segunda-feira, 11 de maio de 2015

CONFISSÕES DE UM JUIZ

Elmar Carvalho, Antônio de Pádua, José Hamilton, Cajubá Neto e Lili Machado



CONFISSÕES DE UM JUIZ (*)

Alcenor Candeira Filho

            No início de 2010 o poeta Elmar Carvalho criou por sugestão de sua filha Elmara o “poetaelmar.blogspot.com.br”.
Ao longo desses cinco anos de existência o blog do poeta vem divulgando textos em prosa e em verso de sua própria lavra e artigos e poemas de intelectuais do Piauí e de outros Estados brasileiros.
           Os textos escritos por Elmar Carvalho e postados na internet fazem parte do que ele chama de “Diário Incontínuo”. Esses trabalhos, se enfeixados em livros, formariam vários volumes.
          Muitos escritores conciliaram a burocracia com a literatura, como Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, para citar apenas três dentre os melhores da literatura brasileira.
          Pois Elmar Carvalho também se realizou profissional e artisticamente usando como instrumento de trabalho a Língua Portuguesa, que tanto serve à literatura como à ciência e à filosofia. Correção, coerência, concisão, objetividade e clareza são virtudes de estilo que não podem ficar ausentes da linguagem filosófica, científica, jornalística, burocrática.
          Tais virtudes devem também caracterizar a expressão literária, que por sua própria natureza comporta o apelo a outros recursos, como a transgressão gramatical em favor do estilo, a incoerência, a conotação, a subjetividade, o hermetismo... Quer dizer, o que vale mesmo no trabalho do escritor é a ampla e irrestrita liberdade de criação estética.
          Já me manifestei por escrito sobre a obra literária de Elmar Carvalho em três momentos, todos revestidos de caráter solene e público: 1994, com o discurso de recepção na posse do poeta na Academia Parnaibana de Letras; 1996, com a apresentação de A ROSA DOS VENTOS GERAIS na noite do  lançamento  em Parnaíba;  2010, com a apresentação de POEMITOS DA PARNAÍBA  no lançamento ocorrido no auditório da APAL.
          Poucos intelectuais piauienses da atualidade possuem  fortuna crítica tão expressiva quanto  a de Elmar,  constituída  por comentários  de  escritores , poetas, ensaístas, professores, magistrados, advogados. De modo que o poeta teria facilmente outras opções para o convite que acabou endereçado a minha pessoa.
          Por que novamente recaiu sobre mim o privilégio de fazer a apresentação de mais uma obra do grande escritor e respeitado juiz?
          Atribuo a escolha a uma amizade de quatro décadas, preservada em elevado grau de respeito, admiração e confiança mútuas, - amizade  jamais   arranhada  por qualquer  desavença,  com cada um se mantendo fiel às  próprias  idéias, várias  convergentes  outras  não.  Se pensássemos sempre de forma idêntica nossa amizade só nos teria trazido prejuízo, porque ficaríamos impedidos de desfrutar do aprendizado recíproco, que só se efetiva plenamente entre pessoas que cultivam sem nenhum preconceito idéias próprias e respeitam as alheias. Além da vocação comum para o serviço público e para a poesia, as afinidades que tanto nos aproximam decorrem também da fidelidade a pensamentos grandes, retilíneos, utópicos às vezes mas sempre  isentos  das  impurezas  do branco.
          CONFISSÕES DE UM JUIZ é um livro de quase duzentas páginas que reúne parte dos textos postados no blog: crônicas, comentários, reminiscências, confissões, reflexões sobre pessoas, bichos e lugares, ou ainda, como assinala o professor Cunha e Silva Filho, “histórias vividas ou inventadas na cidade ou no campo, narradas com limpidez estilística”, e apresenta as seguintes partes: I. “Confissões de um Juiz”; II. “Memórias Afins”; III. “Memórias Afetivas”.
          A obra enfatiza na parte inicial as lembranças do burocrata, sobretudo do julgador, do que tem a responsabilidade superior e constitucional de “atribuir a cada um o que é seu”. Responsabilidade imensa a do juiz, que raramente é reconhecido pelo que faz no desempenho da profissão.
          Vale a pena a leitura das seguintes palavras de Martinho Garcês, transcritas no livro ESCRITOS DE VÁRIO ASSUNTO, de Cristino Castelo Branco, magistrado e escritor piauiense: 

           “Todo homem de mérito no Brasil tem o seu historiador e o seu biógrafo, menos o jurista, seja ele magistrado ou advogado. (...) O jurista nada tem. O juiz que estuda,  consola-se com o juízo que da sua inteligência, probidade e saber possa fazer as partes que perante ele pleiteiam,  e os advogados pagam-se generosamente dos seus esforços com os louvores dos seus constituintes,  quando, por uma questão de ajuste de honorários, eles, depois  de  bem servidos, não se tornam seus inimigos.”

          No livro citado, Cristino Castelo Branco completa o pensamento de Garcês ao tempo em que amplia o rol dos injustiçados,  fazendo    referência  a profissionais de diversas áreas  prejudicados  pela falta de reconhecimento a seus méritos. Só o literato, segundo o texto de Cristino, é capaz de conquistar com facilidade a  notoriedade, a  fama:

           “Salta aos olhos de toda a gente que a literatura amena  rende muito mais para a vaidade humana, para a sede de glória, que o direito,  a medicina, a matemática, qualquer outra ciência.  Pertencer à Academia Brasileira de Letras  é, entre nós, considerado muito mais importante que pertencer   à Academia Nacional de Medicina, ao Instituto dos Advogados, ao Clube de Engenharia. Por que? Segredos da vaidade humana, ou melhor, da futilidade de todos nós.”

          A respeito desses mistérios ou sutilezas da alma humana, capazes de determinar ações e reações que ora engrandecem ora amesquinham o homem,  Elmar Carvalho  conta no livro um fato acontecido durante casual e rápido encontro que teve com a desembargadora Eulália Ribeiro Gonçalves Pinheiro, que, diante de um  ato de cordialidade recebido, reagiu com gesto nobre de simplicidade, simpatia e gentileza, e não com aquele ar  de  superioridade peculiar a algumas  autoridades:
          “Outro dia, quando eu me preparava para sair do elevador, no subsolo, encontrei a desembargadora Eulália Ribeiro Gonçalves Pinheiro.  Cumprimentei-a, e  lhe dei  passagem , mas ela, de maneira lhana, disse:   ‘Não, primeiro os poetas.’ Foi a primeira vez que eu vi a espada da Justiça  se curvar  perante a frágil pena da Poesia.”

