terça-feira, 21 de abril de 2015

PADRE LOTÁRIO WEBER – UM ALEMÃO NA HISTÓRIA DO PIAUÍ


PADRE LOTÁRIO WEBER – UM ALEMÃO NA HISTÓRIA DO PIAUÍ

Vicente Araújo Silva (Potência)

Ontem, dia 20 de abril de 2015, marcou na história eclesiástica do Piaui, o fim da passagem em vida de um padre que se notabilizou nos rincões piauienses pela sua marcante atuação na evangelização e propagação da fé cristã na região norte do nosso Estado a partir da Paróquia de Pedro II , onde, criou as Paróquias de São José Operário e a da cidade  Lagoa de São Francisco.

A sua trajetória em plagas piauienses estão registradas em uma rápida biografia publicada por ocasião do seu aniversário de 90 anos, quando, a sua saúde já apresentava avançado estado de precariedade decorrido de um desastre automobilístico.Ei-la a seguir :

MONSENHOR LOTÁRIO WEBER

Pe. Lotario Weber nasceu no dia 03 de março de 1924, em Langenberg – Alemanha. Em sua terra natal iniciou os primeiros estudos. No mês de março de 1950, entrou no Seminário Maior em Bonn, na Alemanha. Fez o doutorado em Filosofia e foi ordenado padre no dia 24 de fevereiro de 1955. Inicialmente trabalhou em paróquias na sua Diocese de origem. Durante o Concílio Vaticano II, o então bispo de Parnaíba, Dom Paulo Hipólito de Sousa Libório, fez contatos com os bispos da Alemanha apresentando a necessidade de ter um clero mais numeroso.

Pe. Lotário Weber queria ir a uma terra de missão na África quando Dom Franz Hengsbach, bispo de Essen, o convidou para ir ao Brasil. Assim, Pe. Lotário Weber chegou a nossa Diocese de Parnaíba quando o bispo diocesano lhe confiou a paróquia de Nossa Senhora da Conceição em Pedro II. Além de um grande trabalho de evangelização realizou também muitos trabalhos de promoção humana como a construção de hospitais e escolas. Foram longos anos de investimentos e trabalho pesado, mas em meio aos trabalhos, o padre Lotário conquistou muitos amigos e parceiros, que não deixaram o cansaço e o desânimo influenciar na concretização dos seus ideais.

Depois encontramos o Pe. Lotário por quatro anos na paróquia de São Gonçalo em Batalha, onde desenvolveu novamente um intenso trabalho evangelizador. No município, fundou com seu entusiasmo, a Vila Kolping e vários Centros comunitários.

Voltando a Pedro II, na paróquia de Nossa Senhora da Conceição, quando preparou a criação de mais duas outras paróquias – São José Operário e Lagoa São Francisco. Estendeu o seu trabalho evangelizador para além das fronteiras paroquiais, quando iniciou a pastoral dos migrantes. Anualmente visita e celebra a Eucaristia em diversas capitais do Brasil com os antigos paroquianos que deixaram o nosso Piauí em busca de uma sobrevivência mais digna.
Reconhecendo o trabalho apostólico e o espírito missionário, recebeu do Beato Papa João Paulo II, o título de Monsenhor.

Em 1989 partiu para um povoado e posto fiscal que se chamava São João da Fronteira do município de Piracuruca.  A nova morada do padre parecia um campo abandonado, esquecido pelo tempo e coberto pela poeira e o sol escaldante. Foi um local habitado por poucas famílias com uma capela sem teto. Aí a pequena comunidade se reunia para celebrar a fé e uma vez por mês a santa missa. Em muitas localidades o Mons. Lotário celebrava a santa missa embaixo de árvores com um povo sedento de Deus, segundo o padre: “O desejo dos fiéis pela palavra de Deus era o que fortificava sua vocação.” O padre era esperado como salvação do lugar.

Para ajudar na construção da cidade de São João da Fronteira, o Mons. Lotário trouxe famílias de Pedro II, com a garantia de moradia e trabalho. Primeiro vieram pedreiros, eletricistas e encanadores, todos os servidores para levantar a cidade. Em seguida vieram as esposas e filhos de cada ajudante, para também contribuir com o andamento da cidade. A cidade aos poucos foi criando forma. Escolas, capelas, praças e a nova Igreja matriz foram construídas. Construiu também um convento e convidou as Irmãs - Pobres Servas de Jesus Cristo para colaborar no trabalho social e religioso. Com um estilo próprio por onde passou. Mons. Lotário deixou marcas e por esse motivo o hospital daquela cidade recebeu o seu nome.

Foram dez anos de atuação como pároco e contribuinte ativo na formação da cidade. Passados esses anos, o Mons. Lotário segue seu caminho em direção a mais uma etapa de sua longa missão. Desta vez, Cajueiro da Praia foi o lugar escolhido. Em todos os lugares por onde atuou a sua principal preocupação, foi a formação de catequistas. Por isso desenvolveu um intenso trabalho vocacional. Diversos sacerdotes e religiosas despertaram para a vocação que hoje estão abraçando, através do testemunho e da ação apostólica do Mons. Lotário. Em 2009, numa estrada do município de Cajueiro da Praia, o veículo no qual se encontrava capotou provocando um acidente que resultou em risco de vida para ele, que tinha 86 anos. Após um longo tratamento na Alemanha, o sacerdote retorna para Cajueiro da Praia, período em que sofreu infarto por duas vezes.  Devido a oração de muitos fiéis conseguiu se recuperar e assim continua a trabalhar nas mais diversas atividades pastorais na sua querida cidade de Cajueiro da Praia. Igrejas, Centro Pastoral, capelas têm um estilo que são a marca padronizada do nosso estimado padre.

“Em todo lugar que a gente chega para trabalhar encontra amigos. Deixei muitos amigos em Pedro II e os agradeço pela amizade que preservam por mim, ainda. Em São João da Fronteira e Batalha foi assim, em Cajueiro da Praia também fiz muitos.” Foi o que disse o nosso querido Mons. Lotário. O sinal de um belo testemunho que traz para a vida real toda a fé e a sabedoria de 59 anos dedicados ao ministério sacerdotal. Como São Paulo diz: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim”. (Gal.2,20)   

domingo, 19 de abril de 2015

Seleta Piauiense - Danilo Melo


Noite

Danilo Melo (1965)

Noite na cidade
O coração vagabundo de um poeta do terceiro mundo
Bate e bate
Esqueletos em volta de surfista de esgoto
Contemplam a lua cheia de farsa
Ratos no porão entoam Bach
O poeta traz a barriga cheia e os olhos encharcados
De poesia
A história de seus olhos é viva
A história de seu olhar é pálida.   

sábado, 18 de abril de 2015

Confissões de um juiz lançado em Campo Maior

No link abaixo, vejam reportagem sobre o lançamento de "Confissões de um juiz" em Campo Maior.
http://campomaioremfoco.com.br/escritor-elmar-carvalho-lanca-livro-de-memorias-em-campo-maior.html

João Cláudio Moreno em espírito

Fonte da foto: Jornal Luzilândia

João Cláudio Moreno em espírito

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

         Todo mundo consagra e aplaude a genialidade do maior humorista piauiense João Cláudio Moreno. Nem precisa destacar o talento para cantar, imitar personagens, arrebatar multidões, dentro e fora do Estado. Que já fez o Brasil gargalhar na Escolinha do Professor Raimundo e vencer concurso de piadas no Faustão, ambos da TV Globo. Que viaja pelo país, realizando shows de humor, especialmente no Nordeste. Em canal de televisão de Teresina, comanda espécie de realy show, o João Cláudio Em Casa. Entre as sacadas de humor, porém, o artista reluz uma aura de espiritualidade e saques de lição de vida, às vezes personificando paramentado sacerdote.

