quinta-feira, 11 de junho de 2015

A FLOR E O MORCEGO



11 de junho   Diário Incontínuo

A FLOR E O MORCEGO

Elmar Carvalho

Assistindo a um documentário através da Netflix, tomei conhecimento de que uma espécie de morcego se alimenta do néctar das flores de um cactáceo imenso, algo como um mandacaru ituense, porém natural de certo deserto. A flor, muito bela, tinha a brancura imaculada de um lírio de um poema simbolista. Depois, fiquei sabendo que existem os morcegos beija-flores, que beijam outras flores. Por associação de ideias lembrei-me do título de um poema de Carlos Drummond de Andrade – A flor e a náusea. 

A náusea, evidentemente, seria o morcego, que, para alguns delicados, poderia ser nauseabundo. Igualmente me lembrei de um título cinematográfico: A bela e a fera. Contudo, não posso deixar de reconhecer que existem belas mulheres que se apaixonaram por homens bastante feios, para dizer o mínimo, verdadeiros Quasímodos ou Vulcanos. De qualquer sorte, vejo poesia, arte e beleza nesses contrastes entre o belo e o feio.

Não pude deixar de fazer o contraste entre uma linda flor, sendo cortejada e afagada por um belo e elegante beija-flor, e outra, sendo bafejada e assediada por um morcego, que sequer é um pássaro, mas um mamífero, como todos sabem. Temos antológicos poemas que cantam as flores e os beija-flores, em magníficos versos recheados de agradáveis, belas e sonoras palavras.

As fotografias e as pinturas também mostram toda a formosura e encantamento das flores e dos colibris, que ficam a adejar graciosamente em torno de suas vegetais namoradas, enquanto lhes sugam delicadamente o pólen, contribuindo para a fertilização da natureza. Beleza e perfume parecem evolar dessas ilustrações.

Os morcegos, contudo, são associados a fatos aziagos e mesmo demoníacos. Em minha infância, vi um livro religioso, com desenhos terríveis, que me causaram assombro. Um demônio, com asas semelhantes às de um morcego, era esmagado pelo arcanjo Miguel. Também esses mamíferos voadores são tidos como servos de vampiros, inclusive do famigerado conde Drácula. Alguns sugam sangue, donde talvez lhes tenham atribuído a suposta ligação a esses seres maléficos.

Até as flores têm as suas diferenças, inclusive quanto à destinação. Umas são simples, despojadas, quase sem perfume, ao passo que outras são suntuosas, ostensivas em suas cores e formas, e exalam forte e agradável perfume. Em pesquisa na internet vi que o cantor e compositor Bob Marley teria escrito que “nem todas as flores têm a mesma sorte, umas enfeitam a vida e outras enfeitam a morte”. A metáfora, embora bonita e verdadeira, não é original, e o poeta Belmiro Braga também a expressou numa de suas trovas.

Os morcegos são vistos como seres feios e repulsivos. Muitos os consideram agoureiros. São expulsos das casas de forma sistemática. Ninguém lhes deseja a aproximação, muitos menos a convivência sob o mesmo teto. O poeta Augusto dos Anjos, que cantou o horrendo e a podridão de forma magnífica, em versos que vão ficar ressoando pela eternidade, também os fustigou de forma implacável: “Pego de um pau. Esforços faço. Chego / A tocá-lo. Minh'alma se concentra. / Que ventre produziu tão feio parto?!”


A Bíblia, entretanto, em sua sabedoria nos adverte para que não repudiemos nenhuma criatura, nem as que rastejam sobre o solo, nem as que cortam os ares na amplidão. Todas são obras de Deus. E todas têm a sua beleza e utilidade.   

quarta-feira, 10 de junho de 2015

NOITES DE DOMINGO



NOITES DE DOMINGO

Antonio Reinaldo Soares Filho
Escritor, historiador e geólogo

           
As noites de domingo de antigamente reservavam momentos inebriantes a partir do cair da tarde em Oeiras. Tão logo as sombras dos morros do poente alcançavam toda cidadela, as famílias que ainda resistiam em ficar dentro de casa, saíam para se sentar nas calçadas. Quem residia de frente ao poente, a princípio se posicionavam um pouco distante do seu frontispício, fugindo do calor ali acumulado. Com o entrar da noite, a temperatura se dissipando, os vizinhos ocupavam as calçadas, em conversas fraternais, reafirmando laços de amizade e compadrio. Os solitários ficavam sentados nas suas calçadas a ouvir os noticiários da Voz da América, a BBC de Londres transmitindo em português, o jornal O Globo no Ar e da Hora do Brasil, através de um rádio portátil de pilha transistone da Philco. Mesmo nos verões as noites eram de temperatura agradáveis, não exista o asfalto, o chão era descoberto.

Os moços, após passarem grande parte do tempo avaliando-se no espelho, seguiam para o Passeio Leônidas Melo. Antes, costumeiramente, faziam parada pelos balaústres ou pelo bar Ponto Chique em frente ao Palácio dos Bispos.

Na Catedral de Nossa Senhora da Vitória o Bispo Diocesano Dom Edilberto Dinkelborg celebrava a solene missa dominical das sete da noite, frequentada pelas famílias cristãs da cidade. Ao final, as donzelinhas e os casais de espírito jovem se dirigiam para o Passeio Leônidas Melo, a fim de observar o movimento ou encontrar os amigos em uma mesa do Café Oeiras.



(Foto 51) Jovens aguardando nas mesas do Café Oeiras o início de um réveillon no Oeiras Clube. Foto gentilmente cedida por Maria de Fátima Nunes Ferreira de Carvalho.



