quinta-feira, 16 de outubro de 2014

No Brasil, além da impunidade, da violência e da corrupção, agora, o ebola


No Brasil, além da impunidade, da violência e da corrupção, agora, o ebola


Cunha e Silva Filho


Não é de hoje que tenho  tido notícias da doença do ebola (em Portugal, dizem ébola). Nos meados dos  anos de 1970, tinha por hábito ler uma  excelente  revista  americana de orientação   evangélica denominada  The Plain Truth,  dirigida pelo norte-americano Herbert W.  Armstrong (1892-1986), Pastor e fundador da Worldwide Church of God, autor, entre outros livros,  de    Autobiography, volume 1. Não sei se chegou a publicar um segundo volume  da obra -  fruto de sua  grande experiência e tirocínio  como   doutrinador evangélico em âmbito mundial. Naquela  época,  li inúmeros  artigos  e reportagens na mencionada  revista que já  divulgava   as ameaças e os perigos  do ebola,  doença  mortal de procedência  do Congo (hoje Zaire). A revista  tinha certo relevo  porque,  embora   de viés  religioso-doutrinário,  ela reservava um largo espaço  para  discutir temas   de alta  importância para a humanidade e em clave de discussão   aberta e despreconceituosa. Sua assinatura era gratuita, a impressão de alta qualidade e os artigos  sobre  questões internacionais  eram valiosos  para a  época. Com a morte do seu líder Armstrong, houve a decadência, até à extinção  da  The Plain Truth.

As previsões do ebola,  ao lado de outras moléstias, como a gripe aviária ou  do  frango,  tinham  fundamentos, mas é bem  pouco  provável  que  o mundo   se  preocupasse com  ela. Por outro lado, nos inícios dos anos de 1980 iria surgir  o primeiro caso   de uma doença - a AIDS -  que iria se disseminar mundialmente matando   um grande  número  de pessoas, por contato sexual,  ou por  transfusão  de sangue, com grande   perdas de vidas  para  os hemofílicos e, no Brasil,  por isso mesmo  perdemos  figuras  bem queridas,  como  Herbert de Sousa,  Henfil,  Cazuza, entre tantos  outras. O curioso  é que essas doenças,  segundo  os especialistas,  estão associadas   a contaminação   proveniente  de animais, como  o macaco e até o morcego, se não me engano,  quando   usado  para alimento   do macaco.

O vírus se propaga com  facilidade,  e, para evitá-lo,  cumpre  usar todos os recursos atuais  de que dispõe a medicina  e  fornecer à sociedade  a orientação segura  dos infectologistas sem  alarmes  exagerados. A transmissão  já passou as fronteiras dos países onde  se identificaram  as primeiras vítimas fatais.

Num mundo que se tornou pequeno e profundamente   interligado   geograficamente,   não  é de causar surpresa que a doença  transponha  as fronteiras   dos países  onde foram  identificados  indivíduos infectados  que, lamentavelmente,  chegaram  a óbitos. Já deu  sinal  de ocorrência do ebola em  países  adiantados,  como   na Espanha,  na Inglaterra,   nos Estados Unidos e, agora,  ainda em  termos de  uma suposta ocorrência   no  Brasil, onde  do Paraná,   veio a notícia de uma pessoa com alguns  sinais  da doença e que foi  encaminhada para  um centro de referência  em infectologia do Instituto  Oswaldo Cruz.

 Desta maneira,   cumpre às autoridades  sanitárias  daqui  envidar todos os esforços  no sentido  de que  um simples   caso  se   transforme em   muitos casos. Todo o cuidado é pouco na vigilância  atenta  dos aeroportos, portos,  fronteiras  terrestres. 

Não há ainda uma vacina  que  seja   eficiente  no tratamento  da doença, ainda que,    detectada  em tempo,   haja  recursos   de medicamentos    que possam   bloquear    os efeitos   letais    e salvar vidas. Um dos procedimentos  é isolar-se  a pessoa   infectada e bem assim   dotar as equipes médicas de    todos os cuidados  possíveis   a fim de evitar que  sejam  também  contaminadas.

