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| Elmar, Marcelino e Lirton |
3 de dezembro Diário Incontínuo
FAZENDA ININGA – A FESTA DA RESTAURAÇÃO
Elmar Carvalho
No sábado, em companhia da Fátima, atendendo convite
do professor, museólogo e ator Paulo de Tarso Libório, que foi
entregue na APL pelo ilustre magistrado e historiador Lirton
Nogueira, fui a José de Freitas para participar da Festa da
Restauração da Casa Grande da Fazenda Ininga. Já a conhecia, de
vezes anteriores, desde que ela foi adquirida pelo Paulo, seu atual
proprietário. Nessas duas ocasiões, ele me mostrou os dormitórios
e as demais dependências da casa, e me contou algumas coisas sobre
sua rica história. Sua construção remonta ao ano de 1823.
A vetusta casa, no imaginário do povo simples, como
toda morada secular, é povoada por fantasmas de antigos moradores.
Pertenceu a importante estirpe livramentense, os Sampaio Castelo
Branco. Muitos membros dessa velha família ficaram na História do
Piauí. O padre Joaquim Sampaio e o engenheiro Antônio José Sampaio
nasceram nela. O primeiro foi um grande orador sacro e jornalista;
confessor da princesa Isabel. Eleito deputado geral, com o advento da
República não pôde assumir o cargo. O segundo foi o fundador da
Fábrica de Laticínio de Campos, hoje Campinas do Piauí. O
transporte das peças da fábrica foi uma verdadeira odisseia, que
custou muito trabalho, esforço e dinheiro, em que muitas reses
morreram exaustas nessa luta, que se revelou inglória.
A fábrica, bem situada, em termos de terra, gado e
pastagem para criação extensiva, não o era em termos de logística
de transporte e distribuição. Em pleno agreste, numa época em que
não havia estrada e nem carro, ficava muito distante do Parnaíba e
dos centros consumidores. O sonho do engenheiro Sampaio malogrou, em
meio a dívidas e insatisfação dos colonos trabalhadores, a maioria
de origem italiana. Hoje, existe um outro sonho; restaurá-la, e
transformá-la em museu e espaço cultural. Alguns utensílios da
velha fábrica estão expostos na Ininga, em recinto que homenageia o
engenheiro e empresário. O Paulo Libório anuncia escrever um ensaio
sobre a Ininga, e pelo que lhe conheço da personalidade até os
fantasmas terão vez e voz.
Nas minhas visitas anteriores, permitiu-me tirar
fotografias, que serviram para que eu ilustrasse o meu poema
Livramento: Pedra e Abstração (roteiro sentimental de José de
Freitas). Mandei confeccionar um banner e fui deixá-lo no casarão
onde ele morava em Teresina, que na verdade era um museu de arte
sacra, exposto em cenário arquitetônico apropriado. Portanto, mais
do que um museólogo, o Paulo de Tarso, sobrinho de Dom Paulo
Hipólito de Sousa Libório, que por muitos anos foi bispo da
episcopal Parnaíba, é um criador de museu. Ele colocou o banner em
bela moldura, e o afixou numa das salas do solar, para honra e gáudio
meu.
Quando cheguei, já ocorrera o Ofício de Nossa Senhora.
O terço já fora recitado e a procissão de Nossa Senhora da
Piedade, protetora da Fazenda Ininga, já circulara no entorno da
casa grande, situada no alto de suave colina, de onde se tem uma bela
visão das árvores nativas, que dão um aspecto bucólico ao lugar.
Essas duas primeiras partes da Festa tiveram a participação do
Grupo de Canto Litúrgico Homens do Terço da paróquia
livramentense.
As pessoas já estavam sentadas no grande alpendre da
vetusta casa, esperando o início da missa, no momento de minha
chegada. Procurei um lugar vago, e este não me poderia ser mais
propício, pois fiquei perto dos amigos Lirton e Marcelino Leal
Barroso de Carvalho, meu mestre no curso de Direito; ele restaurou,
na sua Amarante, a Festa do Divino, e a exemplo do anfitrião também
criou um museu, no caso, o do Divino Espírito Santo. Antes do início
da missa, mantivemos breve conversa, sobre assuntos diversos e
aleatórios.
