segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Edson Guedes de Morais - contista e editor


Na quinta-feira recebi os livros Lúcio Cardoso (1912-1988), Paschoal Carlos Magno – Poeta, Augusto dos Anjos (1884-1914), Vernissage no Bar do Joaquim, Encrave, Ele e sua propriedade e Ménage?.., os quatro últimos da auditoria de Edson Guedes de Morais. Todos publicados por Edson, através de sua editora – Editora Guararapes EGM, que gentilmente me enviou essas importantes obras.

            Tinha conhecimento da importância dos dois primeiros autores, mas praticamente não os conhecia como poetas. Constatei que eles são grandes poetas, embora hoje quase esquecidos, pelo menos na área da poesia. Como muita satisfação irei reler o grande Augusto dos Anjos, que tenho relido, tanto através do Eu e outros poemas, como através das antologias de que ele faz parte. Constato agora que Edson Guedes de Morais é um exímio contista, conciso, exato, preciso.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

AUTO-APRESENTAÇÃO


AUTO-APRESENTAÇÃO

Elmar Carvalho

eis como sou
            neste instante único
            (após o qual já
            serei um outro):

um homem que rema
            no seco contra
            a corrente das águas

um homem que usa
            a gravata como
            se fora um baraço
            nas horas de opressão

um homem que escreve
            torto por
            linhas certas

um homem que sobe
            e teima contra
            a lei da gravidade

            eu sou aquele
que aprendeu
a pecar para
ter a humildade
de não ter uma
virtude

            eu sou aquele
que jogou roleta
russa com o tambor
cheio de balas e
apostou contra a
sorte
           
           eu sou aquele
            que lutou para
            não ser   

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Café Literário - homenagem a Isis Baião & Lygia Fagundes Telles


A pedra dos maus exemplos


A pedra dos maus exemplos

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

            “No meio do caminho tinha uma pedra ... Nunca me esquecerei ...na vida das minhas retinas ...tinha uma pedra”. Mais que uma pedra, um enorme e roliço moinho de pedra, de uns cem quilos.

Cafarnaum, cidade à beira do Mar (Lago) da Galileia, hoje um sítio arqueológico. Restos de construções milenares, inclusive a sinagoga onde pregou Jesus. O Mestre e os apóstolos residiam em Cafarnaum. Sermões, milagres e expulsão de espíritos malignos atraíam curiosos. Pela Via Maris passavam comerciantes e produtos do Oriente na direção do porto e do Egito. A missão de Jesus abrangia gente de toda parte e credos. Cafarnaum alfandegária, consumista, guarnecida por tropas romanas, prostituída, escandalosa, mercantilista. Jesus predisse a destruição de Cafarnaum, Betsaida e Corazim, centros de imoralidades. Cumpriu-se a profecia.

Sentei-me no moinho de pedra, pus-me a contemplar o mar de água doce refletindo-me passagens bíblicas. Moinhos serviam para esmagar azeitonas e extrair-lhes azeite. Jesus abraçando uma criança, diante do moinho arredondado de pedra, o Lago, multidão de gente a ouvir-lhe terrível e ameaçador sermão: “É possível que haja escândalos, mas ai daquele por quem eles vêm. Melhor atassem um moinho ao pescoço de um desses pequeninos e o lançassem ao mar. Tomai cuidado vós mesmos” (Lucas, 17).

Apesar dos esforços para se preservar a inocência e o pudor, crianças e adolescentes tornam-se reféns de escândalos e maus exemplos. Redes sociais, revistas pornográficas, familiares sem princípios éticos, músicas e rebolados que exaltam sexo, prostituição; artistas flagrados ou mortos por overdose. A modernidade rola uma pedra de moinho que mói inocências, usurpam-lhes a mais sagrada virtude: a pureza angélica do espírito.

Um site americano pesquisou 2.400 pais sobre quais celebridades mais serviam de mau exemplo às crianças. Para surpresa, os mais colocados: cantor Justin Biebar e Miley Cyrus (da Disney) ídolos do público infanto-juvenil, por provocarem presepadas, infidelidades, arrogância, até falta de talento. No Brasil, pesquisa similar incluiria barbaridades de forrozeiros medíocres, assassinos da língua, puteiros, prostitutas seminuas, refrãos desqualificados. Além de governantes, empreiteiros e políticos envolvidos até o gogó nos escândalos e maracutaias. Ainda participam de cerimônias religiosas e juram fidelidade à pátria. Cafarnaum, Betsaida e Corazim perdem feio. Pelo menos, ali se converteram pescadores em apóstolos da bênção; comandante romano em fiel a Cristo, a prostituta de não sei quantos espíritos malignos em zelosa obreira.

Em vez de jogarem pedra nos defensores da decência, é hora de sentar-se nos moinhos roliços e auscultar o discurso brabo do Mestre. Senão, quem merece ir pro fundo dos infernos são os cúmplices dos maus exemplos. Pedras no meio do caminho causam tropeços aos corações nobres e inocentes.   

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

LAGOA DO PORTINHO – UMA MORTE ANUNCIADA


A triste realidade de agora


5 de fevereiro   Diário Incontínuo

LAGOA DO PORTINHO – UMA MORTE ANUNCIADA

Elmar Carvalho

A partir de 2010, quando a degradação da Lagoa do Portinho se fez notar de forma mais acentuada, os mais atentos e antenados puderam compreender que, se o Poder Público não adotasse medidas sérias em prol de sua preservação, essa laguna seria inexoravelmente extinta, o que é muito lamentável em razão de sua beleza ímpar.

