terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Café Literário


Cidade vazia


Cidade vazia

Neide Moscoso

contornos das fachadas
nítidas e precisas
como no crepúsculo
delineado pelo sol
de abril do teu sorriso
na minha boca
nos teus olhos a
escolha frágil na íris
escura e retraída da
cidade sem noite
na moldura do cenário
traçado nas idas e vindas
da gente sem alma
ocupada na insustentável
andança por entre os
recortes da cidade
sem dono    

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Templos luxuosos e confortáveis, errado?


Templos luxuosos e confortáveis, errado?

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

         Três grandes templos de Teresina: Do Amparo, Das Dores e de São Benedito. Despertam certo halo sagrado de majestade, pela riqueza arquitetônica. Ainda garoto, a curiosidade me levava a subir as escadas do templo de São Benedito, aproximava-me dos sinos, contemplava a acanhada cidade, cujos limites não ultrapassavam a Vermelha, Aeroporto, final da Avenida Frei Serafim com o Poti. Como a capital conseguira construir, no final do século 19, com apenas 30 anos de fundação, templos de tamanha beleza, com mármore e utensílios vindos da Europa? Seria fervor maior das gerações passadas, gratidão ao Altíssimo manifestada com doação de bens preciosos, como rebanhos e propriedades, conforme as condições financeiras dos fiéis? 

Em passado remoto, credos religiosos de todas as esferas erguiam suntuosos templos, cuja arquitetura e luxo sobrepujavam demais construções. Ainda hoje seduzem os colossais pagodes budistas da Índia, Japão, Coreias, Nepal e China, cujas altas torres atraíam raios, vistos como fúria divina. Mesquitas muçulmanas de raro esplendor. Igrejas suntuosíssimas, medievais e renascentistas, onde se coroavam reis e papas, projetavam-se pintores, escultores, arquitetos e músicos. Monumentos que encantam turistas: Notre Dame de Paris, Basílica de São Pedro, dezenas outras espalhadas na Europa: belíssima catedral de São Marcos, em Veneza, estilo bizantino, onde entrei com os pés mergulhados em palmo d’água. Suntuosa Catedral de Colônia, na Alemanha, a mais alta do mundo. Templos pagãos, valiosos e artísticos da Grécia e Egito. Ou dos impérios inca, asteca e maia, destruídos pela fúria religiosa e invasora.

A arte surgiu, praticamente, do culto à divindade, através da rara criação e doação. No Antigo Testamento, encontra-se a primeira manifestação de culto a Deus: pastor Abel oferece cordeiros em holocausto, preconizando a figura do Messias, milhares de anos antes. No deserto, Moisés constrói a Arca da Aliança, puro ouro, ornamentado com figura de querubins, que vigiavam as tábuas dos dez mandamentos. A Arca simbolizava a aliança de Javé com o povo de Israel. Rei Davi constrangia-se por residir em luxuoso palácio, enquanto a Arca da Aliança era venerada em modesta tenda. Prometeu construir majestoso templo. O profeta Natan avisou-lhe que a tarefa caberia a um herdeiro do trono, “cujo reinado seria eterno”. O magnífico templo foi erguido pelo rei Salomão, cujo reinado durou algumas décadas. A profecia de Natan apontava para o futuro Messias que nasceria milênio depois. Jesus e discípulos encontravam-se na casa de Lázaro. Uma mulher unge-o com precioso perfume. Judas condena-lhe a generosidade e sugere que o vaso de alabastro seja vendido, e o “dinheiro repartido com os pobres”. Jesus rebate: “Esta mulher escolheu o melhor; pobres vocês sempre terão”. Para celebrar a ceia pascal, o Mestre exigiu uma “ampla sala mobiliada em segundo pavimento de uma residência”. Diante do magnífico Templo de Jerusalém, Jesus afirma: “Destruam este templo, e eu o reconstruirei em três dias”. Referia-se ao templo de seu corpo. O holocausto de seletos cordeiros, a Arca da Aliança em ouro e o esplendoroso templo representavam a prova carnal da existência divina na pessoa de Jesus Cristo. Quando o amor alcança dimensões infinitas, os presentes não têm preço, mas valor. Em se tratando de culto divino, tudo ultrapassa a todos.     

domingo, 11 de janeiro de 2015

Seleta Piauiense - Nelson Nunes


Aos que se foram

Nelson Nunes (1954)

Não sei dos homens que ficaram
E guardam seus segredos
No fundo dos olhos banhados de medo
a ruminar a verde folhagem da esperança
a embalar a coragem que ainda não nasceu.

Sei dos homens que se foram
E se perderam
Com seu medo
Desejos e sonhos secretos.

Desconheço todos os homens de fé
E todas as formas de felicidade
Que espalham-se em inumeráveis cartazes
a sujar com seu estrume todas as faces da cidade
a subjugar os miseráveis com sua faca de dois gumes.

