quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

CAPTORES DE CANÁRIOS


CAPTORES DE CANÁRIOS

Jacob Fortes

A Fazenda Triunfo, sopé da montanha, era uma vivenda aprazível não apenas por suas várzeas complanadas, abundantes em carnaúbas de copa densa, mas pelas melodias que emanavam das suas frondes. Eram os canários da terra, gregários, que, na vida alegre dos campos, viviam ali despreocupadamente. Centenas deles, animados pelo número, concertavam gorjeios durante toda a luz natural. Seus cânticos eram, a bem dizer, hinos consagrados a Deus ou, sabe-se lá, para celebrar as suas liberdades ou, ainda, reafirmar a angelitude das suas figuras dulcíssimas. Essa paisagem remonta aos tempos em que contos de fada impressionavam as mentes infantis. Ainda ouço as suas canções, terapêuticas, antisoledade.

Numa certa manhã limpa de sol erguido, os enxadeiros suavam no eito em prol da limpeza de um talhão de leguminosa: consórcio de milho e feijão. Durante uma pausa na labuta — para atiçar o fogo e ferver um café ao abrigo de um Angelim — um deles, o corcunda, ouviu rumores vindos do tabuleiro; ataviado de carnaúbas.  Juntos, e cheios de resguardos puseram-se em marcha. Não tardaram a distinguir dois forasteiros de meia idade: um branquelo, cabeça escalvada; o outro moreno, cabeleira a Castro Alves. Eram captores de canários que, arteiramente, aprestavam-se à tarefa de armar os alçapões com que pretendiam capturar as aves canoras.

Surpreendidos que foram pelos rurícolas, os captores desandaram a correr por rumos desfrequentados deixando as armadilhas que foram facheadas depois de postos em liberdade os desventurados “chamas”; que se prestavam, inconscientes, ao papel de atrair os seus iguais para destino fatídico. Ninguém lhes soube os nomes.

E no escoar dos anos: a inconsciência cresceu; a impunidade se estabeleceu; o tráfico de mortalha recrudesceu e o canário desapareceu. Na Fazenda Triunfo, em estado de apagamento e obscuridade, já não triunfa a glória dos cantadores; finou-se o som festivo das figurinhas queridas. Restou no lugarejo — assaz desnudado e adornado com ossadas que retratam a seca e a fome — a figura desengonçada e insossa do anum rabo de palha, produto inservível à mercancia do tráfico odioso.

Em mim, tatuada por dentro, a lembrança saudosa daqueles cancioneiros alados, que os mantenho presos, porém distantes das gaiolas, que as deploro, que me inspiram a escaramuçar disfarçado de zorro para encontrá-las e libertar os delicados menestréis a quem escutava e contemplava com aquela admiração do meu tempo de menino. Eles são minhas mascotes prediletas; significam mais do que valem!

Ao dar por terminada a tarefa que me impus de enunciar o episódio dos captores de canários, reproduzo parcialmente o soneto do poeta, Padre Antônio Tomás, com que exprimiu o seu compadecimento aos canários engaiolados:

“Por mãos cruéis um dia arrebatados
Aos vossos brandos, delicados ninhos,
Viveis cantando, ó meigos passarinhos,
Nestas tristes prisões, encarcerados.
....................................................................
Eu sinto ao escutar vossos lamentos,
Minhas horas de tédio e dissabores
Converterem-se em rápidos momentos.
Cantai, cantai, formosos trovadores;
Enquanto relatais vossos tormentos
Eu me esquecendo vou das minhas dores”     

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Ombros nus


Ombros nus

Neide Moscoso

ombros nus
queimados de sol
na tarde violeta
e rosas grenás
amparam-me no
relento dos meus
braços nus
encobertos de ilusão
esquecidos da vida
longe de casa 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Oh abre alas, que eu quero passar


Oh abre alas, que eu quero passar

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

             Antes de a maior festa coletiva do Brasil começar, que tal um passeio ao passado? Afinal, em se tratando de qualidade musical, carnavais antigos dão ainda de letra na mediocridade atual e continuam a encantar foliões e apreciadores do belo artístico. Velhas marchinhas que seduzem, em momento em que só restam rebolados regados a bebedeira, erotismo e refrãos insossos.

         Iniciemos por Chiquinha Gonzaga (1847-1935), filha de escrava com general do império, que a adotou e a privilegiou com educação aristocrática: afilhada de Duque de Caxias, aluna de famosos professores, entre os quais Maestro Lobo. Chiquinha Gonzaga ou Francisca Edwiges Neves Gonzaga estudou e compôs músicas, a partir dos 11 anos. Pianista, Chiquinha produziu sambas, polcas e choros, regeu orquestra. Mulher avançada para seu tempo de cultura machista e preconceituosa. A mulata pesquisava suas raízes musicais em contato com escravos. Casada com almirante, separou-se, anos depois, um escândalo para época. Aos 52 anos, apaixonou-se por aluno de música de 16 anos. Para fugir à rejeição da família e da sociedade, adotou-o como filho, ambos apaixonadamente perdidos, tiveram filhos.

