terça-feira, 16 de outubro de 2012

A vitória das abstenções na eleição brasileira



Cunha e Silva Filho

A vitória das urnas de um candidato, em muitos casos, não, passa da vitória do poder do dinheiro, privado ou  público, sobre o eleitor. Algo, contudo, está mudando para melhorar: os eleitores, em massa, nestas eleições municipais brasileiras deram já o primeiro sinal de insatisfação com as coisas da política. Foram milhares de ausências de eleitores desta vez. Isso, pelo menos, nos sinaliza para uma situação inusitada.

De tanto verem cair o nível de confiança dos candidatos ou de candidatos que, por este motivo, ficaram sob suspeita de corrupção ou péssima administração nas prefeituras, o eleitor brasileiro comporta-se como gato escaldado, i.e., não confia em quase ninguém, desinteressou-se pela política e, se fossem consultados, em plebiscito, talvez escolhessem o voto facultativo e não o obrigatório, como está ainda em vigor na legislação eleitoral brasileira.

Há uma ideia corrente entre nós segundo a qual não se tem mais confiança nos políticos mais velhos, o que é uma falácia. Ser candidato jovem não significa ser bom candidato que tenha metas novas, modernidade de visa, competência e talento para a política com P maiúsculo. O que faz de um candidato um bom político é preparo, competência, tino administrativo, amor à democracia e caráter com a res publica. Esses são atributos que independem da idade .

Num país como o nosso, cuja história republicana nos últimos anos passou por mudanças drásticas que lhe fizeram mal e por presidentes que,  de uma forma e outra, prejudicaram o povo brasileiro, seja por corrupção, seja por autoritarismo, seja ainda por um tipo de desenvolvimento fragmentado, ou seja, praticando um governança que se pode avançar economicamente, por outro lado, ainda mantém velhos ranços da política de conluios abertos ou de portas fechadas, sem, desta forma, permitir transparência com os compromissos democráticos ainda a serem alcançados pelo sistema presidencialista. Para conquistar o apoio de seus diverso partidos, o presidente, o governador ou o prefeito usa de tantas formas de cooptação que, no fundo, descaracterizam o significado autêntico dos partidos políticos. Ora, coligações oriundas de diversas correntes ideológicas se enlaçam tão intimamente que o resultado configura uma absoluta ausência de unidade orgânica e coerência na práxis da política.

Para piorar ainda mais a vida política brasileira, no governo do PT, passamos por vexatórios exemplos de falta de valores éticos imprescindíveis ao  país. O exemplo do “Mensalão”, envolvendo práticas ilícitas de fazer política mediante o concubinato entre o público e o privado a fim de conseguir maioria de votação para projetos do governo é a evidência mais cristalina de quanto ainda estamos distantes de uma maioridade política entre nós. Negar o “Escândalo do Mensalão”, guardadas as devidas proporções de estrago moral das instituições brasileiras, seria como negar um fato histórico como o Holocausto, além de ser uma insensatez e crime de lesa-pátria. Se neste escândalo estava em jogo o dinheiro do Erário Público, ou seja, do povo brasileiro, através de transferências de dinheiro de bancos públicos para pagamento de propinas ou para até mesmo enriquecimento ilícito por cometimento de crime de peculato, fica problemático ou mesmo constrangedor não punir os responsáveis principais pelos crimes alegados. A absolvição dos indigitados principais será considerado um golpe terrível para a nossa democracia.

Quiçá por isso é que o absenteísmo nas urnas tenha sido tão grande este ano. O fato de alguém anular seu voto na cabine, ou votar em branco são insofismáveis provas de descontentamento do eleitorado pelos políticos brasileiros. São estas circunstâncias que deverão ser pesadas pela nossa Justiça Eleitoral e sobretudo pelos nossos governantes.

O grande sinal de enfado do nosso povo pelos políticos já foi assim indicado. Nosso políticos precisam, portanto, ponderar suficientemente sobre outros componentes negativos que contribuem para a descrença nos políticos são os problemas crônicos que a sociedade civil está duramente sofrendo – em todos os níveis sociais -, ou seja, nas áreas da segurança das pessoas, com violência pipocando em todos os cantos do país, com mortes de inocentes, sequestros, assaltos, em casa ou na rua, com vítimas fatais, violência contra a mulher, alguns graves problemas ligados à saúde pública, aos transportes de massa (violência de motoristas andando em alta velocidade e pondo em risco a vida dos passageiros, aumento do custo de vida, das tarifas públicas e privadas, aumento extorsivo dos planos de saúde a ponto de se tornarem um gargalo no bolso dos usuários.

Se, no setor privado, e em algumas governos estaduais e municipais, os funcionários têm algum pequeno aumento salarial, no governo federal, entretanto, muitos setores do funcionalismo estão sem aumento há, pelo menos dois anos. Ora, isso é uma flagrante injustiça contra os funcionários, como são exemplos os professores do ensino médio federal e universitário.

Por outro lado, o legislativo, o executivo e o judiciário recebem seus polpudos aumentos, sobretudo os deputados e senadores que determinam os seus próprios aumentos salariais e suas regalias que, somadas, constituem elevadíssimos salários! O povo, indignado com razão , está vendo este escândalo e desperdício de dinheiro do contribuinte e dos que pagam impostos de renda ou os impostos embutidos nas tarifas, nas compras de todos os itens possíveis.

Tudo isso não será mais do que suficiente para explicar a indisposição da sociedade com os políticos, com a presidente da República e o consequente afastamento, segundo referi,  de milhares  de eleitores das urnas? Festejar a vitória das eleições é muito fácil, mas refletir profundamente sobre os gravíssimos problemas nacionais subjacentes aos gritos de vitórias de candidatos reeleitos não me parece razão para os requebros de roda de samba e hipocrisia populista de todas as cores ideológicas. Como tem sido fácil enganar um povão de baixo nível de consciência política. O poder de plantão sabe disso e faz a festa.

domingo, 14 de outubro de 2012

Seleta Piauiense - Nogueira Tapety



SENHORA DA BONDADE

Nogueira Tapety (1890 - 1918)


Não te quero por tua formosura
De rainha da graça entre as mulheres:
Quero-te porque és boa, porque és pura
E inda mais, porque sei que tu me queres.

