os relatos de Flávio, reunidos no livro "Destruição de Jerusalém", ainda na adolescência, estremeci, perdi o sono na batalha final.

Israelenses enfrentaram a última batalha dentro do templo, uma das mais belas arquiteturas da época. Pagãos romanos naquele lugar sagrado afrontavam a fé judaica: ”Quando virdes a abominação estabelecida no lugar santo...”( Mateus,24, vers.15). Um soldado romano tocou fogo na lenha destinada ao culto e imolação. Labaredas consumiam toda a estrutura do templo. Ouro derretido caía sobre guerreiros enfurecidos.
Derrotado, o povo judeu perdeu o direito ao solo pátrio, obrigado a indesejada e humilhante diáspora, por séculos, vivendo em comunidades mundo afora, perseguido pelos povos. “Serão levados cativos para todas as nações...” Lucas, 21).
O sionismo, isto é, o retorno dos judeus à pátria, só ocorreu muitos séculos depois, em 1948, tendo que conviver com árabes palestinos e rebeldes, que ocupavam o território durante a diáspora dos judeus.
A segunda parte da profecia de Cristo, sobre o final dos tempos, fica para depois. Permanece o consolo do Mestre aos apressados visionários:" Nem os anjos do céu sabem quando ocorrerá o fim." Portanto, bananas para psicopata com cara de profeta. 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

LANÇAMENTO DE O ENCANTADOR DE SERPENTES E OUTROS VULTOS ILUSTRADOS


Será lançado nesta quinta-feira, dia 23, às 20:30 horas, no Auditório Testa Branca, na sede da Academia Parnaibana Letras, o livro O Encantador de Serpentes e Outros Vultos Ilustrados, da autoria de Pádua Santos, presidente da APAL. A apresentação do autor será feita pelo poeta, escritor e crítico literário Alcenor Candeira Filho, e a do autor pela escritora e acadêmica Amparo Coêlho. Pádua Santos é um mestre da crônica, tanto pelo conteúdo, como pelo seu estilo fluente e escorreito, em cujos textos, exceto alguns mais sérios e nos de caráter elegíaco, destila o seu criativo senso de humor, e já arrebatou importantes prêmios literários, sobretudo na categoria de contos e de crônicas. Após a sessão de autógrafo, será servido coquetel.

o cais do rio


Kenard Kruel

o cais do rio
                  é
                  dos timoneiros
                  das lavadeiras
                  dos bêbados
                  dos poetas
                  e
das putas da paissandu
(o cais do rio
se deixa possuir por todos
em suas entranhas)

no cais do rio
as putas da paissandu
(como o esperma dos homens
que as possuem a qualquer hora)
constroem seus cemitérios particulares.

Fonte: sítio A Musa Esquecida

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O relógio e o último carnaval do adolescente



