terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O Mundo em desassossego


O Mundo em desassossego


            Cunha   e Silva Filho


          Para qualquer lado que  dirigirmos  nosso  olhar contemporâneo,  seja  no  Brasil,  seja em  outras partes  do planeta Terra,  tudo conspira contra a esperança,  a paz,  a  tranquilidade das pessoas.  Se as ciências e a tecnologia  trouxeram  tantas possibilidades  de uma vida  melhor,  que nos vieram  proporcionar  mais conforto,   facilidades  instantâneas de comunicação,   avanços  na medicina,   na robótica,   nos meios de  aquisição  do saber  em  todas as áreas  conhecidas, em  proporção   inversa  têm crescido os desmandos  de nossos  dias em  crescente   estado de tensão  do convívio  humano.
      Em outras palavras,  o mundo está  em desassossego provocado  pelas guerras civis, pelos  desentendimentos   religiosos,  políticos,  ideológicos, étnicos,   enfim,  por  desentendimentos entre países, cuja manifestação   hoje mais    insidiosa  se conhece  pelo  termo  “terrorismo”  - recurso   pusilânime  de  trucidar   vidas de inocentes  que não podem  responder   pelos   erros  e   perversidades   cometidos   por governos   tanto no Ocidente  quanto  no Oriente. Sabemos que o Ocidente  não é tão anjo assim, como  não  são anjos  os  seguidores   fanáticos     do terrorismo nacional  ou internacional.
   O alvo  agora  não  se limita aos EUA. Ele se  desloca  intempestivamente  para  a Europa  e o  próprio  Oriente. O pior ainda é que  o terrorismo   de grupos   do tipo Al –Qaeda,  ou dos Estado  Islâmico, tem  recrutado   europeus para suas  fileiras, sobretudo   europeus com   ascendentes   não-ocidentais. Jovens  são  facilmente  manipuláveis   por lavagem   cerebral   inoculada pelo veneno da barbárie.Tais jovens se  bandeiam   para   facções   terroristas    autoritárias e assassinas   que  invocam  para si   modos  de vida  e de  crença   religiosa como se fossem   a melhor   forma   de  comportamento   humano  e   de princípios   de vida.  Se entendermos   essa atitude   como  islamismo,  então  os grupos   terroristas   estão deformando   a leitura   do  Alcorão e, no mínimo,  estão  apresentando o  islamismo  como   algo que  ele  não é:  um doutrina  espiritual  que   pratica  o  bem, que não pode ser   assassina nem  covarde nem  terrorista,  nem  expansionista,  i.e.,   imaginar-se como    a única   forma   de    o mundo   pautar-se   na sociedade atual.
    Sabemos   que  os modos de civilização   ocidental  não são  também  modelos,  em alguns aspectos da vida,  a serem imitados.  Há muitos   erros  de mores  ocidentais  que  precisam  ser  corrigidos   em  várias  dimensões,  tanto   éticas,  políticas quanto religiosas. Muito lixo moral   ainda se mantém  intacto  na  sociedade  ocidental e, se fôssemos citar alguns,   teríamos  o excesso do hedonismo,  a desigualdade  social,  a corrupção  em  elevado  grau,  a impunidade  em algumas regiões dos continentes sul-americano, asiático, africano,  a criminalidade  e a violência  galopantes,  o populismo  demagógico   de   alguns  governantes e a desmoralização   da classe  política, sem  deixar de mencionarmos   a dissolução   do comportamento    sexual   de  parte do   Ocidente, sendo um  bom exemplo  o  Brasil.
   Alguns  setores da indústria cultural   não  dão  bom  exemplo de formação   moral  e espiritual   da sociedade  afundada  no espelhamento    propiciado   por  algumas  formas  de   arte de entretenimento,  como   o cinema trash,   um incentivador   e  estimulante  da criminalidade e do caos  urbano, que faz  a riqueza  do produtores e  atores em  filmes de   baixo nível  importados  dos EUA. Ora,   essa  películas  assistidas  por  gente praticamente  de quase  o mundo inteiro e por  parte de   consumidores sem nenhum  parâmetro  ou código moral e familiar,  concorrem  em muito para  a desorganização   de um  mundo  high tech     comprometido até às raízes com   os vício das drogas e  o  ingresso, ainda na  infância e adolescência, no  mundo  do crime  organizado,  do narcotráfico,  da violência  sem fim  como a que  temos    presenciado  ad nauseam  na  vida cotidiana  brasileira,  sobretudo  nas grandes cidades,  porém  tampouco  ausentes  nas pequenas   cidades brasileiras.
   Esse planeta  em desassossego, pelo terrorismo já atingiu  a nação mais desenvolvida  do   mundo, os EUA,  já passou, agora,  para  a França,   já atingiu a Bélgica e a Alemanha e tem feito  estragos   sanguinolentos  em conflitos  bélicos  na Síria,  no Iraque,  no Afeganistão, Paquistão e em outras regiões.
   Por outro lado, para enfrentar  o famigerado   terrorismo  é necessário que o Ocidente  cumpra   igualmente    certos deveres de casa, sobretudo   em grupos    de sistemas  ideológicos   neofascistas, como  temos  na Europa  e em outros  países.
  Urge que  o Ocidente  se conduza  da mesma sorte  com   comportamentos    políticos,  sociais à   altura   de suas  conquistas  de direitos   humanos  e de cidadania,   execrando  quaisquer  formas  de    retrocessos   xenófobos, de eurocentrismo, de igualdades apenas aparentes  e não  reais, e de retaliação   com   os  estrangeiros   que  escolheram  países   como segunda pátria e lá  só  desejam   viver em paz com a sua família, como aquele  exemplo de uma família   judia que vivia  em Paris e que,  após o ataque  terrorista ceifando a vida de cartunistas  famosos e de outras  pessoas ao mesmo  tempo,  apavorada, se dizia  sem segurança  na bela e elegante  capital  parisiense e, por esse motivo, seus membros   voltaram  para  Jerusalém onde, segundo  o pater familiae,  pelo menos  lá se  sabia  onde ficava o perigo, ao contrário  de Paris que, para ele,  estava em qualquer parte  da velha  terra de grandes escritores, filósofos e artistas, uma espécie de pátria da cultura  com o fascínio  de irradiação  pelo  mundo.
         Questões fundamentais como controle de  imigração,  fiscalização  rigorosa  da situação   de cada  estrangeiro  residente  na França (o mesmo  valendo  para outros países  que  recebem  estrangeiros asilados),   deles exigindo  direitos e deveres  de  estrangeiros  e realizando  uma   avaliação   precisa e profunda  das condições de vida  social   dos  estrangeiros naturalizados e dos filhos   destes nascidos  na França,  têm   que ser   cuidadosamente  examinadas.
       De nenhuma  maneira,  os  imigrantes  devem ser  discriminados   nem tratados como   cidadão de  segunda   classe. Contudo,   uma revisão  dessas questões  não  pode ser  negligenciada  pelas autoridades   francesas. E essa precauções  devem  ser  igualmente   levadas  em  conta  em outros  países europeus,  ou não.Todos  esses problemas  foram   gerados  após as  guerras   civis   no Oriente e, por força  dessa condição subalterna,   ressentimentos  morais  e de submissão    imposta  pelos  países  colonizadores deixaram  marcas  de  ódio    após  o período de colonização  de  países   por  nações   ocidentais. É o  caso  do Níger em que,  hoje mesmo,   queimaram a bandeira  francesa  em solidariedade   aos terroristas   mortos.


