terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Hércules Quasímodo



Hércules Quasímodo

Fonseca Neto

Estudante de Direito na Ufpi, último período, tive a honra de ter como professor e estudar com o juiz federal Hércules Quasímodo da Mota Dias. Direito Processual Penal II, segundo período de 1981. Não tenho dúvidas em afirmar que foi um ótimo professor, entre outros que assim tive nessa experiência acadêmica.

A melhor lembrança que dele guardei –de aulas e assistindo audiências no Fórum Federal a seu convite–, consiste nos sinais de retidão funcional e no inspirador sentido de justiça por ele infundido. Um pensamento e uma prática contemplando a lei como alinhavo do tecido social e tendente ao esgarçamento, enfim, necessário, no movimento da História.

Lembro-me, vivamente, a última frase da última aula, dele e do curso de Direito, daquela turma de P. P. II: “Vivam com especial intensidade esta hora; olhem bem uns aos outros, o ambiente, despeçam-se: vocês saem neste momento da sacralidade sonhadora dosada pela cátedra escolar, e, amanhã, transporão os umbrais das casas de fórum, qual prostíbulos”. É preciso coragem...

Formado e inscrito na Ordem, já no ano seguinte, meu primeiro ato de advogado foi exatamente numa ação de caráter penal. E eu, habilitado, no interesse de uma família que tivera pessoa morta decorrente de acidente no trânsito, fui ao Cartório respectivo e ali informado de que os autos haviam desaparecido, por “descuido” do advogado da outra parte, o qual afirmaria que tudo ocorrera “por inépcia de uma sua secretária pouco afeita ao serviço”. E o juiz do feito? Determinou a restauração que requeri. Não teceu, contudo, consideração que não fosse verbal. E perante a mim, um escrivão e um promotor, disse que tal fato era habitual e que pouco adiantava mexer no caso, tecendo comentários sobre o respectivo advogado e suas relações impublicáveis com juízes superiores. Ir à OAB? Um advogado com a primeira procuração? Foi impossível não lembrar/atestar aquela como – que se fez veredita – frase do mestre Mota Dias.

O poeta, acadêmico e juiz Elmar Carvalho, que também o conheceu na Ufpi, em seu “Diário Incontínuo”, na net, disse que gravou “o seu nome porque o primeiro prenome é uma homenagem ao heroico semideus da mitologia Grega, grande trabalhador, pois se celebrizou por ter realizado doze dificultosos e penosos trabalhos, e o outro, foi retirado, certamente, do livro do romancista e poeta Vítor Hugo, intitulado O Corcunda de Notre Dame. Era um magistrado digno e honrado e um professor de muito mérito, entretanto não fazia jus aos dois prenomes, porquanto não tinha a musculatura avantajada do semideus e nem a feiura do bom e sofrido Quasímodo, conquanto não fosse também nenhum Apolo nem Adônis”.

Elmar tem razão: a beleza desse homem decorria de seu ministério, significado na reiterada postura digna e honrada. O Brasil daqueles anos vibrava as emoções da mobilização social em busca de mudanças para além da derrota da Ditadura de 64. No plano do ordenamento jurídico, sonhava a reconstrução deste, com uma Constituição feita por assembleia constituinte eleita exclusivamente para tal fim; ciente do liberalismo perneta vigente aqui na colônia cabrália, não acreditava H. Q. em Constituição feita pelo Congresso Nacional – tal aconteceria depois.

Aliás, por ironia, Euclides da Cunha, em seu famoso texto, comparara esse liberalismo travado em clientelismos patrimonialistas a um determinado “Hércules-quasímodo”, pois “desgracioso, desengonçado, torto [apresentando] a translação de membros desarticulados”.

Pois nosso Mota Dias era o contrário disso tudo: sonhou e lutou pelo país justo. Ainda que cingido às conformações de sua magistratura, fugiu do autoengano devastador que confunde Direito e Justiça, a começar da empulhação liberal-ideologizante que afirma que a lei é igual para todos na sociedade desigual.

Tornou-se desembargador federal depois e nos deixou ainda cedo. Faz tanta falta um homem desses neste tempo. Mas foi poupado de ver o que esta geração faz no chamado Estado de Direito Democrático: baixo índice de compromisso histórico por Justiça; a justiça na bacia onde se lava e lustra o pior dos interesses de novíssima cepa de coronéis.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

COM QUEM?


Juízes Regina Freitas, Anchieta Mendes e Carlos Augusto Nogueira

Anchieta Mendes (*)

Com quem irei aprender a “vida”
O envelhecer com a sabedoria dos justos,
Com quem irei aprender a “vida”
Do herói, do forte, do simples, do fraterno.
Com quem irei começar o dia orando,
Ouvindo pouco, enxergando pouco, amando muito.
Com quem irei aprender a caminhar sozinho,
Sem as amarras, a bengala, sem o anda-já do mundo.
Com quem vou continuar aprendendo a indignar-se
Diante do mau trato, das mazelas, das injustiças.
Com quem irei conversar, trocar olhar de compaixão e paz,
Lembrando o tempo, as paisagens, as figuras.
Com quem irei dividir a saudade de nossa convivência,
As mãos dadas no acompanhamento e nas jornadas.
Com quem irei “brigar” a briga santa da ternura.
Para comer a fruta, beber a água, alimentar-se!
Com quem irei passar a aprender com o exemplo
Que me ilumina desde a primeira idade.
C O M Q U E M?
Irei curtir uma visita matinal de cortesia,
De espontânea manifestação de amizade e afeto.
Com quem dividirei a prática de enfermagem
Na aplicação da insulina na perna nua e fria.
Com quem irei, doravante, aprender a humildade,
E a solene e pura capacidade de revoltar-se.
Com quem irei manifestar o meu cuidado,
A preocupação pela sua fragilidade física.
Com quem irei aprender a amar o próximo e o irmão.
Na extraordinária lição que recebi, durante anos.
Com quem dividirei o rapé trazido pela mão trêmula
Como se fosse a oferta de um alimento espiritual.
Com quem vou continuar vivendo uma tradição mui terna
De estar com o meu guru, o meu santo e zangado IRMÃO?

C OM QUEM MANO SÍLVIO?

ESPERO QUE COM ALGUM DOS SEUS ANJOS!

Teresina, 13 de Janeiro de 2013

(*) Poema escrito em homenagem a Sílvio de Oliveira Mendes, recentemente falecido, pai do ex-prefeito de Teresina, que tinha o seu nome. O autor é Juiz de Direito aposentado e foi meu professor no curso de Administração de Empresas - UFPI/Parnaíba.
Elmar Carvalho

domingo, 13 de janeiro de 2013

Seleta Piauiense - Almir Fonseca


SONETO

Almir Fonseca (1918 – 1972)

Olhando a vastidão do céu, eu, desde jovem,
Admiro do Universo os mistérios profundos,
E desejo saber por que milhões de mundos
Sustentam-se no espaço e em órbitas se movem...

Com a Ciência examino os teoremas rotundos
Que os sábios, através dos séculos, promovem,
E não vejo quaisquer resoluções que provem
Os Planetas e o Sol de onde são oriundos...

Procuro e não encontro em toda a Astronomia,
Nas leis fundamentais dos grandes Galileus,
Onde acaba o Universo e o Cosmo principia...

E creio, concluindo os pensamentos meus,
Que, embora contrariando a vã Cosmogonia,
Não há fim nem começo – em tudo existe Deus... 

sábado, 12 de janeiro de 2013

Vegetação na laje dos edifícios?