O Café Oeiras pelo seu estilo refinado, sempre irradiou uma áurea de glamour e transmite uma sensação de bem estar aos seus frequentadores. Suas mesas, restritas ao seu interior, posto que a praça era ocupada pela juventude a desfilar, sempre foram concorridas.

Wagner encerrava a primeira sessão do filme exibido em vesperal, completando os frequentadores daquele pequeno e acolhedor espaço. E, na praça, a mocidade era a razão da existência de todo aquele movimento. A cena se repetia. As mocinhas a caminhar de braços dados em volta da praça em um sentido e os rapazes de modo contrário. Alguns mais tímidos ficavam encostados nos postes de iluminação ou sentados nos seus poucos bancos. Outros preferiam apoiar-se nas grades de madeira da Associação. Cada um procurando a seu modo exibir-se. Moças e rapazes exercitando a arte da sedução. Quando a corte se dava normalmente, em plena praça era realizada a abordagem, “uma encostada”. E só os homens tomavam a iniciativa. As garotas mais ousadas, quando muito, insistiam na troca indiscreta de olhares. Difícil para o candidato era munir-se de coragem suficiente para inverter a caminhada em plena praça e dirigir-se à pretendida, fazer sua declaração de amor e propor o namoro. Nessa hora, as amigas, sabedoras do sentimento da moça, adiantavam o passo e separando se afastavam. Ficavam então os dois a conversar, mantendo a caminhada, repetindo a mesma trajetória com o moço soltando o verbo. Tudo se confirmando partia-se para a “muralha do amor”. O local, formado por encantadores balaústres, separa a Praça da Bandeira do Passeio Leônidas Melo, naqueles dias, naquele horário, era ocupado pelos casais de namorados. Eita felicidade. Mas, quase sempre a jovenzinha solicitava um tempo para dar a resposta, mesmo que desejasse ardorosamente dizer sim. Na verdade, era apenas um artifício para se valorizar, fazer difícil. Aquele ato compunha o ritual da corte. Como a impaciência é companheira da pouca idade, inquiria-se com a maior brevidade uma resposta.

Ali, muitos sonharam ser galã.

Muitas respeitáveis senhoras de hoje reinaram temporariamente absolutas, na posse de suas belezas radiantes a desabrochar. E como era disputada a corte quando uma delas se encontrava em evidência e desimpedida. Menina-moça sem ter tido ainda pretendente, na pujança de toda a formosura que a juventude proporciona ao corpo de uma adolescente, com todos os hormônios transpirando pelos poros. Menina que nem sempre foi bela e, de repente, desabrochando numa linda mulher, sensual e escultural, a desfilar airosamente sua beleza.

A cada encontro, o magnetismo da troca de olhares rápidos, quase sempre furtivos no início. Os rapazes em grupo disputavam naquele momento a preferência de um flerte.

Flertava-se à vontade, por dias, até meses. Aquela troca de olhares, mutuamente correspondida, gerava comentários de possibilidade de um futuro namoro. Era o bastante para a mãe da moça tomar conhecimento daquele prelúdio de aproximação. Se o relacionamento fosse questionado pelos pais que carregavam desejos de outra união conveniente, vinham às proibições. Contudo, nada impedia quando o sentimento era forte e a moça se opunha em romper a corte. Partiam para o namoro às escondidas, no escurinho do cinema, por trás do cine, do parque infantil ou noutro lugar onde a iluminação fosse precária. Nesse contexto havia sempre uma amiga da namorada, que arranjava os encontros, se posicionando ao longe, vigiando, para alertar a aproximação de algum fuxiqueiro, enquanto o casal se encontrava entretido. Quando eles decidiam se unir, fugiam para a cidade vizinha e por lá se casavam. Dizia-se fulano roubou sicrana. Havia muito preconceito infundado e poucas justificativas. Tudo tinha uma dose de fascínio e romantismo encantador.

Naquele Passeio todos procuravam estrear ou exibir sua melhor roupa. Um gosto refinado significava vestir uma camisa esporte das etiquetas Taylor, McGregor ou Torre. O sonho era estrear uma camisa esporte ban-lon modelo rendanil (malha) de preferência das cores vermelha e branca, com um sapato saméllo, terra ou motinha e uma legítima calça Far-West de brim coringa da alpargatas ou uma impossível Lee americana (Ao tempo surgiram as U.S. Top) - era se sentir um astro. Perfumados pela fragrância de Lancaster e brilhantina “suspiro de granada” eles marcavam territórios.

Foi tempo de ouvir os novos sons da Jovem Guarda; Erasmo liderando a banda The Snakes, sentado à beira do caminho e Roberto mandando tudo para o inferno, reinando no iê-iê-iê. Os Golden Boys com alguém na multidão. Trio Esperança embalava a festa do Bolinha. Sergio Murilo e um brotinho legal. George Freedman cantando coisinha estúpida. Wanderley Cardoso era o bom rapaz. Eduardo Araújo o bom. Tony Campelo e Celi Campelo, Renato & Seus Blue Caps desde 58. Leno e Lilian, Ronnie Von, Wilson Miranda, Demétrius, Ronnie Cord, Sergio Reis, Martinha. Silvinha, Paulo Sérgio, Antônio Marcos, Vanusa, Jerry Adriani, Rosemary, Albert e Meire Pavão, Valdirene, Rita Pavone, Ed Carlos e Katia Cilene, Trini Lopes... Na faixa internacional ouvíamos Elvis Presley cantando Tutti Frutti; Bill Halley empolgou com Rock Around the Clock; os Beatles com a inesquecível Yesterday, Mireille Mathieu, Charles Aznavour com La Bohème e Ne Me Quitte Pas; Christophe estourava com Aline e Marionettes; Peppino di Capri cantava Roberta, Frank Sinatra, Joan Baez, Petula Clark... Dos Jipes depois a Rural e do Aero Willys "rabo de peixe". Da Simca Chambord vermelha e branca do boêmio Waldik que não fazia falta na região.