                Em 1899, Chiquinha Gonzaga compôs a primeira música carnavalesca, o celebre Ó ABRE ALAS, QUE EU QUERO PASSAR/ Eu sou Lira/Não posso negar/Ó abre alas/Que eu quero passar/Rosa de Ouro/É quem vai ganhar. Canção composta para o cordão carnavalesco Rosa de Ouro. Muitas outras composições de Chiquinha popularizaram-se, graças à adaptação das mesmas a instrumentos menos aristocráticos que piano. Chiquinha tocava em saraus do Catete, ritmos populares que sofriam críticas da sociedade, que não aceitava “vulgaridades” artísticas em ambiente nobre. O presidente Hermes Lima acatava, porém, o gosto de sua esposa, amiga de Chiquinha Gonzaga.

                Marchinhas de carnaval, depois de Chiquinha Gonzaga, caíam na boca do povo, esquentavam salões de clubes sociais, dão, até hoje, audiência às rádios, neste período. Lembro-me bem da obra-prima de Zé Kéti, MÁSCARA NEGRA (Tanto riso/ Oh quanta alegria/ Mais de mil palhaços no salão/ Alecrim está chorando pelo amor de Combina/ No meio da multidão/ Foi bom te ver outra vez/Tá fazendo um ano/Foi no carnaval que passou/Eu sou aquele pierrô/Que te abraçou/Que te beijou, meu amor/A mesma máscara negra/Que esconde o teu rosto/Eu quero matar a saudade). A canção estourou no final dos anos de 1960. Tantas e tantas que pipocavam, a partir do réveillon, até chegar o carnaval, vendidas aos montes e decoradas à exaustão: Mamãe, eu quero; Cidade Maravilhosa; A Banda; Atrás do trio elétrico; Chiquita bacana; Tomara que chova três dias sem parar; Alá laô, mas que calor, ôôô; Acorda Maria bonita...

         Carnaval, origem pagã, depois adaptada ao espírito cristão de alegria, comes-e-bebes com racionalidade.  Caro Valet, vai-te carne, carnaval, porque, depois de três dias, vem o período quaresmal de jejuns e reflexões. Queira Deus que a indisciplina carnavalesca não reviva o império romano da comilança, que desembocava nos vomitórios construídos nos salões nobres. Uma farra que encurtava vários anos de vida. E pode se repetir.     

domingo, 15 de fevereiro de 2015

ETERNO RETORNO


ETERNO RETORNO

Elmar Carvalho

memória:
lâmina de desassossego
cornucópia insana insaciável
a jorrar o passado
que não morre nunca
sempre ressuscitado
no eterno regresso
a nós mesmos.

ó emoções redivivas
e ampliadas
das sensações
de nervos expostos
nas carnes pulsantes
de um passado
sempre lembrado.

recordações
que dão e são vida
de becos escuros, sem saída
de amores
            hoje boleros
                     bolores em flores
de ilusões perdidas
que se fazem dores
na florida ferida da saudade.

evocações
de dribles esquecidos
de gols frustrados e acontecidos
de um jogo que nunca termina
de uma malsinada sina sinuosa
de lágrimas caudalosas
incontidas, vertidas
das vertentes profundas
do peito – porto
sem tino e sem destino
feito somente de desatino.

as mulheres amadas
na juventude fugaz
            não envelhecem
            não se corrompem
            não morrem jamais
preservadas intactas e belas
na câmara ardente
incandescente da memória.

recordações de fantasmas
que já nos abandonaram
de amigos mortos
que nos acompanham
cada vez mais vivos
de sustos e gritos
de proscritos e malditos
de agouros e assombrações
de desdouros e sombras vãs, malsãs,
oriundos dos porões escavados
nos subterrâneos dos sobrados
       subterfúgios e refúgios
da memória.

O passado poderoso e renitente
retorna e continua vívido e presente
se contorcendo se retorcendo
       e se reacontecendo.   