Não sei dos homens que ficaram
A tramar o futuro.
Sei dos homens que se rebelaram
E voaram para desencontrá-lo.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

DILETANTISMO


DILETANTISMO

Jacob Fortes

Principiando, quero pôr em relevo a diferença entre diletantismo e obrigação. A obrigação refere-se a esforço vinculado a um dever. O diletantismo diz respeito a esforço desvinculado, em prol de uma realização pessoal. A obrigação, mais das vezes, sintetiza um meio de vida. O diletantismo uma filosofia que coloca como condição prévia à ação: o prazer, o passatempo, a distração, o hobby, o lúdico. O diletante é capaz de se determinar a agir voluntariosamente em direção a um aprendizado, dominar qualquer técnica, superar obstáculos desde que os esforços exigidos coincidam com o que lhe é aprazível; tragam-lhe mais deleite do que desgosto. O diletante por vezes acalenta sonhos tão estratosféricos que jamais serão atingidos; estão ocultos em colchões de nuvens. Mas é necessário! Os sonhos consolam, (também cavam abismos).
Ao caminho do diletante, não raro, entraves se antepõem, circunstâncias que lhe estorvam o propósito. Ante a essas ocorrências é preciso cautela para esquadrinhar o recomeço: melhores ocasiões e oportunidades. Eu mesmo sou exemplo consumado disso. Ao meu primeiro deletrear na alfabetização senti o despertar, como a uma tendência irreprimível, do gosto pela leitura, mas os reveses que me couberam em sorte impediram-me de regar copiosamente essa inclinação; aplaquei-a, não pude fazê-la progredir plenamente. Gostaria de tê-la posto à frente como a um abre-alas, estadear-lhe o valor, mas era preciso porejar em busca de provisões de bocas, consanguíneas, muitas. É o fado inexorável de quem, despojado de haveres e decalcado de patentes feitas de taipa, sintetiza a privação das massas anônimas e insignificantes. Mas perseverei; não deixei que se estagnassem as necessidades da procura. Feito um passarinho devotado ao fruto preferido, de quando em quando eu engendrava um modo, furtivo que fosse, para degustar colheradas de leitura e, assim, manter o hábito de viajar: deslizando remansosamente nas canoas feitas de folhas de papel, a quem devo muitas consolações e pepitas.
Somente mais tarde, depois de remodelações em todos os níveis, (eu já era aceito em locais de tom) inclusive no bolso, pude dar confiadas asas ao meu diletantismo; que se acentuou com a chegada da aposentadoria; ô adjutório! Esse vezo, a leitura, acabou se tornando o meu avalista nas escritas, que também as faço por divertimento. Aliás, quem se mete a sobreviver da escrita onde se assiste ao fenecimento da leitura insta-se ao aviltado propósito de esmolar.
O desconsolo de ter sido obrigado a embargar o sorriso de um diletantismo que despontou na adolescência, e que fora empurrado, a bem dizer, para o subsolo, impõe-me uma preocupação que pode ser tomada como um lembrete: que os diletantes mancebos — imersos em contendas com os sonhos que lhe aconchegam o peito, mas sem dinheiro para levar a termo as suas vontades lúdicas, — tomem o propósito de estudar demoradamente para desígnios profissionalizantes que lhes assegure futuros auspiciosos; remorem o lúdico para o turno vespertino, transforme-o em intento subalterno. É que certos hobby requerem apostes financeiros e estes defluem do alicerce com que se erige uma qualificação. Antes perder a atualidade dos prazeres que não tê-los nunca.
Muitíssimo se poderia dizer acerca das diferenças que marcam a obrigação e o diletantismo, mas, em síntese, fico com estas particularidades: a obrigação é sisuda; o diletantismo ridente. A obrigação é reservada; o diletantismo espontâneo; a obrigação entedia, o diletantismo recreia; o braço que se há fraco na rotina da obrigação se faz vigoroso no ânimo do diletante.

Mas se o diletantismo é tão prodigioso, cheio de benignidade, por que não aplicar os seus efeitos sobre a obrigação, isto é, o esforço vinculado a um meio de vida? Simples. Basta que o diletante faça da sua obrigação o seu prazer. Mas como fica a aptidão; a disposição natural, o gene, que orienta as pessoas no sentido de uma atividade: pendor, propensão, tendência? No reservatório secreto, o íntimo de cada um, alojam-se intentos lúdicos, alguns inconfessáveis, quem sabe escrever o poema da miséria moral ou, em vindita a Jesus Cristo, estripar um traidor, feito de capim, no Sábado de Aleluia.

Que neste ano de 2015, e seguintes, não nos falte saúde necessária ao diletantismo, este ser alado; inelutável. O diletantismo é mãe invisível que fecha os olhos para que a gratuidade da infância não perca a validade; se estenda até a desmotorização da existência.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Luzes apagadas


Luzes apagadas

Neide Moscoso

os abajus estão acesos
luzes discretas
amparam o repouso
no quarto em penumbra
emoldurando a
lucidez no receio
da loucura
que chega em
luzes apagadas    

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Primeira página do ano de 2015


