sábado, 20 de dezembro de 2014

Neste NATAL


Neste NATAL

Pedro Ernesto Filho (*)

Vou, primeiro, pedir graça divina
pra fazer um poema de saudade,
definir o que é simplicidade
imprimindo o saber que Deus ensina;
conquistar a pureza campesina
preservando o verdor do vegetal,
ter acesso à  Mansão Celestial
ensejando harmonia entre os cristãos,
quando tudo estiver em minhas mãos
dar-lhe-ei de presente no NATAL.

Que se façam presentes no seu lar
a justiça, a poesia e o amor,
a poesia o tornando um trovador
e o amor ensinando a perdoar,
a Justiça disposta pra lhe dar
do DIREITO a virtude e a essência
que os três lhe concedam a anuência
pra dispor do sabor da liberdade,
inibir o terror da vaidade
e combater o dragão da violência.
                  
Que seu lar se transforme em um pomar
onde os solos mais férteis, mais humosos,
gerem frutos sadios, saborosos,
sem a água da chuva lhe faltar,
você próprio se empenhe em cultivar
sem fazer concorrência com ninguém,
dando às plantas o zelo que convém
pra que possa colher milhões de quilos,
no final da colheita dividi-los
com os pobres famintos que não têm.

(*) Advogado efetivo do Banco do Nordeste do Brasil em Juazeiro do Norte-CE.


sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Insanidade


Insanidade

Neide Moscoso

um lugar junto à janela
nesta tarde de outono
entre cortina de renda branca
penteio os cabelos com
recato na penumbra
dos romances antigos e
paixões impossíveis e
me desconheço grafando
nomes nos vidros
da janela      

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

CONFISSÕES DE UM JUIZ E OUTRAS (IN)CONFIDÊNCIAS


Contracapa do livro Confissões de um juiz

18 de dezembro   Diário Incontínuo

CONFISSÕES DE UM JUIZ E OUTRAS (IN)CONFIDÊNCIAS

Elmar Carvalho

Recebi o seguinte e-mail, enviado pelo professor José Maria Vasconcelos, professor de português e de literatura, crítico literário e cronista de ótima cepa: “Nobre Elmar, uma voltinha pela gráfica do Diário do Povo, deparo-me com o funcionário empacotando seu novo livro, Confissões de um Juiz. Comecei a ler as primeiras páginas, enquanto aguardava o Kenard Kruel, que me acompanhava a negócio. Pois não é que, em poucos minutos, devorei mais de 20 páginas? Comoveu-me sua luta contra o CA. Sua obra vai bombar, por emanar muita espiritualidade e generosidade, acima do que se pensa tratar só da atividade jurídica. Bravo, nobre escriba.”

Não preciso dizer o quanto fiquei honrado com o teor dessa mensagem internética, mormente por saber que seu autor é um crítico literário isento, arguto e de longa experiência, e ainda por dominar a teoria literária e ser um leitor percuciente e voraz. Qualquer literato ficaria desvanecido em receber essas palavras de estímulo, sobretudo porque José Maria Vasconcelos não é dado a fazer elogios gratuitos, dotado que é de proverbial franqueza.

Em resposta, encaminhei-lhe pelos mares internéticos este curto “bilhete”: “Fiquei contente e comovido com suas palavras de incentivo. O livro está previsto para ser lançado no final de fevereiro. O nobre mestre já está convidado. De qualquer modo, após o lançamento, faço questão de lhe entregar um volume. Usarei o seu e-mail como mote de uma crônica que escreverei hoje. Obrigado por suas boas palavras.” A crônica é este registro diarístico, que ora escrevo.

Após ler o e-mail do mestre José Maria, fui fazer minha caminhada na Raul Lopes, depois de uma ausência de mais de uma semana, em virtude de doença e viagem a Parnaíba. Ao retornar, recebi da Fátima uma agradável notícia, que me pareceu um coroamento da mensagem virtual acima transcrita. Tratava-se de um telefonema de dona Anatália Gonçalves de Sampaio Pereira.

É ela filha de Oeiras, cidade a que sou ligado, como todos sabem, por laços poéticos, afetivos e sentimentais. Neta do coronel Orlando Barbosa de Carvalho, um dos mais operosos prefeitos da velhacap. Viúva do político e deputado federal Themístocles de Sampaio Pereira. Mãe de Themístocles Filho, presidente da Assembleia Legislativa, e de Marllos Sampaio, deputado federal.

Havia sido apresentado a ela na quinta-feira passada, por ocasião do lançamento do livro Enlaces de Família – uma genealogia em construção, da autoria de Valdemir Miranda de Castro. Foram meus “apresentadores” o irmão maçônico Bernardo de Sampaio Pereira e Teresinha Queiroz. O primeiro exagerou minhas eventuais qualidades, e a segunda teceu considerações sobre o meu livro Noturno de Oeiras e outras evocações, e principalmente sobre o poema que lhe forneceu a primeira parte do título.

Como dona Anatália tivesse demonstrado interesse em conhecer o livro e o poema Noturno de Oeiras, prometi que em breves dias lhe deixaria um exemplar no cartório do qual ela é titular. Terminei entregando-o logo no dia seguinte. Na terça-feira ela ligou para agradecer, e aproveitou para fazer acentuados elogios a essa modesta obra literária, sobre os quais não pretendo entrar em minudências.

Disse ter se emocionado com sua leitura, e que se sentiu transportada a sua velha Oeiras, terra cheia de encantos, tradição e cultura. Falou que eu deveria gostar muito de sua cidade, para ter escrito o que escrevi, tendo minha mulher confirmado essa assertiva. Aduziu que releu vários textos. Esta última afirmativa, numa época de poucos e apressadíssimos leitores, corresponde ao maior elogio que um literato poderia receber nos eletrônicos e cibernéticos dias de hoje.