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Estranho Homem


Estranho Homem

Cunha e Silva Filho

         Aquele  homem  grande,  meio calvo,  corpulento e de cara amarrada  bateu  três   vezes na  porta  principal  com os dedos em punho. Do lado de dentro, eu achei esquisito  a chegada ali  daquela  pessoa. O homem foi logo   dizendo que  tudo estava errado.  Eu e minha  família, isto é,  minha esposa e meu  filho não entendemos  o porquê  do  transtorno  daquele  homenzarrão de cara feia que, sem  motivos,  vinha  nos  importunar  do nada. “Quem  é o senhor? O que  quer de nós? Não fizemos nada errado.A casa é minha, pago meus  impostos em dia e sou  um funcionário  público em final de carreira”.
      “Tudo quase aqui em sua casa está irregular, até a arrumação  da casa, a mesa  não deve   estar neste lugar aqui,  o sofá  é grande demais  pra casa,  a geladeira,  o fogão,  o tanque,  enfim, tudo  na casa  está  irregular.”
“Mas, por que me diz  tudo  isso,  senhor?’ “Não quero  saber de sua  resposta. O senhor, que se diz  dono da casa deve me acompanhar"
    Era noite.  Mas, o que  disse era da boca  pra fora,  pois, como se verá, no final   da conversa,  ia exigir que fosse na manhã seguinte prestar  declarações ao chefe  sobre  todas  as "ilicitudes"  que  conseguiu anotar  numa caderneta.  
  "Vejo,  inclusive,   que  sua cama   é grande demais,  não  tem  o tamanho  adequado  para  um casal  tão  pequeno e com  pouco  peso  se somados  os dois. O quintal  está, da  mesma  forma,   todo  fora da lei,  assim como  os bichos que cria. Eu vou  precisar de ter  documento  seu  comprovando  que o senhor  foi quem   comprou   os bichos: galinhas,   patos,   uma tartaruga,  um cachorro vira-lata e um gato  branco.E até os passarinhos nesta gaiola  não são permitidos   por lei.Vou ter que levar  bichos  e aves”.
    Esqueci de  informar que  o  brutamontes  estava acompanhado  de um   homem   pequeno,   de olhos  vesgos  e  trazia, debaixo do braço, uma pasta   marrom, dessa  pastas que  comumente  vemos  na  cidade  gente  carregando cheia de  papéis com ares de   burocrata  certinho  e bem organizadinho.
          “Se o senhor  não  arrumar sua casa conforme  as recomendações   legais,  será  daqui  expulso e até mesmo,   caso   reclame de alguma coisa, sairá preso, perderá  o emprego 'para o bem do serviço  público.’   E nem  pense  que  conseguirá algum  advogado  pra defendê-lo. De nada  adiantará, se for o caso de prisão,  será prisão mesmo” Habeas corpus para nós,  diz  o armário, é conversa  mole  de excesso de proteção  a criminoso”.
         “Mas, nada fiz  de errado,  levo  uma vida  correta,   não tenho vícios,   não tenho, ao que pareça,  inimigos,  e  só tenho  um hobby,  o  de  colecionar  velhos   livros  de matemática,  matéria  que  sempre  estudei, dela fui  aluno exemplar. Como são,  em geral,   livros   raros ou  de  décadas  atrás,  encomendo-os pelas livrarias virtuais. Eles chegam  sem problemas. Veja, ali naquela   estante,  quanto  deles   coleciono. Se disponho de mais tempo,   leio-os  e  resolvo  os problemas  propostos  por seus autores. Até os mais cabeludos.Alguns deles  têm a chave dos exercícios, destinada aos  professores, então designada “Parte do Mestre” (se não me engano,  introduzida  pelos  Maristas   da Coleção  primorosa,  a F.T.D.) para  que  confira  se  acertou  resolver  os problemas  ou  não.”
   “O senhor está me fazendo  perder  o tempo  com  conversa fiada. O meu  assunto  aqui  nesta casa é vir  cumprir  o que meu chefe  me  determinou e lembre-se  de que eles são  tão sensíveis  quanto   os robôs e os programas   de computador. São frios e calculistas e, ao  lidarem com  o ser humano,    pouco  ou  nenhum valor lhe dão. Portanto,  vá cuidando do que  tem  a declarar ao chefe  superior. Aqui está  o endereço  a que deve comparecer, leve  o máximo  possível de documentos e notas   fiscais  de compras  dos objetos   que  a sua casa possui. O grandalhão  entregou-me um  papel  timbrado e  me  pediu   que o assinasse. O comparecimento  ao chefe seria  no dia seguinte,  às 9 00:hs.
     O brutamontes, acompanhado do homúnculo, saíra  da casa sem  despedir-se. Ao contrário,  bateram  com a porta e sumiram  para um  lugar   desconhecido. Era noite.    Em casa, agora sozinhos,  não sabíamos   o que  dizer, tomados de medo  e desespero.  Descobri, de repente,  que  apenas mal  acordara  de um pesadelo e, agora, nem me recordo bem  se  os fatos se deram  conforme  o relato  precedente. Me acuda, leitor, que o mundo é louco mesmo  e sem sentido.

   Não  viu o que fizeram   com  aquele famoso  personagem de Kafka, preso  sem saber  por quê? E mesmo  a figura real  de  Graciliano Ramos,  o que de errado  fez  pra merecer  uma prisão no Estado Novo? Experiência  de preso injustiçado   que  lhe rendeu literariamente  uma grande  obra,  Memórias do  Cárcere. O pai  deste narrador também  foi preso em 1935, no mesmo  período  discricionário,     injustamente  somente  porque  tinha  em casa  uns livros marxistas que, de resto,  tinham  sido deixado na  casa dele  por um  seguidor  do comunismo,   o qual por acaso  estivera de passagem  por Amarante,  cidade  piauiense.Um dedo-duro  denunciara  meu  pai  que,  por isso,   amargara  um período de cadeia em Teresina. A experiência de prisão de meu pai o inspirou a escrever  um  dos  melhores capítulos  do  seu livro, Copa e cozinha.     