A beleza exterior nem sempre dura.
E a d'alma, estejas tu onde estiveres,
Ungirá de meiguice e de doçura
Tudo em que a bênção deste olhar puseres.

Eu sou artista – encanta-me a beleza,
Em ti, porém, abstraio-a, inteiramente,
E penso amar-te, assim, com mais nobreza,

Pois, se te esqueço a forma e a mocidade,
É para amar em ti unicamente
A encarnação suprema da bondade.

sábado, 13 de outubro de 2012

Acredita em possessão demoníaca?



José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com


Meu filho precisou levar o netinho, 3 anos, ao hospital, vítima de desidratação. Enquanto a criança era atendida, o pai circulava pelos corredores. Ouviu gritos e grunhidos, como voz de porco ou homem enfezado, proferindo irreverentes frases em uma enfermaria. Correu para ver. Tratava-se de uma menina de 11 de anos. A mãe orava sobre ela. O médico não entendia por que tamanho transe. Meu filho voltou assombrado com o fenômeno.

Semelhante caso ocorreu em outro hospital de Teresina. Conhecido e veterano médico acompanhava uma paciente, jovem e bela, atacada, frequentemente, de depressão e alucinações. Doses cavalares de remédios, sem efeito. A jovem manifestava grunhidos aterrorizantes, voz máscula, palavrões e incontida força corporal. Quando o médico se aproximava do hospital, ela já o pressentia, na enfermaria: "Não quero ele aqui. Eu quero é matar esta vagabunda...!"

As igrejas Católica e evangélicas, sérias e sem teatros televisivos, admitem a possessão satânica, com prudência, exigindo, primeiro, resultados da medicina sobre transtornos mentais. A Renovação Carismática Católica, movimento de retorno ao cristianismo primitivo, usa com frequência, a desgosto de parte do clero, orações de libertação. O jovem padre Hélio Libardi, da Congregação Redentorista, pratica exorcismo. Uma das sessões foi presenciada pelo SBT Repórter. João Paulo II, antes do papado, expulsou espíritos malignos. Padre Belmonte, exorcista e professor da Pontifícia Universidade Regina Apostolorum de Roma, em congresso no México sobre a prática do exorcismo, pediu cautela. O padre atribui a possessão diabólica a excessiva utilização de ocultismo, esoterismo, tarô, filosofias neo-pagãs, superstições, que atraem as forças do maligno. SBT Repórter também acompanhou o Padre Jáder Pereira em sessões de exorcismo. O sacerdote adverte: "A prática de ocultismo e esoterismo é uma porta aberta para os espíritos maléficos."

Os espíritos malignos existem; o Espírito de Deus, também. É só escolher entre o mal e o bem. As consequência do mal ou do bem advirão, agindo na saúde, na família, estendendo-se, às vezes, por gerações. Roubo, adultério, drogas, suborno, mentira, assassinatos, corrupção, exercício empresarial da prostituição encontram-se no plano do maligno. Espíritos maléficos podem não tomar posse dessas pessoas, mas inspirá-las ao exercício do mal.

A presença do Espírito Santo de Deus, através da oração diária e do exercício dos dez mandamentos, atrai bênçãos por gerações. Na carta aos efésios, capítulo 6, apóstolo Paulo promete: "Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais enfrentar as ciladas do maligno."

Na Bíblia, encontram -se inúmeros casos de possessão demoníaca, algumas confundidas com manifestações epilépticas ou doença física. O teólogo Antônio Carlos Machado, de Fortaleza, enviou-me sua opinião sobre o tema: "Seguindo uma linha de raciocínio analógica à de Freud, esses fenômenos paranormais podem ter uma explicação baseada na história de vida das pessoas, o que poderia ser descoberto através de uma análise psicológica de profundidade. O problema é que esse tipo de análise depende da colaboração do analisado e, no mais das vezes, o próprio paciente não tem condições ou não tem vontade de colaborar. Para quem vê somente o lado exterior do fato, parece uma coisa muito estranha. Mas, ao meu ver, isso indica o quanto a nossa ciência ainda está longe de conhecer mais profundamente a 'alma' humana, então a forma mais fácil de explicar isso seria atribuir a ações de espíritos. Existem pessoas sensitivas do bem, que são capazes de 'captar' fenômenos invisíveis para os outros."

Pessoas do bem podem ser oprimidas, nunca possuídas pelos espíritos imundos. O demônio oprimiu Jesus, no deserto, aproveitando-lhe o estado frágil de jejum prolongado. Jovens pobres e educados no bem, sofrem astúcias para a prostituição e paixões descontroladas, tráfico de drogas, a fim de conquistas financeiros rápidas.

Pior que a poluição, o mundo anda intoxicado das influência malignas. Deus virou balela e segundo plano, só lembrado depois das desgraças estabelecidas.

A civilização atual descrê das ações malignas. Explicam-se os rumos e as causas de tantas desgraças e males, que nem médicos nem recursos científicos nem psicólogos dão jeito. Daí os transes esquisitos nos hospitais, clínicas, cultos e ocultismos.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

SESSÃO NOSTALGIA


Textos e charge: Gervásio Castro


NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS

Com uma excelente trilha sonora, ótima fotografia, elenco de primeira e direção do genial John  Ford, "No Tempo das Diligências" é um dos maiores westerns já produzidos  por Hollywood. Orson Welles disse  que  assistiu  a "Stagecoach" mais de 40  vezes, antes de  produzir  sua obra-prima, "Cidadão Kane", em 1941, e Akira Kurosawa afirmou  que era umde seus filmes favoritos e o influenciou quando fez os Sete Samurais em 1954.

Antiga capela de Tutóia ameaçada



Geraldo Borges

Não conheço a cidade de Tutóia. Mas gostaria.  Antes  que o padre danado, mande derrubar a igrejinha. Chegaria por lá incógnito, como um anjo vestido de branco, barbado, e entraria na humilde capela, claro se encontrasse a porta aberta e ainda de pé. Pois meus poderes de anjo são precários, do contrário o padre não derrubaria a igreja..

