quinta-feira, 14 de maio de 2015

POSSE DO JUIZ SEBASTIÃO FIRMINO NA ALMAPI (Parte III)

O juiz Sebastião Firmino, ladeado por familiares do des. Tomaz Gomes Campelo, entre os quais os filhos Luís Américo e Viriato Campelo


14 de maio   Diário Incontínuo

POSSE DO JUIZ SEBASTIÃO FIRMINO NA ALMAPI (Parte III)

Elmar Carvalho

Dando continuidade a meu discurso, enalteci as qualidades que ornam a personalidade do juiz Sebastião Firmino Lima Filho, e discorri sobre alguns dados de sua biografia, alguns referentes a sua vida pessoal, outros a seu labor na magistratura.

Nasceu em Floriano, a cuja Academia de Letras, tão bem presidida por José Bruno dos Santos, tenho a honra de pertencer. Na Princesa do Sul radicou por várias décadas a professora Josefina Demes, que escreveu uma monumental obra historiográfica sobre essa agradável e bela terra, que me foi ofertada pelo seu sobrinho José Demes. Ausente de seu torrão natal por mais de trinta anos, Sebastião Firmino a ele retornou para exercer a judicatura, até conseguir sua remoção para a Comarca de Teresina.

O novel acadêmico é um homem polivalente, um talento multifacetado, um verdadeiro Proteu, por suas atividades polimorfas. Dessa forma, além de juiz, pratica com invejável maestria o tênis de mesa; é poeta e talentoso cantor; na infância e na adolescência foi um notável jogador de futebol, que chegou ao cúmulo da virtuose ao driblar-se a se próprio.

Na prática pebolista era um verdadeiro coringa, um legítimo homem de sete instrumentos, pois poderia atuar em todas as posições, e se o desejasse bateria o escanteio, cabecearia para o gol, e ainda se travestiria de goleiro para executar cinematográfica defesa.

Todavia, não há negar, sua maior qualidade esportiva é alcançada na prática do tênis de mesa. Notável mesatenista, já abiscoitou várias medalhas e troféus nos diversos torneios e campeonatos de que participou. Sua habilidade nessa modalidade esportiva é tão grande, que provocaria tonturas e torcicolos no espectador que tentasse acompanhar de perto as suas jogadas, mais semelhantes a prestidigitações de habilidoso mágico.

Como prova do que afirmo, o colega Edison Rogério me encaminhou e-mail, no qual me informava que Sebastião Firmino conquistara uma vistosa medalha de prata na mais recente versão dos Jogos Nacionais da Magistratura. Já antes o magistrado ER me havia sugerido que não deixasse de abordar, em meu discurso de recepção, as várias facetas e peripécias artísticas, esportivas e culturais do nosso mais novo imortal.

Julgo oportuno transcrever o seguinte trecho de um poema de sua autoria: “A bola vai / A bola vem / Belas jogadas também / É o tênis de mesa / Que vai andando tão bem.” Naturalmente “vai andando tão bem”, mas para ele, carrasco imperdoável de seus adversários. Nos referidos Jogos Nacionais venceu doze partidas, perdendo apenas a última, a de número 13, acho que apenas por causa desse número, que certamente lhe é aziago.

Na condição de poeta, sua temática é variada. Em seus versos exaltou as virtudes de sua mãe, e a beleza do esporte, da amizade, das mulheres e da natureza. A paisagem arquitetônica e natural do Piauí foi por ele enaltecida, mormente quando cantou os encantos de Floriano, Oeiras e Piracuruca. No poema relativo ao último município, fez referências a este cronista e ao desembargador Luiz Gonzaga Brandão de Carvalho, presidente e idealizador de nosso sodalício.

Entre as várias comarcas em que Sebastião Firmino atuou, destaca-se a de Oeiras, na qual ele foi titular do Juizado Especial Cível e Criminal – JECC, tendo sido sucedido pelo magistrado João Bittencourt, de quem fui sucessor. Sempre que ele me encontrava, sabedor de minha ligação afetiva e cultural a Oeiras, me estimulava a concorrer a uma vaga nessa comarca, quando surgisse a oportunidade, o que terminou acontecendo. Aliás, encerrei a minha carreira como titular do JECC da velhacap, para honra e gáudio meu.

No fórum dessa comarca, o juiz e meu amigo Edison Rogério mandou afixar um bonito banner, no qual se encontra estampado o meu poema Noturno de Oeiras, que caiu na graça dos amigos oeirenses. O ER teve ainda a iniciativa, na qualidade de juiz eleitoral, de utilizar trecho desse poema, para aferir se os candidatos objetos de reclamação eram ou não analfabetos. No documentário sobre Kátia Tapety, aparece esse banner sendo lido por sua protagonista, e nele prestou depoimento o nosso magistrado Sebastião Firmino.

O neófito membro de nosso silogeu, seja como poeta, seja como cantor, é um amado amante da beleza e das musas. Suas divas prediletas são Erato, inspiradora da poesia lírica, e Euterpe, divindade mitológica ligada à música. E sob o manto protetor dessas duas deidades, Sebastião nos encanta, com a sua poemática, com o seu talento vocal e com o seu carisma pessoal.       

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Regresso


Regresso

Neide Moscoso

nāo quero me afobar
nem me contrariar
senão perderei
o esmero da sua
chegada
sei que virá
e
sem pressa
reconhecerei o
momento
de ter vindo   

Café Literário homenageia Salgado Maranhão


terça-feira, 12 de maio de 2015

Aldear e Exterminar

Foto meramente ilustrativa

Aldear e Exterminar 

Fonseca Neto

O livro que Reginaldo Miranda nos apresenta neste momento é a segunda edição do seu “Aldeamento dos Acoroás”, originalmente publicado há dez anos. E logo de capa se v. que trata o livro dos chamados índios, forma vocabular esta com a qual se tem designado a população ancestral enfrentada nesta região do orbe desde o início da guerra da colonização europeia.

Lendo esse livro para dizer palavras a vocês sobre ele, e para melhor organizar a própria leitura, fiz perguntas a seu autor, e entre elas, uma que diz respeito ao ato escritor da história, propriamente, portanto atinente ao método de fazê-lo: como e o que escrever sobre um povo que teve a sua existência roubada, sobretudo não deixando herança material, como expecta o cânone historiográfico assentado, e também não deixando a narrativa de sua presença gravada em suporte de escrita? Quais possibilidades, então, de fazê-lo, ante esse vazio? Ou esse vazio seria apenas construção emanada de uma vontade deliberada de ocultamento? E a memória?