Primeira página do ano de 2015

Cunha e Silva Filho

           É com Você, leitor,  do Rio,  de outros  estados e de outras  partes do mundo que   me  dá vontade  de  falar. Nada sei  da maioria e alguma coisa  sei de um  pequeno círculo de  amigos ou conhecidos. Sei também    que, em alguma parte, alguém  me lê ainda que seja por uma única vez. Vai procurar  outro blog entre os milhares que existem  para todos os gostos  , opiniões,  grupos  e ideologias.
        O colunista não vai   ficar zangado se  não obtiver uma resposta qualquer visto que a palavra que lhe  enviou nasceu de uma necessidade insopitável de me comunicar com Você através de um artigo,  de uma crônica,  de uma tradução, de uma resenha, de um pequeno   ensaio ou parte de um  ensaio maior ou até pelo  recurso, hoje  quase desnecessário, de  lhe dirigir  em inglês, tendo  eu  o cuidado de adicionar, logo após o texto  em inglês,  a minha tradução, não  a eletrônica,    mas  a minha mesmo, com todas as limitações  que possa haver, não obstante    sabendo  que, como acontece no  Face,  há sempre,   por debaixo do texto em língua estrangeira,  a acessibilidade de lhe   fornecerem a tradução  em  português.
        Como hoje, 2 de janeiro,  escrevo-lhe a primeira coluna do meu blog, a Você dedico as minhas observações,  os meus  “resmungos” (estou pedindo aqui  emprestado ao poeta Ferreira Gullar o termo que, se não me engano,   empregou como  título de sua primeira crônica para o jornal  Folha de São Paulo, Caderno  Ilustração aos domingos.
       Leitor,  se alguma vez  lhe feri  a sensibilidade,  lhe fui um pouco  rude,  ou  lhe contrariei  a visão  política, social,   religiosa,  filosófica ou de qualquer  campo  do conhecimento  humano, não foi  para  prejudicá-lo. Isso jamais  tive a intenção  de  fazer. Contudo, quem  escreve,  tem  suas preferências,  seu direito  de  externar uma  dada cosmovisão, que lhe pertence como  substrato   do seu ser  pensante,  da sua maneira  de ver um  dado  problema, quer   nacional, quer  internacional.
     O escritor  tem que ser livre, livre até para ser   fiel  a si mesmo, ou até mesmo  para,   com  o tempo,  modificar sua   visão do mundo,  seus  pontos  de vista,   posto que nem sempre   correspondam  aos do  leitor, que,  por sua própria condição,   tem  igualmente  sua    maneira de ver o mundo, as pessoas, os fatos, enfim,  as questões que  interessam  ao ser humano.
      Assim como o  colunista   tem o direito  de  expressão  do seu  pensamento, desde que saiba respeitar  o leitor  com  uma linguagem  adequada  ao registro  da  mensagem  a ser   expressa, assim  também  tem  o leitor  de   externar  seus ângulos de visão   do mundo, dos homens  e de tudo  que   forma  essa complexidade  e diversidade  que  é  o   pensamento   humano. Entretanto, seria   muito  entediante  se o autor de um  artigo  pensasse  sempre  em consonância   com   pensamento  do leitor, condição   praticamente  impossível  e imprevisível.
      A meu ver,  não  é  tão acertado assim   ler somente  quem  partilhe de nossas  opiniões.  É preciso    que  entre o leitor e o autor  exista um mínimo de  dialética em questões   de  discussão   de um tema. As  ideias divergentes, ao se chocarem  entre si, impulsionam   o intelecto  a  aprofundamentos saudáveis  e  estimulantes.
     Nosso "horizonte de expectativa" só tem a lucrar com   interlocutores que não professam  os mesmos   ideais  nos múltiplos  campos   do saber  universal. O que não pode  ocorrer  é que  as  divergências  descambem para o terreno  pessoal,  para um nível de discussão,   no qual  só  um  julgue ser  senhor  das verdades. Neste altura  do embate das ideias,  o interlocutor  passa ao terreno  da  polêmica  meramente    conduzida  pelo personalismo,  pela subjetividade,  e assim  ficará cego por não  ser capaz de enxergar   as qualidade  do  adversário.
      Escrevo sob a assunção de que  o leitor  há de ter  em mente  tanto  as  virtudes quanto as  fraquezas ou mesmo   erros (os “disparates de todos  nós” de que falou o mordaz  Agripino Grieco (1888-1973),  do  autor, do colunista, do escritor.  Não existe maior   exposição  de quem  escreve quando   o seu texto  torna-se  matéria  de  análise  ou comentário  do leitor.
    Toda escrita  tem lá seus riscos  e percalços.  O ato,  contudo,  de escrever   implica   correr   riscos assim como   experimentar  deliciosas   sensações e enternecimentos  ou mesmo   suposições de que alguém que Você não  conhece nem talvez nunca conhecerá, por  alguns momentos  do tempo  da leitura,   vivenciou   juízos convergentes  e compreendeu que  vale a pena  o compartilhamento das ideias  e dos sentimentos   de alguém  para alguém, mesmo  se levarmos em conta  o indeterminado   background  cultural    entre os que  escrevem  e os que leem.
      Este  é o pacto,    leitor,  que  desejo  muito  estabelecer  com Você.  De um lado e de outro,  somos livres, livres para  acompanhar  o pensamento  do autor,  ou para dele discordar. Naturalmente,   que  o nosso pacto seja  o da liberdade  de  comigo  permanecer,  ou mesmo afastar-se ou finalmente  - é o que  aguardo  com ansiedade  -  voltar  a mim  com  o coração  aberto  e a alegria de  saber que  não escrevo só para mim, o que seria  egoísmo, mas para  externar  as minha ideias e minha  posições  sobre temas e questões tendo sempre  em conta a dignidade  e   a honestidade  de exercer  esse fabuloso   meio  de  comunicação, que é a escrita, comentando, analisando, e interpretando  o que   os acontecimentos do  mundo nos  provocam e, na medida do possível,   nos  instigam  a dar-lhes   respostas  dentro de nossas  possibilidades de   visão e compreensão.         

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Um clássico de arrepiar


Um clássico de arrepiar

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

O período natalino e passagem de ano novo despertam sentimentos da transitoriedade do tempo e a transcendentalidade da vida. A felicidade se estabelece no equilíbrio das duas.

