sábado, 19 de maio de 2012

Discurso na APL (*)


Des. Magalhães da Costa


Joseli Lima Magalhães
Professor de Direito da UFPI e Doutorando em Direito Processual PUC-MINAS 

Como transpor a barreira da saudade? Como expressar o que se sente na
mais pura forma de gratidão? Como contemplar àquele que se foi a um
tempo não mais presente? Certamente não somente com palavras, mas
forjando e sedimentando em atitudes aquilo que a poucos custa tão
caro; e a muitos se torna tão difícil – praticar o amor. E é
justamente sobre o amor que pretendo falar.
Vou começar meu discurso pelo fim. Pela morte. Afinal é ou não a morte
o começo do fim do começo do amor? Ou o fim do começo do começo do
amor? Exatamente hoje, 18 de junho de 2012, Magalhães da Costa estaria
completando 75 anos de idade, e daqui a exatos 30 dias estaria
completando 10 anos que veio a falecer. E para celebrar sua data de
nascimento, estranhamente tendo a morte como convidada especial, vou
ler o conto de sua autoria “A Morte de Frente”, onde se percebe
toda a sutileza de como brinca com a Morte, ora na narração de um
ambiente hostil, mas ao mesmo tempo alegre, ora ironizando a sua
presença. Eis o conto, que como não poderia deixar de ser, com
elementos de veracidade:
O velho Manezinho sacristão da igreja Matriz de Nossa Senhora do
Carmo de Piracuruca nunca teve medo da cara feia da morte. Assim,
quando soube que seu irmão e compadre Silvino Borges, mais conhecido
por Silvino Coxo, estava com os cotos na beirinha da cova, pegou a
bengala e foi ter na casa do homem, no outro lado do rio.
Silvino, encolhido no fundo da rede, só o bolo, o caco.
E Manezinho, parado, de pé:
Boa, compadre! Então é verdade mesmo que você está perto de embarcar?
O moribundo tomou aquele susto, e ele, sacristão:
Estive agorinha a pouco com o Dr. João Fortes, e ele me disse que
dessa você não escapa: é mal sem cura. Como o Pedro meu filho mandou
me chamar na Parnaíba e, quando voltar, na certa que não encontro mais
o mano vivo, vim logo me despedir. – Curvou-se, pegou na mão do outro
e puxou: – Adeus, meu compadre, e até Dia de Juízo. – disse, – e foi
saindo. Parou, porém, na porta de repente, coçando a cabeça. – Ah ,
sim – falou, – vigie!... Se encontrar a Binoca minha mulher por lá,
diga que mando lembrança, muitas saudades.
Conta-se que quando Manezinho tornou da viagem, o Coxo tinha batido o
vinte-e-um, e o sacristão velho orou por ele, muito contrito”.