Já há uma bibliografia médica  imensa  tratando    teoricamente    dessa doença letal.   Urge que  o combate  a ela seja feito   em conjunto   e em âmbito mundial, sendo para  tanto   indispensáveis ações  imediatas e contínuas  da OMS. Somos, hoje, seres globalizados,  desenvolvemos   trabalhos humanitários além-fronteiras,   como os  médicos  que  enfrentam  o alto  risco de perder a própria vida para cuidar  de  doentes   no mundo inteiro,  especialmente em   regiões africanas  de extrema pobreza e de escassos  recursos da medicina, como os heroicos  “médicos sem fronteiras,” os trabalhos de missionários   que  também  enfrentam   perigos de doenças  em regiões  em confrontos  bélicos.  Outras  organizações  internacionais, sem fins lucrativos,     pelo mundo afora,   realizam   relevantes   serviços  em defesa dos seres   humanos,  sobretudo   de crianças, que são    os mais desprotegidos   e dependem tanto da ajuda dos adultos. 

Do meu ponto de vista, o ebola  já deveria,  a esta altura de  pesquisas  mundiais,   estar  com um   vacina  eficaz  contra  o vírus.  O ser humano é imprevidente em alguns casos  onde  não deveria ser,  por exemplo,  as doenças  mortais  que  podem  se transformar em  epidemia. O mundo, através dos países ricos,  ao invés de  investir em  armas  cada vez mais  destruidoras,   deveria   se dedicar  aos avanços  no campo da  infectologia. A palavra de ordem seria  “prevenção,” e isso se aplica a todas as nações desenvolvidas e em desenvolvimento, mormente no mundo contemporâneo, no qual,  segundo já  assinalei, os contatos  dos povos   são  quase imediatos  pelas facilidades  das viagens  intercontinentais.


O Brasil deve,  portanto,  estar  de olho atento a esse   problema de saúde pública,  principalmente para evitar  o mal maior,  o surto de   epidemia. Atenção aos responsáveis pelo Ministério da Saúde. Não se brinca com  doenças   mortais capazes de dizimar  milhares   de pessoas.        

RECONHECIMENTO



Reconhecimento

Luís Alberto Soares (Bebeto)

Posso não ser bom escritor
Mas preste atenção, por favor
Vou narrar que sou reconhecedor
De um incansável trabalhador

Trata-se do estimado educador
Bom mestre de muito valor
Que precisa de mais amor
Neste mundo de horror

Vamos festejar com fervor
O dia dedicado ao professor
Ele é grande empreendedor
Lição de dedicação e primor

Para o Piauí ser mais promissor
É necessário agir com vigor
Para cobrar de governador
As promessas ao professor

Como diz um grande doutor
Quando se fala de educador
É jus ele ser merecedor
De um salário compensador

Parabéns querido professor
Pelo seu ensino encantador
Em Amarante com muito amor
Você merece mesmo louvor      

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

DISCURSO DE UM DOIDO


DISCURSO DE UM DOIDO

Jacob Fortes

Quando, numa manhã aprilina, década de 70, transitava pela Rodoviária (que, naquela época, “valia por todas as esquinas que Brasília não tem”), deparei-me com um homem falastrão que fazia uma pregação desconexa. Valia-se de vocábulos e expressões que lhe emprestavam qualidades intelectuais. Evidentemente, não me foi possível memorizar tudo o que ele dizia, mas pude intuir o sentido da sua fala; retive a ideia central da sua elocução. Esquálido e com esgar de louco, dizia o homem imprimindo fervor à sua verdade; que lhe parecia redentora.
“— Sou o guardião desta cidade. Só tenho dez minutos para apresentar o relatório sobre o paradeiro da mala. Cadê a mala que se perdeu neste canteiro de obras? Juscelino não trouxe a mala. Trouxe candangos, com malas e matolões; também, os “malas-sem-alça”. Procurei a mala no porta-malas do Aero Willys do Bernardo Sayão; ele engrossou o rol das vidas ceifadas, mas ficou o seu Aero Willis na garagem. Reconheço o meu lugar; mantenho-me em vigília. O adversário de Juscelino não sou eu, é o Carlos Lacerda, que não confessa, mas anseia que um buraco de construção sirva de túmulo para JK. Agora caio em mim e percebo a loucura dos migrantes chegando com suas malas na cabeça, apressados, desatinados. Enquanto a cidade brota deste chão vermelho eu procuro a mala e não acho. Se eu não achar a mala irei denunciar à oficialidade. Não interrompa minha conversa sem pedir licença. Sou o historiador oficial desta cidade. Falo em nome do Presidente. Segundo a unanimidade dos relatos o que fez acender o estopim da insurreição foram as condições do acampamento....”.
Há sobre a terra tipos de pessoas a quem não se deve reptar. Os mais conhecidos são os acometidos de “delírium tremens”, (beberrões) e os loucos.  Da boca de ambos brota a insânia, o furor, o desvario, o estúrdio.  Mas doido, unicamente, são apenas os que, pelas vias ou logradouros, se detém em solilóquios ou cada um de nós é legatário do gene que afeta o controle da razão? Vamos pesquisar.
  — Qual sua opinião, Freud?
— Guardada as devidas proporções todos somos loucos, inclusive eu, Sigmund Freud. Não foi sem razão que prescrevi o brocardo: de médico e louco todo mundo tem um pouco
Sendo assim, e já que os loucos gozam do excludente de criminalidade, deixemo-los que se comprazam nos efeitos das suas loucuras. Afinal, tudo tem o seu sentido, inclusive a insensatez para tonificar o discernimento.        