         Numa época em que repercutem no país inteiro notícias de que alguns juízes, felizmente a minoria,  se arvoram de “deuses”,  justifica-se  a menção a comportamentos exemplares por parte de magistrados,  como podemos ver em outro episódio, contado na página 40:

          “Certa ocasião,eu me encontrava numa roda de conversa, na varanda de um dos andares do tribunal . Logo depois chegou o desembargador Santana, que, após cumprimentar-nos, disse, dirigindo-se a mim, como costumava fazer: ‘ Como  é que vai, poeta maior?’
          Estava a meu lado outro poeta, cujo nome já não recordo. O vate franziu o cenho, empertigou-se todo, retorceu-se como se estivesse com forte cólica intestinal, e, virando-se para um lado e outro, resmungou/rosnou: ‘É, quer dizer que eu devo ser um poeta menor...’  Sepulcral silêncio acolheu as suas palavras.”

          Destaca-se nas primeiras páginas do livro a revelação, em tom de quase desabafo, feita por quem laborou durante quatro décadas na vida pública e dela teve de se afastar em razão de aposentadoria fundamentada em tempo de serviço mas motivada verdadeiramente  por razões que a própria razão desconhece.
          O juiz Elmar teria ainda outro argumento para justificar a aposentadoria, se esse fosse o seu objetivo: doença grave.
          Mas no fundo o que ele pretendia apesar dos pesares ou principalmente por isso mesmo era continuar servindo ao país como magistrado culto, íntegro, justo, bom. Estava plenamente motivado para o trabalho forense  por mais algum tempo.
          O comovente depoimento de Elmar sobre os fatos e circunstâncias que precipitaram o pedido de aposentadoria aos 58 anos de idade  repercutiu no meio forense e intelectual,  com opiniões postadas na internet  e  comentários inseridos no livro, como estes:

           “A magistratura piauiense e, por extensão, nacional,perde o trabalho cotidiano e diuturno de um dos melhores juízes que conheci em toda a minha  carreira.
           As letras e a poesia agradecem pelo prestimoso tempo que doravante a elas será dedicado com inefável tirocínio. Ou em outra atividade laboral que você  venha   a desempenhar.” (juiz  de  direito Orlando Martins Pinheiro).

           “Não tenho dúvida de que chega à fronteira de fatigante jornada com  a dignidade inteira,  sem  mossas e sem fissuras morais porque, agindo sempre como uma espécie de artesão, exerceu a judicatura como se fosse um apostolado;  restabeleceu patrimônios desperdiçados e recompôs sociedades  conjugais  esfaceladas, sem alienar sentenças ou hipotecar despachos.” (desembargador Valério Chaves)

           “Caro Elmar, da mesma forma com que me emocionei quando li algumas passagens do livro já citado, há poucos   dias  também  me emocionei com a postagem acerca de seu pedido de aposentadoria (...)  Já começo a sentir saudades do brilhante vate do TJPI.” (juiz de direito Antônio Oliveira)

          Os professores/escritores Cunha e Silva Filho, José Maria Vasconcelos e Nelson Rios, dentre outros, também se manifestaram sobre o episódio.
          Na 2ª e 3ª partes do livro, o autor selecionou textos escritos há algum tempo, vários deles complementando e elucidando fatos focalizados na parte inicial.
São belas pelo refinamento estilístico e pela suavidade do lirismo encantador as páginas elegíacas inseridas na 3ª parte, páginas que falam tanto da morte de pessoas quanto da de animais. Em ambos os casos o autor se expressa com formidável equilíbrio emocional, jamais se derramando em sentimentalismo exacerbado, em pieguice.  São textos que brotam d’alma, é verdade, mas ditado sobretudo pela razão.  Lirismo “direcionado mais pela inteligência do que pelo sentimentalismo”, como disse o escritor e crítico literário Fábio Lucas a propósito de A LUTA CORPORAL, de Ferreira Gullar.
           Desejo encerrar minha fala com a seguinte declaração: considero CONFISSÕES DE UM JUIZ, de José Elmar de Melo Carvalho, um dos melhores livros que li nos últimos tempos.
_________
Discurso de apresentação do livro Confissões de um juiz, pronunciado na solenidade de lançamento em Parnaíba, ocorrida no dia 8 de maio de 2015.   

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Lançamento de "Confissões de um juiz" em Parnaíba



CONVITE

Convidamos o público interessado em literatura para o lançamento do livro Confissões de um juiz, da autoria de Elmar Carvalho.

A obra será apresentada pelo poeta e escritor Alcenor Candeira Filho.

Haverá a apresentação de uma performance com poemas de Elmar Carvalho.

Local: Auditório do SESC /Avenida Presidente Vargas
Data: 8 de maio – sexta-feira
Horário: 19:30 horas

SESC/AVENIDA

POSSE DE SEBASTIÃO FIRMINO NA ALMAPI (Parte II)

Des. Tomaz Gomes Campelo e dona Gracy

7 de maio   Diário Incontínuo

POSSE DE SEBASTIÃO FIRMINO NA ALMAPI (Parte II)

Elmar Carvalho

Na sequência de meu improviso, obedecendo a meu esquema mnemônico, fiz o elogio do antecessor na cadeira acadêmica. Era ele o desembargador Tomaz Gomes Campelo, de quem cultivei a amizade ao longo de mais de 17 anos. Já então era ele aposentado, enquanto eu estava prestes a ingressar na magistratura. Sempre lhe admirei a lhaneza e a fidalguia. Essas qualidades se refletiam em sua sóbria elegância no trajar, e, sobretudo, no trato pessoal e em sua postura correta, mas sem afetação.

Nasceu ele no Dia de Reis, do ano de 1926, na localidade Rodrigo, município de Pedro II. Era exatamente um dia mais novo que meu pai, nascido no dia cinco de janeiro. Faleceu em 14 de abril de 2014. Nesse mês, no já longínquo ano de 1956, nasci, e nele, no dia 26, no ano de 2013, faleceu minha saudosa mãe. Por conseguinte, sou a ele ligado por coincidências de vida e morte.  

Foi corregedor-geral da Justiça. Atingiu o grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito da Sublime Ordem Maçônica, a cujas colunas tenho a honra de também pertencer. Amante das artes e da cultura em geral, cultivava, sobretudo, a literatura, a cujos eventos era assíduo. Participativo, mesmo já em idade provecta, foi presidente da Academia de Letras do Vale do Longá, da qual igualmente sou membro. Outro ponto em comum: éramos sócios da União Brasileira de Escritores do Piauí – UBE-PI, da qual ambos fomos presidentes.