Mais duas perguntas fiz – e perguntar não ofende: ao historiador cabe fazer perguntas às coisas que o tempo lavrou e que estão por aí vagando no espaço da materialidade e até nos potenciais ainda infindos do imaterial? E com efeito o historiador “interpreta” as respostas ou cabe-lhe apenas fazer o relatório do que sua vista objetou ou tenha lido no suporte de escrita anterior?

Não tenho e desconfio que não há respostas cabais sobre essas questões. Há, porém, a elaboração historiográfica sobre índios. E o autor deste “Aldeamento” inscreveu-se entre os que partiram em busca de algumas respostas, e seu texto, organizado nestas oitenta páginas, são a narrativa que conosco compartilha do que obteve.

Minhas próprias perguntas a ele foram motivadas por asseverações que – por exemplo –, faz Pierre Nora, num instigante esforço de distinguir “história” e “memória”.

“A história é a reconstrução sempre problemática e incompleta do que não existe mais. A memoria é um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente; a história, uma representação do passado. Porque é efetiva e mágica, a memória não se acomoda a detalhes que a confortam; ela se alimenta de lembranças vagas, telescópicas, globais ou flutuantes, particulares ou simbólicas, sensível a todas as transferências, cenas, censura ou projeções. A história, porque experiência intelectual e laicizante, demanda análise, discurso crítico. A memória instala a lembrança no sagrado, a história a liberta, e a torna sempre prosaica. A memória emerge de um grupo que ela une, o que quer dizer, como Halbwarchs o fez, que há tantas memórias quantos grupos existem, que ela é, por natureza, múltipla e desacelerada, coletiva, plural e individualizada. A história, ao contrário, pertence a todos e a ninguém, o que lhe confere uma vocação para o universal. A memória se enraíza no concreto, no espaço, no gesto, na imagem, no objeto. A história só se liga às continuidades temporais, às evoluções e às relações das coisas. A memória é um absoluto e a história só conhece o relativo.

No coração da história trabalha um criticismo destruidor de memória espontânea. A memória é sempre suspeita para a história, cuja verdadeira missão é destruí-la e a repelir. A história é deslegitimação do passado vivido. No horizonte das cidades de história, nos limites de um mundo completamente historicizado, haveria dessacralização última e definitiva.”

Acoroás: sim, nosso autor os reconhece como um povo que vivia nestas terras desde uns 650 anos antes do início da guerra da colonização que praticamente os suprimiu. É sabido que este espaço hoje geograficamente chamado de “vale do rio Parnaíba”, “vale do rio Tocantins” é habitado há cerca de 500 séculos,  segundo as mais adiantadas datações da equipe liderada por Niède Guidón. Os grupos humanos atacados nesta zona do mundo a partir da segunda metade do século XV – os acoroás um deles –, são parte de um movimento de migrações milenares sobre a face fértil da terra construindo a experiência de viver, de sobreviver.

Pelas balizas de sua busca, Miranda os localiza, já estropiados e já decorridos 150 anos da guerra aberta que contra eles e outros se travara neste vale do rio que chamavam então de Punaré. Cento e cinquenta anos de uma guerra que encontrou a mais eloquente resistência dos atacados, no pleno exercício daquele direito há milênios consagrado: o imperativo da resistência e o direito à insurgência contra a tirania. Ele os localiza num “aldeamento”, à beira de um riacho a que chamarão de Mulato.

Acoroás num aldeamento. Aldeamento que o autor diz que era um “verdadeiro campo de concentração”, portanto, um lugar de “confinamento”, “vigiado por soldados”, condição de recluso que deveria propiciar o roubo, pelo agressor, em primeiro lugar, de sua força de trabalho, ao mesmo tempo, despojar-lhes de sua cultura, do próprio significado de viver; no limite, de sua condição humana, de sua humanidade.

Mas “campo de concentração” não é coisa do tempo de füher do III Reich? Não é coisa do século XX? O autor pode fazer essa comparação? Não era outro o contexto? Claro que pode fazer a comparação e saber se outro o contexto depende das referências de quem está pesquisando e escrevendo.

Há duas semanas, um grupo de manifestantes, declarando-se defensores da causa da vida animal, entraram e livraram do confinamento 172 cachorros, em São Paulo, que estavam tendo sua vida manipulada para fins de pesquisas comerciais com vistas à elaboração de novas mercadorias. A notícia disso – aliás, tímida – causou certo impacto nas razões de muita gente.

Pois vejam estas outras três notícias, as quais foram assim dadas três séculos depois dos acontecimentos narrados, por três conhecidos membros desta Casa de letrados: Odilon Nunes, J. G. Baptista e Joaquim Chaves. Em geral reproduzem os relatos que os próprios matadores fizeram aos seus superiores na ordem legal do tempo.

“Depois de 6 ou 7 dias de marcha através de caatingas e terras agreste, a rastejar o inimigo, os perseguidores surpreendem a tribo espavorida e faminta e após ligeira escaramuça, subjugam-na, jungindo os guerreiros estropiados e decorridos dois dias, sob fútil pretexto, degolam 400 e reduzem à escravidão mulheres e crianças. Era 1º de junho de 1676.

O local da carnificina dos pobres indígenas a 6 ou 7 dias da foz do Salitre, ficava bem longe do rio Gurgueia, todavia, se não na bacia do Parnaíba, pelo menos, bem perto dos tributários do Canindé, especialmente do rio Piauí. Teriam dessa vez ultrapassado o divisor das águas? Provavelmente, como da vez primeira. Quatro meses após, já D. Pedro de Almeida, Governador de Pernambuco, concede as primeiras sesmarias em território piauiense a Domingos Afonso Sertão, Julião Afonso Serra, Francisco Dias de Ávila e Bernardo Pereira Gago, de dez léguas de terras em quadro a cada um, nas margens do Gurgueia. Pediram-nas em Olinda, porque a região ficava na jurisdição de Pernambuco, isto é, nos sertões que se estendem da margem esquerda do São Francisco, em rumo do ocidente”. 