Ao ser informada pela Fátima de que eu já editara uma nova obra – Confissões de um juiz – manifestou interesse em ir ao seu lançamento. Portanto, já tenho duas pessoas interessadas em adquirir meu livro: dona Anatália Gonçalves de Sampaio Pereira e o professor José Maria Vasconcelos. E isso não é pouco, se considerarmos que Machado de Assis, que era Machado de Assis, dizia ter talvez cinco leitores, quanto muito.   

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O Papa tem razão


O Papa tem razão

                Cunha e Silva Filho

            Não quero estar na pele do Papa Francisco. Ele já deu  provas mais do que  evidentes  e insofismáveis de que  as alternativas são escassas tanto no que concerne à ausência de solidariedade no mundo quanto no se que se  refere à fome, às guerras e,  por último,  à falta d’água para consumo humano, a chamada  água  potável provinda dos  rios. Suas  advertências  são  firmes  e suas palavras  têm o peso da  sabedoria tanto  no sentido de  observar  os erros  materiais  quanto  no de  perscrutar  os complexos  problemas  que podem  levar  os habitantes do  planeta Terra a um beco sem saída.
           O Papa  Francisco tem os olhos para Deus como  ainda os tem para os males  da vida  leiga,  para o lado prático   desta,   para uma espécie de  conhecimento, digamos,  fora do  epicentro  teológico. Sua visão se me mostra aberta, acessível,  sem  esoterismos   nem excessos  teóricos. Seus pronunciamentos não me parecem  dirigidos apenas aos iniciados, aos eruditos católicos do clero  regular e dos pensadores  laicos mais  afeitos   às abstrações  filosóficas ou teológicas.
           Sua evangelização, suas prédicas  se  dirigem ao homem da rua, aos humildes,  aos famintos, aos ainda milhões  que não têm o que comer  enquanto  outros    se refestelam    no puro  consumismo das sociedades hedonísticas,   principalmente   de natureza capitalista do Ocidente tanto quanto em parte do Oriente.  Ora, tal  exacerbado   modo de vida epicurista,  sibarita, perdulária,  indiferente à sorte dos despossuídos tem suas raízes  na exploração   dos mais fracos,  na acumulação  da riqueza às custas   de meios  ilícitos,  corruptos,  frutos de falcatruas, de conchavos  feitos entre governantes  e  empreiteiras com a intermediação    de  políticos  que venderam alma  e a  dignidade  à diferentes  máfias  das sociedades,  cujo alvo  são o lucro fácil e a  ganância  pantagruélica geradores do individualismo  com  ausência de  parâmetros  de vida  ética e de moralidade  nas ações  do homem contemporâneo.
           Quanto às guerras   que despontam aqui e ali  no mundo,  não antevejo  para elas  melhoras   em direção  à paz  duradoura. Os organismos  internacionais de paz fazem sua parte, contudo  as soluções  concretas,  os conflitos  não dão sinal  de  chegarem  a compromissos  de  pacificação   dos espíritos. Os exemplos  estão aí,  na  Ucrânia,  na Síria,  no Afeganistão,  na Coreia do Norte,  em Israel e na Palestina só para mencionar  uns poucos   exemplos de  regiões conflagradas.
         O pior de tudo  é que  jovens  ingleses, americanos,  franceses ou de outras nacionalidades,   se bandeiam para  o fanatismo   de terroristas  muçulmanos, dos jihardistas,  do  denominado  Estado  Islâmico, com  pretensões  expansionistas de natureza  geopolítico-religiosa. Sem  disporem de amadurecimento ideal  a uma compreensão   equilibrada   dos  problemas  do mundo, esses  mesmos   novos   ocidentais,    escolados   pelos  terroristas   e fanáticos,  se  transformam  em verdugos e  degoladores encapuzados  com sotaque  britânico em cenas humilhantes e   horripilantes vistas pelas tevês mundiais,  com aquelas figuras  mascaradas e vestes  pretas,  prontas a se tornarem   executores das ações covardes   contra    jovens  ocidentais, alguns dos quais   jornalistas.  
       Os pais dos que se  convertem  ao  islamismo deformado  pelo fanatismo,  são deixados  para trás  em desconsolo  pela  opção  religiosa (?) dos filhos; ficam   sem saber o que fazer e procuram   os motivos   que  levaram seus filhos  a conversões  religiosas e ideológicas. Os terroristas que  determinam as  ações de bárbaros contra o ser humano põem a culpa  nos  Estados Unidos, que, segundo eles,   andam  bombardeando  regiões   onde  se   homiziam   grupos terroristas. Homens que se tornam   terroristas  escudados  por  supostos  princípios  religiosos na realidade   não são  verdadeiros   praticantes do islamismo São contrafações  religiosas. O mundo fica, assim, de ponta cabeça.
       O terceiro problema,  lembrado  pelo  Santo Papa,   que  assombra  o mundo,  é  a água. Esse líquido  precioso,  condição  essencial  da vida,  já está dando sinais de escassez, e, aqui no  Brasil,  tem   assustado  a população, sobretudo  a de São Paulo. Todos nos lembramos  do  chamado  polígono das secas,  flagelo  do Nordeste  brasileiro e ao mesmo  tempo  regalo de  políticos    que se aproveitaram  do que se chamou   “indústria  da seca.”  Quem  já imaginou  o grande estado de São Paulo,  a sua capital  e o seu interior  às voltas com   a gravidade  da falta d’água.       Para muitos  politiqueiros de má índole,  a seca do Nordeste  era um  prato  cheio para manter permanentemente sob sua  dependência  e cabresto  político-eleitoreiro,  os flagelados   dessa desgraça   que tanto  assola  aquela região. Foi a falta d’água,  de chuva, com a sua consequência,  a seca,  que, no  Nordeste, inspirou o clássico romance  Vidas secas, de Graciliano  Ramos.