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

AS MISSIVAS DE ELISABETO RIBEIRO GONÇALVES



12 de fevereiro   Diário Incontínuo

AS MISSIVAS DE ELISABETO RIBEIRO GONÇALVES

Elmar Carvalho

Não resisto à tentação de trazer para este Diário uma pequena carta internética, datada do dia nove, que me foi enviada pelo Dr. Elisabeto Ribeiro Gonçalves, neto do coronel Orlando Carvalho, reconhecido como um dos mais operosos prefeitos de Oeiras, terra natal do missivista. Ei-la, na íntegra:

“Prezado amigo e poeta (maior) ELMAR CARVALHO,

          Recebi neste final de semana o seu livro AMAR AMARANTE. Fiquei encantado com o presente e por algumas boas razões. Primeira delas, é que o livro é de sua autoria e isso nos dá a certeza de uma antecipada garantia de qualidade literária e estilística. Depois há uma razão, digamos sentimental: Amarante é o berço da família Ribeiro Gonçalves, pois lá se fixaram os três irmãos vindos de Portugal.
           Aliás, segundo sei, eram quatro irmãos, mas um foi para o sul e nunca mais ninguém teve notícias dele. Então a família nasceu lá e continuou lá por muito tempo, quando se dispersaram entre Oeiras, Teresina e Floriano, principalmente. Lá nasceram meus avós paternos, meu avô materno e meu pai, embora nascido em Manaus, voltou para lá ainda criancinha, com quatro anos, e viveu em Amarante até formar-se, quando foi exercer a Medicina em Oeiras, casando-se com minha mãe, oeirense.
            Amarante ainda tem a honra de ter dado ao Piauí o maior poeta brasileiro de todos os tempos.  Lembro-me de que num dos sonetos do vate amarantino ele canta Amarante dizendo que minha terra é um céu se há um céu sobre a terra. E tem um de seus versos (acho que de A Moenda) eleito o melhor e mais bonito de toda a poética de língua portuguesa: Saudade, asa de dor do pensamento.
            De modo, poeta, tenho motivos de sobra para ler o seu Amar Amarante com todo interesse, buscando nele o encanto, o prazer e a emoção que sua prosa, já minha conhecida, certamente vai me propiciar. Se não for pedir demais, peço-lhe que não se esqueça de mim, enviando-me, oportunamente, todo o produto de sua criação literária e poética.
            Ao ler e reler seu “Noturno de Oeiras” passei a entender o sentido do que Guimarães Rosa disse em seu Grande Sertão: Veredas: tem horas em que penso que a gente carecia, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto. É isso aí, poeta: a leitura de sua obra me dá essa espécie de encanto, que a gente tenta esticar, prolongar, mesmo sabendo que devemos, embora a contragosto, fugir à magia e ao doce torpor desse deslumbramento.
            Abraços afetuosos, poeta, do amigo que o estima e admira muito, mesmo sem conhecê-lo.

           Elisabeto”

Consta que o grande poeta Augusto Frederico Schmidt, então proprietário de uma editora, ao ler um relatório do prefeito Graciliano Ramos, ficou com a convicção de que o alcaide deveria ter algum romance escondido em alguma gaveta. De fato Graciliano havia escrito seu romance Caetés, que Schmidt veio a publicar. Depois veio a série de obras importantes do grande ficcionista alagoano.

Da mesma forma, quando dona Anatália Gonçalves de Sampaio Pereira, sua irmã, me deu a ler uma carta do Dr. Elisabeto, fiquei com a desconfiança de que ele deve ter importantes textos guardados, que certamente merecem ser dados à estampa da publicidade.

Dona Anatália lhe remeteu o meu livro Noturno de Oeiras e outras evocações. Poucos dias depois, recebi uma carta, por e-mail, em que ele comentava com muita propriedade essa obra. O texto tinha algo de boa crítica literária, e muitos comentários e observações que somente um bom escritor e leitor arguto poderia fazer.

As cartas de Elisabeto são feitas com frases bem construídas, elegantes e gramaticalmente corretas, mas sem empolações e desnecessárias pulutricas estilísticas. Concisas, exatas, precisas, mas de denso conteúdo. Consoante se depreende de suas judiciosas observações e análises, de seus abalizados e pertinentes comentários, ele poderia ser, se o desejasse, um exímio cronista ou um notável ensaísta. 

Pelas intertextualizações, pelas referências a textos e autores, e pelas eventuais citações diretas, nota-se que Elisabeto é um leitor de largas, longas, profundas e meditadas leituras, cujas ressonâncias transparecem no teor de seus escritos e em seu estilo límpido, escorreito, rítmico. Não é somente um bom redator; é um estilista esmerado, atento, perfeccionista, que chega ao ponto de elidir o “que” (elipse), para que esse conectivo não tenha excessivas repetições num mesmo período.

De qualquer forma, suas cartas, pelo que me foi dado conhecer, merecem ser enfeixadas em livro. Aliás, muitos escritores tiveram suas missivas organizadas e editadas. Algumas dessas publicações são compostas de dois ou mais literatos que trocavam correspondências. Muitos desses textos são tidos como grandes obras literárias, por suas observações, reflexões, análises, críticas, depoimentos, comentários a fatos ou obras de arte. As cartas de Elisabeto contêm todos esses ingredientes, tudo vazado em refinada linguagem.  

Mário de Andrade era um incansável missivista. Enviava cartas para diversos escritores, tecendo comentários, emitindo sugestões, apresentando palavras de estímulo e encorajamento. Tento imaginar o que ele faria hoje, com as facilidades proporcionadas pela internet, através de sites, blogs, e-mails e facebook. Godofredo Rangel e Monteiro Lobato se corresponderam por 40 anos. Li uma dessas missivas. Era uma verdadeira obra de arte, e me comoveu e encantou.


As cartas do Dr. Elisabeto Ribeiro Gonçalves, médico como seu pai, um dos mais respeitados oftalmologista de Belo Horizonte, são verdadeiras obras-primas, pelas qualidades que lhes ressaltei acima, e por reunirem atributos de crônicas, ensaios, memórias e artigos, merecem ser compiladas em volume impresso, ainda que ele julgue necessário fazer uma seleta dessas excelentes missivas.   