José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com


Louco eu, por gostar de cultivar plantas e hábitos esquisitos à maioria das pessoas? Basta um vasilhame vazio na lixeira - nada de desperdício - logo me desperta a criatividade: utilizo-o para enchê-lo de estrume, semear alguns caroços ou sementes. Dias depois, explode a vida, como fantástico mistério do grão de mostarda. Modesto copo plástico me induz um pezinho de mamão, quiabo, maxixe, transplantados, mais tarde, para canteiro definitivo. Quebro até cimento, em proveito de uma fruteira e a sombra. Aproveito folhas, resíduos de café, cinza na produção de adubo. Meses após, o resultado maravilhoso do suor derramado: uma salada do quintal. Preparo-a com folhas de quiabo, picadas e cozidas ao vapor da cuscuzeira. Quantidade racional de azeite de azeite de oliva e condimentos. Pronto, sirvo-me, sirva-se. Adeus àqueles puns repugnantes de quem só consome alimentos industrializados e carnes. Em ambiente de trabalho, o colega solta gases tóxicos? Receite-lhe salada com folhas. A/bunda/ntemente.
Transformei minha velha piscina de 12 metros, que só me dava despesas e dores de cabeça com incômodas visitas, em imenso canteiro. Minhas galinhas adoram cascas de ovos, cascas de bananas, toda sobra alimentar da cozinha. "Nada se perde, tudo se transforma" no reino da natureza.
Um recado aos mestres da engenharia e arquitetura: criem condições para suavizar a temperatura elevada da cidade, transformando a plataforma de cobertura dos prédios em pomares de pequeno porte. Se todos os edifícios dispusessem de canteiros na laje superior, juro que a vegetação absorveria boa parte do calor escaldante. O governador Alberto Silva pregou a utópica ideia, que não floresceu. Somente a consciência ambiental se proporia a mudanças estéticas e prazerosas em prol da natureza. Modelos de prédios com plataformas ecológicas já se constroem em algumas metrópoles. Pássaros festejam a criação.
Cultivar plantas frutíferas e alimentos naturais conjugam a atividade física mais saudável da história humana. A farmácia mais completa. Fonte de longevidade. Vida prazerosa e encantamento com o milagre da vida. Infelizmente, a classe social endinheirada, proprietária de sítios, só sabe utilizar paradisíacos recantos a badalação em final de semana. Pior, sem a participação da família nos mínimos hábitos do campo. Solução: passar para frente a propriedade a deixá-la no poder de irresponsáveis caseiros.
Somos produtos da terra(húmus), humanos. Ao húmus retornaremos. Quando nascemos, encontramo-lo cultivado. Ao despedirmos, um dia, outros continuarão a nossa tarefa, acrescentada.
O contato com a natureza aproxima-nos do Criador, revela-nos sua grandeza. Somos partícipes da criação, e não da destruição. Às vezes, num simples vasilhame cheio de húmus, um caroço ou semente arrebenta-se de mistério, como num grão de mostarda. Só um louco não percebe tamanha grandeza. E louco, eu não.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Nunes - Uma Família na História

Casa onde nasceu o historiador Odilon Nunes
Professor e escritor Paulo Nunes
Historiador Odilon Nunes




Reginaldo Miranda
Presidente da Academia Piauiense de Letras

Os Nunes constituem uma das mais antigas famílias piauienses, oriunda de Portugal com vetustas raízes na Espanha.
Segundo a tradição oral, essa família teve início com a chegada de cinco irmãos ao território que mais tarde se constituiria na Capitania do Piauí, depois Província e Estado de mesmo nome. Embora sem dados para comprovar a veracidade dessa velha tradição familiar, encontram-se registrados nos anais da história piauiense a existência de cinco colonizadores com nome Nunes, ainda no século XVII. De fato, quando o padre Miguel de Carvalho veio ao Piauí instalar sua primeira freguesia, que fora desmembrada da de Nossa Senhora da Conceição de Cabrobó, sob a invocação de Nossa Senhora da Vitória do Brejo da Mocha do Sertão do Piauí, percorreu todo o vasto território da nova freguesia durante os anos de 1693 a 1697, nele encontrando 129 fazendas, onde moravam 441 moradores cristãos batizados, além de um arraial de paulistas com aproximadamente 164 moradores, totalizando 605 cristãos batizados na nova freguesia do Piauí, entre brancos, negros, índios, mulatos e mestiços. Foram esses os primeiros representantes do império lusitano a desbravarem o Piauí. E entre os moradores brancos portugueses que iniciaram a colonização portuguesa na bacia oriental parnaibana como posseiros, se encontrava cinco cidadãos de nome Nunes. Seriam eles os cinco irmãos de que guardou memória a tradição oral? Difícil se dizer, embora não impossível depois de uma criteriosa pesquisa. A não coincidência do nome e sobrenome completo não é suficiente para negar a indagação, vez que naqueles tempos a criança era batizada apenas com o prenome, às vezes modificando nome e sobrenome na idade adulta para homenagear um padrinho ou outra personalidade de sua predileção. Não é duvidoso que essas modificações tenham ocorrido com esses cinco irmãos(?), conservando o nome da família mas alguns acrescentando sobrenome de um padrinho ou ancestral remoto. Foram então encontrados pelo padre Miguel de Carvalho e relacionados na sua Descrição do Sertão do Piauí, datada de 2 de março de 1697, os seguintes representantes da família Nunes, no sertão do Piauí:
CAPITÃO ANTÔNIO NUNES, criador na fazenda Poções de São Miguel, no vale do rio Canindé, há cerca de oito léguas de suas nascentes. Era, portanto, o principal morador daquela região, o único com patente militar, representando o poder em todo o curso daquele rio. Era o único cristão batizado residindo na referida fazenda, possivelmente ajudado por índios não batizados. Na ata de instalação da freguesia de Nossa Senhora da Vitória, que deu origem à cidade de Oeiras, aparece com o nome completo de Antônio Nunes Barreto.
GONÇALO NUNES TEIXEIRA, criador estabelecido na fazenda Boa Vista, também no curso do rio Canindé, distante trinta e três léguas de suas nascentes e vinte e cinco da fazenda de seu parente, onde residia em companhia de dois negros.
ANTÔNIO NUNES, segundo do nome, residia em companhia de Estêvão Borges, possivelmente seu sócio, e mais uma mulata e dois negros, na fazenda Serra, margem do riacho Itaim-Mirim, hoje apenas Itaim, primeiro afluente do rio Canindé em sua banda norte, correndo de nascente a poente. Essa fazenda era situada três léguas distante das nascentes do mesmo riacho e nove léguas de sua foz no rio Canindé. Era, portanto, o terceiro Nunes residente na bacia do rio Canindé.
JOSÉ NUNES FERREIRA, criador residente na fazenda São Mateus, em companhia de Manuel do Vale e de quatro negros. Essa fazenda se situava no curso do rio São Vítor, hoje Sambito, afluente do Poti, naquele tempo chamado Itaim-Açu, próxima à atual cidade de Valença do Piauí.
 PEDRO NUNES PINHEIRO se faz presente na assembléia de criação da nova freguesia de Nossa Senhora da Vitória, assim como João Alves de Oliveira, entre outros, embora ambos não sejam relacionados pelo padre Miguel de Carvalho como moradores em quaisquer das 129 fazendas por ele indicadas. Contudo, eram moradores do Piauí e assinaram a ata da reunião. O historiador Odilon Nunes opina com fundamentação que eram eles moradores no “arraial dos paulistas”, razão pela qual não aparecem na lista das fazendas. Teriam acompanhado o Capitão-mor Francisco Dias de Siqueira à mesma reunião, sendo eles três que comandavam os índios do mesmo arraial. Odilon Nunes acrescenta que o Visconde de Taunay diz ser paulista o criador Pedro Alves de Oliveira, que residia na fazenda Pobre, junto a uns olhos d’água, na barra do rio Piauí. Então, como possui o mesmo apelido familiar daquele, o citado historiador opina que este também seja paulista. Dessa forma, em sendo paulista dois dos três comandantes dos índios estabelecidos no arraial de Santa Catarina, mais conhecido por “Arraial dos Paulistas”, hoje cidade de Valença do Piauí, e em ali também residindo, mui provavelmente Pedro Nunes Pinheiro era paulista. Dessa forma, em sendo irmãos ou parentes, fica indicado o caminho dos primeiros representantes da família Nunes que se estabeleceram no sertão do Piauí: de Portugal teriam vindo para a vasta Capitania de São Paulo, não necessariamente para o atual Estado de São Paulo, de onde passaram ao Piauí. E mais: tendo vindo na bandeira paulista que entrou no Piauí durante o ano de 1661 ou 1662, fundando o arraial de paulistas, se constitui a família Nunes numa das mais antigas colonizadoras do território piauiense, ainda hoje existindo quando muitas de suas contemporâneas já desapareceram da genealogia piauiense.
Assim, identificados esses primeiros troncos piauienses da família Nunes, faz-se necessário outro trabalho delicado: identificar a descendência de cada um e descobrir de qual deles descende o ramo da família estudada, os Nunes do Médio-Parnaíba piauiense, cujo ancestral mais remoto documentadamente definido é o antigo vereador e juiz ordinário da vila de Valença(1790/1791), hoje Valença do Piauí, Pedro José Nunes. Como na mesma povoação(Valença é o antigo arraial de paulistas), residia cem anos antes Pedro Nunes Pinheiro, fica-se  tentado a pensar que seja ele ancestral(avô ou bisavô) do juiz ordinário de mesmo nome (ambos Pedro Nunes). Nessa linha de raciocínio estaria estabelecida a ancestralidade da família Nunes, do Piauí, objeto dessas notas genealógicas. Por seu turno, é provável que o também vigário de Valença(1757 – 1779), Manuel Nunes Teixeira seja filho ou neto do criador Gonçalo Nunes Teixeira, relacionado na Descrição do Sertão do Piauí. E por ser primo mais velho de Pedro José Nunes, tenha facilitado seu acesso aos cargos públicos naquela vila.

