quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Café Literário - Rubem Alves e Chico Miguel


MIMBÓ, comunidade de Amarante, descendente de escravos negros


MIMBÓ, comunidade de Amarante, descendente de escravos negros

Luís Alberto Soares (Bebeto)

A comunidade Mimbó, município de Amarante-PI, realiza em 15 de agosto, o último dia do festejo de Nossa Senhora da Saúde, tradição centenária do povoado.
         Mimbó, trata-se do nome de uma antiga comunidade da Zona Rural de Amarante, a 20 km do centro da cidade. Pesquisadores, historiadores e imprensa de várias partes do Brasil, sempre visitam o povoado para colherem junto aos mais velhos “mimboenses”, a origem e cultura daquele povo simples e acolhedor.
O professor e jornalista amarantino, Virgílio Queiroz, foi um dos pioneiros a levar o nome “Mimbó” para o mundo, através de seus valiosos escritos, expressivas palestras e entrevista aos grandes comunicadores do país. A Cidadã amarantina, historiadora, poeta e escritora Emília da Paixão Costa (Bizinha), membro forte de nossa cultura, também há longos anos, fornece dados preciosos sobre aquela comunidade para várias pessoas, a exemplo da saudosa historiadora amarantina Nasi Castro.
Nestes últimos anos, o povoado é tratado também como Quilombo Mimbó devido o seu povo ser de origem africana. Idosos da comunidade contam que tudo começou há mais de cento e cinquenta anos atrás, quando três negros escravos, os irmãos: Francisco, Laurentino e Pedro e as irmãs: Antonia, Benedita e Rita, fugiram de uma fazenda da região de Oeiras, na época, Capital do Piauí, para a Zona Rural de Amarante.
Os escravos, temerosos de capturas e grandes castigos de seus donos, se esconderam num lugar de difícil acesso repleto de grutas e penhascos nas imediações do riacho Mimbó e rio Canindé. Lá encontraram Antonia, Benedita e Rita, pertencentes a um grupo de negros que já residiam na localidade, e constituíram matrimônio.
Contam ainda que a família Rabelo da Paixão, considerada descendente dos escravos fugitivos é precursora do crescimento populacional e desenvolvimento social da comunidade Mimbó. Muitos anos depois, as famílias “mimboenses” instalaram residência numa área plana, próxima da inicial moradia dos escravos fugitivos, onde vivem até hoje.
Para os mimboenses subirem para a parte plana, abandonando as antigas moradas, foi necessário o convencimento dos professores Cineas Santos e Virgílio Queiroz que justificaram a mudança como algo benéfico para os habitantes, pois a parte alta fica perto da BR, facilitando assim o intercâmbio do Mimbó com Amarante e outras cidades.
Além disso, havia o problema de doentes que precisavam de tratamentos médicos e a subida até a parte alta era muito difícil. O primeiro a subir foi um dos troncos da comunidade, Pedro Rabelo da Paixão. Nestes últimos anos, formou-se o assentamento habitacional Mimbó com a maioria de descendentes de escravos, próximo à antiga moradia e à BR 343.          

terça-feira, 12 de agosto de 2014

O VAQUEIRO, O CACHORRO E O MACACO


O VAQUEIRO, O CACHORRO E O MACACO

Jacob Fortes de Carvalho

Francisco Manduri, mais conhecido pela alcunha de Chico Farofa ou simplesmente Farofa, por mais de uma década vaqueirou na fazenda “Curral Velho”, de propriedade de Terto Manso, também conhecido pelo apodo de “Tertogalça”.

Nas décadas de 1930/40, quando o gado vacum era criado sob o regime de extensão, campo aberto, a tarefa preponderante de um vaqueiro consistia em campear: monitorar e inspecionar o rebanho sob sua responsabilidade. Para tanto dispunha dos cavalos campeiros, por vezes nomeados de boiadeiros. Durante a campeação se fazia acompanhar de um bom rafeiro para ajudar nas reses esquivas ou no resgate daquelas que viessem a tresmalhar.

Certa feita, quando campeava pelos socavões e bibocas do latifúndio, Farofa deparou-se com um macaquinho recém-nascido. Desamparado e debilitado, o bebê apresentava visíveis sinais de inanição. Prontamente Farofa regressou a casa a fim de alimentar o recente. Em poucos dias o macaquinho, agora forte e nutrido, revelou o que é da essência dos macacos: travessuras.  Suas divertidas traquinices enchiam a casa de bom humor. De tanto assistir o vaqueiro montar e sair a cavalo diariamente, acompanhado do Baliza, seu fiel rafeiro, o macaquinho, certa feita, para surpresa de Farofa, pulou no pescoço do Predileto, apelido de um dos cavalos, e firmou-se em suas crinas. O que se supunha ser um gesto isolado do macaco tornou-se uma rotina: bastava encilhar o Predileto e o macaquinho, agora alcunhado de Pinga-Fogo, agarrava-se às crinas do animal e só desgrudava quando Farofa regressava das lidas campesinas. Para não atrapalhar os movimentos do vaqueiro, sobretudo quando precisava inclinar-se sobre o pescoço do cavalo, Farofa ensinou Pinga-Fogo a montar no dorso do Baliza. Para quem se revelara bom aluno de equitação no pescoço do Predileto, Pinga-Fogo rapidamente se tornou um excelente ginete no dorso do Baliza. A dupla estava formada. Havia entre eles uma relação de companheirismo aprofundava pelo labor sertanejo. Quando Farofa parava em uma fonte para dessedentar a si e o cavalo, Baliza e Pinga-Fogo também se saciavam. A companhia de um vaqueiro mirim, montado no cachorro, acabou por transformar a obrigação de Farofa em pura diversão. Mas era preciso zelar pela integridade física do vaqueiro coadjutor. Nesse sentido Farofa mandara o modista da sola, o soleiro, confeccionar um terno de couro para Pinga-Fogo; protegê-lo dos espinhos. Tudo ocorria de modo rotineiro com a dupla quando certo dia, ao regressar a casa, sol pendido, Farofa estranhou o retardo de Baliza e Pinga-Fogo. A demora foi-se acentuando e Farofa, depois de esperar o quanto pôde, encilhou o cavalo e retornou em busca dos amigos evidentemente seguindo o mesmo trajeto por onde havia passado. Ao divisar uma nuvem de urubus, que planavam denunciando carniça, Farofa intuiu que ali estava a razão por que se verificava o atraso dos amigos. Ao se aproximar Farofa constatou que se tratava realmente de uma carniça com que Baliza repimpava a barriga. Enquanto Baliza saciava seu instinto repugnante, Pinga-Fogo, impacientado e contrafeito, aguardava sobre um galho de jatobá do campo com a cabeça recostada ao chapéu-de-couro que lhe servia de travesseiro. Ao perceber a chegado do seu amo Pinga-Fogo, num átimo, voou nas crinas do Predileto e retornou para a casa, feliz. Desse dia em diante Pinga-Fogo não amais aceitou seu animal de montaria. Preferiu mesmo permanecer em casa na companhia de Dona Malvina e seu filho Chico Junior, o Farofinha.       

segunda-feira, 11 de agosto de 2014


DOIDOS DE ESTRADA

Anchieta Mendes
                                                          
                        Quem não os viu, os DOIDOS DE ESTRADA, por este mundo a fora? Quem teve o cuidado de observar os seus passos, as suas roupas, a bagagem volumosa e suja que carregam?
                        Quem indagou, a si mesmo, por que existem esses irmãos que ganham as estradas e que não têm CAMINHOS?  Quem perguntou a algum desses irmãos misteriosos que andam, sem parar e sem cansaço, ao sol e à chuva, de onde vêm, para onde vão, se é que vão a algum lugar?!
                        Quem quis ouvir ou procurou saber a história desses irmãos? Talvez ninguém, inclusive eu. Pecado dos que, como eu, não se interessam pelos desditosos, os abandonados, os infelizes, os loucos, os DOIDOS DE ESTRADA, que não são poucos.
                        E lá se vão. Olhar distante sem saber a distância percorrida e a que vai percorrer. Nem olham para as placas a indicar quilômetros, localidades e direções. A sua direção é o mundo, mundo sem nome, sem rota, sem mapa e sem tamanho.
 Suor caindo, fome, sede, pés sangrando, sem reclamar, sem sentir nada, além da ilusão de andar, de prosseguir a viagem sem destino e sem companhia, estradas longas, dias sem horas e noites sem começo e fim.
Presumo que seja uma fatalidade, a vida dos DOIDOS DE ESTRADA. Uma destinação da própria sorte, uma missão que não se compreende, não se reconhece ou admite. Inglória e misteriosa missão desse andarilho que é a marca, talvez, de um amor perdido, de uma injustiça sofrida, de uma desdita qualquer, que o mundo é cheio de desditas.
Pois não é que eu chego a invejar a vida dos DOIDOS DE ESTRADA? Sabem por que? Ora, meus amigos, eles não conhecem o que está ocorrendo nos bastidores da política, não têm conhecimento das guerras imorais, das crianças que morrem de fome, dos crimes que se praticam; dos horrores plantados por todo lugar. Não sabem das injustiças praticadas, dos males e da fome que sofrem os pobres.
Não sabem o que acontece neste mundo cão, de desgraça e opressão, de tortura e maldade, perseguição e ódio. Não sabem. Porque não sabem, não trazem consigo a mágoa infinda e a dor imensa de saber que o mundo está cheio de canalhas, de mentirosos, de aduladores e de prepotentes.
Não sabem que a corrupção suga os cofres do povo e a sua dignidade. Não sabem que a fome é cada dia mais dura e infame. Que a desgraça está mudando o destino de milhões de jovens que não têm futuro.
Invejo os inocentes, que não conhecem o pecado, nem o mal, a mentira, a ignomínia, nem o desapreço, o orgulho, a vaidade e  a  submissão do homem aos poderosos.     
E os DOIDOS DE ESTRADA nada mais são do que pobres cidadãos que perderam a noção do mundo, da vida e do sofrimento. São, naturalmente, candidatos a um lugar no céu. Ali têm acento os perseguidos e os desgraçados.
Deus anda com eles pelas estradas sem rumo, sem começo nem destino.      