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Loucura


Loucura

Neide Moscoso

controlo a própria loucura
entre o livro e o som
ouvindo Billie outra vez
libero emoções contidas
angústias fúteis queixas
de histórias pessoais
deságua numa xícara
de café
salvo a página em branco
esvaziando palavras
na caneta entre os dedos  

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

COGITAÇÕES


COGITAÇÕES

Jacob Fortes

Há momentos em que a mente abandona o seu posto de vigilância e, entre prostração e calundu, mergulha em profundos e silenciosos devaneios.  É uma circunstância inesperada. Numa introversão indefinida se põe a ruminar sobre quase tudo: o ontem, o hoje, o amanhã, enfim, um cortejo de vultos pardacentos dentre os quais figuram as vitórias, que tonificam; as derrotas, que deixam o travo; a desopressão pelos benefícios recebidos e concedidos; a compunção pelos atos malévolos (quem nunca os cometeu, ainda que involuntariamente, que se professe imaculado), mais das vezes acesos, martelando, fazendo o seu autor purgar em arrependimentos. É o seu jeito paciencioso de vingar-se.

Enquanto perdura o alheamento letárgico, a mente se detém nas suas escavações particulares fazendo desfilar o cortejo das legendas nevoentas: saudades, de pessoas e coisas; lembranças: esquivas, desgastadas, memoráveis; a carta fechada do porvir; o jardim da mocidade — que se dizia eterno, imarcescível, — progressivamente emurchecido ante o escoamento incontornável dos anos. E o filme segue exibindo legendas múltiplas que se alternam entre a melancolia, a taciturnidade, a alacridade.

Mas, assim como desperta o corpo que se estira em sesta dormitiva, os devaneios também acordam.  A mente, como que alfinetada, estremunha-se de súbito e dá-se por encerrada a introspectividade.

Reativado o radar da mente o nauta, que se houve retido por falta de bússola, dar prosseguimento à faina de navegar. Restabelece-se, então, a rotina; o discernimento reassume o leme. 

Este enunciado, ainda que exprima apenas o imaginário do narrador, é factível; pode acometer a qualquer um. É o que sucede aos que apascentam o olhar na pradaria do vago ou nas baforadas de um cigarro.   

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Edson Guedes de Morais - contista e editor


Na quinta-feira recebi os livros Lúcio Cardoso (1912-1988), Paschoal Carlos Magno – Poeta, Augusto dos Anjos (1884-1914), Vernissage no Bar do Joaquim, Encrave, Ele e sua propriedade e Ménage?.., os quatro últimos da auditoria de Edson Guedes de Morais. Todos publicados por Edson, através de sua editora – Editora Guararapes EGM, que gentilmente me enviou essas importantes obras.

            Tinha conhecimento da importância dos dois primeiros autores, mas praticamente não os conhecia como poetas. Constatei que eles são grandes poetas, embora hoje quase esquecidos, pelo menos na área da poesia. Como muita satisfação irei reler o grande Augusto dos Anjos, que tenho relido, tanto através do Eu e outros poemas, como através das antologias de que ele faz parte. Constato agora que Edson Guedes de Morais é um exímio contista, conciso, exato, preciso.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

AUTO-APRESENTAÇÃO


AUTO-APRESENTAÇÃO

Elmar Carvalho

eis como sou
            neste instante único
            (após o qual já
            serei um outro):

um homem que rema
            no seco contra
            a corrente das águas

um homem que usa
            a gravata como
            se fora um baraço
            nas horas de opressão

um homem que escreve
            torto por
            linhas certas

um homem que sobe
            e teima contra
            a lei da gravidade

            eu sou aquele
que aprendeu
a pecar para
ter a humildade
de não ter uma
virtude

            eu sou aquele
que jogou roleta
russa com o tambor
cheio de balas e
apostou contra a
sorte
           
           eu sou aquele
            que lutou para
            não ser   

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Café Literário - homenagem a Isis Baião & Lygia Fagundes Telles


A pedra dos maus exemplos


A pedra dos maus exemplos

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

            “No meio do caminho tinha uma pedra ... Nunca me esquecerei ...na vida das minhas retinas ...tinha uma pedra”. Mais que uma pedra, um enorme e roliço moinho de pedra, de uns cem quilos.

Cafarnaum, cidade à beira do Mar (Lago) da Galileia, hoje um sítio arqueológico. Restos de construções milenares, inclusive a sinagoga onde pregou Jesus. O Mestre e os apóstolos residiam em Cafarnaum. Sermões, milagres e expulsão de espíritos malignos atraíam curiosos. Pela Via Maris passavam comerciantes e produtos do Oriente na direção do porto e do Egito. A missão de Jesus abrangia gente de toda parte e credos. Cafarnaum alfandegária, consumista, guarnecida por tropas romanas, prostituída, escandalosa, mercantilista. Jesus predisse a destruição de Cafarnaum, Betsaida e Corazim, centros de imoralidades. Cumpriu-se a profecia.