PEDRO JOSÉ NUNES(c.1760 - 1845), patriarca mais remoto a quem chegam os documentos até agora estudados, provavelmente é filho da freguesia de N. Sra. do Ó e Conceição (Valença do Piauí), onde desempenhou saliente papel e ocupou elevados cargos públicos. Entretanto, parece que residia no vale do rio Berlengas, na parte que foi cedida para formar o território da vila de São Gonçalo, passando, assim, ao novo termo desde sua emancipação política em 1833. Esta, embora desmembrada do termo de Oeiras, levou grande área territorial do termo de Valença e uma pequena parte de Jerumenha. Desta forma, a partir de 1833, o antigo vereador de Valença, provavelmente sem mudar de domicílio, passou ao novo termo da vila de São Gonçalo, com todos os seus filhos, ficando, porém, outros parentes colaterais na vila de Valença. Logo mais, sua descendência iria desempenhar saliente papel na política, na lavoura, na pecuária, no comércio, nas letras, nas profissões liberais e em outros setores da atividade humana, na nova vila do Médio-Parnaíba piauiense. Desde cedo alguns de seus descendentes se elegem para a Câmara Municipal da nova vila de S. Gonçalo, porém, com a transferência desta para Amarante, em 1861, cedo seus descendentes deixam a lavoura e vão ascender entre os principais comerciantes do lugar. Em 1857, seus netos Pedro e Gil José Nunes, irmãos, se transferem para a próspera cidade de Parnaíba, então principal praça comercial da Província do Piauí, onde fundam a empresa Nunes & Irmão Ltda. Não tardam a levar outros parentes para a mesma vila, de forma que ainda hoje existe um ramo dessa família naquela cidade. Em pouco tempo o empresário Pedro José Nunes, então próspero comerciante, convola núpcias com uma bela jovem da vila de Piracuruca, que conhecera em Parnaíba, provavelmente estudando em alguma escola, Luísa Amélia de Queirós, que mais tarde se revelaria uma das principais poetisas do Piauí, patrona de uma das cadeiras da Academia Piauiense de Letras. Então, com o crescimento da empresa comercial e o aumento da navegação no rio Parnaíba, em 1873 o irmão Gil José Nunes, retorna a Amarante, onde funda uma filial da casa comercial e casa-se com uma prima materna. Dessa forma, permanecem por muitos anos os dois irmãos e sócios, comerciando entre Parnaíba e Amarante, os dois principais portos do rio Parnaíba, em volume de negócios. É que o rio somente oferecia calado para a navegação até a cidade de Amarante, chegando grande quantidade de mercadorias àquele porto, sendo levada para as vilas do interior da Província no lombo de animais. E os irmãos Nunes foram pioneiros nesse comércio, amealhando alguns haveres. Por esse tempo o renomado escritor Clodoaldo Freitas, traçando o perfil da poetisa Luísa Amélia de Queiroz, em seus Vultos Piauienses, destaca a estabilidade financeira da poetisa, viúva de Pedro Nunes. E com a morte deste casou-se ela novamente com Benedito Rodrigues Madeira Brandão, empregado de confiança da empresa comercial. Enfim, com a morte do irmão primogênito, ou pouco antes desfaz-se a bem sucedida empresa comercial, seguindo a viúva com a loja de Parnaíba e ficando o empresário Gil José Nunes, com a de Amarante, agora com nova razão comercial denominada Nunes & Ribeiro Ltda. Para dizer do sucesso comercial desse outro sócio, frisa-se a edificação da aprazível casa residencial que ergueu em Amarante, ainda hoje existente, atualmente de propriedade do Estado. Nela é mantido o museu, arquivo e biblioteca da cidade, com o nome de “Casa Odilon Nunes”, em homenagem ao ilustre historiador, que ali nascera filho do proprietário. Então, a sempre referida pobreza de Odilon Nunes, não é de origem, mas advinda da profissão que abraçou: professor e historiador, o que não o impediu de projetar seu nome nacionalmente.
Para fechar esta parte, lembramos que, desde a emancipação política da vila de S. Gonçalo em 1833, os Nunes participaram ativamente da vida política, econômica e social da nova municipalidade. Já para a primeira legislatura da Câmara Municipal(10.11.1833 – 07.01.1837) concorreu Benedito José Nunes, filho do antigo juiz ordinário de Valença, e embora não ficando entre os cinco mais bem votados, que assumiram no ato de posse ocorrido em 10 de novembro de 1833, atingiu a média de votação permanecendo como suplente e participando de diversas sessões, a exemplo da ocorrida em 15.07.1835, quando assinou a ata dos trabalhos. A verdade é que, ganhando ou perdendo, como é natural em política, participaram dos mais variados pleitos eleitorais, sendo efetivamente eleitos para a Câmara Municipal de S. Gonçalo, em legislaturas diversas, três dos quatro filhos varões de Pedro Nunes:o referido Benedito José Nunes, Gonçalo José Nunes e Elias José Nunes; somente não participou da Câmara Municipal Pedro José Nunes, filho, parecendo que faleceu muito jovem ou mudou para outro termo; ainda foi eleito nesse período, Arnaldo José Nunes; após a transferência da sede municipal para Amarante, ainda foram eleitos vereadores da municipalidade Camilo José Nunes e Gil José Nunes, com Ernesto José Nunes obtendo uma suplência. Muitos também deixaram as atividades rurais e enveredaram pelo comércio, a exemplo dos já citados Pedro José Nunes, neto, Gil José Nunes e de José Alves Nunes, marcando um novo período de ascensão dessa família em Amarante, a partir de 1873. A geração que sucedeu esses pioneiros projetou o nome do poeta Cesário Nunes, precocemente falecido, do historiador Odilon Nunes, membro da Academia Piauiense de Letras, do médico Djalma Nunes, prefeito de Floriano, e dos deputados estaduais Afrânio Nunes e Adolfo Nunes, esses, pai e filho, respectivamente. Em suma, são esses e alguns outros os Nunes de Amarante, cuja fundação da vila data de 16 de junho de 1861. Nessa data se efetivou a transferência da sede municipal da povoação de S. Gonçalo para o Porto, depois de renhida disputa entre os moradores da velha povoação. A vila de Amarante, depois foi elevada à categoria de cidade em 1872, passando a ser uma das principais praças comerciais da Província/Estado. Além dos Nunes projetou muitos outros filhos no cenário nacional. Infelizmente, caiu em declínio na década de 1920, passando a sua elite intelectual, comercial e política para a vizinha cidade de Floriano, onde dominaram a cena por algum tempo. Basta citar os nomes de Djalma José Nunes, prefeito da mesma cidade eleito em 1935, e dos dois cunhados deste, Osvaldo da Costa e Silva e Theodoro Ferreira Sobral, deputados estaduais, o primeiro foi também vice-governador do Piauí e o segundo foi Interventor Federal no período de 1947/1948. Posteriormente, os filhos desta mesma elite política vão se transferir para a cidade de Teresina, Capital do Estado, onde continuam a exercer cargos de destaque.