       É forçoso  que os organismos internacionais  de defesa das nações, grandes  ou pequenas,  se debrucem  para   encontrar  pontos  de   convergência  em direção   ao confronto, infelizmente   já estabelecido,  entre   terroristas  ditos muçulmanos  e  nações  ocidentais. É preciso  que,  nos debates  que virão   dos impasses  trazidos   pelo alastramento do terrorismo, localizado ou   internacional, saibamos   separar  o  joio do trigo. Não confundir   muçulmanos  bem intencionados  com  jihardistas ou "Estado  Islâmico" é uma das vias  mais   fecundas  em direção  a uma  paz ainda que,  provisória.  Não é uma questão magna entre bárbaros  e civilizados, mas  entre  o justo  desejo  de  combater  quem  realmente  é o inimigo  que  não admite   processos   civilizatórios  diferentes.  O respeito ao outro  nem sempre  vale como  uma premissa  de reconhecimento   justo e de justiça   isenta.    

domingo, 18 de janeiro de 2015

Seleta Piauiense - Israel Correia


Paixão, Amor e Rotina

Israel Correia (1955)

Paixão ogiva
Artefato atômico
Explode orgasmo
Somos Hiroshima

Sobrevive imune
O coração que ama
A radioatividade
De qualquer rotina   

sábado, 17 de janeiro de 2015

A fúria pela fé


A fúria pela fé

José Maria Vasconcelos
Cronista

            Não me esqueço daquela cena cruel, no fundo do quintal, cercado de talos de buriti, na minha infância, na Piçarra. Meu pai não queria galinhas de vizinhos em nosso território e me ordenava que as tangessem de volta. Um dia, enfurecido com a persistência de um pinto, torci-lhe o pescoço até morrer. Não senti pena, nem remorso por atender a ordem de meu pai.

         Neste momento, a França ainda chora o ataque bárbaro de três terroristas islâmicos contra jornalistas. O mundo aglomera-se nas praças, reza e protesta. E se pergunta: “Por que tanta fúria, em nome de truculenta obediência religiosa?”

         A paixão determina intenso interesse por um ideal, causa ou atividade, que resulta, muitas vezes, em exacerbada e irracional excitação de descontrole emocional. Paixões -  amorosa, esportiva, política e religiosa - sem freios emocionais,  podem desencadear ódio, vingança, morte e suicídio. Temas de encher páginas de romances, novelas, contos, crônicas, poesias e manifestações artísticas. Inclusive do jornalismo e judiciário.

         O mundo vive de paixões e conflitos amorosos e partidários. O equilíbrio emocional, porém, é resultado da educação sadia dos instintos e temperamento. Na história da educação religiosa, a fé quase sempre se manifesta pela intransigência e conflitos.

         No Antigo Testamento, judeus arvoravam-se únicos herdeiros das promessas divinas. Não entravam nas casas de pagãos, não se aliavam a outros povos, não se uniam em casamento. Em nome de Javé, matavam adversários, conspurcavam bens e territórios. No salmo 138, que retrata a escravidão dos hebreus, na Babilônia, encontra-se o sentimento de ódio e vingança que arrepia: “Ó filha da Babilônia, a devastadora, feliz aquele que te retribuir o mal que nos fizeste! Feliz aquele que se apoderar de teus filhinhos, para esmagá-los contra o rochedo!

         A pregação de Jesus fugia totalmente à intolerância religiosa de seu povo: comia e bebia com os pecadores, entrava nas residências das autoridades romanas, acolhia prostitutas, curava pagãos. Foi condenado à morte, por defender a conciliação, perdão, tolerância, amor aos excluídos e o reino de um mundo sem fronteiras do ódio.

         Na Bíblia do Antigo Testamente, encontram-se mais estímulos à violência do que no Alcorão. De ambos, porém, as paixões religiosas tentam extrair interpretações para a prática do ódio, geralmente alicerçada em domínios e defesa da fé. A Igreja Católica herdou, durante séculos, a crueldade pagã do império romano, com as Cruzadas e Inquisição, esta utilizada, também, por correntes protestantes. Na década de 1960, o candidato à presidência dos Estados Unidos, Robert Kennedy, defendia, em livro, caso fosse eleito, maior aproximação com o Oriente. Segundo Robert, o Ocidente (ingleses, americanos e franceses) devia aos orientais um acerto de contas pelos regimes de escravidão e usurpação no Oriente, acelerado nas descobertas de petróleo. A cultura oriental cultiva anos de paciência para alcançar objetivos. O passado de domínios e humilhações não lhes escapa da memória. Paixões baseiam-se em obediência e interpretações religiosas cegas. Neste caso, nem um pinto se salva de uma degola.      

