domingo, 21 de junho de 2015

NA NOITE


NA NOITE

Elmar Carvalho

Na noite
um sapo coaxa.
Uma puta triste
acha graça. Acha graça.
Um galo
às desoras desfere um canto
fora de hora. E chora.
Um cão ladra por nada:
nenhuma cadela no cio.
O silêncio
grita como louco
na concha acústica
dos labirintos dos ouvidos moucos
por onde um Teseu lasso caminha
em busca do Minotauro – perdido
sem o fio de Ariadne –
conduzido por outro fio
que parte / se parte e
se reparte entre o ser
e o não ser.
E os gritos de Teseu
arrancam ecos
que já ecos de si mesmos
se repetem se repetem
até a mais completa
absoluta exaustão.       

quinta-feira, 18 de junho de 2015

MESTRE CHICO E A LITERATURA DO PIAUÍ

Mécia e Francisco Miguel de Moura

18 de junho   Diário Incontínuo

MESTRE CHICO E A LITERATURA DO PIAUÍ

Parte I

Elmar Carvalho

Na quinta-feira passada, à noite, fui ao Salipi, onde o poeta Francisco Miguel de Moura estaria autografando o seu livro Literatura do Piauí, 2ª edição, publicado pela editora da Universidade Federal do Piauí – UFPI. Pensei que fosse lançamento solene, com palestras de apresentação e tudo mais, mas na verdade tratava-se tão-somente de venda e autógrafo da obra. Ao chegar, além do escritor e de sua esposa Mécia, encontrei o historiador, jurista e articulista João Borges Caminha, que foi meu professor na Universidade Federal do Piauí, na qual ele lecionava Direito Agrário.

É ele meu confrade na Academia Campomaiorense de Letras – ACALE. Foi chefe do Setor Jurídico do Banco do Brasil no Estado do Piauí. Seu filho Marco Aurélio Lustosa Caminha, procurador do Trabalho, foi meu colega no curso de Direito. Fui apresentado por Chico Miguel ao juiz do Trabalho Carlos Wagner Araújo Nery da Cruz, seu amigo e leitor contumaz e voraz, que adquiriu meu livro Confissões de um juiz, que se encontrava exposto no estande da EDUFPI. Tive a satisfação de lhe autografar o exemplar.

O lançamento de Literatura do Piauí será no próximo dia 20, sábado, às 10 horas, em solenidade conjunta da UFPI e da Academia Piauiense de Letras – APL, conforme convite que tenho em mãos, emitido pelo reitor José Arimatéia Dantas Lopes e pelo presidente Nelson Nery Costa. O evento acontecerá no auditório da APL. Serão, também, lançados na oportunidade os livros Estudos de História do Piauí, 2ª edição, de Odilon Nunes, e O sertão piauiense em pé de guerra, 1ª edição, de Laécio Barros Dias, ambos publicados pela APL e integrantes da Coleção Centenário.

Conheci Chico Miguel de Moura no final da década de 1970, quando ele esteve rapidamente no lançamento do livro Galopando, obra coletiva de que fazíamos parte Paulo Couto Machado, Rubervam Du Nascimento, Josemar Nerys, Paulo de Athayde Couto e este diarista. Os três primeiros residiam em Teresina, e os dois últimos, em Parnaíba. Na verdade, para ser mais exato, o Rubervam morava em Timon e trabalhava em nossa capital, na Delegacia do Trabalho. Era o início de uma amizade literária e integração entre autores parnaibanos e teresinenses. Creio ter sido ainda a estreia literária de alguns desses poetas, inclusive a minha.

O livro era uma brochura simples, mas bem cuidada, com miolo impresso em mimeógrafo, porém a capa era uma bela obra de arte, uma xilogravura feita com todo esmero pelo artista plástico Fernando Costa, tragicamente falecido nas cinzas de um triste carnaval, poucos anos depois. Cheguei a conhecê-lo em Parnaíba, em um evento cultural. Em sua memória, escrevi uma crônica elegíaca, em que lamentei a sua morte precoce, quando ele ainda estava por alcançar o auge de seu talento. Galopando trazia ilustrações de Fábio Torres, Zé Alfredo e Fernando Costa. Foi editado graças aos esforços de Nonata Nerys, irmã de Josemar, e Socorro Soares. 

Passando a residir em Teresina a partir de agosto de 1982, ao assumir o cargo de fiscal da SUNAB, tornei-me amigo de Chico Miguel e de seu irmão afetivo Hardi Filho, grande poeta recentemente falecido. Algumas vezes estive na casa deles, em momentos alegres ou comemorativos. Em 1986, o velho, franco e franciscano Chico iniciou a luta para reativar a União Brasileira de Escritores do Piauí, de cuja campanha fiz parte. Foi o seu primeiro presidente, nessa nova fase. Deu-lhe vida, através de publicações e eventos, e lhe deu existência legal, com razão social, CNPJ e demais aparato burocrático.


Fui seu sucessor, na gestão 1988/1990. Com a ajuda de meus companheiros de diretoria e o apoio decisivo do deputado Humberto Reis da Silveira, conseguimos que fosse insculpida em dispositivo da Constituição Estadual a obrigatoriedade do ensino de Literatura Piauiense, passando a nossa literatura a ser, portanto, disciplina obrigatória (art. 226). Por razões que desconheço, mas que não acho aceitáveis ou justificáveis, esse mandamento constitucional nunca foi efetivamente executado pelo Governo do Piauí.

(Continua na próxima semana.)

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Mona Lisa


MONA  LISA

Alcenor Candeira Filho

                                 1

na pintura a óleo
sobre madeira de álamo
o olhar que paralisa:
- o olhar de Mona Lisa.