Bem que eu poderia demorar mais dois ou três dias em Luís Correia, neste finalzinho de 2014. Praias lotadas, tráfego intenso de veículos, nas avenidas ou tentando estacionar nos arredores do shopping e na orla marítima. Gente bonita a exibir corpos roliços, prateados ao sol, ondas e ventos. Tinha tudo para deleitar um feriadão de cio faminto. Sentia que a badalação coletiva se resumia em regabofes, acordes de forró peba a mil decibéis. Faltava algo que me despertasse elevado sentido, em período tão encantador. Eu queria mais que banquetes meio pagãos e dispersivos. Eu carecia de algo que me levitasse do idealismo consumista para a vocação de algo superior.

Transitando na lufa-lufa da cidade, liguei o rádio do carro. Uma raridade de música, difícil se ouvir nas ondas da mediocridade que domina expressiva parte da mídia. Uma obra-prima de Sebastian Bach, genial músico alemão dos séculos 17 e 18. JESUS, ALEGRIA DOS HOMENS, arrebata, arrepia, especialmente executada por orquestra e coral. A letra, uma oração de louvor: “Jesus continua sendo minha alegria,/O conforto e a seiva do meu coração,/Jesus refreia a minha tristeza,/Ele é a força da minha vida/É o deleite e o sol dos meus olhos,/O tesouro e a grande felicidade da minha alma,/Por isso, eu não deixarei ir Jesus/Do meu coração e da minha presença”.

Subi os umbrais do passado: meu seminário, nós em redor do teclado, grupos de tenores, sopranos e contrabaixos, jovens contemplativos, anjos aclamando amém. Lembrava-me de meus pais, que me levavam à igreja de São Raimundo Nonato, na Piçarra. Ou das últimas missas no templo de Fátima, passagem de ano. Aquilo, sim, me inebriava de sublimes esferas, me dava ânimo para a missão neste mundo.

Ouvindo os belos acordes de Bach, achei-me um filho pródigo que, nauseabundo de prazeres terrenos, sente vontade de voltar para a casa do Pai, abraçá-lo, agradecer-lhe todo bem recebido, mas desprezado.

Já me saciaram três dias de litoral. Queria mais, porém em outro plano. Deu-me vontade danada de regressar a Teresina, recolher-me, preparar-me para assistir a missa de gratidão e passagem de ano, no templo de Fátima. Entrei, sentei-me. Enquanto aguardava o início da liturgia, o organista puxou Bach. Não controlei a emoção. Levantei-me, dirigi-me ao organista, que me mostrou a pauta musical, JESUS, ALEGRIA DOS HOMENS. Bach me convencera a voltar aos bons tempos em novo calendário.     

domingo, 4 de janeiro de 2015

SEXO


SEXO

Elmar Carvalho

            vira
gira                 desvira
          revira

reviravolta
         volta e meia volver
mete e tira
tira e mete
tiro ao alvo:
alvo preto cabeludo
dita dura:
fura tortura gostosura
fuça e funga
funga e fuça
suga e sunga
sunga e suga
geme e treme
treme e geme
gemidos e grunhidos
grunhidos e gemidos
vira e mexe
mexe e vira
sobe e cai
cai e pira
         tira delira
         pinto pinga
         ping pong    

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Papa Francisco e as 15 doenças do poder


Papa Francisco e as 15 doenças do poder

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

  
                O ano de 2014 despede-se, trôpego retirante, carregando na mochila memoráveis e vergonhosas decepções. Escândalos monumentais provocados pela roubalheira e corrupção diárias. Um sonoro tabefe na dignidade nacional. Apavorante sensação de que vale a pena o crime resvalar para a imoralidade, quando se há pedigree político e dinheiro para dissimular, defender-se, comprar. Condenados a longos anos de cadeia, agraciados com brevidade da pena ou soltura para conquistar mandato.

         No clima natalino, pensei enviar mensagem, meio melosa e romântica, como exige a data, para algumas autoridades. Faltaram-me coragem e franqueza. Louvá-los, compactuaria com a turbidez moral que os distingue. Foram poucos, pouquíssimos agraciados, apesar do volume de secretários, parlamentares, assessores palacianos. Tanta fartura de cargos que só banana e pequi na feira. Certos convocados não se seduziram pelo canto da sereia. A tentação edênica do fruto proibido pudesse exibir a nudez da vergonha.

         O noticiário informa que o Papa Francisco reuniu a Cúria para confraternização natalina. Todos esperavam gentilezas, mas receberam presente de grego. Em vez dos mimos, uma viril e corajosa filtragem de água túrbida, típica dos líderes e estadistas. O discurso do pontífice valeu como ultimato, aquela exigência que um Estado apresenta a outro, cuja não aceitação implica declaração de guerra.  