         A saga de Fabiano é a do retirante acossado  pela fome, pela seca e pelo descaso  governamental.  No Oriente, regiões antes desérticas,  se transformaram em  solos férteis. No Brasil, ao contrário,   a falta d’água,   agora se transfere para a “locomotiva do país.”
        Os governos de São Paulo  foram  imprevidentes  e  incompetentes, botando toda a culpa  na falta de chuva, na estiagem, quando se sabe que as razões são mais profundas e estão, pois,  ligadas  à falta de cuidados   com  os rios que abastecem  São Paulo, na capital e no  interior.
         Uma   outra  causa  de  desídia  governamental  é a completa ausência  de  planejamentos   para  salvar  as fontes  hídricas do  Tietê que,  no coração    paulistano,  se transformaram  em vergonha  nacional, com o rio poluído,  lugar de  despejo de sujeira  industrial, de lixo urbano, decorrente da  ignorância  de seus habitantes,   ou seja, de falta de educação e  carinho  para com   o Tietê.
         Como contrasta tudo isso com  os  rios europeus e  norte-americanos e de outros  países!. O  Tâmisa,  o Sena,   o Danúbio,  o Mississipi,  o Nilo,  o Tejo, por exemplo,  são, à vista dos nossos,  modelos de  preservação   de suas nascentes,  são parte  viva  de seus  povos   que  os tratam  de forma  humana, i.e.,  como dádivas  da natureza  em benefício de  povos  civilizados.
          O mesmo  poder-se-ia afirmar do rio  São Francisco, do outrora  famoso Velho  Chico, o  "rio   da integridade  nacional.” O governo  Lula, com  o populismo de sempre,   resolveu   desviar  o curso  desse  rio, não atendendo  aos  apelos de um  defensor, se não me  engano,  um  padre,   da integridade física e navegável  do  grande rio,  fazendo até  greve de fome.
          O objetivo  do governo  era  levar água  para  áreas do  Nordeste secularmente   assoladas  pela seca. Até agora,  a obra não   foi  concluída e o que se fez  resultou  num  gravíssimo     crime,  o de que a nascente principal   do São Francisco  já secou ou está secando. São Paulo,  na capital e no  interior,  hoje está   fortemente  dependente das bênçãos divinas,   da  permissão de São Pedro para que  faça  chover  em São Paulo a fim  de  auxiliar o que pouco  se tem de reservas d’água pressionada por uma   capital  altamente  demográfica  e  sem planejamento   urbano   adequado.
          Do Norte já sinalizam  problemas  da bacia Amazônica. O maior  rio do mundo em  volume d’água já se  ressente com  a criminosa depredação do homem  brasileiro, através das queimadas,  do   desmatamento.  O “pulmão do mundo”  é uma riqueza  inestimável  e responsável  pelo  equilíbrio  do meio ambiente em nível  planetário.
        Durante a recente campanha  presidencial nenhuma  dessas questões   que afligem  a saúde  de nossas  reservas  hidrográficas  se discutiu, o que é muito   grave. As vozes  politiqueiras   se calam  diante  dos magnos  problemas nacionais, pois estão  mais pensando em  macroeconomia,  superávit primário,   divisão  orçamentária, aumento  de salários de deputados e de benefícios  para eles   como  o auxílio moradia   e quejandos.
        Como aumentar salários  desses políticos  que, mesmo   sem  aumento,  já desfrutam de uma vida   de nababos? É por isso  que, nas redes sociais,   cresce assustadoramente  o número de  cidadãos  brasileiros indignados  contra  os nossos  políticos e os  nossos   governantes, contra igualmente   novas  mordomias  para juízes federais que  estão  pleiteando  auxílio-moradia, eles próprios que já  percebem  altos salários diametralmente   injustos  se comparados aos salários   dos barnabés, dos  aposentados pela Previdência  Social  e de outros   salários  de órgãos  vitais  ao progresso  da nação, com militares das Forças  Armadas, Polícia  Federal,  professores  do ensino fundamental e médio  federal,  médicos federais e outros profissionais do setor  federal. Esses cidadãos, através de coletas de assinaturas  virtuais, estarão encaminhando, por via  judicial,   aos governantes  e  políticos  que  suspendam suas pretensões descabidas  de  fortalecerem  seus  privilégios   em detrimento   do bem-estar do povo brasileiro.
         Vejam  outra  gritante    injustiça  que se comete  neste país: um funcionário  de uma estatal como a Petrobrás,  e não estou falando  de executivos do alto escalão,  recebe  sessenta mil  reais  mensais, como é exemplo um deles  implicado nos  escândalos  da Petrobrás. Imagine-se o que  não  recebem os   altos funcionários  daquela estatal que,  não satisfeitos com  os  seus salários de marajás, ainda   por cima   se envolvem   em  falcatruas  com  empreiteiras  e  políticos   inescrupulosos. A ganância deles não tem tamanho e o seu  limite são os  milhões  ou bilhões  desviados  para   bancos   estrangeiros e a ostentação  desavergonhada de uma vida-paraíso  aqui  na  Terra.


        Para eles,  só uma  solução:  que mofem  em masmorras sem direito a progressão  da sentença. Desta forma, ajudarão  a  minimizar  a impunidade  brasileira.    

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

ASSOMBRAÇÃO DE PLACENTA


ASSOMBRAÇÃO DE PLACENTA

Jacob Fortes

Sétimo e Oitavo eram irmãos. As suas infâncias, no regaço libertário do sertão, escoaram-se remansosamente sob as notas da passarada em festa, porém pontuadas por momentos que marcam qualquer quadra infantojuvenil: contendas, vivacidades, ledices, daninhezas.