“Daí por diante não houve mais tréguas na luta com o selvagem.
Em 1679, os Tremembés haviam fechado o caminho que ligava o Maranhão ao Ceará, na zona da costa. Faziam mais: matavam os pobres náufragos que, escapando às águas, buscavam salvação e refúgio nas ilhas do delta do Parnaíba. Contra eles foi enviada a expedição de Vital Maciel Parente. Os selvagens foram surpreendidos nalgum ponto da costa, do lado do Piauí, e facilmente desbaratados. Mas o branco civilizado enodoou a vitória com um ato repugnante de selvageria: conseguiu que os índios aliados exterminassem brutalmente as crianças tremembés aprisionadas. É o próprio Governador, Inácio Coelho da Silva, que relata o nefando crime, em carta, para o príncipe regente: ‘Os índios aliados, travando das criancinhas pelos pés, mataram-nas cruelmente, dando-lhes com as cabecinhas pelos troncos das árvores, e de uma maloca, de mais de 300 só escaparam 37 inocentes’.”

“1700 – 400 Paiacus são dizimados por Morais Navarro. O padre João Tavares faz a paz com os Barbados e Tremembés. Alguns índios são aldeados no Itapicum: São Barbados, Guanarés e Aroás. 1713 – Levante geral dos selvagens. Índios indeterminados matam [o mestre de campo Antonio da Cunha] Souto Maior e Tomás Vale... 1716 – Nova luta acontece no Porto das Barcas. [Mandu] Ladino cai no rio e é assassinado por Manoel Peres, soldado. Outra versão dá este fato como acontecido em 1718. Dias de Siqueira liquida os Cariris, na ribeira do Itaim”. 

Importa mais perguntar, no entanto: por que o confinamento dos cachorros de hoje gera mais indignação no coração de muita gente do que o relato dessas vidas roubadas de gueguês e acoroás?

Há quem tenha uma resposta na ponta da língua: “era outra lei e outra ética” e não poderíamos analisar/interpretar esse passado com a “ética” do presente. Esse pensar é uma espécie de “amortecedor” ante os abalos eventualmente produzidos pelos cobros da consciência – trata-se de uma fala embasada numa espécie de furor ideológico dos mais tendentes à conservação, e até dos reacionários, daquele tipo que governa o juízo dos que morrem de amor pela história, mas que se enfurecem quando levanta ela a sua espada em fogo e em sua relatividade vingadora. Digo mais que essa guerra para escravizar índios e se apropriar das terras em que eles viviam não tinha nada de autorizada na lei do tempo – o que havia era uma estrutura iníqua de manipulação do poder, pela ganância do enriquecimento de poucos à custa do trabalho e da vida de muitos. Mas aí de novo se vai redarguir: “mas a escravidão também era normal...”. Qual normalidade? Qualquer manual de história da Europa mostra que em 1772, ano da reclusão dos acoroás, a escravidão naquele território já estava fora da lei. E por que esse é um tempo de grande expansão da hediondez escravista por aqui?

Reginaldo traz evidências da mobilizadora ganância de um desses funcionários da carreira militar que reprimia os índios, rumo às supostas minas de ouro dos goiazes. Ora, para enriquecer, ele passaria por cima, como de fato passou, de  qualquer escrúpulo, lei. Lei? “Ora a lei”.

Nesse sentido, repugnante o extermínio já à época – poderia citar várias leis restritivas atinentes –, lembre-se que a “legitimidade” desses acontecimentos é uma criação historiográfica de escritores que concordam, no próprio tempo em que escreveram, com a “naturalidade”, “justeza”, da guerra desse tempo. Tempo que não existe mais, mas existentes, e insistentes, até como que “naturais”, as estruturas urdidas em leis não revogadas, impedidas de o serem, pela força bruta dos que não querem que a sociedade em seu conjunto alcance o viver justo. Aliás, repita-se, o afirmado acima de que “A história, porque experiência intelectual e laicizante, demanda análise, discurso crítico... A história é deslegitimação do passado vivido...”.

O livro do acadêmico Reginaldo Miranda ilustra para nós a maneira como funcionava esses aldeamentos da segunda metade do século XVIII na América Portuguesa. Tem a vantagem de exprimir um exame com lentes bem próximas do dia-a-dia de um desses “verdadeiros campos de concentração” – bem caracterizados como campos de trabalhos forçados –, assim experiência espantosa, como já dito, de extermínio de uma fração da humanidade, sem conceder-lha nenhum tipo de direito à defesa. Mostra bem o processo de escolha política dos diretores, as regras do confinamento, a “educação”, a agressão da vestimenta. E o autor não alude, mas lembro que certamente das desgraças maiores para os aldeados nessas prisões, tenha sido a obrigação de aprender a moral dos imoralíssimos algozes quanto a ter vergonha de suas vergonhas, naquele sentido do escriba deslumbrado Pero Caminha.

Reginaldo utiliza o termo “indiocídio”; impressiona o dia-a-dia da resistência: na conduta dos confinados, aquela compulsão da liberdade se manifesta em todos os instantes daquela roça-cadeia a céu aberto.

Lido em diálogo com a primeira parte do recém-relançado “São Gonçalo do Amarante”, “Aldeamento dos Acoroás” permite-nos, leitores, e pesquisadores outros de suas pistas, exemplo único em nossa historiografia mais recorrente, local e até brasileira, enxergar, como o projeto de Sebastião de Melo, o Oeiras-Pombal, expresso no Diretório de 3 de maio de 1757, se fez acontecer, no pós-jesuitismo setecentista.

Regeneração é única cidade piauiense que tem seu organismo,  morfológico, institucional, étnico, explicado desde o seu aparecimento. Dependendo de que tipo de cidadão se queira erguer numa criança, por exemplo, essa cidade poderia ensinar o significado de existir numa cidade cuja origem é o que nosso autor – e eu concordo com ele – está chamando de “verdadeiro campo de concentração”.

Muito oportuno o registro, igualmente bem apoiado em fontes, do dia-a-dia do aldeamento, dos atos de corrupção dos funcionários públicos – dir-se-á, funcionários régios – levando índios para casa para servir-lhes como escravos e distribuindo outros por fazendas de apaniguados pela capitania inteira. Isso é assunto daquela época, de imensa atualidade, e prova que, em muitos sentidos, vivemos o contexto das malandragens que aquele tempo engendrou.