Há 75 anos nasceu. Há 14 anos tomou posse nesse mesmo lugar na Cadeira
34 da APL, que tiveram como ocupantes Anísio Brito (Patrono), Odilon
Nunes, o Padre Cláudio Melo (o mesmo que celebrou a missa de ação de
graças quando assumiu o cargo de desembargador do TJPI) e Zózimo
Tavares, que o sucedeu. Há 13 anos lançou, aqui mesmo na APL sua
última obra – Traquinagem. Há 10 anos foi velado também aqui na APL. E
hoje lança o primeiro dos dois livros que deixou inédito. Parece ou
não parece que esses fatos ocorreram ontem? O tempo parece estreitar o
que se teima em esquecer. O que é mesmo o tempo, perguntaram para
Santo Agostinho, e ele bem respondeu em suas Confissões
Se ninguém me perguntar, eu sei; se quiser explicar a quem me fizer a
pergunta, já não sei. (...). Dizemos tempo longo ou breve, e isto só
podemos afirmar do futuro ou do passado. (...) Mas como pode ser breve
ou longo o que não existe? Com efeito, o passado já não existe e o
futuro ainda não existe. (...). Se pudermos conceber um espaço de
tempo que não seja susceptível de ser subdividido em tais partes, por
mais pequeninas que sejam, só a este podemos chamar tempo presente.
Mas este voa tão rapidamente do futuro ao passado, que não tem nenhuma
duração. Se a tivesse, dividir-se-ia em passado e futuro. Logo o tempo
presente não tem nenhum espaço. (...) O que agora claramente
transparece é que nem há tempos futuros nem tempos pretéritos. É
impróprio afirmar que os tempos são três: pretérito, presente e
futuro. Mas talvez fosse próprio dizer que os tempos são três:
presente das coisas passadas, presente das presentes e presente das
futuras. Existem, pois, estes três tempos na minha mente que não vejo
em outra parte: lembrança presente das coisas passadas, visão presente
das coisas presentes e esperança presente das coisas futuras”.
Segundo Schopenhauer, na sua tese de doutorado entitulada “A Quádrupla
raiz do princípio da razão suficiente” , o espaço e o tempo são as
intuições formais que se formam antes, correspondendo ao princípio de
razão suficiente do ser. O espaço e o tempo são puras intuições, não
empíricas. Para Shopenhauer a mais simples e primitiva das formas de
representação, o tempo, nos revela o caráter puramente relativo do
fenôneno. Ou como diz Marie Jospe Pernin, o tempo não é nada mais do
que sucesso. Passado e futuro não existem. O primeiro não existe mais,
o segundo ainda não existe. Cada instante só existe ao aniquilar o
precedente, para ser aniquilado pelo seguinte (...) Como pura relação,
o tempo é vão ou nulo. Ele imprime no coração dos fenômenos um caráter
onírico, uma marca de irrealidade” .
Para Schopenhauer “graças ao tempo, conseguimos pois conhecer o nosso
caráter, com um conhecimento fragmentário, afetado por um coeficiente
de dispersão, porduzida por esse estranho órgão. Na hora da morte,
nossa memória e nossa reflexão – verdadeiro ´espelho cônico´ -
reconstituirão essa unidade dispersa, para nos mostrar a nossa
identidade, o sentido do nosso destino .
Certamente daqui a alguns anos, ou até mesmo amanhã, o que não se
espera, alguns de nós já morreu. E o que deixamos para gerações
futuras? O que contribuímos para o engrandecimento de nossa família,
de nosso Estado, de nosso país? Qual a dimensão exata que temos e que
vamos ter a respeito do tempo. Qual o tempo de cada um de nós
presentes nessa Assembléia? O tempo de vida, o tempo de morte, o tempo
de vida dentro da morte?
Magalhães da Costa era mais escritor do que jurista, dedicava-se mais
à literatura do que propriamente à ciência jurídica. Certamente um dos
momentos mais felizes evidenciado em seu rosto foi quando tomou posse
como membro da Academia Piauiense de Letras, comparando-se com à posse
de desembargador do Tribunal de Justiça do Piauí. Muitos de seus
contos foram forjados pelas andanças em cidades do interior do Estado
do Piauí, como magistrado, e na infância que passou na cidade de
Piracuruca, norte do Estado.
Os contos selecionados para esta obra foram elaborados, a maioria
deles, depois da edição de seu último livro – Traquinagem –, em 1999,
tendo sido publicados no Jornal Meio Norte e na Revista De Repente,
ambos de Teresina, mas, de qualquer forma, considerados inéditos em
forma de livro.
Por uma questão didática, até para situar o leitor em uma melhor
compreensão da obra, os organizadores resolveram dividi-la em três
partes: i) a primeira delas designada Contos Urbanos reúne contos onde
se observa a predominância do cotidiano da vida urbana ou de tipos a
ela relacionada, ainda que os diálogos ou as histórias tenham ocorrido
em cidades do interior; ii) a segunda parte, Contos Eróticos, é
formada por apenas quatro contos, havendo forte predominância ao apelo
sexual, estando também a sensualidade presente em traços marcantes;
iii) por fim, Contos Regionais, no sentido de estórias regionalistas
mesmo, inerentes ao interior do Estado do Piauí, principalmente na
região de Sete Cidades, Piracuruca e Piripiri, em que o tipo caboclo
predomina, com diálogos inocentes e sarcásticos, irônicos e
despretensiosos. Esse perfil de narrativa, se é que assim se pode
caracterizar, foi marca predominante de Magalhães da Costa, havendo
constante resgate do modo de viver, pensar, agir e se comportar
daquele tipo de gente simples que habita não somente o norte do Estado
do Piauí, mas o nordeste do Brasil, como um todo, cada vez menos
comum, ainda, em razão dos influxos que a pós-modernidade tem
imprimido à sociedade atualmente.
É esse um dos grandes dilemas de quem escreve ficção, querer ao máximo
tornar realidade o que se encontra como ficção. Até que ponto o mundo
ficto e real se encontram separados, e até que ponto o mundo ficto e
real se encontram entrelaçados. O real imita o imaginário; o
imaginário imita o real.
Habermas, certamente um dos filósofos e sociólogos mais festejados da
atualidade, ao comentar o que Ítalo Calvino, premiado escritor cubano
do século XX, e que cedo foi morar na Itália, pensa a respeito da
relação entre ficção e realidade, entre o que escreve o autor e o que
realmente ocorre, indaga se “um texto poderia ser reflexivo ao ponto
de superar até o desnível em termos de realidade que existe entre ele,
enquanto corpus de sinais, e as circunstâncias empíricas de seu
ambiente, ou seja, absorvendo em si tudo o que é real? Em caso
afirmativo, ele ampliar-se-ia, assumindo a forma de uma totalidade
instransponível. (...) Para poder totalizar desta maneira o mundo
fictício, o texto precisa recuperar inicialmente, e de modo reflexivo,
três referências com o mundo, nas quais ele mesmo está inserido: a
referência com o mundo no qual o autor vive e escreveu o texto; a
seguir, a relação entre ficção e realidade em geral; finalmente, a
referência à realidade visada na narrativa, que precisa ter ao menos a
aparência de real” .
Abre o livro, o “Poema Testamentário (feito de lugares comuns)”,
espécie de autobiografia do autor, que no dizer de seu amigo, o
escritor e advogado Ozildo Batista de Barros, consistia num prenúncio
de sua própria existência/morte.