domingo, 10 de agosto de 2014

Seleta Piauiense - Cineas Santos


CANTIGUINHA

Cineas Santos (1948)

Como faz o pássaro
Ao tecer seu ninho,
Fiz esta cantiga,
Que te dou,
Feita de ternura,
Tecida com carinho.
Ternura (pura)
Carinho (zinho)
Como o alegre
Cantar de um passarinho.      

sábado, 9 de agosto de 2014

Espaço da memória


Espaço da memória

                       “ A friend in need is a friend indeed.”
                                      
 Cunha e Silva Filho

 Sei, leitor, que eu, você, todo mundo, em geral,  estamos errados quando,  tantas vezes,  deixamos de lado  a continuidade de uma amizade  que, com o tempo, se vai,  pouco a pouco,  embora e, o que é pior,  quando pensamos  em reatá-la, já é  impossível, visto que  o amigo ou a amiga  podem não estar mais   entre nós. Falo disso  a propósito de  amigos  que  perdemos de vista  por longo tempo e  este, conforme tão  lucidamente vemos  em romances de Machado de Assis,  vão desaparecendo até mesmo   com  muita  frequência, o que é de lamentar do  ângulo da condição  humana.

Lá por volta dos anos de 1960, diria melhor,  1963 até 1968 aproximadamente,   minha  esposa  mantinha uma  grande amizade  com  a família  Freire,  então gerente-geral do Banco do Brasil, agência Centro, Rua Primeiro de Março, no prédio onde hoje funciona   o Centro  Cultural  Banco do Brasil. A esposa do Sr. Moacyr Freire era a D. Santuzzi e eles tinham  um casal de filhos.   Moacyr   Freyre era do  Piauí, não sei se exatamente  da capital. Sei de um irmão dele, o Sr. Zequinha Freire, que morava em  Teresina e, de vez em quando,  visitava o irmão Moacyr. O Sr. Moacyr Freire  morava no belo  bairro de  Ipanema, na rua Visconde de Pirajá.

Naquele tempo, eu  ainda era  namorado  de minha esposa. Foi ela quem me apresentou  ao Sr. Moacyr Freire. Antes,  me contara  em que circunstâncias  o conhecera. Tendo chegado do Piauí  muito jovem, necessitou  de ir ao Banco do Brasil receber uma   ordem de pagamento que lhe  enviara  a mãe, em União. Ocorre que, por algum motivo,  houve atraso na chegada  da ordem de pagamento. Ela ficara   aflita, pois  necessitava   do valor   enviado.

 Conversando  com um funcionário  do banco,  e  expondo-lhe   o problema, contara-lhe   que era do Piauí. O funcionário, solícito,  logo entendeu o desespero da  jovem e, com  boa  vontade,  lhe sugeriu que falasse com  o gerente, o Sr. Mocyr Freire, por sinal,  do Piauí, conterrâneo dela.

O funcionário, muito  educado,  levou-a até ao gerente. Ela  lhe   relatou  a ocorrência  do  atraso  da ordem de pagamento. O gerente a  ouviu atentamente e, numa  ação de bondade  que iria ainda se repetir tantas  vezes, lhe disse:  “Não se preocupe,  menina,  vamos fazer  assim. Eu lhe empresto  agora o   valor que  lhe remeteram e,  depois,  você  me paga.”

Nasceu daí  uma  boa  amizade. A amizade se estendeu, depois,  a mim   igualmente,  pois fora  o Sr. Moacyr Freire que me  tinha conseguido uma colocação num  banco de uma  agência  do Centro, no qual hoje funciona o Centro Cultural  Banco do Brasil), na Rua  Primeiro de Março. Era o  Banco do  Intercâmbio Nacional (hoje extinto), departamento de câmbio,  onde iria  trabalhar como   escriturário  principiante, que,  na prática,  redundou  mais em  escrever  carta em inglês comercial, ou em verter  para o  inglês cartas  em português enviadas  pela  gerência   de câmbio.

Por um lado foi muito bom  ter trabalhado  naquele banco,  uma vez que me vi  compelido a aprender  bastante   a terminologia  do inglês comercial e bancário. Até havia  comprado  pra mim  um  ótimo  compêndio das Edições de Ouro que ensinava a escrever cartas  comerciais  em inglês, cujo autor ainda  guardo  na memória:  Leônidas  Gontijo de Carvalho. Era no ano de 1968, ano em que nasceu  meu  primeiro  filho,  hoje  moço vitorioso,  professor  de Direito em Curitiba, Paraná e Procurador Municipal.

A amizade do Sr Moacyr foi sempre motivo  de   orgulho  para a minha   esposa e a ele  e à  sua esposa,  D. Santuzzi (não sei bem se a grafia  está  correta)  ela deveu muitos favores,  favores que não podem ser nunca esquecidos. Da família do  Sr. Moacyr  sei que tenho  as melhores  recordações   de amizade e de gratidão. Me  recordo de  que  o seu filho  estava na época   cursando   engenharia em Petrópolis e que a sua  irmã,  uma moça  muito  bonita,   se casara com  um  moço  também  educadíssimo que,  uma vez,   da mesma forma, me quis  arranjar uma  colocação,   se não me engano,  num estaleiro em  Niterói.

O casal  Moacyr Freire, para resumir,  nos apoiou até  à época de meu casamento. Sempre  esteve disposto a  ajudar-nos, assim como  o fizeram outros poucos amigos, aqui no Rio de Janeiro, que  conhecemos  nesta vida.


O tempo passou. Não nos vimos mais. Porém,  temos  vontade de saber   alguma notícia  de nossos  benfeitores, bem como de  sua família.O Sr.  Moacyr Freire, a sua esposa são  dessas  pessoas a quem  jamais  apagamos   do mais  fundo  dos nossos corações.  Agradeceríamos se alguém que,  por ventura, me lesse,   pudesse  fornecer-me   informações sobre  aquele lindo casal  da  Rua  Visconde de Pirajá. Ficaremos  confortados,  minha  esposa   e eu.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

(IN)DEFINIÇÃO


(IN)DEFINIÇÃO

Elmar Carvalho

Eu sou aquele
que vacila absorto
nos umbrais que permeiam
e medeiam o que foi
e o que poderia ter sido.
Sou aquele
que oscila perplexo
entre o sono e a vigília
e inventa sonhos nunca sonhados
e pesadelos jamais inventados.
Eu sou aquele
que ateia fogo
e dança sobre as brasas
e sobre as cinzas do caos
e sonha em não ser
o ser que é
e não é.    

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

...E MORREU MARIA PREÁ!


...E MORREU MARIA PREÁ!

Antonio Gallas

Comer “o pão que o diabo amassou”, “por as barbas de molho”, “santo do pau oco” ou ”casa de mãe Joana”, são muitas das expressões que costumamos dizer por este “brasilzão” a dentro.  São os ditados como assim dizemos.  Muitos deles tiveram sua origem na bíblia, como por exemplo, “o pão que o diabo amassou”. Outros com a chegada da coroa portuguesa ao Brasil, e a grande maioria (a maioria já não é grande???!!!) surgiu do anedotário popular, principalmente das regiões norte e nordeste.

É muito comum ouvirmos dizer “MORREU MARIA PRÉA” quando se tem um assunto encerrado, finalizado. Mas como surgiu essa expressão?