Ler esse ensaio despretensioso é desafiar a alma naquilo que consiste uma tarefa de cidadania que os livros de história ousem respaldar – tornar-se um brasileiro indignado e levado à recusa das misérias de sempre.     

segunda-feira, 11 de maio de 2015

CONFISSÕES DE UM JUIZ

Elmar Carvalho, Antônio de Pádua, José Hamilton, Cajubá Neto e Lili Machado



CONFISSÕES DE UM JUIZ (*)

Alcenor Candeira Filho

            No início de 2010 o poeta Elmar Carvalho criou por sugestão de sua filha Elmara o “poetaelmar.blogspot.com.br”.
Ao longo desses cinco anos de existência o blog do poeta vem divulgando textos em prosa e em verso de sua própria lavra e artigos e poemas de intelectuais do Piauí e de outros Estados brasileiros.
           Os textos escritos por Elmar Carvalho e postados na internet fazem parte do que ele chama de “Diário Incontínuo”. Esses trabalhos, se enfeixados em livros, formariam vários volumes.
          Muitos escritores conciliaram a burocracia com a literatura, como Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, para citar apenas três dentre os melhores da literatura brasileira.
          Pois Elmar Carvalho também se realizou profissional e artisticamente usando como instrumento de trabalho a Língua Portuguesa, que tanto serve à literatura como à ciência e à filosofia. Correção, coerência, concisão, objetividade e clareza são virtudes de estilo que não podem ficar ausentes da linguagem filosófica, científica, jornalística, burocrática.
          Tais virtudes devem também caracterizar a expressão literária, que por sua própria natureza comporta o apelo a outros recursos, como a transgressão gramatical em favor do estilo, a incoerência, a conotação, a subjetividade, o hermetismo... Quer dizer, o que vale mesmo no trabalho do escritor é a ampla e irrestrita liberdade de criação estética.
          Já me manifestei por escrito sobre a obra literária de Elmar Carvalho em três momentos, todos revestidos de caráter solene e público: 1994, com o discurso de recepção na posse do poeta na Academia Parnaibana de Letras; 1996, com a apresentação de A ROSA DOS VENTOS GERAIS na noite do  lançamento  em Parnaíba;  2010, com a apresentação de POEMITOS DA PARNAÍBA  no lançamento ocorrido no auditório da APAL.
          Poucos intelectuais piauienses da atualidade possuem  fortuna crítica tão expressiva quanto  a de Elmar,  constituída  por comentários  de  escritores , poetas, ensaístas, professores, magistrados, advogados. De modo que o poeta teria facilmente outras opções para o convite que acabou endereçado a minha pessoa.
          Por que novamente recaiu sobre mim o privilégio de fazer a apresentação de mais uma obra do grande escritor e respeitado juiz?
          Atribuo a escolha a uma amizade de quatro décadas, preservada em elevado grau de respeito, admiração e confiança mútuas, - amizade  jamais   arranhada  por qualquer  desavença,  com cada um se mantendo fiel às  próprias  idéias, várias  convergentes  outras  não.  Se pensássemos sempre de forma idêntica nossa amizade só nos teria trazido prejuízo, porque ficaríamos impedidos de desfrutar do aprendizado recíproco, que só se efetiva plenamente entre pessoas que cultivam sem nenhum preconceito idéias próprias e respeitam as alheias. Além da vocação comum para o serviço público e para a poesia, as afinidades que tanto nos aproximam decorrem também da fidelidade a pensamentos grandes, retilíneos, utópicos às vezes mas sempre  isentos  das  impurezas  do branco.
          CONFISSÕES DE UM JUIZ é um livro de quase duzentas páginas que reúne parte dos textos postados no blog: crônicas, comentários, reminiscências, confissões, reflexões sobre pessoas, bichos e lugares, ou ainda, como assinala o professor Cunha e Silva Filho, “histórias vividas ou inventadas na cidade ou no campo, narradas com limpidez estilística”, e apresenta as seguintes partes: I. “Confissões de um Juiz”; II. “Memórias Afins”; III. “Memórias Afetivas”.
          A obra enfatiza na parte inicial as lembranças do burocrata, sobretudo do julgador, do que tem a responsabilidade superior e constitucional de “atribuir a cada um o que é seu”. Responsabilidade imensa a do juiz, que raramente é reconhecido pelo que faz no desempenho da profissão.
          Vale a pena a leitura das seguintes palavras de Martinho Garcês, transcritas no livro ESCRITOS DE VÁRIO ASSUNTO, de Cristino Castelo Branco, magistrado e escritor piauiense: 

           “Todo homem de mérito no Brasil tem o seu historiador e o seu biógrafo, menos o jurista, seja ele magistrado ou advogado. (...) O jurista nada tem. O juiz que estuda,  consola-se com o juízo que da sua inteligência, probidade e saber possa fazer as partes que perante ele pleiteiam,  e os advogados pagam-se generosamente dos seus esforços com os louvores dos seus constituintes,  quando, por uma questão de ajuste de honorários, eles, depois  de  bem servidos, não se tornam seus inimigos.”

          No livro citado, Cristino Castelo Branco completa o pensamento de Garcês ao tempo em que amplia o rol dos injustiçados,  fazendo    referência  a profissionais de diversas áreas  prejudicados  pela falta de reconhecimento a seus méritos. Só o literato, segundo o texto de Cristino, é capaz de conquistar com facilidade a  notoriedade, a  fama:

           “Salta aos olhos de toda a gente que a literatura amena  rende muito mais para a vaidade humana, para a sede de glória, que o direito,  a medicina, a matemática, qualquer outra ciência.  Pertencer à Academia Brasileira de Letras  é, entre nós, considerado muito mais importante que pertencer   à Academia Nacional de Medicina, ao Instituto dos Advogados, ao Clube de Engenharia. Por que? Segredos da vaidade humana, ou melhor, da futilidade de todos nós.”

          A respeito desses mistérios ou sutilezas da alma humana, capazes de determinar ações e reações que ora engrandecem ora amesquinham o homem,  Elmar Carvalho  conta no livro um fato acontecido durante casual e rápido encontro que teve com a desembargadora Eulália Ribeiro Gonçalves Pinheiro, que, diante de um  ato de cordialidade recebido, reagiu com gesto nobre de simplicidade, simpatia e gentileza, e não com aquele ar  de  superioridade peculiar a algumas  autoridades:
          “Outro dia, quando eu me preparava para sair do elevador, no subsolo, encontrei a desembargadora Eulália Ribeiro Gonçalves Pinheiro.  Cumprimentei-a, e  lhe dei  passagem , mas ela, de maneira lhana, disse:   ‘Não, primeiro os poetas.’ Foi a primeira vez que eu vi a espada da Justiça  se curvar  perante a frágil pena da Poesia.”