Enquanto Sétimo revelava, desde cedo, gosto pelos estudos, traço da mãe, puxadora de novenas, Oitavo, forjando-se nas coordenadas do pai, consagrava-se à vida campestre e seus instantâneos.

A separação dos irmãos tornou-se inevitável. Sétimo, em busca de seu destino, desatou-se cedo, ao primeiro buço, pelo mundo, meio que assustado com a própria coragem, em busca de estudos eminentes, deixando Oitavo nos quefazeres da vida campesina. Isso foi nos tempos em que a vida agreste era marcada pela fé, pela religiosidade, pelas histórias de assombração e pelo Lunário Perpétuo: um almanaque popular, bíblia dos camponeses, ilustrado com xilogravuras e difundido, mais das vezes, por meio de oitivas durante os serões familiares sertanejos. (o Lunário foi inventado em Valência m 1594 e expurgado pela inquisição em 1632).

Enquanto Sétimo, ao cabo de anos, prosperava no magistério superior na capital, Oitavo, — cujo vezo irresistível consistia em realizar caçadas para posteriormente, assentado nos calcanhares, recontá-las com pitadas de achegas fantasiosas — crescia na fama de contador de histórias; mentiroso ante as bocas delatoras. Do glossário de histórias desse façanhudo contador, desarquivei ASSOMBRAÇAO DE PLACENTA para difundi-la entre os que ainda rendem homenagem ao fabulário brasileiro. Ei-la.

A caçada, infrutífera, chegara ao termo. Oitavo, fatigado, exortou os cachorros, esfalfados, a pegarem o caminho de casa; estes à frente, Oitavo atrás.  O clarinar altissonante do carijó “lasca-peito”, saudando a alvorada, reafirmava a Oitavo a proximidade de sua casa. Repentinamente, na pretidão da noite, um vulto, indistinto, mas que remetia a uma noiva de véu, pôs-se no meio do caminho, suspenso do chão feito um pêndulo retesado. Conflagrado de arrepios Oitavo, num misto de reprimenda e obsequiosidade, vozeou: — por favor, retire-se do meu caminho!  A figura branca, verticalizada e dormindo na mudez, permaneceu estática; envolta no que parecia ser um jaleco alvacento. Oitavo repetiu o aviso agora de forma exasperada, mas debalde. Quedo estava e quedo permaneceu o espectro. Baldadas todas as advertências e evitando fraquejar no medo, avultado, que lhe fizera decair a coragem, Oitavo bradou: — se deseja algo de mim diga logo, mas retire-se do meu caminho.  Se não sair por gosto seu sairá pelo gosto da minha faca e sob ela cairá. Mais uma vez a aparição manteve-se inerte, fato que excitou Oitavo ao combate; movido, evidentemente, por um medo maior que a coragem. Sem nenhum tipo de reação do fantasma, Oitavo, de faca à mão, instintivamente arremessou, com ímpeto, uma pedra, circunstância que fez o vulto, incontinente, desabar como se tivesse dependurado nas alturas; desapareceu por completo. Pasmado, Oitavo escutou, na sequencia, o relincho da Medalha, sua égua de estimação, da cor do azeviche, que, sofrendo na dor de demorado partejo, assustara-se com a pedra que lhe caíra à anca e, arrojando-se à frente, num impulso, conseguira, enfim, expulsar o potrinho de modo cabal. A consequente ruptura do envoltório placentário, cândido, fez desaparecer, por completo, a assombração de placenta.


“Nem tudo que parece é, porém tudo é se assim lhe parece”.