 Tenho ouvido dizer que quase não abrem mais as suas portas. Ou uma porta apenas. Pois estas velhas igrejas do passado colonial de nossas cidades, sempre foram muito pequenas, mas, uma referência importante, na cidade, com a sua velha torre, hasteando um galo de metal, um sino, que badala sempre aos domingos com o seu ar medieval, a sacristia, o confessionário. A nave, a altar, os bancos rústicos de madeira. Uma fisionomia ascética de um velho tempo em que ser padre era de fato um sacerdócio. Era ajudar a construir e manter de pé uma igreja.

Não sei não. Esse padre é danado mesmo. Derrubar uma igreja não é fácil, é coisa do capeta. cair de pau em cima dos fiéis. E como derrubar uma velha casa, cheia de história, habitada por fantasmas. Um desrespeito a cultura cristã. Mas, como diz um filosofo: tudo que é solido se desmancha do ar.

 Pelo que parece a igrejinha da cidade de Tutoia vai virar pó. Talvez a comunidade cristã atual nem ligue mais para ela. A não ser os mais velhos; aqueles que foram batizados em sua pia batismal. As velhas beatas que se confessavam com o padre danado. Senhora que se casaram no altar da capela. Muita gente vai se lembrar das velhas quermesses no pátio da igreja. E quem sabe algumas pessoas imaginativas, crédulas, não vau  levar para casa algum velho pedaço de adobe, tijolo,   como amuleto, souvenir de uma antiga ruína; assim como os turistas  que viajam à Jerusalém trazem coisa santas de lá. Mas falando em Jerusalém  veio – me  à  lembrança o estado do Vaticano que é o senhor de todas as igrejas e capelas espalhadas pelo mundo cristão.

 Por que não  recorrer ao Papa, nessa hora critica em  que o danado do padre  quer derrubar a igreja. Se o  Santo padre não quiser. Nada feito.

 Eu não sou cristão de coração, apenas de batismo, o que já é um grande sacrifício. Mas no meu modo de pensar, não acho justo esse negócio de derrubar igrejas. Derrubar igrejas é como derrubar o povo de Deus. Desgarrar as assembleias. Já pensou. E desqualificar o trabalho dos crentes que levantaram as humildes igrejas no confim de suas paróquias  para a pregação da palavra. Ninguém vai acreditar na palavra de um padre danado que derrubou a sua igreja. Já pensou se essa moda pegar Se começarem a derrubar as igrejas da Bahia, as igrejas de Minas Gerais, a Notre Dame de Paris,( todas se equivalem, a humilde capela  a imponente catedral.) a igreja de São Benedito, na praça da Liberdade, em Teresina para  desaguar melhor o transito, ou para estacionamento. Vade retro Satanás.

Essas velhas igrejas são testemunhas de uma época, documentos de pedra, registro de uma antiga arquitetura, seus bancos, suas paredes, seus vitrais rústicos contam uma história que não pode ser apagada simplesmente, impiedosamente, com a fúria mecânica de uma escavadeira  guindada pela mão  de pessoas inocentes que de espontânea vontade jamais fariam isto. Quem derruba busto de políticos é vândalo. Quem derruba uma igreja  só pode ser um danado.Um herege.

Fonte: blog Piauinauta

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

PUNIÇÃO EXEMPLAR



10 de outubro

PUNIÇÃO EXEMPLAR

Elmar Carvalho

Numa rápida folga dos serviços eleitorais, um militar, instigado por um comentário que fiz sobre os maus-tratos que se cometem contra os animais, me revelou que quando era criança presenciou uma cena que ainda lhe está muito nítida na memória. Ia ele passando por uma rua de Teresina, quando viu um pequeno jumento a puxar, com muita dificuldade e esforço, uma carroça, que levava pesada carga. O carroceiro, para estimulá-lo, rodava o chicote sobre o lombo do animal e, às vezes, dava-lhe algumas vergastadas.

Como se não fosse o suficiente a carga desproporcional, ainda ia ele em cima da viatura rudimentar, todo ancho e pachola. Quando chegaram a uma esquina, os pneus da carroça ficaram retidos numa valeta que havia. Em virtude de o asno não ter força suficiente para mover o veículo de carga, o carroceiro irritou-se, como se o pobre bicho tivesse alguma culpa, e começou a chicoteá-lo de forma violenta. De uma mesa, a tomar calmamente, sua cerveja, um homem observava a cena desumana.

Como as imprecações e as chibatadas do carroceiro continuassem, de forma estúpida e inútil, já que o jegue não conseguia mesmo movimentar a carroça, o homem que bebia a cerveja falou para o outro:
– Espere, que vou lhe mostrar como se deve fazer, pois também sou carroceiro...
Quando chegou ao local da ocorrência bárbara, o espancador lhe entregou o chicote.

Imediatamente, sem lhe dar a menor chance de defesa, o cidadão vibrou duas ou três violentas chibatadas contra o agressor do jumento, a ponto de ele se contorcer de dor e empreender imediata fuga. Após essa primeira providência, o defensor do jerico o desatrelou da carroça, e o levou a uma sombra, onde o deixou a pastar o verde e tenro capim que havia no local. Em seguida, foi calmamente tomar outra garrafa de cerveja. Talvez a comemorar, feliz da vida, a bela ação que praticara.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Carly Silva: um inesquecivel e grande mestre universitário



Cunha e Silva Filho

Das minhas memórias – as boas – da universidade, do tempo da graduação, uma ficou inesquecível e, por isso me foi grata e me serviu tanto na formação acadêmica. Esta se configurou na alegria e prazer de ter conhecido o professor Carly Silva, da cadeira de língua e literatura inglesa. Carly Silva era professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, assim como da Universidade Federal Fluminense. Não era dos quadros da Faculdade de Letras da UFRJ, onde estudei e dele fui aluno.