Em plena Avenida Raul Lopes, meio a multidão de foliões do corso, João Cláudio apareceu vestido de papa com o báculo e a tiara. “Eu gostaria de ser padre, mas o bispo não me aceita”- confessa risonho. No famoso Teatro Municipal José de Alencar, em Fortaleza, o humorista provocou, antes das tacadas de riso, profundo silêncio na plateia, com um choque celestial para alegrar os espíritos: “Só têm dois caminhos: o humor e a oração. Uma hora, a morte vai chegar. A verdade é que não estamos preparados para isso. Eu não quero saber quanto é breve a vida e quanto dura a eternidade. O certo é fazer uma sincronia entre o que faço e no que penso e acredito, em comunhão com o que quero dar ao semelhante. Vai chegar a hora em que Jesus vai dizer: “Estava com fome, nu, sedento, preso...e me deste de comer, me vestiste, me visitaste”. Vai até dizer: “Eu estava triste, e tu me fizeste rir”. A poesia existe em mim e a trago do meu Piauí”. A plateia bateu calorosas palmas, e o espetáculo de humor começou. Poucos comunicadores de massa exercem a consciência de testemunhar o bem. Só futilidades e escândalos, como certas bandas de medíocres forrozeiros.

         João Cláudio, nesta semana, mandou-me e-mail, comunicando a compra de meu livro ESCORREGÕES NO PORTUGUÊS. Na resposta, aproveitei para louvá-lo, pelos espetáculos que sempre exalam uma aura de espiritualidade sem ranço chato de religiosidade. E concluí: “Isto faz um bem danado ao mundo inebriado de valores voláteis e transitórios. Nossa passagem pelo planeta é breve. Praticamente, só nos tornamos produtivos a partir dos 30 anos, sem acrescentar 30%, ou mais, dormindo. Os néscios entregam-se, avidamente, ao consumismo e prazeres, sem atender a construção do espírito: morrem e não levam nem a cueca ou calcinha”. Resposta imediata do João Cláudio: “Professor, concordo com o senhor. A vida é curta para mesquinharias. O que é nosso ninguém nos tira. E se tiraram não era nosso. E vamos fazer nossa parte. O resto não é problema nosso. Eu me sinto animado porque num mundo que perdeu a Fé e em que a única referência passou a ser o dinheiro, ainda encontro gente como você e tantos outros. Tudo o que  você escreve me alimenta. E suas palavras de incentivo me salvam de todo desânimo. Vou atrás do seu livro. Minhas limitações infinitas sobressaem no uso do idioma cheio de armadilhas”.

         Descortina-se o espetáculo, a plateia ri e gargalha, sem perceber que algo mais atinge a profundidade da alma pelo carisma de João Cláudio Moreno. Palmas!     

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Minha formação (2)


Minha formação (2)

Cunha e Silva Filho

         O grande  instante - um marco  epifânico da minha  formação  intelectual -  foi num certo dia em que   me descobri, no “quarto-biblioteca,” lendo um texto em inglês em nível  intermediário, seguramente um dos muitos  livros didáticos  de quantos  havia em  casa para o  ensino do inglês, assim como do francês; espanhol viria   depois, já no curso científico.

         Qual não foi a minha alegria   quando, na medida em que ia lendo um texto, pude perceber que o fazia  sem pensar em português, porém o  entendia  na própria língua inglesa. Eureka! O mesmo  diria para o meu francês,  mas em  tempo mais  dilatado e, assim com o espanhol, o estudo do inglês me absorveu mais  tempo e mais dedicação, ao passo que  o francês às vezes ia ficando  em  segundo  plano e o   mesmo  poderia  falar do espanhol.

        Foram na mocidade e na vida adulta que  as três línguas, sobretudo na habilidade da leitura, iam sendo consolidadas, não obstante  tenha  um poliglota,  em livro prático para o ensino de idiomas, afirmado  que uma língua só  estrangeira já é  trabalho para toda a vida.Segundo ele,  mesmo uns quinze ou vinte anos  não são por vezes  suficientes para o  completo  domínio de um  idioma  estrangeiro.  

      Por isso,  nunca me descuido de estar sempre  melhorando  e mantendo um  bom nível  de entendimento do que aprendi até hoje quando   venho  começando  a  estudar  o italiano e, como sempre,  de forma autodidática. Talvez, me decida a estudar o alemão e rever o meu latim, já  que o grego que cursei na universidade foi muito pouco  e o ensino dado  com  certa pressa.

   Hoje em dia,  quem gosta  de idiomas  modernos ou mesmo  de línguas  menos   ensinadas, como  o russo,  o hebraico,  o romeno, o polonês, o japonês,  o chinês, o árabe,  tem muitas  possibilidades de aprendê-las, seja pela internet, seja  por  livros com   lições  gravadas em CDs e chaves do exercícios. A grande  lição  que aprendi  nesse terreno é que línguas estrangeiras devem ser  aprendidas bem cedo em nossas  vidas.

    Diria, aproximadamente,  no início da adolescência, havendo  linguistas, contudo,  que advogam  que os idiomas  estrangeiros  devem ser ensinados a partir  da infância. Num pequeno livro que escrevi, Breve introdução ao curso de Letras: uma orientação (Rio de Janeiro:Litteris Ed; Quártica, 2009, 117 p.) para o  curso de Letras, desenvolvo um capítulo  sobre a importância do conhecimento de idiomas, não somente para  os  profissionais do ensino, mas para  todas as profissões que exigem  uma graduação universitária.

   Na minha formação  particular, a “Biblioteca” de papai  me trouxe muitas alegrias; nela havia  excelentes livros didáticos  e especializados (gramáticas) assim como notáveis dicionários de inglês,  francês e latim. Li com sofreguidão autores como  M. de Oliveira Malta, Jacob Bensabat, Frederick  Fitzgerald,  Pe. Júlio Albino Ferreira,  Júlio Matos  Ibiapina,  J. L. Campos Jr. Isso para me limitar ao inglês. Do francês,  havia  Marcel Debrot,   Isabel Junqueira Schmidt, Carlos Ploetz, compêndios  de conjugação dos  verbos franceses; em latim, a gramática  de Mendes de Aguiar que, se não me falha a memória, foi  professor  de meu pai no Rio de Janeiro. Além disso,  tive a sorte de ter sido aluno de francês de meu pai no ginásio e, no  científico, da Madame Helena, no Liceu Piauiense.  

