quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Magia e energia em jovens talentos


Magia e energia em jovens talentos

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

Emoção ver o piauiense Izael Araújo, de Cocal dos Alves, arrebatar o prêmio SOLETRANDO, em programa de enorme audiência da TV Globo, tarde de sábado. Uma semana depois, a mesma televisão destacava grupo de adolescentes de Bom Jesus do Piauí exibindo talento em festival de rabequeiros naquela cidade. Uma das coordenadoras, emocionada e envaidecida, encheu os pulmões, frente às câmeras: “Como faz bem explorar a magia e energia dos jovens!”

Infelizmente, gestores públicos costumam promover shows, em seus municípios, iludindo a população com o que há de pior em bandas musicais, a preço de ouro, requebrados e palavras obscenas. A cidade de Bom Jesus, com festivais do tipo rabequeiros atrai multidões de todas as idades e do país. Porque bom gosto artístico prevalece sobre mediocridade e vulgaridade, sem onerar parcos recursos da prefeitura. Um dos segredos de sucesso cultural naquela região do sertão piauiense explica-se pela atuação de educadores e líderes entusiasmados, especialmente em desenvolver talentos jovens. “Eles são muitos, mas não sabem voar”, repetindo belo verso da música PAVÃO MISTERIOSO, de Ednardo.

Se se desperta o imenso universo embutido nas crianças e adolescentes, acontece o impossível, como pavões que voam, embora não sendo pássaros. Explica-se o sucesso cultural de estudantes de Cocal dos Alves, estimulados mais por conjunto de coordenadores e pais com o processo educativo do que com iniciativas do poder público.

Qualquer criança ou adolescente tem uma rabeca escondida consigo. Se não lhe ensinam tocar, o mundo ensina-o a se alienar com valores puxados para baixo. Na juventude, Paulo Apóstolo entregava-se a sanguinárias aventuras. Mais tarde, convertido ao cristianismo, escreveu aos gálatas: “Duas forças em mim ficam me puxando, uma para baixo, outra para o alto”. Para baixo, aos olhos de hoje, as forças infernais das drogas, das amizades perigosas, do erotismo exacerbado, da indiferença ao estudo e trabalho, do meter a mão no alheio, do provocar discórdias, do dente por dente, do estupro, do desrespeito à ordem e à vida. Para o alto, a busca constante de valores elevados de construção do caráter, da harmonia familiar, da generosidade para com o próximo, do respeito às filhas alheias, do pudor, do empenho nos estudos, da fuga à mediocridade, do exercício da espiritualidade, da dignidade.

Democratizar o acesso à arte e à ciência, levá-la às praças e ginásios, a palcos a céu aberto, a fim de alcançar público, especialmente jovem. A iniciativa deve partir, além de órgãos públicos, também de lideranças empresariais e comunitárias. Poucos empresários desenvolvem políticas públicas de valorização da arte e ciência. Destaca-se o grupo Claudino com ARTES DE MARÇO, FESTIVAL DE VIOLEIROS e eventos similares, inclusive ligados a atividades paroquiais. Eventos que estimulem pesquisa científica, prática esportiva, concursos literários, exposições de pintura, cultivo de plantas na defesa ambiental, programas radiofônicos com participação de jovens que testemunhem suas vitórias e pendores artísticos.

É possível preparar talentos, como Izael Araújo, vencedor do SOLETRANDRO, ou orquestra composta por adolescentes rabequeiros. Basta encarar educação como o mais importante projeto de prosperidade da nação.                

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A retomada do litoral pelo Piauí


A retomada do litoral pelo Piauí

José Pedro de Araújo

A questão envolvendo a negociação com o Ceará por uma fração da faixa litorânea se constitui, na verdade, em uma política de retomada de território, uma vez que no passado essa mesma gleba litorânea já pertencera ao Piauí. Pereira da Costa relembra que na troca de território, o Piauí “readquiriu o seu usurpado território de Amarração. De longe vinham as reclamações do Piauí contra essa espoliação, e de cujo direito possuía os melhores e mais eloqüentes documentos”.(PEREIRA DA COSTA, In Cronologia histórica do Estado do Piauí).

            Por sua vez, em seu indispensável livro intitulado Memória Cronológica Histórica e Corográfica da Província do Piauí, J. M. Pereira de Alencastre, faz a citação de dois documentos acerca das ações de grilagem praticadas pelo Ceará sobre o território piauiense. O primeiro documento é um Ofício do Juiz ordinário da vila de Marvão (Castelo do Piauí), Manoel Gonçalves de Araújo, datado de 20 de agosto de 1765,  ao primeiro governador da capitania, João Pereira Caldas, dando conta dos avanços praticados pelas autoridades cearenses ao território do Piauí. No documento citado, o juiz Ordinário relata que “Pároco da matriz de S. Gonçalo da Serra dos Cocos, desde o ano de 1760 tem tomado, desta Capitania para aquela(Ceará), mais de vinte povoações, não se dando por contente em tomarem aquelas que mais perto lhes ficam”.  Alencastre acrescenta que “o mesmo sucedeu na Parnaíba com o povoado de Amarração, que pertencendo sempre ao Piauí, hoje é da freguesia da Granja. O vigário desta freguesia chegou a desobrigar a uma légua da cidade da Parnaíba”.

            Incumbido pelo Governador Pereira Caldas de levantar informações sobre a denúncia proferida pelo citado juiz ordinário, o Ouvidor da Capitania, Luiz José Duarte Freire, não só confirmou a denúncia como afirmou peremptoriamente que “Na tromba da Serra dos Cocos nasce o rio Timonha, que deve formar o limite da Província com o Ceará, visto como as onze ou mais léguas da costa, que alguns autores dão ao Piauí, não é sem fundamento. Da Barra do Timonha à Barra do Igaraçu são onze léguas, segundo o roteiro do cosmógrafo Manoel Pimentel”. O rio Timonha é hoje o marco limitante dos dois estados na região litorânea.   

O professor e historiador João Gabriel Batista reafirma a informação ao dizer que a retirada da faixa litorânea se dera quando um padre da paróquia de Granja, do Ceará, começou a ministrar assistência religiosa a uma comunidade de pescadores piauienses que se situava em Amarração, ainda nos primórdios da ocupação do território. Este fato levou o governo da Província do Ceará a proceder à anexação do estreito litoral piauiense ao seu território, suprimindo o único acesso ao mar que o Piauí possuía.