domingo, 14 de dezembro de 2014

VIDA IN VITRO


VIDA IN VITRO

Elmar Carvalho 
         
andavas pelas ruas de outrora
à procura de ti mesmo
que se encontrava aos pedaços
bêbedo nos bares
aos trancos e barrancos
se arrastando pelos lupanares
tortuosamente andando
pelas ruas tortas.
eras infante e juntavas varapaus
no sonho maluco de tocares
a lua cheia que depressa minguava.
levantaste a túnica da freira
não por sacrilégio ou impudência
mas apenas para constatares se
ela possuía duas pernas e dois
seios como todas as mulheres.
eras infante e quebraste
o joão teimoso, não por maldade,
mas para descobrir o misterioso
mecanismo de sua teimosia.
não, não eras doido, não eras lúcido,
eras apenas um translúcido menino.
escondias tuas vergonhas, tuas frustrações
e teus medos, como todos nós, como se esconde
lixo debaixo dos tapetes de luxo.
recordas a menina que te golpeou
com um não, apenas por capricho e maldade.
recordas a garota que te amava
e que desdenhavas talvez por capricho ou vingança.
eras poeta e criaste uma quimérica
amada imortal e imaginária, inatingível
em sua torre de marfim.
ela talvez também te quisesse,
mas a fizeste intocável.
enternecido, lembras-te da empregadinha
que bolinaste, e que por bondade, amor
ou desejo não te denunciou, com alaridos
e gritos histéricos, estridentes.
eras jovem e te julgavas alexandre
e bonaparte, senão mesmo um deus,
e já seguravas a coroa de ouro e o cetro
e já acariciava tua fronte o louro triunfal.
tudo eram conquistas e tudo conquistavas.
eras jovem e eras frágil
e te sentias impotente quando
contornavas as calçadas de ouro dos hotéis de luxo
ou quando avistavas a menina rica e bela,
com as suas jóias e as suas roupas elegantes e caras.
não sabias de seus desejos, de suas ânsias
e doenças e de seus nojos de si mesma.
talvez ela te amasse, mas o teu orgulho
fê-la afastar-se de ti. 
ainda procuras o trolley que desviaste
com teus amigos, para uma aventura sem fim
até que os trilhos paralelos
se tocassem no infinito.
ainda assistes a filmes de bang-bang
só para sentires a emoção do tempo
em que teu pai te levava para o reino
encantado e mágico do velho cine nazaré
que em tua memória ainda remanesce.
sentes ainda o cheiro dolorido e pisado dos alecrins
da paixão do senhor morto, do horto das agonias,
das chagas vermelhas, maceradas, da túnica
roxa, brilhante, da coroa de espinhos, dos cravos,
não os de cheiro, mas os de ferro, que ferem...
eras infante, então, e como sofreste
e como fizeste sofrer tua mãe, madona,
mater dolorosa e pietá sofrida e consoladora
de teus sofrimentos de então e de sempre.
buscas os cheiros embriagantes dos
brancos lírios de são josé e das rosas vermelhas
do velho caramanchão de antigamente.
os lírios se transformaram em cálices
de amargura e nas rosas depositas
o orvalho de tuas lágrimas pelo mundo
perdido num canto escuro do passado
e que não restauras, nem mesmo no
terceiro ou no sétimo dia de tua agonia.
a magia  da música e dos álbuns de família
te trazem alegres e pungentes recordações
e te fazem viajar no tempo e no espaço
do turbilhão das mesmas emoções.
solitário, no silêncio da noite
pensas nos segredos, vícios
e incestos existentes na cidade,
nas feridas abertas pelos mais acerbos sarcasmos
e nos espasmos de brutais e homéricos orgasmos.
passeias pelos becos e logradouros do passado
e eles te conduzem ao tempo
que buscas em desespero.               
perdido e cego caminhaste pelos labirintos,
teseu e minotauro de teu próprio destino,
nos confrontos que travaste com teu ego.
esfinge e édipo, não decifraste
teu enigma, e em vão buscaste
as pitonisas de outrora e de agora,
e inutilmente foste teu próprio ilusionista.
mas eras sábio e em algum momento
te reencontraste, ao te tornares
mais simples e mais puro,
malgrado as pedras, os lodos e as quedas.
em vão tapaste os ouvidos
para as palavras que te feriram
e inutilmente selaste a boca
para as palavras ferinas que proferiste.
não, não eras anjo nem demônio,
eras apenas um deus de barro
e teu sonho secreto e sagrado
foi sempre a transcendência
mas decepado de uma das asas
foste sempre um anjo torto coxo
capenga no a esmo vôo sem pontaria.
procuras ainda a pedra azul
de tua serra encardida.
esperas ainda no pátio da igreja
o ônibus que sempre vinha
demasiado cedo ou demasiado tarde.
lamentas a namoradinha jovem e esbelta
que envelheceu e engordou.
debalde procuras a sua cintura
para ternamente lhe pousares as mãos.
antes não mais a tivesses revisto.
ainda buscas a namoradinha
de uma noite de verão – ou inverno,
não importa, nada mais importa agora.
caim arrependido, pedes perdão:
já não suportas o onisciente olho do senhor.
sofres pesadelo pela matemática
que te torturava, e acordas suado, ansioso.
procuras o batente da calçada de outrora
onde te cevaste nos lábios e nos seios da amada.
reencontraste a mulher que te amou
sem esperança, em face de tua indiferença,
e chafurdaste em sua carnívora rosa de carne,
talvez para feri-la novamente,
agora com a fúria e com o tédio.
devias estar feliz. realizaste teus sonhos
de consumo. tens uma boa mulher.
teus filhos são maravilhosos. tens
um bom emprego. no entanto ainda
não estás saciado. esperas um milagre
mas não sabes se os milagres ainda existem.
estás perdido: tens inveja de deus
e não sabes se é virtude ou pecado.
equilibrista, caminhas com teus malabares
e alforjes por uma corda-bamba estendida
de menos infinito a mais infinito.
caminhas para a morte.
muitos dos teus amigos já são mortos
e te procuram com insistência.
infante, desejavas crescer
para realizares os teus sonhos de conquista.
adulto, queres retornar ao país de tua infância.
não sabes o que queres.
queres apenas morrer, esquecer.
queres viver eternamente num mundo
que não é o teu. contudo, tens esperança
e agora teces um poema sem fim
com o novelo infinito de tua vida
que se desdobra do nada ao tudo...         

sábado, 13 de dezembro de 2014

Isótopo Césio-137 ou Jesus Cristo?


Isótopo Césio-137 ou Jesus Cristo?

José Maria Vasconcelos 
Cronista, josemaria001@hotmail.com

            Dezembro de confraternizações e euforia comercial. Espírito natalino de festejar Jesus se concentra, paradoxalmente, no figurino lojista de papai noel. A indústria do visual e dos belos presentes encanta, mas confunde e entorpece o exercício do transcendental e invisível. O espírito natalino transforma-se pó descartável e venenoso. Então me vem à lembrança o isótopo Césio-137, que vitimou centenas de incautos e desinformados.

            13 de setembro de 1987, Goiânia, Goiás. Dois caçadores de lixo vasculhavam as antigas instalações do Instituto Goiano de Radioterapia (também chamado de Santa Casa de Misericórdia), no centro de Goiânia. Os caçadores se depararam com um velho aparelho de radioterapia abandonado. Levaram o equipamento em um carrinho de mão. Desmontaram o aparelho e venderam as peças em oficinas de ferros velhos da cidade. Não tinham a mínima ideia do perigo a que se expunham.