Provavelmente viera lecionar na UFRJ como professor visitante de língua e literatura inglesa. Costumo dizer que ele foi uma espécie da salvação minha, no bom sentido do termo, já que havia sido reprovado com a professora anterior da disciplina que ele iria ministrar, Fundamentos da Cultura Literária Inglesa (Funding, era a sigla). Disciplina importante por todos os aspectos, pelas mãos de Carly Silva descobri o quanto sua abordagem, sua didática e sua figura de scholar infundiram em mim uma saudável e nova visão do conhecimento do início da  formação da literatura inglesa, cujo tema mais relevante foi o estudo analítico do famoso poema “Beowulf”, escrito no final do século IX, considerado o poema mais antigo da literatura inglesa

Diferente da professora anterior, nas aulas de Carly Silva – muitas vez elevadas a quase conferências, graças à ampla visão e aos recursos intelectuais do professor, - pude plenamente compreender a natureza desse poema guerreiro que narra as lutas sangrentas entre o guerreiro Beowulf, que dá título ao nome do poema, e o monstro desprezível chamado Grendel – criatura “meio diabo, meio homem”, na expressão de John Burguess Wilson, monstro que há muito tempo vinha aterrorizando o rei Hrothgar de Jutland. Grendel, atacava a Sala de Festas do Palácio e arrastava os guerreiros de Hrothgar, devorando-os cada vez que invadia o Palácio do rei. Neste ponto, entra em cena o herói e guerreiro Beowlf , vindo da Suécia para ajudar Hrothgar contra as incursões sangrentas de Grendel e da horrenda mãe deste. A vitória ficou com Beowulf.

O professor Carly tinha o hábito de realizar exames orais previamente marcados, nos quais os alunos eram submetidos da posição de suas carteiras a responder a questões propostas pelo grande mestre.

Tanto me animei com ele que ainda aproveitei a sua passagem pela Faculdade para com ele fazer mais dois cursos, um de gramática inglesa, com estudos da orações substantiva, adjetivas e adverbais, uso do infinitivo, do gerúndio e do particípio terminando com um estudo avançado sobre indirect speeech, ou como outros querem,reported speech, e outro, de literatura, desta vez o curso versando sobre a poesia romântica inglesa.

Não preciso afirmar que o curso de poesia romântica foi de excelente nível, reafirmando as qualidade de Carly Silva como conhecedor exímio de literatura inglesa. Aliás, ele combinava duas coisas que nem sempre vêm juntas num mesmo docente: era um mestre de alta qualificação tanto regendo língua inglesa quanto literatura inglesa.

Foram ótimos os momentos das aulas em que  ele analisava , com maestria e clareza ímpar, poemas de Wordsworth, Coleridge, Shelley, Keats e Byron. Na Faculdade de Letras, situada na época na Avenida Chile, Centro do Rio, Carly Silva foi meu professor nos idos de 1969 e 1970. Das suas aulas  eu tinha muitas anotações valiosas sobre essas análises, porqanto  ele falava pausado e,  com  bom esforço e habilidade,  pude copiar comentários  para futuras   pesquisas. Infelizmente,  essas anotações, assim como  as provas  escritas que ele nos devolvia com a nota  respectiva,  não pude  guardar, tendo sido  provavelmente  perdidas  nas muitas  mudanças de residências que  fiz.

Era era tão estimado por alunos que um colega meu, o Paulo Frederico, aluno brilhante, uma vez, em sala com outra professora do departamento de inglês e literatura, pôs-se a defendê-lo a respeito de um assunto que veio à baila sobre pronúncia de professores de inglês da nossa Faculdade. Uma professora, talvez por vaidade ou mesmo inveja, afirmara alguma coisa sobre a pronúncia do professor Carly Silva que absolutamente não se coadunava com a verdade dos fatos. Meu citado colega, sem papas na língua, lhe retrucou com firmeza: “O professor Carly é modelo de pronúncia britânica, professora, além de ser abalizado mestre.” Eu, da minha parte, com orgulho partilhava da opinião do meu colega de sala.

Terminados os meus cursos de bacharel e licenciado, jamais perdi de vista o interesse pelo professor Carly Silva que, por sinal, tinha sido igualmente professor, na UERJ, de um velho amigo meu, o professor Walter Alves Pinto, professor aposentado de língua inglesa, estadual e municipal, e também um grande admirador do mestre da UERJ.

Durante  um bom  tempo, Carly Silva  escreveu sobre questões gramaticais da língua inglesa para a excelente revista Contato, editada pela CESGRANRIO, revista hoje extinta, da qual li vários trabalhos do ilustre mestre, que guardo nos meus arquivo, infelizmente sem ter a coleção completa.


Sei que publicou, entre outros trabalhos, Gramática transformacional: uma visão global. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1978, uma bem elaborada gramática inglesa, para nível adiantado, de título English Grammar: Essentials of English grammatical structure. Rio de Janeiro: Sistema CLC, 1982; A basic reference Grammar of English, 199, 298 p. Desta ultima não consegui dados editoriais.

Sobre a produção  intelectual do mestre,, convém ressaltar que é membro da Academia Brasileira de Filologia (Membro Honorário do Quadro Especial). Foi professor Titular da Universidade Estadual do Rio e Janeiro (UERJ) e da Universidade Federal Fluminense.Hoje está aposentado.

Anos atrás, segundo me informaram, foi vencedor de um concurso sobre estudos de literatura inglesa, com isso ganhando um bolsa de estudos na Inglaterra concedida pelo governo britânico.

Carly Silva é um professor com experiência completa, an accomplished teacher/professor  no rigor do termo, visto que lecionou nos vários níveis de ensino até atingir a privilegiada posição de Professor Titular. Por todos estes títulos, ele se coloca, assim, numa posição de alto nível de docência universitária, ao lado de outros professores brasileiros que deram tudo de si para melhorar e orientar o ensino brasileiro de língua estrangeira, prestando uma proeminente contribuição à educação nacional.

Sua passagem na Faculdade de Letras da UFRJ muito honrou essa universidade e a todos nós que tivemos a sorte e o privilégio de termos sido aluno dele.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

INSÔNIA



INSÔNIA

Elmar Carvalho

No silêncio abissal
da noite estagnada
a engrenagem pesada
do tempo se desenrola
e desaba sobre mim.