Começaria, desde então, a luta dos piauienses para retomar o seu pequeno, mas belíssimo litoral, consumado depois de irredutível insistência quando da publicação do Decreto Imperial de nº 3.012, de 22 de outubro de 1880. Este diploma legal veio alterar a linha divisória entre as Províncias do Ceará e do Piauí, devolvendo-nos o que, de direito, já nos pertencia. Na troca realizada entre os dois estados, o Piauí cedeu extensa faixa de terra compreendendo a comarca de Príncipe Imperial (Independência e Crateús), área também de há muito reivindicada pelos cearenses, e readquiriu o seu direito ao mar.

Na mesma região litorânea, foi ainda o Piauí prejudicado sobremaneira, ao perder para o Maranhão uma faixa interessante do seu litoral, exatamente a nesga de terra que contava dos limites atuais até tocar à baia de Tutóia, fato verificável ao se compulsarem os primeiros mapas cartográficos existentes. Nesta disputa, o Piauí não logrou resultado satisfatório, constituindo-se em um assunto que já caiu até mesmo no esquecimento. O prejuízo aí foi monumental também, pois a região litorânea suprimida possui uma das melhores condições para a instalação de um porto marítimo com ótima capacidade para receber navios de grande calado. Aliás, durante muitos anos as exportações de produtos piauienses se deram pelo porto instalado naquela barra, atestando a sua ótima localização.

Hoje, ainda temos alguns problemas de limites com o Ceará, em dois pontos da Serra da Ibiapaba; com a Bahia, em uma estreita faixa de terra no extremo sul; e, mais recentemente, com o Estado do Tocantins que, mais que de repente, passou a contestar a posse de extensa gleba de terra tradicionalmente reconhecida como sendo território piauiense.     

Deste modo, contamos hoje com um território abrangendo uma área de 250.934 km2, correspondendo a 16,20% da região Nordeste e 2,95% da área territorial do Brasil. Sua área total, assim como a conhecemos hoje, procede assim desde o período Imperial, mas, poderá ser alterada no seu formato e tamanho mais uma vez, se resolvidos os problemas de limites que hoje temos com os estados citados no parágrafo anterior. Problemas estes, a bem da verdade, que vêm se arrastando há vários séculos e que, vez por outra, algum político à procura de maior visibilidade, encarrega-se dele e faz do seu caso palanque para aparições na mídia, para depois deixar tudo como estava antes.

Pela importância que a retomada da sua faixa litorânea tem para o Piauí, transcrevemos abaixo a íntegra do Decreto assinado pelo Imperador D. Pedro II, fazendo desaparecer, a nosso ver, parcialmente, este grande conflito de interesses e a grande injustiça perpetrada contra o povo piauiense e que demorou uma eternidade para ser resolvido:



[...] DECRETO Nº 3012 – DE 22 DE OUTUBRO DE 1880.



Altera a linha divisória das Províncias do Ceará e do Piauhy.



Hey por bem Sanccionar e Mandar que se execute a Resolução seguinte da Assembléia Geral:



Art. 1º - É annexado à Província do Ceará o território da Comarca do Príncipe Imperial, da Província do Piauhy, servindo de linha divisória das duas províncias a Serra Grande ou da Ibiapaba, sem outra interrupção além da do rio Puty, no ponto do Boqueirão, e pertencendo à Província do Piauhy todas as vertentes occidentaes da mesma serra, nesta parte, e à do Ceará as orientais.



Art. 2º - Fica pertencendo à Província do Piauhy a freguezia da Amarração com os limites que estabeleceu a Lei Provincial do Ceará nº 1360, de 5 de Novembro de 1870, a saber: da barra do rio Timonia, rio de São João da Praia Acima; até a barra do riacho, que segue para Santa Roza, e d’ahi em rumo direto à serra de Santa Rita, até o pico da serra Cocal, termo do Piauhy.



Art. 3º - A linha divisória ecclesiastica será idêntica à civil que fica estabelecida, sendo o Governo autorizado para solicitar da Santa Sé as necessárias bullas.



O Barão Homem de Mello, do Meu Conselho, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Império, assim o tenha entendido e faça executar. Palácio do Rio de Janeiro, em 22 de Outubro de 1880, 59º da Independência e do Império.



Com a rubrica de Sua Magestade, o Imperador.



                                                                              Barão Homem de Mello.




O ato acima transcrito não deixa dúvidas sobre os limites que deveriam respeitar as duas Províncias vizinhas, afastando possíveis pontos de discórdias que por ventura pudessem subsistir. Não foi o que ocorreu. Interpretando ao seu talante, o Ceará continuou dominando toda a extensão da Serra da Ibiapaba, descumprindo o que estabelece o Decreto Imperial: a linha divisória deveria ser o divisor de águas da dita Serra. Ou seja, as vertentes ocidentais daquela região montanhosa deveriam pertencer ao Piauí. Pela determinação contida neste diploma legal, o limite entre os dois estados deveria ser o cume da serra da Ibiapaba, por onde as águas escorrem para um lado e para o outro, conforme ficou determinado. O que se observa quando em viagem pela rodovia federal que liga Teresina à capital do Ceará, é que a placa com a identificação da linha divisória está fincada quase no sopé da grande serra, no começo da sua subida.

domingo, 20 de setembro de 2015

A Zona Planetária à venda no site da Amazon

           

               Já se encontra se encontra disponível no site amazon.com.br o livro digital A Zona Planetária, da autoria de Elmar Carvalho.

            A título de prefácio, abrem o e-book duas epígrafes, da lavra de Teresinha Queiroz e Cunha e Silva Filho.

            Da primeira, extraio o seguinte enxerto: “Nesse poema exemplar se encontram aqueles traços já evidenciados do lirismo, da paixão contundente e arrebatadora, do erotismo visceral, sem dúvida traços do sentir moderno. O clássico, e na historiografia a tradição clássica é a greco-romana, é inegável na escolha dos temas, no requinte das imagens, na natureza e teor dos recursos metafóricos.”

            De CSF, colho este trecho: “Combinando o perfeito conhecimento da história da mitologia greco-romana, Elmar Carvalho procurou realizar, como ele afirma, à maneira épica, um poema moderno tecido nas malhas dos recursos intertextuais, atingindo a meta pretendida: a de fundir a Antigüidade Clássica na mitologia da modernidade do discurso poético, num trabalho paciente e sem rebaixar o nível de poeticidade. O que foi retrabalhar o poético canônico, as figuras mitológicas, o tema, o andamento do verso, as ações e funções dos personagens. Porém, do amálgama saiu o sinete do artífice, senhor da sua estratégia, malabarista do verso, timoneiro da sua navegação”.