Conta-se que em uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Norte, o sacerdote mantinha um caso amoroso com uma de suas beatas que por sinal era muito bonita como conta em versos o poeta potiguar Itanildo Medeiros:

“Bonita e muito formosa
Maria Preá era seu nome
Essa beata fogosa
Do padre tirava a fome
E sempre que ele podia
Com ela, ele se escondia
Pra poderem se agarrar”.

Um belo dia, prá desassossego do vigário o sacristãos flagrou em colóquios amorosos conforme narrativa ainda do poeta Itanildo Medeiros:

“Mas um dia o sacristão
Flagrou os dois num colchão
O padre e Maria Preá
E depois dessa orgia
O padre perdeu o sossego
Todo dia o sacristão
Alegava este chamego
Chantageava o vigário
Fazia ele de otário”.

A partir daí a vida do padre tornou-se um inferno. Com medo de que a notícia se espalhasse pela paróquia e pelas freguesias das redondezas, era obrigado a aceitar as chantagens do sacristão. Não sabia mais o que fazer. Até que no desespero pediu a Deus que mostrasse um caminho para que ele ficasse livre dessas chantagens e extorsões, pois até ao cofre da igreja o vigário já tinha recorrido algumas vezes. Mas como diz outro ditado brasileiro “Deus tarda, mas não falta”, embora eu ache que Deus chega na hora certa, aconteceu que um dia ao sair para uma desobriga em povoados da região, o padre esqueceu-se de levar importante documento que deveria ser entregue a um paroquiano. Do meio da viagem o padre retorna para pegar  tal documento e ao chegar na casa paroquial deparou-se com uma cena hilária e surpreendente, como  narra em  versos Itanildo Medeiros:

“O padre entrou apressado
Na casa paroquial
Viu o sacristão curvado
De decúbito dorsal
Nu da cintura pra baixo
Por traz dele um outro macho
Numa movimentação
Que o padre, vendo, notava
Que o rapaz 'encaicava'
As fezes do sacristão”.
Surpreso com o que acabara de presenciar e ao mesmo tempo sentindo-se aliviado:
 ”O padre gritou de lá
Sacristão se oriente
Pois, pra nós, daqui pra frente
Morreu Maria Preá"!

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Arrocha, professor!


Arrocha, professor!

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Acabo de receber mensagem da arquiteta Goretti Mendes, minha ex-aluna. O convite é-me simpático: ”Estamos organizando o encontro de nossa turma. Será um jantar no buffet... podemos contar com a sua presença, bem como da nossa colega Rita?...”

         Uma das gratas satisfações do exercício do magistério é o convívio prazeroso com a geração adolescente, bela, saudável e sonhadora, apesar dos rompantes de rebeldia da idade. Muito cedo, ainda no primeiro ano de faculdade, fui para as salas de aula de escolas públicas e privadas. Empolgado, vibrante, irreverente, cobrador de tarefas, saltitante, ensinava sempre em pé.

         Estudante pena, quando convocado para falar em público, explicar como elaborou a tarefa de casa, quais os resultados encontrados. Eu os “torturava”, exigindo-lhes exemplos extraídos de revistas, fotografias dos locais onde garimparam informações, gravação com entrevistados, para produção de texto. Eu não lhes permitia moleza, embromação ou pesca. A aula virava circo, e, por incrível pareça, conquistava fãs, especialmente dos mais desembaraçados e moleques. Eu me dava bem com eles, atazanando-me a paciência. Promovia-os com tarefas e exaltação ao talento. Alunos traquinas deixam saborosas recordações.

            “Arroche, professor! Não permita estudante sem atividade. Aproveite as inesgotáveis fontes de energia dos jovens. Aluno problemático, professor despreparado” -  Advertia-me o diretor do Diocesano, Padre Luciano. E eu repetia a lição em outras escolas, incluindo as públicas. No final do ano letivo, generoso, não os reprovava.

A sala de aula surpreende , quando despontam perguntas para aplicar rasteira no mestre. Djalma Filho, advogado e professor de Direito, brilhante aluno, exibia raro talento, quando convocado para apresentar, em público, resultado de sua pesquisa. Um dia, em pé, frente aos colegas, virado para a lousa, pegou giz, escreveu: “O que dizes não é o que tu fazes”. E me desafiou, autoritário e voz alta para envenenar os colegas: Professor, divida e classifique este período. Senti a serpente engasgar-me com fruto da arrogância. Pergunta típica para derrubar muitos professores de português. “Djalma, escolhe outra, porque esta marmelada já comi. O período se divide assim: O/QUE DIZES/ NÃO É O/ QUE TU FAZES. Oração principal: O (isto, aquilo) NÃO É O (isto, aquilo). As outras duas: orações subordinadas adjetivas.” Hoje, Djalma abraça-me onde me encontra, mesmo em fila para comunhão, na missa.

Vale a pena encontrar amigos, ex-alunos e mestres. Na mesma semana do falecimento de minha mãe Dedé e de meu aniversário, pude avaliar os tentáculos e horizontes das redes sociais: quase duzentas mensagens e pouco tempo para responder a todos. Graças ao milagre tecnológico, Goretti Mendes descobriu-me para encontro com o passado. Irei abraçar a geração tostada pelo tempo. Claro, Rita, aquela aluna com quem me casei, acompanhar-me-á. Uma paixão forte quanto o entusiasmo em sala de aula.      

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

OS INIMIGOS E A SUCURI


OS INIMIGOS E A SUCURI

Jacob Fortes

Quando os meus pais, durante os serões familiares sertanejos, fantasiavam a minha mente infantil de contos míticos e lendas, narraram, certa noite, uma história que diziam ser verdadeira protagonizada por dois inimigos. Essa história obviamente já não permanece incólume nas prateleiras do meu armazém; ruiu-se pela ação deletéria dos anos. Apesar disso, empenho-me em recontá-la mesmo que para tanto recorra ao meu armarinho inventivo, entulhado de bugigangas e pedaços de quinquilharias à espera de serventia.

Domingos e Aristeu, parentes consanguíneos, desfrutaram de relações fraternas durante o calendário infanto-juvenil. Tempos depois, na idade adulta, no papel de pais de família, circunstâncias familiares envolvendo acusações infundadas instalaram a discórdia: tornaram-se inimigos marcados pelo ódio recíproco. Apesar disso, não andavam às turras, não se combatiam; respeitavam-se cada qual com o seu silêncio e sua taciturnidade. Esforços de amigos e parentes para que pudessem se avir, baldaram-se.

Suas casas, ambas na borda alta da Lagoa da Traição, imenso alagado à margem do rio do mesmo nome, Boqueirão da Fronteira, CE, não eram próximas nem distantes, apenas avizinhadas. Um grito imódico ou o cocoricar de um galo não garnisé era o que distava uma da outra. Essa era a régua do sertanejo de antanho.

Porcos de propriedade dos desafetos, criados à solta, desapareciam com certa frequência. Os sumiços dos suínos, e de outros animais de pequeno porte, eram atribuídos à cobra sucuri-preta que habitava o enorme alagado cingido por densa vegetação, mormente remela-de-galinha. O alagado, quando visto à distância, apascentava todos os olhares, inclusive os mais desamparados, mas metia medo ao ser olhado bem de perto. É que a imensidão da lagoa era coberta por uma planta aquática flutuante, mais conhecida por aguapé, de flores violáceas ou azuis. Nada se podia divisar abaixo do cobertor vegetal que a natureza colocara sobre a superfície, ainda mais porque a água era demasiadamente turva na qual, segundo o imaginário da região, habitavam seres pavorosos.

Ainda que a maioria dos moradores apontasse a cobra como a principal suspeita pelo desaparecimento dos animais domésticos, Aristeu, no entanto, preferia colocar a suspeição sobre os ombros do seu desafeto, Domingos. (O gesto de Aristeu ilustra o aforismo segundo o qual, “os amigos não tem defeitos, mas os inimigos, se não os tem, eu boto”).

Era um dia de abril do ano de 1941. O poente ensanguentado prenunciava o desfalecer do dia e Cara Branca, a porca exuberante, e bojuda de prenhez, de propriedade de Aristeu ainda não havia retornado a casa para saborear a ração que lhe apetecia, que lhe fazia cativa ao cocho. A hipótese mais provável para a ausência do animal era a de encontrar-se amocambada, em trabalho de parto. Em tais circunstâncias os animais instintivamente se isolam para partejar. O adiantado da hora desaconselhava qualquer incursão para arrebanhá-la. Porém, o desvelo de Aristeu falou mais alto: apetrechou-se e partiu pressuroso em busca de sua Cara Branca. Enquanto caminhava Aristeu dizia de si para si que no beiço da água a porca não haveria de está, pois os bichos, na hora do partejo, procuram lugares enxutos e isolados. Sem se descuidar dos riscos iminentes, Aristeu investigava o íntimo da vegetação, sobretudo balças espinhosas, cipoal e remela-de-galinha.