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Política, a arte de dissimular


Política, a arte de dissimular

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

             “Nunca esquecerei que na retina de meus olhos tinha” graduado policial, acusado de crimes de pistolagem, preso. A caminho do julgamento, levantava a Bíblia e proclamava: “A justiça divina provará a minha inocência!” Precisa explicar o que significa o ato de dissimular?

         Agora, semelhante teatro aberto, sem julgamento nem condenação. Divulgados os resultados das eleições, início de noite, viam-se candidatos vitoriosos, frente às câmeras de TV, aos berros, feições embevecidas de inebriantes talagadas de bebida. Rolavam lágrimas, orações, louvores aos céus. Confessavam virtudes cristãs, consideravam-se vítimas do ódio de adversários. Abraçados, rezavam Pai Nosso, gritavam mais forte ao “assim perdoamos a quem nos tem ofendido”. Só não erguiam a Bíblia, assim ficasse mais perfeita repetição. Agradeciam à justiça divina as bênçãos alcançadas nas urnas, porque a humana é pífia. Em defesa dos interesses partidários e pessoais, pesa o bom papo, retórica melosa, embromação, hipocrisia, dissimulação e engodo. Acrescente-se velha marca de sabonete “vale quanto pesa” sobrenome, parentesco, pedigree, dinheiro surrupiado das verbas públicas ou do tráfico e assaltos. Levantem a Bíblia, proclamem o nome do Senhor, em vão. Um dia, a casa cai.

         Dissimular, ato de ocultar, encobrir com astúcia, não dar a perceber, não revelar sentimentos ou desígnios encrustados no espírito. O dissimulador nunca confessa mea culpa de suas mazelas. Sempre se faz de vítima. Sempre encontra um vilão: a crise internacional, as elites, golpistas, imprensa, FHC, imperialismo americano. Ou “eu não sabia de nada”.

         Conhece o truque para adestrar um animal malabarista? Dê-lhe nacos de ração a cada exibição. O animal fixa seu animador, porém o que lhe interessa é mais raçãozinha. E assim o show continua, bem como a submissão por uma merreca de comida. Eleitor ingênuo lembra animal adestrado, mas submisso a tiquinhos de sobrevivência. Qualquer cédula de cinquentinha compra um voto. Conhecido político confessava com cinismo, aos risos e deboche: “Povão não quer saber de obras públicas, mas de um abraço apertado, uma cachaça de graça, 10 reais, barriga cheia de arroz e panelada na feira. Quanto mais pinta de rico, melhor. Até vigário se dobra. Essa história de político correto só vinga na capital. Honesto não tem vez. Corrupto, malandro, arrebenta, tá eleito”.

         Dissimulação é a arte da sobrevivência dos mais fortes e valiosos em meio aos mais fracos. Não existe linha religiosa que defenda tão danosa política de convivência humana. A mensagem de Cristo é curta e grossa: “Seja o vosso sim, quando for sim; não, se for não.” Condenou o farisaísmo da elite da época, “sepulcros caiados por fora, mas a imundície por dentro”. Ou “dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. O dissimulador, imagem do Maligno, que acompanha a humanidade desde o princípio, no jardim do Éden. Que tentou o Mestre no deserto, prometendo-lhe poder e fortuna. E se serve, hoje, até do nome de Deus, para comover multidões, conquistar votos. As retinas de nossos olhos não se cansam de assistir a espetáculos que, se não cuidamos, cometemos maior pecado, o da cumplicidade. Pelo menos, no Brasil, a política virou espetáculo da dissimulação.        