As botas cadenciadas
das horas marcham
- lentas lesmas –
marcham infinitamente
na noite sem fim...

sábado, 6 de outubro de 2012

O eleitor brasileiro: um indeciso



Cunha e Silva Filho

Uma vez, um padre brasileiro, após a liturgia da missa, afirmou pela tevê o seguinte: “Votem no candidato certo!” Minha mulher, então, fez a seguinte pergunta para sim mesma ou para quem a ouvisse: “E quem é, afinal, o candidato certo? Diz o Novo Testamento, pela boca de Cristo: “Amai o próximo como a ti mesmo.” “Mas, quem é meu próximo?”, disse um homem da multidão.

Eis uma boa pergunta, difícil, contudo, de ser respondida. Os eleitores, durante um período determinado pelo Tribunal   de  Justiça Eleitoral, assiste à desacreditada “Propaganda Eleitoral”, que alguém com espírito engraçado e malicioso - e com certa razão - a chamou  uma vez de programa humorístico. Dizem as más línguas que, grande parte do povão, e aqui incluo no bolo os diversos níveis sociais e culturais de telespectadores, logo que aparece o “obrigatório’ programa eleitoral, pega de um controle remoto e muda de canal, ou melhor, muda para os canais de assinatura a fim de se livrar de uma parte do programa eleitoral que não passa de mentiradas de alguns candidatos.

Seria o programa um mal necessário? Mesmo com todas as mentiras que não mais são engolidas pelo telespectador mais politizado, já é hora de o Tribunal Eleitoral repensar uma outra forma de realizar a propaganda eleitoral. O mínimo que ela pode fazer para o telespectador até hoje é uma amostragem do variado nível de qualificação dos candidatos. Os eleitores, peneirando cuidadosamente alguns candidatos melhores, vão aos poucos anotando algumas ideias colhidas das apresentações de cada um deles, assim como o nome do partido e o nº do candidato a prefeito e a vereador. Talvez, sob este ângulo, a propaganda eleitoral de alguma maneira sirva para a orientação do eleitor.

Em assuntos de política, de religião e de escola de samba, o ingrediente de fanatismo, de cegueira ainda impera e dita alguma direção para o eleitor. Entretanto, por ser imbuído de fanatismo, de parcialidade, de gosto individual, de simpatia pessoal, é que entra a figura do indeciso.

Os partidos brasileiros são numerosos, as siglas embaralham o eleitorado. Candidatos de partidos diferentes apresentam por vezes  os mesmos programas, os mesmos projetos, as mesmas ideias. Tudo isso confunde a cabeça do eleitor e, por serem mostrados num programa televisivo, já por si só maçante, o eleitor indeciso, fica num mato sem cachorro, perdido que está em concepções diferentes de visão política que, divulgando ideias e correntes ideológicas, mais embarafustam a mente cansado do trabalhador ou de outro indivíduo de profissões variadas. Em síntese, o eleitor mergulha no seu mundo interior tentando buscar alguma coerência a que possa se agarrar para fazer uma opção de um candidato menos desastroso para dirigir sua  cidade e sua Câmara Municipal.

Num contexto nacional em que decide no Supremo Tribunal Federal o destino do famigerado “Escândalo do Mensalão,” com a perspectiva de ainda o eleitor votar em candidato “ficha suja”, fica, por conseguinte, difícil fazer-se uma escolha menos traumática de alguns candidatos.

Uma coisa me parece certa, o eleitor bem intencionado fica remoendo mais ou menos nestes termos: este candidato é bom mas não tem experiência político-administrativa. Este outro está fazendo uma boa administração mas, politicamente, é ligado a políticos e governantes sobre os quais pesam suspeitas de corrupção. Direita, esquerda, centro, extrema direita, extrema esquerda, moderados, neoliberais, democratas sociais, anarquistas, são formas ideológicas que, cada vez mais, se esvaziam de seus princípios originais. De teorização ideológica estamos cansados. Queremos governos que se comprometam com a democracia social na prática, não na teoria nebulosa e sem pés fincados no chão do Brasil.

A profissionalização rasteira e nauseabunda tornou-se a regra no conjunto da política nacional. Nossos homens públicos, com raras exceções , só visam ao poder e às benesses que irão receber na condição de mandatos e de cargos legislativos. A oligarquia ainda se mantém forte num país politicamente provinciano como é o nosso.

Se nosso políticos exercessem sua atividade sem as regalias pantagruélicas próprias do Estado brasileiro, é provável que a Câmara Federal, o Senado, os governos estaduais, os deputados, as prefeituras, os vereadores sumissem como fumaça e as eleições se tornassem um enredo tragicômico de um  romance de  José Saramago (1922-2010). Daí que estão repletos de mediocridades e até de analfabetos e oportunistas os nossos poderes constituídos, que nos envergonham como brasileiros.

O brasileiro, eleitor indeciso, ainda vota em alguém em troca de favores ou porque o candidato é amigo de um amigo de um amigo, de um amigo, numa corrente contínua que me lembra o poema drummondiano “Quadrilha”, fazendo-se, é claro, as devidas modificações semânticas, mas sem retirar o lado irônico da afirmação e estendo-a não para as coisas do “amor,” mas da miséria de nossa  politicalha. Que venham as eleições, mas junto delas eleitores de bem e amantes da democracia brasileira. Amém!