      Tive também a fortuna  de ter sido aluno de inglês  nota 10 do  professor Francisco Viveiros. Falava um belo  inglês americano, pois  fizera cursos  técnicos nos Estados Unidos aproximadamente  nos anos  1950 com bolsa de estudos patrocinada possivelmente  pela  Escola Industrial de Teresina. Ele me lecionou inglês  não “Domício” (ginásio) e no Liceu Piauiense(científico). Como sempre fui entusiasta sobretudo do inglês,  na Biblioteca do Liceu li sua tese para professor catedrático de inglês; versava sobre o “genitive case.”

    Tive professores maravilhosos,  sobretudo no “Domício” como  João Batista (de latim e canto orfeônico),  Lysandro Tito de Oliveira (de geografia), Francisco Viveiros ( de inglês) Melo Magalhães (de matemática), Domício Melo Magalhães  (de história),  Tonhá   (de português), Alcides Lebre (de desenho), Edmar Vasconcelos de  Sant’Ana (igualmente de desenho), João Antônio (de ciências ), Cunha e Silva (de francês).

   Ainda tive outros professores no Domício de cujos nomes não me recordo,  pois me lecionaram  por  pouco tempo.  O meu período de ginásio  foi muito mais  alvissareiro do que o do científico, onde tive algumas  decepções com  relação a alguns professores.

   No Liceu Piauiense,  conheci  alguns  professores de grandes méritos, o A. Tito Filho, mestre inigualável  de literatura luso-brasileira, era um deles.  Pontual,   dedicado às suas aulas tipo conferência, nas quais, além  da disciplina  específica,  despertava os jovens à reflexão crítica  dos grandes temas de natureza  histórica,  política e social. Fluente,  tribuno,   possuidor  de  qualidades   inatas de orador  de memória precisa, de gesticulação harmoniosa,   de voz agradável e aliciante, o grande jornalista  e cronista  de amplos recursos  entusiasmava a todos nós. 

        Era exigente,  corrigia todos os trabalhos escritos   propostos  sobre  assuntos  literários  já anteriormente   ventilados  com  muita  didática. Passava aos alunos tarefas  de redação, o que  chamava de  “apreciação” de um  tema ou, segundo  gostava  de pedir-nos: “Faça uma apreciação sobre o  Romantismo  de  Castro Alves.”      

        Acredito que ele me foi muito útil  na minha    atividade  crítica. Era econômico nos elogios, mesmo aos bons alunos. Suas aulas fizeram época. Em 1968,   de volta de um congresso de jornalista  em Porto Alegre, passando  pelo  Rio de Janeiro, conversei com ele  ligeiramente. Meu pai também  compunha  o grupo de congressistas. De regresso ao  Piauí,  A, Tito  Filho escrevera no jornal de Teresina, numa  das notas de sua coluna, palavras  elogiosas sobre a minha pessoa como  ex-aluno dele.  Uma vez,  o  notável  tradutor e professor  Paulo Rónai, no Jornal do Brasil,   teceu-lhe  encômios sobre um livro de crônicas.

 (Continua)        

Esperantina


Esperantina

Hélio Soares Pereira

Estes olhos
trazem o brilho
da manhã

Trazem a espera
e o sorriso
da menina

E as noites
que guardei no canto do olho
-velho clube da praça

O largo da matriz
chafariz de lembranças
a banhar-me

Trazem dias de festa
A banda de seu Chico
Os comícios após a missa

Trazem as águas de teu rio
e o fio que me leva a ti  

quarta-feira, 15 de abril de 2015

COSTA ALVARENGA - O patriarca da insuficiência aórtica


COSTA ALVARENGA
O patriarca da insuficiência aórtica

Reginaldo Miranda
Da Academia Piauiense de Letras

Foi Pedro Francisco da Costa Alvarenga um renomado médico, professor e cientista luso-brasileiro. Ele veio ao mundo em Oeiras, então capital da província do Piauí, no ano de 1826. Era neto do português Francisco José da Costa Alvarenga, homem culto e inteligente que, embora sem as láureas acadêmicas, fazia as vezes de médico na província.

Em sua terra natal iniciou-se nas primeiras letras, sendo alfabetizado ainda muito jovem. Entretanto, mal completara oito anos de idade, em 1834, observando seus rasgos de inteligência e para melhor conduzir a sua formação intelectual seus pais retornam ao velho continente, fixando residência em Lisboa.  Foi então que o pequeno menino de Oeiras pôde prosseguir em seus estudos, para isto contando com as lições dos principais mestres de seu tempo. Aluno de gênio incomum, aliado à extraordinária força de vontade, ainda adolescente cursou Matemática na Escola Politécnica e Zoologia na Academia de Ciências, sendo premiado em ambos os cursos por seu desempenho escolar. Em 1845, matriculou-se no curso de Medicina da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, concluindo-o com louvor em 1850, tendo sido mais uma vez premiado em todos os anos letivos. (Jornal de Pharmacia e Sciencias Acessórias de Lisboa – 1849). 

Depois de formado, rumou para a Bélgica, doutorando-se com brilhantismo pela conceituada Universidade de Bruxelas, em 1852. Durante todas as fases de sua vida escolar foi um aluno que distinguiu-se sem competidor. Dada a sua inteligência privilegiada foi insistentemente convidado a permanecer naquele país, não aceitando, porém, as inúmeras ofertas de trabalho. Sobre o assunto, mais tarde, assim noticiou o jornal A crença, de Lisboa: “Sabemos por pessoa fidedigna que na Bélgica foi o sr. dr. Alvarenga convidado por vários professores para o magistério, o que ele agradecera não aceitando, porque, disse ele, preferia servir na sua pátria. Como não havia pois de subir(mesmo a despeito dos inimigos da talento  e do trabalho) a igual dignidade entre nós, dedicando-se ele com toda a força de sua inteligência ao estudo da ciência que tem cultivado com tanto esplendor? (A crença, 11.07.1862).