Amigo da Academia Piauiense de Letras, frequentava nossas reuniões ordinárias e solenidades com mais assiduidade que muitos de nossos confrades. Publicou vários artigos e crônicas, versando assuntos memorialísticos, históricos e culturais, cuja seleta seu filho Viriato Campelo deu à estampa após o seu falecimento. Dentre esses textos, o Pedra Serviçal, evocativo e sentimental, foi interpretado teatralmente pelo ator Pellé, na solenidade de lançamento da obra.

O desembargador Tomaz Gomes Campelo parecia trazer entranhada em sua alma toda a graça e louçania de sua bucólica e encantadora Pedro II, de clima ameno, agradável, e por isso mesmo chamada de “a Suíça piauiense”. Trazia na retentiva a beleza vetusta dos históricos solares e amplos casarões, prenhes de mistérios e recordações, um deles pertencente à sua grei.

Neste diário já tive a deixa de enaltecer a bela urbe, emoldurada pelos morros e serranias, que azulam e lhe engalanam à distância. Muitos defendem a tese de que Iracema, a bela e esbelta índia de longas madeixas negras e lábios de mel, teria nascido em Pedro II, já que Alencar dizia que ela nascera além, muito além da serra que se descortinava no horizonte.

Fiz, portanto, o justo elogio de um homem que primou em desbastar a pedra bruta, e que soube se transformar na pedra serviçal de sua elegíaca crônica. E o melhor, na parábola de Cristo, será aquele que melhor servir.                 

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Azuis


Azuis

Neide Moscoso

azuis
são teus olhos
que falam
palavras
solitárias
no fascínio
da cor percebo
uma ternura
fatigada
caminho incerto
sem volta
são azuis
os teus olhos
desamparados
silenciosos
como os meus
castanhos  

terça-feira, 5 de maio de 2015

Insaciável cobiça de poder e consumo


Insaciável cobiça de poder e consumo

José Maria Vasconcelos

            Se se tratasse de mentira ou exagero, eu desligaria imediatamente o rádio do carro ou mudaria de estação. Dois jornalistas comentavam sobre a trajetória da política piauiense, desde décadas atrás, a se perpetuar no poder, de bisavô, avô, netos, bisnetos, filhos, sobrinhos, primos. Uma dinastia a se apropriar de verbas, cargos, envolvimento em mapismo. Exatamente quando eu trafegava em frente ao Palácio do Karnak. Pouco mais adiante, o templo de São Benedito, santo negro franciscano e despojado, a estátua entre duas torres.

         Da minha infância na Piçarra, não me fogem à memória o sagrado hábito de assistir a missa, aos domingos. Meus pais Martinho e Dedé levavam-nos à Igreja de São Raimundo Nonato. À tarde, não podia faltar ao catecismo. Não consigo esquecer os dez mandamentos da Lei de Deus, o paradigma da plena felicidade neste mundo e a certeza do reino eterno. Décimo mandamento: “Não cobiçar as coisas alheias. Nem casa, nem mulher, nem boi...” Sétimo: “Não roubar”. Nono: “Não cometer adultério”. Aposto que poucos saibam recitá-los de cor e exercitá-los onde estiver, inclusive entgre quatro paredes, dissimulando  a vigilância da consciência divina. Escolho o último mandamento, por escancarar perverso cancro que arruína a saúde física e mental de muita gente.

         A cobiça consiste no voraz apetite de enriquecimento e poder, custe o que custar, inclusive puxar o tapete de concorrentes. Cobiça, faro de inveja e aniquilamento do próximo. Sacrifica-se a própria moral, relações familiares, casamento, amizades, por um par de pernas roliças, falcatruas com dinheiro público, desvios de conduta em geral.

         Há vinte séculos, apóstolo Paulo escrevia ao amigo Timóteo: “Os homens que almejam enriquecimento expõem-se a tentações. Caem em armadilhas, diante de toda espécie de desejos.”

         O ambicioso nunca se contenta com o que tem. Cobiça sempre o que outros têm. Esfolam-se para trocar o carro por outro igual ou melhor do amigo, casa, utensílios, até o cônjuge alheio. Frequentam e patrocinam banquetes e eventos vips. Torram cartões de crédito, por inveja, exibicionismo, culto ao social, ao grupo de damas do terço regado mesquinha fé e indomáveis interesses.

         Metas e objetivos incorporam ambições naturais e proporcionam prazer de viver. A cobiça, entretanto, alcança extremos tresloucados, como a de Renê Rocha, cinquentão pobre, diabético, pernas amputadas, preso a uma cadeira de rodas. Sorteado em 52 milhões de reais da mega sena, logo se apaixonou por uma bela garota, 25 anos mais jovem, namoro de duas semanas, casamento de arromba. Dias depois, assassinado. A mulher abocanhou metade da fortuna e a liberdade na Justiça.

         Sedução desvairada por conquistas materiais não traz felicidade plena, só insatisfações, no final. Clínicas entopem-se de pacientes vítimas de estresse, úlceras, gastrite, câncer e desajustados. A medicina, muito bem, bota sempre a culpa na falta de atividade física, nas viroses, na alimentação. Pouco vai ao fundo da alma, do espírito perturbado de cobiça, das conquistas sem mérito, do ódios, inveja, carência afetiva. Parece que falta a receita milagrosa do décimo mandamento. De costas para o palácio dos poderosos, de frente para o exemplo do despojado São Benedito.    