         Numa época em que repercutem no país inteiro notícias de que alguns juízes, felizmente a minoria,  se arvoram de “deuses”,  justifica-se  a menção a comportamentos exemplares por parte de magistrados,  como podemos ver em outro episódio, contado na página 40:

          “Certa ocasião,eu me encontrava numa roda de conversa, na varanda de um dos andares do tribunal . Logo depois chegou o desembargador Santana, que, após cumprimentar-nos, disse, dirigindo-se a mim, como costumava fazer: ‘ Como  é que vai, poeta maior?’
          Estava a meu lado outro poeta, cujo nome já não recordo. O vate franziu o cenho, empertigou-se todo, retorceu-se como se estivesse com forte cólica intestinal, e, virando-se para um lado e outro, resmungou/rosnou: ‘É, quer dizer que eu devo ser um poeta menor...’  Sepulcral silêncio acolheu as suas palavras.”

          Destaca-se nas primeiras páginas do livro a revelação, em tom de quase desabafo, feita por quem laborou durante quatro décadas na vida pública e dela teve de se afastar em razão de aposentadoria fundamentada em tempo de serviço mas motivada verdadeiramente  por razões que a própria razão desconhece.
          O juiz Elmar teria ainda outro argumento para justificar a aposentadoria, se esse fosse o seu objetivo: doença grave.
          Mas no fundo o que ele pretendia apesar dos pesares ou principalmente por isso mesmo era continuar servindo ao país como magistrado culto, íntegro, justo, bom. Estava plenamente motivado para o trabalho forense  por mais algum tempo.
          O comovente depoimento de Elmar sobre os fatos e circunstâncias que precipitaram o pedido de aposentadoria aos 58 anos de idade  repercutiu no meio forense e intelectual,  com opiniões postadas na internet  e  comentários inseridos no livro, como estes:

           “A magistratura piauiense e, por extensão, nacional,perde o trabalho cotidiano e diuturno de um dos melhores juízes que conheci em toda a minha  carreira.
           As letras e a poesia agradecem pelo prestimoso tempo que doravante a elas será dedicado com inefável tirocínio. Ou em outra atividade laboral que você  venha   a desempenhar.” (juiz  de  direito Orlando Martins Pinheiro).

           “Não tenho dúvida de que chega à fronteira de fatigante jornada com  a dignidade inteira,  sem  mossas e sem fissuras morais porque, agindo sempre como uma espécie de artesão, exerceu a judicatura como se fosse um apostolado;  restabeleceu patrimônios desperdiçados e recompôs sociedades  conjugais  esfaceladas, sem alienar sentenças ou hipotecar despachos.” (desembargador Valério Chaves)

           “Caro Elmar, da mesma forma com que me emocionei quando li algumas passagens do livro já citado, há poucos   dias  também  me emocionei com a postagem acerca de seu pedido de aposentadoria (...)  Já começo a sentir saudades do brilhante vate do TJPI.” (juiz de direito Antônio Oliveira)

          Os professores/escritores Cunha e Silva Filho, José Maria Vasconcelos e Nelson Rios, dentre outros, também se manifestaram sobre o episódio.
          Na 2ª e 3ª partes do livro, o autor selecionou textos escritos há algum tempo, vários deles complementando e elucidando fatos focalizados na parte inicial.
São belas pelo refinamento estilístico e pela suavidade do lirismo encantador as páginas elegíacas inseridas na 3ª parte, páginas que falam tanto da morte de pessoas quanto da de animais. Em ambos os casos o autor se expressa com formidável equilíbrio emocional, jamais se derramando em sentimentalismo exacerbado, em pieguice.  São textos que brotam d’alma, é verdade, mas ditado sobretudo pela razão.  Lirismo “direcionado mais pela inteligência do que pelo sentimentalismo”, como disse o escritor e crítico literário Fábio Lucas a propósito de A LUTA CORPORAL, de Ferreira Gullar.
           Desejo encerrar minha fala com a seguinte declaração: considero CONFISSÕES DE UM JUIZ, de José Elmar de Melo Carvalho, um dos melhores livros que li nos últimos tempos.
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Discurso de apresentação do livro Confissões de um juiz, pronunciado na solenidade de lançamento em Parnaíba, ocorrida no dia 8 de maio de 2015.   

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Lançamento de "Confissões de um juiz" em Parnaíba



CONVITE

Convidamos o público interessado em literatura para o lançamento do livro Confissões de um juiz, da autoria de Elmar Carvalho.

A obra será apresentada pelo poeta e escritor Alcenor Candeira Filho.

Haverá a apresentação de uma performance com poemas de Elmar Carvalho.

Local: Auditório do SESC /Avenida Presidente Vargas
Data: 8 de maio – sexta-feira
Horário: 19:30 horas

SESC/AVENIDA

POSSE DE SEBASTIÃO FIRMINO NA ALMAPI (Parte II)

Des. Tomaz Gomes Campelo e dona Gracy

7 de maio   Diário Incontínuo

POSSE DE SEBASTIÃO FIRMINO NA ALMAPI (Parte II)

Elmar Carvalho

Na sequência de meu improviso, obedecendo a meu esquema mnemônico, fiz o elogio do antecessor na cadeira acadêmica. Era ele o desembargador Tomaz Gomes Campelo, de quem cultivei a amizade ao longo de mais de 17 anos. Já então era ele aposentado, enquanto eu estava prestes a ingressar na magistratura. Sempre lhe admirei a lhaneza e a fidalguia. Essas qualidades se refletiam em sua sóbria elegância no trajar, e, sobretudo, no trato pessoal e em sua postura correta, mas sem afetação.

Nasceu ele no Dia de Reis, do ano de 1926, na localidade Rodrigo, município de Pedro II. Era exatamente um dia mais novo que meu pai, nascido no dia cinco de janeiro. Faleceu em 14 de abril de 2014. Nesse mês, no já longínquo ano de 1956, nasci, e nele, no dia 26, no ano de 2013, faleceu minha saudosa mãe. Por conseguinte, sou a ele ligado por coincidências de vida e morte.  