De retorno a Portugal, iniciou o trabalho de atendimento clínico, tornando-se médico efetivo do Hospital de São José, da Santa Casa de Misericórdia, subdelegado de saúde e médico honorário da Câmara de Sua Majestade Fidelíssima. Foi, entretanto, inexcedível em sua luta de amparo aos enfermos durante as duas grandes epidemias de cholera morbus e de febre amarela que assolaram a capital portuguesa(1853 – 1856), assumindo a direção de vários hospitais especialmente montados naquela oportunidade. Por esse tempo adquiriu grande reputação, sendo chamado a toda parte. Era o médico de Lisboa. Segundo a imprensa de antanho, se não bastasse a sua profícua produção acadêmica, bastava ouvi-lo “para se reconhecer o médico que sabe fazer o diagnóstico das doenças de peito com precisão quase matemática. A auscultação, a percussão, a mensuração, assim como os demais meios de descobrir as doenças, têm no sr. Alvarenga um apaixonado cultor”. E mais, “em tão breves anos não é fácil adquirir neste país maior soma de conhecimentos teóricos e práticos do que possui o sr. dr. Alvarenga” (A Revolução de setembro, n.º 6045, de 8.7.1862; A crença, de 9.7.1862)

Concomitantemente ao atendimento clínico, dedicou-se com afinco e denodo ao ensino e à pesquisa, encetando vitoriosa carreira acadêmica. Em 1862, depois de consagradora aprovação em concurso público, assumiu a livre-docência de Matéria Médica da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, onde se formara doze anos antes. O seu desempenho nesse concurso foi acompanhado e aplaudido pela imprensa portuguesa, para quem o resultado correspondeu à expectativa, tendo o afamado clínico da capital justificado a sua merecida reputação. A segunda lição do certame, aplicada em 29 de junho, versou sobre a medicação estimulante, os alcoólicos e preparados amoniacais, tendo o candidato discorrido “durante uma hora com facilidade de locução, abundância de fatos e certeza de doutrina, que só podem ostentar o talento distinto e a inteligência desenvolvida pela aplicação aturada”. Acrescenta o periódico: “O ilustre opositor não é um mero expositor de doutrinas alheias; sobressai nas suas orações a crítica severa, mas esclarecida, que na atualidade mais do que nunca se torna necessária para se não desviar a ciência da verdadeira vereda que lhe traçou o imortal filósofo de Verulamio”(A Revolução de setembro, n.º 61038, de 29.06.1862).

Segundo o já indicado órgão da imprensa, em 3 de julho concluiu “as suas provas teóricas e orais no concurso (...) o laureado candidato(...). O erudito e talentoso opositor, falando da asfixia em geral, mostrou-se tão profundo fisiologista como lido nos mais abstrusos problemas da jurisprudência médica”. E sobre a conclusão do exame em 8 de julho, informa o mesmo periódico:  “O médico estudioso e consumado prático revelou à saciedade que pode ser ao mesmo tempo escritor fecundo, profundo teorista e hábil clínico, uma vez que a inteligência seja desenvolvida pelo estudo assíduo dos livros e pela lição que fornece a observação e a experiência à cabeceira dos enfermos. (...). Os seus numerosos escritos aí estão patentes para atestarem o que vale o nosso talentoso médico. Quanto à sua aptidão prática, a capital o sabe de sobejo; os doentes do hospital do Desterro que o digam; os facultativos que solicitam conferências que o atestem”(idem). O jornal A crença(11.07.1862) assim se expressou: “Felicitamos, pois o sr. dr. Alvarenga, por ter tido ocasião de mostrar mais uma vez o seu talento e profundos conhecimentos; à escola médico-cirúrgica de Lisboa por receber no seu grêmio mais um membro que a há de enobrecer tanto quanto tem ilustrado a medicina portuguesa dentro e fora do país”. Era, de fato, um orgulho da nação portuguesa.

Em 1853, fundou e tornou-se o principal redator da Gazeta Médica de Lisboa, conceituada revista que circulou até o ano de 1875, de onde vários artigos foram traduzidos e republicados em outras importantes publicações científicas europeias. Dada a sua notoriedade acadêmica, ingressou como sócio efetivo na Academia Real de Ciências e correspondente na Imperial Academia de Medicina do Rio de Janeiro, além de mais de trinta associações de ciências e letras da Europa. Foi agraciado com títulos e comendas em diversos países.
Realizou inúmeras descobertas científicas. Porém, o que mais notabilizou o seu nome foi a descoberta, em 1856, do sinal do duplo sopro crural da Insuficiência aórtica, também conhecido como “Sinal Alvarenga-Duroziez”. Ocorre que aquele conhecido cardiologista francês observara o mesmo sinal seis anos depois e então estava sendo ensinado na escola francesa com o nome exclusivo deste. Entretanto, Costa Alvarenga reivindicou seus direitos e a Academia de Paris, considerando que o sintoma já estava muito vulgarizado com aquele nome passou a denominá-lo homenageando os dois cientistas. Entretanto, alguns tratadistas, entre os quais o italiano Castellino e o brasileiro Miguel Couto, reconhecem apenas a primazia do luso-brasilerio denominando-o apenas por “sinal de Alvarenga”.

A par dessa importante descoberta, ainda divulgou “muitas outras obras magistrais, como, as têm qualificado os homens mais competentes, algumas laureadas, outras vertidas na língua universal, aconselhando alguns professores da faculdade de medicina em França aos seus discípulos a leitura”, principalmente aquelas “sobre doenças do peito, como muito instrutiva e ótimo guia no estudo da especialidade” (A crença, 11.07.1862). Entre as quais, destaca-se: Estudo sobre as variações de comprimento dos membros pelvianos na coxalgia(tese da formatura – 1850); Memória sobre a insuficiência das válvulas aórticas e considerações gerais sobre as doenças do coração(1855); Considerações sobre o cholera-morbus epidêmico no Hospital de São José de Lisboa(1856); Notícia do Relatório sobre epidemia de chólera-morbus no Hospital de Sant’Anna em 1856(1858); Relatório sobre a epidemia do cholera-mobus no hospital de SantAnna em 1856(1858); Apontamentos sobre os meios de ventilar e aquecer os edifícios públicos(1857); Esboço histórico sobre a epidemia de febre amarela na freguesia da Pena em 1857(1859); Anatomia patológica e sintomatologia da febre amarela em Lisboa no ano de 1857(1861); Como atuam as substâncias brancas e cinzentas da medula espinhal na transmissão das impressões sensitivas e terminações de vontade(1862); Estado da questão acerca do duplo sopro crural na insuficiência das válvulas aórticas(1863); Apontamento acerca das etocardias a propósito de uma variedade descrita, a traquocardia (1867); Estatística dos hospitais de São José, São Lázaro e Desterro no ano de 1865(1868);  Considerations et observations(1869); Da importância da estatística na medicina(1869); Elementos de termometria clínica geral(1870); Estudo sobre as perfurações cardíacas(1870); Da cinose(1871); De la therminologie generale(1871); De la thermosemiologie et thermacologie(1871); Anatomia patológica e patogenia das comunicações entre as cavidades direitas e esquerdas do coração (1872); Sintomatologia, natureza e patogenia do beribéri(1872); Bosquejo histórico e crítico dos meios terapêuticos empregados contra a erisipela(1873); Bosquejo histórico e escrito da cianose(1873); Grundzüge der Allgemeinen clinischen Thermometrie und der Thermosemiologie und Thermacologie(1873); Bosquejo histórico da percussão(1874); Do salicato de potassa no tratamento da erisipela(1875); Da propilamina, trimetilamina e seus sais(1877); Leçons cliniques sur les maladies du couer(1878); Tratado de matéria médica e de terapêutica pelo Dr. Mothmagel(1878); Farmacotermagenese(1880); Reclamations et reponses(1880); Des medications hypothermiques et hyperthermiques, et des moyens therapeutiques que les remplissent(1881); Theories de l´action therapeutique du tartre stibiè dans la pneumonie(1881); Apontamentos sobre os pontos de aplicação das vias de absorção dos medicamentos(1882); Fragmentos de farmacoterapiologia geral ou matéria médica e terapêutica(1883).