CUNHA E SILVA FILHO

Fevereiro de 1964 – esta data já virou um marco histórico pessoal. De tanto repetida como divisor de águas entre duas fases da vida ou como referência a qualquer lembrança num confronto entre o passado teresinense e o presente carioca, nunca mais me vou livrar dela – ainda bem , pois sua significação, pelo menos para o colunista, é imensurável cultural e afetivamente.
Desde que comecei a entender um pouco os sinais da vida, respeitando o nível de entendimento da faixa etária e das lições de Jean Piaget (1896-1980), a festa do Rei Momo das minhas primeiras impressões me levam algumas figuras e a alguns aspectos do tempo carnavalesco na ainda acanhada Teresina dos anos cinquenta até os inícios da década de sessenta.
Um daqueles aspectos é o cenário inesquecível e contraditório dos corsos. Nem bem sabia o que queria dizer o termo “corso’ que, de resto, está vinculado a várias acepções que falam de guerra nos mares, de ataques inesperados a navios de inimigos, de beligerância, “de desfile de carros, de carruagem” (Aurélio, 1 ed., p. 391). O verbete ainda se refere a atos de pirataria (não é por acaso que, no carnaval, muitos gostam de se fantasiar de piratas), como fala do sentido do termo relativo a vagabundagem de antigos bárbaros, larápios de objetos de que se apossavam por onde desenhavam seu percurso de perambulação.
Não sei por que, na época, não perguntei a meu pai pelo sentido daquele termo, mas o problema é que, eu, pequeno, anda não me interessava por questões etimológicas, e o pior é que eu meu pai sabia italiano, aprendido no Colégio Salesiano “São Manuel,” em Lavrinhas, estado de São Paulo, onde os seus colegas de quarto eram quase todos da Cidade Eterna. A tradução para o termo italiano “corso”, que quer dizer “curso, corrida, avenida principal, rua principal, desfile” está muito ligada ao que ocorria na folia carnavalesca em Teresina.
Naqueles carnavais de minha terra, em se tratando de cenas de ruas, a grande expectativa do povão era permanecer nos dois lados da “Avenida Frei Serafim, ou de outras ruas para esse fim escolhidas, aguardando, como fazia, em tom solene, nos dias de desfiles de Sete de Setembro. A alegria dos espectadores, debaixo de sol intenso, era ver os carros dos opulentos da época, lotados de gente fantasiada ou simplesmente vestida com elegância a fim de demonstrar poder econômico e alto nível social. Possuir carro naquela época em Teresina não era para muita gente. Ali se viam nos carros elegantes ou menos elegantes, gente bonita da sociedade teresinense, toda sorridente mais parecendo a cortejo da família imperial inglesa diante da multidão monarquista... Pobre ali não comparecia em carros. Eram apenas, em sua grande maioria, os espectadores simples figurantes da folia dos despossuídos vagabundos que encontramos em contos de João Antônio (1937-1996).
Outro cenário contrastante no carnaval teresinense era o desfile em carrocerias engalanadas das mulheres damas da Paissandu. Como a festa do Momo é abertura para a instauração do reino provisório da desordem (DaMatta) permitida pela “ordem oficial,” já que a festa é um momento de, sorrateiramente, os poderes constituídos abrirem as portas dos interditos e das hipocrisias, lá se exibiam, com os exageros das fantasias e da sensualidade jovem ou envelhecida, as grandes damas da festa da carne. Diante dos meus olhos passavam aquelas figuras humanas tão decantadas na ficção de Jorge Amado (1912-2001) Já naqueles anos, percebia os risinhos escarninhos de mal-amadas e de figuras falsamente puritanas que nem se davam ao trabalho de olhar para as mulheres da beira-rio beira-vida. Não sabiam as aristocratas de “brasões enfatuados da sociedade” o quanto de bem faziam para os forasteiros que na Paissandu aportavam sedentos de sexo, ou para os maridos rejeitados na cama conjugal, ou para os rapazinhos que desejavam se livrar das práticas de onanismo, ou para os homens que, com o tempo de vida conjugal, iam perdendo os arroubos e desembaraços da mocidade e só lá nos lupanares se completavam.
Contudo, não há como negar, o ponto alto do carnaval teresinense. Eram os bailes noturnos do Clube dos Diários, lá na Álvaro Mendes, coração da cidade.. Aquela espécie de toque de corneta alusivo sonoramente ao entrudo naquele clube era o prato cheio da juventude, da mocidade e até da velhice daquele tempo.
O Clube dos Diários reunia a nata da high society teresinense. Lugar perfeito para um grande espetáculo carnavalesco, pra os amores à primeira vista, para um clima de ivresse que nos transportava para as paixões momentâneas, os olhares cúpidos, o entrelaçar das mãos, os beijos fortuitos e incandescentes no meio do ambiente perfumado do lança-perfume esguichado nos lencinhos dos adolescentes que, depois, se moderadamente inalados, conduziam os corações enamorados ao paraíso das Ilhas dos Amores.
Época narcisista, na qual os jovens tínhamos sempre diante de nós o espelho que nos atestava a beleza apolínea supostamente auto-proclamada. Com bigodes postiços feitos artesanalmente a carvão muito lembravam a personagem de Zorro com a sua famosa máscara. Éramos belos porque éramos jovens. Era isso que mais importava ao nosso lado narcisista.. Não há efemeridade tão eterna quanto a juventude, cujo instante é seu primado.
Foi no último baile do Clube dos Diários que ostentei um lindo relógio presente de mamãe. Ficara fascinado quando, saindo com mamãe da elegante relojoaria, exibia no pulso direito o meu presente especial. Era, na época, um objeto-fetiche, usado pela classe média e pela burguesia local. Quem não tinha um relógio estava incompletamente vestido. Símbolo de requinte, de status social, de poder econômico, de beleza, de bom gosto, de ostentação. Era bem visto pela namorada, pelos pais da namorada, pelos parentes, pelos amigos. Um relógio naquele tempo era um relógio. E se de marca, tanto melhor, tanto mas admirado.
Pois foi com esse relógio que me aventurei pular carnaval no Clube dos Diário. Era o último dia de carnaval. Junto de uma namoradinha que encontrei entre as belas mocinhas ricamente fantasiadas, com seus corpos esculturais e exibindo mais livremente a beleza dos corpos e a graça da juventude, a pele morena ou clara, ou os cabelos lisos ou ondulados, os olhos castanhos, azuis ou verdes, a estatura em geral média ou baixa, mas nem por isso menos encantadora e sensual, de repente, olhando para o meu pulso, não mais via aquele relógio novinho em folha que ganhara de mamãe. Perdi o rebolado. A festa para mim quase se acabou. Chorei para mim e para minha
namoradinha. Meu carnaval praticamente se evaporara naquele noite alegre-triste. Nem as marchinhas de carnaval, nem o “Corta o cabelo dele”, nem as velhas músicas de carnaval, nem o cheiro de lança-perfume no salão belamente decorado conseguiram amenizar a dor da perda objeto querido.
Alguém, bem sei, ficou com ele. Não havia mais meio de recuperá-lo. No outro dia, relatei, envergonhado e arrasado, o fato para mamãe. Nem avaliem o semblante que tomou conta dela. Ainda hoje sofro pelo prejuízo que dera à minha mãe, afora o desgosto. Alguns dias depois, partia para o Rio de Janeiro.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Contozinho de Natal


M. DE MOURA FILHO

A menina, sentada em seu regaço, foi ao solo. O corpo, depois de arremessado para trás, imóvel. Um vermelho mais intenso do que o de sua roupa escorria, ainda aos borbotões, de seu peito. A barba e os cabelos brancos e longos desprenderam-se do bom velhinho, e a menina, ainda no piso, descobriu que Papai Noel não existia.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