Em Regeneração, antiga povoação de São Gonçalo Velho, outrora vila de São Gonçalo, primeira sede municipal, se estabeleceram outras ramificações da família Nunes. Foi essa vila novamente emancipada em 2 de dezembro de 1882, desta feita com o nome de Regeneração, atendendo aos ditames da Lei Provincial n.º 896, de 23 de junho de 1875. Liderou o movimento emancipacionista um bisneto do patriarca Pedro José Nunes, de nome Raimundo Gomes da Silva. Por ser descendente de uma de suas filhas mulheres, não traz o nome Nunes. Então, esse líder domina a cena política desde a reemancipação da vila de Regeneração em 1882 até sua morte em 1933. Foi a “era dos Gomes”, nem por isso alheia à família Nunes. Durante esse período o coronel Raimundo Gomes elegeu a parentela para os mais diversos cargos públicos, como foi demonstrado em outro trabalho de nossa autoria. Mesmo assim, alguns descendentes de sobrenome Nunes se elegeram vereadores e/ou conselheiros municipais, a saber: Rogério José Nunes (1887 – 1890) e João José Nunes (1897 – 1901); Deolindo José Nunes disputa eleições e, eventualmente, na qualidade de suplente é convocado para participar dos trabalhos a partir de 1901; o mesmo ocorre com Raimundo José Nunes Sobrinho (1913 – 1916). Contudo, a ascensão dos Nunes, propriamente ditos, deu-se em 1933, com a morte daquele líder. A transição foi sem traumas, pois consta que o coronel Raimundo Gomes, já no leito de morte, chamou seus primos Nunes e lhes passou o comando político do Município. Os Nunes, então, ascenderam ao poder imediatamente, com a indicação de Hermes Teixeira Nunes, casado com uma neta do velho coronel, para o cargo de promotor público da localidade(1933), então termo judiciário de Amarante; foi também eleito vereador em 1935. Em 1934, Francisco de Paula Teixeira Nunes, o Mestre Velho, foi indicado prefeito municipal de Regeneração. E o comerciante Gonçalo Teixeira Nunes, irmão dos precedentes, foi eleito deputado estadual também em 1934. No entanto, desde o início da década de 1920, o capitão Severino Teixeira Nunes, vinha ocupando o cargo de conselheiro municipal e depois exator estadual. Mais tarde, Otávio Teixeira Nunes, então comerciante, iria assumir o cargo de Tabelião Público. Estava, assim, consolidada a ascensão dos Nunes na política regenerense. Desde então nunca se afastaram do comando político daquela cidade, embora tenham perdido algumas disputas eleitorais, como é natural em política. Durante todos esses anos tiveram diversos membros no comando da administração pública municipal, tais como: Francisco de Paula Teixeira Nunes(21.02.1934 a 28.07.1938; 17.05.1939 a 14.11.1945; e, 1955 a 1959), Hermes Teixeira Nunes(06.10.1938 a 17.05.1939) e Gonçalo Teixeira Nunes(1963 a 1967 e 1973 a 1977), da primeira geração; da segunda geração foram prefeitos municipais, Augusto Carlos Teixeira Nunes(1967 a 1971 e 1983 a 1988) e Alfredo Alberto Leal Nunes (01.01.2001 a 31.12.2004); Raimundo Pereira de Vasconcelos, prefeito no período de 21.04.1948 a 1951, é primo dos antecedentes, por quem foi apoiado, trineto do patriarca Pedro José Nunes; Francisco Edmilson Cavalcante, prefeito nos períodos de 1989 a 1992 e 2005 a 2008, é genro do ex-prefeito Francisco de Paula Teixeira Nunes. Foram ainda eleitos deputados estaduais, os seguintes: Gonçalo Teixeira Nunes, eleito em 1934; Francisco de Paula de Teixeira Nunes alcançou uma suplência no pleito travado em 1947, assumindo o cargo em 1948, por breve período; Alfredo Alberto Leal Nunes, elegeu-se deputado estadual nas décadas de 1950 e 1960; Wilson de Andrade Brandão, era genro do ex-deputado Gonçalo Nunes, elegeu-se deputado estadual por vários mandatos nas décadas de 1960, 1970 e 1980; por fim, Wilson Nunes Brandão, filho do precedente, vem elegendo-se deputado estadual, sucessivamente, desde 1986. Portanto, de certa forma, por mais de setenta anos esse ramo familiar dos Nunes vem mantendo uma vaga na Assembléia Legislativa do Estado.
Diversos outros membros dessa família se elegeram para a Prefeitura e Câmara Municipal de outros municípios piauienses, a exemplo de Floriano, Canto do Buriti, Elesbão Veloso, Várzea Grande, Francinópolis, Angical do Piauí, São Pedro, São Gonçalo do Piauí, Palmeirais, Arraial, Francisco Aires, Jardim do Mulato e outros municípios piauienses, conforme se verá com a leitura do livro.
Os Nunes, também, têm tido uma boa participação nas letras piauienses, trazendo uma enorme contribuição ao Estado, a exemplo de: Luísa Amélia de Queiroz Nunes(1838 - 1898), poetisa de grandes méritos, foi a primeira mulher piauiense a publicar livros, patrona de cadeiras nas academias piauiense e parnaibana de letras, sendo casada com o empresário Pedro José Nunes; Odilon Nunes, autor de diversos livros, membro da Academia Piauiense de Letras, é considerado o principal historiador piauiense; M. Paulo Nunes, ensaísta e crítico literário de expressão nacional, membro da Academia Piauiense de Letras, já foi premiado pela Academia Brasileira de Letras; foram também membros da Academia Piauiense de Letras o jurista Wilson de Andrade Brandão e o romancista José de Ribamar Oliveira, todos casados na família Nunes; Amandino Teixeira Nunes, jornalista brilhante, procurador de justiça aposentado, pertence à Academia de Letras do Médio-Parnaíba; Alberto Leal Nunes, jornalista de grandes méritos, é patrono de uma cadeira na Academia de Letras do Médio-Parnaíba; Afrânio Messias Alves Nunes, autor de um livro de memórias, por muito tempo presidiu a referida Academia de Letras do Médio-Parnaíba; Amauri Teixeira Nunes, professor de Direito, conferencista, ex-secretário de Estado, é autor de alguns trabalhos de cunho histórico e literário; Abelardo Teixeira Nunes, procurador de justiça em Minas Gerais, é autor de livros de poesia e contos; Maria Augusta Nunes de Carvalho, bacharela em Direito, é também autora de livro ainda inédito; João Beckman Nunes de Carvalho, filho da precedente, professor da UFPI, com doutorado na área de educação, é também autor de alguns ensaios e tem um livro inédito; a professora Maria de Lourdes Leal Nunes de Andrade Brandão, recentemente publicou livro reunindo artigos sobre a personalidade de seu esposo, ex-deputado Wilson de Andrade Brandão; o deputado Wilson Nunes Brandão, membro da Academia Piauiense de Letras, publicou livro e artigos versando sobre política piauiense; também, o dramaturgo José Gomes Campos, escritor reconhecido em nível nacional e o poeta e genealogista Armando Gomes da Silva, autor de três livros, são descendentes desta família.
Em síntese, é este o perfil da família cujas notas para a reconstituição de sua árvore genealógica ora se publica.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