Em 1872, demorou-se longo tempo no Rio de Janeiro, tomando parte ativa nos debates na Imperial Academia de Medicina, de que resultou na publicação de um livro a respeito, lançado em 1873. Sobre esse período escreveu o notável escritor Machado e Assis ao folhetinista lusitano Júlio César Machado(1835 – 1890), que travou relações de amizade com Costa Alvarenga, que muito o honravam e não haveria de esquecê-las, chamando atenção para sua vasta capacidade e para a nomeada que tão justamente gozava este na Europa. De regresso a Portugal passou Costa Alvarenga pela Bahia, oportunidade em que medicou o jovem Rui Barbosa, diagnosticando anemia cerebral e subnutrição.

Faleceu em 14 de julho de 1883, na cidade de Lisboa, vítima de fulminante lesão aórtica, o mesmo mal que estudara por grande parte de sua vida. As cinzas de seu corpo repousam honrosamente na cripta da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Possuía apenas 57 anos de idade e já era um dos mais respeitados cientistas da Europa. No Brasil, é patrono da cadeira 10 da Academia Nacional de Medicina.

Apaixonado pela ciência e visando fomentar as pesquisas científicas instituiu em seu testamento um incentivo às academias de medicina de Paris, Lisboa, Bruxelas, Viena, Berlim, Filadélfia, Estocolmo e Rio de Janeiro, deixando-lhes uma fonte de renda permanente para premiar as principais pesquisas científicas. A denominação dada a essa premiação é uma declaração de amor à terra natal, que mesmo distante nunca morreu em seu pensamento, “Prêmio Alvarenga do Piauí”.

E como se não bastasse legou também à província do Piauí uma importância financeira suficiente para construção de uma escola em Oeiras, que somente foi construída muitos anos depois, recebendo o nome de “Grupo Escolar Costa Alvarenga”.


Foi, portanto, um cidadão benemérito, cuja fama correu mundo, mas nunca esqueceu a terra em que deu os primeiros passos e as velhas margens do riacho do Mocha, onde, certamente, brincou e em cujas águas banhou nas peraltices de criança. É justo, pois, que o Piauí também não lhe esqueça, rendendo à sua memória um preito de justa gratidão. É o objetivo dessa lembrança, além de dizer à juventude piauiense que esta terra é boa e produz excelentes frutos. Guardemos, pois, para sempre a memória desse grande cientista que honra e glorifica a terra piauiense.

domingo, 12 de abril de 2015

Minha formação


Minha formação

Cunha e Silva Filho

      O INÍCIO. Aviso aos navegantes: não vou  expor neste simples e ligeiro artigo inicial  qualquer  coisa que  aspire ao que  Joaquim Nabuco (1849-1910)  alcançou, de forma admirável,  auto-retratar-se  intelectualmente,  dedicando a isso um livro  clássico,  Minha formação ( 1900). Aqui apenas   procuro traços  gerais da matéria, porém com a convicção de quem conhece suas  limitações no corpo de algumas colunas a que  darei  sequência. Julgo que não serão tantas.
    Sem o brilhos dos  precoces,  me descobri, no início da adolescência, naqueles  estritos limites dos teens que  a língua inglesa, tão etimológica,  sabe  muito  bem  exprimir de maneira  prática e funciona, que  ler é um prazer  que traz conhecimentos e abre  o nosso espírito, livremente,  a mundos  desconhecidos  com uma  alegria e emoção incontroláveis e para toda a vida.
   Entre aquele  “quarto-biblioteca” de meu pai, Cunha e Silva (1905-1990) e aquele outro  “quarto de estudos,”  (que dava tanto para a rua São Pedro quanto para a  Rua Arlindo Nogueira, em Teresina),   onde fazia intensas  e contínuas  leituras quase diárias  de antologias  que me chegaram às mãos ou mesmo  aproveitando  tudo de textos  de livros didáticos  de língua portuguesa do ginásio, do científico ou clássico para deles fruir  ora o sabor  do lirismo  poético, ora  o enredo  das narrativa,  ora ainda procurar  dinamizar  a capacidade  de conhecer  palavras novas, de saber-lhes os sentidos e, quando  possível,  internalizá-los ao máximo de minhas  possibilidades mnemônicas.  
   Foi  nesse mesmo  período  de vida desabrochando que, com um caderno  médio  em  número de páginas,   listava  alguns temas  previamente   escolhidos para,   depois,  tentar desenvolvê-los  em forma de pequenos  textos. Os temas, variados (a família, a pátria,  o amor,   amizade,  os livros,  a vida escolar,   etc),   prestavam-se mais  a  exposições analíticas em torno  do tema e, assim,  ia compondo  os meus  textos   até encher  aquele caderno.
   Não me lembro se enchi outro caderno  nas mesmas  proporções. Contudo,  o que me  era   bastante sistemático  era a combinação que fazia  entre  leituras  e escrita, coadjuvadas com as leituras de gramáticas  da época, as de Eduardo Carlos Pereira ( a de nível elementar, a de nível superior e a sua Gramática histórica) e  a de Brant  Horta (Gramática intuitiva da língua portuguesa), um livrinho  de análise sintática, de  Antenor  Nascentes  que me  deu  enorme ajuda  ao entendimento do que era a análise  lógica de textos clássicos, até   de Camões, a Gramática da língua portuguesa, de Carlos Góis, atualizada por Herbert Palhano, que  compulsei muito, até mesmo  dando  aulas em escolas do Rio de Janeiro.  Não posso deixar de citar a Gramática de um velho  autor,  Gaspar de Freitas, , que me foi  de grande utilidade para entender o que era oração principal. Era um livrinho muito funcional.
          Tenho quase certeza de que  me vi forçado a melhorar meu  português por força  de uma crítica injusta de um  professor de português que tive no  Domício (nome pelo qual   afetiva e popularmente  chamávamos  ao  Ginásio “ Des. Antonio Costa) nos anos  de 1950. Depois,  li também  a gramática  de Artur de Almeida Torres, autor  didático  que  publicou vários bons  volumes  de livros    e estudos de filologia e que vim   a conhecer melhor no Rio de Janeiro.
        Não sei como  meu pai  interpretava  aquela  mania do adolescente  insulado no seu  “quarto-biblioteca”, remexendo  os livros  dele,  olhando um,  olhando outro, a ponto de chegar a conhecê-los, um por um,  por títulos.Uma vez,  observei que ele parecia não gostar de que eu  mexesse tanto em seus livros – sentimento que, agora  compreendo na sua plenitude. Meu pai,  que era  grande leitor de livros e jornais,  naturalmente,por ciúme,  e cuidados,  pensava que  fosse danificar-lhe   os  livros.  “Que diabo esse menino  faz todo dia aqui  xeretando  meus livros?” Uma vez,  chegou ao ponto de me  advertir: “Olha,  meu filho,  cuidado com  os dicionários e com os livros mais  antigos.Muito cuidado!” Não lhe dei resposta. Saí silencioso  como  um monge   de um  poema de W. H Wadsworth (1865-1887).       
     Entretanto, a despeito das suas advertências, aproveitava as horas em que meu pai  não estava em casa e lá ia em direção ao “quarto-biblioteca” novamente  remexer no acervo tão precioso e tão significativo para a minha vida futura.Então,  livre,  podia  ir  tomando conhecimento  com  a diversidade  de gêneros de títulos  alinhados  nas prateleiras das duas enormes  estantes.
   O quarto virava uma espécie de cela monacal, na qual  o exterior  pouco me  importava mergulhado que  ficava entre  livros, autores,  histórias,  ensaios, poesia,  filosofia,  geografia,  história,  sociologia,  física, matemática (aritmética,   álgebra e geometria),    botânica,  química,  desenho geométrico,  e o que tanto  me fascinava: obras para o aprendizado de  línguas que não sabia ainda suficientemente ( francês,  inglês,  latim, espanhol).  
   No topo de cada estante,  havia  umas caixas grandes de papelão apinhadas de recortes de jornais: eram os artigos de meu pai  publicados em  diversas  épocas de sua vida. Num deles,  encontrei uma poema  a ele dedicado,   o qual  dizia assim: “À inteligência  prodigiosa (ou “brilhante,” não me recordo bem) de Cunha e Silva."
    Se me perguntarem  que livros havia lido daquele   “quarto-biblioteca", eu diria que não muitos. Deveria ter lido todos.Porém, uma coisa  não posso negar: consultava muito  os dicionários e os livros  didáticos  de idiomas. Lia mais  ficção do que poesia. Folheava ensaios. Lia alguns. Deixava, contudo, de ler outros livros também  indispensáveis  de ficção, o que foi uma grande perda só sentida anos depois. Tampouco, aos treze  ou catorze anos, me  interessa ler jornais, nem mesmo os artigos de papai, que só fui ler lá pros dezesseis ou dezessete ano o que foi uma outra falha autodidática. 
   No que concerne a obras ficcionais, havia no  "quarto-biblioteca"  autores variados, alguns de  grande nomeada: Dostoióvski,   Flaubert,   Górki, J.J. Cronin, Paul Bourget, Machado de Assis, Coelho Neto,  Humberto de  Campos, Viriato Correia, Eça de Queiroz,  Berilo Neves,   José de Alencar, Fontes Ibiapina. Os ensaios  predominavam sobre os de ficção e  poesia. Também não faltavam  obras   de  história literária francesa no original, de filosofia em italiano,  de literatura  brasileira, um tratado de filosofia em italiano.