ANTOLOGIA DO NETTO

Texto e charge: JOÃO DE DEUS NETTO


R. N. MONTEIRO DE SANTANA

Raimundo Nonato Monteiro de Santana nasceu em Campo Maior, em 27 de fevereiro de 1926. Professor, bacharel em Direito e escritor. Publicou: “Aspectos de uma Ideologia para o Desenvolvimento”; “Perspectiva Histórica do Piauí”; “Evolução Histórica da Economia do Piauí”; “Apontamentos para a História Cultural do Piauí” Formado em Ciências Jurídicas e Sociais, Raimundo Santana já foi professor da Universidade de Brasília - UNB e deu relevante contribuição para a formação da Universidade Federal do Piauí. É no seu retorno ao Piauí, em 1990, "que ele desenvolve suas idéias mais ambiciosas", que migram da globalização aos temas ligados à cultura e ao patrimônio imaterial de nossas sociedades.

POLÍTICA - A vitória do jovem Raimundo Santa

Numa época em que os prefeitos costumavam ser senhores “coronéis”, eleitos ou nomeados; com algum avantajado na idade, a UDN escolhe o “menino” Santana, 25 anos, civil, para encarar uma acirrada batalha política contra o Sr. João Crisóstomo de Oliveira, candidato dos pesos pesados do getulismo do PSD: Médico e 1º Tenente Sigefredo Pacheco, Coronel Miranda e Coronel Waldeck Bona. A tropa do jovem Santana levou vantagem do início ao fim por causa da moral altíssima, indispensável em qualquer tipo de embate. Minha mãe Alaíde, entusiasta da campanha, fala que o entusiasmo dos jovens levava, literalmente, o futuro prefeito na “cacunda” (nos ombros). Aos gritos de “Santana! Santana!”, a passeata saia da residência dos seus pais, próxima ao colégio Valdivino Tito, até a Praça Bona Primo. Na volta, uma parada na Praça do Relógio (atual prefeitura) para um vibrante comício. E como numa guerra há sempre baixas, infelizmente, essa se deu do lado da UDN. Um cabo eleitoral do partido da União Democrática Nacional, de nome, França Catura, foi assassinado num beco próximo à Praça Rui Barbosa, no auge de mais um nervoso acontecimento político em Campo Maior. Bodes expiatórios foram procurados e não encontrados. De nada mais adiantava. Estava eleito, Raimundo Nonato Monteiro de Santana, em 1951, o Mais Jovem Prefeito do Piauí.
SAIBA MAIS: http://bitorocara.blogspot.com/2008/10/vitria-da-juventude.html

sábado, 18 de fevereiro de 2012

lições de prepotência


lições de prepotência

pelos quintais da rua são Raimundo
lá de tuntum
entre sombras exalando imaginações
meninos e meninas aviventam um aprendizado
garimpar nos esgotos dos lavapratos
ossos lambidos
fazendo-os bois das suas vindouras fazendas

nos quintais da rua
são Raimundo lá de tuntum
meninas e meninos aviventam um aprendizado
— passos de uma pressuposta prepotência.

Emerson Araújo in Companheiros de Estrada com Toinho

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Não conhecemos o Brasil literário