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

NA VÁRZEA DO SIMÃO, ENTRE POETAS E PASSARINHOS



10 de janeiro   Diário Incontínuo

NA VÁRZEA DO SIMÃO, ENTRE POETAS E PASSARINHOS

Elmar Carvalho

No sábado, dia 3, eu e a Fátima recebemos, no sítio Filomena, na Várzea do Simão, os poetas Alcenor Candeira Filho e Neide Moscoso, Ana Lúcia (Aninha), esposa do vate, e Canindé Correia. Ficamos num dos alpendres, a contemplarmos as árvores e as flores do jardim, a sentirmos a brisa suave, que tornava agradável a temperatura, e arrancava suave música das palmas dos coqueiros e das carnaubeiras próximas.

O Alcenor e o Canindé são meus amigos desde a segunda metade da década de 1970. Fizemos parte do grupo de colaboradores do jornal Inovação, que relevantes serviços prestou à cultura e à sociedade parnaibana. A Aninha tornou-se nossa amiga, desde o seu casamento com o poeta. Foi uma manhã memorável, pela conversa amena, variada, com pitadas de história, poesia, humor e tiradas espirituosas, ao sabor do improviso. O Dico e o Diá, irmãos da Fátima, também estiveram presentes, mas logo se ausentaram, em virtude de compromissos pessoais e familiares.

Não conhecia Neide Moscoso, exceto através de seus ótimos poemas, concisos, densos, subjetivos, líricos, mas sem transbordamentos eivados de pieguice. Conheci os seus textos, através da intermediação inicial do poeta Alcenor. Foram enviados por e-mail, e eu grata e gradativamente os fui publicando em meu blog. As conversas, entrelaçadas, paralelas ou não, foram secundadas por sábias libações e sóbrias degustações, como bem poderia dizer o imortal Pacamão, que já partiu para o outro lado do mistério, ou hemisfério, como consta numa das anedotas que ele protagonizara.

Na quinta-feira seguinte, dia oito, sozinho, do observatório do mesmo alpendre, enquanto esperava pelo almoço, fiquei a contemplar as árvores e os passarinhos. Como temos procurado evitar, na área do sítio, que se espantem os pássaros, que se lhes atirem pedras ou paus, verifiquei que um deles chegou a fazer seu ninho num dos cantos da varanda, enquanto outros o fizeram nas árvores próximas. Desse fato tirei a conclusão de que as aves se sentem protegidas no sítio Filomena.

As aves canoras de maior prestígio e de mais alto valor comercial se afastaram das imediações, fugindo dos passarinheiros, das baladeiras ou estilingues e dos alçapões. Contudo, ante nossas providências em nosso pequeno imóvel, inclusive plantação de árvores frutíferas, constatei que alguns desses passarinhos já começam a tomar chegada, a nos encantar com o seu canto mavioso. Espero que em breve já possamos escutar o canto de corrupiões e chicos-pretos. Os corrupiões, valentes, galantes, metidos em sua fatiota colorida, ostentosa; os chicos-pretos, discretos, envergando o seu discretíssimo fraque negro. Entretanto, ambos igualmente mestres em seus encantadores trinados e gorjeios.

Sempre ouvimos o estribilho alegre dos bem-te-vis: “bem-te-vi, bem-te-vi”, que me serve de advertência quanto ao olho onisciente do Senhor, que tudo vê, que tudo sabe. Amiúde escutamos o canto saudoso e melancólico das ariscas rolinhas “fogo-apagou”, que também nos serve de admoestação contra os percalços e intempéries. Aliás, por falar em tantos passarinhos, a Fátima, junto ao portão de entrada, mandou pintar um painel, pelas mãos hábeis de mestre Zico, em que aparecem um bem-te-vi, em memória de minha mãe, que tanto admirava esse brioso, alegre e belo passarinho, uma sabiá, representando sua irmã Remédios, que gosta de cantar, e duas corujas de bom agouro, por causa de meu apego aos livros.

Ao meio dia, como se estivesse cumprindo uma missão, chegou um pressuroso e diligente bando de anuns pretos. Essas aves são quase sempre silenciosas, e não se destacam pelo cantar. Pousaram sobre um cajueiro, que ficava bem perto de onde eu estava. Embora negras como um corvo ou um urubu, não são aves de rapina e nunca se lhes atribuiu a pecha de serem agoureiras. Jamais se disse que um anum preto assombrasse alguém, como uma rasga-mortalha ou como o célebre corvo de Alan Poe, este a entoar, melancólica e tetricamente, o seu refrão “nunca mais”, despojado de qualquer esperança.

Em poucos minutos, seguindo uma tática que eu já lhes tinha observado anteriormente, derrubaram dois cajus maduros, e logo desceram para bicar a polpa tenra e suculenta. Passado um curto instante, veio uma impertinente e inoportuna galinha em direção a um dos cajus. Os anuns, sabiamente, não a enfrentaram, nem se agastaram, e se concentraram em apenas um deles. Após três ou quatro bicadas, a galinha enjoou o repasto e se retirou.

Essa mesma situação repetiu-se, tendo como “herói” outro robusto galináceo. Pude, então, perceber a sabedoria dessas aves, tão discretas em suas vestes negras, tão humildes em seu silêncio. Não foram quinhoadas com bela plumagem e nem foram dotadas de um mágico cantar, mas por isso mesmo não são perseguidas por caçadores e meninos, com suas arapucas, armadilhas e alçapões. Mas Deus as contemplou com salutar esperteza e providencial sabedoria.     