Não demorou muito o turvar do vespertino privou Aristeu de reger o seu intento. Sendo assim, nada mais restava senão recomeçar a busca no dia seguinte. O último raio morrediço do poente era o que bastava para nortear o caminho de Aristeu até a sua casa; obviamente se estugasse o passo. E quando já transpunha os limites da concavidade da lagoa eis que, subitamente, Aristeu foi atingido pelo bote veloz da sucuri preta. Por certo quis a cobra, como é da sua tática, enroscar-se em Aristeu na altura do tronco a fim de comprimi-lo e impedir a sua respiração.  Sucede que os passos céleres de Aristeu, quase de chouto, frustraram parcialmente o intento da serpente que enleou apenas o braço esquerdo mantendo-o subjugado. Aí começou o combate de vida ou de morte. A cobra puxava Aristeu em direção à água, pois o afogamento é a melhor alternativa para matar uma presa. O rabo da sucuri, aliás, é dotado de duas unhas que, apoiadas em raízes ou lajedos, lhe dão a firmeza de que precisa para puxar a presa. Aristeu, por sua vez, tentava se desvencilhar da peçonhenta sem permitir que ela se enroscasse nas suas pernas. Tomado pelo cansaço e a aflição de estar em desvantagem, pois progressivamente se aproximava da água da lagoa, Aristeu emitiu gritos tonitruantes ao seu inimigo Domingos para que o socorresse. Dona Maria, que preparava o jantar daquele dia desfalecido, alardeou prontamente ao marido Domingos sobre os gritos desesperadores que ecoavam a partir da Lagoa da Traição. Os gritos pavorosos fizeram Domingos e sua esposa Maria concluírem que algo horripilante estava ocorrendo para as bandas do alagado. Armados de facões acorreram em direção à lagoa e, chegando ao local, encontraram Aristeu se debatendo, numa ânsia louca, com o braço esquerdo praticamente dilacerado. Pouco restava a Aristeu inclusive porque, com água na altura dos joelhos, já não tinha o apoio da terra firme. Domingos, de um golpe, cortou a cobra em dois pedaços, sendo que um deles permaneceu espiralado no braço de Aristeu.

O inusitado episódio — que fez de Aristeu o penitente mor das redondezas — serviu para restabelecer a concórdia entre as duas famílias.

Quanta à porca fujona reapareceu dois dias após o episódio, famélica, puxando uma fieira de nove bacorinhos, todos de carinha branca. Aristeu, até o final dos tempos, fora apelidado de bracinho, numa alusão ao seu braço que secara completamente.

É inescapável a qualquer leitor extrair ensinamentos deste ou daquele episódio. Eu, que também sou leitor, tenho o direito de dar o meu palpite: O caso Aristeu abona a certeza de que quando as lições do amor são ineficazes as da dor se impõem de modo severo, por vezes. “A pedra preciosa não pode ser polida sem fricção; nem o homem aperfeiçoado sem prova”.          

domingo, 3 de agosto de 2014

Seleta Piauiense - Carvalho Neto


Chamamento

Carvalho Neto (1944)

rouba da gaivota ao voo a musicalidade
e na cidade faz a partitura de tuas dores
criatura com mãos de todos os andores
encharcadas de suor, de mil licores
constrói a nova poesia
guarda a solidão da praça vazia
no bolso do casaco
e com pés e direitos feridos, abre estradas
amadas, demais amadas, marcadas
como versos na rocha
rouba aos olhos todos os rancores
que os senhores não abaterão teu brio
teu amanhã será depois de amanhã
e não ficarás na outra margem do rio.

sábado, 2 de agosto de 2014

O olhar de um jovem mendigo


O olhar de um jovem mendigo

Cunha e Silva Filho

Ao sair da vetustíssima Igreja de Santa Luzia, Centro do Rio de Janeiro, aonde fui assistir a uma missa de Ação de Graças a Santo Expedito, me defrontei com um jovem negro, sentado num dos degraus da entrada daquele templo sagrado.

O jovem não me pediu nada quando olhei para ele. Senti que seu olhar me pedia uma ajuda financeira e aqui associo de imediato o fato àquele provérbio que aprendi em inglês num formoso livrinho didático, presente de um vizinho e amigo quitandeiro da Rua São Pedro, esquina com a Arlindo Nogueira, em Teresina, Piauí, lá por volta do início dos anos de 1960.  Livrinho da antiga coleção FTD, ao qual, infelizmente, faltavam algumas páginas. O provérbio é este: “He who gives to the poor lends to God.” (“Quem dá aos pobres empresta a Deus”).

Minha reação foi logo a de retirar do bolso uma pequena quantia que dei ele. Mas, não é a ação de caridade que me importa como matéria de reflexão e, portanto, não é a discussão de dar esmola ou não dar esmola, nem tampouco me importa se esse gesto vai de encontro ao pensamento, quase coletivo, de que dar esmola é manter o hábito errado e reprovado de que assim fazendo estamos não ajudando alguém na penúria, mas contribuindo para manter indolentes no estado em que estão.

O que pretendo comentar é o olhar do jovem negro dirigido a mim com tanta candura e tanta pureza, com tanta alegria que conseguia me passar pelo brilho que me transmitia uma expressão de ingenuidade, de simplicidade, de pureza,de agradecimento, de gratidão, de comunicação instantânea de uma alma para outra, sem nenhum outro desejo senão o do olhar de agradecimento e de simpatia que me lançou e me comoveu até as lágrimas, lágrimas não realmente derramadas mas sentidas, que são as mais genuínas e as mais intensas.

Olhares há que se distinguem do simples olhar da indiferença que observamos em nossos semelhante, no anonimato da multidão. Esse olhar do desconhecido não tem nenhuma significação para nós, porque nada diz dos sentimentos verdadeiros, do que brota da espontaneidade, da gratuidade, do querer ser cúmplice e solidário, ou seja, é um outro  olhar, é o olhar do jovem  mendigo. É esse olhar que nos falta como seres feitos de espírito e de matéria física.

O olhar do jovem negro não é o de ameaça, de raiva, de revolta. É, antes, o olhar do amor, da alegria sentida por receber, num simples gesto de uma pequena esmola, algo que conforta ainda que por um curto tempo. Não foi a minha ajuda dispensada àquele jovem que irá resolver a situação de mendicância dele. O que está em jogo é o contentamento demonstrado por ele através de um olhar amoroso e empático, olhar de quem não nos quer o mal, um olhar de quem nos deseja felicidade e alegria, olhar digno de uma poética do olhar.

 Aquele instante do olhar do jovem negro que pede esmola, seja pelo silêncio, seja pelo balbuciar hesitante de proferir alguma frase constituiu, pelo menos para a minha compreensão, um momento epifânico.
 
Não sei se ainda experimentarei aquele instante de olhar onde se pode sem esforço vislumbrar a faísca do conforto íntimo ainda que fruído por alguns instantes inefáveis.

O olhar do jovem e simpático negro, naquela manhã de sol de julho carioca, guardarei comigo como um instante de eternidade que - sei por experiência - não nos é comunicado em tantos dias da nossa vida.

O olhar do jovem negro que pede esmola talvez tenha adquirido mais intensidade devido à circunstância de que, naquela manhã de uma quarta-feira, o meu dia não fosse um dia comum e insosso, mas um dia pleno de sensações etéreas, de eflúvios benéficos, desses que nos invadem a alma e o corpo numa unidade de harmonias e de encantamento a que chamaria de uma dia feliz, no qual a percepção mais aguda da vida e de sua importância nos torna mais do que um simples mortal, mas alguém em comunhão universal com o sentimento de amor à vida, ao tempo, ao espaço, à natureza.

Procurando as razões mais íntimas para este estado de beatitude, não preciso esconder que seu cerne se encontra naquela lindo olhar de um simples negro encontrado a pedir esmola, sentado num degrau da entrada de uma velha igreja, cuja forma embrionária data praticamente do tempo da fundação do Rio de Janeiro, tendo sido precariamente erguida à beira do que chamamos Baía da Guanabara, uma parte considerável da qual foi, tempos depois, aterrada com os escombros da derrubada do Morro do Castelo.

Internamente, a construção da igreja foi feita em estilo “rococó tardio,” segundo a classificação que lhe deu o historiador Milton Teixeira, que conhece tudo do Rio antigo, e de mistura com traços barrocos.A Igreja de Santa Luzia, uma das relíquias históricas da cidade, passou por diferentes formas arquitetônicas.

 Nada sei nada sobre a vida pessoal e familiar daquele jovem, dos motivos que o levaram àquela condição social. Também não é desta crônica que me valerei para elucubrações de cunho político, ideológico, de sistemas de governos.