            Trata-se de poema épico moderno, inspirado no meretrício Zona Planetária, de Campo Maior, no qual o autor mesclou a mitologia greco-romana, a astronomia e a sociologia e antropologia dos velhos cabarés. O poeta procurou capturar o “clima”, a ambiência, com certa penumbra nostálgica, em que perpassam a boêmia, a pungência, o glamour e a alegria dos lupanares de outrora. 

            Nos velhos casarões da Zona Planetária, para sempre destruídos pela incúria do serviço de defesa do patrimônio municipal, a exemplo do que já acontecera com a vetusta Fazenda Tombador, onde se refugiara Fidié, após o término da Batalha do Jenipapo, eram estampados o nome e a imagem de cada um dos planetas.

            Assim, cada um dos lupanares, com as suas mulheres e madames, eram representados pelo azul Vênus, pelo vermelho Marte, pelo imenso Júpiter, pelo belo Saturno e seus anéis, anéis que eram elos, eram aros, eram Eros nos dedos e nas orelhas das cortesãs...                

sábado, 19 de setembro de 2015

A imagem da criança síria morta: crime contra a humanidade


A imagem da criança síria morta: crime contra a humanidade

Cunha e Silva Filho

           Primeiro, a vi na TV, em seguida, numa postagem do Facebook. Se não soubesse o que aquela foto  de sombrio   traduzia,  poderia pensar numa dia de praia, no qual uma criancinha brincalhona  estivesse  fingindo que estava dormindo deitada com a cabeça  enfiada na areia de uma praia da Turquia. Mas, não, aquela foto, possivelmente  reduplicada para milhões  de  usuários das  redes sociais, expressava  o que de pior   os tempos  de hoje oferecem  à atenção  dos  povos: crimes  contra criança, adultos  e velhos em tempos de  refugiados  vindos  da África e de países  em  guerra disputando   continuidade no poder  ou sendo  invadidos  por  terroristas do Oriente.  É uma  tragédia pós-moderna.

     Esse  é o resultado  das guerras civis ou de terroristas  ávidos de  implantar  organizações sanguinárias, como é o exemplo  do  chamado  Estado  Islâmico   tentando  a derrubada  de um ditador  também   sanguinário e em luta   interna  com os rebeldes  que já dura   um bom tempo  sem  que  nenhuma solução  seja   alcançada. Tenho por mim que se vive agora  um fase de  inércia  dos  órgãos de  segurança  internacional.      
 
    O que vem a ser a ONU nos dias atuais? E os outros   órgãos internacionais que poderiam  estar tomando   posições  e medidas   drásticas  para  tentar, pelo menos,  minimizar  os  conflitos  religiosos  e  de domínio  político na Síria,  no Iraque,  nos países  africanos.

   Do recrudescimento desses  conflitos  bélicos é que  grupos   de populações  de diferentes    nacionalidades,  diante  da fome,  do estado de desagregação  social  de seus países de origem e sobretudo  do constante estado  de belicosidade,  se tornaram  refugiados – esse contingente  enorme  que  se dirige pelo  Mar Mediterrâneo ou por outras vias  em busca de uma  salvação  para o que lhes resta de dignidade  de seres humanos.

    Em barcos  apinhados  de gente de todas as idades aportam  ou tentam aportar em países  ocidentais,  Itália,  Inglaterra,   França,  entre outros   países  europeus,  pedindo acolhida  para seus  infortúnios, levando consigo  apenas alguns pertences ou senão  apenas a roupa do corpo.

    Vários deles foram  vítimas de embarcações clandestinas   dominadas  por  traficantes de gente. Muitos desses refugiados  morreram  afogados  no mar  em virtude  das  péssimas condições  das embarcações, muitas delas  não passando de barcos  infláveis  com altíssimo   risco  de vida para  seus ocupantes   em busca      de uma nova vida  em países  adiantados. 

  É hora de os países  ocidentais   procurarem   demonstrar  espírito humanitário, socorrendo, de forma  organizada  e com distribuição de refugiados de acordo com  as possibilidades  de  atenderem  aos pedidos de asilo dessa massa de   acossados  da guerra e da fome. Ao menos  por um  período  determinado,   devem  as nações mais ricas     prover  ajuda  financeira  e assistência social aos  refugiados.

  Ao mesmo tempo,  os responsáveis  pela  paz mundial, através de seus  diversos  órgãos, têm  a obrigação  de combater  sem trégua  o terrorismo  de fanáticos  religiosos  que  desejem  impor,  a ferro e fogo,  modos de vida   incompatíveis com   os tempos    civilizados.

   Era de se esperar que esse êxodo de populações horrorizadas com guerras fratricidas e religiosas  acontecesse. Na fronteira  entre a Síria e a Turquia,  há tempos  sírios   abandonam  seu país  à procura  de  sobrevivência  por não mais suportarem   a destruição  que se abateu com a ditadura  ali instalada sob o tacão  do   déspota   Bashar Al-Assad numa guerra interminável  com  grupos rebeldes e, agora, com a chegada do terroristas do  Estado  Islâmico,  tornando ainda mais  caótico e confuso  o conflito sanguinário num  país  praticamente  devastado por bombardeios de todos os lados. 
 
   Não  vejo  nenhuma   ação  profunda   tomada  pela  ONU,  através de seu  Conselho de Segurança e a ideia que me passa  atualmente  é que   esses  organismos  de defesa  se encontram,  conforme acima  acentuei,  em  deplorável  fase de inanidade.

   Enquanto as matanças  não cessam  no mundo muçulmano, aparentemente deixadas de lado, o foco  de atenção e preocupações agora  se volta para o problema  dos refugiados que invadem as fronteiras e são contidos  por alguns países,   os quais, por sua vez,  se sentem   acuados  com  o enorme  contingente  de cidadãos   que por força  anelam  por   chegar  a alguns países  europeus  de sua  preferência, onde, segundo eles,  terão mais chance de  encontrar paz,  trabalho, enfim,  uma nova  vida  com a esperança de felicidade.


  Só espero que atinjam  seus objetivos contando  com a cooperação humanitária  de algumas  nações europeias.   È hora  de  estender  as mãos  aos refugiados, não só  na Europa, mas  em  outras   regiões do  Planeta.   