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

O Facebook: uma ferramenta útil para a democratização da escrita


O Facebook: uma ferramenta útil para a democratização da escrita

Cunha   e Silva Filho

        Ninguém  pode  negar  o  grande passo dado a milhões  de  pessoas  que,  no  Face, como  é  com certa intimidade  tratada essa rede   social,  trocam  ideias e    se comunicam  por   escrito. E  não seria exagerado  afirmar:    grande  chance tem o  usuário de   poder expressar-se livremente tanto quanto  possível através desse meio  grandioso que  - não podemos    esconder esse fato - possui, sim,  seus defeitos  quando  empregado  para  fazer o mal. No entanto,  o saldo  é  positivíssimo. Tornou-se um  modo  autodidático  de   levar as pessoas  a  pesquisar, refletir,   organizar  seu pensamento, muitas vezes de  forma  extraordinária  dependendo  do talento e da competência de cada um.
     Algumas vezes,  me queixei  de que o Face seria  um espaço para  futilidades,  fofoca e exibicionismo. Pode até ser em alguns  aspectos, mas,  no geral,   é  uma  fonte geradora   de ideias,  de discussões,   de  expressão  livre  do pensamento, ainda que  o seu seja  algumas  vezes discordante de  outros.  Pouco  importa.
   O que  é evidente é sua capacidade aglutinadora,    de fórum  de  debates, de permitir  o extravasamento  da indignação  contra  injustiças,  de  divulgar   ideias   iluminadoras,  de suscitar   novos  ângulos  de  ler o mundo, as pessoas. Todos  os  aspectos   do cotidiano  nacional  ou mesmo   do exterior  no Face  podem ser    veiculados  com erros,  com acertos,  mas  sempre com  a  liberdade  dos que  pensam  de forma igual ou  diferentemente.  O Face vive desses contrates,  dessa espécie de  “melting  pot”   de fatos e acontecimentos  que   atiçam  a curiosidade  e  a  intervenção  por escrito dos indivíduos. O Face veio para ficar.
     Já se disse que ele   estava  alimentando  o mau hábito de escrever errado ou  de forma  excessivamente   abreviada. Qual nada!”  Tenho  lido  textos,   frases  que   bem poderiam   ser assinadas  por  bons  jornalistas,   escritores,  cronistas,  pensadores, filósofos,  poetas, dramaturgos, cientistas, enfim, profissionais de  várias  áreas, enfim, uma  gama de   pessoas  comuns ou com  maior ou menor  visibilidade. Porém, refuto  aquele argumento  visto que o usuário,   ao  escrever,  em geral, de  maneira  rápida,   com esse ritmo   fortalece e desenvolve  a habilidade  de  selecionar    ideias,  formas  de escrita,  sentido   de  concisão e coerência  a fim de  poder   organizar  os  enunciados.
    Politicamente, o Face muito tem ajudado a  evitar  o pensamento  chamado  “único,”   mostrando, através de seus  diversos   usuários, que   aquele  é múltiplo e nenhuma ideia  semanticamente  unívoca  pode ser   geradora    de avanços    em qualquer   campo  da  inteligência. Reconhecer o outro,  o diferente,  ainda que  possamos   achar que  ele está errado, é não  perceber que   algumas  ideias  podem ser  relativizadas.  O pensamento  único  é próprio  dos governos   antidemocráticos, que   julgam  o mundo  sob  um  só  lado, uma  só dimensão.  Sua natureza  tem  traços  fascistas, autoritários,  absolutistas.  O pensamento deve ser exercido  de  modo  construtivo,   dialeticamente,  sem donos das verdades.
   Outro papel saliente do Face é  conceder  a possibilidade   de liberdade  de  crenças,   religiosas,  políticas,  filosóficas,   de modos de vida,  de mostrar   diversidades culturais,   nacionais,   universais. .
    É pena que o Face  possa  por vezes  levar, como  já  aludi linhas atrás,  a certo exibicionismo, excessos   de  narcisismos, exposições  sensualistas  que  não   se ajustam  a  uma  ética    desejável  neste sentido.  
   Mas, o que  centraliza  a linha  deste artigo  são os   pontos   qualitativos   do usos da linguagem,  do    treinamento,   do  escrever  continuadamente e ao mesmo  tempo  do ler  o que  se escreve  nessa  rede  social.  Ler e escrever são habilidades que  se harmonizam e  só produzem      melhoria    de nível   de  escrita, propiciando  a “fluência”   da linguagem  escrita. Acredito que em  nenhum tempo,  antes  da internet,  o mundo  tenha  escrito tanto.
    A prática da redação, diria   positivamente  forçada,  a fim de  dar conta   de uma   pergunta e de um  fato ilustrativo de um texto,   de um vídeo, veio  auxiliar enormemente   o ato da escrita e,  em consequência,    melhorar   o uso  da linguagem   das  pessoas. Não sei se a ciência  linguística  já havia previsto  essa    mudança  revolucionária  da comunicação    virtual.
   Deixando  de lado  o  mau uso  da  internet  e das redes sociais,   os ganhos   com  o mundo virtual    são incalculáveis.  Depois da Imprensa de Gutemberg,  a internet é a segunda  mais   importante   invenção  do  mundo  da comunicação. E imagine o leitor que, a princípio, este colunista   até  tinha  receio de  não  aprender a lidar  com  o básico   do computador.Veja-se o  função  informativa do Google. Não obstante  nele muita coisa  não seja  fonte segura,   não deixa de ser  um  instrumento   valiosíssimo  de pesquisa,  em muitos casos   fazendo  as vezes  de  verdadeiras  bibliotecas.  além disso,    pondo  o  usuário,    em fração  de segundos, com dados   que esteja    procurando.
   O Google é uma gigantesca  obra  de referência, indispensável  a várias categorias de profissionais no mundo  inteiro. É claro que é um work in  progress. Contudo,  como seria   o  mundo   atual,   o da pressa, do imediatismo (com  muitas  negativas  desvantagens  para  os mortais) sem a invenção  do computador e de todos os seus  desdobramentos  tecnológicos?
   Não aconselho que  os  viciados  no Face e em  outras redes  sociais  abandonem  esses recursos,  mas que  o   utilizem  com  moderação, porquanto   eles tomam  muito  o nosso   precioso  tempo.
   Não  o substituam  pelo  contato  pessoal,  que é muito mais    importante e não  tem  substituto  à altura.  As amizades  têm  que ser cultivadas no tête-à-tête de preferência. O Face,  ao contrário,  para as  muitas funções  a que  me referi. Da mesma sorte,   outras mídias  escritas não podem ser nunca  negligenciadas,  os jornais, as revistas,  os livros impressos, as exposições,  as feiras  de livros,  as visitas aos museus,  as vernissages,  o  cinema, o teatro,  o circo,   a conferência (presencial), a televisão, o rádio. O grande  barato  é  saber como  combinar  de maneira  harmônica,  sem   excessos  de preferência,  todos  esses meios  de  comunicação,  de conhecimento,   de saber.
   O professor de língua  portuguesa, ou, para outros,  de  língua  brasileira,   deve estar  atento a tudo isso. Na multiplicidade  de  recursos  audiovisuais,  virtuais,  escritos,  falados,   há que  saber  dizer onde  um  deve ser  de preferência   usado, e principalmente  o  professor  competente  há de saber como   lidar  com proveito  e sem  discriminações   com  todo  esse  enorme leque   de opções  em que a língua  falada  se contamina com a  escrita  de modos  variados, a par de  ainda ter que situar  bem  o  papel  da  língua  literária,  seu estudo  e   sua  prática de leitura,  e  hermenêutica.  Tudo isso  não deixa de ser  um   vigoroso   desafio: encontrar   elos  sem embaralhá-los  e confundir  a cabeça  dos jovens  e adultos no sentido de  conquistar, simples e didaticamente   o usos multifacetado da língua na situação própria  e desejável.
   O que nunca será  de bom alvitre  é  dificultar   o  estudo   da  gramática e a prática da redação   empregando  uma metalinguagem  que  às vezes me parece  competir   com   o jargão  tecnicista-terminológico  das ciências. Tecnicalidades em demasia não  significam  uma correspondência  práxis  no  estudo  da língua  e  no manejo de  expressar o pensamento   do espírito  humano.  O caminho  mais  adequado  é  o progresso  nos estudos  linguísticos  sem os vezos   ainda   remanescentes   do estruturalismo que, pelo  exagero   e  ensinamento  mal conduzido,  apavorou,   pelo menos,  a minha geração  nos anos  setenta.   