LIVRO EM MEMÓRIA DE CLIDENOR FREITAS SANTOS




9 de janeiro

LIVRO EM MEMÓRIA DE CLIDENOR FREITAS SANTOS

Elmar Carvalho

Na quarta ou quinta-feira da semana passada, recebi um telefonema do jornalista e escritor Deoclécio Dantas, em que ele me comunicava que o empresário e engenheiro Lourival Sales Parente se propunha a publicar um livro memorativo dos 100 de nascimento do psiquiatra Clidenor Freitas Santos. Nessa rápida conversa telefônica, o ilustre confrade me perguntou se eu poderia comparecer a uma reunião extraordinária na sede da Academia Piauiense de Letras, com a presença do mecenas, para tratarmos desse assunto. Disse-lhe do meu interesse de participar do encontro.

No sábado, às 10 horas, em reunião presidida por Reginaldo Miranda, com a presença do empresário Lourival Parente e dos acadêmicos Celso Barros Coelho, Paulo Nunes, Herculano Moraes, Jônathas Nunes, Humberto Guimarães, Nildomar da Silveira Soares, Oton Lustosa, Elmar Carvalho e o articulador da sessão, Deoclécio Dantas, fora outros que eu possa involuntariamente ter esquecido. Também esteve presente o jornalista Carlos Lobo.

Em sua explanação, o engenheiro Lourival Parente disse ter uma admiração antiga pelo médico Clidenor Santos. Falou um pouco de suas realizações e de um fato particular que mais realçava o apreço que lhe tinha. Reafirmou o seu desejo de publicar esse livro comemorativo de seu centenário. Vários acadêmicos apresentaram sugestões. Ficou acertado que será uma obra coletiva, com a colaboração de artigos e crônicas dos acadêmicos que desejarem participar da obra. Foi aclamado como seu organizador o confrade Humberto Soares Guimarães, que foi seu colega na psiquiatria, e que com ele conviveu durante muitos anos na Academia Piauiense de Letras.

O Dr. Lourival Parente manifestou o desejo de que a obra seja volumosa, impressa em papel de ótima qualidade, com boa apresentação gráfica e visual, inclusive com fotografias coloridas. Disse que envidará os esforços necessários para que o livro seja digno da memória do empresário e médico Clidenor Freitas Santos. Em conversa informal, o engenheiro demonstrou ter senso de humor, permeado por complacente auto-ironia. Os acadêmicos se mostraram entusiasmados com a proposta, e prometeram elaborar os textos.

VULTOS E FATOS DA HISTORIA DE CAMPO MAIOR



ANUNCIADO PARA BREVE O LANÇAMENTO DO LIVRO VULTOS E FATOS DA HISTÓRIA DE CAMPO MAIOR, DE AUTORIA DO ACADÊMICO JOÃO ALVES FILHO. É AGUARDAR PARA CONFERIR. 

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Lisboa e Timon, publicista e misantropo



Fonseca Neto

Neste ano que termina o Brasil celebra João Francisco Lisboa, “o Timon maranhense”. Destacado intelectual da época do Império, sua escrita se constituiu enquanto ele um jornalista (na acepção do termo) e no viço historiógrafo. É patrono da cadeira 18 da Academia Brasileira de Letras.

Nasceu Lisboa em 22 de março de 1812, no interior da capitania do Maranhão, numa localidade do município de Itapecuru, que seria mais tarde a cidade de Pirapemas. Crescido e estudado em São Luís, aos vinte anos torna-se um agitador de ideias, militante do jornalismo partidário e já se tornando um prócer liberal da província, um “bentivi”.

Todo o Império do Brasil viveu com a sensação de “aceleração histórica” o tempo posterior a 1830, década seguinte ao fim do reinado de Pedro I. No Maranhão, época marcada por um estado de vibrações insurrecionais, a luta de partidos entra em máximo engalfinhamento – a década começa com a chamada “Setembrada” (1831) e termina com a “Balaiada”(1838-1841). A economia sinaliza desorganização, o dominato rural esforça-se por manter seus privilégios em nível de poder municipal e os políticos da capital inauguram a era das deputações provinciais. São Luís sinaliza um relativo decaimento em relação à virtuose metropolitana experimentada desde a era Pombal, ancorada pelo algodão – o “ouro branco” em pluma – além das perdas simbólicas de tornar-se (após 1808/1815) uma simples sede de poder provincial e não mais a capital de Estado, que tanto a empoderou nos séculos precedentes –o reino de Portugal, agora, estava sediado no Rio de Janeiro.

Nesse contexto, as lutas intestinas opõem fortemente “os maranhenses brasileiros” aos portugueses, que, em São Luís, nas baixadas do arredor e até em Caxias, boca dos sertões de dentro, assim se enfrentam em busca da hegemonia no poder local-provincial.

João Lisboa faz-se um arrebatador bentivi e quando no Iguará o vaqueiro Raimundo Gomes derruba a “bastilha da Manga” e põe em liberdade trabalhadores ilegalmente presos, em São Luís, sua pena escritora, como que faz tremer as estruturas do velho poder, tão lembradas e temerosas da quentura produzida pela queda de outra Bastilha, quatro décadas antes. Aliás, segundo biógrafos, era escrita em francês (de Jouy) a epígrafe de seu jornal “O Brasileiro”, de 1832: “Journalistes de tous les pays, élevez-vous au dessus des prejugés nationaux, dénoncez tousles crimes, nommez touss les coupables.” Já no tempo balaiense, batendo fortemente no governo conservador, atuava na “Crônica Maranhense”, autêntica tribuna bentiviana, acusada depois pela radicalização revolucionária. Acusação problemática, advirta-se, pois, ainda que “radicais”, os liberais recuam em sua condição de “classe”, quando esse movimento avança sobre as estruturas de poder e sobretudo da produção,nela agora confluindo negros aquilombados, além da vaqueirama e outros trabalhadores e oficineiros livres. Dessas idas e vindas, suas emoções elevadas e vicissitudes, não escapa o futuro “Timon Maranhense”, que delas saiu um verbo-inflamado liberal, misantropo, conformado, porém, nos limites da ordem imperial.

De São Luís, já figura notável, humanista, foi para o Rio de Janeiro; muito festejado. Sobre essa mudança e os anos seguintes dele, anotou seu amigo e principal biógrafo, Antonio Henriques Leal: “a 4 de julho de 1855, partiu esse notável escritor do Maranhão para a capital do nosso Império, onde foi honrosamente acolhido por todas as celebridades políticas e literárias, e tomou parte nas redações do Correio Mercantil e do Jornal do Comércio. [...]. Outros cuidados, porém, o chamavam à Europa, sendo nessas vistas auxiliado pelo nosso poeta, Antonio Gonçalves Dias, que pedira dispensa da comissão, que exercia em Portugal, de investigar documentos e outros subsídios para a nossa História, e fazer extrair cópias deles para o Arquivo Público e para o IHGB, indicando o nome de seu ilustrado comprovinciano para substituí-lo nesse importante e afanoso encargo. Sendo aceita a desistência de Gonçalves Dias, foi Lisboa nomeado, e em dezembro desse mesmo ano (1855) se fazia de volta a Portugal em companhia de sua família”.   