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

RETORNO DA BANDA OS GENIAIS DE AMARANTE


RETORNO DA BANDA OS GENIAIS DE AMARANTE

Luís Alberto Soares (BEBETO)

            Um dos mais renomados músicos que passou uma boa temporada na extinta banda OS GENIAIS de Amarante, VICENTE XAVIER DOS SANTOS NÓBREGA, de nome artístico XAXÁ, conversou por telefone com vários ex–componentes de OS GENIAIS. O artista pretende em breve, o retorno da saudosa banda. Músicos convidados: Chagas (guitarra e vocal), Bel Lima (vocal e sanfona), Bolinha (vocal e baixo), Riba e Marcelo (teclados) Riba Marakatu (bateria), Nonato e Ramiro (trompetes), Geovane e Beto (sax alto e tenor), Isidório (trombone), Juvenal e Karanka (percussões), Chico Paulo e Rochinha (vocalistas), Cruzinha e Netinha (cantoras), Osvaldo (Técnico de som), Binga (iluminação) e outros.
Vale esclarecer que o vocalista XAXÁ é natural do Juazeiro do Norte – Ceará, um apaixonado pelo Estado do Piauí. O artista musical, Xaxá, cantor renomado e animador de bandas de bailes e shows. O artista cearense tornou-se mais famoso depois de sua longa participação no “OS GENIAIS” de Amarante. Brilhou muito com o musical amarantino com sua voz inconfundível e “show man”. Considerado como uma das principais atrações do grupo musical. Foi o primeiro artista de banda de vários estados a assumir em público sua homossexualidade. XAXÁ passou por grandes bandas do Ceará. Há poucos anos atrás, ele montou sua própria banda, sediada em Teresina. Não obteve sucesso. Atualmente, Xaxá trabalha numa banda de Fortaleza.
            Vale enfatizar ainda que OS GENIAIS de Amarante, a banda de todos os tempos do Piauí que fez mais sucesso. Som de primeiro mundo e músicos qualificados. Percorreu o norte e nordeste do Brasil, exibindo-se em bailes de elites e populares, vaquejadas, convenções, comícios e shows com bandas internacionais e cantores famosos como: Luiz Gonzaga, Nelson Gonçalves, Nelson Ned, Altemar Dutra, Gonzaquinha, Domiguinhos, Jorge Ben Jor, Jorge de Altino, Peninha, Morais Moreira, Martinho da Vila, Fagner, Sidney Magal, Reginaldo Rossi, Valdik Soriano, Amado Batista, Jimmy Cliff, Elizete Cardoso, Marinês, Elba Ramalho, Simone, Joana, Alcione, Clara Nunes, Amelinha, etc. Foram 20 anos de sucesso, incluindo várias capitais. Várias músicas interpretadas pelo Os Geniais são tocadas por esse Brasil afora. Milhares pedem a volta deste extraordinário grupo musical que orgulha Amarante e nos deixa marcantes lembranças e grandes saudades. Vale esclarecer que o saudoso “Os Geniais” pertencia ao médico João de Miranda Peixoto. Luís Alberto Soares, gerente e empresário exclusivo.     

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

O TREMEMBÉ MOTORIZADO

Reginaldo, Natim e Elmar, conduzindo o pequeno e bravo motor do Tremembé

Viagem inaugural do Tremembé (sem o motor)

Paisagem do local de partida e chegada do Tremembé, vista da Toca do Velho Monge

Nonato, o Batateiro, patrimônio da Várzea do Simão, futuro Capitão do Tremembé

17 de setembro   Diário Incontínuo

O TREMEMBÉ MOTORIZADO

Elmar Carvalho

Após haver “batizado” o meu barco inflável, que tinha o nome original de Cheyenne, pondo-lhe o nome de Tremembé, e ter feito a viagem inaugural da ponte do Jandira até a Toca do Velho Monge, na Várzea do Simão, conforme já registrado nesta crônica diarística, deliberei comprar-lhe um pequeno motor de popa, na potência especificada pelo fabricante.

Mais de mês atrás, adquiri esse complemento. Mandei fazer um carrinho, especialmente planejado para esse tipo e porte de motor, a fim de conduzi-lo da casa do sítio Filomena à Toca, que fica a uns 120 metros, local em que colocaríamos o barco no Parnaíba. No sábado, dia 5, fizemos a pré-inauguração do Tremembé, desta feita motorizado.

Nomeei-me a mim próprio capitão, e passei os cargos e encargos de imediato e piloto ao sargento Natim Freitas, meu amigo e sobrinho de minha mulher. Foi conosco o Didi, ao qual dei o nome náutico de Touro Sentado. Em virtude de o Natim, um mês atrás, no Pantanal Matogrossense, mais precisamente em São Félix do Araguaia, haver aprendido rápidas noções de pilotagem de barco com o seu primo Vavá, mais conhecido pelo codinome de Comandante Carajá, conferi-lhe essa alcunha e patente, em homenagem a seu primo. Assim, o Vavá continua sendo o Comandante Carajá de lá, e o Natim será o de cá. Parafraseando o poeta Fagundes Varela, que não se enojem nossos ouvidos com tantas rimas em a.

Conheci o Vavá, faz alguns meses, na Várzea do Simão, quando ele veio visitar sua mãe e parentes, e rever o seu local de nascimento, oportunidade em que ele fez um acrobático voo rasante sobre essa bela paisagem ribeirinha. Soube que ele, além de respeitado e experiente piloto de avião, também pilota uma “voadora”, de altíssima velocidade, e uma casa barco, para a qual por ele fui convidado. Aceitarei o convite, opportuno tempore, e haverei de ficar na varanda dessa casa flutuante e ambulante, a fruir a beleza das águas, das árvores e das aves do pantanal.

Numa invocação a Camões, na excursão de sábado, disse que iríamos “além de Taprobana”, entendendo-se com essa expressão que iríamos subir o Velho Monge até ultrapassarmos a ponte do Jandira. Depois de “apanharmos” um pouco, pela falta de experiência, e principalmente por não termos aberto de forma suficiente o “suspiro” ou “respiradouro” do motor, que fica acima da tampa do tanque de combustível, cumprimos esse desiderato.

Ao contrário da viagem inaugural, sem o motor, de que já tratei neste diário, em que o rio se mostrava sereno, pacífico, sem ondulações, desta vez ventava muito, e as águas estavam encapeladas. No retorno, com o dia já quase escurecendo, as ondas do Parnaíba estavam altas, e enfrentamos um verdadeiro banzeiro, em que os respingos nos atingiam de forma quase constante.