Foi corregedor-geral da Justiça. Atingiu o grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito da Sublime Ordem Maçônica, a cujas colunas tenho a honra de também pertencer. Amante das artes e da cultura em geral, cultivava, sobretudo, a literatura, a cujos eventos era assíduo. Participativo, mesmo já em idade provecta, foi presidente da Academia de Letras do Vale do Longá, da qual igualmente sou membro. Outro ponto em comum: éramos sócios da União Brasileira de Escritores do Piauí – UBE-PI, da qual ambos fomos presidentes.

Amigo da Academia Piauiense de Letras, frequentava nossas reuniões ordinárias e solenidades com mais assiduidade que muitos de nossos confrades. Publicou vários artigos e crônicas, versando assuntos memorialísticos, históricos e culturais, cuja seleta seu filho Viriato Campelo deu à estampa após o seu falecimento. Dentre esses textos, o Pedra Serviçal, evocativo e sentimental, foi interpretado teatralmente pelo ator Pellé, na solenidade de lançamento da obra.

O desembargador Tomaz Gomes Campelo parecia trazer entranhada em sua alma toda a graça e louçania de sua bucólica e encantadora Pedro II, de clima ameno, agradável, e por isso mesmo chamada de “a Suíça piauiense”. Trazia na retentiva a beleza vetusta dos históricos solares e amplos casarões, prenhes de mistérios e recordações, um deles pertencente à sua grei.

Neste diário já tive a deixa de enaltecer a bela urbe, emoldurada pelos morros e serranias, que azulam e lhe engalanam à distância. Muitos defendem a tese de que Iracema, a bela e esbelta índia de longas madeixas negras e lábios de mel, teria nascido em Pedro II, já que Alencar dizia que ela nascera além, muito além da serra que se descortinava no horizonte.

Fiz, portanto, o justo elogio de um homem que primou em desbastar a pedra bruta, e que soube se transformar na pedra serviçal de sua elegíaca crônica. E o melhor, na parábola de Cristo, será aquele que melhor servir.                 

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Azuis


Azuis

Neide Moscoso

azuis
são teus olhos
que falam
palavras
solitárias
no fascínio
da cor percebo
uma ternura
fatigada
caminho incerto
sem volta
são azuis
os teus olhos
desamparados
silenciosos
como os meus
castanhos  

terça-feira, 5 de maio de 2015

Insaciável cobiça de poder e consumo


Insaciável cobiça de poder e consumo

José Maria Vasconcelos

            Se se tratasse de mentira ou exagero, eu desligaria imediatamente o rádio do carro ou mudaria de estação. Dois jornalistas comentavam sobre a trajetória da política piauiense, desde décadas atrás, a se perpetuar no poder, de bisavô, avô, netos, bisnetos, filhos, sobrinhos, primos. Uma dinastia a se apropriar de verbas, cargos, envolvimento em mapismo. Exatamente quando eu trafegava em frente ao Palácio do Karnak. Pouco mais adiante, o templo de São Benedito, santo negro franciscano e despojado, a estátua entre duas torres.

         Da minha infância na Piçarra, não me fogem à memória o sagrado hábito de assistir a missa, aos domingos. Meus pais Martinho e Dedé levavam-nos à Igreja de São Raimundo Nonato. À tarde, não podia faltar ao catecismo. Não consigo esquecer os dez mandamentos da Lei de Deus, o paradigma da plena felicidade neste mundo e a certeza do reino eterno. Décimo mandamento: “Não cobiçar as coisas alheias. Nem casa, nem mulher, nem boi...” Sétimo: “Não roubar”. Nono: “Não cometer adultério”. Aposto que poucos saibam recitá-los de cor e exercitá-los onde estiver, inclusive entgre quatro paredes, dissimulando  a vigilância da consciência divina. Escolho o último mandamento, por escancarar perverso cancro que arruína a saúde física e mental de muita gente.

         A cobiça consiste no voraz apetite de enriquecimento e poder, custe o que custar, inclusive puxar o tapete de concorrentes. Cobiça, faro de inveja e aniquilamento do próximo. Sacrifica-se a própria moral, relações familiares, casamento, amizades, por um par de pernas roliças, falcatruas com dinheiro público, desvios de conduta em geral.

         Há vinte séculos, apóstolo Paulo escrevia ao amigo Timóteo: “Os homens que almejam enriquecimento expõem-se a tentações. Caem em armadilhas, diante de toda espécie de desejos.”

         O ambicioso nunca se contenta com o que tem. Cobiça sempre o que outros têm. Esfolam-se para trocar o carro por outro igual ou melhor do amigo, casa, utensílios, até o cônjuge alheio. Frequentam e patrocinam banquetes e eventos vips. Torram cartões de crédito, por inveja, exibicionismo, culto ao social, ao grupo de damas do terço regado mesquinha fé e indomáveis interesses.

         Metas e objetivos incorporam ambições naturais e proporcionam prazer de viver. A cobiça, entretanto, alcança extremos tresloucados, como a de Renê Rocha, cinquentão pobre, diabético, pernas amputadas, preso a uma cadeira de rodas. Sorteado em 52 milhões de reais da mega sena, logo se apaixonou por uma bela garota, 25 anos mais jovem, namoro de duas semanas, casamento de arromba. Dias depois, assassinado. A mulher abocanhou metade da fortuna e a liberdade na Justiça.