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Será que, no Brasil, alguém merece o nosso voto?


Será que, no Brasil, alguém merece o nosso voto?

Cunha e Silva Filho

            Se política brasileira constitui uma soma de simulacros, em que as imagens dos candidatos  se constroem   graças à publicidade  enganosa,  a marqueteiros   vendilhões, a mentiras  trocadas entre candidatos e, agora,  no segundo turno,   a recomposição de candidatos que, antes   se   atacavam olho no olho  ou em  viagens  pelo  país  afora,  já começam  a  jogar seus papéis múltiplos    no ping-pong de partidos   de orientações   ideológicas  díspares e incompatíveis com os seus programas  de governo e metas a serem   atingidas  durante  seus mandatos, como  é que fica  a cabeça do eleitor sem  ponto  de apoio  seguro,  transparente, diante   de tanta   balbúrdia?
        O segundo  turno   gerou a bipolarização pronta  a vender a alma  ao diabo  desde que seja  o vencedor   dessa segunda rodada. Os antigos  inimigos  se tornam, agora,   amigos de  oportunismo porque, na peleja  renhida,  tudo vale  nas alianças feitas. Os  fundamentos   ideológicos  dos candidatos  se esfarelam,  viram   uma salada  mista,   um saco de gatos,  um samba do crioulo doido.
           No meio  desse mafuá  de  novas   combinações   estapafúrdias,   o país  continua  desatrelado das suas obrigações e compromissos  assumidos da candidata-presidente: aumento  dos preços,  novas revelações de  corrupção,  violência  calamitosa,   o estado de Santa Catarina  em  polvorosa,  com  explosões de violência,  ônibus   incendiados,  bandidos  à solta  teleguiados  por  ordens de   alto crime  cujas decisões  partem  dos presídios. O país está em baixa,  política, moral  e eticamente.  Até  os  eleitores menos instruídos  que, porém,  têm   experiência da vida e dos homens, me  dizem   em conversas  na  rua  que   o país  vai  mal,  que ninguém  acredita mais em  políticos  nem  em melhorias para a Nação,  que estão decepcionados  com  todos e tudo  que  traz o sinete  do que  chamam de política.
           A crise  política  é de  ordem  ética,  de falta  de confiança nos nossos homens  públicos. Vejam-se alguns candidatos  reeleitos para  a Câmara dos Deputados ou para o Senado.  Vejam que os mais  bem  votados   nada podem  representar   de útil  ao país; são oportunistas  que,  por  pertencerem  à mídia  cultural,  são feitos   deputados e senadores. O pior: esses candidatos, durante  os mandatos   anteriores,   nada  fizeram  pelos  seus estados. Fizeram, sim,   para si  mesmos, ou seja,  para se   beneficiarem  das condições de marajás – condições  estas   que  não mudaram  desde os tempos   do Collor que,  por sinal,   foi  eleito  senador.
                   Transformamos a eleição  num  espetáculo  circense, no qual os eleitores  estão  presentes ao voto  para  se divertirem   com o próprio  cinismo  e falta   de auto-respeito.
        Não vejo  o voto nulo,  o  voto em branco  como  falta  de  atitude  cidadã.  Esse comportamento do eleitorado  tem sua razão de  ser: ele  espelha  a náusea que  cada um sente  pelo que  está  vendo acontecer no país. Ele sabe que,   ao se eleger  um   político para defender os   direitos  e  atender   aos anseios  da sociedade,  nada se concretiza das promessas   falaciosas  do que afirmou  na campanha.  Foram palavras ocas,  sem substância,  sem  o peso da verdade.
       Essa postura negativista  do eleitorado  é um sinal de alerta  ao sistema democrático  que, assim,  é posto  em dúvida  no que concerne à sua  validade. Quando  o embuste,  a mentira,  a falsidade,  e mormente  o cinismo   se tornam  moeda corrente entre  quem   abraça   a política  por  oportunismo   e interesses pessoais,  o nível de   ceticismo,  de  descrença do eleitorado   ascende  a proporções  alarmantes e perigosas  para   os alicerces da democracia  e se torna  presa fácil  para o arrivismo populista  ou messiânico, ou senão para  lançar os incautos  à fogueira  dos  regimes  de força  de triste  memória,  não só no Brasil como em outros  países.
         Não se pense  que as manifestações –  compreenda-se, as pacíficas -  do ano  passado  contra   os erros da  política  brasileira, contra a corrupção  e outros  males nacionais foram  em vão. O  futuro  governante   da Nação  não pode nem deve subestimá-las. Elas  permanecem como um vulcão   pronto a entrar em  erupção novamente e com mais  poder de  força caso  não sejam   solucionados  os  graves  problemas   do país.
          O “homem cordial”  brasileiro tem suas complacências,  seu   lado  pacífico  e  ordeiro, mas,  se sentir   aviltado,  esbulhado em suas  justas  reivindicações,    saberá como agir sem violência nem depredações,  mas com a  firmeza  da massa  indignada contra os desmandos  do poder   arbitrário. E o mesmo vale para  todos  os  três poderes constituídos.   Lembrem-se os futuros governantes que  o mero  fato de  conquistar mandatos  políticos  não  lhes faculta    o  uso  do autoritarismo,  da prepotência,   da  enganosa  ilusão que, no exercício do poder,  possa arvorar-se  em   donos” do poder. A soberania  da nação  é apanágio  do  povo, não  de   políticos   de plantão.
         O merecimento de nosso  voto  está  em estreita dependência  dos valores  morais, da integridade , competência  e do  real  desejo de os políticos   propiciarem  o bem-estar da   sociedade. 