No universo da vaidade feminina dos anos 60 a minissaia reinou absoluta no Passeio. Um vestido tubinho curto de cetim com estampas coloridas, psicodélicas ou geométricas foi um modelo comum. Os cabelos armados com muito laquê complementavam o conjunto – elas tinham um it. À última moda era a linha reta, futurista, geométrica e discretamente erótica. O objetivo era mostrar o que suas mães esconderam com as saias plissadas no meio da canela. O Brasil começava a perder o seu jeito inocente. Na década de setenta as moças, acompanhando as tendências, resolveram mostrar parte do cobiçado corpo feminino agora aparecendo desnudado, no entanto, vulgarizaram. As transformações passaram a acontecer em ritmo acelerado. O que perdurara por décadas agora estava se dando a cada novo ano. Se até os anos cinquenta a moda foi comportada, rapidamente as moças aderiram aos movimentos originados nas grandes cidades. A jovem guarda que havia aderido à minissaia foi copiada pelas mocinhas. As saias foram se encurtando mais que nunca, quase sem limites, muito acima do joelho. Diminuíram tanto que alcançou o tamanho do “hot pants”, shortinho que virou mania da época. Garotas de curvas privilegiadas, em mostras pin up dos anos 60... 70..., desfilavam com minissaias e hot pants. Quando decidiram por uma calça comprida, ousaram, a cintura foi rebaixada. Uma beleza aos olhos, os pêlos rebeldes teimando em saltar o cós. Tudo isso deslumbrava, despertava sonhos e desejos ardentes na rapaziada. Quanta feminilidade. Os mais atrevidos avançaram até onde foi permitido.

Quando a praça recebia a visita de uma moça bonita oriunda de outra cidade, todos os moços voltavam seus olhares para a cobiçada, disputando entre si quem seria o primeiro conquistador a levá-la para a muralha do amor. Afinal, “ao vencedor as batatas”.

As ações aconteciam sobre os olhos de todos os frequentadores do ambiente. Tudo aquilo fazia parte do cenário do domingo à noite em Oeiras. O movimento se desenvolvia ainda embalado pelos sons dos boleros de Nelson Gonçalves, Ângela Maria, Núbia Lafaiete, Carlos Galhardo, Lupicínio Rodrigues, Bienvenido Granda, Orlando Dias, Carlos Alberto, Silvinho... Repassados pela radiola do Café Oeiras. Ouvíamos as músicas das nossas tias e pais aderindo ao novo rock-and-roll.  O intervalo das dezenove às vinte e duas horas foi às três horas mais agradáveis e vividas pela juventude daqueles anos.

No tempo da usina velha, nas justas dez horas da noite, o Café Oeiras fechava suas portas e a praça se esvaziava. O final da exibição da segunda sessão do filme representava o último movimento no local. Depois disso, e só em tempos de férias é que alguns moços permaneciam por ali, prolongando uma conversa fiada. Era à hora e a vez dos que sabiam dedilhar as cordas de um violão e dos cantores de repertório refinado e vozes maviosas. Nesses quesitos, Gerardo Queiroz e meu primo Gerson Campos foram os maiorais. Os pontos de partida era o próprio Passeio Leônidas Melo, ou o parque infantil assim como balaústres frente ao Palácio João Nepomuceno. Houve noites em que havia mais de duas serenatas pelas ruas. Quando nenhum deles sabia cantar ou tampouco tocar violão, não se perdia o intento. Uma pequena radiola portátil Sonata Philips GF133 a pilha resolvia a questão. Só não podia faltar um litro de cinzano, São Rafael ou outra bebida alcoólica. E então se passava a atormentar as noites de sonos dos pais de moças bonitas.

Nas convidativas noites enluaradas, após a serenata passar pelas portas de todas as pretendidas, uma parte de seus componentes procuravam o Bar da Evinha, que ficava no bairro da bomba, entre a BR-230 e o muro do cemitério. Por lá se saboreava uma bem temperada panelada ou uma mão de vaca, acompanhada por uma última cerveja.

O dia seguinte era uma segunda feira. Nossos pais dormiam tranquilos. Os grandes males que assolam e flagelam a humanidade de hoje não faziam parte daquele tempo.

 Quantas noites felizes.     

quinta-feira, 4 de junho de 2015

REVISITANDO A VELHA CASA (II)


Didi, apoiado em sua Belina Cascavel, ao lado de Fátima Carvalho

28 de maio   Diário Incontínuo

REVISITANDO A VELHA CASA (II)

Elmar Carvalho

Na visita à velha casa fiz contato com o Batista e o Didi. O Batista era um dos bons vizinhos de que já falei. O Didi era uma espécie de “faz-tudo” ou pau para toda obra, que, brincando, chamávamos de “Bombril”, porque, como essa lã de aço na propaganda, tinha mil e uma utilidades. Fazia pequenos serviços de eletricidade, de encanador, de pedreiro, de marcenaria e o que mais surgisse.

Por conseguinte, era um homem de sete instrumentos, como se diz. Não vou dizer que fosse exímio ou um mestre em todas essas atividades (e nem isso lhe poderia ser exigido), mas quebrava um galho muito bem. Portanto, jamais poderia ser considerado um “mela-mão”, uma vez que ele fazia corretamente os serviços que se metia a fazer. Era um valente e valoroso polivalente.

Quando fui morar no residencial Memorare, em meados dos anos 1980, o Didi ainda era um rapazote. Acompanhou o crescimento de nossos filhos. Tinha acesso a nossas casas. E nunca ninguém ouviu falar do menor ato que o desabonasse. Ao contrário, sempre mereceu o nosso respeito e consideração, porque a recíproca era verdadeira, na mesma intensidade ou até mais.