 O que no jovem negro procuro é sondar-lhe, ainda que esquematicamente, a poética do olhar, o seu sentido de humanidade. No seu olhar não tenciono questionar os fundamentos da nossa estrutura política que o levaram ao que é na sua condição atual de carência e de abandono. Não são politizar o tema da pobreza, das injustiças sociais, dos governos perversos, corruptos, modelos nefandos da impunidade em vários níveis de administração, de violência em forma de impunidade crônica, malabarismos indecentes (para não parecer disfêmico) e de hipocrisias camufladas de benefícios sociais. 

Só quero é extrair da poética daquele olhar todos os traços de sua ancestralidade, das lutas da sua etnia para conseguir alguma cidadania e dignidade num país engolfado por modernismos e anacronismos (Eduardo Portella) que saltam à vista de qualquer observador atento ao destino de nossa nação.


Só sei que aquele olhar do jovem negro brasileiro me encantou e me fez um dia mais feliz e mais consciente sobre o que deveríamos ser e não somos, no cinzento convívio entre os homens que ainda povoam este tão desolado planeta Terra.           

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

HARDI FILHO – UM POETA OITENTÃO

No auge da reativação da UBE-PI (em Luzilândia), vendo-se, da esquerda para a direita: Rubervam Du Nascimento, José Pereira Bezerra, Elmar Carvalho, Adrião Neto, Francisco Miguel de Moura, João Pinto e Cláudio Vasconcelos. Trepado na mureta , vê-se Júlio Caribé.
Da esquerda para a direita: Paulo Nunes, Hardi Filho, Nelson Nery Costa, Francisco Miguel de Moura, Adélia Hardi, Osvaldo Lemos, Herculano Moraes e Elmar Carvalho

1º de agosto   Diário Incontínuo

HARDI FILHO – UM POETA OITENTÃO

Elmar Carvalho

No final de junho, a Academia Piauiense de Letras, por iniciativa do presidente Nelson Nery Costa, comemorou os 80 anos de idade do poeta Francisco Hardi Filho, nascido em Fortaleza – CE, mas há mais de cinco décadas radicado no Piauí, onde trabalhou, constituiu família, criou os filhos e fez suas mais caras amizades.

Por mais de 30 anos trabalhou no velho IBDF, atual IBAMA, em que chegou a exercer a Delegacia Regional de nosso Estado, na qualidade de delegado substituto. Além de seu emprego público, com o qual sustentou a família, exerceu o jornalismo, sobretudo o de caráter cultural, ao publicar seus artigos, suas crônicas e seus poemas. Também teve programa radiofônico, em que divulgou a nossa literatura e os nossos poetas e escritores.

Na solenidade acadêmica, discorreram sobre Hardi Filho os poetas e escritores Herculano Moraes e Francisco Miguel de Moura, que teceram considerações sobre sua vida e sobre sua atividade literária, de modo especial sobre sua participação no Círculo Literário Piauiense – CLIP, a que os três pertenciam. Estavam presentes outros clipianos, entre os quais Osvaldo Lemos, que escreveu uma das mais percucientes biografias de Petrônio Portella Nunes.

Quando a palavra foi facultada, senti-me quase na obrigação de ir à tribuna prestar o meu depoimento sobre o poeta. Não lhe dissequei a obra e nem falei sobre os seus grandes méritos literários; tampouco perquiri a sua mundividência. Preferi abordar a nossa amizade e companheirismo de mais de três décadas. Optei por dar à minha fala um tom mais intimista, subjetivo e familiar, posto que frequentei a sua casa em algumas ocasiões, principalmente quando ainda era um jovem bisonho e sonhador.

Passei a conhecer o Hardi Filho a partir de 1982, quando fixei residência em Teresina. A partir de então visitei o poeta, em várias ocasiões, em companhia do Kenard Kruel e de outros escritores, entre os quais o seu grande amigo Francisco Miguel de Moura. Ficávamos sob uma das árvores de seu jardim. Éramos bem acolhidos pelo poeta e por sua esposa, dona Adélia, sempre solícita, atenciosa, cordial.

Em nossas primeiras conversas, fiz questão de dizer ao casal amigo que já lhes conhecia o filho Francélio, na época estudante universitário em Parnaíba. Tinha ele forte inclinação para as artes plásticas, assim como o pai, que fizera ilustrações diversas e era um notável desenhista, tendo feito belas capas para seus próprios livros e para os de escritores de sua amizade. O Francélio elaborou importantes ilustrações para o jornal alternativo Inovação, de que fiz parte, mesmo quando passei a residir em Teresina.

Palestrávamos sobre os mais variados assuntos, mas preferencialmente sobre os relacionados com arte e literatura. Hardi era sempre ponderado, judicioso, conquanto firme em suas opiniões. Nunca fazia elogios literários descabidos, embora fosse um “diplomata” em suas palavras. Quando solicitado, com insistência, a fazer prefácios ou apresentações, era cuidadoso com as palavras, e quando os textos não mereciam considerações favoráveis, falava sobre a temática e sobre o autor.

Em 1986 um grupo de literatos, entre os quais Chico Miguel, Magalhães da Costa, Herculano Moraes, Rubervam Du Nascimento, Adrião Neto, Kenard Kruel e este diarista, resolveu ressuscitar a União Brasileira de Escritores do Piauí. Hardi fez parte desse time de agitadores culturais, e salvo engano foi membro da primeira diretoria (1986-1988), presidida por Chico Miguel, que deu existência jurídica e efetiva à entidade. Fui seu presidente na gestão seguinte (1988-1990). Fazíamos uma reunião por semana, e Hardi estava sempre presente, mesmo quando ingressou na APL, um pouco depois.

Fiz em meu depoimento um breve paralelo entre o Hardi e o Chico Miguel, pela amizade antiga entre eles, por serem dois grandes intelectuais e por serem praticamente da mesma idade. Disse que o Hardi Filho era mais afinado com a tradição poética, embora tenha feito e faça belos poemas de feição modernista; o Chico desde cedo aderiu à vanguarda poética, inclusive praticando poemas concretistas e visuais, conquanto ainda hoje e sempre cometa sonetos rimados e metrificados, quando bem entende, sem medo do patrulhamento literário de pretensos vanguardistas.

Em um aniversário na casa do Chico Miguel, há mais ou menos duas décadas, falamos das novas tecnologias, que então já começavam a proliferar. O poeta anfitrião falou com muito entusiasmo das vantagens do computador, que então já usava. Discutimos as vantagens desse equipamento para um escritor, entre as quais a utilização da tecla para deletar ou apagar, dos atalhos para copiar e colar, quando queríamos mudar a localização de uma frase ou verso, ou transcrever uma citação. O nosso Hardi foi categórico em dizer que gostava de escrever seus textos à mão, e depois passá-los a limpo, na sua velha máquina de datilografia. De lá a esta parte, nunca fez uso de note book, tablet e demais parafernália tecnológica, fiel a si mesmo como sempre tem sido.

Na primeira metade da década de 80, fui morar em uma república, da qual faziam parte o Nadal e o Gelvan Lisboa, localizada na Rua Areolino de Abreu, perto do edifício da Caixa Econômica Federal. Nesse velho casarão, segundo nos contaram, havia residido um engenheiro eletrônico, que teria cometido suicídio, por motivo que desconheço.

Na porta de um dos quartos, alguém havia estampado, em letras manuscritas, um lindo e melancólico poema de Hardi Filho. A tinta das letras, embora não fosse vermelha, parecia escorrer como sangue ainda fresco. No silêncio e na solidão das noites mortas, sentindo o inebriante perfume de uma cajazeira em flor, eu parecia sentir a presença do suicida a recitar os versos de Hardi. Talvez tenha sido aquela – o poema vazado em velha porta – uma das maiores homenagens, apesar de anônima, que já lhe tenham feito.


Foi nesse velho solar, talvez um tanto perturbado por sua atmosfera soturna e um tanto fantasmagórica, num cenário em que pareciam vagar o vulto indefinido do suicida e ressoar os versos melancólicos de Hardi, que escrevi o meu poema A casa no tempo, cujos versos deixei impregnados naquelas velhas paredes: “A casa vive em mim. / Vive em mim / com seus gemidos / de fantasmas que / arrastam correntes / por entre ais doloridos. / Vive em mim / com suas lamentações de suicidas / que gemem e gemem (...).”      

quinta-feira, 31 de julho de 2014

JESUÍNO JOSÉ DE FREITAS

Reginaldo Miranda

JESUÍNO JOSÉ DE FREITAS

Reginaldo Miranda

Entre os filhos mais ilustres da cidade de Jerumenha, a que tive oportunidade de perfilar está o desembargador Jesuíno José de Freitas. Nascido por volta de 1838, era filho do capitão Gonçalo José de Freitas, antigo vereador de Jerumenha, e de dona Ana Maria de Sousa.