Não há, a meu ver, que se falar em seca; secas sempre existiram, e a lagoa sempre se manteve na plenitude de sua beleza, alimentada pelo rio Portinho, que lhe dava a água e lhe deu o nome. O certo é que as providências nunca foram tomadas e hoje ela se encontra praticamente morta, com os bancos de areia expostos, ao longo de sua bacia.

Pelo que tenho lido e ouvido e observado, creio que a causa de sua decadência foi a degradação do rio Portinho, que lhe deu origem. Esse rio sofreu, certamente, ao longo de toda a sua extensão, problemas causados por desmatamento, queimadas, barramento e retiradas d’água, seja para fins agropastoris, seja para criatórios de camarão, além de outros malefícios, provocados pelo ser humano. É possível que as suas nascentes também tenham sofrido algum prejuízo pela ação humana. O fato é que a degradação desse curso d’água provocou a da lagoa. Dizem os entendidos que ela era mais bela, em sua plenitude, que a do Abaeté, tão enaltecida pelos poetas e compositores baianos.

Eu a conheci quando ela ainda se encontrava no auge de sua beleza, quase selvagem, quase intocada. Foi amor à primeira vista. Encantei-me com a sua magnífica formosura. E a cantei em meus versos, pelo menos em dois poemas antigos, escritos há aproximadamente três décadas. Eu os escrevi sob o impacto do esplendor de sua paisagem mágica, encantada.

Em 1981 ou 1982, com sua paisagem ainda exuberante, e ainda se mantendo como um notável santuário ecológico, nela comemorei minha aprovação para o cargo de fiscal da extinta Sunab. A Fátima, então minha namorada, me deu um carneiro e o Canindé Correia patrocinou uma caixa de cerveja, de sorte que praticamos essa festiva libação à beira dessa "lagoa de águas plúmbeas", como gostava de dizer o jornalista Rubem Freitas, sob um de seus copados cajueiros. Estavam presentes alguns amigos, a maioria ligada ao jornal Inovação.

A primeira vez que a vi foi em 1978 ou 79. Tinha ido à praia de Atalaia, que gostaria de chamar de Amarração, de amar, amarrar, atracação e ação, ação também de amar. No retorno, o Reginaldo Costa resolveu seguir para a Lagoa do Portinho, e eu o acompanhei em minha motocicleta. Deslumbrei-me com o fascínio do lugar.

Na época, só existiam, salvo engano, duas rústicas churrascarias. Uma verdadeira floresta de cajueiros lhe ornava grande parte da orla. Do lado oposto, ao longe, as dunas se erguiam, majestosas e magníficas. Nessa época, poucas pessoas possuíam veículos, e não havia linha de ônibus com destino à lagoa, de modo que relativamente poucos parnaibanos e turistas a conheciam.

Ainda no final dos anos 1970, eu, Bernardo Silva, Paulo de Athayde Couto, Rosângela Santos e outra pessoa, cujo nome não recordo, fomos fazer uma espécie de piquenique à beira da lagoa. Seguimos por uma trilha, que acompanhava a sua margem, por entre os frondosos cajueiros, então abundantes, até alcançarmos as dunas mais altas. Ninguém nos incomodou, mas logo retornamos, expulsos por um festival de mosquitos, que estavam insuportáveis e sanguinários.

A partir de então, com relativa assiduidade, quando eu voltava do mar, ia “retirar o sal” nessa lagoa. Numa das vezes em que lá estive, no final dos anos 70, a natureza foi deslumbrantemente caprichosa. Quando cheguei o sol brilhava como nunca, mas de repente, muito mais que de repente, o céu se fez nublado, e uma chuva fina, mansa, começou a cair. Logo depois o chuvisco cessou, e o sol voltou ao seu esplendor ainda com mais intensidade. De repente era calor, repentinamente houve frio.

As dunas e as águas da lagoa acompanharam essas mudanças de temperatura e luz. Tomaram diferentes tonalidades, e ora reverberavam ao sol intenso, ora se mantinham discretas, como se estivessem em penumbra. Para maior encantamento, estava na churrascaria uma bela jovem “de sinuosas dunas e viagens”; os seus cintilantes olhos claros, não sei se verdes ou azuis, “furta-cores furtaram / outros tons e sobretons”, como expressei no meu velho poema Mulher na Lagoa do Portinho. Os relevos, entrâncias e reentrâncias, enseadas e istmos da moça pareciam projeções das dunas da lagoa, ou as dunas é que seriam projeções da ninfa, já não sei ao certo. O certo é que foi uma tarde encantada.

Em outro poema, também antigo, justamente intitulado Lagoa do Portinho, em versos emotivos e sentimentais, tentei exaltar, com ênfase, mas com a verdade, toda a beleza, toda a magia, todo o feitiço desse extraordinário patrimônio natural. Agora, pranteio a sua (quase) morte, e como Raquel, no texto bíblico, sem aceitar consolação, porque a lagoa já (quase) não existe.    