            Nem tudo que resplandece e parece sobrenatural é divino, mas maligno e mortal. Devair Alves Ferreira comprou o resto da máquina, desmontou-a. Encantou-se com pequena porção de um produto que, no escuro, brilhava, irradiando coloração azul. Devair não sabia o perigo a que estava se expondo, manipulando apenas 20 gramas de isótopo de cloreto de césio-137, um pó branco parecido com sal de cozinha. Resolveu exibir o achado aos familiares e vizinhos. Todos acreditavam tratar-se de algo sobrenatural. Passavam o produto nos braços. O pó que resplandecia e parecia sobrenatural espalhou-se em grande área da população. Os dois caçadores também foram expostos ao césio-137 e contaminaram dezenas de pessoas. Encantamento geral.

            Em uma semana, apareceram as primeiras vítimas da contaminação, com vômitos, náuseas, diarreias, tonturas. Médicos descobriram que se tratava de Síndrome Aguda de Radiação. Só no dia 29 de outubro de 1987, a esposa de Devair levou o equipamento à sede da Vigilância Sanitária, que constatou a existência de material radioativo. Físicos nucleares compareceram à cidade. Colheram roupas das vítimas, terra e objetos do local, tudo que manifestava efeitos da radiação atômica. Já era tarde. Mortes ocorriam. Devair, a filha e sua esposa faleceram.  Dezenas de mortes. Outras vítimas adquiriam câncer. Montou-se um lixão de material atômico de 6 mil toneladas de roupas, utensílios, materiais de construção e ferramentas em 2.900 tambores e contêineres revestidos de concreto, que durarão 180 anos de descontaminação. O césio-137 causou um dos maiores desastres radioativos do planeta. E, olhe, com apenas 20 gramas de césio-137.

            A todo instante, em todo mundo, cristãos repetem a ceia de Jesus Cristo: “Isto é o meu corpo ... meu sangue ... comei, bebei. Fazei isto em memória de mim ... estarei convosco...” Uma pequena porção de pão e vinho, milagrosa presença de Cristo. Difícil entender ou aceitar tamanha irradiação divina. No entanto, contam-se histórias fantásticas de quem tocou, comeu e bebeu a pequena porção milagrosa, que já curou muita gente de males, especialmente do espírito.

            Coisas tão fugazes e transitórias, como presente de um celular ou vidro de perfume, nos fascinam tanto quanto a translucidez de um césio-137. Nem sabemos distinguir o que acumulamos, se nos seduz para a verdadeira felicidade. Desculpe a analogia, o espírito natalino exige escolha mais significativa, talvez em forma de pequena porção que não seja cloreto de césio-137, mas partícula de pão e gotículas de vinho sagrados. O espírito natalino precisa se encantar com Jesus Cristo e descartar papai noel, reluzente, mas falso.     
           

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O último varão do clã dos Pacheco de Campo Maior


O último varão do clã dos Pacheco de Campo Maior

Eng. Heitor Castelo Branco
Da academia Piauiense de Letras

Morreu em Fortaleza, onde exercia medicina psiquiátrica o médico campomaiorense, Francisco das Chagas Pacheco.

Filho primogênito de Yvon Pacheco e Dagmar de Miranda Pacheco, era pessoa da mais alta simpatia, amigo de todos os seus amigos que muito o estimavam, mercê de sua alegria pessoal e fidalguia no trato com as pessoas.

Meu cunhado e meu amigo, em cuja companhia e do seu pai, caçamos e pescamos por inúmeras paragens deste lindo Brasil: Piauí, Maranhão, Pará, Mato Grosso do Sul, Ilha do Bananal e Pantanal de Mato Grosso.

Cursou medicina no Rio, onde morou e clinicou por muitos anos. Depois, veio para Teresina, radicando-se e exercitando sua especialidade de Médico Psiquiátrico, tendo sido Diretor da Colônia Psiquiátrica de Teresina. Posteriormente, transferiu-se para Fortaleza estabelecendo Clínica com grande número de  clientes particulares, contribuindo ainda para a formação de inúmeros profissionais que passaram pela sua monitoria.

Profissional de muita bagagem, era mui estimado pelos colegas de profissão, inclusive pelo grande vulto da psiquiatria piauiense, o inolvidável Clidenor de Freitas Santos, o criador do Hospital Meduna em Teresina.

Francisco foi casado em primeiras núpcias com a pernambucana Maria do Rosário Pereira. Tiveram os seguintes filhos: Yvon Neto, Adriana  e  Francisco Antônio, este falecido ainda na primeira infância.

Casou-se novamente com a paulista Maria Helena Rosseti  Pacheco, Psicóloga,  que conheceu em curso de psiquiatria em Londres. Deste último enlace, tiveram os filhos, Emilio; médico, que concluiu Doutoramento na Alemanha;  Marcela, Psicóloga e tradutora, casada e residindo em Barcelona, na Espanha.

Irmão de José Paulino Pacheco, de saudosa memória. Eram suas irmãs, minha esposa Angélica; Yolanda; viúva de José Parentes Sampaio; e  Yêda, casada com o Eng. Carlos Pires Ferreira, estes residentes em Fortaleza.

Francisco, todos os meses vinha para Campo Maior, no Piauí, onde se realizava na sua paixão pela Fazenda Furnas, herdada de seu genitor Yvon.

Erudito, com vasta leitura dos clássicos da Literatura brasileira e mundial, Francisco era detentor de inumeráveis cursos da ciência de Sigmund Freud.

Sua presença em eventos sociais e em reuniões ocasionais mantinha em volta de si inúmeros amigos e admiradores, em virtude de sua conversação alegre e amorável.

Que suas boas ações neste planeta iluminem seu caminho ascensional para chegar ao Criador.