O desembargador Jesuíno Freitas descendia de famílias radicadas no termo de Jerumenha umas quatro gerações antes de seu nascimento. Pelo lado paterno era neto de dona Luísa Maria de Sousa e do tabelião José de Freitas Fragoso, que adotou esse apelido em homenagem a um padrinho e foi o primeiro da família a fixar residência na sede municipal, embora nascido no alto Itaueira, do mesmo termo(seu pai chamava-se Antônio Luís de Lavor de Paes Barreto, radicado no alto Itaueira). Na verdade, os Freitas descendem dos pernambucanos Manuel de Albuquerque Melo e Eufrásia da Cruz Neves, e os Sousa dos baianos Manuel José Ferreira e Francisca de Sousa Rabelo.

Iniciando as primeiras letras em Jerumenha, mudou-se para o Recife onde se bacharelou em Direito no ano de 1864, na mesma turma do filólogo maranhense Felipe Franco de Sá. Nesse particular, seguiu os passos do irmão primogênito José Manuel de Freitas, também desembargador, que se formara na mesma Faculdade seis anos antes.

De retorno ao Piauí, juntamente com o irmão primogênito alistou-se nas fileiras do Partido Liberal, onde militou até o fim do Império. Também, dedicou-se à advocacia. Por esse tempo convola núpcias com Regina de Sousa Martins, filha do coronel Elias de Sousa Martins e sua primeira esposa, Maria Josefa da Purificação. Uma irmã de sua esposa foi casada com o magistrado e político liberal Firmino de Sousa Martins, primo de ambas. Embora não disputando eleições, Jesuíno Freitas teve participação ativa na vida política da província, sobretudo na coordenação política das campanhas do irmão e do concunhado, ambos deputados e presidentes de província. Sobre a força de sua participação, basta ver que era o suficiente para incomodar os adversários. O médico e líder conservador Raimundo de Arêa Leão, incomodado com sua participação política só o chamava de Nonada e a ele dedicou vários poemas satíricos, como o que segue: “Ó gorduroso, ó grande Jesuíno,/ Tu que já tens (não rias) e deveras,/ Umas quarenta e tantas primaveras,/ Sem exceção do tempo de menino;// Tu, que és cunhado e amigo do  irmino,/ Desse mais bruto que as brutas feras,/ Tu, que és juiz, mas olha, das severas/ Leis desse Neto rude, pequenino,// Toma tento, rapaz, ou, como queiras,/ Meu velhote boçal, toma juízo,/ Anda direito, deixa-te de asneiras,// Levanta o rosto, a cara aparvalhada!/ Quero nela escrever, pois é preciso,/ Esta expressão simbólica – Nonada”. Evidentemente, essa é uma crítica deselegante e injusta a um vitorioso filho do Gurguéia, ilustre magistrado e político piauiense, à qual só transcrevemos para registrar que o mesmo teve participação ativa na política piauiense.

O bacharel Jesuíno José de Freitas ingressou na magistratura, servindo por muitos anos como juiz de Direito da comarca de Amarante, àquela época uma das mais prósperas da Província. Nessa qualidade, em 1885 instalou o foro da cidade de Regeneração, termo judiciário de Amarante.

Em 26 de dezembro de 1892, foi transferido para a vizinha comarca de Caxias, no Maranhão, onde tomou posse no dia 12 de janeiro do ano seguinte. Durante esse período coube-lhe executar a Lei Estadual n.º 33, de 06.04.1893, que traçou novos limites entre os municípios de Caxias e Barra do Corda. Lembramos que mesmo com a criação do Tribunal de Justiça do Piauí, em 1891, permaneceu vinculado ao judiciário maranhense, ao qual até então pertenciam as comarcas do Piauí.

E permanecendo no Maranhão, foi promovido para uma das varas da comarca de São Luís em princípio do ano de 1895. Foi, porém, de pouca duração esse exercício, porque nos primeiros dias de abril do mesmo ano alcançou o cargo de desembargador do Tribunal de Justiça do Maranhão, onde tomou posse em 05.04.1895. Demorou no exercício desse cargo por mais de onze anos, sendo aposentado no dia 10 de maio de 1906, em face de problemas de saúde. Faleceu ainda no mesmo ano, na cidade de São Luís do Maranhão, onde foi sepultado. Deixou um nome honrado e uma carreira sem máculas.

Com esse registro desejamos enfatizar a carreira brilhante e a vida honrada de um grande magistrado nascido nas barrancas do Gurguéia, cuja trajetória de luta e ascensão profissional, esperamos sirva de exemplo para as gerações vindouras.                

quarta-feira, 30 de julho de 2014

AMARANTE - 143 ANOS DE EMANCIPAÇÃO POLÍTICA



AMARANTE FAZ ANIVERSÁRIO NO DIA 4 DE AGOSTO - 143 ANOS DE EMANCIPAÇÃO POLÍTICA

Luís Alberto Soares (Bebeto)


Origem e evolução
        
AMARANTE tem sua origem num aldeamento indígena. Gonçalo Lourenço Botelho de Castro, 2º Governador da Província do Piauí,  em 1771,  aldeou os índios Acaroás e Guegueses perto da nascente do riacho Mulato, no mesmo lugar onde hoje é a cidade de Regeneração, dando a essa missão o nome de São Gonçalo de Amarante, em homenagem ao santo de seu nome. A história de Amarante está ligada ao então propósito do Governador da Província, utilizando mercenários em busca de ouro e consequentemente acumulando riquezas, aldeavam e na maioria das vezes trucidavam índios que viviam às margens do Rio Mulato na antiga Vila de São Gonçalo (hoje Regeneração). Devido à navegação do Rio Parnaíba e o consequente avanço comercial que já se fazia notório, em 16 de julho de 1861,  em conformidade com a lei nº. 506 de 10 de agosto de 1860, a sede foi transferida para o Porto de São Gonçalo de Amarante, ficando a atual Regeneração reduzida a uma simples povoação denominada de São Gonçalo Velho.

AMARANTE fica na Zona Fisiográfica do Médio Parnaíba, Microrregião 4 e ocupa uma área de 1.150 Km2, limitando-se ao NORTE com Palmeirais – ao LESTE, Angical do Piauí e Regeneração – ao SUL, Francisco Ayres e Floriano e a OESTE com São Francisco do Maranhão. O município de Amarante foi formado com território desmembrado de Jerumenha e de Valença. Desmembrou terras para a formação de outros municípios, como: Angical do Piauí, Francisco Ayres e Arraial. Atualmente o município de Amarante é constituído por sete Datas: Boa Esperança, Muquilas, Araras, Sítio do Meio, Saco dos Melo e Conceição. A cidade de Amarante está encravada na Data de Boa Esperança.  Assentamentos do INCRA: Flor de Maio, Santa Helena, Araras, Ararinha, Mimbó, Salobro, Nova Conceição e Ponta da Várzea. Do Crédito Fundiário: Vila Feliz, Chapada dos Marcos, Chapada do Filomeno e Chapada do Bacuri. População do município: 17.316 (CENSO/2010). Amarante ocupa a trigésima primeira posição dos municípios mais populosos do Piauí.

Na segunda metade da década de trinta, do século XX, os hidroaviões da Companhia “Condor” faziam escala semanal em Amarante. Pousavam no rio, frente à cidade, e atracavam ou paravam em local apropriado. Transportavam   passageiros,    encomendas    e    malas    do  Correio.  Traziam muita vida  à   cidade   e   promoviam   o   intercâmbio   sócio-cultural.   Era um dia  movimentado.  A presença do hidroavião atraia e motivava o comparecimento de muitas pessoas, levadas pela curiosidade.

O PRIMEIRO RÁDIO a ser instalado na cidade de Amarante foi o do movimentado Bar do Antônio Costa. Para muitos, era coisa de outro mundo. Vinha gente de todos os lugares de Amarante somente para escutar a grande invenção sonora. O bar ficava superlotado de curiosos, que o diga a senhora Clotildes Ribeiro da Silva, popular Coló, 103 anos de idade, mãe de José Pereira, o conhecido Zé Besouro. Ela presenciou a novidade e diz para a nova geração que teve muita gente que quando escutou o rádio, fazia o sinal da cruz, dizendo que aquilo era uma “pintura do cão”.

RUAS E VÁRIAS CASAS DE AMARANTE recebiam iluminação através de lampiões a querosene ou a “petromax” (estilo Aladim). Em 07 de setembro de 1933, a empresa Morais & Cia, de Parnaíba, instalou em nossa cidade, a energia elétrica movida por máquina a vapor (caldeira à lenha e água), das 06 às 11 horas da noite. Anos depois, a Prefeitura de Amarante foi responsável pelo fornecimento da energia elétrica gerada pelo mesmo processo da Morais & Cia. Em seguida, o fornecimento de energia foi gerado por máquinas a óleo por conta da CERNE, instalada no prédio hoje pertencente ao Iate Clube Amarantino, também das 06 às 11 horas da noite. Havia prorrogação de energia nos acontecimentos especiais. Por último, a CEPISA – respondendo pelo atual abastecimento em todo Estado do Piauí.