         Sedução desvairada por conquistas materiais não traz felicidade plena, só insatisfações, no final. Clínicas entopem-se de pacientes vítimas de estresse, úlceras, gastrite, câncer e desajustados. A medicina, muito bem, bota sempre a culpa na falta de atividade física, nas viroses, na alimentação. Pouco vai ao fundo da alma, do espírito perturbado de cobiça, das conquistas sem mérito, do ódios, inveja, carência afetiva. Parece que falta a receita milagrosa do décimo mandamento. De costas para o palácio dos poderosos, de frente para o exemplo do despojado São Benedito.    

segunda-feira, 4 de maio de 2015

CASIMIRO JOSÉ DE MORAES SARMENTO

Foto antiga de Oeiras - PI, cidade natal do biografado

CASIMIRO JOSÉ DE MORAES SARMENTO

Reginaldo Miranda
Da Academia Piauiense de Letras

No dia 13 de agosto de 1813, nascia na cidade de Oeiras Casimiro José de Moraes Sarmento, que se destacaria como advogado, político, professor, escritor e jornalista de raro talento. Eram seus pais os baianos Tte.-Cel. Joaquim Antônio de Moraes e Ana Carolina de Moraes e Silva, ambos descendentes de uma das mais distintas famílias da península ibérica.
Aluno aplicado e inteligente cursou as primeiras letras e o início dos estudos preparatórios na cidade natal, estes últimos sob a orientação do ilustre magistrado João Cândido de Deus e Silva, que, logo mais se destacaria nas lutas pela Independência do Brasil, quando exercia o cargo de juiz de fora em Parnaíba; conclui, porém, esses estudos na cidade de Cachoeira, na Bahia, para onde fora mandado pelos pais, agora sob a orientação do conceituado professor BaldoínoImbiriçu Camacan, que ali orientava uma legião de discípulos. Terminados esses estudos preparatórios segue para a Faculdade de Direito de Olinda, onde, depois de muito esforço e estudo recebe o grau de bacharel em Direito, em 21 de outubro de 1836, aos 23 anos de idade. E depois de defender tese na mesma Faculdade, conquista o doutorado em 6 de março de 1840, sendo, assim, o primeiro piauiense a doutorar-se nas academias de direito do Brasil.
Mas o estudante não fica alheio às agitações políticas que sacudiam o País, participando ativamente de todos os movimentos políticos daqueles dias. Ao tempo da academia, redigiu o Argos Olindense, periódico de tendência liberal, juntamente com Francisco José Furtado, Antônio Borges Leal Castelo Branco e outros colegas e conterrâneos. Depois de formado, Moraes Sarmento permanece por mais de seis anos advogando no Recife, onde monta conceituada banca e adquire largo conceito profissional.
Em 1843, depois de breve visita ao Piauí, vai nomeado secretário de governo do Maranhão, onde presta relevantes serviços, permanecendo até sua nomeação para a presidência da província do Rio Grande do Norte por carta imperial de 4 de abril de 1845.
Tomou posse no governo do Rio Grande do Norte em 28 do referido mês de abril e permaneceu até 9 de outubro de 1847, por quase dois anos e meio, oportunidade em que pode demostrar a sua capacidade administrativa. Em sua gestão fomentou a educação, preocupou-se com questões sanitárias e envidou enorme esforço para minimizar os efeitos da seca que castigava o sertão potiguar. Também, promulgou a lei que criou a importante cidade de Açu.
Por carta imperial de 11 de setembro de 1847, vai exonerado desta e nomeado para a presidência do Ceará, tomando posse em 14 de outubro e permanecendo até 13 de abril do ano seguinte, por apenas meio ano. Todavia, embora exíguo o seu período de governo, mais uma vez demonstrou a sua capacidade administrativa, com a realização de importantes obras que melhoraram a qualidade de vida do povo e imortalizaram a sua administração. É desse tempo também a inauguração da primeira iluminação pública de Fortaleza, com lampiões de quatro faces a óleo de peixe pendurados nas esquinas; bem como, a construção do primeiro cemitério de Fortaleza, que em sua homenagem recebeu o nome de São Casimiro, dando combate ao antigo costume de sepultar os cadáveres nas igrejas.
Ainda ao final do ano de 1847, vai eleito deputado à Assembleia Geral pelo Rio Grande do Norte, onde gozava de rara popularidade, assumindo o mandato depois de se afastar do governo do Ceará. Entretanto, por decreto de 19 de fevereiro de 1849, foi a câmara dissolvida pelo gabinete conservador liderado pelo visconde de Olinda, encerrando, assim, o seu mandato parlamentar. Felizmente, vai novamente reeleito pela mesma província para a legislatura que se iniciou em 1850 com término em 1852. Durante esses dois mandatos parlamentares destacou-se com sua oratória vibrante na defesa de grandes causas no parlamento nacional.
No intervalo entre esses dois mandatos, exerceu os cargos de diretor da instrução pública e inspetor da Tesouraria da Fazenda na província do Maranhão, para os quais fora nomeado em 28 de março de 1849.
Encerrado o seu mandato parlamentar, ao final do ano de 1852, buscando cura para a esposa que sofria de alienação mental, retorna à sua cidade natal, no sertão do Piauí, dedicando-se por mais de quatro anos à advocacia e ao jornalismo, para isto fundando o periódico Oeirense, onde divulgou suas ideias ao tempo em que aquela cidade perdia o status de capital do Piauí.
Em 1857, deixa a desditosa esposa sob os cuidados dos parentes em Oeiras e retorna à corte do Rio de Janeiro, onde exercera os dois mandatos parlamentares, permanecendo no exercício da advocacia e do jornalismo, desta feita na redação do Correio Mercantil. Logo, dada à oratória vibrante, a formação acadêmica e ao seu conceito profissional, angaria boa clientela permitindo viver com razoável conforto.
No ano seguinte, foi nomeado professor catedrático de Direito das Gentes, na Escola Militar do Rio de Janeiro, onde permanece por pouco tempo, dado o seu óbito prematuro.
PublicouAnotações à Constituição do Império,Opúsculo sobre a educação física dos meninos(1858) e Discursos, pronunciados em duas aberturas de ano legislativo na Assembleia Provincial do Rio Grande do Norte(1846 e 1847); também, traduziu as seguintes obras: Da solidão, de George Zimmermann(1842), Elementos de Direito Político, de M. A. Marechal(1842) e Compêndio de História Sagrada, de Claude Fleury(1847), que foram adotadas nas escolas públicas do Maranhão.
Casimiro José de Moraes Sarmento faleceu na cidade de Angra dos Reis(RJ), em 1.º de fevereiro de 1860, sem deixar descendência. Fora casado, desde 1838, com dona Isabel Cândida de Moraes Sarmento, oriunda de distinta família pernambucana e que, infelizmente, ainda muito cedo adoeceu das faculdades mentais, sendo entregue pelo consorte aos cuidados dos parentes em Oeiras, depois de desiludir-se de sua cura. Segundo o escritor Miguel de Sousa Borges Leal Castelo Branco com suporte em informações do jurista Antônio Coelho Rodrigues, depois do óbito do marido essa desditosa senhora foi encaminhada pelos contraparentes ao Recife, onde ainda em 1879, vivia sob os cuidados do cunhado José Bernardo Galvão Alcoforado, advogado e ex-deputado geral.
Com essas notas prestamos homenagem à memória desse grande homem público que muito honra a gleba piauiense.    