Gostaria de agradecer a todos aqui presentes, e também àqueles que não
puderam, por um motivo ou por outro comparecer a esse evento. Agradeço
aos Acadêmicos da Academia Piauiense de Letras, em especial ao
Herculano Morais, incentivador da concretização da obra HISTÓRIAS COM
PÉ E CABEÇA..., a seu amigo, Professor Edvaldo Moura, que na condição
de Presidente do Tribunal de Justiça do Piauí contribuiu
significativamente para ceder o parque gráfico do Tribunal de Justiça,
ainda que de forma paga, como não poderia ser diferente, e, assim,
diminuir os custos da edição da obra, à minha mãe e a meu irmão que
foram compreensíveis pela demora que levei em organizar o livro, não
justificável. E principalmente às palavras amigas do Acadêmico Oton
Lustosa, que como ele mesmo disse em texto cujo título é “Magalhães da
Costa: um nome da literatura e da magistratura piauienses”, publicado
logo depois de sua morte, se conheceram em um dia qualquer de julho de
1995. Eu, Acadêmico Oton Lustosa, recordo perfeitamente desse dia e
desse encontro que ocorreu na Colônia de Férias da Magistratura, na
nossa linda e sempre querida Luis Correia, e como você mesmo disse,
pouco falaram sobre processo, leis ou códigos, mas sim sobre
literatura, principalmente o gênero contos.
Gostaria de parar por aqui os agradecimentos, pois posso deixar de
citar alguém que certamente contribuiu para a publicação desse livro.
Só não poderia deixar de agradecer, mesmo e estranhamente, o autor do
livro, o que faço lendo uma música, “Casa Caiada”, de autoria do
cantor Diomedes, por mim ficado na lembrança por várias vezes ouvida
por meu pai, principalmente quando era magistrado em Piripiri (1974 a
1978) e em Parnaíba (1978-1983), certamente uma das músicas que ele
mais gostava e que bem reflete sua preocupação com o estado dantesco
da existência humana, e elementos plausíveis para superá-lo:
Quanta esperança guardada nascida do nada
Quanta vontade de ser o que não pode ser
Quanta maldade escondida nas lágrimas falsas
Quantos na beira da estrada e não sabem por quê
Quantos na vida se jogam por longas jornadas
Quantos na vida que vivem a se comprometer
Quantos que pensam estar certos e não sabem de nada
Quantos na vida que vivem e só sabem sofrer
Quantas crianças na porta da casa caiada
Quantos que vivem lá dentro tentando viver
Quantos que são prejuízo na certa pros outros
Quantos que estão só na vida e não sabem por quê
Você que é meu bom amigo e meu confidente
Sempre nas horas difíceis sou seu protetor
Esqueça um pouco a tristeza e se console comigo
Preste atenção no conselho que agora eu lhe dou
Meu amigo procure não sofrer
Esquisito como é que pode ser.

No começo do discurso disse que ia falar sobre o amor. Ledo engano. O
amor não precisa ser falado. Engana-se quem pensa que o tempo faz
passar o amor; só o amor faz passar o amor.
Com a publicação póstuma de História sem Pé e Cabeça espera-se que a
memória de Magalhães da Costa esteja cada vez mais presente na mente
da nova geração de pessoas que cultivam o gênero contos, e que também
não se disperse perante aqueles que já conhecem sua obra. Repito,
agora, o que disse, por ocasião do Panegírico realizado pelo Tribunal
de Justiça do Piauí, em 2002: “os discursos longos tendem a não
exprimir a verdade dos fatos e dos sentimentos; os curtos, ao menos,
tendem a ser ouvidos e são verdadeiros.
Obrigado.