(Continua)

sexta-feira, 10 de abril de 2015

INCURSÃO PELO NORDESTE


INCURSÃO PELO NORDESTE

Jacob Fortes

Em incursão pelo Nordeste, março/2015, surpreenderam-me lugares que tencionava conhecer: o museu de Luis Gonzaga, Exu, PE; o museu de paleontologia, Santana do Cariri, CE, (aqui os fundamentos irrefragáveis de que o mar virou sertão); a cidade do Crato, CE, ainda com seus fortes traços aristocráticos; a cidade de Juazeiro do Norte, contígua a Crato, pujante comercialmente, demarcada, sobretudo, pela monumentalidade da escultura do lendário sacerdote Padre Cícero que, assentada sobre a montanha, é a representação viva da religiosidade palpitante do povo da região. Como a uma rocha imantada que atrai para si todos os seixos, faz convergir não apenas a gente da localidade, mas multidões egressas de paragens longínquas; o museu do escritor Padre Antônio Tomás, Acaraú, CE, (“Príncipe dos Poetas Cearenses”, o camões brasileiro desconhecido à história.); o açude de Orós, imponente, que dá realce à cidade do mesmo nome; o mirífico Açude do Cedro, Quixadá, CE, que avulta aos olhos, obra, de dimensões avantajadas, levada a efeito por ordem de D. Pedro II, concebida pela genialidade dos engenheiros Ernesto Antônio Lassance Cunha (brasileiro) e Jules Jean Revy (britânico).

De resto, só pessoalmente para, em manso cavaquear regado a cafezinho, discorrer sobre os complementos verbais e nominais: as manifestações culturais, as amenidades, os admiráveis mentirosos, néscios, (porém de estatura moral superior à dos políticos), a convivência fraternal entre a tecnologia, a prosperidade, e a miséria humana. Enfim, um misto de “Deus e o diabo na terra do sol” exibindo paisagens que se prestam a engravidar a mente humana de sentimentos múltiplos: ufanismo, vergonha, tristeza, e, principalmente, atestar, de modo irrecusável, a falácia de alguns egrégios patifes da política que, presos a modelos de opressão e dominação, cometem injustiças tão absurdas quanto as que pavimentaram o cangaço.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Inveja


INVEJA

Elmar Carvalho

Afonso Rodrigues Miranda iniciou sua carreira no serviço público aos 22 anos de idade, logo após ter concluído seu curso de Economia. Cordato, trabalhador, diligente, prestativo, logo se tornou chefe da seção de pessoal de sua repartição. Era um literato, e colaborava em alguns jornais e revistas da capital. Amante da música, tocava violão com rara perícia.

Aos domingos, tomava sua cervejinha com moderação. Bom conversador, gostava de contar fatos engraçados ou interessantes, que ouvira ou lera, alguns remontando ao seu tempo de garoto. Às vezes, recitava poemas, tanto de sua autoria, como de grandes mestres da literatura brasileira e piauiense. Com muita inteligência emocional, desenvolvia suas atividades com criatividade e eficiência, porém da maneira mais simples possível, por entender que as soluções menos complexas são invariavelmente as mais eficazes e mais econômicas.

Dois ou três anos após seu ingresso na administração pública, foi trabalhar em sua seção um servidor recém aprovado em concurso público. Chamava-se Abel Silva do Nascimento, e era três anos e alguns meses mais novo que Afonso. Também era formado em Economia. Começou a observar os modos e o jeito de conversar do chefe, que considerava elegante. Procurou mesmo se tornar seu amigo, e veio a ser o seu substituto eventual na chefia da seção.

De maneira sutil, diria mesmo imperceptível, começou a imitar o chefe, tanto no trajar, como no seu modo de conversar e gesticular. Passou a usar camisa por dentro da calça, com um bom cinto, como costumeiramente Afonso fazia. Não relaxava uma caneta no bolso da camisa, tal qual o outro gostava de fazer, tendo mesmo uma coleção vistosa desse objeto. Chegou ao cúmulo de comprar um par de sapatos exatamente igual ao dele.

Não bastasse isso, procurou ler algumas obras literárias, se bem que um tanto de maneira forçada, e ainda que suas leituras fossem apressadas e superficiais, sem maiores aprofundamentos e reflexões. Quando menos se deu pela coisa, eis que Abel iniciou a colaboração em jornais da cidade. E disso fazia alarde. Proclamava que sua vocação vinha da infância, quando, na verdade, antes ninguém lhe conhecia como tendo veleidades literárias, ainda que pífias ou precárias.