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Café Literário


Cidade vazia


Cidade vazia

Neide Moscoso

contornos das fachadas
nítidas e precisas
como no crepúsculo
delineado pelo sol
de abril do teu sorriso
na minha boca
nos teus olhos a
escolha frágil na íris
escura e retraída da
cidade sem noite
na moldura do cenário
traçado nas idas e vindas
da gente sem alma
ocupada na insustentável
andança por entre os
recortes da cidade
sem dono    

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Templos luxuosos e confortáveis, errado?


Templos luxuosos e confortáveis, errado?

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

         Três grandes templos de Teresina: Do Amparo, Das Dores e de São Benedito. Despertam certo halo sagrado de majestade, pela riqueza arquitetônica. Ainda garoto, a curiosidade me levava a subir as escadas do templo de São Benedito, aproximava-me dos sinos, contemplava a acanhada cidade, cujos limites não ultrapassavam a Vermelha, Aeroporto, final da Avenida Frei Serafim com o Poti. Como a capital conseguira construir, no final do século 19, com apenas 30 anos de fundação, templos de tamanha beleza, com mármore e utensílios vindos da Europa? Seria fervor maior das gerações passadas, gratidão ao Altíssimo manifestada com doação de bens preciosos, como rebanhos e propriedades, conforme as condições financeiras dos fiéis? 

Em passado remoto, credos religiosos de todas as esferas erguiam suntuosos templos, cuja arquitetura e luxo sobrepujavam demais construções. Ainda hoje seduzem os colossais pagodes budistas da Índia, Japão, Coreias, Nepal e China, cujas altas torres atraíam raios, vistos como fúria divina. Mesquitas muçulmanas de raro esplendor. Igrejas suntuosíssimas, medievais e renascentistas, onde se coroavam reis e papas, projetavam-se pintores, escultores, arquitetos e músicos. Monumentos que encantam turistas: Notre Dame de Paris, Basílica de São Pedro, dezenas outras espalhadas na Europa: belíssima catedral de São Marcos, em Veneza, estilo bizantino, onde entrei com os pés mergulhados em palmo d’água. Suntuosa Catedral de Colônia, na Alemanha, a mais alta do mundo. Templos pagãos, valiosos e artísticos da Grécia e Egito. Ou dos impérios inca, asteca e maia, destruídos pela fúria religiosa e invasora.

A arte surgiu, praticamente, do culto à divindade, através da rara criação e doação. No Antigo Testamento, encontra-se a primeira manifestação de culto a Deus: pastor Abel oferece cordeiros em holocausto, preconizando a figura do Messias, milhares de anos antes. No deserto, Moisés constrói a Arca da Aliança, puro ouro, ornamentado com figura de querubins, que vigiavam as tábuas dos dez mandamentos. A Arca simbolizava a aliança de Javé com o povo de Israel. Rei Davi constrangia-se por residir em luxuoso palácio, enquanto a Arca da Aliança era venerada em modesta tenda. Prometeu construir majestoso templo. O profeta Natan avisou-lhe que a tarefa caberia a um herdeiro do trono, “cujo reinado seria eterno”. O magnífico templo foi erguido pelo rei Salomão, cujo reinado durou algumas décadas. A profecia de Natan apontava para o futuro Messias que nasceria milênio depois. Jesus e discípulos encontravam-se na casa de Lázaro. Uma mulher unge-o com precioso perfume. Judas condena-lhe a generosidade e sugere que o vaso de alabastro seja vendido, e o “dinheiro repartido com os pobres”. Jesus rebate: “Esta mulher escolheu o melhor; pobres vocês sempre terão”. Para celebrar a ceia pascal, o Mestre exigiu uma “ampla sala mobiliada em segundo pavimento de uma residência”. Diante do magnífico Templo de Jerusalém, Jesus afirma: “Destruam este templo, e eu o reconstruirei em três dias”. Referia-se ao templo de seu corpo. O holocausto de seletos cordeiros, a Arca da Aliança em ouro e o esplendoroso templo representavam a prova carnal da existência divina na pessoa de Jesus Cristo. Quando o amor alcança dimensões infinitas, os presentes não têm preço, mas valor. Em se tratando de culto divino, tudo ultrapassa a todos.     