P. s.: Acrescento ao meu texto o excelente comentário do professor Cunha e Silva Filho:
“Leio, com um sentimento de indignação que, hoje, é tão comum a uma grande parte dos brasileiros, o seu portentoso texto memorialístico, um dos que mais me encantaram nas minhas muitas incursões pela sua poesia.
Vejo que ele, com certeza fará parte de seu livro prometido livro "Diário incontínuo'.
Me surpreende um fato curioso e digno de atenção: os poetas protestam contra as injustiças do mundo, em poesia ou prosa, diferentemente dos jornalistas, ensaístas e críticos. Onde haveria uma expressão duramente empregada, encontramos uma manifestação indignada mas não raivosa, não panfletária.
Julgo que essa forma de protesto contra os desmandos dos homens , do s governos, dos políticos é algo inerente a quem cultiva a poesia. Assim o fez Carlos Drummond de Andrade, assim o fizeram outros poetas brasileiros, inclusive H. Dobal.
E V., Elmar, escreve, com firmeza mesclada de suavidade, esta crônica-memória de denúncia, de desassossego diante da impotência que os escritores sempre e de certa maneira tiveram ao defenderem tantas causas públicas, em tantas questões da vida social, ecológica, ética, política, histórica, de injustiças sociais.
Creio que essa é a forma em que os poetas mais poderosamente podem exprimir sua insatisfação contra os erros humanos sempre tão recorrentes.
Ao descrever e ao relatar fatos memoráveis que lhe ficaram na memória para sempre, V. está justificando as razões do descaso público e privado que levaram a esta situação imperdoável de quase "falecimento" da Lagoa do Portinho.
Se a sua crônica é cheia de exaltações sobre a Lagoa, se ela capta os pontos mais aprazíveis e encantadores que possui é porque o poeta subliminarmente está bradando contra a morte desse recanto deslumbrante da natureza de Parnaíba, dádiva divina ao Piauí e ao país.
Drummond nunca ficou sereno com o que fizeram com Sete Quedas, nem tampouco V. o ficará com a morte da Lagoa do Portinho. Nem V. nem outros piauienses, nem os brasileiros em geral que preservam a natureza brasileira.
Se o seu grito de desespero se oculta pela contemplação da paisagem vista tantas vezes e que ficou para sempre nos escrínios da memória física e lírica de seu mundo artístico interior é porque a sua indignação, como poeta e como brasileiro é algo que não se pode silenciar. Nem isso tampouco é da natureza dos poetas.

Cunha e Silva Filho"    

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Bons motivos


Bons motivos

Neide Moscoso

tenho bons motivos
de quebrar paredes
conflitantes
de bares repletos
em ambientes ruidosos
na noite de chuva
e automóveis coloridos
transgredindo o asfalto
em voos metálicos
escapo na busca libertina
no desejo de avançar
levezas nas perdas e
quase que em paz
fico com as escolhas
que acertei  

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A INJUSTIÇA, SEUS MALES E ALGUMAS SOLUÇÕES


A INJUSTIÇA, SEUS MALES E ALGUMAS SOLUÇÕES
      
Cunha e Silva Filho

          Só quem já sofreu  injustiça  sabe o quanto  ela machuca,  decepciona,  acabrunha,  causa indignação   e é deletéria. Entre os males humanos, a injustiça é a que provoca  mais  censura   em qualquer parte,  em qualquer circunstância da vida.
        A ação injusta penetra todos  os ângulos da vida  social,   coletiva,  comunitária,  nacional  e internacional. Veja-se um  exemplo típico: a injustiça  da fome  mundial ainda  neste  quinze anos  iniciais do  século.  Em regiões da África, das  Américas (incluindo  o nosso  Brasil)  grassa  como  um  câncer, ceifando  sobretudo  crianças,   animais,  o homem. Este quadro de  desumanidade se torna mais    reprovável, para  dizer  o mínimo,    quando  sabemos  que a  riqueza do  planeta Terra está  nas mãos de  1% dos  chamados   milionários!
      Temos  organismos   internacional para  cuidarem da   diminuição  da pobreza, ou melhor, dos que   se situam abaixo do nível  desta? Sim temos, e, por mais que  façam,  o mal  da fome  resiste. A razão  primaria  para   esse permanente   estado de miséria não é fácil de  localizar: encontra-se no fator  econômico,  ou seja,  nas desigualdades   criadas  pelos  sistemas   de governo das nações, pelo descaso  global  contra a educação mundialmente  considerada  pelos  organismos   internacionais,  pelos desvios  de dinheiro  através  da corrupção    generalizada, sobretudo  em  países de baixo  nível de escolaridade.
    Outros   fatores   pelos  quais  a  fome  não  foi ainda  extirpada em tempos  de progresso e  tecnologia  tão complexos e avançados  - contradição   extrema! -  podem ser   identificados   na questão do individualismo   dos países,   nos gastos   com   armamentos   de ponta que só servem a um  fim : a destruição da Terra. Falta, a meu ver,   um gigantesco  projeto  supra-nacional que se  encarregaria  de   estudar   com  profundidade,   sem  condicionamentos  políticos,  ideológicos  e religiosos. É factível isso? É, sim.
   O tratamento  que agora  se deveria  dar aos problemas  gravíssimos mundiais  tem que passar  por questões  envolvendo  o meio-ambiente,  a climatologia,   o espírito desideologizado e uma  mente  global   insubmissa  às contingências fortemente  nacionalistas.   É claro que não  estou   advogando   a ideia de que   o  planeta seja  conduzido  por um  órgão  que determinasse e se imiscuísse  na soberania dos povos, mas um   organismo supra-nacional que  fosse  presidido  apenas  pelo espírito  de natureza humanitária,  sem  populismos,   sem  laivos  de  imperialismo  ou  de grande  potência   dominadora    como   no século  passado  tivemos e mesmo,   de formas diferentes,  em séculos   da História  dos povos.
    Eliminar  ou amenizar  suficientemente a injustiça, creio,  teria que  passar  por  essas mudanças de cunho  humanístico na   condução  dos destinos   do homem  no  mundo.
  Esquecer  a gravidade do  problema da fome, da pobreza, da injustiça, enfim,  considerada  em  todas as suas manifestações – e são inúmeras -  infra-estrutura do Estado,   saúde,  educação,   a questão da violência, a impunidade, a infância abandonada, a desagregação familiar, a corrupção,  a politicagem, a  incompetência  de governantes,  a desídia  em  lidar com  a coisa pública, a malversação   do dinheiro  público,  o individualismo    exacerbado das pessoas   de alto  padrão  de vida, o consumismo   excessivo,  a falta  de uma dimensão   espiritual ("the missing dimension") de que  já falou  um  pastor  americano, Herbert W. Armstrong (1),  que  oriente  os indivíduos a serem,   desde a  infância,  pessoas  dignas,  honestas e solidárias,  estaria na contramão  de  toda um comportamento  das sociedades  e dos governos fundamental à batalha  contra  as  injustiças que  podem se  incrustar  no emprego, na fábrica,  no hospital, na escola, na universidade,  nos tribunais, de justiça, nos esportes,  nos  estádios, quer dizer,  a injustiça  é um  mal  ubíquo instalado  para   destruir  inocentes  e humilhados em tempos de terror  e espanto  universais.