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Nas estrelas


Nas estrelas

Neide Moscoso

quem me leva é o mar
quem me chama é o vento
para as estrelas eu vou só
transpondo o céu que
se confunde com o mar azul
esbarrando no azul dos
teus olhos
com sede de mais azul
onde se douram só na
presença das estrelas     

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

MÚSICA E LAZER NO CAFUNDÓ

José Luís, o Barão de Bitorocara

Assis Capucho, mestre do sax e da harmonia

Zé Francisco, El Gran Montilla

30 de dezembro   Diário Incontínuo

MÚSICA E LAZER NO CAFUNDÓ

Elmar Carvalho

No domingo, de manhã cedo, o Zé Francisco Marques me telefonou, convidando-me a ir ao sítio Cafundó, do nosso amigo comum José Luís Carvalho do Vale. Lá também estariam o Assis Capucho, sua namorada Fernanda, e a Francilene, esposa do nosso anfitrião. Assis Capucho, de nome completo no registro civil Francisco de Assis Carvalho do Vale, é neurologista respeitado, professor da Universidade Federal de São Carlos, conferencista de prestígio, já tendo proferido palestras em várias paragens do Brasil. É irmão do saudoso médico Júlio Capucho, que conheci em minha adolescência.

Disse ao Zé Francisco que não desejava ir, pois havia tirado o dia para ficar quieto em meu tugúrio. Logo depois, meu celular tocou novamente. Desta feita era o Assis que reforçou o convite “franciscano”. Com as forças minadas, não pude deixar de deferir tão tentador convite. Aliás, como disse o poeta, para rimar com saudade, resistir quem há-de?

Um aviso prévio aos incautos navegantes se faz necessário; apesar do nome, o sítio Cafundó não fica “no calcanhar do Judas” ou “onde Judas teria perdido as botas”, em local inóspito e inacessível, como alguém equivocadamente poderia deduzir, mas em local bonito, aprazível, de fácil acesso e perto de Teresina.


No telefonema, eu e o Assis fizemos referências brincalhonas ao Zé Francisco. Eu disse que ele é uma figura egressa da mitologia greco-romana, tendo o Assis, num retumbante e hiperbólico pleonasmo, o rebatizado de Dioniso Baco, por ele ser um degustador de uvas e um apreciador de vinho, sendo ainda certo que é um consumado enólogo e enófilo, unindo, assim, teoria e prática. Acrescentei que o seu nome completo passaria a ser Dioniso Baco da Silva Orfeu.

O acréscimo do codinome Orfeu não precisa de explicação, e deve-se ao fato de que o nosso amigo é exímio instrumentista, dominando com muita perícia um violão e um teclado, que vale por uma orquestra. Quanto ao sobrenome Silva, é que lhe quis dar um misto de nobreza e popularidade ao mesmo tempo, porquanto com esse apelido há homens simples e nobres.

Além do mais, Zé Francisco tem uma bela e forte voz, com uma poderosa memória que lhe permite ter um vasto e eclético repertório, que abarca a bossa nova, a jovem guarda, a MPB e os clássicos do brega, que na verdade são imortais músicas românticas. Para completar a parte musical, o Assis Capucho é um talentoso saxofonista, que em certos momentos ascendeu de coadjuvante a estrela principal, quando executou alguns boleros e outras melodias.

Se tudo isso ainda não fosse o bastante, o Zé Luís, o senhor do sítio Cafundó, é um exímio percussionista, e deu um brilho pirotécnico a esse trio musical. Em alguns momentos ele atuou como se fora um regente, ao inovar em certos arranjos e improvisações, o que me fez lembrar os improvisos do jazz. Também me pareceu um maestro porque soube incentivar o seu irmão a ser mais ousado no saxofone, tendo conseguido que ele fizesse algumas execuções solo, de rara beleza e perícia.

Não tendo Deus me dado o dom da arte do divino Orfeu, não sabendo executar nenhum instrumento e nem cantar, contudo sei apreciar uma boa música, qualquer que seja o seu gênero ou estilo. Contive-me, portanto, em escutar com atenção e em aplaudir com entusiasmo os meus três melódicos amigos. No máximo, tive pálida participação na parte vocal, quando cantarolei, embora de forma canhestra e incipiente, algumas canções, cujas belas letras conhecia.

A manhã domingueira também foi perfeita nos quesitos da libação e dos comestíveis. O nosso anfitrião Zé Luís é um tanto metódico e perfeccionista, de modo que a cerveja por vezes ostentava um elegante “véu de noiva” ou um deslumbrante “pescoço de águia americana”, mas sem nunca congelar. A carne do insuperável churrasco sempre se apresentou tenra e suculenta, pois ele domina o ponto exato do tempo, da distância e do fogo, o que faz a diferença entre um mestre e um simples borra-botas ou melamão. Cabe ainda informar que as carnes caprinas e galináceas tinham a grife Cafundó (ou made in Cafundó, se o leitor americanizado assim preferir).


Em dado momento o Zé Luís me perguntou se o churrasco estava bom ou se poderia ser melhorado. Fui enfático, conciso e radical em minha resposta: “Não tente melhorar; se melhorar, estraga”. É ele um perfeito anfitrião, atencioso e educado, mas sem artificialidades postiças. Essas qualidades e atributos são de sua índole. Como na música do lendário Bat Materson, ele é “sempre elegante e cordial”. Por essas razões, dei-lhe o título nobiliárquico de Barão de Bitorocara.    

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

CARTA-LOUVAÇÃO A NOTURNO DE OEIRAS E OUTRAS EVOCAÇÕES (*)



CARTA-LOUVAÇÃO A NOTURNO DE OEIRAS E OUTRAS EVOCAÇÕES (*)

Prezado poeta ELMAR CARVALHO,

        Acabei de ler o seu livro, “Noturno de Oeiras e outras evocações”, que você, a pedido de minha querida irmã Anatália, gentilmente me enviou.