segunda-feira, 4 de maio de 2015

CASIMIRO JOSÉ DE MORAES SARMENTO

Foto antiga de Oeiras - PI, cidade natal do biografado

CASIMIRO JOSÉ DE MORAES SARMENTO

Reginaldo Miranda
Da Academia Piauiense de Letras

No dia 13 de agosto de 1813, nascia na cidade de Oeiras Casimiro José de Moraes Sarmento, que se destacaria como advogado, político, professor, escritor e jornalista de raro talento. Eram seus pais os baianos Tte.-Cel. Joaquim Antônio de Moraes e Ana Carolina de Moraes e Silva, ambos descendentes de uma das mais distintas famílias da península ibérica.
Aluno aplicado e inteligente cursou as primeiras letras e o início dos estudos preparatórios na cidade natal, estes últimos sob a orientação do ilustre magistrado João Cândido de Deus e Silva, que, logo mais se destacaria nas lutas pela Independência do Brasil, quando exercia o cargo de juiz de fora em Parnaíba; conclui, porém, esses estudos na cidade de Cachoeira, na Bahia, para onde fora mandado pelos pais, agora sob a orientação do conceituado professor BaldoínoImbiriçu Camacan, que ali orientava uma legião de discípulos. Terminados esses estudos preparatórios segue para a Faculdade de Direito de Olinda, onde, depois de muito esforço e estudo recebe o grau de bacharel em Direito, em 21 de outubro de 1836, aos 23 anos de idade. E depois de defender tese na mesma Faculdade, conquista o doutorado em 6 de março de 1840, sendo, assim, o primeiro piauiense a doutorar-se nas academias de direito do Brasil.
Mas o estudante não fica alheio às agitações políticas que sacudiam o País, participando ativamente de todos os movimentos políticos daqueles dias. Ao tempo da academia, redigiu o Argos Olindense, periódico de tendência liberal, juntamente com Francisco José Furtado, Antônio Borges Leal Castelo Branco e outros colegas e conterrâneos. Depois de formado, Moraes Sarmento permanece por mais de seis anos advogando no Recife, onde monta conceituada banca e adquire largo conceito profissional.
Em 1843, depois de breve visita ao Piauí, vai nomeado secretário de governo do Maranhão, onde presta relevantes serviços, permanecendo até sua nomeação para a presidência da província do Rio Grande do Norte por carta imperial de 4 de abril de 1845.
Tomou posse no governo do Rio Grande do Norte em 28 do referido mês de abril e permaneceu até 9 de outubro de 1847, por quase dois anos e meio, oportunidade em que pode demostrar a sua capacidade administrativa. Em sua gestão fomentou a educação, preocupou-se com questões sanitárias e envidou enorme esforço para minimizar os efeitos da seca que castigava o sertão potiguar. Também, promulgou a lei que criou a importante cidade de Açu.
Por carta imperial de 11 de setembro de 1847, vai exonerado desta e nomeado para a presidência do Ceará, tomando posse em 14 de outubro e permanecendo até 13 de abril do ano seguinte, por apenas meio ano. Todavia, embora exíguo o seu período de governo, mais uma vez demonstrou a sua capacidade administrativa, com a realização de importantes obras que melhoraram a qualidade de vida do povo e imortalizaram a sua administração. É desse tempo também a inauguração da primeira iluminação pública de Fortaleza, com lampiões de quatro faces a óleo de peixe pendurados nas esquinas; bem como, a construção do primeiro cemitério de Fortaleza, que em sua homenagem recebeu o nome de São Casimiro, dando combate ao antigo costume de sepultar os cadáveres nas igrejas.
Ainda ao final do ano de 1847, vai eleito deputado à Assembleia Geral pelo Rio Grande do Norte, onde gozava de rara popularidade, assumindo o mandato depois de se afastar do governo do Ceará. Entretanto, por decreto de 19 de fevereiro de 1849, foi a câmara dissolvida pelo gabinete conservador liderado pelo visconde de Olinda, encerrando, assim, o seu mandato parlamentar. Felizmente, vai novamente reeleito pela mesma província para a legislatura que se iniciou em 1850 com término em 1852. Durante esses dois mandatos parlamentares destacou-se com sua oratória vibrante na defesa de grandes causas no parlamento nacional.
No intervalo entre esses dois mandatos, exerceu os cargos de diretor da instrução pública e inspetor da Tesouraria da Fazenda na província do Maranhão, para os quais fora nomeado em 28 de março de 1849.
Encerrado o seu mandato parlamentar, ao final do ano de 1852, buscando cura para a esposa que sofria de alienação mental, retorna à sua cidade natal, no sertão do Piauí, dedicando-se por mais de quatro anos à advocacia e ao jornalismo, para isto fundando o periódico Oeirense, onde divulgou suas ideias ao tempo em que aquela cidade perdia o status de capital do Piauí.
Em 1857, deixa a desditosa esposa sob os cuidados dos parentes em Oeiras e retorna à corte do Rio de Janeiro, onde exercera os dois mandatos parlamentares, permanecendo no exercício da advocacia e do jornalismo, desta feita na redação do Correio Mercantil. Logo, dada à oratória vibrante, a formação acadêmica e ao seu conceito profissional, angaria boa clientela permitindo viver com razoável conforto.
No ano seguinte, foi nomeado professor catedrático de Direito das Gentes, na Escola Militar do Rio de Janeiro, onde permanece por pouco tempo, dado o seu óbito prematuro.
PublicouAnotações à Constituição do Império,Opúsculo sobre a educação física dos meninos(1858) e Discursos, pronunciados em duas aberturas de ano legislativo na Assembleia Provincial do Rio Grande do Norte(1846 e 1847); também, traduziu as seguintes obras: Da solidão, de George Zimmermann(1842), Elementos de Direito Político, de M. A. Marechal(1842) e Compêndio de História Sagrada, de Claude Fleury(1847), que foram adotadas nas escolas públicas do Maranhão.
Casimiro José de Moraes Sarmento faleceu na cidade de Angra dos Reis(RJ), em 1.º de fevereiro de 1860, sem deixar descendência. Fora casado, desde 1838, com dona Isabel Cândida de Moraes Sarmento, oriunda de distinta família pernambucana e que, infelizmente, ainda muito cedo adoeceu das faculdades mentais, sendo entregue pelo consorte aos cuidados dos parentes em Oeiras, depois de desiludir-se de sua cura. Segundo o escritor Miguel de Sousa Borges Leal Castelo Branco com suporte em informações do jurista Antônio Coelho Rodrigues, depois do óbito do marido essa desditosa senhora foi encaminhada pelos contraparentes ao Recife, onde ainda em 1879, vivia sob os cuidados do cunhado José Bernardo Galvão Alcoforado, advogado e ex-deputado geral.
Com essas notas prestamos homenagem à memória desse grande homem público que muito honra a gleba piauiense.    

domingo, 3 de maio de 2015

Seleta Piauiense - Rodrigo M. Leite (1989)


a fadiga dos dias

Rodrigo M. Leite (1989)

por um instante
resisto na retina da pobre velha
sentada na calçada com suas irmãs

o meu rosto: único
assim como o teu o de milton o de adriana
é só mais um que colore o olhar vacilante da velha
no dia-a-dia dos ossos

amanhã
o dia será chuvoso
e poucos irão ao seu enterro     

sábado, 2 de maio de 2015

MARCOS ANTONIO DE MACEDO

Stuttgart, cidade onde faleceu o biografado

MARCOS ANTONIO DE MACEDO

Reginaldo Miranda
Da Academia Piauiense de Letras

A antiga freguesia de N. Sra. das Mercês, hoje cidade de Jaicós, naquele tempo pertencente ao termo de Oeiras, é o berço de Marcos Antônio de Macedo, notável magistrado, político e escritor brasileiro. Ele nasceu em 18 de junho de 1808, filho de Antônio de Macedo Pimentel e de sua esposa.