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

FRANCISCO MIGUEL DE MOURA – SINÔNIMO DE LITERATURA



Gilson Chagas           

(...) Notei ainda que as pessoas mais sábias nem sempre têm o que comer e que as mais inteligentes nem sempre ficam ricas. Notei também que as pessoas mais capazes nem sempre alcançam altas posições. Tudo depende da sorte e da ocasião” (Ec 9.11b)

           Em 1973, a publicação de meu primeiro livro me propiciava, entre outras alegrias, a chance de conhecer, em pessoa, alguns dos expoentes da imprensa e letras do meu estado natal, o Piauí. Com o encantamento do quase adolescente que se vê diante de seus mitos, pude, enfim, entrevistar-me, num plano favorável, com Carlos Said – o legendário “magro de aço” - que se tornara padrinho e divulgador de minhas colaborações ao seu programa “Poesias do Piauí”, na “Rádio Pioneira de Teresina”. Inestimável apoio recebi de Herculano Moraes, já poeta de renome e secretário de redação do jornal “O Estado”, concorrente de “O Dia” na liderança jornalística regional.  Encontrei generosa acolhida em A. Tito Filho, ícone da cultura, emérito incentivador dos autores iniciantes e eterno presidente da Academia Piauiense de Letras. Conservo, ainda indeléveis, preciosas lições de Fontes Ibiapina, em nosso encontro de apresentação, na casa de seu irmão Pebinha, na cidade de Picos. Daquela primeira conversa que, ao lado do hoje destacado jurista e poeta Ozildo Barros, tive com o notável escritor, pincei a enfática afirmativa que ele ali fizera sobre Francisco Miguel de Moura. Este, a quem eu conhecia de Santo Antônio Lisboa e, à época, já com três livros na praça, era nome emergente na literatura do estado. Dentro de um contexto mais amplo, disse-nos Fontes Ibiapina, sem reserva: - “O livro de Chico Miguel, “Linguagem e Comunicação em O.G. Rego de Carvalho”, é tão bom quanto a própria obra por ele analisada”.      
O veredicto de Fontes – doutor da lei e das letras - era apenas um minirretrato de uma carreira em começo - alvissareiro por excelência. No curso destas décadas subsequentes, a obra de Chico Miguel expandiu-se e aperfeiçoou-se. Cresceu em número e profundidade; abriu-se para variados gêneros; diversificou-se.    Lançou ele, até aqui (2012), 33 livros: 15 de poesias 4 romances, 3 volumes de contos, 2 volumes de crônicas, 7 de crítica ou história literária, 1 biografia, 1 memorial, sem contar opúsculos de crítica, depoimento e discursos. Além destes, há milhares de artigos espalhados por jornais e revistas do Brasil e do exterior.  Como diria Zé da Luz, o poeta do absurdo, ele está na “Oropa, França e Brasil”.
Pelo esmero e densidade dos textos em prosa ou verso e de sua militância quase religiosa em favor da literatura, tem sido fartamente estudado e saudado pela crítica qualificada; lido e aplaudido pelos núcleos seletos aonde sua criação tem conseguido chegar. Tornou-se, enfim, nesses anos, referencial e fonte para pesquisas, dentro e fora do Piauí. É também analista e prefaciador concorrido por autores novos e veteranos
Infelizmente, contudo, por fatores abstratos - cuja existência e efeitos o bicho-homem - admita ou conteste - não pode controlar – a obra de Chico Miguel não tem recebido tratamento justo do grande mercado editorial brasileiro, quiçá, internacional.  Juntam-se, por certo, a esses “fatores incontroláveis” algumas causas visíveis, como os históricos estigmas que, no curso dos séculos, operam e perduram contra as regiões e unidades federativas de menor expressão socioeconômica, que “a roda dos escarnecedores” (des)classifica como “longe demais das capitais”. Esses crônicos preconceitos, absurdos mas palpáveis - por um sistema perverso de transferência, acabam obscurecendo a arte produzida em estados como o nosso e limitam os horizontes dos talentos que, pelos vários motivos, neles permanecem. Raras foram até aqui as exceções que conseguiram “escapar” a esse cerco.
         O fato é que, embora muito bem difundido nos domínios regionais, o nome de Chico Miguel, se não é exatamente inédito no restante do país – posto ter o respeito de grupos específicos - ainda não alcançou os grandes contingentes que consomem cultura além de suas habituais fronteiras.  Precisa ser (urgentemente) “descoberto” pelas editoras ditas “top”, para ser “apresentado” à grande massa. Pois no segmento editorial que reina no mercado imperam alguns enigmas e paradoxos. Exemplo: embora o livro constitua a “matéria-prima” dessas empresas, a qualidade literária da obra não garante sua seleção. E – pasme-se! – às vezes, atrapalha.  Há mais critérios e interesses entre o teto e o piso das engrenagens humanas do que supõe nossa vã filosofia. E esses descompassos têm gerado alguns mostrengos sociais. Exemplo disso é o JUQUINHA ASS (bumbum) MUSIC, santo do pau oco que vem “surfando numa onda”, arrasta multidões, fez escola e fortuna, virou celebridade. Enquanto isso, o genial Zé da Silva, que atravessou a vida real “num rabo de foguete”, deixou toneladas de grande ficção, mas nunca teve, nem terá um grama de reconhecimento. Melhor “sorte” mereceram João Sebastião e Vicente. Um músico, outro artista plástico. Ambos ouviram sonoros muxoxos dos contemporâneos, tocaram em brancas nuvens suas vidas quadradas, mas acabaram “consagrados” na posteridade.                                                  
       Cabe, por fim, instar o empresariado do livro a abrir uma página de seu catálogo para autores como Francisco Miguel de Moura, escritor de nome simples, que é sinônimo de literatura no Piauí desde 1966. Este, o ano de “AREIAS”, sua poesia de estreia. A bibliografia de Chico, criada em padrões de excelência, teve, até aqui, seu potencial mercadológico subutilizado em edições independentes e pequenas tiragens de programas governamentais. Ela e ele aguardam apenas um “banho” de editora, distribuição e mídia, para ocuparem, afinal, o patamar literário que lhes é de direito.
        Os leitores torcemos para que essa injustiça - que já está perpetrada – não se perpetue.  E, “para o bem de todos e felicidade geral da nação”, que essa obra singular possa ter suas fronteiras rompidas, para tornar-se, afinal, legitimamente possuída e plenamente desfrutada por seus donos verdadeiros, a massa leitora desta geração.

*Gilson Chagas, escritor e professor universitário em Brasília-DF, autor de 2 romances e um livro de poemas, além de várias obras técnicas no ramo de Ciências Contábeis.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

CARLOS SAID – ARQUIVO VIVO DO FUTEBOL

Carlos Said visto por Gervásio Castro
Carlos Said visto por Elmar Carvalho



4 de outubro

CARLOS SAID – ARQUIVO VIVO DO FUTEBOL

Elmar Carvalho

Na semana passada, um pouco antes do início da audiência, o advogado João Francisco Pinheiro de Carvalho me disse que naquela noite iria assistir ao jogo do Flamengo, pela televisão, tendo eu lhe dito que faria o mesmo. Na sequência da prática, ele me disse que o seu pai, conhecido como Dim, fora atleta do River, quando o grande Carlos Said fora o seu goleiro.