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Café Literário: José Inácio & Chiquinho Garra


“EU NUNCA COMI PUDIM”


“EU NUNCA COMI PUDIM”

Jacob Fortes

O relógio do carro marcava 21 horas quando eu atravessava uma povoação rala encravada numa região exsicada do Nordeste brasileiro. Neste comenos, a agudez dos meus sentidos dizia que havia algo à frente. Levantei a luz alta do farol. O vulto adiante se fazia parecer a um veículo; enguiçado.  Levantei novamente o farol: era uma carroça a passos de tartaruga, puxada por um jumentinho ruço. Sobre o estrado da carroça um ancião hirsuto, mal-amanhado, e dois meninos, ambos descamisados e cabelos espeta-caju. A particularidade dos meninos cingia-se às suas cabecinhas de arroba que faziam lembrar miniaturas de alienígenas. O conjunto da cena, transporte e passageiros, tinha contornos que se prestavam a certificar tanto a miséria patrimonial quanto a sublimidade daquela família: avô e dois netos. Parei ao lado do carroceiro e enderecei-lhe um efusivo cumprimento de boa-noite. Ele respondeu espontâneo e prazeroso.
— Para onde o Senhor vai a essa hora da noite? Perguntei.
— Para Santa Rita, respondeu o Ancião.
— É longe daqui?
— Uma légua beiçuda.
— Essas crianças já jantaram?
— Nhô não.
— Há, nesta localidade, alguma padaria?
— Lá naquela luz encarnada vende pão.
— O senhor aceita uns pães.
— Se o for dado aceito, os bacorinhos tão com fome.
Derivei o carro à direita dizendo: queira me acompanhar até a padaria.
Enquanto comprava os pães, e refrigerante, ocorreu-me perguntar às crianças.
— Do que vocês mais gostam de comer?
O maiorzinho, seis anos aproximadamente, olhar mortiço, baixou a cabeça e nada respondeu. O menorzinho, talvez uns quatro anos, olhar desprevenido, como, aliás, são os olhares infantis, disse apenas: “eu nunca comi pudim”. A resposta nublou de tristeza a minha alma não exatamente por causa do pudim, mas porque aquela resposta realçava a recorrente constatação: “uns com tanto, outros com tão pouco”.  Enquanto famílias, pacatas — que habitam, anônimas, as vivendas rurais do Brasil — vivem abaixo do principal, e não maldizem o fado que lhes cabe em sorte, comunidades pracianas se esgoelam quando lhes falta o secundário. “Uns choram porque apanham outros porque não lhe batem
Fiquei devendo o pudim, pois o mistifório de gêneros, onde também se vendia pão, (quiçá sapato para galinha), não tinha a iguaria tão desejada por aquela criança. Paliei o seu desejo com uns bombons.
Almejo que as bênçãos divinas recaiam em messe sobre aqueles meninos, (ecos da minha meninice), assim como incidiram fartamente sobre mim. Que Santa Rita os conduza pelos melhores caminhos, mormente os da escola. Evidentemente que o poder sobreceleste precisa de uma ajudinha terreal: que a corrupção seja exonerada da odiosa função de coadjutora das iniquidades sociais.  

domingo, 5 de outubro de 2014

Seleta Piauiense - V. de Araújo


POEMA TERRA

V. de Araújo (1950)

Não me pergunte, moço,         

de onde eu vim nem para onde eu vou...