AMARANTE é uma fonte de riqueza natural. A cidade é de porte médio, mas a sua posição geográfica, entre três rios, circundada nos versos de nosso poeta maior, “Da Costa e Silva”, que a cognominou de “uma ilha alegre e linda”. A coroa do Rio Parnaíba, especialmente aos domingos do mês de julho, há grande aglomeração de banhistas, observadores e comerciantes de vários municípios do Brasil. Tem também o morro de São Benedito, defronte à Rua Antonino Freire, onde há o velho “ESCORREGA  BUNDA”, que muitas gerações de amarantinos ilustres, na sua infância, ali se entretinham brincando. Tem ainda as principais atrações turísticas: o panorama do alto da Escadaria “Da Costa e Silva”, casarões em estilo colonial, o Sítio Floresta, a Casa Odilon Nunes que abriga a Biblioteca e o Museu da Cidade, O Museu do Divino Espírito Santo, a Pousada Velho Monge - onde se descortina a bela paisagem das serras de São Francisco do Maranhão.

O HINO E A BANDEIRA MUNICIPAL DE AMARANTE são de autoria do heraldista e vexilologista, professor Arcinoe Peixoto de Faria, da Enciclopédia Heráldica Municipalista com sede em São Paulo – Capital.  Oficializados pela Lei Municipal nº 411, de 28 de março de 1977.  Administração: Emília da Paixão Costa (Bizinha). O Hino Municipal de Amarante com letra de Monsenhor Isaac José Vilarinho e música do maestro Luís Santos. Oficializado pela Lei Municipal nº 411, 28 de março de 1977.

HISTORIADORES contam nos seus arquivos que na época da transferência da Vila de São Gonçalo para o Porto (cidade de Amarante), surgiu a 1ª professora de nosso município. Logo mais, foram criadas duas escolas públicas estaduais: uma para meninos, dirigida por um professor e outra para meninas, dirigida por uma professora - denominadas: Escola Pública do Sexo Masculino e Escola Pública do Sexo Feminino.

VIA PÚBLICA - A primeira rua da cidade de Amarante chamava-se Rua Grande, devido sua ampla largura, partindo no Morro do Pontal à margem do rio Parnaíba. Foi o caminho da Vila de São Gonçalo para o Porto. Hoje, nomeada Avenida Desembargador Amaral em homenagem ao primeiro juiz de Direito de Amarante, Desembargador José Mariano Lustosa de Amaral. Havia uma arborização muito frondosa de “mamoranas”, árvores de origem portuguesa. Nas laterais, iluminação por lampiões a querosene. As árvores são as que o nosso poeta maior, “Da Costa e Silva” se refere no soneto Saudade. Em 1932, um projeto do amarantino, engenheiro, Dr. Manoel Sobral (alto comerciante), a Avenida foi transformada com figueiras e fícus benjamim. Em seguida iluminada por petromax. Em 07/09/1933, a Avenida recebia luz elétrica da usina Morais & Cia., trazida por Zeca Correia, que implantou outros benefícios no município.

A NAVEGAÇÃO FLUVIAL A VAPOR teve início com a chegada do vapor Uruçuí ao porto da então Vila de São Gonçalo, ocorrida a 10 de junho de 1862. Foi o avanço para o progresso, o comércio desenvolveu-se rapidamente. Em 04 de agosto de 1871, a Vila passou à cidade, com o nome de AMARANTE e seu porto fluvial logo se tornou de importância semelhante ao de Parnaíba, tornando Amarante o empório comercial da região sul do Piauí e Maranhão, estendendo sua influência a Goiás. Tudo ia bem, era o progresso, Amarante chegou a manter transações comerciais internacionais. Esteve em franco progresso até o surgimento de Floriano que lhe arrebatou essa força comercial. A partir daí, começou a decadência de Amarante. Carneiro da Câmara, Dr. Archimedes Nogueira Paranaguá, Dr. Rogério de Castro Matos, Dr. Thomaz Gomes Campelo, Dr. Geraldo Magella de Carvalho, Dr. Alair Rocha, Dr. Luís Fortes do Rego, Dr. José Arimathéa Tito Neto, Dr. Raimundo Fortes de Oliveira, Dr. Francisco Isaias de Arêa Almeida, Dr. Henrique Oliveira do Vale, Dr. Herbet Belisário dos Santos, Dr. José Raimundo Belo, Dr. Atenor Barbosa de Almeida Filho, Dr. Fernando Lopes da Silva Filho e Dr. Netanias Batista de Moura, desde outubro de 1997.

OS PRIMEIROS PROFESSORES DE AMARANTE: Efigênia Maria de Azevedo, Odilon Nunes, Cunha e Silva, Luiz Moura da Cunha, Amora Cunha e Silva, Ditosa Fonseca, Raquel Costa (Quesinha), Júlia do Monte Lustosa, Júlia Leitão, Zilda Sampaio, Nair Conde, Carolina Freire, Nailde Ribeiro, Joca Vieira, Arysnede Cavalcante Corrêa Lima.

OS PRIMEIROS JUÍZES DA COMARCA DE AMARANTE: (1861 a 1900): Dr. Higino Cunha, Dr. José Mariano Lustosa de Amaral, Dr. Gastão Ferreira de Gouveia Pimentel Beleza, Dr. José Piauhilino Mendes Magalhães, Dr. Umbelino Moreira de Oliveira Lima, Dr. Sesostris Silvio Mendes de Moraes Sarnamento, Dr. Pedro Emigdio da Silva Rios, Dr. Antonio Martins da Silva Porto, Dr. Jesuino José de Freitas, Dr.Joaquim Ribeiro Gonçalves, João Leopoldino Ferreira, Dr. César do Rego Monteiro, Dr. Ernesto José Batista, Dr. Eduardo Olímpio Ferreira. Os quinze últimos: Dr. Ausônio Carneiro da Câmara, Dr. Archimedes Nogueira Paranaguá, Dr. Rogério de Castro Matos, Dr. Thomaz Gomes Campelo, Dr. Geraldo Magella de Carvalho, Dr. Alair Rocha, Dr. Luís Fortes do Rego, Dr. José Arimathéa Tito Neto, Dr. Raimundo Fortes de Oliveira, Dr. Francisco Isaias de Arêa Almeida, Dr. Henrique Oliveira do Vale, Dr. Herbet Belisário dos Santos, Dr. José Raimundo Belo, Dr. Atenor Barbosa de Almeida Filho, Dr. Fernando Lopes da Silva Filho e Dr. Netanias Batista de Moura, desde outubro de 1997.

OS PRIMEIROS MÉDICOS QUE CLINICARAM EM AMARANTE: Manoel Joaquim Rodrigues Macedo (22-02/1862); Júlio César Audreíno - amarantino nato (1883); Bonifácio Ferreira de Carvalho - amarantino nato (1890); Manoel Rodrigues de Carvalho (1891); Antonio Sobral - amarantino nato; Antonio Ribeiro Gonçalves – amarantino nato; Francisco Ayres Cavalcante - amarantino nato (1915); Evanilda Neiva Pacheco (1959); Misael Dourado Guerra (1964).

 VELHA ECONOMIA - Há várias décadas, a economia do município de Amarante era voltada à cana de açúcar plantada com abundância nas margens do riacho Mulato.  A historiadora Maria Santana Vilarinho Santos, recentemente fez um documentário sobre a importância desse precioso produto agrícola. Havia vários engenhos. Dois deles, movidos a vapor e caldeiras alimentadas pelo bagaço da cana moída. Os outros engenhos eram movimentados por bois. Fabricava-se açúcar, rapadura e cachaça. Esses produtos eram exportados para diversos municípios através de animais e balsas que trafegavam no rio Parnaíba. A velha economia de Amarante estendia-se ainda na geração de muita mão-de-obra. A historiadora amarantina menciona no seu belo documentário o Engenho do Sítio Santa Rosa de propriedade de seu saudoso pai, Pedro Gonçalves Vilarinho. Ela relata que era servido um café com paçoca e que os trabalhadores eram divididos em grupos: cortadores de cana e cambiteiros que levavam a cana cortada nas costas de animais. Havia ainda aqueles que exerciam atividades diversas. A lenha era transportada para aquecer as caldeiras por carros de madeira puxados por bois.