Lisboa faleceu na cidade de Lisboa, em 1863. Sua obra sobre corrupção – o “Jornal de Timon”, por exemplo – e outros males que afetavam o organismo social e político do Brasil de seu tempo, são letais até hoje e ajudam explicar os limites do liberalismo no Brasil.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Seleta Piauiense - Renato Castelo Branco



Retorno

Renato Castelo Branco (1914 - 1995)


Um dia voltarei a ser terra
e de meu seio brotarão
flores agrestes.


Um dia voltarei a ser húmus
e nutrirei velhas árvores
de rubros frutos.


Um dia voltarei a ser pó
e água
e seiva.
E viverei em rochas,
raízes vegetais,
vagas do oceano.


Um dia eu serei
o que já fui.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Bombas saborosas, mas explosivas, sobre a mesa



José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com


Curioso, segurei a garrafa de refrigerante, e, pacientemente, li as informações nutricionais. (Ou teores mortais?) Poucos consumidores se dão conta de ler a tabela nutricional. Pior, descobrir a engabelação: as indústrias só registram resultados de um só copo ou colher, e não da totalidade contida na garrafa, um recurso bastante utilizado nos rótulos de outros produtos alimentícios. A indústria criou a tabela do conta-gotas nutricional a fim de mascarar o perigo à saúde e conquistar o consumidor com informações mínimas em letras ínfimas e miserável quantidade de produto.

A garrafa de refrigerante registrava:"Porção de 200 ml(1 copo) contém 24 g de açúcares, 14 mg de sódio..." Detive-me apenas nos açúcares e sódio, a dupla mais explosiva à saúde humana.

Pouco menos da metade de um copo de refrigerante é de puro açúcar e sal, estimulantes essenciais das glândulas salivares. Explica-se por que tanta gente se vicia no consumo de refrigerantes. Um copo não satisfaz. A tentação avança em outros copos ou toda a garrafa. Quase 100 calorias contém um copo. As glândulas salivares, excitadas, querem mais. A gororoba doce-salgada chega a quantidades diabéticas. Não adianta descer a escala a zero do milagroso efeito diet ou light. São mais danosos do que se pensa.

A nutricionista Michelle Schoffre relacionou os 10 piores alimentos, considerados bombas-relógio contra a saúde: DÉCIMO lugar: Sorvetes, por apresentarem altos teores de açúcar e gorduras trans, além dos corantes e saborizantes, que podem causar danos ao cérebro e sistema nervoso. NONO lugar: Salgadinhos de milho, pela quantidade de sal, gorduras reaproveitadas, que provocam processos inflamatórios, câncer no cólon, irritabilidade e estresse ao fígado. O aviso serve para demais frituras. OITAVO lugar: Pizza, a maioria acondicionada e congelada em supermercados, constituída de massa fina e branca, que se transforma em açúcar na digestão. Acompanha outra bomba, o refrigerante. O aumento de peso é imediato. Nem adiantam caminhadas na Raul Lopes ou exercícios forçados nas academias para queimar calorias, se se voltar, logo mais, a extravagâncias alimentares. SÉTIMO lugar: Batata frita, potente e cancerígena quando aquecida em altíssimas temperaturas, produzindo acrilamidas. Mais os teores de gorduras saturadas e sal exagerado, de poder avassalador no organismo. SEXTO: Pastéis e batatas fritas, que não trazem nenhum benefício nutricional, mas ressaca ao fígado. Estudantes, os maiores consumidores, sentem o peso e falta de apetite, dia seguinte, zonzeira na cabeça. QUINTO lugar: Bacon, risco de doenças cardíacas e diabetes, além de afetar as funções respiratórias, segundo estudos da Universidade de Colúmbia. QUARTO lugar: Cachorro-quente. Além do nitrito de sódio, contém outras misturas cancerígenas e mortais ao fígado, pâncreas e coração. TERCEIRO lugar: Donuts(rosquinhas), danosas como as anteriores. SEGUNDO lugar: Refrigerantes. Uma latinha contém 10 colheres de açúcar, sódio excessivo, corantes e sulfitos. Além dos ácidos, que exigem dez copos com água para limpar os rins, intestinos e sangue. PRIMEIRÍSSIMO lugar: Refrigerantes diet e light. Para a nutricionista, os piores de todos os tempos, já associados a síndromes de alzheimer, fadiga crônica, hipotireoidismo e esclerose múltipla. Todas essas reações não aparecem da noite para o dia. Matam lentamente, como bomba-relógio programada. Faz bem fechar a boca, botar nos freios as glândulas salivares, controlar a gula. Metade do mundo sofre de fome; a outra padece de obesidade.

Tomar refrigerante, eu, hein? No máximo, um copinho. Minhas glândulas salivares seduziram-se com as frutas e vegetais do jardim do Criador, sem adoçantes, conservantes, corantes e ácidos. Acostumei à salada com azeite de oliva, gotas de catchup e shoyu. Sem mentiras e fantasias de néctar embutidas em garrafas e caixas. Que tal o debate em família e salas de aula?

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Os massacres nos Estados Unidos: algumas hipóteses sobre as causas



Cunha e Silva Filho

Vez por outra, nos Estados Unidos um jovem ou um adulto de repente comete uma insanidade de uma só vez, matando inocentes em lugares tais como uma escola, o interior de um cinema ou outro lugar qualquer. Motivo das tragédias: vários ou nenhum explicitamente declarados. Com a facilidade amparada por lei, de se comprar armas de fogo no país qualquer um cidadão americano pode portar consigo uma arma registrada e sair à rua. Relata-se que o primeiro crime de arma de fogo contra várias pessoas ao mesmo tempo ocorreu na terra do Tio Sam em 1927. De lá para cá, a espaços de meses ou anos, tem havido casos de matança de pessoas inocentes. Porém, os Estados Unidos é a terra do faroeste, do bang-bang, do tiroteio, dos combates entre soldados americanos  e tribos indígenas. Isso, contudo, mais mostrado no cinema como entretenimento ainda que com cenas violentas.

Entretanto, algum tempo atrás, havia revistas americanas que chegavam até ao meu estado, o Piauí, onde reportagens e reportagens descreviam, com os mínimos detalhes, os crimes hediondos acontecidos em diversos estados americanos. As revistas traziam fotos terríveis que me causavam horror e, não sei por que, com o tempo, fui associando aqueles tipos abomináveis com algo habitual na sociedade americana.

Naturalmente, devemos entender que crimes hediondos existem em toda a parte do mundo, porém, no caso específico dos EUA, esse tipo de crime de jovens ou adultos massacrarem grupos de pessoas indefesas, pessoas que, em geral, os assassinos nunca viram ou lhes fizeram mal algum, dão o que pensar, suscitam nossa atenção sobre o comportamento individual de algumas pessoas que inegavelmente são diferentes, indivíduos solitários, ensimesmados, que não mantêm interação social com outras pessoas e, em geral, têm poucos amigos ou conhecidos. Na situação desses indivíduos, as famílias deveriam ter por eles uma atenção especial, encaminhando-os a tratamentos com psicólogos ou psiquiatras a fim de descobrirem alguma patologia séria que possa levar os jovens  de atitudes estranhas a cometerem atrocidades contra a sociedade. Esta seria uma primeira medida a ser tomada pelos familiares. Poder-se-ia afirmar que este aspecto envolvendo massacres de inocentes seria uma hipótese  para argumentarmos como uma das causas dos crimes desta natureza.

Um segunda hipótese que se poderia aventar seria analisar, através de estudos sociológicos e antropológicos, ou mesmo estudos desenvolvidos de forma transdisciplinar, as implicações do mundo contemporâneo versus sociedade de tecnologia altamente avançada com que o indivíduo moderno, sobretudo nas cidades adiantadas e de alta densidade populacional, tem que lidar no seu dia-a-dia sentindo-se fragmentado na sua individualidade e no imediatismo pragmático imposto pelo estilo de vida atual. Quer dizer, ao indivíduo, seja o jovem, seja o adulto, diante da complexidade em escala planetária que o mundo agora lhe oferece, se não está ancorado numa base familiar saudável e harmoniosa, tende a sentir cada vez menos fragilizada a sua personalidade. Essa realidade automatizada, robotizada, individualista, que faz valer mais os bens materiais em detrimento de um desenvolvimento de seu mundo interior mais enriquecido, se fosse compartilhada com um nível maior de interrelacionamento social e de trocas de experiências positivas que  integrassem   o jovem ou adulto mais adequadamente ao meio social propício à sua formação integral, é  bem possível  seria que tivéssemos pessoas mais sadias psicológica e socialmente.