Não tinha o respeito de muitos de seus pares, todavia a sua carreira literária prosseguiu com certa regularidade, graças à sua pertinácia e “forçação de barras”. Vez ou outra lançou mão das ideias de seu mestre, mudando uma vírgula aqui, um ponto acolá, e colocando uma palavra sinônima em outro ponto ou trecho. Não era uma cópia servil, em alguns casos, mas com certeza vários de seus textos podiam ser considerados como um exemplo de plágio.

Contudo, uma coisa era certa: Abel não tinha a simpatia e o carisma de seu mestre. Ademais, adquiriu alguns desafetos por ser um tanto falastrão e falador da vida alheia. Por outro lado, no afã de fazer amizades, correndo feito barata tonta de um lado para outro, terminou angariando certo desprezo, tanto dos colegas do serviço público como dos literatos, que reprovavam a sua superficialidade, diletantismo e oportunismo, mormente ao tentar se promover a qualquer preço.

Vendo Abel o sucesso profissional e o crescimento literário de Afonso, a sua admiração pelo seu chefe começou a se transformar em inveja, a princípio tênue, dissimulada, quase imperceptível, mas que foi, com o passar do tempo, tomando corpo, se tornando visível, através de insinuações, “brincadeiras”, certas ironias veladas, e até mesmo por intermédio de atos, ações e omissões, no desígnio inconfessável de minimizar ou ocultar o brilho de seu paradigma, conquanto jamais admitisse, nem mesmo para si próprio, sua condição de discípulo e muito menos de êmulo.

Abel, por ser boêmio, perdulário e ainda viciado em jogatina, vivia sempre atrapalhado em suas finanças. Ao contrário, Afonso, inclusive por ganhar mais, tinha sua casa própria, seu carro e um pequeno sítio, de nome Pasárgada, perto do povoado Cacimba Velha, onde passava os finais de semana, com sua mulher e seus dois filhos. Vez ou outra, convidava Abel para um churrasco, em que degustavam algumas cervejas. Tudo isso em meio a uma boa conversa e banhos na piscina. Poemas eram recitados, e Afonso, com sua bela voz, entoava algumas lindas canções, acompanhando-se ao violão, que dedilhava quase como um virtuose.

Uma ou duas horas antes do retorno, Afonso parava de beber. Tomava um demorado banho na piscina e tirava um revigorante cochilo, no intuito de conduzir o automóvel com segurança. Numa dessas ocasiões, quando o carro chegou a um determinado ponto despovoado da estrada, à boca da noite, Abel pediu para que Afonso parasse o veículo, pois desejava urinar. O motorista, que vinha no banco à sua frente, lhe pediu para que aguentasse um pouco, pois aquele trecho era perigoso, já tendo acontecido vários assaltos. Acrescentou que dali a apenas dois quilômetros existia um posto de gasolina, onde ele poderia urinar em segurança e com mais conforto.

Abel, contudo, não gostou da negativa, e insistiu para que Afonso parasse imediatamente o veículo. Novamente este, com bons modos, repetiu as suas ponderações. Então, de modo totalmente inesperado, ouviu-se um estampido no interior do automóvel.

Abel estourara os miolos de Afonso, com um tiro em sua nuca. Sangue e pedaços de cérebro salpicaram o teto do carro, pois o disparo fora efetuado de baixo para cima. O veículo, descontrolado, embora estivesse em baixa velocidade, saiu da estrada e entrou num matagal ralo, mas nenhum passageiro sofreu a mais leve lesão. Estavam no automóvel, Afonso, sua mulher, os dois filhos do casal e o assassino.

Feitas as investigações, efetuadas as necessárias perícias e ouvidas as testemunhas, presenciais e referenciais, o delegado indiciou Abel como tendo praticado o crime de homicídio doloso por motivo fútil, sendo este o fato de Afonso não ter parado o carro logo que o homicida exigiu. O promotor de Justiça ajuizou a denúncia com esse mesmo entendimento.


Em nenhuma ocasião alguém falou em inveja; muito menos Abel, mesmo porque ninguém jamais admite possuir esse triste sentimento.  

terça-feira, 7 de abril de 2015

Eu te vi de Repente e te Amei


Eu te vi de Repente e te Amei

Hélio Soares Pereira

Eu te vi de repente
e te amei

Foi lindo o amor
Mas tudo passa
e o coração fica só
pelo que passou

Eu te vi de repente
e te amei
Te amei tanto
que não vi passar
o tempo
a vida
e passei por mim
te amando    

domingo, 5 de abril de 2015

Carta-comentário sobre Confissões de um juiz


Caro Elmar Carvalho,

          Primeiramente minha gratidão a sua gentileza de enviar-me seu livro Confissões de um Juiz. Chegou-me com uns vinte dias de postado. Impressionou-me a sua fotografia na capa, a mesma que vi no sonho que lhe narrei há uns meses. Apesar de ver isso como fenômeno mediúnico, não estou insinuando que sou um bom profeta, vidente ou adivinho, ou coisas parecidas, o certo é que vi esta fotografia no sonho sem nunca termos falado em lançamento desse seu último livro.

          Quando recebi suas Confissões eu continuava a leitura de “Como Viver ou Uma biografia de Montaigne em uma pergunta e vinte tentativas de resposta”, da escritora Sarah Bakewell – 2010. A Biógrafa narra e descreve como Montaigne responderia perguntas: como suportar a perda de um ente querido, como enfrentar a violência, como sairmos de situações embaraçosas, e tal. Aí continuei lendo suas Confissões alternando com a leitura da Biografia de Montaigne e com minhas leituras de obras da Doutrina Espírita.

          Na sua autobiografia fatos e situações se parecem com os vivenciados por Montaigne, contada por sua biógrafa, claro que com as adaptações peculiares de cada época. Montaigne teve a vida profundamente marcada por um acidente de equitação. No seu caso foi o acidente de carro, substituto do cavalo, sendo, felizmente, coisa sem maiores consequências. Montaigne sofreu até morrer fortes dores por pedras nos rins. Imagine a vida no século XVI, mesmo na França, sem os diagnósticos e sem as terapias que temos hoje. Com toda humildade e resignação você venceu as enfermidades de CA, reconhecendo que há fatos em nossa vida que fazem parte de nossas provações neste Planeta, estão submetidos aos desígnios de Deus.

          Quem ler suas Confissões, se antes pensava diferente, vai saber que em autobiografia o autor não fala só de si, uma vez que o autor é um ser no mundo e não pode fazer história de sua vida isolado do meio onde vive, dos fatos e pessoas com quem vivenciou, como no desempenho dos papéis sociais de Juiz de Direito, funcionário público, como militante em defesa do meio ambiente, da educação, da cultura e como bom filho e pai de família. Nas suas Confissões as narrativas sobre casos que lhe chegaram para ser resolvidos como Juiz de Direito vê-se o comportamento humano nas suas manifestações mais comuns. Um indivíduo represa a corrente de água sem se importar com as consequências nos seus vizinhos. Outro prefere ser processado como garanhão a ser absolvido de acusação injuriosa e do repúdio da sociedade. Outro que se gaba de ter transado com bêbado. Do advogado que procura pretexto para jogar indiretas no Juiz de sua Comarca. Eis ainda a condição do ser humano como egoísta, vaidoso, invejoso e tudo o mais que caracteriza nosso atraso moral.