Nessa casa, talvez eu tenha logrado minhas mais importantes conquistas intelectuais e literárias, ao longo dos 25 anos em que nela morei, até me mudar para minha atual residência. Ali escrevi muitos dos poemas que me são mais caros. Concluí o meu curso de Direito na Universidade Federal do Piauí, e fui aprovado no exame da OAB-PI, embora nunca tenha exercido a advocacia, uma vez que o cargo de fiscal da SUNAB era incompatível com essa atividade. Obtive aprovação no concurso para juiz de Direito, tendo sido empossado no dia 19 de dezembro de 1997.

Durante os anos em que estive sob o seu teto, exerci os cargos de presidente da União Brasileira de Escritores do Piauí (gestão 1988/1990), presidente do Conselho Editorial da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, durante cerca de cinco anos, membro do Conselho Editorial da UFPI, até quando ingressei na magistratura.

Fui eleito para integrar diversas Academias de Letras, entre as quais cito a Parnaibana, a Piripiriense, a Campomaiorense, a do Vale do Longá, a da Magistratura, a Maçônica, a de Floriano e a Piauiense (APL). Deixei de citar a do Médio Parnaíba, porque já morava em minha casa atual quando nela fui admitido. Tornei-me sócio correspondente do Instituto Histórico de Oeiras e do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro.

Ao adentrar a velha casa, senti forte comoção, ao recordar as alegrias e também tristezas que nela senti; a vida, como todos sabemos, é composta de vários sentimentos, alguns contraditórios. Nela recebi alguns amigos em reuniões festivas ou de simples congraçamento. Conosco, em períodos diversos, durante vários meses ou mesmo anos, moraram irmãos meus e parentes da Fátima. Em 1986 e em 1988 nasceram o João Miguel e a Elmara Cristina, o primeiro na Maternidade Evangelina Rosa e a segunda na Clínica e Maternidade Santa Fé.

Durante esse tempo, formei a minha biblioteca. Muitos livros que tive se perderam com mudanças, goteiras e também as implacáveis traças e cupins. Quando me mudei para o meu atual endereço, por absoluta falta de espaço, doei para particulares e para a Biblioteca Pública de Campo Maior cerca de mil exemplares. Conservei os mais raros, os reservados para consulta e os que me são mais preciosos, e que ainda pretendo reler ou ao menos folhear.

São amigos que desejo permaneçam comigo até eu me dar por velho, quando os doarei para outra biblioteca pública. Meu filho João Miguel me herdou o gosto pela leitura, mas só lê os livros que ele próprio adquire, de acordo com o seu interesse e gosto pessoal, de modo que não lhe legarei meus sábios e queridos alfarrábios.

Vi o quintal, o cajueiro, os acréscimos ou benfeitorias que fiz, inclusive a suíte sobre o térreo, em cujo compartimento contíguo instalei parte dos meus livros. Emocionei-me ao ver as estantes vazias, os cômodos desabitados, desguarnecidos de móveis e silenciosos. Recordei-me do soneto Visita à casa paterna, de Luís Guimarães Jr. E não pude deixar de me lembrar de meus próprios versos, evocativos de outra casa, entre as várias que habitei, mas que talvez só tenha existido efetivamente em minha saudade:

“Ai, casa dolorosa / de infinitas recordações / do não acontecido e /do não vivido. / Casa que não existiu / mas que permanece de pé / em minha lembrança (...) A casa sempre persistirá / nas músicas passionais de algum boteco / criando ressonâncias que repercutem / insistentemente como eco.”     

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Sacerdotes pastores, e não políticos


Sacerdotes pastores, e não políticos

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

  
            O petista Padre Walmir, vice-prefeito e secretário de Educação de Picos, substitui o prefeito Kléber Eulálio, eleito conselheiro do Tribunal de Contas do Piauí. Manobras pouco éticas e discutidos méritos circulam nos labirintos das políticas deste mundo. Quando se trata do ministério sagrado, a História sempre provou que o reino dos céus não combina com o reino deste mundo: “Dai a César o que é de César; a Deus o que é de Deus”. Mais danoso quando sacerdotes se metem em política de esquerda socialista-marxista.

         Em 1846, o Papa Pio IX chamava a atenção dos fiéis para a “execrável doutrina do partido comunista e socialista”, que proclamava a revolução do proletariado e negava Deus. Em 1891, o Papa Leão XIII repetia a mesma advertência, na encíclica Rerum Novarum, sobre os “sistemas perversos do socialismo e comunismo”. Em 1937, Papa Pio XI considerava marxismo “o novo evangelho do bolchevismo ateu”.

         Depois do Concílio Vaticano II, que promoveu bocado de aberturas na interpretação da doutrina cristã, eclodiu uma onda de sacerdotes e freiras arredios a valores tradicionais da Igreja Católica. Além da batina, questionavam a obrigatoriedade do celibato e das regras de mosteiros e dioceses. Na Holanda, milhares de membros do clero debandaram para o mundo. Outros, mundo afora, permaneceram, porém inebriados de doutrinas marxistas como bandeira de evangelização. Imensos mosteiros, conventos e seminários esvaziaram-se, para acomodar projetos hoteleiros, por falta de vocacionados. Mundanismo, política partidária, revolução camponesa, escândalos sexuais e crise de fé incorporavam a biografia de expressiva parcela do clero. Atualmente, já renasce no seio da Igreja mais coerência com o evangelho de Cristo. Graças à participação dos leigos nos encontros de casais e de jovens,  nas atividades litúrgicas, na diaconização, além da administração material da paróquia, a Igreja se renova. Acrescente-se o carisma do Papa Francisco.