Enquanto a celebração religiosa não tinha início,
pude ouvir, por breve momento, o canto metálico de cigarras, que
também aconteceu durante o culto, quase em surdina, como se esses
insetos não quisessem perturbá-lo, mas também desejassem dele
participar, rendendo sua prece musical ao Criador. Devo confessar que
também ouvi a melodia aflautada de um sabiá, que parecia vir de
um frondoso oitizeiro, talvez secular, que se erguia perto da
varanda, à sombra do qual várias pessoas preferiram ficar. Como uma
bênção do céu, debulhada em gotas, houve até um rápido
chuvisco, que contribuiu para refrescar o tempo.
A canícula, que nos trazia o cheiro do incenso,
espargido pelos turíbulos, movimentados como pêndulos perto do
altar, vinha amena e refrescante. Enfim, a natureza, as nuvens, os
pássaros e as cigarras pareciam desejar contribuir para o
brilhantismo da Festa da Restauração. Até o pequeno sino do
alpendre, uma espécie de aldraba da casa, deu a sua contribuição,
quando fez dueto com as campainhas, de timbre mais argentino, com as
suas badaladas mais graves e mais encorpadas, na hora da consagração
das hóstias.

A música, mais do que sacra, foi divina. O Madrigal Vox
Populi nos encantou com belos cantos em latim, entre os quais destaco
Kyrie Eleison, Gloria in Excelsis Deo, Credo in Unum Deo. Os seus
componentes estavam devidamente paramentados, o que dava um aspecto
mais solene e mais antigo ao grupo, com o uso de vestes talares e
capuz. A participação do Coral Homens do Terço parecia vir de
dentro da casa, o que dava ao responso um ar quase sobrenatural, como
se o canto viesse de mais longe ou talvez das entranhas da terra. Não
sendo eu entendido em música sacra não posso afirmar
categoricamente, mas tive a impressão de que dois ou mais números
eram cantochões gregorianos, magníficos, embora quase monocórdios,
como são esses cantos.
Em suma, em tudo parecia haver o perfeccionismo e
detalhismo do professor Paulo de Tarso Libório, desde a beleza do
convite e do folheto da missa, até a escolha e disposição das
peças, que compõem o museu, inclusive a ambientação dos
dormitórios, das salas e das acomodações dos trabalhadores
(senzala). Tudo ele reconstituiu meticulosamente. As madeiras que já
não existiam foram substituídas por outras igualmente antigas,
encontradas em taperas ou velhas casas demolidas. Ele ainda, com o
auxílio do Lirton, conseguiu uns ladrilhos artesanais, que ainda
eram fabricados em Campo Maior.
Chegou mesmo ao requinte de adquirir algumas reses da
raça pé duro, para que a Fazenda da Ininga ficasse ainda mais
caracterizada como tal. Retornou, o máximo possível, a casa ao seu
projeto original, tendo para isso arranjado trabalhadores, que
talharam pedras jacaré com machado. Mandou retirar um forro, que
conspurcava a antiguidade do solar. Ouvi falar que ele mandou
destelhá-lo, para que as telhas fossem lavadas uma por uma, e depois
repostas, de modo a não haver goteiras. O perfeccionismo do
meticuloso anfitrião se refletiu até no almoço, que foi supimpa,
farto e saboroso.
A última e definitiva prova desse gosto apurado e
detalhista foi o brinde da festa, distribuído na porteira de saída
da velha Ininga: uma pequenina e artesanal panela de barro, com um
arco de arame, para servir de pegador. Detalhe: o arame era antigo, e
nele se viam os vestígios da passagem do tempo, como um símbolo da
antiguidade da casa grande da Fazenda Ininga, de muita glória, fama
e história.