Aliás, as ondas vinham em sentido contrário à correnteza do rio, dando-nos a nítida impressão de que enfrentávamos pequenas pororocas, se é que não estou sendo hiperbólico. Em certos momentos, parecia que estávamos a cavalgá-las, tais eram os embates das subidas e descidas do bravo Tremembé. Às vezes o barco parecia curvar-se nas cristas da ondulação, verdadeiro marulho, mas sem nunca perder a estabilidade e o equilíbrio.

No dia seguinte, domingo, fizemos a efetiva inauguração do Tremembé motorizado. Novamente o “timoneiro” foi o mestre Natim, já agora familiarizado com as manhas do motor, pelo que não houve mais ato falho. Faziam parte da tripulação o Didi e o Reginaldo. Determinei que iríamos bem além do Rebentão, até onde o rio forma um grande remanso ou uma espécie de enseada fluvial.

Para minha tristeza, mais uma vez constatei o estado deplorável do velho Rio Grande dos Tapuias, também conhecido como Punaré ou Paraguassu. As margens se mostravam bastante desguarnecidas de matas ciliares, de forma que se apresentava assoreado, e muito largo e muito raso; tanto que, em alguns pontos, apesar de a “quilha” do barco ser chata, e apesar de a embarcação ser pequena e inflável, tínhamos que descer e empurrá-la.

Por essa razão, tínhamos que tentar seguir, da forma mais fiel possível, o canal, que é a parte em que o leito do curso d’ água se mostra mais profundo, o que provoca o risco de nos aproximarmos em demasia da margem e, por conseguinte, de eventual galho de árvore. Contudo, nem sempre esse malabarismo ou firula é possível, pois ora o canal fica à margem esquerda, ora à direita e às vezes se desenvolve ao centro, o que exige experiência, atenção e acuidade visual.


Encontramos muitas coroas, de finíssima e macia areia. Numa delas tomamos um gostoso e refrescante banho. Não obstante a beleza dessas ilhas fluviais, são elas uma espécie de cancro e a prova mais ostensiva de que o rio está doente, de que o rio pede socorro, sem que as autoridades o escutem. Com esse brado de alerta, encerro, com tristeza, este registro, que deveria ser apenas de alegria plena.    

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Pela fé, o ódio, morte e depredação


Pela fé, o ódio, morte e depredação

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

         Expressivo grupo de pessoas do Bairro de Fátima parte em peregrinação a Israel. Participei duas vezes da jornada, e, se o dólar não tripudiasse sobre o real, iria mais vezes. Israel me encanta pela fartura de memória bíblica. Uma reflexão, porém,  me conduz a outros parâmetros de culturas religiosas, cuja fé resvala para o ódio, destruição, morte e segregação.

         O solo por onde Jesus caminhava não é mais o mesmo. Fica a metros de profundida, escavado por arqueólogos e historiadores. O solo atual encontra-se compactado de material que restou das ruínas, ambições, guerras e paixões religiosas. A gruta de Belém encontra-se em subsolo.

         Depois de 40 anos pelo deserto, libertados da escravidão dos egípcios, os israelitas (hebreus) destruíram cidades pagãs e se apossaram da Terra Prometida (Israel). Mais espetacular a destruição e morte de  Jericó, 15 séculos antes de Cristo (Josué, cap. 5 e 6). Muralhas e residências foram abaixo.

O ímpeto dos exércitos romanos, ano 70, não deixou “pedra sobre pedra” do templo de Jerusalém, conforme predissera Jesus. A Cidade Santa e todas as outras, transformaram-se em monturos e destroços. Judeus perderam a posse da terra, obrigando-se à diáspora, mundo afora, perseguidos, inclusive pela Igreja, durante centenas de anos. No longo tempo da diáspora, árabes tomaram posse da Terra Santa. Somente em 1948, judeus recuperaram o país, pela ONU, e aceleraram o sionismo. Permanece o conflito entre palestinos, de cultura muçulmana (Alá)  e judeus (Javé).

         No ano cristão 135, o imperador romano, Adriano, mandou reconstruir o templo e a cidade de Jerusalém. Imperador Constantino, a pedido de sua mãe Helena, recuperou lugares sagrados da vida de Cristo, construindo igrejas e monumentos. O império romano martirizou, em todas as colônias, milhares de cristãos, por não se subordinarem ao paganismo dos imperadores. Muçulmanos ocuparam a Palestina, botando por terra monumentos cristãos, impondo culto a Alá, estendendo-se pelo norte da África e Península Ibérica. O conceito de Jihad, luta pela expansão da cultura e fé, induz, até hoje, fanáticos a barbaridades. em nome de Alá. Mosteiros de freiras eram invadidos e destruídos.

 No início do segundo milênio, cruzadas cristãs, comandadas por papas e reis, invadiram a Palestina, massacraram muçulmanos e destruíram monumentos. Venceu Alá.

No período renascentista, pipocaram conflitos e massacres entre protestantes e católicos. Famosa a Noite de São Bartolomeu, na França, onde milhares de católicos e protestantes se mataram, por questões religiosas e políticas. A Inquisição transformou-se na maior vergonha da Igreja, inclusive de algumas seitas protestantes. As codenações envolviam fogueira, chibatadas e degolas.

Em nome da fé e do batismo, nobres cristãos sequestravam negros africanos, acorrentavam-nos e os expunham em leilões e escravidão, nas américas. Astecas, Maias e Incas sacrificavam crianças, extraíam o coração latejando nos altares das divindades. Os espanhóis dizimaram essas nações, em nome do domínio territorial e da fé cristã.

Nada de pensar em apocalipse do mundo atual, observando a violência urbana e as barbaridades de grupos muçulmanos. Todos somos produtos da cultura e destruição, inclusive do planeta. Uma peregrinação a Israel até que faz bem a gente refletir sobre nosso destino. Jesus ensina o amor.      