Teresina, Piauí , 10 de dezembro de 2014.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

S O L I D Ã O


S O L I D Ã O

Alcenor Candeira Filho

solitude em pequeno quarto quase vazio
com cama ar-condicionado estante banheiro
desolada solidão entre quatro paredes
silenciosamente caladas o tempo inteiro

solidão com Jesus Cristo em moldura dourada
com mãos e com pés cravados em pesada cruz
a olhar,  para quem O olha,  co' olhar de piedade...
solidão de quem só escuta no abrigo santo

voz de vento lá fora e voz de livro em estante
como numa prece:  Ave, Maria, gratia plena,
Dominus tecum benedicta tu in mulieribus...

quarto pleno de tudo no vazio do nada
- cômodo que mais parece aposento de monge
mas verdadeiramente cômodo de poeta.           

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

UM OLHAR SOBRE ESPERANTINA



10 de dezembro   Diário Incontínuo

UM OLHAR SOBRE ESPERANTINA

Elmar Carvalho

No sábado passado, dia 6, recebi das mãos de seu autor, o professor, pesquisador e escritor Assis Fortes, o livro Um olhar sobre Esperantina, sua terra natal. A capa ostenta uma bela fotografia panorâmica da urbe, feita por Isael Lustosa de Castro, através da qual se denota o seu progresso. Vê-se, ao longe, uma nesga do rio Longá, aparentemente com suas matas ciliares ainda preservadas, ao menos na região retratada.

O livro traz depoimentos e comentários de vários intelectuais, todos reconhecendo os méritos de Assis Fortes, como historiador e preservador mor da memória histórica e arquitetônica da cidade. A orelha, de denso conteúdo, foi escrita pelo jornalista e agitador cultural Elias Júnior, filho de Elias Medeiros, que me revelou, tempos atrás, haver conhecido meu pai, quando ambos ainda eram jovens. Pinço-lhe este trecho: “Assis Fortes nos faz sentir saudade do que a gente não viveu. E nos apresenta uma cidade perdida na lembrança, desenhada em cada relato com peculiaridades, desde o toque do sino da matriz até as raspas de cera de carnaúba a encerar o assoalho do Cassino...”

Algumas vezes estive em Esperantina, tanto em viagem a serviço, na época da extinta Sunab, como em atividade cultural. Mais de trinta anos atrás, no apogeu de minha juventude, saí de Parnaíba numa motocicleta, com o Reginaldo Costa, para fazermos uma entrevista com o padre Ladislau João da Silva, que havia sofrido uma agressão física, por causa de suas pregações e atividades libertárias e de conscientização social. A entrevista foi publicada no jornal Inovação, em cujo número foi publicado um poema de minha autoria, dedicado a esse sacerdote.

Há oito anos, quando completei meio século de vida, lancei o meu livro Lira dos Cinqüentanos nessa simpática cidade. Hospedei-me na casa dos pais da professora e historiadora Teresinha Queiroz, que lhe fez a apresentação, em solenidade memorável, ocorrida no auditório do fórum da Justiça Estadual.

Entre várias outras pessoas, estavam presentes advogados, o magistrado Almir Dib Tajra, parentes e irmãs da Teresinha Queiroz, o procurador de Justiça Alípio Santana, o escritor A. Sampaio, creio que o historiador e genealogista Valdemir Miranda, o médico esperantinense Almir Alves Rebelo e sua esposa, a professora da UFPI Emília Gonçalves Rebelo, e o professor, compositor e instrumentista campomaiorense José Francisco Marques.

A pretexto de contar peripécias e proezas de Francisco Fortes, seu pai, o autor discorre também sobre fatos da história de Esperantina, alguns mais antigos e outros bem mais recentes, mas que interessam aos pesquisadores, porquanto revelam episódios da história imediata, um pouco da história do cotidiano, em que certos costumes e peculiaridades são mostrados. Embora Assis Fortes seja um entusiasta de sua terra, não é um cego ufanista, e mostra também as suas mazelas, evidentemente apontando sugestões e soluções aos problemas que denuncia.

Conta homericamente as façanhas de Francisco Fortes, quase todas jocosas, muitas das quais ficaram imortalizadas no anedotário oral da cidade. Além de esse personagem ser um tipo brincalhão, dado a fazer “pegadinhas” com os seus amigos, tinha uma força descomunal. Numa dessas proezas, em que utilizou seu vigor físico, segurou uma pesada estaca, que se inclinara perigosamente, para que os fogos de artifícios, nela dependurados, não atingissem as pessoas, que se encontravam no logradouro, onde o evento festivo ocorria. Francisco Fortes era, literalmente, um forte.

Em outro episódio, depois de haver tentado por várias vezes conter um bêbado, que incomodava os clientes do comércio em que trabalhava, retirou do recinto o gordo batoré, suspendendo-o, com um só braço, pelos cabelos. Era, não resta dúvida, uma espécie de Maciste da velha Retiro da Boa Esperança, digno de uma destacada participação nesses velhos épicos da cinematografia italiana. Era, com efeito, um legítimo Hércules de uma nova e verídica mitologia.

Parte do livro é composta de um misto de artigos/crônicas, geralmente concisos e de pequeno tamanho, sobre variados assuntos, mas todos referentes a Esperantina, e quase todos de caráter memorialístico, em que fatos históricos e costumes são abordados, ainda que com leveza e sem minudências bibliográficas.

Chamou-me especialmente a atenção a entrevista com o ectoplasma do “capitão” cigano Benjamim Medrado, no ensejo da memoração do centenário da tragédia cigana, ocorrida no velho povoado de Retiro da Boa Esperança, de que se originou a cidade de Esperantina. Essa tristemente célebre chacina, praticada em 1913 por militares da Polícia piauiense, é revista e, de certa forma, passada a limpo nesse texto.

Fiquei desconfiado sobre a veracidade da ocorrência dessa conversa de Assis Fortes com o suposto espírito do capitão Medrado, pois sei que o nosso autor é católico praticante e fervoroso. Também estranhei porque tanto as perguntas do autor como as respostas do ectoplasma eram repletas de dados históricos, presumivelmente precisos, inclusive com citação de fonte e data, como se houvera sido feita previamente uma pesquisa.