Desde cedo, porém, mudou para a vizinha fazenda da Boa Esperança, sendo criado como filho pelo padre Marcos de Araújo Costa, afamado pároco e educador nordestino, que o educou e muito bem o encaminhou na vida profissional. Mais tarde, segue para Pernambuco, e depois de frequentar o curso jurídico, recebeu o grau de bacharel em Direito pela Faculdade de Olinda.

Depois de formado, fixa residência no Ceará, onde inicia carreira na magistratura, como juiz municipal e de órfãos. Todavia, culto, inteligente, comunicativo, com noções de outros idiomas hauridas nas aulas de Boa Esperança e no Recife, ao tempo da primeira administração de José Martiniano de Alencar na presidência da província foi designado para arregimentar colonos artífices na Europa. Foi e se houve muito bem em sua missão. No entanto, sempre ávido de conhecimento, permaneceu por algum tempo em Paris, dedicando-se aos estudos de ciências naturais, sobretudo Química. De regresso ao Ceará em janeiro de 1838, trouxe consigo 16 artífices franceses que foram entregues ao governo provincial.

Retomou a carreira na magistratura, assumindo o cargo de juiz municipal e de órfãos da vila de São João do Príncipe, hoje Tauá, nos Inhamuns. Em seguida, o de juiz de direito da comarca de Crato, onde se demorou por largos anos, em face de ser vizinha à região onde nascera, no Piauí. No mês de agosto de 1853, ainda se encontrava na titularidade dessa comarca, logo mais deixando-a, quando correspondeu-se com o diretor do Museu Nacional, Frederico Burlamaqui, sobre a descoberta de peixes fósseis naquele distrito.

Exercendo forte influência na região do Cariri, elegeu-se deputado provincial em algumas legislaturas. Em 1846 é eleito por seus pares 2.º secretário da mesa diretora da Assembleia Legislativa Provincial.

No período de 7 de setembro de 1846 a 14 de março de 1848, presidiu a província do Piauí, onde realizou importante gestão administrativa. Nesse tempo, promulgou a Resolução n.º 220, de 20 de setembro de 1847, que criou na capital uma escola para formação de alunos artífices, voltada para a educação de crianças pobres.

Ao fim dessa gestão retorna ao Ceará, realizando estudos técnicos de cujo resultado apresenta projeto de transposição das águas do rio São Francisco para o Jaguaribe através da abertura de um canal.
Ainda seria eleito deputado geral pelo Piauí.

Depois de aposentado na magistratura e afastado da vida pública, dedica-se aos seus estudos e investigações científicas, mudando para o velho continente e fixando residência em Stuttgart, então capital de Württemberg, na Alemanha. De lá, em 1867 envia alguns exemplares de suas obras ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. E faz excursões científicas, sobretudo de caráter etnológico, por diversos países da Europa, descendo o Danúbio até o mar Negro; penetra no Oriente Médio, inclusive Síria e Turquia, e passando à África, sobe o Nilo desde o Egito até a Núbia,

Como resultado desses estudos e investigações científicas, publicou as seguintes obras: Mapa topográfico da comarca do Crato, província do Ceará, indicando a possibilidade de um canal tirado do rio São Francisco, no lugar Boa Vista, para comunicar com o rio Jaguaribe, pelo riacho dos Porcos e rio Salgado(1848); Descrição dos terrenos carboníferos da comarca do Crato (1855); Pelerinage aux Lieux-saints, suivi d’une excursion dans Le Basse Egypte, em Syrie et á Constantinople (1867); Notice sur le palmier carnahube (1867); O enigma comercial do café de Moka patenteado na exposição de Paris de 1867 (1868); Observações sobre as secas do Ceará e meios de aumentar o volume das águas nas correntes do Cariri (1871).  E dado o reconhecimento e notoriedade que adquiriu em face de seus estudos, foi convidado a colaborar, e assim o fez, na Grand dictionari universel du XIX secle, de Lorousse.


Faleceu esse notável piauiense em 15 de setembro de 1872, em Stuttgart, na Alemanha, aos 64 anos de idade, quando estava no auge de seus estudos científicos e muito ainda poderia contribuir com a sociedade. Coligimos essas notas para a reconstituição de sua biografia num preito de justa gratidão a quem dedicou a mais substanciosa parte de sua vida a serviço do bem-estar da humanidade, assim enchendo de orgulho à terra piauiense.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

DOIS POEMAS DE HÉLIO SOARES PEREIRA


Caminheiro da Procura 

Hélio Soares Pereira

E o homem parte
à procura de si mesmo
num ponto de luz
criando imagens
al di la dos sentidos

E passa imóvel
até se descongelar
na alma
e na lógica
de todos os reflexos


Olhos do corpo

Hélio Soares Pereira

Olhos da mente
Nessa oficina de ideias
a luz é um ponto de vista
que mistura as cores aos sabores
e ilusões

E o brilho da noite
ou o brilho do dia
depende da magia
que existe em nós     

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Francisco de Sousa Martins


Francisco de Sousa Martins
                                                                                              
Reginaldo Miranda
                                                                                  Da Academia Piauiense de Letras

O dia 5 de janeiro de 1805, assinala o nascimento de Francisco de Sousa Martins, notável advogado, magistrado e político brasileiro. Nasceu em casa de seus pais, na fazenda Canabrava, freguesia de N. Sra. das Mercês, hoje Jaicós, então termo de Oeiras. Era filho do coronel Joaquim de Sousa Martins, governador das armas do Piauí, e de sua esposa Teresa de Jesus Maria. Pelo lado paterno era neto do açoriano Manuel de Sousa Martins e de sua esposa Ana Rodrigues de Santana. Eram seus avós maternos o coronel Francisco Pereira da Silva, ouvidor-geral e membro da junta governativa do Piauí e sua esposa Isabel José da Conceição, todos descendentes das primeiras levas de colonizadores portugueses.