(1) ARMSTRONG,  Herbert W.. Autobiography of Herbert W. Armstrong. v. 1. World  Church of  God, 1986, USA, 646 p.).     

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Seleta Piauiense - Elmar Carvalho


AUTOBIOGRAFIA ZODIACAL

Elmar Carvalho (1956)

Sou do signo de
            Carneiro
Mas meu coração é um
            Touro indomável
No meu sangue
corre a fúria de
            Leão
Entre uma Virgem e duas
            Gêmeas
Meu coração / bala
           Balança
Sou um Câncer
nos chifres de
            Capricórnio
Sou Peixes libertário
sem o cárcere de um
            Aquário
Sou Sagitário
            a
                        r
                                   m
                                               a
                                                           arco e flecha
                                               d
                                   o
                        d
            e
(A flecha é uma cauda de Escorpião)     

sábado, 31 de janeiro de 2015

Corso, desfile de muitos significados


Corso, desfile de muitos significados

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Quando se aproxima o carnaval, Teresina engalana-se para o corso, hoje considerado mais numeroso e festejado do mundo. Pouca gente, porém, especialmente a galera jovem, que se rebola nos caminhões e no asfalto da Avenida Raul Lopes, desconhece as origens do termo e seus múltiplos significados. Vale a pena uma viagem no corso da História.

         Córsega, ilha de 170 km de litoral, no centro do Mediterrâneo, milhares de anos de história, dominada por povos invasores. Atualmente, pertence à França. Corso, quem nasce em Córsega. Napoleão Bonaparte era corso. A famosa ilha de deslumbrante natureza e intenso turismo, construía navios de guerra com madeira de suas florestas, que partiam, enfileirados, contra navios mercantes e piratas. Começa bem aqui o significado de corso: pilhagem, pirataria, e, por analogia, desfile de carros. Significa também raça de cachorros Cane Corso, rara no Brasil, excelentes guardiães e protetores.

         No final do século XIX, começaram a aparecer os primeiros blocos carnavalescos no Brasil, já comuns na Europa. Populares, fantasiados e irreverentes, desfilavam nas ruas e formavam cordões e corso (forma afrancesada de courso). No início do século XX, a filha do presidente Rodrigues Alves desfilou, vaidosamente de automóvel, na avenida lotada de foliões, dirigiu-se ao palanque do pai. Pronto, nascia a moda do corso com carros alegóricos.

         Em Teresina, o corso com automóveis e caminhões lotados de foliões, vem desde a década de 1950, quando os poucos endinheirados possuíam carro de passeio. O corso não antecipava o carnaval; integrava os dias demomo. O exibicionismo começava na Rua Paissandu, circulava a Praça de São Benedito, seguia a Frei Serafim, à direita, retornando pela Rua Coelho Rodrigues. Pobres agrupavam-se nos blocos de sujos e desfilavam a pé, sem quebra-quebra. Apenas a tolerante aspersão de pós, ovos e urina, sem briga, nos carros que desfilavam.

         Belas prostitutas dos finos cabarés da Paissandu incorporavam o corso, ocupavam carrocerias de caminhões e participavam da festa. Marmanjos ricos e fiéis fregueses patrocinavam a festa por trás da hipocrisia social.