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

MISTÉRIO EM CEMITÉRIO DE AMARANTE


MISTÉRIO EM CEMITÉRIO DE AMARANTE

Luís Alberto Soares (BEBETO)

         Recentemente, no Cemitério Municipal de Amarante, aconteceu uma ação incrível, ocasião quando três rapazes (Ananias, Anderson e Luís) faziam uma reforma no túmulo de Cândido Neto da Silva e Abidenal de Sousa Silva (pai e filho). No ato do serviço, a Senhora Iracilde Vieira Silva (Cidinha), esposa e mãe dos mencionados falecidos, contava uma história assustadora de um morto. Na ocasião da pintura na catacumba, os jovens descrentes do conto da Senhora Cidinha, soltaram longas gargalhadas acompanhadas de ironia ao falecido, quando de repente, a tinta utilizada no serviço virou água cristalina. Dona Cidinha, pasma com a transformação da tinta, rezou de voz embargada e pediu perdão a DEUS pelos rapazes. Ela disse a eles: “Agora vocês peçam perdão à alma do falecido e a Deus porque isso que ocorreu foi um castigo DIVINO”. Os jovens temerosos ficaram sem ação para a conclusão da reforma do túmulo. Vale esclarecer que os reformadores da catacumba são genros do casal, Irismar (filha de Cidinha) e Mestre Chiquinho, testemunha da ocorrência.     

domingo, 13 de setembro de 2015

Seleta Piauiense - Taumaturgo Sotero Vaz


Minha Madrinha

Taumaturgo Sotero Vaz (1869 – 1921)

Aqui na terra desiludido
Tonto, perdido,
Saio das cinzas deste vulcão,
Para ouvir missa na capelinha,
Lá, onde mora Minha Madrinha,
Nossa Senhora da Conceição!

Ao pé do nicho branco e enflorado,
Ajoelhado,
De olhos abertos fitos no altar,
Rezo baixinho... Santa alegria!
Minha Madrinha! Ave Maria!
Cheia de Graça! Graça sem par!

Mãe de Jesus! Flor do Carinho!
Secai os cardos do meu caminho!
Livrai-me do Ódio de Humanidade!
Da inveja torpe, da iniquidade
E da traição,
Que ora andam soltos e voejando,
Como de Corvos um negro bando,
Sob a amplidão!
Tende Piedade, doce Rainha!
Minha Madrinha! Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!

Olhai, oh Virgem, quantos tormentos
Sofrem os justos! Quantos lamentos
Soltos aos ventos!
Quanta miséria! Quanto pesar!
Cessai, oh Virgem, esta Agonia,
Minha Madrinha! Ave Maria!
Cheia de Graça, Graça sem par!

Lá nos Palácios o oiro e o incenso,
Risos e danças, um mundo imenso
De luz e pompas, sedas e aromas,
Lembrando os velhos tempos de Roma

A era negra de perdição!
E fora, o pranto, o frio, a fome...
Tudo que é triste, fere e consome
Os pobres velhos e as criancinhas!
Vinde por eles, Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!

De olhos abertos fico rezando
Fora do mundo, junto do altar,
Vendo chegar
O doce bando
Das esperanças,
– Anjos formosos, meigas crianças
Rubras centelhas
Dos céus descidos para o Perdão!
E, como a Virgem tudo adivinha,
Ri-se bondosa. Salve Rainha!
Cheia de Graça! Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!        

sábado, 12 de setembro de 2015

UM CORAÇÃO REFORMADO


UM CORAÇÃO REFORMADO

Jacob Fortes

Desde o berço os órgãos do corpo humano funcionam cheios de motivação. Seus ânimos fazem lembrar o aprazimento das crianças no playground. Porém, com o tempo decorrido começam a apresentar discrepâncias de desempenho; vão-se desmotivando, trabalhando entre regular e sofrível. Uns alegam cansaço, outros balbuciam resmungos inaudíveis sem precisar a natureza das suas queixas. Há também os irritados, cheios de discordâncias, vivem incitando os vizinhos à revolta como se quisessem incendiar coivaras. Enfim, cada qual com suas queixas, patologias e síndromes.

Ao meu coração, esse resignado “boi de carro” que labuta dentro do meu peito, sucedeu que, esfalfado ante a canga do tempo, ameaçava não ir adiante; é o que diziam os laudos médicos. Nesse estado de quem ameaça desabar, fez-se, não de vontade, o meu principal oponente. Isso me metia medo; ter um inimigo, mesmo arquejando, morando dentro de mim. Nem sempre o perigo vem da ação de quem pode, mas da inação de quem está privado de fazer. Em decorrência desse estado de quase apagamento, podia-se antever a suspensão do bombeamento do precioso líquido, de tom escarlate-solferino, que deixaria de dar de beber todo o canteiro. Desse modo, seco o leito dos regatos, dos canais, das regueiras, portanto, sem o “Poço de Jacó” para proceder à rega, (perdoe-me o Evangelho de Jesus pela comparação irreverenciosa), pus-me a orar, pedindo a interveniência do alto.

Destarte, era inadiável submetê-lo a um tratamento que pudesse estimulá-lo a cumprir as suas competências, não sei se regimentais ou estatutárias, para as quais fora criado, mesmo que isso exigisse uma intervenção mais severa, inclusive porque, segundo os laudos, tropicava em avarias. E foi debaixo desse gélido sobrosso, dessa inquietação pavorosa, que tomei o alvitre de recorrer a um especialista, o cirurgião cardiovascular Ricardo Corso, que lhe aplicou um disciplinamento; impingiu-lhe uma reforma, vigorosa, que o deixou recauchutado: três safenas, uma mamária. O meu peito de “garrincha”, tão escasso quanto delicado, adquiriu feições de monstro catita. No bojo da reforma a esperança de não sair cedo do palco quem poderia (senão por merecimento, mas por misericórdia) permanecer até o último ato, enfim, não ver cortado o fio da existência antes do epílogo, antes de testemunhar a transcorrência das estações. 

E assim é a vida. Quando se pensa que ela segue o seu curso ordinário o extraordinário se antepõe. “Quando achamos que sabemos todas as respostas, o mundo modifica as perguntas”.   Ninguém sabe o que nos aguarda, Deus sabe. “Quando o discípulo, ou a obra, fica pronto, o mestre aparece”. Aliviado com o resultado formidável da obra de engenharia médica (aterradora), nada me resta senão agradecer; agradecer em tom de salmo: obrigado, primeiramente ao mestre celestial: meu Senhor e meu Deus; obrigado ao mestre terreal: Dr. Ricardo Corso, cirurgião, e sua equipe.  “Um médico, só por si, vale alguns homens”. Agradeço sobremodo ao meu “boi de carro”, pelo sacrifício de haver resistido a tantas vexações, mas revigorado permite a este velho carreiro, por um pedaço de tempo, carrear pela estrada da vida, (contornando as vaidades tolas), e entoando intimamente cânticos em louvor a Deus. Agradeço aos parentes e amigos por me haverem apalpado com palavras de conforto. A todos, por favor, relevem a incontida emotividade de quem esteve sob a ameaça de um exército de malfeitores: temor, incerteza, abatimento, melancolia, mas que se evadiram graças às palavras ternamente sinceras que os parentes e amigos fizeram jorrar sobre mim de modo tão carinhoso a moldes de chuvas de flores. Verdade que agosto, com os seus dias queimosos, tinha para oferecer apenas a nudez das árvores realçada pela nota triste do sabiá no galho, mas setembro, cheio de solidariedade enviou, a título de cortesia, os buquês primaveris; muitos, aliás, segregando néctares que me serviram de fármaco.