Eu sou daqui deste solo onde o sol,

o ano todo e todo o ano,

incide sem piedade;

deste barro cor de sangue

que, no tardio inverno,

se transforma em lama,

em cobertores, em tapetes de piçarra.

Não se preocupe, moço,

porque jamais negarei que sou deste chão,

que sou seu vizinho, que sou seu irmão,

e não nego o ar que respiro,

o feijão que comi, o cuscuz que cozi,

a rapariga que amei, a rapadura que roí,

e que, um dia, não comi

o pão que os deuses prepararam

e o diabo endiabrado amassou.

Eu sou deste chão, moço,

deste solo onde o homem encobre,

com o gibão de couro,

o couro que o patrão tirou;

deste chão onde o vaqueiro,

com sede, com fome,

abóia, canta e encanta...

enquanto a serra, Serra Negra,

como espelho mágico,

no recolher da boiada,

no despertar da coruja,

reflete o eco de sua alma;

deste solo que nutre com fogo,

com ferro... a vida do homem

que caça caçado, cansado,

o sustento da família.

Eu sou deste chão minado de mistérios,

onde as promessas são

o alimento dos ingênuos,

a desilusão dos velhos,

a esperança dos jovens

e o futuro incerto das crianças.

Por que me julgar se ando descalço,

se masco fumo, se tomo pinga,

se cuspo no chão?!

Será que tenho culpa se não me ensinaram

dominar a pena, lavrar a palavra,

ou desbastar a Pedra Bruta com que me deparei?!

Eu sou deste chão, moço,

deste solo onde você também nasceu...

do Parnaíba, da Parnaíba, do Igaraçu,

da Ilha Grande(de Santa Isabel);

da Barra Grande, da Atalaia ou Amarração,

do Coqueiro e da Pedra do Sal.

Sim, eu sou dali do Portinho

e conheço, muito bem, os mistérios das dunas,

o açoite dos ventos, o enigma dos mangues...

Comi caranguejo no Porto das Barcas,

ao crepúsculo, poemei a bela Estaiada,

fiz serenatas pra Ponte Metálica,

do Flutuante, flertei com Floriano,

convivi com a miséria na Ponte do Poti.

Mais que muitos, eu bem conheço a vida...

Na Paissandu, Osiel disse que o Tantan já foi “Estrela”,

“Fascinação”, pra mim não é nem foi “Helena”,

“Zélia do Rancho”, eu vi com “Bete” e “Margarida”,

“Maria das Neves”, eu conheci lá na Guarita

e , do “Monte Carlos”, “Meia-Noite”, divisei “Casa Amarela”.

Eu sou deste chão, moço,

de Therezina, cajuína, linda Esperantina...

e, no 4 de Setembro, no Teatro de Arena,

fui Romeu de Julieta que o vento levou.

Na Serafim, fui Rei Momo com a Nicinha,

preparei minha banda no Fundo de Quintal,

desfilei com o Paturi, Jaime Doido e Manelão...

e, no Troca-Troca, troquei sonho,

num dia de Carnaval, na Avenida Maranhão.

Eu sou deste chão, moço...

Já ouvi, de Herculano, “Murmúrios ao Vento”,

“Na Boca do Vulcão”, flagrei o Nelson meditando,

Ramsés, fatigado, eu vi... no “Percurso do Verbo”,

Zé Lorota e Dona Nilza encontrei filosofando,

de “Piripiri, à Sombra de Buganvílias e Madressilvas”,

vi Cléa Rezende, na Espanha, despertar Salamanca;

sob a brisa equórea, fui ver com Paulo a “Paz do Pântano”...

e, “Entre Caminhos”, com Ednólia, fui platônico

e declamei pra ela os “Poemas Que Neguei”.

Com o Júnior, filho meu, conheci harmonia,

disse-me Lucas: A vida sem Deus é jardim sem flores...

e, sozinho, com sua lanterna de ouro, vi Diógenes,

à procura de um HOMEM... em pleno meio-dia.

Com “Os Cavaleiros da Noite”, cavalgando, eu vi Garcia,

aprendi, com H. Dobal, viver “O Dia Sem Presságios”,

conheci Mauro Faustino – “O Homem e Sua Hora”,

penetrei com Hardi Filho, na “Gruta Iluminada”...

e, na piracema do verso, pescando ilusão,

feliz naveguei, com Chico Miguel, no “Universo das Águas”.