Designado para a vida eclesiástica, cedo foi mandado para a vizinha fazenda Boa Esperança, para, sob a orientação de um ilustrado parente, o grande pároco e educador Marcos de Araújo Costa, iniciar as primeiras letras e preparar-se para o sacerdócio. Nesse educandário, o famoso Colégio da Boa Esperança, permaneceu por toda a juventude até concluir o curso de humanidades.

Concluídos esses estudos em 1825, seguiu com o pai para o Rio de Janeiro, matriculando-se no Seminário de São José, onde prosseguiu em sua formação intelectual, estudando teologia e liturgia, cujas noções eram necessárias para a ordenação. Por esses dias seu pai havia entrado em desavença com o presidente da província, o irmão primogênito Manuel de Sousa Martins(2.º do nome), brigadeiro e futuro visconde da Parnaíba, abrindo uma facção de oposição ao mesmo. E aproveitou a viagem à corte para tratar de assuntos políticos, formulando denúncias contra os desmandos que entendia existirem no Piauí.

Todavia, antes da ordenação resolveu Sousa Martins abandonar o seminário para ingressar na carreira jurídica. E aproveitando-se da amizade que travou com alguns seminaristas portugueses que ali também estudavam e tomaram a mesma resolução, rumou para Portugal em 1827, matriculando-se na Universidade de Coimbra, depois, é óbvio, de obter o consentimento e apoio dos pais. Entretanto, não pôde prosseguir no curso jurídico por muito tempo, porque no ano seguinte a referida universidade foi temporariamente fechada, em face da agitação política que passava a nação portuguesa, em torno da sucessão de D. João VI, tendo por personagem central D. Miguel.

De regresso ao Brasil, dirigiu-se diretamente para Olinda, porque sua chegada coincidia com a fundação do curso jurídico que ali se iniciava. Então, matriculou-se na primeira turma de 1828, recebendo o grau de bacharel em 1832, depois de ser aprovado com distinção em todas as disciplinas.

De imediato, retorna ao Piauí, fixando residência na cidade de Oeiras, então capital da província, dedicando-se à advocacia. Ao mesmo tempo é nomeado procurador fiscal da Tesouraria da Fazenda. Por esse tempo, seu pai já havia se reconciliado com o poderoso irmão, fato que facilitou a ascensão do jovem bacharel aos mais elevados cargos públicos na província natal.

Em 1833, Francisco de Sousa Martins foi nomeado juiz de direito da comarca de Oeiras, em cujo exercício permaneceu até o ano seguinte.

No entanto, em 1834 ingressa na política, sendo eleito deputado geral(hoje federal) pelo Piauí e permanece no parlamento, com pequenos interregnos, em face de gestões administrativas, até o ano de 1847, por cinco mandatos consecutivos, alguns deles também pelo Ceará. Durante esses mandatos parlamentares distinguiu-se entre seus pares, tanto nas comissões técnicas, por seu reconhecido conhecimento em finanças públicas, área em que se especializou, quanto na tribuna parlamentar, proferindo eloquentes discursos que ficaram marcados nos anais do parlamento nacional.

Ainda ao final de 1834, foi nomeado presidente da província da Bahia, então uma das mais importantes do Império, tomando posse em 10 de dezembro, à frente de cujo governo demorou-se até 18 de abril do ano seguinte. Essa passagem pelo governo da Bahia foi marcada pela Revolta dos Malês, quando, desassombradamente, de arma em punho, com a sua guarda, enfrentou os negros muçulmanos que tentavam tomar o governo da província e proclamar um reinado. Para isso planejaram assaltar o Palácio do Governo, o Quartel Militar, o Forte de São Pedro e o Quartel de Infantaria de Linha, dominando, assim, a cidade de Salvador, para matar todos os brancos cristãos e coroar a escrava Sabrina, que a tinham como princesa em sua terra. A maioria dos negros revoltados era formada por ex-escravos libertos, africanos, islâmicos da etnia nagô, que exerciam atividades livres em Salvador, daí serem chamados “negros de ganho”(alfaiates, pequenos comerciantes, artesãos e carpinteiros). Embora livres e com pequenas economias eram discriminados em face da cor e da religião. Principalmente esses mais abonados lideraram o movimento e forneceram armas e munições. Tudo foi arquitetado em sigilo, através de suas associações religiosas e sociedades secretas. A data do levante foi estrategicamente designada para a noite de 24 para 25 de janeiro de 1835, durante os festejos do Senhor do Bonfim, que atraía grande parte da população local. O plano é era surpreendê-la e chaciná-la. É que os negros maometanos contavam com a ausência de forças militares na Bahia e demais províncias do Norte, que se encontravam combatendo a Revolta dos Farrapos, no Rio Grande do Sul. Então, nesse momento de tensão, a firmeza de pulso desse varão piauiense foi crucial para abafar o movimento rebelde. Sobre o assunto diria mais tarde, o desembargador José Manoel de Freitas, no Diário de Pernambuco: “A presidência do Dr. Francisco de Sousa Martins na Bahia é um de seus momentos de glória. Ainda hoje os baianos agradecidos referem-na com mostras de júbilo, de satisfação, e nossa história contemporânea não poderá deixar de registrá-la. (...). No dia do cataclisma, o Dr. Sousa Martins não era somente o presidente enérgico e resoluto; não, ele era também o soldado destemido e valoroso que peito a peito se debatia com os insurgentes; a insurreição sucumbiu de repente, em presença de tão porfiada resistência”(Diário de Pernambuco. Maio, 1857).

Depois de retornar ao Parlamento, em 1839, foi nomeado presidente da província do Ceará, tomando posse em 3 de fevereiro de 1840 e permanecendo até 9 de setembro, por sete meses. Novamente, ficou atento à revolta dos Balaios, que eclodia no Meio-Norte brasileiro e ameaçavam invadir Frexeiras, perto de Granja. Por essa razão, dirigiu-se para a cidade de Sobral, visando preparar a defesa da fronteira cearense. Em sua gestão tem início a edificação do farol do Mucuripe, em Fortaleza. Também, pela lei provincial de 26 de agosto de 1840, foi transferida a sede de Vila Nova de El-Rei para Ipu.