A indústria cultural pouco ajuda ao aperfeiçoamento saudável dos jovens de hoje. Os tipos de lazer oferecidos, desde tenra idade, em nada contribuem para melhorar a formação biopsíquica dos jovens, sejam exemplos os tipos de brinquedos ou gadgets eletrônicos que são, em muitos casos, verdadeiras apologias ao crime e à violência. Ora, do mundo virtual ao mundo real, a distância é enorme.

Contudo, se o espírito de uma criança, ou de um adolescente que tenha inclinação natural à violência, é exposto a ela de forma continuada, tenderá naturalmente a internalizar na mente da criança ou do jovem tão profundamente  o seu  universo virtual  selvagem, ou a embaralhar as ações de  brutalidade, que essas violências  virtuais terminam por  banalizarem as  percepções infanto-juvenis no que concerne à valorização e respeito à vida do ser humano.

Há um excesso perigoso de exposição a cenas de crimes tantos nos brinquedos eletrônicos quanto no filmes produzidos nos Estados Unidos. Esta é uma via errada e perigosa à formação de mentes sadias de crianças e adolescentes. Por que não aproveitar tantos temas de alta importância  educativa e recreativa a serem explorados pela indústria cinematográfica americana? Liberdade de expressão não é deixar fazer o que bem querem diretores de cinema ou da indústria de jogos eletrônicos ávidos pelos milhões de dólares arrecadados com a exibição de filmes violentos que vulgarizam a vida. A legislação nos Estados Unidos e de outros países ( o Brasil em grande escala) que gostam de copiar o que por vezes há de pior nos EUA, deve repensar urgentemente questões desta ordem.. Pais e filhos, governo e sociedade devem unir esforços no sentido de deslanchar uma campanha nacional chamando a atenção dos legisladores para os males que têm sido causados à sociedade americana e de outros países, que é a manutenção desses tipos de indústria cultural desagregadores da formação moral e educativa de crianças e adolescentes.

Um terceira hipótese a ser considerada como fundamental para uma rediscussão de fôlego e isenta de partidarismos ideológicos seria a permissão que a Constituição americana assegura para qualquer cidadão comum comprar e registrar armas de fogo para a proteção própria. São milhões de armas nas mãos da sociedade. Ora, caso essas armas caiam nas mãos de alguém desequilibrado, fácil é percebermos como será a consequência do porte de arma em várias situações da vida cotidiana, além do agravante de as armas chegarem ao alcance de crianças sem idade suficiente para aquilatar os riscos que correm longe dos pais. No nosso país, muitas vidas se perdem com o uso de armas de fogo nas mãos de crianças como se estas fossem brinquedos . Tiros são disparados contra quem está por perto, geralmente outros irmãos também crianças, e daí decorrem as tragédias familiares.

Por conseguinte, a questão do uso indiscriminado de arma de fogo nos Estados Unidos tem que ser prioridade social e o assunto tem que ser discutido em todo o território americano mobilizando-se a sociedade e os poderes públicos. Uma boa ideia seria uma emenda constitucional que refundisse profundamente o uso de armas de fogo pelo cidadão americano, deixando o seu emprego somente para os setores de segurança, as Forças Armadas. A alegação de que a arma de fogo faz parte da cultura americana carece de fundamentação e lógica.

É evidente que, ao abolir ou, pelo menos limitar drasticamente o uso de armas de fogo para o cidadão, os legisladores têm que reforçar a fiscalização, a vigilância e a competência das forças de segurança no combate sem trégua ao contrabando de armas e à possibilidade de armas serem surrupiadas ou desviadas dos arsenais militares. Nos EUA, há expertise para cuidar bem desta questão de desvio e de contrabando de armas leves ou pesadas. Da mesma forma, há que redobrar os cuidados na questão das penalidades correspondentes aos graus de infração de uso indevido de armas de fogo. Naturalmente, nunca haverá um grau zero de impossibilidade para que alguma arma chegue a alguém por uma forma ou outra.. O importante é que haja penalidades severas para o uso indevido de armas de fogo nas mãos da sociedade.

Todos os americanos devem entender que uma mudança de comportamento com respeito ao uso de armas deve ser feito sem delongas., em especial as indústrias de armamentos, que faturam milhões de dólares com o comércio de armas para uso privado, devem refletir sobre esta momentosa questão e assim procurar salvar vidas humanas perdidas tragicamente pelas recorrentes matanças de inocentes, sobretudo crianças, como é recente exemplo o que se deu na cidade pacata de Newtown. Não houvesse a facilidade para a aquisição de armas vendidas à população, muito sangue, dores, sofrimentos e traumas seriam evitados. A proibição de armas de fogo nas mãos dos americanos tem que ser considerada como questão de segurança nacional e ao Presidente Barak Obama imediatamente e sem parcialidade compete dar o primeiro passo no encaminhamento ao Congresso de um projeto de Lei a fim de que o debate sobre o uso de armas seja iniciado junto com o apoio da sociedade. Se o fizer, ou seja, se uma emenda constitucional for aprovada favoravelmente à proibição do uso de armas pelo povo, ressalvados os usos delas para os setores de segurança vital para a defesa da ordem pública e da soberania nacional, o Presidente estará contribuindo para tornar a nação americana sintonizada com a complexa dinâmica aberta pelo século 21 que não mais admite que certos modos da tradição cultural sejam mantidos à custa das vítimas de armas assassinas.



  • NOTA: Neste final de ano, para piorar ainda mais a escalada de psicopatas assassinos, um ex-condenado, que passou dezessete anos na prisão, por haver matado a avó (!) cometeu outro massacre, incendiando casas e assassinando inocentes. Entre as vítimas, havia bombeiros. Confessou o psicopata que “gostava” de matar pessoas! É mesmo o fim do mundo no cotidiano universal e não nas profecias dos mapas dos maias. Se não se tomar logo uma medida urgentíssima, os Estados Unidos serão  o país campeão de psicopatas, incendiários etc.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Hallan Silva redescobre o novo romance



M. Paulo Nunes


Na floração literária provocada no país pelo chamado romance de 30 ou de documentação social da vida brasileira, que tem frequentado amplamente estas páginas, houve forte repercussão no Piauí, como se verifica em autores como Fontes Ibiapina (Palha de Arroz, Brocotós), entre os mais velhos, William Palha Dias, explorando a temática do cangaço, com Papo Amarelo, e o ciclo da Maniçoba (Vila de Jurema), ou ainda Renato Castelo Branco, tematizando o ciclo da carnaúba com Teodoro Bicanca, para referir apenas os que já se encontram do outro lado do mistério, como dizia o bruxo do Cosme Velho.

Hallan Silva segue a última temática, ao focalizá-la em sua obra recente, Pedra Negra, ao fixar a ação de seu novo romance, em sua terra natal, Campo Maior, a chamada “terra dos carnaubais”.