(*)  Proferido por Joseli Magalhães na APL, em 18 de junho de 2012, na solenidade de lançamento do livro HISTÓRIAS COM PÉ E CABEÇA...

sexta-feira, 18 de maio de 2012

ANTOLOGIA DO NETTO


Texto e charge: João de Deus Netto


PAULO JOSÉ CUNHA

Paulo José (Araújo da) Cunha é piauiense, ex-repórter de O Globo (2 anos), Jornal do Brasil (8 anos) e TV Globo (12 anos). Na TV Globo, foi o coordenador, em Brasília, da cobertura das atividades da Assembléia Nacional Constituinte. Especializou-se na cobertura política, iniciada em 1977. É diretor de documentários e comerciais de TV, alguns deles premiados em festivais. É autor de “O Salto sem Trapézio” (poesia), “A Noite das Reformas” (análise dos bastidores da revogação do AI-5), “A Grande Enciclopédia Internacional de Piauiês” (estudo sobre a linguagem popular do povo piauiense), “Vermelho, um Pessoal Garantido” e “Caprichoso, a Terra é Azul (livros de arte sobre a Festa do Boi-bumbá de Parintins-AM). Participou das antologias “Poesia de Brasília” (org. Joanyr de Oliveira), “Mais Uns – Coletivo de Poetas” (Coord. Menezes y Moraes), “P2” (org. Cinéas Santos), “Perfume de Resedá” (Oficina da Palavra – 2009). Autor de um dos capítulos de “Marketing Eleitoral – A Viagem da Reeleição” (org. George Mendes) e de “Imprensa e Poder no Brasil”, edição da Editora da UNB (no prelo). Professor de Telejornalismo na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB), onde dirigiu o Centro de Produção de Cinema e Televisão.
Paulo José Cunha atualmente é apresentador da TV Câmara onde tem um programa de entrevista chamado Comitê de Imprensa.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

O VELHO CHALÉ DE JOSÉ DE FREITAS (PARTE 2)



16 de maio   Diário Incontínuo

O VELHO CHALÉ DE JOSÉ DE FREITAS (PARTE 2)

Elmar Carvalho


Algumas vezes íamos até o cimo do morro, onde ficava o Cristo Redentor, hoje infestado de antenas, que lhe empanam a beleza; outras vezes, nos dirigíamos até a madona, ou N. S. do Livramento, a segurar o menino Jesus, bela obra do escultor Murilo Couto, que projetou a belíssima Praça Landri Sales, em Teresina, e esculpiu outras estátuas. Não sabia que o morro tinha nome. Parece que hoje o denominam de Morro do Fidié. Prefiro chamá-lo de Morro do Livramento, numa evocação ao nome antigo da cidade e em memória das lutas libertárias dos piauienses.

Nas proximidades do chalé, ficava a casa do falecido senhor Firmo. Não sei o fundo de verdade na história que se contava, mas ouvira falar que esse homem cometera uma façanha um tanto homérica, e portanto digna de ser narrada. Segundo essa versão tradicional, ele assumira um compromisso com a Casa Almendra de lhe entregar, certo dia, algumas sacas de produtos agrícolas. Morava esse homem numa localidade distante, não me recordo se em Nova Olinda. Acordou cedo, ainda noite escura, e foi à procura dos jegues para cumprir o trato. Por algum capricho desses caprichosos animais, Firmo não os encontrou no pasto, onde eles costumavam pernoitar.

Tendo esse rurícola muito orgulho em cumprir suas promessas, e sendo um homem novo e robusto na época, não teve dúvida: pegava uma das sacas e levava até um ponto distante, depois retornava para pegar as outras; desse ponto, as pegava, uma por uma, e as conduzia até outro local mais adiante, até, enfim, deixá-las na porta da Casa Almendra, ainda cedo da manhã. Diz a lenda que o coronel José de Freitas, ao ver o caboclo, o cumprimentou, e, observador, perguntou pelos animais que haviam conduzido os produtos.