CUNHA E SILVA FILHO

Num longo e amadurecido artigo no Prosa & Verso do jornal O Globo (11/02/2012) sobre a realidade da crítica literária brasileira contemporânea, de título “Desdramatizando a crise da crítica”, o professor da UERJ, João Cezar de Castro Rocha, entre outras ponderações acerca da importante questão entre críticos e autores, crise da critica e crise da literatura, nos chama a atenção para a necessidade de mudanças de estratégias e de procedimentos no terreno da critica literária a fim de darmos conta da diversidade e da quantidade também da produção literária contemporânea. Já no seu tempo, o crítico Álvaro Lins (1912-1970) até via com bons olhos quando se falava em crise da literatura, visto que para ele a crise é um sintoma de algo que está vivo.
Segundo Castro Rocha, muito mais do que a produção do passado, está a exigir toda a atenção dos críticos, sobretudo porque esses numerosos autores, entre ótimos, bons , médios e ruins, precisam de ser analisados com um aparato teórico-crítico que esteja sintonizado com a nova realidade das novas mídias eletrônicas advindas dos avanços da internet e do surgimento de obras de leitura eletrônica, os chamados e-books, da influência de blogs literários, da pesquisa eletronicamente globalizada e dos novos recursos tecnológicos da mídia jornalística, dos confusos e indeterminados tempos pós-modernos, ou para outros estudiosos de literatura, produção ficcional e poética “pós-pós- moderna,” rótulo resultante de um trabalho de pesquisa do Departamento de Letras da UFRJ...
Sabemos que as histórias literária de que dispomos se encontram limitadas a fases já conhecidas da produção literária brasileira. Seus autores, seja individualmente , seja em trabalhos coletivos, ainda assim não abarcam de forma mais imediata o que se vem produzindo nos grandes centros culturais do pais e no interior do país, onde a produção intelectual se mostra pujante, com autores de talento e dignos de também serem conhecidos por outros leitores do Brasil.
Dadas as nossas dimensões continentais, o Brasil literário, considerando-se a produção cultural dos estados separadamente, é um desconhecido e – o que é de se lamentar -, ainda cheio de preconceitos entre os autores de outras estados da Federação. Há opiniões tão grosseiras e carentes de conhecimento e de atualização com respeito a outras regiões do país que nos deixam perplexos vindo elas de parte do próprio meio acadêmico universitário.Revelar noções preconcebidas sobre escritores de outras regiões brasileiras me parece revelar da parte de quem enuncia um contrassenso desses um tremendo desserviço à cultura brasileira. É postura inadequada, ignorante e provinciana de quem as enuncia.Até os desconhecidos, ainda que sem talento, merecem o nosso respeito étco-profissional.
O professor da UFRJ, crítico e historiador Afrânio Coutinho (1911-2000) quando projetou organizar a sua monumental obra coletiva A literatura no Brasil (São Paulo: Global, 2003. 7 v.) , mostrara, no seu tempo, largueza de visão do que fosse uma história literária mais abrangente de um país. Hoje, mais do que nunca, vivemos esse impasse, o de termos que escrever, utilizado-se de recurso eletrônicos de ponta, ou, nas palavras de Castro Rocha, “... as possibilidades criadas pela tecnologia digital”, uma história da literatura brasileira contemporânea o mais completa possível, recorrendo à mesma ideia de visão progressista de Afrânio Coutinho, ele próprio um inovador dos estudos literários entre nós nos meios universitários. Seria, no caso, uma história literária que, por ser realizada eletronicamente, poderia ser, periodicamente, atualizada como já aconteceu com a Enciclopédia Britânica, que enviava, não sei se ainda o faz, de tempo em tempo, conforme as necessidades e os progressos e inovações do conhecimento, matéria atualizadora daquela notável obra para seus usuários.
Naturalmente, no caso de nossa história literária contemporânea, seria um trabalho de altíssima envergadura intelectual, com um corpo de organizadores reunindo gente de reconhecido saber na área e com colaboradores escolhido com o principal critério: conhecimento do assunto e competência teórica e prática.
Um obra dessa magnitude seria um ponto de partida para mobilizarmos competentes scholars da literatura brasileira nos diversos estados e selecionados sem qualquer coloração ideológica ou de natureza culturalmente tendenciosa, sem ranços, pois, de patrulhamentos, muito ainda comum em vários estados brasileiros, sobretudo oriundos dos meios universitários.
No campo da crítica literária, da teoria, e da produção não pode haver mais estrelismos, comportamentos antidemocráticos de sobreposição de postura acadêmica sobre críticos teóricos e autores dos diversos gêneros da literatura e de outras formas de criação artística, tanto dos grandes centros quanto das capitais e do interior do país..
Uma passagem do mencionado professor da UERJ sintetiza bem a condição da crítica e da produção literária brasileira, além de abrir um caminho de mudanças objetivas e desejáveis para o clima de “obituário” e de “coveiros” que, de tempos em tempos, discutem a atividade crítica no país e , muitas vezes, de forma não-construtiva e desalentadora: “A reinvenção da crítica exige uma nova perspectiva, capaz de descobrir a potência da circunstância que nos cabe transformar, em lugar de insistir numa melancolia feita sob medida para o papel anacrônico do intelectual palmatória do mundo.No reduzido parágrafo seguinte, conclui Castro Rocha: “É hora de abandonar essa máscara”.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

DIÁRIO INCONTÍNUO


16 de fevereiro

CARNAVAL NA COLÔNIA DO CARPINA

Elmar Carvalho

Nestes dias que antecedem o carnaval, mormente por causa do desfile dos corsos, ou carros alegóricos momescos, que fizeram Teresina entrar para o Guinness Book, como a terra em que se realiza a maior folia dessa modalidade carnavalesca, lembrei-me da pessoa que se chamou Edmílson Neves de Moraes. Não foi ele um herói, nem político, nem artista. Quiçá poderia ter sido um herói e artista, a seu modo; herói do cotidiano, da luta pela vida, pelo sustento da família, e artista do bem e do bom-viver, sem arestas, sem egoísmo e sem ganância. Foi um boêmio, no bom sentido da palavra. Nunca fez mal a ninguém, exceto, talvez, a si mesmo. Não o conheci pessoalmente, mas apenas pelo que me contaram Fátima, minha mulher, e o Diá (Francisco Rodrigues), meu cunhado.

Era um tipo divertido, sempre bem-humorado. Gostava de “aprontar” uma presepada com os amigos, apenas por pura diversão. Quando tinha dinheiro, não media distância para patrocinar uma boa farra. Pagava sempre a maior parte da despesa ou mesmo tudo. Serviu na sede da Capitania dos Portos do Piauí, em Parnaíba, quando trabalhou com o Diá. Quando sóbrio, era calado, um tanto monossilábico, o que talvez fosse indicativo de certa e disfarçada timidez. Entretanto, quando tocado pelos vapores etílicos, falava pelos cotovelos, transmudando-se em verdadeiro papagaio. Nessas ocasiões, desfiava vasto repertório de piadas, tanto as que decorava, como as que inventava, ou ainda as do anedotário de que ele era protagonista.