Mas não se trata de um romance “à clef”, como aqueles de que falamos, porquanto sua contribuição avança um pouco mais, no sentido de recriar uma nova forma romanesca que depende muito pouco da técnica do romance de 30, porquanto muito mais vinculada aos autores que lidam com o novo processo novelesco inspirado no neo-realismo mágico ou hispano-americano. Este, a partir de 1962, inspirou autores como o mexicano Juan Rulfo, com Pedro Páramo, Júlio Cortazar (Os Prêmios) e, “last but not least”, Gabriel Garcia Marquez, com Cem Anos de Solidão, O Amor nos Tempos do Cólera, e Mário Vargas Llosa (Corversación en la Catedral,Tia Júlia e o Escrivinhador,A Festa do Bode) e, por último, este fantástico O Sonho do Celta, vigorosa denúncia do genocídio belga, no Congo, e os estragos produzidos por brasileiros e peruanos, na Amazônia, sob o guante  do imperialismo inglês e norte-americano, naquela região, de que resultou, em nosso território, a saga da construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré, a famosa “ferrovia do diabo”, tematizada pelo escritor Márcio Sousa, em seus corajosos romances-denúncia  Mad-Maria, enfocando aquela ferrovia, e Galvez – Imperador do Acre, sobre aquele disputado território, finalmente incorporado ao nosso país,  mediante as artes do Barão do Rio Branco, com o Tratado de Petrópolis, de 1903.

Em relação a Vargas Llosa, a concessão do Nobel de Literatura – 1911, pouco veio a acrescentar à sua glória literária que ora atinge a culminância de sua carreira, com a publicação deste seu último romance.

Hallan vai assim abrindo novos rumos para a nossa romancística, diferenciando-se progressivamente, quanto à técnica literária, dos demais cultores do gênero.

Ao lado de personagens reais como o Cel. Clemente, aparecem outros de sua invenção, todos eles partícipes da vida dramática da cidade e de nosso Estado, como o Major Honório, Gerusa, o Pe. Hermínio, perturbado com a falta de fé, aliada ao drama de Mocinha, que já apresenta os primeiros sinais da gravidez, o que sobremodo inquieta o sacerdote, os quais se movimentam na trama do romance de Hallan, com uma nota viva de grandeza ou degradação humana, e como pano de fundo, ergue-se a paisagem dos casarões estuantes de lembranças de uma comunidade que ali se eterniza como retrato vivo de uma época das mais importantes da nossa história social, fadada ao desaparecimento.

O escritor Hallan Silva soube assim retratar tão bem o nosso passado, deixando gravadas em suas pedras e em suas formas de vida uma nota viva daquela dramática realidade, em sua expressão romanesca.

A Ação novelesca do romance se biparte ou triparte em várias faces ou planos, abolida a noção do tempo cronológico, como ocorre na romancística tradicional, em favor da noção de tempo interior ou psicológico, convertida a memória seletiva, a serviço do criador ou demiurgo, em favor da memória involuntária, como ocorre em Marcel Proust, em sua famosa obra Em busca do tempo perdido, o maior romance de todos os tempos, inspirador do romance moderno.

Parabéns ao Hallan pela nova experiência literária, após tão bem realizar-se no ensaio, na crítica literária e no conto, com As formas incompletas: Apontamentos para uma biografia, estudo magistral sobre o nosso excelso poeta H. Dobal (2010); Representação e identidade do Vaqueiro, no cinema novo (2010); o livro de contos Cambacica (2011), e agora nos premia com este primoroso romance, com que vem enriquecer a nossa literatura, abrindo novos  espaços ao novo romance piauiense.

Fonte: portal da Academia Piauiense de Letras

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Devaneios de um caminhante solitário



Fonseca Neto


A Academia Piauiense de Letras fez no último sábado homenagem a Jean-Jacques Rousseau pela passagem dos 300 anos de seu nascimento.Figura notável do pensamento humano nesta parte do mundo, nasceu suíço, em Genebra, em 28 de junho de 1712.

Poucos entre os chamados “pensadores” são admirados quanto ele é. Sua obra continua sendo lida por muitos e ainda que não lida, literalmente, extensa é a inspiração das matérias pensadas por ele, sobretudo, pela parte da humanidade que não desiste de lutar contra as diversas formas de miséria que tecem a desigualdade entre as pessoas. “Natureza” e “Civilização” (ou “Sociedade”) é um par conceitual de sua extensa contemplação, estruturante de seu pensar, essencial nos despojos interpretativos da recepção.  

Vida e obra de sentido e alcance, enormes, pincemos neste propósito de trazê-lo à luz, pela absoluta atualidade, um recorte e elemento nuclear de sua inteligência aspergida e que diz respeito ao modo de educar as crianças, implicados numa “pedagogia”, daí que escreveu seu texto referencial intitulado “Emílio”, em 1757. “Devaneios de um Caminhante Solitário” é de 1776. 

Paul Arbousse-Bastide e Lourival Gomes Machado, ensaiando sobre a reflexão rousseauniana, realçam que esta põe no centro de tudo não ser “razão mas o sentimento o verdadeiro instrumento do conhecimento” e “que não é o mundo exterior o objeto a ser visado mas o mundo humano”. Assim, resumem, “o traço mais significativo do pensamento de Jean-Jacques Rousseau passa a residir nos caminhos práticos que ele procurou apontar para o homem alcançar a felicidade, tanto no que se refere ao indivíduo quanto no que se refere à sociedade. No primeiro caso, formulou uma pedagogia, que se encontra no “Emílio”; no segundo, teorizou sobre o problema político e escreveu o “Contrato Social”, além de outras obras menores”.

Para Rousseau, educar uma criança não era ato banal. No “Emílio”, feito sob a forma de romance, procurou ele apontar o que deveria se seguir para “fazer da criança um adulto bom [evitando tornar-se má], já que seu pressuposto básico é a crença na bondade natural do homem”, sendo a civilização a responsável pela origem do mal. Ora, a educação da criança, comporta dois aspectos em seus objetivos: “o desenvolvimento de suas potencialidades naturais e afastamento dos males sociais”.  

Há quase três séculos, J.-J., pensando a questão, prefigurou o caráter progressivo do processo pedagógico da educação infantil, consoante “as necessidades individuais de desenvolvimento”, partindo do estágio de treinamento dos órgãos dos sentidos – “necessidades físicas” –e do conhecimento do mundo através “do contato com as próprias coisas”. 

O que ocorrerá? “Liberta da tirania das opiniões humanas, a criança, por si mesma” e sem nenhum esforço especial, identifica-se com as necessidades de sua vida imediata e torna-se autossuficiente [sendo importante] particularmente evitar a excitação precoce da imaginação, porque esta pode se transformar numa fonte de infelicidade futura”. Sim, mas o futuro dela? “A tarefa do educador consiste em reter pura e intata essa energia até o momento propício [quando se lhe ensinar] a lição da utilidade das coisas, desenvolvendo-se as faculdades da criança apenas naquilo que possa depois ser útil”. 

Romântico, esse Jean-Jacques? Sim, na acepção perfeita, pois seu pensar é uma espécie de poesia à Revolução. Se não o fosse diria isto? “A desigualdade moral, autorizada unicamente pelo direito positivo, é contrária ao direito natural sempre que não ocorre, juntamente e na mesma proporção, com a desigualdade física – distinção que determina suficientemente o que se deve pensar, a esse respeito, sobre a espécie de desigualdade que reina entre todos os povos policiados, pois é manifestamente contra a Natureza, seja qual for a maneira, porque a definamos, uma criança mandar num velho, um imbecil conduzir um sábio, ou um punhado de pessoas regurgitar superfluidades enquanto à multidão faminta falta o necessário”.

Nomeado pelos pares, fez papel de anjo toucheiro palestrador sobre o “caminhante solitário” homenageado, o acadêmico Nelson Nery Costa.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

TRABALHO DE CESTARIA E RENDA



TRABALHO DE CESTARIA E RENDA

Elmar Carvalho

tramas e tramóias
arma(dilha) a(r)mada
a(r)mada arma(dilha)
entocadas nas tocaias

amantes amadas
amando (tr)amando
entre teias e r’amas
com as armas a(r)madas

entre rendas e redes
a engrenada moenda
do amor entrelaçado

faz uma teia de renda
em forma de rede de pe(s)car
e me amor(tece) e me amor(daça)