Firmo contou-lhe o feito epopeico, que causou assombro ao rico comerciante. A partir de então, José de Freitas passou a ajudar Firmo, que veio a se tornar um homem considerado próspero, ou mesmo rico pelos parâmetros da época. Não sei, repito, até onde vai a verdade, e onde começa a lenda. Sei que é a história de um homem rico que respeitou um caboclo de fibra e de honra; de honra porque honrava a palavra empenhada, e por conseguinte honrava-se a si mesmo.


Aos 14 anos de idade, em José de Freitas, por gostar de literatura, cultura e história, eu imaginava que o chalé deveria ser transformado em museu. Tempos mais tarde, em poema datado de 26.08.1991, louvei a magia e o encantamento desses meus felizes anos josé-de-freitenses. Eu era fiscal da extinta SUNAB e nela, nessa data, trabalhavam, como funcionários cedidos ou à disposição da autarquia, os primos, ambos nascidos na velha Livramento, Francisco Costa e Francisco da Costa e Silva Sobrinho, o primeiro como fiscal, vez que ele era fiscal do estado, e o segundo, como titular da Delegacia da SUNAB no Piauí. Anunciei-lhes o poema, e entusiasmado, ainda jovem, li de forma retumbante essa ode à bela terra, onde fui tão feliz. Francisco Costa, radialista e um dos maiores conhecedores e cultores da Jovem Guarda, me havia dito, nesses tempos sunabianos, e confirmou-me isso recentemente, que se recorda de mim a jogar bola, como goleiro, em sua cidade, e a defender, com fervor, os meus pontos de vista.

Quando recebi o título de Cidadão de José de Freitas, por proposição do vereador José de Araújo Chaves Neto, o Bacharel, mandei confeccionar um banner com esse poema e o doei, devidamente emoldurado, à Câmara de Vereadores. Encaminhei um outro banner ao prefeito da época, mas não sei se foi afixado em algum lugar. Sei que o meu amigo Lirton Nogueira Santos, magistrado e historiador, ornou o átrio do fórum com um quadro desse texto poético, que também se encontra na Fazenda Ininga, recentemente adquirida pelo professor e teatrólogo Paulo Libório, localizada nas cercanias da cidade, e que aos poucos está sendo transformada em espaço cultural e museu. Nessa vetusta fazenda nasceram o empreendedor e engenheiro Antônio José Sampaio, fundador da legendária fábrica de laticínios de Campos, hoje Campinas do Piauí, e o padre Sampaio, que teria sido confessor da princesa Isabel. O imponente prédio da indústria ainda existe, embora quase em ruínas.

Em belo texto publicado no Portal do Sertão, o cantor e humorista João Cláudio Moreno elogiou a restauração do velho chalé, que me causava admiração, fascínio e um quase medo em minha já distante meninice. Soube que será uma escola. Em meu gosto pessoal, preferiria que fosse transformado em museu e espaço cultural, que bem poderiam servir para atividades extracurriculares, além de atração de turistas e promoção de eventos culturais, e mesmo podendo conter biblioteca e videoteca. De qualquer modo, fica lançada essa ideia e essa possibilidade. Sem dúvida, foi uma grande obra a restauração da Vila do Tejo, o velho chalé, que me despertava a imaginação em minha meninice.

LIVRAMENTO: PEDRA E ABSTRAÇÃO
(roteiro sentimental de José de Freitas)

Elmar Carvalho

Que é Livramento?
Livramento
é uma revoada de santos,
anjos e meninos sobre um morro
que também voa.
Onde, agora, o morro?

O morro continua lá
e em minha memória incessante,
escalado por
meninos que são anjos
do além do bem e do mal.

No morro as quedas
ficaram suspensas
entre o cair e o voo
por milagre ou magia,
ou simples brincadeira
de algum anjo travesso.

O visgo que visgava
os vim-vins de minha infância
ainda me visgam àquele
sítio de sonho
mais que sonho:
sonho acordado.
Os santos ainda estão lá,
em pleno vôo de pedra e abstração
e de prodígio que não assombra
em seu enigma desvendado.

Em mim permanece
mais forte que nunca
o gosto mais que gostoso
das frutas que furtei
dos quintais franqueados
em pródiga dádiva.

Sinto ainda sempre e agora
uma ampulheta derramar sobre mim
o frescor macio da areia e a sombra
verdoenga da mangueira,
e me trazer intacta e completa
a minha mais feliz meninice.

Recordo o açude
em que fui tão menino
como não mais pude
ser, desde então.
E do açude
os criolis ainda me chegam
em seu sabor acredocetravoso
de infância e recordação ...

As partidas de futebol
ainda se repetem em minha memória:
video-tape que não se cansa
de se repercutir
em seu interminável repeteco.