Li-o de uma tacada, como se diz, pois não faz mais de uma semana que o recebi.

Li mais rápido que de costume, não para me desincumbir do compromisso de dar alguma satisfação ao autor, mas o li assim, vorazmente, porque o livro, por seus vários méritos, me aguçou o interesse.

            Logo no início da leitura, lembrei-me do ensinamento da escritora americana, Susan Sontag, em seu Questão de Ênfase. Ensaios: não há livro digno de ser lido se não for digno de ser lido várias vezes.  Não tive nenhuma dúvida de que ”Noturno...” devia ser lido, merecia ser lido, não uma, mas várias vezes. E é o que está sendo feito, poeta.

            Além das virtudes próprias do livro, que são tantas, ele me dá, de lambujem, mais uma satisfação e um encantamento: rememorar Oeiras, retornar a Oeiras, reviver Oeiras.

            O livro é Oeiras encadernada, viva, palpitante. Ele me levou a Oeiras, de onde saí ainda bem jovem em busca do conhecimento que ela não poderia mais me dar. Mas não sei, não sei...

            Fico pensando, poeta, se Oeiras, hoje uma insofrida saudade, não teria me ensinado o pouco que hoje sei (ou penso saber) da vida e do mundo.  Oeiras teria sido a minha universidade não oficial, pois ela, abrigando tantos professores titulares de vida, de experiência e plenos de generosidade, poderia, sem dúvida, ter ensinado muito e muito mais ao menino que fui e ao homem que seria.

            Se, como dizem, o menino é o pai do homem, este menino de Oeiras, se por lá tivesse ficado, hoje teria muito mais para dar e transmitir a este  adulto que agora lhe escreve. Mas, infelizmente, vi-me obrigado a cabular as aulas oficiadas pela mestra Oeiras, mas a ela sempre volto, pouco fisicamente, mas a todo tempo em que o tempo da memória e do afeto me permite.

            Seu livro trouxe Oeiras a Belo Horizonte, trouxe-a a mim, com sua rotina modorrenta, suas tradições, seus odores, os meus amigos de infância, a escola e seus Mestres, suas lendas e ajudou-me a me recompor, a fazer uma remontagem emocional da nossa Oeiras.  E logo me vejo em Oeiras, menino, quem sabe de calças curtas, na Vila do Mocha, assustado com os fantasmas que perambulavam ( e ainda perambulam) pelo Sobrado Velho (sobrado dos Ferraz?), pelos becos  e  pelos Cemitérios, velhos os dois.

            Você, poeta, com sua arte e inteligência, recriou-me Oeiras, inteirinha.  Tão animado fiquei que, por conta própria, tomei a liberdade de inserir, na sua moldura oeirense, os doidos de minha infância, os doidos de Oeiras: Antônio Bocão (seu Tonho), Ana Ruça, Dorête, Zé Doidim, Claro, e Sabino. Os alfenins de que você fala, levou-me a Sancha, vizinha nossa, que sabia fazê-los como ninguém, brancos, gostosos, macios, exatamente como você aponta no Noturno de Oeiras.

            “Noturno de Oeiras”... Como comentá-lo? Tudo já foi dito sobre o poema e eu estaria tão só chovendo no molhado. Mas não resisto em comentar o verso “onde músicos falecidos acordam sons delicados”. Acordar (tecer acordes) e acordar (sair do sono). Magistral essa ambiguidade poética. Porque os músicos de Oeiras eram famosos por sua sensibilidade e destreza em compor e tecer pautas de rara beleza.

            Mas esses músicos também, com o pretexto de seus versos, acordaram em minha memória e lá estou eu assistindo-os, embevecido, no coreto da antiga Praça da Bandeira, a praça mais bonita de quantas pude ver. Lá estão eles: Osíris (no trombone de vara), Levi (no pistom), seu Lico (no tambor), Tabaqueiro (nos pratos), Doca (na tuba). Esses e tantos outros, afora a atividade individual, reuniam-se na noite de toda quinta-feira para um espetáculo de musicalidade e talento com uma das bandas (eram duas) de que Oeiras dispunha.     
 
Possidônio Queiroz é um capítulo à parte.  Dono de raro talento para a música (tocava flauta) e as letras, possuía um conhecimento enciclopédico e uma capacidade invulgar de ser gentil e obsequioso. De todos os oeirenses, do mais letrado ao mais simples, exalava admiração e respeito pelo homem e pelo artista Possidônio.

            Pois bem, o seu “Noturno...” é arte de fina e rebuscada engenharia literária e poética, é um régio presente às letras piauienses e à história e à memória de Oeiras.  O progresso, poeta, tem o defeito de compartimentar a história, confinando-a nos limites de uma nesga de tempo vivida por determinada geração. Digo de outra forma: em termos de memória, as gerações só têm compromissos com o seu tempo.  É necessário, de uma forma ou de outra, resgatar o tempo passado, tecer um liame vivo entre o ontem e o hoje, ensinar aos homens de agora a importância do exemplo e dos valores das gerações passadas.      