VELHOS CABARÉS. - A cidade de Amarante viveu por várias décadas num movimentado clima de prostíbulo, reverenciado em nosso meio como Cabaré e Tabocal. Os ambientes para a prática sexual ocorriam especialmente à noite com maior movimentação nos finais de semana. As prostitutas, populares raparigas, eram de várias localidades e os frequentadores de todas as classes sociais. Existiram três agitados setores de cabarés na cidade: “Cai N’agua”, à margem do rio Parnaíba, próximo do Hotel Pousada. Teve vários proprietários. Entre eles, os populares João Garapeira (falecido) e Raimundinho da Dorica. Lá era promovido o Baile Cor de Rosa e o Forró Pé de Serra. Na conhecida Rua do Fogo tinha várias casas do ramo: Os cabarés das populares Marizô, Carmozina (falecida), Chica Preá (falecida) e Irene Casadinho (falecida) e tantas outras. Havia também muito forró e muitos bares com músicas bregas e apaixonadas, tocadas em radiolas ou em vozes de bêbados, acompanhados por um violão. Próximo à Rua do Fogo, na beira de um grotão, teve o movimentado cabaré “Casa Amarela” de propriedade do popular Estevão Galinha D´gua (falecido), onde também havia muito forró e o Baile Amarelo. Tinha ainda o ponto: “As Meninas dos Olhos” do engraçado Quixaba, localizado no “Sovaco do Cão” à margem do rio Parnaíba. “Inferno Verde” foi o apelido dado pelo popular Reis Felix, considerado uns dos maiores frequentadores de cabarés de Amarante, a um animado setor da prostituição, localizado na Rua São Benedito, perto do Clube Os Quarentões. Teve vários donos de cabarés, neste setor, como: Cecílio Dias (falecido), as populares: Chicuta, Ducarmo Tataira, Rita Macambira, Biluca e Helena Preta. Tinha ainda Nazaré Cambão, a “Rainha da Panelada”. Havia ainda nos prostíbulos de Amarante outros nomes de bailes, o Branco e o Azul. Vale esclarecer que as prostitutas eram muito discriminadas: não podiam estudar em colégios, frequentar igrejas e nem de participar de muitos atos da sociedade. Em várias ocasiões, muitas mulheres casadas foram atrás de seus maridos nos cabarés. Existem ainda em nossa cidade, três prostíbulos: “Paraíso do Amor” do popular Doutor do Cícero Casadinho (bairro Dois Coqueiros), BR 343; Casa de Encontros da popular Ducarminha, Rua Da Costa e Silva, perto do rio Parnaíba (Cai N´agua) e o da Chiquinha Sousa, Rua do Fogo.

REVOLUÇÃO - Os inesquecíveis amarantinos contam que Amarante viveu momentos de terror com a passagem da Coluna Prestes na cidade, no período de 20 a 27 de dezembro de 1925. Foram várias colunas das forças revolucionárias que deixaram o povo do município assustado. A 1ª Coluna, a do Capitão João Alberto, chegando à meia noite em nossa cidade. Logo após, os revoltosos arrombaram as portas do Telégrafo, onde se instalaram. Horas depois, chegaram os grupos chefiados pelo Coronel Dutra e Capitão Euclides. Em seguida, outras caravanas comandadas pelo Cel. Juarez Távora e Sr. Bernardino.  No mesmo dia, chegaram também à nossa cidade as colunas do Cel. Carlos Prestes e a do Sr. Siqueira Campos. As forças revolucionárias arrombaram portas de comércios e saquearam grande estoque de mercadoria. Os estabelecimentos comerciais de Abdon Moura e Joaquim de Castro Ribeiro (Quincas Castro), avô materno da ilustre amarantina Maria Cirene de Castro Sousa, de grande movimentação e sortimento, foram os mais afetados com os roubos dos revoltosos. Eles ainda forçaram comerciantes em geral, pagarem uma conta altíssima de guerra. Dizem que os revoltosos derramaram perfumes em toda a cidade. Houve, também, invasão residencial, de onde os revoltosos levavam tudo que encontravam e  determinaram o fuzilamento dos expressivos Senhores de Amarante: Abdon Armindo de Moura, Cel. Luiz Gonçalves Ribeiro, Major Sátiro de Castro Moreira, Capitão Francisco José de Lima, Miguel Arcoverde Vieira, Amâncio José Pereira Lopes, Raimundo Gonçalves Vilarinho,  Acilino Neiva, Eugênio Barbosa, Gerson Ernestino de Sousa, João Ribeiro de Carvalho (João Pinga), José Maria Gonçalves, Gonçalo S. Antônio Costa. Felizmente ficou só na ameaça. O saudoso Francisco Felix da Silva testemunhou toda ousadia dos revoltosos com o povo amarantino, a exemplo do inesquecível Odilo de Sousa Queiroz, pai do professor e jornalista Virgílio Queiroz, que sabia das ações das forças revolucionárias em vários lugares do Brasil. A secular Clotildes Ribeiro da Silva, a popular Coló, residente em Amarante, conta com detalhes as atrocidades dos revoltosos em nossa cidade.

CONEXÃO - A cidade de Regeneração a 18 km do centro de Amarante, historicamente conectada à nossa cidade desde o início de sua povoação. Vale ressaltar que a conceituada Regeneração quando era pequeno povoado, recebeu outros nomes: São Gonçalo de Amarante, São Gonçalo Velho, e São Gonçalo de Regeneração. Ela também foi muito chamada de Vila. Ainda hoje, existem pessoas que pronunciam esse apelido. Para suprir sua necessidade comercial através de transporte fluvial no rio Parnaíba, a nossa vizinha Regeneração, fez estabelecer o “Porto”, origem do município de Amarante. Regeneração passou por um bom tempo, vinculada em nossa municipalidade. Continua a influência mútua comercial, educacional, cultural, social e política desses municípios.


MINÉRIO EM AMARANTE - Segundo o geólogo amarantino João Castor do Nascimento Silveira, há grande possibilidade da existência de minério na Serra da Arara, município de Amarante, devido à formação sedimentar da área, principalmente por arenito. A Petrobrás esteve no local onde perfurou há longos anos, um poço pioneiro. O resultado constituiu uma ligeira emanação de gás. Esclareceu ainda o geólogo João Castor que no lugar Canto, neste município, limitando-se com Francisco Ayres, há uma boa quantidade de GIPSITA (sulfato de cálcio), matéria prima para obtenção de gesso. Análise já foi feita em laboratório de São Paulo por intermédio do geólogo João Castor da Silveira.

AMARANTE às vezes é chamada por este Brasil afora como “Terra do Papagaio”. Por quê? A historiadora Maria Santana Vilarinho Santos, um dos membros de nossa cultura, tem uma versão do motivo desse chamamento. “Há muito tempo... Numa grande enchente dos rios Parnaíba e Canindé, desciam enormes blocos de terra, contendo árvores, animais e outros. Num desses blocos vinha um papagaio. Ao chegar na cidade de Amarante, a ave perguntou - onde estou? Responderam – em Amarante.  Ele deu uma risada e disse: prefiro a morte. Aqui, é terra de poetas, escritores, governadores, não há lugar para papagaio... Ah! Ah! Ah!”.

AMARANTE, berço de grandes nomes: Dirceu Mendes Arcoverde, Antonino Freire, Waldir Arcoverde, Eduardo Neiva, “Da Costa e Silva”; Luís Mendes Ribeiro Gonçalves, Osvaldo Da Costa e Silva, Dr. Antonio Ribeiro Gonçalves, Taumaturgo Sotero Vaz (poeta), Odilon Nunes, Cunha e Silva, Clóvis Moura, Carvalho Neto, professor Antonio Veríssimo de Castro (Tonhá), historiadora Raimunda Nonata de Castro (Nasi), Coronel Joaquim Vilarinho, Coronel Miguel de Almeida Lira, Geraldo de Sousa Vilarinho (oficial superior do Exército), Dr. Francisco da Cunha e Silva Filho, Dr. Francisco Ayres Cavalcante, professor Afrânio Nunes, Homero Castelo Branco, Dr. Antonio Pereira Lopes, Dra. Eulália Maria Ribeiro Gonçalves do Nascimento Pinheiro, Coronel Clidenor Lima, Coronel Walker Prado, Coronel Manoel Mendes de Melo, Cel. Solange Maria Macedo Lima, Major Antonio Soares Ribeiro, Capitão Deodato Lopes da Silva, Dr. Eleazar Moura, José Moura Lima,  Dr. Adoniais Carvalho, Dr. José Moacy Leal, João Elias Teixeira e Silva, Rafael Sousa Fonseca, Dra. Maria Celestina Mendes da Silva, José Dias Feitosa (Capitão Zeca) e outros famosos. Amarante, por vários motivos, é apelidada: a Capital da cultura piauiense.

TÍTULO A AMARANTE. O sistema Meio Norte de Comunicação, por meio do Portal Meionorte. com, via rede social, abriu concurso em 2012, através de votos, para eleger os novos sete locais mais belos de nosso Estado. A riqueza arquitetônica de Amarante e sua tradição histórica, o fator principal para que nossa cidade recebesse o título de Sétima Maravilha do Piauí.

Textos do livro AMARANTE, PERSONALIDADES E FATOS MARCANTES, da autoria de Luís Alberto Soares (Bebeto).