Sentei-me no moinho de pedra, pus-me a contemplar o mar de água doce refletindo-me passagens bíblicas. Moinhos serviam para esmagar azeitonas e extrair-lhes azeite. Jesus abraçando uma criança, diante do moinho arredondado de pedra, o Lago, multidão de gente a ouvir-lhe terrível e ameaçador sermão: “É possível que haja escândalos, mas ai daquele por quem eles vêm. Melhor atassem um moinho ao pescoço de um desses pequeninos e o lançassem ao mar. Tomai cuidado vós mesmos” (Lucas, 17).

Apesar dos esforços para se preservar a inocência e o pudor, crianças e adolescentes tornam-se reféns de escândalos e maus exemplos. Redes sociais, revistas pornográficas, familiares sem princípios éticos, músicas e rebolados que exaltam sexo, prostituição; artistas flagrados ou mortos por overdose. A modernidade rola uma pedra de moinho que mói inocências, usurpam-lhes a mais sagrada virtude: a pureza angélica do espírito.

Um site americano pesquisou 2.400 pais sobre quais celebridades mais serviam de mau exemplo às crianças. Para surpresa, os mais colocados: cantor Justin Biebar e Miley Cyrus (da Disney) ídolos do público infanto-juvenil, por provocarem presepadas, infidelidades, arrogância, até falta de talento. No Brasil, pesquisa similar incluiria barbaridades de forrozeiros medíocres, assassinos da língua, puteiros, prostitutas seminuas, refrãos desqualificados. Além de governantes, empreiteiros e políticos envolvidos até o gogó nos escândalos e maracutaias. Ainda participam de cerimônias religiosas e juram fidelidade à pátria. Cafarnaum, Betsaida e Corazim perdem feio. Pelo menos, ali se converteram pescadores em apóstolos da bênção; comandante romano em fiel a Cristo, a prostituta de não sei quantos espíritos malignos em zelosa obreira.

Em vez de jogarem pedra nos defensores da decência, é hora de sentar-se nos moinhos roliços e auscultar o discurso brabo do Mestre. Senão, quem merece ir pro fundo dos infernos são os cúmplices dos maus exemplos. Pedras no meio do caminho causam tropeços aos corações nobres e inocentes.   

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

LAGOA DO PORTINHO – UMA MORTE ANUNCIADA


A triste realidade de agora


5 de fevereiro   Diário Incontínuo

LAGOA DO PORTINHO – UMA MORTE ANUNCIADA

Elmar Carvalho

A partir de 2010, quando a degradação da Lagoa do Portinho se fez notar de forma mais acentuada, os mais atentos e antenados puderam compreender que, se o Poder Público não adotasse medidas sérias em prol de sua preservação, essa laguna seria inexoravelmente extinta, o que é muito lamentável em razão de sua beleza ímpar.

Não há, a meu ver, que se falar em seca; secas sempre existiram, e a lagoa sempre se manteve na plenitude de sua beleza, alimentada pelo rio Portinho, que lhe dava a água e lhe deu o nome. O certo é que as providências nunca foram tomadas e hoje ela se encontra praticamente morta, com os bancos de areia expostos, ao longo de sua bacia.

Pelo que tenho lido e ouvido e observado, creio que a causa de sua decadência foi a degradação do rio Portinho, que lhe deu origem. Esse rio sofreu, certamente, ao longo de toda a sua extensão, problemas causados por desmatamento, queimadas, barramento e retiradas d’água, seja para fins agropastoris, seja para criatórios de camarão, além de outros malefícios, provocados pelo ser humano. É possível que as suas nascentes também tenham sofrido algum prejuízo pela ação humana. O fato é que a degradação desse curso d’água provocou a da lagoa. Dizem os entendidos que ela era mais bela, em sua plenitude, que a do Abaeté, tão enaltecida pelos poetas e compositores baianos.

Eu a conheci quando ela ainda se encontrava no auge de sua beleza, quase selvagem, quase intocada. Foi amor à primeira vista. Encantei-me com a sua magnífica formosura. E a cantei em meus versos, pelo menos em dois poemas antigos, escritos há aproximadamente três décadas. Eu os escrevi sob o impacto do esplendor de sua paisagem mágica, encantada.

Em 1981 ou 1982, com sua paisagem ainda exuberante, e ainda se mantendo como um notável santuário ecológico, nela comemorei minha aprovação para o cargo de fiscal da extinta Sunab. A Fátima, então minha namorada, me deu um carneiro e o Canindé Correia patrocinou uma caixa de cerveja, de sorte que praticamos essa festiva libação à beira dessa "lagoa de águas plúmbeas", como gostava de dizer o jornalista Rubem Freitas, sob um de seus copados cajueiros. Estavam presentes alguns amigos, a maioria ligada ao jornal Inovação.

A primeira vez que a vi foi em 1978 ou 79. Tinha ido à praia de Atalaia, que gostaria de chamar de Amarração, de amar, amarrar, atracação e ação, ação também de amar. No retorno, o Reginaldo Costa resolveu seguir para a Lagoa do Portinho, e eu o acompanhei em minha motocicleta. Deslumbrei-me com o fascínio do lugar.

Na época, só existiam, salvo engano, duas rústicas churrascarias. Uma verdadeira floresta de cajueiros lhe ornava grande parte da orla. Do lado oposto, ao longe, as dunas se erguiam, majestosas e magníficas. Nessa época, poucas pessoas possuíam veículos, e não havia linha de ônibus com destino à lagoa, de modo que relativamente poucos parnaibanos e turistas a conheciam.