          Depois fala de sua querida mãe, do dia de sua partida para a vida espiritual. Isso me sensibilizou muito, pois minha mãe nasceu e desencarnou em épocas perto de sua mãe. Minha mãe nasceu em 18.06.1933 e desencarnou em 15.01.2013. A gente não esquece essa pessoa por nada desta vida.

          Depois os amigos e os animais de estimação não foram esquecidos em suas Confissões, são retratados em crônicas ou são lembrados em acontecimentos que os envolveram.

          Então prezado Dr. Elmar, eram essas as considerações sobre seu livro, Confissões de um Juiz, cheio de histórias de sua vida de Magistrado e de sua vida como poeta, como cidadão e pai de família, enfim. Perdoe-me os acréscimos que lhe pareçam desnecessários, uma vez que outros leitores de suas Confissões lhe responderão fazendo críticas ou análise mais significativas do que estes meus simples comentários, pois são pessoas dotadas de habilidade e sensibilidade para captar e expressar o que uma obra literária – suas Confissões, neste caso, expõem com toda arte e amor ao mundo, uma vez que seu autor, poeta e escritor Elmar Carvalho é uma árvore boa, de onde se sabe, só sairão bons frutos.

Um grande abraço!

Luis Aires    

sábado, 4 de abril de 2015

O PROTESTO DO JUDAS


O PROTESTO DO JUDAS

Elmar Carvalho

No sábado de Aleluia
batizaram e enforcaram
um Judas de pano e molambo,
o qual não estrebuchou
e nem se lamentou da sorte,
mas apenas protestou em testamento
por via do nome execrável (do político)
com que lhe batizaram.   

quinta-feira, 2 de abril de 2015

ALGUMAS OBSERVAÇÕES SOBRE O POEMA AMOR CONCRETO


2 de abril

ALGUMAS OBSERVAÇÕES SOBRE O POEMA AMOR CONCRETO

Elmar Carvalho

No velório do poeta Hardi Filho, com quem estreitei laços de amizade, desde 1982, quando fixei residência em Teresina, encontrei o professor José Maria Vasconcelos e o poeta Rubervam Du Nascimento, além de outros amigos e conhecidos. Na breve palestra que entretivemos, José Maria nos solicitou, a mim e ao vate Rubervam, que lhe mandássemos um texto, contendo comentários sobre poema de nossa autoria.

Já há algum tempo o mestre pediu a vários poetas que escrevessem uma análise sobre seus próprios textos. Esse material seria publicado inicialmente em jornal, e depois, talvez, em livro. Vários colegas atenderam a essa proposta, que me foi formulada por e-mail. Vinha me esquivando desse espinhoso mister, mas, “peitado” pessoalmente pelo ilustre professor, prometi cumprir esse desafio.

O grande poeta Manuel Bandeira, em Itinerário de Pasárgada, uma espécie de memórias ou testamento de sua poemática, falou sobre a gênese de alguns de seus poemas. Em alguns poucos textos avulsos andei escarafunchando o meu fazer literário, inclusive nesta cronologia diarística. Dessa forma, para atender ao pedido do erudito e castiço José Maria Vasconcelos, lhe enviei o seguinte e-mail:


“Atendendo ao seu pedido, segue no anexo o meu texto sobre o meu poema Amor concreto. É imprescindível, para compreensão do leitor, que o poema seja publicado sem mudança em seu aspecto visual. Por isso, talvez seja melhor que ele seja publicado como imagem (fotografia ou escaneado), para que não sofra alteração, e assim minhas explicações não percam o sentido. Espero que as minhas explicações (em prosa) não tenham algum grave escorregão. Se tiver, peço que corrija.” Eis o poema e o texto contidos no anexo:

“AMOR CONCRETO

no vór-
            ti-
     ce voraz
dos abrasados amantes abraçados
o amor se faz
in-tenso e tenaz
no êmbolo inserido no
          ver        tiginoso
          vér        ti
                 ce
       inver        tido

         Inicialmente, veja o leitor que o sintético poema tem feição discursiva e ao mesmo tempo concretista, com o aspecto visual formando um verdadeiro carmen figuratum. O próprio título remete ao amor físico, carnal, e à vertente concretista da poesia brasileira – o concretismo. Penso que se trata de um poema criativo, e que não deve ser lido e interpretado com pruridos de falso e ultrapassado moralismo.
         As três primeiras linhas (versos) figuram a movimentação de um vórtice e ao mesmo tempo desenham um triângulo, que é a simbolização mais simples da genitália feminina. Além disso, formam a aliteração da sílaba vo.
         No verso seguinte (quarto) note-se a aliteração e as coliterações na letra a, com tonicidade nessa letra, além da ardente metáfora em relação aos amantes. Atente-se para o fato de que os vocábulos abrasados e abraçados são quase homógrafos e homófonos.
         Observe-se a rima no quinto e no sexto versos. A seguir, vem a metáfora do amor físico ou carnal, representado pelo êmbolo e seu movimento de pistão, em seu sobe e desce ou vai e vem, conforme a posição seja vertical ou horizontal.
         A grafia in-tenso provoca a polissemia ou plurissignificação, mostrando que o amor é intenso e é tenso ao mesmo tempo. Tenso também porque se trata mais de paixão, que propriamente de amor (este num sentido mais espiritualizado, e não de gozo físico).
         Os quatro versos finais, tal como estão dispostos, formam a imagem de quatro triângulos, com isso representando diferentes posições sexuais: para um lado, para o outro, para cima, para baixo e de ponta-cabeça até. Também formam a abertura do canal vaginal e o clitóris, que vem a ser a sílaba ce, colocada no vestíbulo ou no pórtico de entrada ou arco triunfal do aparelho genital da mulher.
         Por fim, a metáfora contida nesses últimos quatro versos é, a meu ver muito clara, mas, seguindo o didatismo da proposta do professor José Maria Vasconcelos, devo dizer que ela se refere ao formato da genitália feminina em posição normal, quando o vértice do triângulo é invertido, ou seja, fica na parte inferior. Vertiginoso vértice invertido significa que a boceta provoca vertigem, ou a pequena morte de que nos falam os franceses.
         Quanto à fragmentação do vocábulo invertido – inver     tido – além de “desenhar” o início da abertura vaginal também significa que esse órgão foi tido ou possuído pelo amante.”

Certamente, eu poderia ter acrescentado outras análises sobre a estrutura do poema, e principalmente ter adicionado mais algumas dissecações interpretativas. Mas prefiro que o leitor faça outras observações, conforme sua experiência de vida e criatividade, ainda que divergentes das minhas. Aliás, acharei o poema mais rico, caso o intérprete e analista venha a descobrir nuanças que eu próprio não vislumbrei.