Acrescentou que o seu avô, de nome Adão Carvalho, hoje coronel da reserva, fora um dos dirigentes do tricolor piauiense, e que o seu tio, de alcunha Grilo, também jogara no escrete riverino, na mesma época. Respondi-lhe que tinha muita amizade e consideração ao Magro de Aço, e que iria investigar a história dessa dinastia “pebolística”. Sabendo do interesse do causídico por futebol, aproveitei para lhe ofertar o meu livro O Pé e a Bola, cujo prefácio, para gáudio e glória minha, é da lavra de Carlos Said.

No domingo, por telefone, liguei para o meu guru para assuntos futebolísticos. O nosso magno cronista esportivo, com a sua memória prodigiosa, diria elefantina, terminou me relatando a atuação esportiva da família do Dr. João Francisco. Informou que o patriarca, o coronel Adão Carvalho, fora vice-presidente do River, salvo engano de minha parte, no início da década de 1950, tendo nessa condição assumido a presidência do clube em alguns momentos. Aduziu que nessa época ele tinha a patente de capitão, e servia na 26ª CSM – Circunscrição do Serviço Militar, além de desempenhar a missão de auxiliar técnico do River Atlético Clube.

Aproveitou a deixa para citar a galeria dos ex-presidentes, entre os quais declinou os nomes de Afrânio Nunes, Antilhon Ribeiro Soares, Francílio Almeida e Herculano Moraes. Fiz questão de lembrar o nome do médico Delson Castelo Branco Rocha. Pelo que o Carlos Said me disse, o pai do advogado João Francisco era Dim Vieira de Carvalho, que dos irmãos era o que tinha o corpo atlético, uma vez que os outros eram franzinos. Ao todo, seriam quatro ou cinco irmãos que atuavam no esquadrão riverino dessa época.

O velho mestre, grande goleiro e decano dos jornalistas piauienses ainda revelou outros detalhes dessa família de atletas do futebol. Disse que Grilo jogava em várias posições, tanto na defesa como no ataque, atuando ainda como goleiro. Observei ao amigo C. Said que esse craque, mais do que um Grilo, era um verdadeiro Coringa, um faz-tudo de mil e uma utilidades. O Magro de Aço explicou que a alcunha Grilo não se devia ao porte franzino do craque, mas ao fato de ele ter os olhos grandes e azuis esverdeados. Na conversa telefônica, ele declinou a escalação do Ríver no ano de 1950 e no ano em que foi goleiro, quando atuaram esses quatro ou cinco irmãos da família Vieira de Carvalho.

Diante de tanta memória, considero Carlos Said o maior e mais completo arquivo vivo do futebol e do jornalismo piauiense. Doravante, aplicar-lhe-ei o aposto de “o Memorioso”. Quando lhe disse que iria transmitir ao Dr. João Francisco Pinheiro de Carvalho o resultado de minha conversa com ele, pediu-me que lhe informasse a esse respeito. Certamente, o farei. Sempre colho um pretexto qualquer para ouvir o mestre. Ao ouvi-lo, sempre saio contente e ilustrado, considerando-se o que pode uma lata de sardinha recolher de um Atlântico enciclopédico como Carlos Said.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

ROMPIMENTO



ROMPIMENTO (*)

Elmar Carvalho

Dedo em riste,
muito feroz e muito triste,
o homem, grosso e imundo, falou:
Lembra-te, tu já lambeste meu cu!
A mulher, com gestos abstratos
feitos do mais singelo recato,
elegante e delicada, retrucou:
– Lambi, mas não lambo mais ...
O homem quedou-se transformado
em pesada estátua de pedra e dor.
A mulher se foi
            leve e evanescente 
anjo que se libertou.

(*) Esta história, sobre velho "coronel" de Parnaíba, foi contada pelo Zé Hamilton, em agradável roda de conversa, de que eu fazia parte, algumas décadas atrás.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Dois países com extrema violência; Venezuela e Brasil




Cunha e Silva Filho

Qualquer pessoa minimamente consciente do que ocorre pelo mundo afora, sabe que a roda do planeta não vai bem no que tange à tranquilidade do indivíduo. Como não podemos, neste espaço de artigo, abarcar toda história da violência que algumas nações estão sofrendo, fiquemos, por ora, com a situação preocupante do que anda acontecendo com a Venezuela e o Brasil, dois países que detêm posições de altíssimo nível, no sentido de violência como sinônimo de criminalidade, de atos bárbaros, de assaltos, e de mortes de inocentes que caiam nas mãos de bandidos, sobretudo nas ruas dos dois países.

Quem acompanha como eu, seja pela imprensa, seja principalmente pela televisão através de programas especificamente destinados a apresentar a realidade espantosa e crudelíssima da violência e crime no Brasil, bem sabe que não estou exagerando ou transformando esse tema em sensacionalismo como fazem/faziam velhos jornais cariocas de pequeno porte, os quais, segundo, uma afirmação feita de humor bem carioca, se fossem espremidos, jorrariam sangue...

A realidade da violência dos dois países em questão em bem semelhante conforme se pode ver deste pequeno trecho extraído do primeiro parágrafo de uma reportagem de Paula Daibert publicada em O Globo (22/09/2012): “Duas crianças brincam em uma favela de Caracas. Em uma troca de tiros, um dos meninos é atingido nas costas e morre. Uma imagem de sangue invade as ruas da capital venezuelana.” A reportagem , baseada em dados colhidos da OVV ( ONG Observatório Venezuelano da Violência) constata que o ano de 2011 foi “o ano mais violento da história do país”. São as seguintes as estatísticas: 19.459 homicídios, o que corresponde a 1.621 vítimas por mês, 53 por dia , ou como declara a jornalista, “... a cada meia hora um venezuelano é morto! O Brasil, por sua vez, anda bem próximo disso.