Ainda no final dos anos 1970, eu, Bernardo Silva, Paulo de Athayde Couto, Rosângela Santos e outra pessoa, cujo nome não recordo, fomos fazer uma espécie de piquenique à beira da lagoa. Seguimos por uma trilha, que acompanhava a sua margem, por entre os frondosos cajueiros, então abundantes, até alcançarmos as dunas mais altas. Ninguém nos incomodou, mas logo retornamos, expulsos por um festival de mosquitos, que estavam insuportáveis e sanguinários.

A partir de então, com relativa assiduidade, quando eu voltava do mar, ia “retirar o sal” nessa lagoa. Numa das vezes em que lá estive, no final dos anos 70, a natureza foi deslumbrantemente caprichosa. Quando cheguei o sol brilhava como nunca, mas de repente, muito mais que de repente, o céu se fez nublado, e uma chuva fina, mansa, começou a cair. Logo depois o chuvisco cessou, e o sol voltou ao seu esplendor ainda com mais intensidade. De repente era calor, repentinamente houve frio.

As dunas e as águas da lagoa acompanharam essas mudanças de temperatura e luz. Tomaram diferentes tonalidades, e ora reverberavam ao sol intenso, ora se mantinham discretas, como se estivessem em penumbra. Para maior encantamento, estava na churrascaria uma bela jovem “de sinuosas dunas e viagens”; os seus cintilantes olhos claros, não sei se verdes ou azuis, “furta-cores furtaram / outros tons e sobretons”, como expressei no meu velho poema Mulher na Lagoa do Portinho. Os relevos, entrâncias e reentrâncias, enseadas e istmos da moça pareciam projeções das dunas da lagoa, ou as dunas é que seriam projeções da ninfa, já não sei ao certo. O certo é que foi uma tarde encantada.

Em outro poema, também antigo, justamente intitulado Lagoa do Portinho, em versos emotivos e sentimentais, tentei exaltar, com ênfase, mas com a verdade, toda a beleza, toda a magia, todo o feitiço desse extraordinário patrimônio natural. Agora, pranteio a sua (quase) morte, e como Raquel, no texto bíblico, sem aceitar consolação, porque a lagoa já (quase) não existe.    

P. s.: Acrescento ao meu texto o excelente comentário do professor Cunha e Silva Filho:
“Leio, com um sentimento de indignação que, hoje, é tão comum a uma grande parte dos brasileiros, o seu portentoso texto memorialístico, um dos que mais me encantaram nas minhas muitas incursões pela sua poesia.
Vejo que ele, com certeza fará parte de seu livro prometido livro "Diário incontínuo'.
Me surpreende um fato curioso e digno de atenção: os poetas protestam contra as injustiças do mundo, em poesia ou prosa, diferentemente dos jornalistas, ensaístas e críticos. Onde haveria uma expressão duramente empregada, encontramos uma manifestação indignada mas não raivosa, não panfletária.
Julgo que essa forma de protesto contra os desmandos dos homens , do s governos, dos políticos é algo inerente a quem cultiva a poesia. Assim o fez Carlos Drummond de Andrade, assim o fizeram outros poetas brasileiros, inclusive H. Dobal.
E V., Elmar, escreve, com firmeza mesclada de suavidade, esta crônica-memória de denúncia, de desassossego diante da impotência que os escritores sempre e de certa maneira tiveram ao defenderem tantas causas públicas, em tantas questões da vida social, ecológica, ética, política, histórica, de injustiças sociais.
Creio que essa é a forma em que os poetas mais poderosamente podem exprimir sua insatisfação contra os erros humanos sempre tão recorrentes.
Ao descrever e ao relatar fatos memoráveis que lhe ficaram na memória para sempre, V. está justificando as razões do descaso público e privado que levaram a esta situação imperdoável de quase "falecimento" da Lagoa do Portinho.
Se a sua crônica é cheia de exaltações sobre a Lagoa, se ela capta os pontos mais aprazíveis e encantadores que possui é porque o poeta subliminarmente está bradando contra a morte desse recanto deslumbrante da natureza de Parnaíba, dádiva divina ao Piauí e ao país.
Drummond nunca ficou sereno com o que fizeram com Sete Quedas, nem tampouco V. o ficará com a morte da Lagoa do Portinho. Nem V. nem outros piauienses, nem os brasileiros em geral que preservam a natureza brasileira.
Se o seu grito de desespero se oculta pela contemplação da paisagem vista tantas vezes e que ficou para sempre nos escrínios da memória física e lírica de seu mundo artístico interior é porque a sua indignação, como poeta e como brasileiro é algo que não se pode silenciar. Nem isso tampouco é da natureza dos poetas.