         Corso lembra a fúria dos guerreiros de Córsega contra navios piratas. Lembra raça de cães. A atual cultura do corso, se não disciplinada pelo prazer sadio, sem drogas e excessos no beber, pode resultar em trágica experiência. No corso de Teresina, início dos anos 70, uma garota desequilibrou-se no jipe aberto, na curva de São Benedito, caiu, indo a óbito. Ainda hoje, parentes da moça não mais se deleitam em carnaval. O universitário Iwahsi, São Paulo, participou de corso, 2010, em seguida, encontrado morto em córrego, por coma alcoólico. No corso de 2014, em Teresina, a polícia registrou queda de folião exaltado da carroceria de caminhão. Em fevereiro de 2012, em São Paulo, 14 estudantes universitários foram indiciados pela morte do estudante Bruno Cristiano, durante corso. Não relato trágicos episódios com propósito de estragar festa popular e democrática. Todavia festejar como canes corsos ou piratas indomáveis, a conta do prazer sai cara como a vida.      

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

A FESTA DO DR. LUCAS DO VALE



Elmar, Lucas e Zé Francisco Marques

29 de janeiro   Diário Incontínuo

A FESTA DO DR. LUCAS DO VALE

Elmar Carvalho

Neste sábado, dia 23, fomos, a Fátima e eu, à festa de formatura do Luquinha, cujo nome completo é Lucas do Vale Teixeira Cunha. Seus pais são José Francisco e Lindalva, que foram durante muitos anos vizinhos de meus pais. Dr. Lucas, ao lado de seus pais e do irmão Leandro, recebeu com estima e fidalguia seus primos, parentes e amigos.

O baile de formatura da turma de Medicina Uninovafapi 2014.2 aconteceu no Atlantic City. No camarote de nosso anfitrião foram servidos fartos e variados tipos de bebidas e iguarias, e ainda foram distribuídos alguns brindes de lembrança. Ali estive com o amigo Zé Francisco Marques, sua mulher Rosinha, e seus filhos Jackson e Júlio, velhos amigos do novo médico. A noite não nos poderia ser mais propícia e melhor, pois realmente houve confraternização, e saudável e sincera alegria.

Lucas, desde criança, sempre foi um estudante excepcional, e sempre esteve entre os melhores alunos das turmas de que fez parte, tanto que por suas excelentes notas no ensino médio (2º grau) recebeu bolsa integral do ProUni. Fez um curso de Medicina de forma brilhante, em que ficou demonstrada a sua invulgar habilidade de cirurgião, de técnica perfeita e exata.

Não por acaso, um dos mestres com quem estagiou já lhe fez convite para integrar a sua clínica e equipe. Não resta a menor dúvida: esse “menino” vai longe... Certamente, fará jus ao nome que tem. Segundo o longo romance Médico de Homens e de Almas, de Taylor Caldwell, Lucano ou São Lucas teria sido um dos maiores médicos da antiguidade, tanto por sua perícia médica, como por sua bondade e fama de milagroso, além de haver sido o evangelista de estilo mais apurado, segundo os exegetas das Escrituras.  

Minha amizade com os pais de Lucas, Zé Francisco e Lindalva, data de 1995, quando meus pais voltaram a morar em Campo Maior, vindos de Parnaíba, e fixaram residência bem perto da casa e do comércio deles. Estive na mercearia do amigo Zé Francisco várias vezes, quando ia visitar meus pais. Em muitas dessas ocasiões estiveram presentes os meus amigos Zé Henrique Andrade Paz, saudoso amigo (que deixou viúva minha irmã Maria José), e o Zé Francisco Marques.

Nessa época, o Lucas já era um destacado aluno, inclusive do Zé Francisco, acima referido. Era com muita alegria, justo e discreto orgulho que seu pai a ele se referia. Tinha uma fértil imaginação, e fazia histórias em quadrinho. É possível tenha herdado essa qualidade de seu pai, também um grande contador de histórias e estórias. Não lhe faltavam pendores e talento para o desenho. Talvez por essa habilidade artística, venha se revelando um notável cirurgião plástico, cuja finalidade se aproxima do desenho e, sobretudo, da escultura, já que o objetivo dessa especialidade cirúrgica é eminentemente de natureza estética.

Não pude deixar de me regozijar com o triunfo do Dr. Lucas do Vale Teixeira Cunha, tanto por ele mesmo, pelo seu próprio valor, como por causa de seus pais, excelentes seres humanos, e que foram ótimos vizinhos de meus velhos pais, sempre solícitos, prestativos, atenciosos e generosos.

Vida longa, com saúde e felicidade, ao grande médico Lucas (assim já o considero e assim já o antevejo em seu afã de mitigar ou extinguir o sofrimento alheio), ao seu mano Leandro, e aos seus pais Zé Francisco e Lindalva, que foram tão bons com minha saudosa mãe e meu pai.    