Resta agora, refletir sobre o tema e a urgência de soluções que se devem tomar em ambos os países. São inúmeros os tipos de violência que resultam na morte de contingentes da população desses países. Mas, há três grandes fatores que concorrem para a ausência de medidas que seriam fundamentais para frear esta escalada diabólica de criminosos:a) a falta de vontade política dos governos federal e estaduais para atacar o problema da criminalidade; b) a facilidade na aquisição de armas por diversos modos de acesso; c) a falta de maior sentimento nacional de indignidade da população de cada país exigindo permanentemente, por diversos canais de união de forças sociais, que as autoridades apresentem planos de alta envergadura técnica e estratégica a fim de efetivamente redundar em soluções realistas com vistas a diminuir significativamente os níveis de crimes no país.

Tentemos refletir sobre o primeiro dos três fatores discriminados acima.

Ninguém mais atento a questões sociológicas pode ignorar que, no exemplo brasileiro, país de dimensões continentais, com profundas deficiências no seu sistema carcerário, sobretudo caracterizado pela superlotação das prisões e de outras deficiências de infra-estrutura do sistema penal, lerdeza da justiça no andamento dos processos e outros males específicos reconhecidos pelos especialistas do assunto, vários tipos de crimes poderiam ser considerados em suas causas e consequências. Porém, um componente na complexidade do universo do crime e da lei, não pode ser minimizado. Ele prende-se a um fato determinante: o país é demasiado leniente com os criminosos de qualquer espécie. O passo decisivo a ser dado só se efetivaria caso houvesse alterações substanciais no Código Penal, cuja reforma e atualização estão em processo de formação. Só pediria que os juristas encarregados dessa reforma, não excluíssem do seu debate e das suas preocupações, a possibilidade, posto que por tempo provisório, da instituição da pena de morte para casos de crimes de extrema hediondez e da absoluta segurança de que o acusado foi o autor do crime. No caso de não instituirmos essa penalidade extrema, que, pelo menos, seja implantada a prisão perpétua cumprida na íntegra.

Só mudanças deste calibre poderiam, ao longo de sua vigência em lei, se refletir na consciência da população, fazendo com esta reduza o seu poder de ousadia criminosa e fique certa de sua punição real caso cometa ações delituosas bárbaras ou de crimes de menor grau de violência. Isso funcionaria como fator inibidor a se infiltrar culturalmente no seio da sociedade. Em outras palavras, o criminoso, seja de que condição social for, está ciente de que irá ser julgado e a pena ser-lhe-á aplicada com o rigor da lei, o que acabaria com os excessos de brechas e de benéficos de que ainda desfrutam os criminosos brasileiros e certamente os venezuelanos.

O segundo fator, o da questão das armas, merece toda a atenção de nossos governantes. Vários setores de segurança do governo poderiam ser empregados no combate sem tráfico de armas por criminosos: a polícia Federal e as Forças Armadas, principalmente, que atuariam junto às fronteiras do país, estacando toda tentativa de criminosos transferir de seus países, por terra, água e ar, arsenais de armas pesadas destinadas a suprir grupos do crime organizado. Seria uma espécie de plano-piloto dedicado à solução do tráfico de armas no país. Mas, para isso, o governo federal teria que fazer acordo de cooperação com os estados a fim de que as ações federais de combate à venda ilícita de armas de ponta se realizassem harmonicamente com um corpo de elite de policias militares estaduais, bem preparados e bem remunerados, numa ação conjunta empregando todos os recursos tecnológicos e de logística de que os serviços de segurança dos países adiantados já dispõem.

O terceiro e último fator caberia à sociedade civil que, no Brasil, por exemplo, não vejo assim tão unida como em outras nações, por exemplo, a Argentina, a Espanha, a Grécia, entre outras. O país se ressente de maior sentimento de união entre seus habitantes. Somos uma sociedade muito fragmentada, pelo menos em três grupos maiores, os ricos, a classe média e os pobres. Não há nenhuma canal de comunicação entre estes três níveis da pirâmide social.

O sentido pleno de fraternidade civil, do que seja ser compatriota está ausente no país por uma série de razões culturais e de níveis de escolaridade. Só com o avanço de uma educação aprimorada para, pelo menos, a maioria da população, possivelmente nos tornaríamos mais solidários. Só com uma conscientização política mais elevada o nosso povo se mostraria mais unido para enfrentar os grandes desafios que ainda temos pela frente. A modernidade no Brasil só atingiu alguns níveis restritos da nossa sociedade. O país ainda se defronta com práticas arcaicas e costumes embrutecedores em várias regiões brasileiras e o fenômeno se dá tanto ainda nas capitais quanto no interior. Neste estágio assimétricos de sociabilidades não é possível convivermos solidariamente e reivindicarmos as mudanças esperadas por todos a fim de minimizar a escalda da violência de nosso cotidiano. A mesma coisa se aplicaria, guardadas as diferenças culturais e avanços econômicos, sociais e políticos, ainda profundos, entre o Brasil e a Venezuela. Na violência, contudo, infelizmente estamos praticamente no mesmo barco da insegurança, da impunidade e no medo de enfrentarmos a rua, à luz do sol ou da noite enluarada.

domingo, 30 de setembro de 2012

Seleta Piauiense - Alcides Freitas



O BAMBU

Alcides Freitas (1890 - 1913)


Exposto ao dia, à noite, à beira da lagoa,
Onde se miram, rindo, as boninas do prado,
Vive um velho bambu, velho, curvo e delgado,
A escutar a canção que o triste vento entoa ...

Jamais os leves pés de um trovador alado,
Desses que pela mata andam cantando à toa,
Pousara-lhe num ramo! Apenas o povoa
Alta noite, agourento, um corujão rajado ...

E vive, — arcaico monge a gemer solitário, —
A sua dor sem fim, o seu viver mortuário,
Tristonho a refletir no fundo azul das águas ...

Como o bambu da mata, exposto ao sol e ao vento,
Do deserto sem fim de meu padecimento,
Triste nos olhos teus reflito as minhas mágoas!...

(Alexandrinos, 1912)