Após morar em Parnaíba durante muitos anos, mudou-se para Natal, onde se aposentou no posto de sub-tenente da Marinha, e onde veio a falecer. Era casado com dona Darci, natural do Pará. Ao longo de sua vida, soube construir boas amizades, que lhe tinham estima e consideração. Na sua faceta boêmia, gostava de dançar, e era considerado um mestre da dança, um verdadeiro e legítimo dançarino, creio que polivalente, tanto pé-de-valsa, como pé-de-forró e de qualquer dança. À falta de outra música, talvez patrioticamente até dançasse ao som de um hino ou de uma marcha marcial.

Consta, em sua hagiologia, que São Francisco de Assis teria beijado um leproso. Talvez esse fato seja símbolo de humildade ou de fraternidade ou de ambos os sentimentos ao mesmo tempo. O sargento Edmílson, quando tocado pelo álcool, tornava-se arrebatado em sua humanidade. As forças líricas e profundas da vida e da dimensão humana se apossavam dele, com tamanha intensidade, que lhe levavam a ir dançar, tanto no carnaval como em alguns finais de semana, no leprosário da Colônia do Carpina, na época um local ermo, estigmatizado, considerado distante do centro de Parnaíba. Aflorava-lhe na dança a fraternidade, a humildade, e mais do isso o seu desejo de comunhão humana, de se misturar com os excluídos, os desvalidos, os estigmatizados e miseráveis.

Quando retornava para casa, a sua mulher, dona Darci, após ele lhe contar a proeza, tida então como altamente temerária, se não mesmo uma arrematada loucura, mandava que ele tomasse um banho de álcool. Na época em que as músicas de carnaval eram realmente músicas, em que, além das harmoniosas melodias, as letras eram verdadeiros poemas, bem elaborados, de denso conteúdo, em que não raras vezes transparecia um matiz elegíaco, como bem observou o excelso poeta Manuel Bandeira, no poema Na boca: “Sempre tristíssimas estas cantigas de carnaval”. Provavelmente repontasse na alma sensível do sargento Edmílson uns laivos de melancolia, ao ouvir essas belas e por vezes tristes marchinhas dos carnavais de outrora. Uns tomavam o éter dos lança-perfumes, o sargento Edmílson tomava etílica alegria...