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Dois notáveis educadores piauienses

Foto meramente ilustrativa

Dois notáveis educadores piauienses

 Cunha  e Silva Filho

    Uma vez, em crônica,  falei  que  o período  inicial  do meu  curso   primário não me foi, ao contrário de tanta gente a quem  cumprimento  pela  felicidade  que desfrutou nesse período escolar,   bafejado  pela  alegria  plena,  por um ar  de eterna  felicidade. Me lembro de que   os primeiros  dois ou três anos,  mudei muito de escola,  estudei  em escolas  particulares sem renome,  em  aulas particulares  de reforço  à leitura,  (uma delas tinha  como   responsável a professora  Dona Eremita, velhota  durona,  exigente, me dava um certo medo). Ainda nas minhas perambulações,   estudei  na conhecida Escola    Demóstenes  Avelino, cujo dono era o  professor  Felismino Weser.
          Estudei ainda  num grupo escolar por um ano ou menos do que isso, que  ficava  em frente ao  Palácio de Karnak,  ou seja no espaço  que  estaria  incluído  o que posso liricamente  chamar “coração  de Teresina”, até que,  lá para  a terceira  série ou quarta,  meu  pai (e os  meus dois  irmãos mais velhos,  Sonia e Winston)  me levou   para  cursar  o final  do  primário  no Ginásio  ” Des.  Antonio Costa,” famosa e popular instituição  de ensino  que dominou  largo  período  do  ensino  privado  teresinense. Era dirigido  por dois  irmãos,  o  professor  Francisco Melo Magalhães e o  professor  Domício  Melo  Magalhães.
       No  instante em que ingressei  no Domício, nome  por que era  carinhosamente  denominado  aquele  ginásio,  posso  lhe afiançar,  leitor,   que houve em mim  uma transformação que bem  poderia  ser  de natureza epifânica. Perdi  o medo  de escola,  criei ânimo,  desabrochei  para  as delícias  da aprendizagem,   da leitura,  da escrita, da matemática. Só sei que, da terceira  série, pulei  para o   exame de admissão. O caminho  estava aberto e o futuro seria o limite.
      Sentia que a  estrada do saber se me abria para sempre,  sem  tempo  fixado. Era tudo deslumbramento,   emoções,  desejos  insopitáveis  de conhecimento, de superação,  de  vencer,   de aprender  pra valer e tudo  feito  do prazer  de aprender  por aprender,  sem  imposições dos pais,  de amigos,  de parentes.  Era uma   tomada de  posição minha e de mais ninguém.  
    Nesse período  de exuberância  infantil,  convivi na sala de aulas com os  irmãos  Magalhães. Com o professor Melo,  assim  o chamávamos,   aprendi  o conteúdo  de matemática; com o  professor  Domício,   de forma  lúdica,   aprendi  a  prestar  atenção  aos detalhes  de  quadros  que  trazia  para a sala e nos  ensinava a  fazer uma descrição: “O quadro que vamos   descrever  representa ...”.  Até hoje me soam   comovidamente   aquelas suas  palavras.
       Do professor   Domício,  aprendi  os rudimentos  da geografia  e história, que complementava com um  velho  livrinho  destinado ao  exame de admissão  e de outros  livros   da biblioteca de papai destinados  àquele  nível.
       Quando enfrentei  as provas  do exame de admissão ao ginásio,   estava bem  e até recebi elogios  de um  professor  querido, o professor João Batista,  que,  no ginásio,  me lecionou    latim  e  canto  orfeônico. João Batista  era um  mestre  por vocação. Tinha  deixado a batina,  casou-se. Acredito que foi muito feliz. Foi  um grande incentivador meu e fazia  questão de me elogiar  pro  papai, que  obviamente   se orgulhava  de mim.
     Os irmãos  Magalhães  fizeram  história  na educação  piauiense.  Eram de Piracuruca. Formaram-se em direito em Teresina, mas preferiram  se dedicar  ao magistério. Conta-se que arrostaram muitas dificuldades   de possíveis  inimigos   invejosos,  porquanto  seu  Ginásio  era repleto de alunos.
      Porém, nada os impediu  de  dirigir  essa  grande  e popular    escola   particular. Nele lecionaram  grandes figuras  de professores  de alta competência. Posso mencionar alguns:  Lysandro  Tito de Oliveira (geografia)  Valdemar Sandes (língua  portuguesa),  Cunha e Silva (francês),  João Antonio (ciências)  Jose Eduardo (inglês),  Alcides Lebre (desenho)  Francisco  Viveiros (inglês),   João Batista (já citado),   professor  Tonhá, hipocorístico do  professor  amarantino Antônio Veríssimo de Castro, grande   estudioso  do vernáculo, filólogo,  professor de   português, professor, autor de obras sobre língua  portuguesa e dicionarista, na área de etimologia, Edmar  Vasconcelos de Sant’Ana (desenho), autor,  se não me engano, de um  único  romance de título estranhamente  simbólico,   Quando?...,  Depois da Quermesse! (impresso pela  editora Vozes,  Petrópolis,RJ, 1995), no qual, na capa, consta apenas  “Sant’Ana”  como autor.A obra de Sant'Ana recebeu  elogios  de  um professor  universitário  inglês, Bruce Corrie,  de  José Louzeiro e de  jornalista  Raúl Soeiro
      Outros  professores  de mérito  lecionaram  no  Ginásio  “ Des. Antonio Costa.”  Por  terem sido professores meus  por muito  pouco tempo,  os nomes  deles me escapam  à  memória. Umas  observação:  creio que,  pelo  recorte de  tempo  dessas memórias,  todos  os citados  ilustres  mestres, a quem  presto  nesta coluna  minha   gratidão  perene,  já  estejam, como nos versos  finais do poema  “Profundamente” de Manuel  Bandeira (1886-1968): “__Estão todos  dormindo/Estão todos deitados/Dormindo /Profundamente.”(Libertinagem, 1930)
      Os irmãos Magalhães sofreram reveses, incompreensões, até   injustiças, seguramente  por se  tratar de um educandário   que  batia  recordes  de  número de alunado.O Ginásio  era até  injustamente  criticado,  por pessoas  desavisadas, por  expressão do tipo  “escola  PP,”  que  queria dizer: se o aluno  pagasse a mensalidade,  passaria  de ano.Nada mais  injusto  e  falso. Jamais  renegaria  o valor   moral  e  educativo  do Ginásio  “Des.  Antonio Costa.”
       Todo  o período  em que  tive  a honra  de ser aluno desse  colégio foi  pontilhado  de contentamento,  de  sentimento   de   alegria,   de compartilhamento, de amizades  feitas, de entrosamento  entre mim  e o  colégio e de ter sido  considerado  um   aluno  respeitado   e querido  por meus  mestres e elos diretores, os irmãos  Magalhães. Razão tinha   Olavo Bilac de  atribuir  um   importância  elevada ao ginásio – base  de todos os futuros   cometimentos que, se me deram  tantas   canseiras, também  me  realizaram  como   estudioso.
   Nos dias de treinamento para  as  “paradas” de “Sete de Setembro” é que se via  a numerosidade de  estudantes   do colégio.  O educandário não fazia, entretanto,  parte dos grupo de  colégios  da chamada  elite   teresinense. Contudo,   isso não  diminui  a grandeza  que   esses irmãos significavam     para   o campo   árduo da educação piauiense.
    Muito aprendi com o  professor Mello e com o  professor  Domício, cujas  personalidades   opostas  pelo  temperamento, no entanto,   se  completavam  e davam, assim,  uma unidade de dupla de  docentes  que nasceram   para  a sublime arte de ensinar e divulgar   sabedoria  em companhia  do ilustre   corpo docente escolhido a dedo.
     No  já envelhecido  Certificado de Conclusão do Curso  Ginasial,   que o Ginásio “ Des.  Antonio Costa”  me conferiu no ano letivo de 1960, no alto  da página modelo  7  do diploma, logo abaixo  do  símbolo de nosso  pendão e do  órgão  responsável pela  validade  do documento, Ministério da Educação e Cultura,  impresso  em preto e branco  se  encontra o nome, em  caixa alta,    do colégio, assim como o do fundador, J. R. Magalhães Filho; o endereço  da instituição, Rua   Felix Pacheco, nº 1589; o “fone”, 2645; a cidade, Teresina ; o Estado, Piauí. E, para completar os dados burocráticos, esta emblemática  afirmação  de Platão (428/427  a.C.- 348/347 a. C.)  : “A educação é a mais  valiosa  herança que os pais  podem  deixar aos filhos.”       