         Há necessidade de as autoridades eclesiásticas não se envolverem com o Poder, especialmente o dos últimos anos, cujos presidentes não rezam nem Pai Nosso. Muito ainda se espera de um clero abnegado e entusiasmado com a vocação missionária. Nada de se meter em política partidária, pior, orquestrada por corruptos e bandidos. Conforme o STE, em 2014, 23 padres brasileiros disputaram eleições, contrariando ordens do Vaticano e da CNBB.

         Padre Marcelo Rossi adverte: “Nunca vote em religioso”. Em visita à Guatemala, Papa João Paulo recebeu ministros do governo sandinista, marxista. Um dos ministros, Padre Ernesto Cardenal, aproximou-se para beijar-lhe a mão. O Papa o rejeitou: “Primeiro reconcilie-se com a Igreja”. Padres envolvidos em política quase sempre experimentam escândalos, assassinatos e rejeição dos fiéis. No Ceará, os padres Mororó e Ibiapina foram assassinados. No Piauí, vários denunciados ou cassados por condutas imorais.

         A tarefa política não cabe ao clero, mas a cristãos de boa vontade, com instrumentos da desobediência civil às autoridades que aprovam e afrontam princípios cristãos. Nisto os evangélicos são mais ativos. Padre Walmir e tantos outros membros do clero precisam se paramentar para exercer a vocação a que foram convocados e jurados no altar.      

terça-feira, 2 de junho de 2015

Rio Parnaíba


Rio Parnaíba


Hélio Soares Pereira



Já dez anos...

E tuas águas

transbordando meus olhos



Contemplo

de meus penhascos

e mangueirais

pequenas casas

- taipas de recordações

afogadas nas cheias



Jorra-me

tua lembrança

outra vez

- imagens

de febril espera



Aves rasantes

nos meus sonhos

retornam

E meu ser

perplexo

caminha sobre a fria areia



Olhos ouvidos

linguagem viva

em todos estes anos de ausência



Rio encantado

em meu quintal

num mar de sol

sobre casebres

assombrados

do meu jirau



O rio e a fonte

nesse rodopio

se misturam

beijando o céu

a terra

o mar



Filho da lua

em noites de prata

me ensinando

a pescar   

domingo, 31 de maio de 2015

Insônia


INSÔNIA

Elmar Carvalho

No silêncio abissal
da noite estagnada
a engrenagem pesada
do tempo se desenrola
e desaba sobre mim.

As botas cadenciadas
das horas marcham
- lentas lesmas –
marcham infinitamente
na noite sem fim...   

sábado, 30 de maio de 2015

Agesilau Pereira da Silva

Foto antiga de Campo Maior. Fonte: blog Bitorocara

Agesilau Pereira da Silva

Reginaldo Miranda
Da Academia Piauiense de Letras

Foi um advogado, político, jornalista e agropecuarista brasileiro. Nasceu em 1843, na cidade de Oeiras, então capital da província do Piauí, filho do coronel Raimundo Pereira da Silva(1793 – 1848), abastado fazendeiro, político e militar que destacou-se na luta de repressão à Balaiada no sul do Piauí e Maranhão. Pelo costado paterno era neto do coronel Antônio Pereira da Silva, ouvidor-geral e membro de uma junta governativa do Piauí, e de sua esposa Ana Pulcheria do Monte Serrate Castelo Branco, todos oriundos de velhos troncos familiares do Piauí.
Ainda muito cedo mudou-se para a vila de Valença, onde viveu a sua infância e aprendeu as primeiras letras.
Infelizmente, aos cinco anos de idade perde o pai, que fora assassinado por escravos de uma de suas fazendas.
Não tardou a mudar-se para o Recife, matriculando-se na Faculdade de Direito, onde se encontravam dois irmãos mais velhos, recebendo o grau de bacharel em 1868.
De regresso ao Piauí, fixou residência em Teresina, iniciando-se na advocacia, no jornalismo e na política, filiando-se ao Partido Conservador. Para defender suas ideias fundou, em 1870, juntamente com Antônio Gentil de Sousa Mendes, o jornal A Pátria, que circulou por dois anos. Colaborou em outros periódicos, onde deixou alguns trabalhos esparsos.
Foi nomeado promotor público da comarca de Amarante e procurador da Tesouraria da Fazenda. Em 13 de janeiro de 1874, assume interinamente o cargo de chefe de polícia do Piauí, havendo-se “com inteligência e atividade”, no dizer do presidente da província, até 8 de abril do mesmo ano, quando pediu dispensa para tomar assento na câmara.
Foi eleito deputado geral pelo Piauí, destacando-se na atividade parlamentar.
Publicou Discursos pronunciados na Assembleia Geral, como fruto de sua atividade parlamentar, e Razões, tese defendida na atividade advocatícia, sustentando a responsabilidade civil do Estado do Amazonas pelos danos causados por seus funcionários em caso específico.
Em 1877 foi nomeado presidente da província do Amazonas, tomando posse em 26 de maio e permanecendo até 14 de fevereiro de 1878, por pouco mais de oito meses. Em tão exíguo espaço de tempo não pôde realizar muita coisa. Entretanto, alterou a força da Guarda Policial, aumentando o efetivo para 99 homens, entre estes cinco oficiais, e reformou o Regulamento, consoante a Lei n.º 370/187.
Concluída sua gestão administrativa, o bacharel Agesilau Pereira da Silva retorna ao Piauí, fixando residência na cidade de Campo Maior, onde vive de atividades agropecuárias e tenta retornar, sem sucesso, ao parlamento nacional. Deixou, porém, descendência no Amazonas, entre as quais duas filhas: Rosa Pereira da Silva, que foi casada com Solon Pinheiro, advogado e político cearense radicado em Manaus, onde faleceu em 24.09.1917, deixando cinco filhos; e Maria Adelaide da Silva, esposa do comendador Joaquim Gonçalves de Araújo(Póvoa do Varzim, Portugal, 14.02.1860 – Manaus, 21.03.1940), mais conhecido por J. G. Araújo, líder empresarial com forte atuação no comércio varejista, capitão de indústria, atuando no setor de processamento de borracha e castanha, latifundiário e grande fazendeiro, cidadão benemérito e patrono de causas sociais no Amazonas.
Faleceu o doutor Agesilau Pereira da Silva, vítima de angina pectoris, em abril de 1913, na cidade de Campo Maior, com 70 anos de idade. Deixou de si uma memória honrada.      