            Seu livro, poeta, é essa linha luminosa trafegando entre Oeiras atual, moderna (ou modernizada) e Oeiras dos sobradões, dos seixos nas ruas, dos Passos, da Casa da Pólvora, da Cadeia Velha, da Casa do Visconde, do Pé de Deus e do Diabo, das Igrejas, do relógio da Matriz (“com o mostrador roído pela pátina”), do Grupo Escolar Costa Alvarenga e do Ginásio Municipal Oeirense (nos quais estudei), das quintas (ainda se dizia “quintas”!) do Cel. Orlando (meu avô), de “seu” Tibério Siqueira e Morena (grandes amigos), do meu tio João Ribeiro (Santa Rita), dos umbus do Condado e de dona Clarice, do Poço dos Cavalos (onde quase me afoguei), do Morro do Leme, dos Urubus, da Sociedade...

            Tempo em que os comerciantes fechavam suas lojas às 11h e só retornavam ao trabalho às 14, depois de uma tranqüila e reconfortante sesta. Naquele tempo todos sesteavam, só o velho relógio da Matriz insistia em manter-se acordado, repetindo suas “badaladas punhaladas” de susto e compromisso.

            Tempo de homens e mulheres imperecíveis, cartilhas vivas nas quais, menino, aprendi um pouco (ou muito) do bê-a-bá da vida. É preciso, poeta, que as gerações atuais não se esqueçam das que se foram e o seu livro é um chamado a esse não-esquecimento, a essa reverência ao passado tão rico de homens e mulheres e das lições escritas e repetidas por eles.

            É preciso que não nos esqueçamos de Joel Campos, Bembém, Xé, Edul, João Burane, Zé Sá, Raimundinho Sá, Pedro Ferrer, Pedro Sá, Luiz Rego e Odete, Gerson Campos e sua saudável irreverência, Orlando Carvalho e Anatália (meus avós maternos), Yaiá (minha avó paterna), Paulo de Tarso e Iolanda (meus pais), Mário Freitas e dona Conceição, Mãe Tonha, dona Sinhá e Iara (dos queimados), Antônio Gentil (da “casa das doze janelas doze donzelas”), de Galeno e Julieta, dos Tabaqueiros, de “seu” Natu e dona Darinha, de Zé Lopes, do Cônego Cardoso, do Mons. Leopoldo, de Tiborão e dona Cocota, minha mestra, vivíssima, graças a Deus.

            Pedro Ferrer Mendes de Freitas, Pedro Ferrer do seu livro, jornalista e escritor dos bons, Ferrezinho para a família, Farroz para a molecada da nossa infância e meninice. Neto de um outro Pedro Ferrer, um dos homens mais elegantes, finos e gentis de minha época, um dos grandes amigos de minha família e, em especial,  do meu pai.

            Mas já escrevi muito, poeta, muito além do que devia. É que seu livro e seu acendrado amor por Oeiras transformaram você num amigo de longa data, aquele que nos dá total liberdade pra conversar, sem limites de tempo.

            Muito obrigado pelo livro, vou relê-lo várias vezes, sempre em busca do prazer, do enriquecimento e conforto que sua leitura me dá.

            Abraços afetuosos do amigo e admirador,

            Elisabeto Ribeiro Gonçalves

(*) Tomei a liberdade de colocar esse título no texto da magnífica carta que o Dr. Elisabeto Ribeiro Gonçalves me enviou, através de e-mail, que muito me desvaneceu e honrou.         

FELIZ ANO NOVO


Com esta charge do Mestre Gervásio Castro, em que ele não chutou o balde, mas fez o seu autorretrato (selfie), o blog se despede de 2014, ao tempo em que deseja aos seus leitores um Feliz e Próspero Ano Novo, com tudo de ótimo ou mais.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Seleta Piauiense - Rubervam Du Nascimento


36

Rubervam Du Nascimento (1954)

Antonia Flor, 80
na mira de fazendeiros
com seus fuzis de silêncio
montou seu cavalo de sonhos
pra enfrentar a noite
nunca mais voltou
a última vez que foi vista
repartia lotes de nuvens
com os perseguidos do céu

(Fonte: portal Jornal de Poesia)

sábado, 27 de dezembro de 2014

Fragmentos do cotidiano de um escritor

Na Livraria Entrelivros, vendo-se: Dílson Lages, Homero Castelo Branco, Elmar Carvalho, Reinaldo Torres e Antenor Rego Filho

Fragmentos do cotidiano de um escritor
  
Cunha e Silva Filho

1. Nunca  duvidei de que, na vida intelectual,   exista uma  distância  enorme entre a pessoa  do escritor e a obra que produz, embora  tenha a certeza de que,  pelo menos para mim,   torna-se  quase  impossível  poder admirar integralmente  um autor  quando,  por experiência direta ou indireta,  percebo que este não  constitui uma  unidade   harmoniosa  entre o caráter  e  sua obra, quer de escritores menores, quer de médios ou  grandes  escritores. Julgo até que  este  ponto de vista meu  não se cinge somente aos  dias   que atravessamos  mas  há muito tempo tem sido uma realidade na  vida literária  brasileira. Que o digam Humberto  de Campos,  Monteiro Lobato,  Brito Broca,  Afrânio Coutinho e Álvaro Lins,  servindo estes  nomes apenas de meros   exemplos  para ilustrar    este tópico  de vida literária.