domingo, 11 de janeiro de 2015

Seleta Piauiense - Nelson Nunes


Aos que se foram

Nelson Nunes (1954)

Não sei dos homens que ficaram
E guardam seus segredos
No fundo dos olhos banhados de medo
a ruminar a verde folhagem da esperança
a embalar a coragem que ainda não nasceu.

Sei dos homens que se foram
E se perderam
Com seu medo
Desejos e sonhos secretos.

Desconheço todos os homens de fé
E todas as formas de felicidade
Que espalham-se em inumeráveis cartazes
a sujar com seu estrume todas as faces da cidade
a subjugar os miseráveis com sua faca de dois gumes.

Não sei dos homens que ficaram
A tramar o futuro.
Sei dos homens que se rebelaram
E voaram para desencontrá-lo.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

DILETANTISMO


DILETANTISMO

Jacob Fortes

Principiando, quero pôr em relevo a diferença entre diletantismo e obrigação. A obrigação refere-se a esforço vinculado a um dever. O diletantismo diz respeito a esforço desvinculado, em prol de uma realização pessoal. A obrigação, mais das vezes, sintetiza um meio de vida. O diletantismo uma filosofia que coloca como condição prévia à ação: o prazer, o passatempo, a distração, o hobby, o lúdico. O diletante é capaz de se determinar a agir voluntariosamente em direção a um aprendizado, dominar qualquer técnica, superar obstáculos desde que os esforços exigidos coincidam com o que lhe é aprazível; tragam-lhe mais deleite do que desgosto. O diletante por vezes acalenta sonhos tão estratosféricos que jamais serão atingidos; estão ocultos em colchões de nuvens. Mas é necessário! Os sonhos consolam, (também cavam abismos).
Ao caminho do diletante, não raro, entraves se antepõem, circunstâncias que lhe estorvam o propósito. Ante a essas ocorrências é preciso cautela para esquadrinhar o recomeço: melhores ocasiões e oportunidades. Eu mesmo sou exemplo consumado disso. Ao meu primeiro deletrear na alfabetização senti o despertar, como a uma tendência irreprimível, do gosto pela leitura, mas os reveses que me couberam em sorte impediram-me de regar copiosamente essa inclinação; aplaquei-a, não pude fazê-la progredir plenamente. Gostaria de tê-la posto à frente como a um abre-alas, estadear-lhe o valor, mas era preciso porejar em busca de provisões de bocas, consanguíneas, muitas. É o fado inexorável de quem, despojado de haveres e decalcado de patentes feitas de taipa, sintetiza a privação das massas anônimas e insignificantes. Mas perseverei; não deixei que se estagnassem as necessidades da procura. Feito um passarinho devotado ao fruto preferido, de quando em quando eu engendrava um modo, furtivo que fosse, para degustar colheradas de leitura e, assim, manter o hábito de viajar: deslizando remansosamente nas canoas feitas de folhas de papel, a quem devo muitas consolações e pepitas.
Somente mais tarde, depois de remodelações em todos os níveis, (eu já era aceito em locais de tom) inclusive no bolso, pude dar confiadas asas ao meu diletantismo; que se acentuou com a chegada da aposentadoria; ô adjutório! Esse vezo, a leitura, acabou se tornando o meu avalista nas escritas, que também as faço por divertimento. Aliás, quem se mete a sobreviver da escrita onde se assiste ao fenecimento da leitura insta-se ao aviltado propósito de esmolar.
O desconsolo de ter sido obrigado a embargar o sorriso de um diletantismo que despontou na adolescência, e que fora empurrado, a bem dizer, para o subsolo, impõe-me uma preocupação que pode ser tomada como um lembrete: que os diletantes mancebos — imersos em contendas com os sonhos que lhe aconchegam o peito, mas sem dinheiro para levar a termo as suas vontades lúdicas, — tomem o propósito de estudar demoradamente para desígnios profissionalizantes que lhes assegure futuros auspiciosos; remorem o lúdico para o turno vespertino, transforme-o em intento subalterno. É que certos hobby requerem apostes financeiros e estes defluem do alicerce com que se erige uma qualificação. Antes perder a atualidade dos prazeres que não tê-los nunca.
Muitíssimo se poderia dizer acerca das diferenças que marcam a obrigação e o diletantismo, mas, em síntese, fico com estas particularidades: a obrigação é sisuda; o diletantismo ridente. A obrigação é reservada; o diletantismo espontâneo; a obrigação entedia, o diletantismo recreia; o braço que se há fraco na rotina da obrigação se faz vigoroso no ânimo do diletante.

Mas se o diletantismo é tão prodigioso, cheio de benignidade, por que não aplicar os seus efeitos sobre a obrigação, isto é, o esforço vinculado a um meio de vida? Simples. Basta que o diletante faça da sua obrigação o seu prazer. Mas como fica a aptidão; a disposição natural, o gene, que orienta as pessoas no sentido de uma atividade: pendor, propensão, tendência? No reservatório secreto, o íntimo de cada um, alojam-se intentos lúdicos, alguns inconfessáveis, quem sabe escrever o poema da miséria moral ou, em vindita a Jesus Cristo, estripar um traidor, feito de capim, no Sábado de Aleluia.