Ao ser afastado do governo cearense, em face de mudança ministerial, reassume seu cargo de juiz na comarca de Oeiras. Em 1842, foi removido desta comarca para a do Rio de Janeiro. Em 1845, foi removido para a de Ouro Preto, então capital de Minas Gerais, não assumindo, porém, em face de se encontrar no exercício parlamentar. Todavia, ao fim deste, em princípio 1847, assumiu o lugar de juiz dos feitos da fazenda Pública do Rio de Janeiro, em cujo exercício, infelizmente, demorou-se apenas quatro meses, afastando-se para cuidar de sua saúde, não mais a recuperando. Tão jovem, com apenas 42 anos de idade, encerrava sua vida pública, pondo fim a uma ascensão brilhante em que preponderou a honradez na administração da coisa pública, a justeza nas decisões judiciais, a sapiência nas questões financeiras e a eloquência na tribuna parlamentar.

 Desde então, quase cego, doente do corpo e da mente, passou por uma série de martírios e de sofrimentos. Segundo o desembargador José Manoel de Freitas, o início desses males coincide com o de seu casamento com uma “donzela fluminense, em cujas faces refletiam os atrativos das ilusões da mocidade; desposou-a, e desde esse momento a alegria afugentou-se de seu coração; uma febre abrasadora como que lhe devorava o cérebro, e os homens que o conheceram ávido de glória, intrépido nos combates da tribuna, e refletido nas suas resoluções, chamaram-no de louco, vendo-o assim triste abatido e indiferente a todas essas grandezas que ainda há pouco disputava; mas não, o Dr. Sousa Martins não era louco, ele era apenas um homem que sofria muito e que queria ocultar ao mundo os arcanos de seus sofrimentos” (Diário de Pernambuco, maio, 1857)

Em busca de lenitivo, ao final de julho desse último ano, obtém licença dos poderes legislativo e executivo, e viaja para a França, que a encontra revolucionada. Mais tarde, depois de peregrinar por outras cidades europeias, vai para Lisboa, onde se demora por algum tempo. Sobre esse assunto escreveu ele diretamente de Lisboa para o Diário de Pernambuco, edição n.º 280:

“É inútil aqui mencionar tudo quanto tenho sofrido nos últimos três anos; posso, porém, dizer em geral, que durante esse espaço de tempo, um só dia não tenho vivido com humor contente e espírito livre e satisfeito. Aos males físicos que diariamente me oprimem, acrescem noites contínuas de completas vigílias e anuviadas com as mais lúgubres e funestas meditações; a sociedade humana tem-se-me tornado um flagelo, e a minha vida converteu-se em uma agreste e selvática misantropia. A única satisfação que ainda experimento é a que me confere a solitária leitura de meus livros; estes são hoje os meus únicos amigos, os companheiros dos meus momentos de infortúnio, os consoladores das minhas tristezas, o único conforto que neste vale de lágrimas da vida humana não pode ser roubado ao infeliz, ainda que desamparado de toda  natureza.

‘Mas, esse mesmo derradeiro refrigério de uma existência amargurada, em grande parte me tem sido impedido e contrariado pelos sofrimentos de meus olhos; pois que, ainda que agora possa ler e escrever, contudo isto não o posso fazer sem grande fadiga, cansaço da vista e exaltação do cérebro, o que acarreta penáveis incômodos nas maldormidas noites. Ainda isto mesmo, só agora, depois que estou em Portugal, me tem sido permitido, porque antes quase que nenhuma leitura me era possível por mais de meia hora”.

Em 1851, “abatido pelas moléstias e acabrunhado de desgostos”, no dizer de Miguel Borges, recolhe-se a Oeiras, onde é efusivamente recebido, passando depois para sua fazenda Canabrava, onde vive os últimos dias de sua vida. Consta que, em 1853, tentou sem êxito, o suicídio.

Finalmente, veio a falecer em 5 de maio de 1857, com apenas 52 anos de idade.  Em seus pertences encontraram uma tradução por ele feita, e que ficou inédita, de Viagens em redor do meu quarto, de Xavier de Maistre, entre outras, e escritos sobre finanças. Em vida publicou Progresso do jornalismo no Brasil(RIHGB, t. VIII, p. 262 a 275), alguns discursos nos Anais do Parlamento Brasileiro, e alguns outros trabalhos que ficaram esparsos na imprensa de seu tempo. Pertencia ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.


Traços de sua biografia exaltando a sua personalidade foram anotados pelos biógrafos Miguel de Sousa Borges Leal Castelo Branco, João Pinheiro e Joaquim Chaves, a quem venho associar-me com essas notas que visam relembrar grandes vultos que honram e glorificam a terra piauiense. 

POSSE DE SEBASTIÃO FIRMINO NA ALMAPI (Parte I)


30 de abril   Diário Incontínuo

POSSE DE SEBASTIÃO FIRMINO NA ALMAPI (Parte I) 

Elmar Carvalho

Na tarde de sexta-feira, dia 24, o escritor Herculano Moraes me telefonou para me dar a notícia de que o magistrado Sebastião Firmino Lima Filho tomaria posse de sua cadeira na Academia de Letras da Magistratura Piauiense, cuja solenidade, presidida pelo des. Luiz Gonzaga Brandão de Carvalho, aconteceria a partir das 19 horas, e acrescentou que eu seria o orador de sua recepção. Informou-me, a meu pedido, que o patrono da cadeira era o desembargador Robert Wall de Carvalho. Ante o fato consumado, tratei de fazer um esquema mnemônico de meu improviso.

Sabia que o último ocupante da cadeira fora o desembargador Tomaz Gomes Campelo, que eu conhecera há mais de 17 anos, quando ele já era inativo e eu me encontrava prestes a ingressar na magistratura. Conhecia-lhe os principais fatos de sua biografia. Por conseguinte, não teria dificuldade de me pronunciar sobre ele.

Com relação ao colega Sebastião Firmino, também não teria obstáculos em falar sobre ele, uma vez que já o conhecia há mais de uma dezena de anos. Após o telefonema de Herculano, recebi um e-mail do juiz Edison Rogério me recomendando não deixasse de falar sobre os dotes artísticos e esportivos do novel acadêmico. Segui a boa orientação, e não lhe regateei elogios nessas duas atividades.

Pesquisei dados sobre o patrono da cadeira. Vali-me dos monumentais Dicionário Histórico e Geográfico do Estado do Piauí, de Cláudio Bastos, que levou mais de 30 anos em sua elaboração, e Dicionário Enciclopédico Piauiense Ilustrado, de Wilson Carvalho Gonçalves, meu amigo e confrade na Academia Piauiense de Letras. Tive a honra e satisfação de contribuir para a publicação do primeiro, quando eu era presidente do Conselho Editorial da Fundação Cultural Monsenhor Chaves.