Eu sou deste chão, moço, e me orgulho...

Já trabalhei com Cineas na Oficina da Palavra,

de Da Costa e Silva, ainda sinto a “Saudade”,

de Leonardo das Dores, “A Criação Universal”,

segredo do mundo, não é mistério pra mim;

e, na Prainha, antes que se acabasse,

Kenard, “Pra Dizer Adeus”, chamou Torquato

que fez pra ela uma grande “Louvação”.

Palmilhei, com Assis Brasil, “Beira Rio Beira Vida”,

no “Rio Subterrâneo”, mergulhei com O. G. Rego,

andei, com Ibiapina, sobre “Palha de Arroz”...

Rubervan foi quem me disse que se “Grito, Logo Existo”

e decorei o arco-íros com os “Cromos...” do Elmar.

A declamar, aprendi com o Chico Castro,

com o RAL, Teresina, aprendi a versejar;

fui menestrel com Tito Filho, Alcenor e Adrião,

o Livro da Lei conheci na Igreja do Tony,

pra mim, Monsenhor Chaves disse que Cristo há de vir...

e sob o pulsar da Estrela Flamejante,

Luiz Rocha me ensinou “Saga da |Terra”,

e as coisas folclóricas lá do Médio Itaim.

Declamei poema na Praça da Graça,

da carnaúba, vendi linho pro Mestre Joaz,

conheci Fidié no Colégio de Maria da Penha,

descobri que Deus habita no Delta Sagrado,

sou profeta do amor de Otacília, amada mãe,

lídimo apóstolo das palavras do meu pai.

Bebi água do Barreiras, do Ingazeiras, do Caldeirão...

tomei banho na Cachoeira do Urubu,

decifrei os símbolos da Serra da Capivara,

conversei com os Fenícios em Sete idades...

conduzi, no lasso ombro, Santa Cruz dos Milagres,

e lutei, e morri, e venci, e vi o meu sangue,

ali no Jenipapo, naquela tarde sangrenta,

regando as plantas e pastagens

e alimentando os carnaubais

dos verdes campos de Campo Maior.

Eu sou deste chão, moço,

de Cristalândia, de Corrente...

Orei contrito na Igreja de Picos,

joguei tarrafa no Rio Guaribas,

comprei cebola, alho e milho

na grande feira que nunca esqueci.

Eu sou de Oeiras onde a Santa Padroeira,

de braços abertos, no cume do monte,

abençoa os poetas, o povo pacato

que habita a cidade.


Eu sou daqui de Valença onde a crença

habita o coração de qualquer um;

dali de Aroazes, do Beco, do Bambu...

e, no Barreiro da Velha Ana,

vi o Zuca imitar Luiz Gonzaga na sanfona,

o Benedito Quinaria cuidar da terra,

em sua roça, Joana e Ana plantando cana,

enquanto eu namorava a serra

que vigia e protege a terra onde nasci.

Eu sou deste chão, moço,

onde o Cabeça-de-Cuia,

no Encontro das Águas,

é o tormento das Virgens;

onde o Judas, no Sábado de Aleluia,

é massacrado, queimado...

e cumpre sua sina,

enquanto o Bumba-Meu-Boi,

nos Festejos de Junho,

alegra as Noites de São João.

Eu sou deste chão, moço,

desta terra onde a relva

renasce e morre todo o ano...

como se quisesse dizer aos homens

que a vida é um ciclo
 e que o  começo é o princípio do fim.     

sábado, 4 de outubro de 2014

Cinismo de candidato, cumplicidade do eleitor


Cinismo de candidato, cumplicidade do eleitor

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

             A campanha eleitoral encerra-se, aliviando a esgotada paciência do eleitor. Candidatos, que tentaram açucarar a retórica do discurso da fé e temor de Deus, mas vestindo roupas inadequadas para participar do banquete democrático, não convenceram. A parábola evangélica do banquete nupcial cai bem nessas horas, porque “muitos são chamados, mas poucos os escolhidos”. Candidato ficha-suja, que exibe cândidas virtudes, contradiz-se, diante de flagrantes condutas de corrupção. Não merece comparecer ao nobre banquete da democracia. Se o eleitor lhe vota, comete o mesmo crime de cumplicidade e traição à pátria.