Que neste ano de 2015, e seguintes, não nos falte saúde necessária ao diletantismo, este ser alado; inelutável. O diletantismo é mãe invisível que fecha os olhos para que a gratuidade da infância não perca a validade; se estenda até a desmotorização da existência.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Luzes apagadas


Luzes apagadas

Neide Moscoso

os abajus estão acesos
luzes discretas
amparam o repouso
no quarto em penumbra
emoldurando a
lucidez no receio
da loucura
que chega em
luzes apagadas    

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Primeira página do ano de 2015


Primeira página do ano de 2015

Cunha e Silva Filho

           É com Você, leitor,  do Rio,  de outros  estados e de outras  partes do mundo que   me  dá vontade  de  falar. Nada sei  da maioria e alguma coisa  sei de um  pequeno círculo de  amigos ou conhecidos. Sei também    que, em alguma parte, alguém  me lê ainda que seja por uma única vez. Vai procurar  outro blog entre os milhares que existem  para todos os gostos  , opiniões,  grupos  e ideologias.
        O colunista não vai   ficar zangado se  não obtiver uma resposta qualquer visto que a palavra que lhe  enviou nasceu de uma necessidade insopitável de me comunicar com Você através de um artigo,  de uma crônica,  de uma tradução, de uma resenha, de um pequeno   ensaio ou parte de um  ensaio maior ou até pelo  recurso, hoje  quase desnecessário, de  lhe dirigir  em inglês, tendo  eu  o cuidado de adicionar, logo após o texto  em inglês,  a minha tradução, não  a eletrônica,    mas  a minha mesmo, com todas as limitações  que possa haver, não obstante    sabendo  que, como acontece no  Face,  há sempre,   por debaixo do texto em língua estrangeira,  a acessibilidade de lhe   fornecerem a tradução  em  português.
        Como hoje, 2 de janeiro,  escrevo-lhe a primeira coluna do meu blog, a Você dedico as minhas observações,  os meus  “resmungos” (estou pedindo aqui  emprestado ao poeta Ferreira Gullar o termo que, se não me engano,   empregou como  título de sua primeira crônica para o jornal  Folha de São Paulo, Caderno  Ilustração aos domingos.
       Leitor,  se alguma vez  lhe feri  a sensibilidade,  lhe fui um pouco  rude,  ou  lhe contrariei  a visão  política, social,   religiosa,  filosófica ou de qualquer  campo  do conhecimento  humano, não foi  para  prejudicá-lo. Isso jamais  tive a intenção  de  fazer. Contudo, quem  escreve,  tem  suas preferências,  seu direito  de  externar uma  dada cosmovisão, que lhe pertence como  substrato   do seu ser  pensante,  da sua maneira  de ver um  dado  problema, quer   nacional, quer  internacional.
     O escritor  tem que ser livre, livre até para ser   fiel  a si mesmo, ou até mesmo  para,   com  o tempo,  modificar sua   visão do mundo,  seus  pontos  de vista,   posto que nem sempre   correspondam  aos do  leitor, que,  por sua própria condição,   tem  igualmente  sua    maneira de ver o mundo, as pessoas, os fatos, enfim,  as questões que  interessam  ao ser humano.
      Assim como o  colunista   tem o direito  de  expressão  do seu  pensamento, desde que saiba respeitar  o leitor  com  uma linguagem  adequada  ao registro  da  mensagem  a ser   expressa, assim  também  tem  o leitor  de   externar  seus ângulos de visão   do mundo, dos homens  e de tudo  que   forma  essa complexidade  e diversidade  que  é  o   pensamento   humano. Entretanto, seria   muito  entediante  se o autor de um  artigo  pensasse  sempre  em consonância   com   pensamento  do leitor, condição   praticamente  impossível  e imprevisível.
      A meu ver,  não  é  tão acertado assim   ler somente  quem  partilhe de nossas  opiniões.  É preciso    que  entre o leitor e o autor  exista um mínimo de  dialética em questões   de  discussão   de um tema. As  ideias divergentes, ao se chocarem  entre si, impulsionam   o intelecto  a  aprofundamentos saudáveis  e  estimulantes.
     Nosso "horizonte de expectativa" só tem a lucrar com   interlocutores que não professam  os mesmos   ideais  nos múltiplos  campos   do saber  universal. O que não pode  ocorrer  é que  as  divergências  descambem para o terreno  pessoal,  para um nível de discussão,   no qual  só  um  julgue ser  senhor  das verdades. Neste altura  do embate das ideias,  o interlocutor  passa ao terreno  da  polêmica  meramente    conduzida  pelo personalismo,  pela subjetividade,  e assim  ficará cego por não  ser capaz de enxergar   as qualidade  do  adversário.
      Escrevo sob a assunção de que  o leitor  há de ter  em mente  tanto  as  virtudes quanto as  fraquezas ou mesmo   erros (os “disparates de todos  nós” de que falou o mordaz  Agripino Grieco (1888-1973),  do  autor, do colunista, do escritor.  Não existe maior   exposição  de quem  escreve quando   o seu texto  torna-se  matéria  de  análise  ou comentário  do leitor.
    Toda escrita  tem lá seus riscos  e percalços.  O ato,  contudo,  de escrever   implica   correr   riscos assim como   experimentar  deliciosas   sensações e enternecimentos  ou mesmo   suposições de que alguém que Você não  conhece nem talvez nunca conhecerá, por  alguns momentos  do tempo  da leitura,   vivenciou   juízos convergentes  e compreendeu que  vale a pena  o compartilhamento das ideias  e dos sentimentos   de alguém  para alguém, mesmo  se levarmos em conta  o indeterminado   background  cultural    entre os que  escrevem  e os que leem.
      Este  é o pacto,    leitor,  que  desejo  muito  estabelecer  com Você.  De um lado e de outro,  somos livres, livres para  acompanhar  o pensamento  do autor,  ou para dele discordar. Naturalmente,   que  o nosso pacto seja  o da liberdade  de  comigo  permanecer,  ou mesmo afastar-se ou finalmente  - é o que  aguardo  com ansiedade  -  voltar  a mim  com  o coração  aberto  e a alegria de  saber que  não escrevo só para mim, o que seria  egoísmo, mas para  externar  as minha ideias e minha  posições  sobre temas e questões tendo sempre  em conta a dignidade  e   a honestidade  de exercer  esse fabuloso   meio  de  comunicação, que é a escrita, comentando, analisando, e interpretando  o que   os acontecimentos do  mundo nos  provocam e, na medida do possível,   nos  instigam  a dar-lhes   respostas  dentro de nossas  possibilidades de   visão e compreensão.         