Eis que a aflição passou; ficaram as manchas de choro e os gemidos do tamanho dos destroços. Cresceu o meu débito, impagável, inscrito na dívida ativa do sobreceleste. Por já ter sido agraciado nada peço para mim, mas rogo a Deus que livre das enfermidades do corpo e da alma todas as criaturas: humanos e os animais.

Esta página vitoriosa de incentivo à vida, valentemente pelejada por um Corso — não da Córsega de Napoleão, mas do Rio Grande do Sul — a quem dei contornos literários, ergo ao insigne cirurgião cardiovascular, Ricardo Barros Corso, notável da Medicina, mãos enluvadas, tão servo do seu ofício quanto Miguel Couto o foi: “Retirai-me os atributos da Medicina e nada mais me resta. Desde que me entendi, a ela dediquei os meus pensamentos e depois todos os meus atos, e se neste empenho até hoje me consumo só nele me retempero. Para ela (a medicina) os meus anseios, as minhas aspirações e o meu trabalho. Teria remorso de distrair em outros cuidados o meu tempo {...}”.

Nessas horas infaustas, sofrimento, abatimento, é que ganha especial relevo uma Maria, uma Fernanda, uma Carmem, não importa o nome, enfim mulheres extremosas que, fortalecidas no sentimento de amor, velam o amado de modo compassivo sem ao menos perceber que sofrem. Feitas de brandura e firmeza elas, de modo luminoso, vão desbastando desalentos e infundido a fé. Quem as tem que as guarde não somente para as ocasiões de aperturas, mas para o companheirismo, que revigora, fortalece. Cá tenho a minha. Além de Maria também é do Socorro; em cujos atributos há uma particularidade: a de ler os meus pensamentos.

Desta cirurgia de grande porte convalesço, extenuado, limitado de voz e movimentos, porém esperançoso e agradecido. Benefícios são bem-vindos, inclusive os de sabor acre. Se alguém tem alguma dádiva propiciatória ao meu propósito de soerguimento, não precisa luxo: basta uma prece, uma intenção, uma palavra, uma canção, uma “Mercedita”.

“A convivência do sofrimento ensina a humildade e lembra, na lição de cada dia, que o homem não é senão o sonho de uma sombra”.    

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O lobisomem


O lobisomem

José Pedro Araújo
Historiador, romancista e cronista

           No meu tempo de menino nas terras do Curador não se tinha ainda a televisão para nos mostrar os filmes de terror ou mesmo os desenhos animados japoneses com seus bichos feios a mais não poder. Não possuíamos nem energia elétrica, quanto mais aparelhos de vídeo game com seus jogos horripilantes que deixam a meninada imune às velhas histórias de lobisomem.

            Assim, era comum a meninada sentar nas calçadas nas noites de lua cheia para ouvir as histórias medonhas de bichos do outro mundo e de almas penadas. O problema era que, quando a turma se dispersava, íamos para casa morrendo de medo de que da esquina escura pudesse surgir algum “Capelobo”. Era assim que denominávamos um bicho fantasmagórico, misto de Capelão – imenso galo preto que soltava fogo pelo bico e pelos olhos – e Lobo. De minha parte, não foram poucas as noites que eu pedi à minha mãe que me deixasse dormir entre ela e o meu pai, apavorado, com medo do tal bicho aparecer. Já nas noites de breu, cada menino procurava dormir cedo, se possível com a luz do candeeiro acesa para espantar o medo de coisa ruim que só ataca à noite.

            Quem nunca ouviu contar do sujeito que havia molestado uma filha e que o filho desta, nascida do relacionamento incestuoso, havia se transformado em um enorme Lobisomem, que atacava nas redondezas nas noites de lua cheia? E que esses bichos, quando não conseguia encontrar nenhuma vítima, choravam a noite inteira, uivando como um bicho danado até quase o nascer do sol? Ou então que uma mulher muito má havia dado à luz, uma criança com metade do corpo de cachorro e a outra metade de touro? Um bicho tão malvado que só se alimentava com animais e crianças recém-nascidas?

            Hum! Coitado de mim. Ainda por cima eu era o filho mais velho, não possuía irmãos mais fortes que pudessem me defender. E para aumentar ainda mais o meu terror, minha avó residia em uma rua que ficava por trás da que morávamos, e para chegar até lá tínhamos que passar por um beco escuro e desabitado. Para aumentar o meu desespero, todo final de tarde, início de noite, minha mãe determinava que eu fosse levar um pratinho de comida, feita exclusivamente para minha avó, que já era bastante idosa. Era um Deus nos acuda atravessar aquele beco de não mais do que cem metros de comprimento, mas que para mim media vários quilômetros de extensão. Só eu sei quantas carreiras tomei de algum calango, ou outro bichinho menor ainda, ao farfalhava apressado nas folhas secas espalhadas pelo caminho. Para mim, tratava-se de algum bicho medonho querendo me atacar.

            Foi ai que surgiu uma história das mais pavorosas que me deixou semanas sem sair de casa para caçar passarinhos nas matas, mesmo durante o dia. A história – verídica, segundo alguns amigos meus – tomou tal vulto na comunidade, que os meninos andavam obedientes aos pais como nunca se vira antes. Contavam que um menino, de nome Zé Augusto – vou trocar o nome em respeito ao rapaz, já falecido, havia sido atacado ferozmente por um Capelobo, enquanto retornava, no final da tarde, da fazenda de seus pais para casa.  Diziam ainda que ele havia escapado de ter o seu sangue bebido pelo tinhoso porque portava um crucifixo de madeira pendurado no pescoço, fruto de uma viagem realizada pelos pais ao Juazeiro do Norte. Mas, mesmo assim, havia ficado muito machucado e com o rosto apresentando um hematoma muito grande. Um dos olhos fora tão agredido que estava fechado de tanto inchaço.