No chalé, medrosos,
os fantasmas ainda se abrigam
e se escondem dos vivos.
Antigos, baratas passeiam
e ratos rondam por entre
os móveis do nunca mais.

A cidade continua a mesma,
eu continuo o mesmo
e no entanto ambos mudamos
e continuamos os mesmos
no eterno retorno de nós mesmos.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

O VELHO CHALÉ DE JOSÉ DE FREITAS (PARTE 1)




16 de maio   Diário Incontínuo

O VELHO CHALÉ DE JOSÉ DE FREITAS (PARTE 1)

Elmar Carvalho


Li na internet que o atual prefeito de José de Freitas, Ricardo Camarço, cumprindo promessa política antiga, restaurou o chalé onde morou José Rodrigues de Almendra da Fonseca Freitas, patriarca da família Almendra Freitas no Piauí. Nasceu em Portugal em 07.05.1865 e faleceu em 01.03.1931, em Livramento, hoje cidade de José de Freitas, em sua homenagem. Foi o fundador da Casa Almendra, uma das mais importantes firmas comerciais em sua época, ao lado da Casa Inglesa, indústria Moraes e Roland Jacob. Exerceu a liderança política de José de Freitas (da qual foi intendente), por mais de duas décadas. Foi deputado estadual em quatro legislaturas. Seu neto Aluísio Napoleão escreveu-lhe a biografia, em cujo livro revela que ele tinha preocupações ecológicas. Mas não é dele propriamente que desejo falar, e sim da Vila do Tejo, mais conhecida simplesmente como o chalé.

No ano de 1970, quando eu tinha de 13 para 14 anos, morei em José de Freitas, numa casa que ficava perto e na mesma rua da residência do afamado marceneiro Zezé Barros, do qual fui aprendiz por alguns meses, a pedido de minha mãe, que me desejava dar alguma ocupação. Ao lado de nossa casa morava a viúva conhecida como dona Irá (Iracema). Eu era amigo de seu filho Carlos, que desde essa época não mais revi. O Itamar, bom de drible, era também nosso amigo.

Jogávamos bola todo dia num campo de areia, encravado entre grandes mangueiras, situado na frente da casa do Zezé Barros. Eu e o Carlos estudávamos no Ginásio Antônio Freitas, no qual eram professores o padre Deusdete Craveiro de Melo, o ecetista Sebastião, colega de meu pai, a promotora de Justiça, Durvalina Pereira dos Santos, mas que todos chamávamos simplesmente de doutora, o José Acélio Correia, gerente da agência local do Banco do Estado. Entre outros colegas, havia o Edmílson, irmão do Itamar, o “Bacharel”, o João Rocha, o Paulo, que morava perto do famoso Bar Glória, célebre pelo seu balcão moderno e lustroso.

Nessa época, com a ajuda do padre Deusdete, liderei um grupo de garotos e criamos um campo de futebol, na frente do cemitério velho, também chamado de cemitério dos ricos. O padre deu as traves, a bola e os tornos de marcação. Fiz uma carta ao Armazém Paraíba, narrando essa história, e terminei conseguindo uma equipe do Santos, que agora está na moda com o Neymar e outros craques. Pelo menos uma vez por semana, eu, o Carlos e o Itamar, além de outros companheiros, íamos a caminhar até o açude Pitombeira, que ficava a alguns quilômetros de nossa casa. Os quintais se abriam em plena dádiva, e às vezes degustávamos umas mangas no caminho. No paredão do açude havia pés de criolis e outras árvores, sempre verdes, que formavam uma alameda. Serviam de pano de fundo para os nossos saltos do trampolim.

Nesse itinerário, algumas vezes passávamos pelo chalé, que já nessa época parecia abandonado, e já um tanto deteriorado. Tínhamos certo receio dele, e nunca entramos no imóvel. Portanto, nunca conheci o seu interior. Já nessa época eu me interessava por história e estória. Sabia que ele fora a residência do patriarca dos Freitas, cuja biografia eu já lera em sua lápide, no cemitério a que fiz referência. Ali eu já pesquisara dados biográficos de Antônio de Almendra Freitas, que fora deputado estadual, e de dona Cândida Cunha, que contribuiu com grandes cabedais para a construção da bela igreja de São Francisco.