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Um clássico de arrepiar


Um clássico de arrepiar

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

O período natalino e passagem de ano novo despertam sentimentos da transitoriedade do tempo e a transcendentalidade da vida. A felicidade se estabelece no equilíbrio das duas.

Bem que eu poderia demorar mais dois ou três dias em Luís Correia, neste finalzinho de 2014. Praias lotadas, tráfego intenso de veículos, nas avenidas ou tentando estacionar nos arredores do shopping e na orla marítima. Gente bonita a exibir corpos roliços, prateados ao sol, ondas e ventos. Tinha tudo para deleitar um feriadão de cio faminto. Sentia que a badalação coletiva se resumia em regabofes, acordes de forró peba a mil decibéis. Faltava algo que me despertasse elevado sentido, em período tão encantador. Eu queria mais que banquetes meio pagãos e dispersivos. Eu carecia de algo que me levitasse do idealismo consumista para a vocação de algo superior.

Transitando na lufa-lufa da cidade, liguei o rádio do carro. Uma raridade de música, difícil se ouvir nas ondas da mediocridade que domina expressiva parte da mídia. Uma obra-prima de Sebastian Bach, genial músico alemão dos séculos 17 e 18. JESUS, ALEGRIA DOS HOMENS, arrebata, arrepia, especialmente executada por orquestra e coral. A letra, uma oração de louvor: “Jesus continua sendo minha alegria,/O conforto e a seiva do meu coração,/Jesus refreia a minha tristeza,/Ele é a força da minha vida/É o deleite e o sol dos meus olhos,/O tesouro e a grande felicidade da minha alma,/Por isso, eu não deixarei ir Jesus/Do meu coração e da minha presença”.

Subi os umbrais do passado: meu seminário, nós em redor do teclado, grupos de tenores, sopranos e contrabaixos, jovens contemplativos, anjos aclamando amém. Lembrava-me de meus pais, que me levavam à igreja de São Raimundo Nonato, na Piçarra. Ou das últimas missas no templo de Fátima, passagem de ano. Aquilo, sim, me inebriava de sublimes esferas, me dava ânimo para a missão neste mundo.

Ouvindo os belos acordes de Bach, achei-me um filho pródigo que, nauseabundo de prazeres terrenos, sente vontade de voltar para a casa do Pai, abraçá-lo, agradecer-lhe todo bem recebido, mas desprezado.

Já me saciaram três dias de litoral. Queria mais, porém em outro plano. Deu-me vontade danada de regressar a Teresina, recolher-me, preparar-me para assistir a missa de gratidão e passagem de ano, no templo de Fátima. Entrei, sentei-me. Enquanto aguardava o início da liturgia, o organista puxou Bach. Não controlei a emoção. Levantei-me, dirigi-me ao organista, que me mostrou a pauta musical, JESUS, ALEGRIA DOS HOMENS. Bach me convencera a voltar aos bons tempos em novo calendário.     

domingo, 4 de janeiro de 2015

SEXO


SEXO

Elmar Carvalho

            vira
gira                 desvira
          revira

reviravolta
         volta e meia volver
mete e tira
tira e mete
tiro ao alvo:
alvo preto cabeludo
dita dura:
fura tortura gostosura
fuça e funga
funga e fuça
suga e sunga
sunga e suga
geme e treme
treme e geme
gemidos e grunhidos
grunhidos e gemidos
vira e mexe
mexe e vira
sobe e cai
cai e pira
         tira delira
         pinto pinga
         ping pong    

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Papa Francisco e as 15 doenças do poder


Papa Francisco e as 15 doenças do poder

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

  
                O ano de 2014 despede-se, trôpego retirante, carregando na mochila memoráveis e vergonhosas decepções. Escândalos monumentais provocados pela roubalheira e corrupção diárias. Um sonoro tabefe na dignidade nacional. Apavorante sensação de que vale a pena o crime resvalar para a imoralidade, quando se há pedigree político e dinheiro para dissimular, defender-se, comprar. Condenados a longos anos de cadeia, agraciados com brevidade da pena ou soltura para conquistar mandato.

         No clima natalino, pensei enviar mensagem, meio melosa e romântica, como exige a data, para algumas autoridades. Faltaram-me coragem e franqueza. Louvá-los, compactuaria com a turbidez moral que os distingue. Foram poucos, pouquíssimos agraciados, apesar do volume de secretários, parlamentares, assessores palacianos. Tanta fartura de cargos que só banana e pequi na feira. Certos convocados não se seduziram pelo canto da sereia. A tentação edênica do fruto proibido pudesse exibir a nudez da vergonha.

         O noticiário informa que o Papa Francisco reuniu a Cúria para confraternização natalina. Todos esperavam gentilezas, mas receberam presente de grego. Em vez dos mimos, uma viril e corajosa filtragem de água túrbida, típica dos líderes e estadistas. O discurso do pontífice valeu como ultimato, aquela exigência que um Estado apresenta a outro, cuja não aceitação implica declaração de guerra.  

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Nas estrelas


Nas estrelas

Neide Moscoso

quem me leva é o mar
quem me chama é o vento
para as estrelas eu vou só
transpondo o céu que
se confunde com o mar azul
esbarrando no azul dos
teus olhos
com sede de mais azul
onde se douram só na
presença das estrelas