domingo, 3 de maio de 2015

Seleta Piauiense - Rodrigo M. Leite (1989)


a fadiga dos dias

Rodrigo M. Leite (1989)

por um instante
resisto na retina da pobre velha
sentada na calçada com suas irmãs

o meu rosto: único
assim como o teu o de milton o de adriana
é só mais um que colore o olhar vacilante da velha
no dia-a-dia dos ossos

amanhã
o dia será chuvoso
e poucos irão ao seu enterro     

sábado, 2 de maio de 2015

MARCOS ANTONIO DE MACEDO

Stuttgart, cidade onde faleceu o biografado

MARCOS ANTONIO DE MACEDO

Reginaldo Miranda
Da Academia Piauiense de Letras

A antiga freguesia de N. Sra. das Mercês, hoje cidade de Jaicós, naquele tempo pertencente ao termo de Oeiras, é o berço de Marcos Antônio de Macedo, notável magistrado, político e escritor brasileiro. Ele nasceu em 18 de junho de 1808, filho de Antônio de Macedo Pimentel e de sua esposa.

Desde cedo, porém, mudou para a vizinha fazenda da Boa Esperança, sendo criado como filho pelo padre Marcos de Araújo Costa, afamado pároco e educador nordestino, que o educou e muito bem o encaminhou na vida profissional. Mais tarde, segue para Pernambuco, e depois de frequentar o curso jurídico, recebeu o grau de bacharel em Direito pela Faculdade de Olinda.

Depois de formado, fixa residência no Ceará, onde inicia carreira na magistratura, como juiz municipal e de órfãos. Todavia, culto, inteligente, comunicativo, com noções de outros idiomas hauridas nas aulas de Boa Esperança e no Recife, ao tempo da primeira administração de José Martiniano de Alencar na presidência da província foi designado para arregimentar colonos artífices na Europa. Foi e se houve muito bem em sua missão. No entanto, sempre ávido de conhecimento, permaneceu por algum tempo em Paris, dedicando-se aos estudos de ciências naturais, sobretudo Química. De regresso ao Ceará em janeiro de 1838, trouxe consigo 16 artífices franceses que foram entregues ao governo provincial.

Retomou a carreira na magistratura, assumindo o cargo de juiz municipal e de órfãos da vila de São João do Príncipe, hoje Tauá, nos Inhamuns. Em seguida, o de juiz de direito da comarca de Crato, onde se demorou por largos anos, em face de ser vizinha à região onde nascera, no Piauí. No mês de agosto de 1853, ainda se encontrava na titularidade dessa comarca, logo mais deixando-a, quando correspondeu-se com o diretor do Museu Nacional, Frederico Burlamaqui, sobre a descoberta de peixes fósseis naquele distrito.

Exercendo forte influência na região do Cariri, elegeu-se deputado provincial em algumas legislaturas. Em 1846 é eleito por seus pares 2.º secretário da mesa diretora da Assembleia Legislativa Provincial.

No período de 7 de setembro de 1846 a 14 de março de 1848, presidiu a província do Piauí, onde realizou importante gestão administrativa. Nesse tempo, promulgou a Resolução n.º 220, de 20 de setembro de 1847, que criou na capital uma escola para formação de alunos artífices, voltada para a educação de crianças pobres.

Ao fim dessa gestão retorna ao Ceará, realizando estudos técnicos de cujo resultado apresenta projeto de transposição das águas do rio São Francisco para o Jaguaribe através da abertura de um canal.
Ainda seria eleito deputado geral pelo Piauí.

Depois de aposentado na magistratura e afastado da vida pública, dedica-se aos seus estudos e investigações científicas, mudando para o velho continente e fixando residência em Stuttgart, então capital de Württemberg, na Alemanha. De lá, em 1867 envia alguns exemplares de suas obras ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. E faz excursões científicas, sobretudo de caráter etnológico, por diversos países da Europa, descendo o Danúbio até o mar Negro; penetra no Oriente Médio, inclusive Síria e Turquia, e passando à África, sobe o Nilo desde o Egito até a Núbia,

Como resultado desses estudos e investigações científicas, publicou as seguintes obras: Mapa topográfico da comarca do Crato, província do Ceará, indicando a possibilidade de um canal tirado do rio São Francisco, no lugar Boa Vista, para comunicar com o rio Jaguaribe, pelo riacho dos Porcos e rio Salgado(1848); Descrição dos terrenos carboníferos da comarca do Crato (1855); Pelerinage aux Lieux-saints, suivi d’une excursion dans Le Basse Egypte, em Syrie et á Constantinople (1867); Notice sur le palmier carnahube (1867); O enigma comercial do café de Moka patenteado na exposição de Paris de 1867 (1868); Observações sobre as secas do Ceará e meios de aumentar o volume das águas nas correntes do Cariri (1871).  E dado o reconhecimento e notoriedade que adquiriu em face de seus estudos, foi convidado a colaborar, e assim o fez, na Grand dictionari universel du XIX secle, de Lorousse.


Faleceu esse notável piauiense em 15 de setembro de 1872, em Stuttgart, na Alemanha, aos 64 anos de idade, quando estava no auge de seus estudos científicos e muito ainda poderia contribuir com a sociedade. Coligimos essas notas para a reconstituição de sua biografia num preito de justa gratidão a quem dedicou a mais substanciosa parte de sua vida a serviço do bem-estar da humanidade, assim enchendo de orgulho à terra piauiense.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

DOIS POEMAS DE HÉLIO SOARES PEREIRA


Caminheiro da Procura 

Hélio Soares Pereira

E o homem parte
à procura de si mesmo
num ponto de luz
criando imagens
al di la dos sentidos

E passa imóvel
até se descongelar
na alma
e na lógica
de todos os reflexos


Olhos do corpo

Hélio Soares Pereira

Olhos da mente
Nessa oficina de ideias
a luz é um ponto de vista
que mistura as cores aos sabores
e ilusões

E o brilho da noite
ou o brilho do dia
depende da magia
que existe em nós