Em muitas de nossas perambulações passávamos por essa igreja e pelo teatro, que lhe ficava perto. No ano em que morei em José de Freitas, fizeram show no teatro os ídolos populares Waldick Soriano e Roberto Muller, este piauiense de Piracuruca. Seguíamos para escalar o morro, que fica no centro comercial e histórico da cidade. Tínhamos diferentes trilhas para subi-lo, sendo a menos usada a escadaria de cento e tanto degraus. Preferíamos os caminhos que nos requeriam mais esforço e mais adrenalina.

terça-feira, 15 de maio de 2012

LANÇAMENTO DO LIVRO HISTÓRIAS COM PÉ E CABEÇA


A Academia Piauiense de Letras e a família do escritor, membro da APL, Patrono da Allche, membro da Alval e Desembargador MAGALHÃES DA COSTA, representada por dona JÚLIA MAGALHÃES, já expediram convite para o lançamento do livro HISTÓRIAS COM PÉ E CABEÇA..., organizado pelos filhos do autor, Jomali Magalhães e Joseli Magalhães, contendo 25 contos inéditos.


Apresentação: Oton Mário José Lustosa Torres

Data: 18 de maio de 2012 (sexta-feira)
Horário: 19h e 30 min.
Local: Sede da Academia Piauiense de Letras
(Avenida Miguel Rosa, 3300-Sul.)




Tradução de um texto de Raymonde Norman*



CUNHA E SILVA FILHO

Para a mãe Elza, minha mulher, e para minha mãe Ivone e todas as mães neste “Dia das Mães”

Minha mãe
Sobre minha fronte põe tuas mãos frescas. Aí.. sim.. que refrigério! Isso tudo me faz reviver o tempo em que, pequenino, me punhas sobre os joelhos quando eu tinha um grande pesar, por exemplo, um galo na testa, ou quando, sem querer te revelar, tinha medo dos ruídos e da tantas sombras sob o meu leito de criança.

Me sorri agora com este mesmo sorriso pleno de luz. Recordas? Dizias-me que era “teu pequeno cavalheiro.” Me parecias feliz, feliz como as fadas e princesas dos contos maravilhosos.

Teus cabelos embranqueceram. Por acaso foi de tanto chorares por mim? Não tens mais o rosado na pele. Não seria por que tanto ficaste à minha espera?

Em tua pessoa pensava às vezes lá distante, na solidão no meio de meus colegas de cativeiro. Levando no rol dos repatriados, retorno através de pequenas etapas e longos dias até chagar a ti. Não te disse nada ainda, nem a ti dado nenhum testemunho. Cansado e muito magoado me encontro agora.. No entanto, tu sabes agir sem questionar. Com passos leves, me cumulas de cuidados, de silêncio, de tua presença.

Te sigo pelo olhar. Bebo teu sorriso: não quero pensar em nada e, se por acaso o pesadelo me ameaçar, ou se as lembranças de sofrimentos me assaltarem, estenderei a mão; estarás aí perto ... e o meu cansaço passará. Um dia, talvez, quando estiver mais disposto, te contarei. tudo.... como se esvazia de um saco bem pesado todas as minhas dores. Agora, quero esquecer, quero viver e te quero junto de mim... Mamãe.



(Trad. de Cunha e Silva Filho)

Nota: A despeito de ter pacientemente procurado, via Internet, dados biográficos do autor do texto acima, de resto, uma texto belíssimo falando dos valores universais das Mães, na consegui encontrar nada de concreto. Só contei com o livro, do qual extraí a passagem que traduzi, que está num antigo compêndio didático de français escrito por Marcel Debrot, livro lido na adolescência, adotado por meu pai, meu então professor de francês no Ginásio “ Des. Antônio Costa,” instituição escolar particular, mais conhecida como “Domício.” O título do livro é Le français au gymnase, terceira e quarta séries ginasiais, publicação Editora do Brasil, São Paulo, 5. ed., p.34-35. Agradeceria a qualquer leitor caso me fornecesse dados biobliográficos referentes ao texto.
CSF

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Chora pássaro



JONAS FONTENELE

Chora pássaro.
Que crime hediondo cometestes?
Fizeste algo tão horroroso assim?
Tivesse alguma chance de defesa?

Que será que cantas da tua prisão?
Será a certeza do cativeiro eterno?
A saudade dos teus?
Ou a implacável solidão?