Preferi ignorar esses detalhes e procurei lê-la como se fosse realmente uma conversa com alguém que já fora “para o outro lado do mistério”. Contudo, as aspas e a nota de rodapé vistas na página 96 me levaram à conclusão de que a materialização do capitão cigano Benjamim Medrado era mesmo um recurso fictício do autor para atrair mais ainda a atenção do leitor.

Caso a aparição do fantasma do cigano Medrado tivesse sido real, gostaria que Assis Fortes lhe tivesse perguntado alguma coisa sobre como é a existência além desta vida terrena. Brás Cubas, que, pela arte e feitiço do Bruxo do Cosme Velho, escreveu as suas memórias póstumas, nada esclareceu sobre a vida no além-túmulo, preferindo falar de sua vida neste velho mundo terráqueo, fazendo mesmo questão de consignar: “... evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessário ao entendimento da obra.”

O certo é que ficamos sem saber como Brás Cubas teria escrito e publicado sua obra póstuma, fato que não aconteceu com o texto de nosso bravo Assis Fortes, que teria se comportado como um legítimo médium vidente. Contudo, como no final esclarece o autor da entrevista fictícia, trata-se de um texto repleto de informações verídicas, baseado em boas fontes históricas e em depoimentos orais de pessoas sérias e testemunhas presenciais do trágico fato histórico.


Um olhar sobre Esperantina é um olhar instigante de filho e de amante, que zela, mas desvela e revela, que aprecia e admira os encantos desse torrão, mas desnuda as suas mazelas e defeitos, em busca das correções e do aperfeiçoamento; que lhe exalta as louçanias e belezas, mas também investiga o que precisa ser investigado e trazido à luz da publicidade.     

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Heróis do ENEM e Olimpíadas de Ciências


Heróis do ENEM e Olimpíadas de Ciências

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

                 Qualquer estudante do ensino médio pode deparar-se com belíssimo e aterrorizante soneto de Augusto dos Anjos, PSICOLOGIA DE UM VENCIDO: “Eu, filho do carbono e do amoníaco,/Monstro de escuridão e rutilância,/Sofro, desde a epigênese da infância,/A influência má dos signos do zodíaco./Profundissimamente hipocondríaco,/Este ambiente me causa repugnância.../Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia/Que se escapa da boca de um cardíaco./Já o verme — este operário das ruínas —/Que o sangue podre das carnificinas/Come, e à vida em geral declara guerra,/Anda a espreitar meus olhos para roê-los,/E há de deixar-me apenas os cabelos,/Na frialdade inorgânica da terra!

         Cidadãos brasileiros andam desencantados com a constante enxurrada de ladrões das verbas públicas corroendo a esperança de quem quer escolas públicas de qualidade para seus filhos. De crianças e velhinhos carentes de atendimento em hospitais e casas de saúde. O país anda enfermo, “profundissimamente hipocondríaco”, a esperança de melhores dias por um fio. Basta ligar o noticiário, a nação caminha para ruína moral, carnificinas, repugnância, declaração de guerra à vida, mais de cinquenta mil assassinatos anualmente. A maior empresa estatal do país, Petrobrás, desce do décimo lugar, no mundo, para centésima vigésima posição, rombo de 10 bilhões de dólares, equivalente ao PIB de muitas nações. Nas bolsas de valores, ação de 77 dólares rasteja em 10. Dá para ser feliz, enquanto vermes famintos roem-nos os cabelos da paciência?

A pátria não merece declamar soneto tão desgraçado, enquanto plêiade de jovens estudantes, juízes federais, formadores de opinião sadia, lideranças políticas acendem o ânimo nacional com exercício do bem e reponsabilidade. Rara espécie que pode salvar o país da podridão cadavérica.

Apesar dos escândalos, inclusive nas provas de vestibulares e ENEM, timaço de estudantes engrandece o talento brasileiro. O Fantástico da TV Globo abriu um programa de domingo, enaltecendo João Vítor, adolescente de Fortaleza, filho de mãe pobre e separada, cinco filhos estudando em escola pública. Das 180 questões do ENEM, João Vítor, segundo ano do ensino médio, acertou 172. Segredo? O hábito de ler vários livros ao mês, na biblioteca da escola: “Passei a ser respeitado alcançando notas altas nos testes”. Professores preparam alunos para enfrentar concursos, com apoio dos pais. Em 2005, somente quatro estudantes passaram no ENEM. Em 2014, mais de quarenta.

A TV Clube exibiu, nesta semana, reportagem com três adolescentes da Unidade Escolar Pulo Ferraz, de Capitão de Campos, que obtiveram primeiras colocações na Olimpíada de Matemática, em nível nacional. Segredo? Professores repetem experiência vitoriosa de Cocal dos Alves, onde estudantes se classificam em certames nacionais. Entre as experiências pedagógicas, aproveitam estudantes mais adiantados, inclusive de outras escolas, como monitores de salas. Não se deve tanto êxito ao poder público, mas ao entusiasmo de abnegados professores e coordenadores da escola.

O que Deus não quis para o homem, este não deve comprá-lo, suborná-lo, desrespeitá-lo. Não se vende dignidade, pois dignidade não tem preço, mas valor; não se rouba o alheio nem patrimônio público; não se afrontam princípios de ética, de convivência familiar e social. O homem foi feito a imagem e semelhança divina, e não dos espíritos malignos, que nos rondam a todo instante, como abutres famintos de carnes podres. Graças aos jovens e gente do bem, o Brasil libertar-se-á de um soneto pessimista e patológico. Fé na esperança do quase impossível. Fé, sim, no Senhor de nossos destinos.