quinta-feira, 28 de maio de 2015

MIGUEL ARCÂNGELO (*)


MIGUEL ARCÂNGELO (*)

Itamar Abreu Costa
Médico, poeta e escritor

I

O Médico o recebeu com alegria
Querendo explorar a sua sabedoria
Aquele Senhor lúcido, com sua bengala
Para lhe dar garantia nas sábias passadas.

II

A história com requinte de saudade:
Walmira e Miguel, amigos do passado
Nos correios e telégrafos trabalharam
Noticias, boas, outras tristes informaram.

III

Vida que segue. Agora o filho e o genro
Elmar e Itamar, empunhando a espada
Do desejo de em Campo Maior resgatar.

IV

Sua história, seus casarios, seu passado
Transformar o velho cemitério, em ponto
De cultura. A Serra Azul com turismo avançado.

(*) Obrigado, Dr. Itamar, por essa homenagem a meu pai. (Elmar)

REVISITANDO A VELHA CASA (I)



28 de maio   Diário Incontínuo

REVISITANDO A VELHA CASA (I)

Elmar Carvalho

Ainda nos meus primeiros anos de fiscal da extinta SUNAB, adquiri, no final de 1984 ou início de 1985, uma casa no conjunto residencial Memorare, no bairro de igual nome, a seis quilômetros do centro de Teresina. Na época a Rua Castelo do Piauí ainda era de terra nua, e na época das chuvas havia um trecho alagadiço. Minha rua era muito pequena, e tinha somente cinco casas, todas desse residencial. Era pequena, mas tinha um nome grande; chamava-se Dr. Alboíno Alves de Meneses. Era apenas, na verdade, um beco, do tamanho de um quarteirão.

 Para o lado esquerdo havia um enorme terreno, dentro do qual havia a casa do morador e vigia, e um campo de futebol, no qual nunca joguei. Na frente, existia outro terreno baldio, onde posteriormente, no governo Freitas Neto, foi construído o Escolão Professor James Azevedo. Cada casa do conjunto tinha a fachada com leves diferenças, inclusive quanto à cor. Todas tinham uma varanda e uma mureta na parte frontal. Depois, todas foram reformadas pelos proprietários, e a mureta alteada, de modo a se transformar em muro.

Antes da reforma e da construção do colégio, de seu alpendre eu gostava de contemplar as árvores do terreno baldio e a pequena e exuberante floresta do convento Memorare, das irmãs Catarina de Sena, que administravam o tradicional Colégio das Irmãs, situado na Avenida Frei Serafim, no qual estudaram meus filhos. Desse meu posto de observação eu via as torres gêmeas da bela igreja de N. S. da Vitória, surgindo por detrás das folhagens e do outeiro, sobre o qual fora construído o lindo convento que lhe ficava contíguo, com suas longas e largas varandas.

Do meu alpendre eu via umas bananeiras e umas casas, que escalavam o morro. Ao vento, as grandes folhas tremulavam e me pareciam acenar, como grandes flâmulas de esmeralda farfalhando ao vento. Dali eu contemplava as nuvens e as chuvas. Sentia a natureza e lhe contemplava o belo cenário, pontilhado de intervenções humanas. Escrevi alguns poemas sobre o que eu via. Alguns se perderam, seja por negligência, seja porque não os considerei dignos de publicação. Mas é certo que os escrevi em momento de emoção e embevecimento.


Fui morar no residencial Memorare no começo de 1985. Tinha 29 anos de idade, e ainda era solteiro. Foi morar comigo meu irmão Antônio José, que permaneceu na casa até o seu casamento. Eram meus vizinhos de rua o Batista Vasconcelos, funcionário da Cepisa, o professor Marcos Augusto Moreira Oliveira, Valter Matão, servidor do Banco do Brasil, e o empresário Francisco Carlos. Todos foram bons vizinhos dos quais não tenho nenhuma queixa. O Marcos já partiu para o reino infinito e o Chico Carlos foi morar em outro bairro. Nossos filhos, muitos nascidos nessa época, foram amigos e nunca houve desavenças entre eles; pelo menos, se houve, delas não guardo lembrança. 

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Fernando di Castro & Fernando Pessoa

Pontapé inicial da construção da piscina: a imaginação do chargista Fernando di Castro e o sonho do poeta Elmar Carvalho

"Deus quer, o homem sonha e a obra nasce."


Fernando Pessoa

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Posse de Dom Juarez no IHGPI

C O N V I T E

O presidente do Instituto Histórico e Geográfico Piauiense (IHGPI), convida para a palestra de ingresso do sócio D. Juarez Sousa da Silva, bispo de Oeiras, sob o título “A criação do bispado do Piauí”, a ter lugar no auditório Monsenhor Mateus, Centro Pastoral Paulo VI, s. av. Frei Serafim, nº 3200, nesta Capital, dia 28 de maio, às 19 horas. No aguardo.