Dentro de minha gaiola, associo-me a tua dor,
Choro um pouco contigo,
Sentindo a impotência de não poder te libertar.

domingo, 13 de maio de 2012

USO E DESCASO


Fazenda Ininga
Fazenda Abelheiras

Olavo Pereira da Silva Filho


Nesta pauta três exemplos de preservação de antigas fazendas de gado nos municípios de Campo Maior e José de Freitas: Abelheiras, Tocaia e Ininga.
Fazenda Tocaia
A primeira, propriedade de Anfrísio Castelo Branco, cuja origem remonta aos primeiros anos do século XVIII e se prende à Casa da Torre de Garcia D’Ávila na Bahia, berço dos currais do Piauí. O sobrado da Tocaia da família Gayoso e a Ininga, de Paulo Libório, que traz numa telha a data de 1832.
Essas relíquias vêm sendo preservadas com critérios e dignidade que nos enobrece e projetam o Piauí no cenário nacional. Embora não oficialmente protegidas, o uso dá sustentabilidade.
Em sentido contrário, a política estadual exibe o arruinamento de outros bens oficialmente protegidos, em notável declaração de aborto administrativo. Dentre os quais a Fazenda Serra Negra (1766), a São Domingos, a Dona Alemã e a Chapada.
Fazenda Serra Negra
Em sentido contrário, a política estadual exibe o arruinamento de outros bens oficialmente protegidos, em notável declaração de aborto administrativo. Dentre os quais a Fazenda Serra Negra (1766), a São Domingos, a Dona Alemã e a Chapada.
Detalhe do frontispício da ermida da Fazenda Chapada do Didoca


CROMOS DE CAMPO MAIOR

Elmar Carvalho

VII

Na casa grande da fazenda
o brasão é uma grande
caveira de boi erado
de chifres enormes
às vezes descrevendo
curvas
como obra de arte.
O vaqueiro e o cavalo
se fundem e se confundem na desabalada
                                                    alada
carreira quase vôo
campeando gado pelos campos
                             de Campo Maior.
A perneira e o gibão
dependurados na parede
como se vestissem invisível corpo
são a lembrança palpável do vaqueiro
morto na desobriga.



SER MÃE



Carlos Henriques Araújo

Não basta ser mulher, tem que ser mãe.
Não basta ser casada, tem que ter filhos.
Que me perdoem as solteiras!
Ser mãe é outra história,
Ser mãe é uma glória,
Ser mãe é um privilégio,
Ser mãe é um sortilégio.
Ser mãe é maravilhoso e divino,
Ser mãe é gerar um menino.
Ser mãe é ser dura e carinhosa,
Ser mãe é ter o perfume da rosa
Ser mãe é se dá sem ser servida
Ser mãe é a brisa suave sentida
Ser mãe é sofrer num paraíso
Ser mãe é ter destreza e juízo
Ser mãe é sorrir na dor e na alegria,
Ser mãe é se dedicar noite e dia.
Ser mãe é uma dádiva,
Ser mãe é ser vívida e ávida,
Ser mãe é ser médica e nutróloga,
Ser mãe é ser professora e psicóloga.
Ser mãe é ter uma áurea e muito brilho,
Ser mãe é ser feliz vivendo para seu filho.

sábado, 12 de maio de 2012

Eleitos Wilson Nunes Brandão e Deoclécio Dantas Ferreira para as cadeiras 4 e 15 da APL


Wilson Nunes Brandão
Deoclécio Dantas


Foram eleitos os candidatos Wilson Nunes Brandão e Deoclécio Dantas Ferreira para ocuparem, respectivamente, as cadeiras de números 4 e 15, vagas com o falecimento dos acadêmicos William Palha Dias e Benjamin do Rego Monteiro Nonato. Votaram 37 acadêmicos, dos quais 27 por correspondência, e 10 pessoalmente. Portanto, houve apenas uma abstenção. O candidato para ser eleito teria que ter pelo menos 20 votos. O historiador Wilson Nunes Brandão obteve 33 votos, e o jornalista e escritor Deoclécio Dantas, 29. Tudo transcorreu na mais perfeita ordem, sem nenhum incidente ou impugnação. A Comissão Eleitoral era constituída pelos escritores e magistrados Nildomar da Silveira Soares, Oton Lustosa e Elmar Carvalho. Estavam presentes, entre outros, os acadêmicos Paulo Nunes, desembargador Manfredi Mendes de Cerqueira, Hardi Filho, Herculano Moraes, Jônathas Nunes, Francisco Miguel de Moura, Fonseca Neto, desembargador Paulo Freitas. Entre outros visitantes, estiveram na sede da Academia Piauiense de Letras o desembargador Tomaz Gomes Campelo e o jornalista e escritor Cazé. Em breve pronunciamento, o presidente da APL, Reginaldo Miranda, fez a proclamação dos eleitos.