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Vermelho


Vermelho

Neide Moscoso

transborda na taça
o vinho tinto
na mesa um punhado
de romã
vermelho claro
vermelho escuro
vermelho cor-de vinho
do sangue nas veias
da chama nas entranhas
vermelho vivo
do rubos na face que
ressai do clamor de dentro
da rosa vermelha da paixão
da fruta do pecado
vermelho do fruto na salada
vermelho vinho
vinho tingido de vermelho    

domingo, 25 de janeiro de 2015

Seleta Piauiense - Paulo Machado


poética
ao poeta salgado maranhão

Paulo Machado (1956)

fica o ranço das metáforas,
o outono na velha aquarela.
no porto, a lembrança das velas.
fica o silêncio, o esboço do poema,
os músculos rijos à espera do agora.
fica a certeza de caminhar
em linha reta,
não fugir nunca.
remar contra a corrente, lutar
sem temer os golpes sujos dos que rastejam,
cães roendo os ossos da omissão.
fica a ânsia, o sangue queimando nas veias
até o último momento.
fica um princípio:
não temos o direito de trair a poesia,
crucificá-la numa sexta-feira de passivismo.
jamais expô-la como símbolo
de uma vanguarda precoce, medrosa.
a poesia é torpedo-suicida,
não podemos camuflá-la de bailarina persa.
a escuridão dos calabouços,
as câmaras de tortura,
nada fará calar os poetas.
a poesia sobreviverá às bombas de gás, ao tédio.
ressurgirá das cinzas no vôo dos pássaros.
(à tardinha os homens imitam os pássaros, ingenuamente)
sonhemos: com o verde da tardia esperança,
o branco da paz inaudita.     

sábado, 24 de janeiro de 2015

"Hoje tem espetáculo?"


"Hoje tem espetáculo?"

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Tem, sim, senhor! E como tem. Primeiramente, permita-me uma passagem da infância. Em seguida, convido você a assistir ao circo das palhaçadas políticas.

Bons tempos aqueles, na minha Piçarra. A garotada acompanhava, pelas ruas, o palhaço vestido de frouxas e coloridas roupas, equilibrando-se em duas longas pernas de pau, a empunhar longo instrumento afunilado, colado à boca, servia de microfone, convidava a população a assistir ao show do circo, logo mais. “Hoje, tem espetáculo?“ E a meninada exaltada: “Tem, sim, senhor!” Circo e palhaço, ninguém resistia, na minha terra sem televisão. Outra diversão, o alto-falante, instalado na ponta de enorme madeira, a sala de locução com discoteca, que disputava audiência com a única rádio, a Difusora.