A seguir, farei um apertado resumo do que disse em meu pronunciamento.

O desembargador Robert Wall de Carvalho nasceu em Caxias, em 1918, e faleceu em Teresina, em 1984. Figura emblemática da magistratura piauiense, é dela também um verdadeiro paradigma, pelas suas virtudes, capacidade administrativa e dotes intelectuais. Foi jornalista, professor, presidente e corregedor-geral do Tribunal de Justiça, membro da Academia Piauiense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí. Exerceu cargos hoje correspondentes a secretário de Estado. Um dos fundadores da Universidade Federal do Piauí, foi seu primeiro reitor.

Era filho de Cromwell Barbosa de Carvalho, de estirpes amarantinas e oeirenses, que exerceu quase todos os cargos exercidos pelo filho, entre os quais os de presidente do TJPI, secretário de Estado, jornalista, membro da APL e diretor da velha Faculdade de Direito do Piauí. Pelo lado materno descendia de industriais caxienses, inclusive dos Dias Carneiro, que instalaram famosa indústria têxtil em Caxias, no final do século 19.

Francisco Dias Carneiro, poeta e capitão de indústria, tem seu busto afixado no Pantheon caxiense, ao lado dos poetas e escritores Gonçalves Dias, Coelho Neto e Vespasiano Ramos. Segundo informação oral, que não tive condição de confirmar, o poeta Francisco Dias Carneiro fora casado com uma senhora do Rio de Janeiro, que teria falecido ainda jovem. O filho do casal teria sido criado pela família da mãe, na então capital federal.

Sobre essa ilustre família, da qual descendia Robert, já tive o ensejo de dizer: “No meu périplo caxiense, encontrei o prédio de extinta fábrica têxtil, que outrora fora símbolo de poder e de orgulho, com os seus operários e administradores na azáfama do dia a dia. Como os engenhos do romance de José Lins do Rego, o seu fogo de há muito já era morto. Todavia, um penacho de nuvem por detrás da alta e soberba chaminé, que, como uma torre de Babel, parecia querer desafiar o céu, provocou-me uma ilusão de ótica, dando-me a impressão de que ainda soltava as suas últimas baforadas de fumaça, e eu tive a ilusão de que os operários ainda teciam as peças de pano, e que os teares ainda se movimentavam com seus dedos de fiandeiras mecânicas. // Contudo, as plantas que nasciam na boca da chaminé me trouxeram de volta à triste realidade, e eu tive a nítida certeza de que o facho de vida da fábrica já estava morto e emborcado.”

Posteriormente, em conversas, soube que Robert Wall de Carvalho fora um exímio professor. Dava suas aulas sem anotações e sem necessidade de compulsar livros. Tinha boa dicção e postura muito ereta. De denso e aprimorado conteúdo, suas aulas eram quase conferências, em que o mestre se excedia em esmero e dedicação. Aposentou-se voluntariamente do cargo de desembargador em 1967, com apenas 49 anos de idade, como a lei da época permitia, não sei se por desapego a cargo público, ou se por ter pretensão política, ou se por outro motivo de foro íntimo.


De qualquer forma, como já disse, para além de ser uma personalidade emblemática da magistratura piauiense, é uma figura paradigmática, que lhe orna, de forma destacada, a galeria mais seleta e rigorosa. 

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Lições e mistérios dos beija-flores e libélulas



Lições e mistérios dos beija-flores e libélulas

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

                 A ciência anda a anos luz de descobrir os mistérios da natureza. E se arvora a conclusões precipitadas, inclusive a de subestimar a ação da Inteligência Suprema. O evolucionismo é aceito, mas de braços dados com o criacionismo. A ciência só entende do primeiro; o segundo, somente os sábios aceitam.

Às cinco da manhã, a oração de louvor e agradecimento, entre fruteiras do amplo jardim. Alaranjada aurora, frescor úmido, o primo canto dos bem-te-vis. Lá vêm encantadores beija-flores. Aproximam-se a meio metro de mim, bebericam água suculenta que lhes preparei. Saciados, pousam no fio, exibem a fina língua, longa como o bico. Outros pássaros festejam a ração posta no vaso. A libélula baila sobre uma poça d’água, tocando-a, saltitante, com a ponta traseira, espalhando minúsculos ovos. Vida saudável a minha, compartilhada com a natureza, que me dá lições de bem-estar, como nenhuma academia.

         Nesta manhã, dirigi-me à clínica dos olhos. Enquanto aguardava, sentado na poltrona, a chamada para implante de lente no olho esquerdo, assistia ao painel eletrônico. O vídeo exibia os avanços da tenologia nas cirurgias oculares, além do currículo de jovens médicos, que consumiram anos de estudo e dinheiro por uma só especialização em cirurgia do olho. Especialista só para cirurgia de catarata; outro, em glaucoma; outro mais, córnea oftalmopediatria; mais um, em  estética ocular... cirurgia refreativa... estrabismo... vítreo-retina. A ciência que descortina e consome anos de pesquisa por uma minúscula parte do corpo: odontologia e suas múltiplas especialidades; dermatologia e mil funções da pele; urologia, obstetrícia etc, etc. E São Paulo atacado por epidemia de dengue. Insetinho indomável derrubando e matando. Virose, virose, virose aporrinhando a gloriosa ciência dos homens, que soltam rojões quando conseguem descortinar segredos da natureza. E se arvoram de negar a Inteligência Superior e Infinita. Aí me volto às libélulas e beija-flores do meu jardim.

        A engenharia ainda não conseguiu se igualar à natureza quando o assunto é voar, segundo um estudo que compara colibris a helicópteros. Pesquisadores afirmam que os pássaros são mais eficientes do que as mais avançadas aeronaves. Aliás, avião vem de AVE. A engenharia copia a sustentabilidade e dirigibilidade das aves. Até a ponta da asa da aeronave (winglet) reproduz a saliência que aparece nas pontas das asas das aves. Corte a saliência do capote, ele não mais voará.

         Estudando a Bíblia, entendi a metáfora do fruto proibido: o conhecimento humano limitado, ao ponto de não conhecer, totalmente, o universo de seu corpo, só uma parte, por especialização. Porém questionam a existência da Suprema Inteligência Divina. Libélulas e beija-flores que lhes digam.