            Originário de família evangélica, logo recorri à minha mãe na esperança de receber uma negativa como resposta. Esperava ouvir dela que essas visagens não existiam e coisa e tal. Mas, o que dela ouvi, deixou-me mais amedrontado ainda. Falou que, de fato, visagens não existiam, mas que algum “endemoniado” deveria ter atacado aquele menino. Era fato que o garoto estava muito machucado, sobretudo no rosto. Perguntada por mim o que era esse tal ser “endemoniado”, respondeu-me que eram pessoas que carregavam o demônio dentro de si e que às vezes matavam as crianças para beber o seu sangue.

            Apavorei-me mais ainda. Desconfiei que o tal bicho “endemoniado” - minha mãe não queria admitir - só poderia ser o tal Capelobo. E repassei a informação adiante.

            Desde então, nas noites de lua cheia, a meninada não saia mais de casa. Caçar passarinho, só se fosse na companhia de adultos, e assim mesmo nas matas próximas de casa. Acredito ter sido um alívio para os bichinhos, os nhambus, as juritis, e mesmo as pombas que agora passavam um bom tempo sem sofrer com os seus predadores mais cruéis.

            Depois de alguns meses, ficamos sabendo da verdadeira história do bicho que havia atacado o infeliz Zé Augusto. Como seus pais haviam ficado muito preocupados com o episódio, uma vez que o menino se negava peremptoriamente a levar os animais para dar água lá na fazenda, começaram a investigar o que de fato havia acontecido com o filho. E não tardaram a descobrir, após pressionar o filho do vaqueiro que se mantinha arredio a perguntas, mas que havia escapado ileso, apesar de está junto com seu filho no dia do amaldiçoado ataque.

            Depois de muitas tentativas, o pai de Zé Augusto, desconfiado cada vez mais que o garoto lhe escondia alguma coisa, pediu ajuda à esposa para descobrir o que de fato havia acontecido naquela tarde-noite. E ela, muito jeitosa no trato com crianças traquinas, afirmou ao assustado garoto que ao olhar nos olhos de qualquer pessoa, sabia distinguir perfeitamente se ela estava mentindo ou falando a verdade.


            O garoto se desesperou, já conhecia a fama da mãe do colega, e diante da pergunta de qual bicho havia atacado seu amigo, respondeu quase com um gemido: “foi uma jumenta”. Foi um alívio geral. Menos para o pobre Zé Augusto, punido com uma severa surra para nunca mais cometer um pecado daquela magnitude.

Fonte: blog Folhas Avulsas

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Deus não é camundongo de laboratório


Deus não é camundongo de laboratório

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

Como dizia em matéria anterior, na quarta vigília da noite afluem sonhos prazerosos, às vezes, de recados divinos. Conseguir momentos assim exigem algum exercício: corpo relaxado, após prolongado repouso.

A agitação e competitividade da vida moderna entorpecem o contato com Deus. Brilhante médica, mestrado e doutorado, professora universitária, assiste em hospitais de Teresina, expressa, em e-mail enviado, sobre a crônica, MISTÉRIOS E SONHOS DA QUARTA VIGÍLIA:

         “O texto é pontuado por diversos aspectos ético-religiosos que, até mesmo para uma agnóstica (como me intitulo!), leva a uma reflexão, mesmo que momentânea. Afinal, nos dias de hoje, com o acesso irrestrito à web, nem paramos mais para quase nada. Não sei aonde iremos parar. Há dias, quisera eu ter respondido, mas as atribulações da vida moderna não me permitiram. A minha capacidade está muito aquém dos seus muitos seguidores, mas, às vezes, me agrada algum comentário. Tomara que o agrade também.”

Agradou, e muito, nobre doutora, sua honesta confissão de agnóstica. Por se tratar de um testemunho bastante pessoal, evitei publicar-lhe o nome. Mente quem afirma que nunca passou momentos de descrença ou tibieza com relação à existência ou não de qualquer divindade ou reivindicações metafísicas. Especialmente, em dolorosos e trágicos momentos.

Agnóstico é aquele que não conhece a Deus ou duvida da sua existência. Ao contrário do ateu, que anula e combate a existência divina. Crises de agnosticismo ocorrem até em monges e servos de Deus, quando a fé resvala para discussões.

Isolar-se da turbulência do mundo, buscar o silêncio, orar, agradecer aos céus o dom da vida fazem um bem danado à saúde do corpo e do espírito, como suculento dejejum. Explica-se o interesse de grupos de jovens e adultos que trocam o carnaval ou final de semana agitado por um retiro espiritual. Experiências fantásticas testemunham eles.

Muita gente, em vez de exercitar a experiência com Deus, questiona-lhe a existência com argumentos científicos e filosóficos que apenas confundem incautos. Tentam questionar o divino como camundongo de laboratório, até citam cientistas do saber tudo. Imagino ter que explicar as características e sabores da laranja a quem nunca viu a fruta. Por mais argumentos, inclusive científicos, não o convenceria. Só exibindo a laranja e convidar a chupá-la. Experimentá-la. Deus é uma experiência pessoal, e não tema de discussão vazia. Colocar-se em sua presença, nas caladas da noite ou no escritório, fechar os olhos e soltar: “Senhor, juro que te desconheço, se existes mesmo. Dá-me uma oportunidade para te conhecer!” Mais que na quarta vigília da noite, você o encontrará, quem sabe, na leitura de um livro, num papo com quem tem experiência de Deus. A doutora do e-mail ainda vai encontrar tempo para uma quarta vigília.    

domingo, 6 de setembro de 2015

TRAGICOMÉDIA


TRAGICOMÉDIA

Elmar Carvalho

Preso no
ventre estreito
do Universo,
tenho um acesso
de claustrofobia.
Fruto mau
de árvores boas,
sou estéril
(para não ter maus frutos).
Nasci prematuramente
e morrerei depois
da hora.
(Sou teimoso como
um joão-teimoso.)
Guiado por cego
e conversando com
surdo-mudo,
fui tachado de
débil mental.
Mas isto é um
eufemismo:
eu sou mesmo é
um doido varrido,
por força da necessidade.
Sou triste.
Mas eu vejo a tristeza
como lágrimas
nos olhos do diabo.

           Pba. 09.1977