Antonio Fonseca dos Santos Neto
Presidente

domingo, 24 de maio de 2015

Seleta Piauiense - Ovídio Saraiva


SONETO XLIII

Ovídio Saraiva (1787 – 1852)

Eis o templo de Amor: Amor se assenta
Num rubro trono; nos degraus sangrentos
Sobre mil corações, já sem alentos.
Seu tirano poder de bronze ostenta.

Magro ciúme rábido atormenta
Vivas entranhas com fatais tormentos;
A suspeita infernal, surda a lamentos,
Males, e males mais cruéis inventa.

De sangue rios mil cortam o Templo,
São mais os ais, são mais gemidos, brados,
Que as areias do mar, do Céu que estrelas.

Oh! feliz, Inocência, eu te contemplo:
Mísero amante, vê aqui teus fados;
Eis o templo de Amor, do Deus, que anelas.

Fonte: portal Poetas do Piauí

quinta-feira, 21 de maio de 2015

CELSO BARROS – TEMPO E MEMÓRIAS POLÍTICAS



21 de maio   Diário Incontínuo

CELSO BARROS – TEMPO E MEMÓRIAS POLÍTICAS

Elmar Carvalho

Não pude comparecer à solenidade de lançamento do livro Política – Tempo e Memória, da autoria de Celso Barros Coelho, ocorrida no dia 8 de maio, a partir das 19:30 horas, como muito gostaria, em virtude de que na mesma data e horário foi lançado o meu livro Confissões de um juiz, em Parnaíba, em evento organizado pelo SESC-PI, ao qual sou grato. Soube, no entanto, que foi uma grandiosa festa literária, abrilhantada pelos discursos do autor da obra, do jornalista e escritor Zózimo Tavares e do empresário e ex-deputado federal Jesus Elias Tajra. Os dois últimos fizeram a apresentação e o prefácio, que ornam e enriquecem essas notáveis memórias.

Conheço o Dr. Celso desde o meado da década de 1980, quando eu exercia o cargo de fiscal da extinta Sunab, que funcionava no prédio da Delegacia do Ministério da Fazenda, e, portanto, ficava perto de seu escritório, que na época era instalado em prédio situado na rua Álvaro Mendes, por detrás das Lojas Pernambucanas. Depois amiudamos nossa amizade e convivência, quando passei a integrar os quadros da Academia Piauiense de Letras, a partir do dia 19 de novembro de 2008. Foi ele quem nela me recebeu com belíssimo discurso, enfeixado no opúsculo A casa no tempo, de nossa autoria, minha e dele.

Em 19 de maio de 2006, na mesma solenidade em que recebi o honroso título de Cidadão Parnaibano, através de projeto de autoria do vereador João Batista Veras, então presidente da Augusta Câmara Municipal de Parnaíba, lancei o meu livro Lira dos Cinqüentanos, comemorativo, como o nome indica, de meu meio século de vida, cujo discurso de apresentação foi proferido por Celso Barros Coelho, a meu ver o maior orador vivo e o melhor que já conheci, em todos os aspectos, inclusive, voz, entonação, postura e conteúdo. Infelizmente, essa cintilante peça da retórica literária piauiense terminou se perdendo no meio dos papéis de seu autor, o que até hoje lastimo. Almejo que algum dia ela venha a ser encontrada, e assim possa ser publicada.

Ao retornar de Parnaíba, logo na segunda-feira, dia 11, pela manhã, tratei de ir ao escritório do Dr. Celso para adquirir o seu livro. Portanto, no corrente ano, já foram entregues ao público piauiense três livros de memórias: o dele, o do romancista, contista e advogado Ribamar Garcia, titulado “E depois, o trem”, e o deste cronista. Sem a menor sombra de dúvida, os dois primeiros são obras da mais alta relevância literária, e podem ser colocados entre os melhores desse gênero.

Política – Tempo e Memória, além de narrar os principais fatos e atos de sua rica trajetória política, também termina por expor outros episódios notáveis ou interessantes de sua vida, alguns remontando à sua meninice e juventude. Além de ter muito que contar, soube fazê-lo em diamantino e lapidar estilo, de frases elegantes, contudo concisas e claras, em que a beleza muitas vezes se reveste de genuína simplicidade.

O livro me revelou o que eu já aquilatava de sua personalidade, através de nossas conversas e da leitura de outros textos de sua lavra. Transparecem em suas páginas a ética e a cidadania do memorialista. Mesmo diante de perseguições e percalços, manteve a sua coerência e os seus princípios morais, sem se curvar às injunções circunstanciais da baixa política e sem lançar mão de oportunismos, que o momento ditatorial poderia ensejar ou suscitar.

Eventualmente traído por correligionários e “amigos”, que fraquejaram nos primeiros acenos da adversidade, optou por não conspurcar o seu mandato de deputado estadual, preferindo vê-lo cassado no dia 8 de maio de 1964, a ver manchada a sua biografia de homem público e de cidadão. Preferiu manter-se fiel a si mesmo e ao seu ideário de democracia e de liberdade, e à sua opção pelos mais pobres e mais humildes.

Em seus dois mandatos de deputado federal, que veio a exercer, participou de várias e importantes comissões, sobretudo as que tratavam de assuntos jurídicos e culturais. Teve a oportunidade de prestar relevantes serviços à legislação pátria, na condição de relator de importantes projetos, que se converteram em paradigmáticos diplomas legais, que lhe imortalizaram como jurista e legislador. Mesmo não tendo sido parlamentar constituinte, prestou notável contribuição à Constituição Federal de 1988, através de participação nos debates de convocação da Constituinte.

Em suas memórias, elucida e ilumina fatos e atos (e até mesmo omissões), da história do Piauí, sobretudo do início da década de 1960 a esta parte. Conquanto de forma sintética, delineia os perfis de importantes figuras políticas do Brasil e do nosso estado, registrando-lhes não apenas fatos e dados biográficos, mas traçando-lhes o retrato espiritual, fixando-lhes as ideias e virtudes, e eventualmente as fraquezas, ainda que circunstanciais ou momentâneas. Alguns desses perfis são antológicos, pela emoção e pela beleza que transmitem, pela captação do momento solar dessas personalidades.