         “Hoje, tem espetáculo?” Tem muito mais. O circo foi reinventado na política e administração pública, para engabelar cidadãos comuns, desinformados.

         Divertido Circo Assembleia: milhares de lagartas a devorar a folha de pagamento, para, em seguida, voarem como libélulas. Só comparecem ao trabalho à hora do contracheque. Deputados a disputar o picadeiro da presidência ou cargos de comissão. No mais, a louvação mixuruca com títulos de cidadania a duvidosos méritos. Ou dizer amém às imposições do Palácio do Karnak.

Hoje, tem espetáculo?” Tem, sim, senhor, a promessa de construir seis aeroportos. Sonho de ícaro, cujas asas de cera se desfazem ao tentar aproximar-se do sol, com seus monstros, touros e minotauros. “O show já terminou/ Vamos voltar à realidade/Não precisamos mais/Usar aquela maquiagem”. Não terminou, meu caro Roberto Carlos. Não se desfez a maquiagem de dois bombásticos “aeroportos internacionais”, de onde decolam mais urubus que pássaros de aço.

Tem, sim, senhor. Depois dos apagões, Brasil afora, ministro de Minas e Energia diz que “o sistema energético está robusto”, que Deus é brasileiro e que vai chover. Um apagão deixou metade do Brasil em trevas. Graças ao envio de energia da Argentina, restabeleceu-se o sistema elétrico. Deus também é dos argentinos.

Hoje tem espetáculo?” Claro, Governo solicita forças federais e 82 milhões para segurança pública. Não percam mais um show de pirotecnia com dinheiro público. Enquanto explodem rojões, a comunidade do Açude dos Algodões permanece muda, com a tragédia e falsas promessas.


E vem mais espetáculo: o novo presidente da Companhia Metropolitana de Transportes do Piauí demitiu 27 funcionários. Juntando aos que permaneceram, davam para encher um vagão do metrô e passear pelos 23 km da capital. Pena que o insaciável apetite de contracheques prejudique a segurança e refrigeração dos trens. Haja folha para tanta lagarta. Medida certa, se os demitidos não fossem substituídos pelos que vestem gravata vermelha do partido. A prefeita de Esperantina reduziu centenas de lagartas famintas. Tomara que as borboletas não ponham mais larvas. Na minha infância, os palhaços vestiam-se de toscas roupas, identificavam-se com a simplicidade e inocência da população. Éramos felizes. Hoje, os circos viram círculos fechados, corruptos, dão as caras nos meios de comunicação com a cara mais limpa. Em vez de rir, a plateia vaia.     

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Sem motivos


Sem motivos

Neide Moscoso

café amargo
blues lentos
goles de vinho
gemido do sax
resíduo de sono
nos olhos
céu azul escuro
feridas cicatrizadas
desejos mastigados
palavras sem dono
noite violeta
eu
cúmplice de mim    

INDONÉSIA E A PENA DE MORTE


INDONÉSIA E A PENA DE MORTE

Jacob Fortes

O carioca Marco Archer Cardoso Moreira, em entrevista ao repórter Renan Antunes, em 2005, admitiu ser traficante: — “Sou traficante e traficante, só traficante”.

À parte esse desvirtuoso e daninho ofício, pungiu o coração dos brasileiros, sobremodo o meu, a notícia da morte de Marco, na Indonésia, por fuzilamento. Se a pena cominada, irrecorrível, é desproporcional à falta isso é inelutável.

A gênese das firmes convicções do Marco, — de que conseguiria reverter a sua sentença de morte — pode encontrar-se no Brasil: a impunidade que não mete medo, que encoraja recidivar. No Brasil as malinações se sucedem e não acarretam arranhões ao pescoço, nem mesmo aos que detém históricos recheados de assentamentos desregrados, mas em terras que não poupam acrimônia às práticas delitivas esse pescoço pode ser aniquilado. São os riscos que correm os que, em territórios onde a tirania faz rosários de cabeças humanas, cometem infrações manifestamente puníveis; depois de submetidos à responsabilidade penal.  Safar-se cá não quer dizer safar-se lá.

Nem sempre se salva aquele que acredita salvar-se no farol que segue. A luz, por vezes difusa, pode esconder abismos escuros. É o alvitre de cada um. Em busca de moeda cada qual toma o caminho que lhe parece conveniente: uns lançam-se tenazmente ao picadeiro, outros cavoucam em chãos duros e há os que acreditam encontrá-las facilmente, sem transudar, em meio a infrações fascinantes.

Talvez houvesse no Marco alguma distinção pessoal que pudesse ser admirada, mas o seu ofício, que reputo nefasto, é digno da mais religiosa compaixão.


Para expandir o sentimento de tristeza, há outro brasileiro na fila, Rodrigo Gulart, condenado por igual delito e que, enfermo, padece de profunda desorganização psíquica. Traficar em terra de degola esses brasileiros, Marco e Rodrigo, de duas uma: ou tornaram-se traficante porque ficaram loucos ou ficaram loucos por tornarem-se traficantes.  Que o amorável Deus vele o sono eterno do primeiro; apiede-se do segundo, pois, quem sabe, este poderá optar por dar melhor emprego a sua existência.