Cunha e Silva Filho"    

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Bons motivos


Bons motivos

Neide Moscoso

tenho bons motivos
de quebrar paredes
conflitantes
de bares repletos
em ambientes ruidosos
na noite de chuva
e automóveis coloridos
transgredindo o asfalto
em voos metálicos
escapo na busca libertina
no desejo de avançar
levezas nas perdas e
quase que em paz
fico com as escolhas
que acertei  

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A INJUSTIÇA, SEUS MALES E ALGUMAS SOLUÇÕES


A INJUSTIÇA, SEUS MALES E ALGUMAS SOLUÇÕES
      
Cunha e Silva Filho

          Só quem já sofreu  injustiça  sabe o quanto  ela machuca,  decepciona,  acabrunha,  causa indignação   e é deletéria. Entre os males humanos, a injustiça é a que provoca  mais  censura   em qualquer parte,  em qualquer circunstância da vida.
        A ação injusta penetra todos  os ângulos da vida  social,   coletiva,  comunitária,  nacional  e internacional. Veja-se um  exemplo típico: a injustiça  da fome  mundial ainda  neste  quinze anos  iniciais do  século.  Em regiões da África, das  Américas (incluindo  o nosso  Brasil)  grassa  como  um  câncer, ceifando  sobretudo  crianças,   animais,  o homem. Este quadro de  desumanidade se torna mais    reprovável, para  dizer  o mínimo,    quando  sabemos  que a  riqueza do  planeta Terra está  nas mãos de  1% dos  chamados   milionários!
      Temos  organismos   internacional para  cuidarem da   diminuição  da pobreza, ou melhor, dos que   se situam abaixo do nível  desta? Sim temos, e, por mais que  façam,  o mal  da fome  resiste. A razão  primaria  para   esse permanente   estado de miséria não é fácil de  localizar: encontra-se no fator  econômico,  ou seja,  nas desigualdades   criadas  pelos  sistemas   de governo das nações, pelo descaso  global  contra a educação mundialmente  considerada  pelos  organismos   internacionais,  pelos desvios  de dinheiro  através  da corrupção    generalizada, sobretudo  em  países de baixo  nível de escolaridade.
    Outros   fatores   pelos  quais  a  fome  não  foi ainda  extirpada em tempos  de progresso e  tecnologia  tão complexos e avançados  - contradição   extrema! -  podem ser   identificados   na questão do individualismo   dos países,   nos gastos   com   armamentos   de ponta que só servem a um  fim : a destruição da Terra. Falta, a meu ver,   um gigantesco  projeto  supra-nacional que se  encarregaria  de   estudar   com  profundidade,   sem  condicionamentos  políticos,  ideológicos  e religiosos. É factível isso? É, sim.
   O tratamento  que agora  se deveria  dar aos problemas  gravíssimos mundiais  tem que passar  por questões  envolvendo  o meio-ambiente,  a climatologia,   o espírito desideologizado e uma  mente  global   insubmissa  às contingências fortemente  nacionalistas.   É claro que não  estou   advogando   a ideia de que   o  planeta seja  conduzido  por um  órgão  que determinasse e se imiscuísse  na soberania dos povos, mas um   organismo supra-nacional que  fosse  presidido  apenas  pelo espírito  de natureza humanitária,  sem  populismos,   sem  laivos  de  imperialismo  ou  de grande  potência   dominadora    como   no século  passado  tivemos e mesmo,   de formas diferentes,  em séculos   da História  dos povos.
    Eliminar  ou amenizar  suficientemente a injustiça, creio,  teria que  passar  por  essas mudanças de cunho  humanístico na   condução  dos destinos   do homem  no  mundo.
  Esquecer  a gravidade do  problema da fome, da pobreza, da injustiça, enfim,  considerada  em  todas as suas manifestações – e são inúmeras -  infra-estrutura do Estado,   saúde,  educação,   a questão da violência, a impunidade, a infância abandonada, a desagregação familiar, a corrupção,  a politicagem, a  incompetência  de governantes,  a desídia  em  lidar com  a coisa pública, a malversação   do dinheiro  público,  o individualismo    exacerbado das pessoas   de alto  padrão  de vida, o consumismo   excessivo,  a falta  de uma dimensão   espiritual ("the missing dimension") de que  já falou  um  pastor  americano, Herbert W. Armstrong (1),  que  oriente  os indivíduos a serem,   desde a  infância,  pessoas  dignas,  honestas e solidárias,  estaria na contramão  de  toda um comportamento  das sociedades  e dos governos fundamental à batalha  contra  as  injustiças que  podem se  incrustar  no emprego, na fábrica,  no hospital, na escola, na universidade,  nos tribunais, de justiça, nos esportes,  nos  estádios, quer dizer,  a injustiça  é um  mal  ubíquo instalado  para   destruir  inocentes  e humilhados em tempos de terror  e espanto  universais.


(1) ARMSTRONG,  Herbert W.. Autobiography of Herbert W. Armstrong. v. 1. World  Church of  God, 1986, USA, 646 p.).     

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Seleta Piauiense - Elmar Carvalho


AUTOBIOGRAFIA ZODIACAL

Elmar Carvalho (1956)

Sou do signo de
            Carneiro
Mas meu coração é um
            Touro indomável
No meu sangue
corre a fúria de
            Leão
Entre uma Virgem e duas
            Gêmeas
Meu coração / bala
           Balança
Sou um Câncer
nos chifres de
            Capricórnio
Sou Peixes libertário
sem o cárcere de um
            Aquário
Sou Sagitário
            a
                        r
                                   m
                                               a
                                                           arco e flecha
                                               d
                                   o
                        d
            e
(A flecha é uma cauda de Escorpião)