Celso Barros Coelho poderia ter mantido o seu mandato de deputado estadual, injustamente cassado pela ditadura militar. Acenaram-lhe com essa possibilidade. Mas, como dito, ele preferiu não corromper o seu mandato. Optou por ser um legítimo "ficha limpa", guardião da democracia, da liberdade e da cidadania. Não vendeu os correligionários, e nem tampouco se vendeu. Não expôs o seu mandato, que lhe foi outorgado pelo povo, em balcões de negócios espúrios.

Teve a “loucura” de se manter fiel a si mesmo e a seu ideário político e humanista. Buscou a grandeza da Política com P maiúsculo, e não as bijuterias, benesses e ouropéis da politicanalhice, sabedor, como o poeta Fernando Pessoa, de que “Sem a loucura que é o homem / Mais que a besta sadia, / Cadáver adiado que procria?”   

terça-feira, 19 de maio de 2015

Lançamento de livros na APL


A Academia Piauiense de Letras tem o prazer de convidar V. Exa. e distinta família para o lançamento dos seguintes livros: Da Terra Simples, nº 24 – 2ª edição, de Álvaro Ferreira; À Toa – Aspectos Piauienses, nº 26 – 2ª edição, de João Pinheiro, e Estudos Piauienses, nº 42 – 2ª edição, de Agenor Augusto de Miranda, todos da Coleção Centenário.


Nelson Nery Costa
Presidente



Data: 23 de maio de 2015
Horário: 10hs9h 30
Local: Sede da Academia Piauiense de Letras (Auditório Acad. Wilson de Andrade Brandão)
Av. Miguel Rosa, 3300/S – Fone/ Fax :(86)  3221 1566–   CEP.: 64001-490  –  Teresina-PI   

Engajados, alienados, ludibriados


Engajados, alienados, ludibriados

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

             A canção de Chico Buarque, crítico da ditadura militar, parece se repetir nas atuais circunstâncias que apavoram a população: “A gente vai contra a corrente/ até não poder resistir/ Na volta do barco é que sente/ o quanto deixou de cumprir”. Bem que a geração atual se engajasse em heroica luta contra políticos que ludibriam cidadãos. Discursos para engabelar a população sem consciência crítica, com mixurucas promessas e bolsas de sobrevivência, miséria e alienação.

         A empulhação virou pasta de governo: na hora de negociar reajustes de salários, bota a culpa na Lei de Responsabilidade Fiscal. Paradoxal e cretinamente, multiplica cargos de confiança e secretarias para acomodar gentilezas políticas. Ademais, governador dobra próprio salário, confortado, às expensas do erário público até para assepsiar-se no banheiro.  Na virada do ano, deputados sentaram-se gulosos nos custos de gabinete. A política da retórica esfarrapada de disfarce e interesses pessoais. Deputado Robert Rios, acostumado a petardos de ocasião, declarou à coluna EM TEMPO, do Diário do Povo, a propósito da farra de dinheiro  que o governo do Piauí gastará com a convocação de suplentes de deputados: “O que se gasta com esses suplentes daria para pagar salários a 1.500 soldados”.

         Na época de ouro da rádio AM, Deoclécio Dantas, da Pioneira, esculachava a malandragem política. Encerrava sempre a amalaguetada crítica com um soco na mesa, dirigindo-se ao controlador de som com memorável bordão: “É uma lástima, Chico Paulo”. Outro jornalista, Donnizeti Adalto, anos 90 da modernidade televisa, bombardeava a sujeira moral da elite: “Morro e não vejo tudo!” Foi assassinado pela verborreia e discutida ética profissional. O certo é que, daqueles anos para cá, outro bordão foi plantado por palhaço cearense, Tiririca, em campanha eleitoral para deputado federal de São Paulo: “Do jeito que está, pior não fica”. Pior é que ficou, porque se elegem políticos com certificado de palhaço e malandragem.

          A Rádio CBN informa que o Brasil se encontra atrás de 60 países no desempenho da Educação. A TV Globo repetiu a notícia. Em primeiríssimos lugares, vários países do Oriente. Exatamente aqueles que não se divertem com dinheiro público, que executam corruptos e traficantes, que investem maciçamente em educação e saúde. Botaram para trás Alemanha, Inglaterra e civilizado norte da Europa. Estados Unidos, tadinho, quase 40 países na frente. Brasil piscando o olho para o Gamão, em última colocação.

         Neste exato momento, nos corredores de hospitais, imundos e fétidos, misturam-se crianças, velhinhos e senhoras prenhes, desesperados, feridos, sangrando, feridas putrefando. Horror que se repete, diariamente, que só catástrofes de Nepal. Neste instante, colégios sem professores e merenda escolar. Cadê o dinheiro que botaram aqui? Gatunos roubaram, tingiram a face de Cristo a bofetadas e espinhos. Ecoa ainda o clamor do poeta da escravidão: “Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus, se é mentira, se é verdade tanto horror perante os céus?!”

         Servidores públicos em greve cobram mais respeito à Educação e Saúde de melhores salários. O governador, que, no passado, ocupava programas sindicais das rádios e protestava frente a bancos e escolas, manda dizer que a Lei de Responsabilidade Fiscal proíbe excesso de gastos. Pelo que se sabe, excesso de gastos e malandragens não constam da pauta dos abnegados e despojados funcionários. Então, quem merece borrachadas policiais? É hora, portanto, de engajamento, de cutucar o poder, repetir a canção: “A gente vai contra a corrente...”