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

ANO MARQUÊS DE PARANAGUÁ

Diplomata Marcus Henrique Paranaguá

 Jesualdo Cavalcanti Barros*

Com a bela palestra do jovem diplomata correntino Marcus Henrique Paranaguá, até há pouco servindo no consulado brasileiro de Nova Iorque (EUA), a Academia Piauiense de Letras deu início ao Ano Marquês de Paranaguá em concorrida solenidade no Auditório Acadêmico Wilson Brandão, na manhã do dia 11 de fevereiro de 2012.  O evento visa a celebrar o centenário de falecimento de João Lustosa da Cunha Paranaguá, segundo visconde e marquês de Paranaguá, ocorrido no Rio de Janeiro, em 9 de fevereiro de 1912. Paranaguá é patrono da cadeira nº 18, atualmente ocupada pelo acadêmico Herculano Moraes.
Pretende o sodalício, durante 2012, por meio de palestras, encontros, debates e publicações, sensibilizar a sociedade piauiense e suas instituições culturais e educacionais, para um amplo estudo da vida e da obra do preeminente coestaduano, por certo o maior de todos, embora pouquíssimo conhecido nestas plagas de tanto desleixo com sua cultura, valores e memória histórica.
Paranaguá nasceu na fazenda Brejo do Mocambo, nos remotos sertões de Parnaguá, “aquela espécie de nação gurgueia” de que fala Fonseca Neto, em 21 de agosto de 1821. Sobre esse sítio diria o ouvidor Antônio José de Morais Durão, em sua Descrição da Capitania de São José do Piauí, de 1772: “com 42 moradores, que fazem um povo mais numeroso que a própria vila, da qual dista 12 léguas ao mesmo rumo, mas nem nome tem de aldeia, nem juiz ou justiça, ao passo que se aumenta em cultura e negócio.” Na inspeção que realizou na vila de Parnaguá, instalada pessoalmente pelo governador João Pereira Caldas havia dez anos, despertou a atenção do ouvidor a saúde de seus moradores, graças aos bons ares, tanto que encontrara, nos 29 fogos em que se distribuía sua diminuta população, nada menos de três homens em avançada idade: um com 110 anos, outro com 112 e o terceiro com 120.
Com a opulência gerada pela criação de gado, de que resultaria a chamada civilização do couro, não admira que da velha fazenda  tenha surgido nada menos de 40% da nobiliarquia piauiense (o marquês com dois títulos e mais os irmãos – barões de Paraim e de Santa Filomena), no total de dez títulos para oito agraciados.
Paranaguá bacharelou-se na antiga Faculdade de Direito de Olinda, em Pernambuco (1846). Formar-se em Direito era o sonho dourado de jovens futurosos, justamente aqueles predestinados ao exercício de um “verdadeiro mandarinato” na sociedade brasileira dos séculos XIX e XX. Conforme exaustivas pesquisas que publiquei em Sertões de bacharéis, livro lançado no ano passado, muitos conseguiram realizá-lo. Destarte, oriundos da mesma academia, brilhariam dentro e fora da província, dentre outros, os piauienses Francisco de Sousa Martins (iniciara o curso em Coimbra), Casimiro José de Morais Sarmento, Marcos Antônio de Macedo, Antônio Borges Leal Castelo Branco, José Manuel de Freitas, Antônio de Sousa Mendes Júnior, Eliseu de Sousa Martins, Polidoro César Burlamaqui, Antônio de Sousa Martins e Antônio Coelho Rodrigues. Igualmente, à mesma época, buscariam a Faculdade de Direito de São Paulo: Francisco José Furtado (que iniciara o curso em Olinda, mas, perseguido por suas posições políticas, migrara para lá), José Basson de Miranda Osório, Lourenço Valente de Figueiredo e outros. Como se sabe, fundadas em 1828, com vistas a formar novos quadros dirigentes do País que emergia da Independência, em substituição aos velhos bacharéis coimbrãos, as duas academias atraíam os filhos da aristocracia rural enriquecida pelo trabalho escravo. Paranaguá não poderia fugir à regra.
Por outro lado, naturais de outras províncias mas egressos das mesmas academias,  aqui aportariam, para emprestar o concurso de seu talento à administração do Piauí, antes de alçarem altos voos no cenário nacional, outros brilhantes bacharéis. Citam-se, por exemplo, José Antônio Saraiva, João José de Oliveira Junqueira, Zacarias de Góis e Vasconcelos e Franklin Américo de Meneses Dória.     
                                                             ***
Deputado geral em cinco legislaturas (1850/1864) e depois senador vitalício do Império por cerca de 24 anos (1865/1889), sempre pelo Piauí, Paranaguá ocupou quase todos os ministérios no Segundo Reinado (da Justiça – duas vezes, da Guerra, dos Estrangeiros – duas vezes, da Marinha e da Fazenda). Não se sabe porquê, só não ocuparia dois: o do Império e o da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Além do mais, foi conselheiro do Império e desembargador da Relação do Rio de Janeiro.  Presidiu as províncias do Maranhão, de Pernambuco e da Bahia. Presidente do Conselho de Ministros (1882/1883), tornou-se o segundo piauiense a governar o Brasil. O primeiro fora  o oeirense Francisco José Furtado (1864/1865), embora militante da política do Maranhão.
Devotado ao estudo da realidade do País, presidiu a Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro de 1883 a 1912. No biênio 1906/1907, também o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, tendo passado a presidência ao barão do Rio Branco, no ano seguinte.
Convém destacar, por um dever de estrita justiça, que na carreira fulgurante que o levou dos confins gurgueianos ao brilho dos salões mais sofisticados da Corte, inclusive por privar, como poucos, da intimidade de dom Pedro II, Paranaguá não se descurou da problemática piauiense. Ao contrário. Desde o primeiro momento de sua atuação parlamentar até o último suspiro, sustentou bandeiras ainda hoje recorrentes em nossa agenda de desenvolvimento, tais como a navegação do rio Parnaíba, a interligação das bacias do Parnaíba, São Francisco e Tocantins, a construção de um porto marítimo e a ligação deste com os demais portos do litoral brasileiro. Para ele, promovida a navegação, “o progresso e as ideias do tempo se introduziriam na província [...].” Assim, no firme propósito de dotar o Piauí do tão sonhado porto, não hesitou em patrocinar a permuta, pelo decreto imperial nº 3.012, de 1880, dos áridos sertões piauienses de Crateús pelas areias brancas da antiga freguesia cearense de Amarração, hoje Luís Correia, onde há mais de cem anos a lerda burocracia estatal teima em construí-lo. Paranaguá, arrostando descrenças e incompreensões, fez a parte que lhe competia, à época. E, se algum dia o Piauí concluí-lo, como se espera, que se louve a ação destemida desse gurgueiano de escol.
Por todos os títulos, Paranaguá deve ser motivo de orgulho dos piauienses.  Sobretudo, na atual quadra de baixa representatividade política, marcada por frequentes frustrações e desenganos. Com efeito, é fácil perceber que, depois dele e de Félix Pacheco, Petrônio Portella, Reis Veloso, Hugo Napoleão, Valdir Arcoverde, Freitas Neto e João Henrique, praticamente fomos escorraçados do centro das decisões nacionais. Pois bem, se não surgem novos valores, que ao menos se recorra aos velhos! Daí o acerto de nossa Academia em resgatar a memória do velho marquês. No mínimo, concorre para alimentar nossa autoestima, tão carente de estímulos na atualidade.  

 
*Membro da Academia Piauiense de Letras e presidente do Centro de Estudos e Debates do Gurgueia

DIÁRIO INCONTÍNUO

Apolo e a sibila de Cumas


15 de fevereiro

VONTADE DE MORRER

Elmar Carvalho

Minha mulher contou-me que, poucos dias atrás, quando foi efetuar o pagamento de uma compra, numa das lojas da rua Álvaro Mendes, ouviu numa fila, perto da sua, uma senhora idosa dizer para uma conhecida, de forma repetitiva e veemente, que desejava morrer. Aduziu que rezava diariamente para que Deus a levasse logo, que abreviasse os seus dias, que já não aguentava mais sua vida. Parecia não querer guardar segredo desse seu desejo um tanto raro, pois algumas outras coisas falou em voz baixa, apenas o suficiente para sua interlocutora ouvir.