2.  Ontem, fiz mais um ano de idade. Um pequeno almoço, para  convidados  bem escolhidos,  me leva  a esta reflexão: chega um tempo em que  as velinhas não mais  nos interessam, nem discurso  nem  respostas a discurso. O que  fica mesmo  são  as alegrias   de convidados  separados  por mesas,  falando  de tudo :política,    vida a alheia,   literatura, projetos de vida  concluídos, enfim, em cada  mesa composta de  convidados tudo  é festa Constato  também  que a comida, a bebida, a sobremesa,  com álcool ou sem ele,   completam  integralmente   o  ritmo  da comemoração. O melhor,  contudo,  para mim,  numa simples festinha entre  amigos,  é  o meu   hábito de   conversar com todos  os convidados, mas, ao fazer isso, há uma  falta de habilidade minha imperdoável:    verifico  que  converso mais com  alguns do que com  outros. Por que será  que  a festa é assim?   Outra falha  minha: sou  sempre o que menos  come porque – é explicável -   fico   o tempo todo  dando atenção  aos  convidados. E o pior  é que foi sempre assim  quando    o assunto  é a comemoração  do  meu  aniversário.

3. Estou  deveras  preocupado:  há uma pilha  crescente de livros que  tenho  o dever  de ler e, se possível,  comentar, seja  em  resenha, seja num artigo-ensaio  mais  denso.
4. O meu  hobby é o seguinte:  colecionar  livros  didáticos de matérias  do meu tempo  de ginasiano e de  aluno do curso   científico em Teresina, Piauí, que mais me interessam. Enquanto não  completo a coleção de um autor,  não sossego. Este hobby me traz alguns percalços e o  espaço  físico  do meu apartamento  é o nó górdio da questão.Como não sou um Mindlin,  fica mais    problemática   a solução  dessa questão.

4. Fico chateado quando deixo de comprar  jornais (são dois apenas,  leitores)  que sempre  leio  cada semana. Mas, pensando bem,  se não  li aquele  exemplar que deveria comprar,  isso  não é o fim do mundo,  uma vez que não costumo  ler  um jornal  inteiro no mesmo dia.

5. Por que,  numa  Academia (traduza-se:  de Letras)  que não vou    aqui nomear ( não vou dar  esse gosto  aos intrigantes e fofoqueiros ) há , segundo  um  informante,   quatro  grupos  divergentes ?  Descubro, além disso,  que não é só numa Academia  que existem redes de intrigas,  grupos   que querem ver os outros pelas  costas. O mal é geral e se alastra insidiosamente  em outros setores,  públicos  ou  privados.
6. Fato curioso:  Mário Quintana tentou  entrar para a  Academia Brasileira de Letras  por mais de um  vez, ao passo que Ferreira Gullar, que não era chegado  a essa  possibilidade,   para o Petit Trianon,  foi  convidado, tendo   uma vitória quase  cem  por cento  na contagem  de votos. Só um  não  votou nele. Quem seria?

6. Renan Calheiros,  a quem  todo  mundo  conhece de priscas eras   colloridas,  desrespeitou  um pequeno   grupo   que  estava nas  galerias  do Senado protestando  contra a aprovação  um projeto  de lei relativo  à gastança   sem limites   da dinheirama     do Erário Público. O referido político,  sem  educação parlamentar à altura do cargo,  chamou   o  pequeno grupo de  indignados  das galerias de “assalariados” sem  nenhuma importância  diante das decisões  do  Congresso  Nacional. Reduziu, assim,   por metonímia,    a pó o eleitorado brasileiro. Esse é o pensamento elitista, cínico  e ao mesmo tempo  tacanha  de    politicagem  coronelista  deste país. Uma vergonha  a mais  para  a imagem já  moralmente destroçada    de nossos  políticos.

7.Com a  globalização  e  a crescente  inter-comunicação   dos povos,   subiu enormemente  a produção  editorial  de livros para aprendizagem de idiomas, sobretudo do inglês.



8. O Piauí, no que tange  ao mundo   editorial,   está dando   mostras de crescente vitalidade,  produzindo localmente,  seus livros,   com o surgimento  de   muitos   escritores  de vários genros literários ou  não, de  novas  livrarias  bem equipadas,  com   sucessivas  noites de autógrafos. O escritor, professor  e editor  Dílson Lages Monteiro, com outros  companheiros,   estão  concorrendo significativamente para que  o Piauí  se faça  conhecido  pelo país afora. Dílson Lages é um  operoso e jovem intelectual que   faz questão  de  estar  levando a produção dele e de outros  autores piauienses  ao conhecimento de leitores de outros lugares  do país, através de participação de   Feiras  de Livros,  de entrevistas   com   autores  piauienses. É um escritor  antenado,  sem  quaisquer ranços de  provincianismo  ao lidar  com   a produção  sua  e de  outros   escritores   do seu estado. Além disso,  Dílson Lages, como diretor  de um  já  respeitado  site  de literatura,  o Entretextos,  abriu, assim,  no Piauí, mais uma canal  de divulgação   de autores  piauienses. Seu trabalho,  fruto de sua vocação  para a vida  cultural,  merece  o respeito dos piauienses e o seu   mencionado site  constitui um  amplo espaço virtual, um verdadeiro fórum aberto a discussões de questões   e  a reflexões  multifacetadas sobre literatura e outros   temas culturais gerais graças  à qualidade  de  seus colaboradores. O objetivo primacial do Entretextos,   pelo menos para este colunista,  visa  a disseminar o conhecimento e a propiciar mais  visibilidade da produção   literária brasileira de forma democrática ..

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Nada sei


Nada sei

Neide Moscoso

eu
nem sei
jejuar nem
pedir perdão
vivo em devaneios
nem sei
dos sonhos dos sábios
nem rezo
com velas acesas
da minha alma
nada sei