                252 candidatos a cargos eletivos, em todo o Brasil, estão barrados pela Lei da Ficha Limpa em 2014. De acordo com a Lei, ficam inelegíveis os candidatos que tiverem suas contas rejeitadas por ato intencional (ou “doloso”) de improbidade administrativa, quando exerciam cargos ou funções públicas, ou que foram condenados por determinados crimes em órgãos colegiados. Os eleitores conhecem bem as figuras, porquanto a imprensa tem divulgado, exaustivamente, os fichados.

      Durante os debates promovidos por canais de comunicação, foram execrados por adversários. Então, por que continuam a tripudiar, por anos seguidos e mandatos conquistados, a dignidade nacional? Só se encontra uma resposta: cumplicidade de eleitores e autoridades, portanto conduta antiética e condenável.

      A rejeição da candidatura não tira o político da corrida eleitoral. Permite que ele siga com a campanha até a votação, caso não tenham se esgotado todas as possibilidades de recurso. Se eleito, toma posse. Se a situação dele não for regularizada, seus votos serão considerados inválidos, mas o percurso é longo e proveitoso para continuar no poder. Eis aí um túnel nebuloso, por onde todo tipo de malabarismos jurídicos quase sempre resulta em impunidade, embora a custos altos com advogados. O preço de uma liminar, por exemplo, chega à estratosfera. O acusado, já eleito e desfrutando das benesses do poder, encontra as fontes de onde tirar dinheiro para sua defesa nos tribunais. Ele se encontra na dolce far niente vida de eterno repetidor de mandato, aplaudido e eleito pela ignorância popular, e um exército de cabos eleitorais generosamente pagos.

         O grupo Ficha Suja, conhecendo a impunidade via Recursos na Justiça, segue, com deslavada cara de pau, o "Vai que Cola!", ou “na miúda”, sem aparecer na mídia, esperando serem esquecidos. Eleitor, já acostumado a conviver com a classe política Ficha Suja, cada vez mais tende a se tornar complacente e generoso, abraçando e votando nos impunes. Mais vergonhoso acompanhar jornalistas que jogam confetes por jabás generosos. A impressão de que a sacanagem virou moda na era do “que é que tem?”.

        Cidadãos do bem encontram-se acuados, vendo o barco da decência à deriva, em mares bravios da impunidade. A sensação é de puni-los é não votar neles. Um gigantesco exército do NÃO à impunidade.                   

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

GRANDE NOME DA EDUCAÇÃO E CULTURA DE AMARANTE

Luís Alberto Soares (Bebeto)


ISABEL MARIA SOARES DA COSTA CARVALHO, mais conhecida como professora Isabel Pio, amarantina que marca muita história no cenário educacional e cultural de Amarante. É considerada uma das melhores professoras e conhecedoras da cultura amarantina. Portadora de um vasto currículo, inúmeros cursos, entre eles, Licenciatura Curta em Ciências (UFPI); Licenciatura Plena em Português; Especialização em Ensino Superior. Funcionária pública estadual em Amarante. (aposentada). Coordenadora Geral da UESPI, Pólo de Amarante por sete anos (governo de W. Dias). Ministrou relevantes aulas na referida universidade e em outros colégios da rede estadual.  Professora em São Francisco do Maranhão e de um colégio particular de Amarante. Professora Isabel sempre representou Amarante nos encontros educacionais e culturais. Presente nos grandes acontecimentos que envolvem seu município.  As virtudes da educadora só fazem nos orgulhar. Trata-se ainda de uma figura simpática, atenciosa, prestativa e querida por todos. De fino trato no português; de inteligência e dedicação inquestionáveis. Vale ressaltar que a conceituada professora Isabel é esposa do simpático comerciante e político, popular Chico Noca. Do matrimônio, inteligentes filhas: Lívia Maria, Beatriz e Clarissa.        

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O POETA E O INSETO


O POETA E O INSETO

Elmar Carvalho

Uma música longínqua
e melancólica cria ressonâncias
na concha acústica de minha alma.
A bebida eu a tomo em longos goles.
Um inseto pousa sobre
a mesa e me faz companhia.
Sorve um trago da porção/poção
(derr)amada. E se embriaga.
A tristeza imensa me deixa cruel:
enxoto o pobre inseto bêbado que
ensaia um atropelado vôo. E cai.
A tristeza continua a crescer e a cair
em minha alma como infiltrações de estalactites
em (f)urna mortuária ..........................................