Segundo a Fátima, a senhora que dizia ansiar pela morte deveria ter uns 65 anos de idade, ao passo que sua colega deveria andar em torno dos 60. A mais idosa, após efetuar o seu pagamento, foi logo embora. A outra disse, a título de explicação, dirigindo-se a minha mulher:
- Olhe, a gente deve ter paciência com essas pessoas, deve ouvi-las, procurar entendê-las... Que Deus perdoe uma pessoa assim!
A Fátima assentiu, com um aceno de cabeça, e nada mais soube do caso. Fez-me esse fato lembrar a história da sibila de Cumas, que tendo ganho uma vida longuíssima, não recebeu, contudo, a graça da eterna juventude – ela que por sua beleza arrebatara de paixão o deus apolíneo – e foi envelhecendo e se tornando cada vez mais feia. Já toda encarquilhada, engaiolada em profunda tristeza, quando lhe perguntavam o que mais desejava, respondia lacônica e melancolicamente:
- Quero morrer.

Fico a pensar o que levaria uma pessoa a alardear, em alto e bom som, sem nenhum recato, que gostaria de morrer, quase como se estivesse a fazer propaganda de seu sofrimento, de seu desapego à vida. Ao que me parece, os grandes sofredores, os depressivos, não fazem estardalhaço de sua dor; antes, guardam profundo silêncio em torno das causas de sua tristeza. A sua melancolia se reveste de enorme silêncio e absoluta discrição, recolhidos ao seu canto, longe do sol e do burburinho das ruas. E esse recolhimento lhes agrava ainda mais o sofrimento, que lhes empurra para a lassidão e a alcova, em legítimo círculo vicioso.

Dizem que o verdadeiro suicida não faz alarde de suas intenções. Um belo dia, quando os amigos e parentes menos esperam, ele se mata. Pelo que me consta as causas mais frequentes de suicídio são dívida, doença dolorosa e incurável, paixão incorrespondida, vergonha por algo que macula a honra e a tenebrosa depressão, que pode ser considerada o mal deste século, ao menos de suas primeiras décadas.

Uma moça, que não desejo situar, nem no tempo e nem no espaço, quando sofria uma desilusão amorosa, real ou imaginária, tomava vários comprimidos analgésicos; sofria uma indisposição e era levada para o hospital, onde se recuperava sem maiores complicações. Dizia haver tentado matar-se. Na verdade, tudo não passava de simulação, para comover o amado ou o amante de plantão, motivo da sua encenação tragicômica, mas com uma dosagem maior de comicidade. O outro pretenso suicida, de que ouvi falar, subiu em um tamborete, fez um laço em velha corda de tucum, amarrou-a em um caibro, e saltou do improvisado cadafalso. A corda, como era de se esperar, partiu-se, e ele rolou dramaticamente pelo assoalho. Levantou-se indignado, e exclamou em altos brados, em sua simulação macabra e hilária ao mesmo tempo:
- Miséria, diabos, nem para morreu eu tenho sorte!...
Nunca se lhe soube de nenhuma outra tentativa.
Montagem das fotos: portal Proparnaíba
Por cúmulo de lamentável coincidência, quando eu já estava no meio do parágrafo anterior, recebi um telefonema do historiador e advogado Reginaldo Miranda, presidente da Academia Piauiense de Letras, dando-me a infausta notícia de que o confrade William Palha Dias falecera há pouco. Era ele um escritor de mérito. Publicou livros na seara da historiografia, do conto, da novela, do romance e da crônica. Causeur admirável, era dotado de saudável bom-humor, detendo um vasto repertório de piadas e anedotas, algumas talvez de sua lavra, outras de que fora protagonista, com as quais ilustrava sua atraente conversação. Foi um juiz probo, honrado e brioso, que nunca se dobrou às conveniências dos poderosos. Ao contrário das três sibilas desta nota, Palha Dias era um homem vital, enérgico, com grande capacidade laborativa, comprometido com a vida, com a arte e com a cultura.
Palha Dias e Elmar Carvalho
Nos últimos dias estive pensando, repetidas vezes, em convidar o magistrado e acadêmico Oton Lustosa para tirarmos uma fotografia ao lado do Dr. William Palha Dias. Não faz muito tempo, lembrava o professor Manoel Paulo Nunes, em sessão da Academia, que nós três fomos juízes de sua terra, Regeneração, e depois ingressamos na APL. Lembro-me que, alguns anos atrás, salvo engano no dia da posse acadêmica da Teresinha Queiroz, tiramos essa foto, mas dela não tenho cópia. Muito me honraria tê-la em minha casa, ou no gabinete do juízo. Agora, já não mais posso realizar o meu desejo. Como diria Drummond, perdi o bonde e a esperança, e já não poderei rever o amigo Palha Dias, que há de permanecer no coração e na memória de nós todos, seus amigos e admiradores.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

AMIZADE COLORIDA



José Maria Vasconcelos
Professor e cronista

Os anos 60 foram generosos na criação de novos verbetes(neologismos) ou velhas expressões com novos significados. Há uma profusão. Lembram-me alguns, criados pela juventude PRAFRENTEX: GATO(A), BRASA(sensual), GAMADO(apaixonado), MORA!?(entende?), JOVEM GUARDA, TREMENDÃO, CARANGO, COROA(avançado em idade), PSICODÉLICO(roupas e adereços multicores), TIRA(policial).
Jovens atuais são criticados pelos coroas, por conduta de FICAR, isto é, uma aventura rápida, sem compromisso amoroso para vínculos mais sérios. Eles não aprovam o FICAR, mas não se lembram dos velhos tempos da AMIZADADE COLORIDA, equivalente a FICAR, hoje. Ainda se acrescentava o SEX-APPEAL, a tentação do fruto proibido, a sedução PRAFRENTEX. E como funcionava o namoro? O marmanjo levava dias de espreitas e flertes. Depois da presa cair na arapuca, mais paciência para o primeiro beijo na boca ("Aquele beijo que eu te dei/ nunca, nunca mais esquecerei..." Roberto Carlos), mais um pouquinho para alcançar as mamilas. Depois, bem depois, desencadeavam o SARRO ou EMPINAR: esfregaço, muitas vezes, resvalado para o sexo. Aí, um deus-nos-acuda. Infeliz garota sem virgindade: era posta para fora da família, à deriva no mundo, arranchando-se em cabaré. A novela do SBT, FASCINAÇÂO retrata a terrível época da garota desvirginizada, na década de 40. Para alívio da moçada, a pílula do não-me-bote-neném já ocupava cabecinhas mais danadinhas dos anos 60. Daí, o movimento feminista atropelou a hipocrisia machista. A juventude tomou atitudes de "proibido proibir", um grito de liberdade a tudo que cheirasse a CAFONA, isto é, passado, JÁ ERA: substituíram ternos e roupas bem engomadas por jeans desbotados e camisas coloridas; cabelos em brilhantina, por longas madeixas soltas; sapatos engraxados, por chinelos toscos e botas volumosas; saias longas, pela minissaia; linguagem agramaticada, pelo português rico de gírias importadas; a elegância, pela rebeldia; a política tradicional e submissa, pelo protesto de rua; a sociedade de consumo, pelo regresso ao primitivismo tribal(hippie), com roupas e enfeites rústicos e artesanais. Paz e Amor, poesia e sonho movidos a maconha e sem violência.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Carta de um Navegante (*)


CARLOS BRANDÃO

Amigos, presente! Foi! Não foi! Pois vamos!

Bom demais. Nesses dias, sob raios que tocam a fronte de nossa juventude, passamos um tempo distante(s) de relógios. A brisa da felicidade abrandou docemente as vagas do viver, inspirando uma vontade danada de correr mundos.

Na ocasião, ainda sob manhã do agora, aproveitamos a luz dos primeiros sinais para colher os bons ventos da sorte. Conseguimos levantar o apressado das horas da cidade, que, como âncora, nos atracava aos portos da mesmice, por onde transitam aflições da solidão. Livres, espichamos ao sol a gramática do tempo, salgamos as conversas, destravamos as palavras, desfizemos as amarras das narrativas. De bom grado e prumo nas idéias, içamos velas ao benfazejo sopro dos sonhos.

Partimos (navegando) ao acaso indeterminado de navegar, guardando a fé de vencer ilusões. Logo estávamos deslizando ao cimo de uma vista que alcançava a enseada do gerúndio: convivendo em amizades, ironizando a ironia, enfeitando aventuras cheias de encantos. Ao longe, o horizonte dos acontecimentos refletia o infinito das encostas do além.

No entreaberto dos instantes, o olhar do coração reparou que uma vida bem vivida há de desvendar as terras dos gerúndios, particípios ou infinitivos. Mas sempre haverá de saltar dos domínios para festejar novas partidas, louvando e honrando outras imaginações no extenso oceano do tempo. De par com a liberdade, a boa vida caminha sobranceira avançando sobre águas do destino, traduzindo esperanças ao todo do tempo, sem os pesos adverbiais dos ressentimentos. Uma riqueza!

Ah! Nada de cansaços de futuro ou de presente em nosso roteiro. Não, isso não! De presente mesmo, só a ação de estar entre amigos e irmãos, de não contar o tempo em moedas, porque entretidos em enredos mais sublimes. Rumando no sentido do viver, seguimos no balanço das águas de bons mistérios, deixando o indomável do tempo segredar conceitos e assuntos, sem encrespar os fios da vida na crista da idade.

De carona, veio a noite. As estrelas brilharam oferendas ao céu. Aliviado do cotidiano, o espírito brincou a dormir. Madrugou. A natureza cantou um novo dia. Regendo a alvorada, o sol se alongou iluminando a prosa de acordar uma conversa animada. Viajamos sem pressa pela imensidão do tempo, na suavidade de quem vive sem se importar com o entardecer da noite. Singramos sem conferir lembranças do agora e do amanhã.

Foi maravilhoso. Mágico. Em mar aberto da fortuna, não houve enquantos ou outras esquinas do tempo. Apurando felicidades, navegamos livres, em ventos que sopram o destino, na fé de viver o que virá. Pois que venha!

(*) Carlos Augusto Pires Brandão
Juiz Federal e Professor da Universidade Federal do Piauí
Mestre em Filosofia e Teoria do Direito pela UFPE
Doutorando em Sociologia Jurídica e Instituições Políticas pela Universidad de Zaragoza (Espanha)