                                  2

quase tal como
quando na hora enfim da encomendação e da partida
Capitu defronte do caixão com os olhos
"grandes e abertos como a vaga no mar lá fora"
olhava que olhava para Escobar defunto
- La Gioconda da tela
mais cara e mais bela do planeta terra
me olha me encara me azara me devora
                       cara
                          a
                       cara
fixamente apaixonadamente nesta hora de sonho louco
e eu - olho no olho -
sem tirar os olhos dos olhos dela
na maior cara de pau do mundo
e sem nunca os pés ter posto no Museu do Louvre..    

Lançamento de livros - convite


                A Academia Piauiense de Letras e a Universidade Federal do Piauí têm o prazer de convidar V. Exa. e distinta família para o lançamento dos seguintes livros: Estudos de História do Piauí, nº 8 – 2ª edição, de Odilon Nunes; O Sertão Piauiense em Pé de Guerra, nº 49 – 1ª edição, de Laécio Barros Dias, ambos da Coleção Centenário, e pela EDUFPI Literatura do Piauí – 2ª edição, de Francisco Miguel de Moura.
 

Nelson Nery Costa
Presidente

José Arimatéia Dantas Lopes
Reitor


Data: 20 de junho de 2015
Horário: 10hs9h 30
Local: Sede da Academia Piauiense de Letras (Auditório Acad. Wilson de Andrade Brandão)
Av. Miguel Rosa, 3300/S – Fone/ Fax :(86)  3221 1566–   CEP.: 64001-490  –  Teresina-PI  

terça-feira, 16 de junho de 2015

OEIRAS CLUBE


OEIRAS CLUBE

Antonio Reinaldo Soares Filho
Escritor, historiador e geólogo

O velho Oeiras Clube foi fundado em 10 de novembro de 1948, objetivando oferecer aos seus sócios e familiares um local para se reunir em lazer, receber orquestras visitantes, realizar suas festas dançantes e servir a outras atividades. O seu estatuto foi elaborado por Possidônio Nunes de Queiroz. Para pertencer àquela sociedade era necessário superar preconceitos e preencher determinadas condições tais como: ser parte da seleta sociedade, ter posse de patrimônio financeiro reconhecido, ser uma autoridade civil ou militar, ocupar posição reconhecidamente destacada, ser portadores de diplomas universitários, serem maior de idade e vestir-se com formalidade. Para adentrar ao local, os homens trajavam-se com rigor e as mulheres com vestidos longos. Estava escrito.O porteiro ficava autorizado impedir os que não se enquadrassem naquelas condições.

Até meados da década de sessentaele se localizava na Praça do Mercado, também chamada de Rua da Feira, de frente para o norte. Estava entre a casa de morada do Tabelião Joel Campos e o estabelecimento comercial Tapety. Sua parede frontal, pintada de um verde musgo, tinha três janelas à direita (lado oeste) da porta principal, e duas janelas à esquerda (lado leste). Seu interior era alcançado por um estreito corredor que separava o salão de festas da sala de reuniões com o banheiro feminino. Na entrada ficava o seu porteiro - Luís Gonzaga Rocha, o folclórico Badaró.

Adentrando a casa por um corredor, na parede da esquerda havia apenas uma porta oferecendoacesso à sala da diretoria, onde foi colocada uma mesa de jogos de ping-pong. E, à direita, principiava com um arco aberto, bloqueado por um baixo balaústre onde, em dias de festa, costumava ser ocupado por matronas e solteironas que participavam do "sereno do baile". Naquele ambiente surgiram casamentos e muito fuxico maldoso, espalhados por fofoqueiras desocupadas. No final da referida passagem estreita, havia dois acanhados arcos de antigas portas, um à frente dando passadiço ao interior da casa, ao seu alpendre livre, e o outro à direita que se abria para o salão de danças.

Chegava-se ao alpendre com pátio interno formado pela planta em “L invertido” com o telhado descaindo para o sul e leste, abrindo para um pátio interno cimentado. Na varanda havia mesas e cadeiras da marca Cimo, para acomodar as famílias dos sócios.

Da porta que dava entrada ao alpendre, pelo lado esquerdo a área coberta media aproximadamente seis metros de comprimento. Na parede daquela parte menor havia uma porta que permitia a entrada para o sanitário feminino. E, da porta para a direita, na mesma parede, agora separando o salão de festas da cobertura aberta havia duas aberturas. Um arco facilitava o trânsito à pista de dança. Um pouco à frente, já no canto do L, outro maior no mesmo estilo, bloqueado por um baixo balaústre, facilitava a visão da parte interna da casa para a pista de dança. Essa permitia que os músicos se voltassem ora para os frequentadores nas mesas ora para os pares no grande salão.

Os músicos se posicionavam estrategicamente instalados naquele canto interno, formado por uma pequena plataforma de plano superior ao do piso da casa, circundado por um baixo balaústre. Ali Levy Carmo encantava com o som afinado do seu magnífico pistom a tocar velhos boleros e sambas canções. Orquestras de passagem, formadas basicamente por instrumentos metálicos de sopro, proporcionaram noites de encantamentos aquela sociedade.

No salão os casais se entregavam a bailar sob o olhar atento de mães ou tias zelosas, embalados pelo ritmo suave de suas músicas, alternados por sambas dançados em comedidas gafieiras. O ambiente ficava lotado. Quanta fantasia, sonhos e lembranças inesquecíveis...

 Elas vestiam à moda trapézio com a cintura marcada, de quando em quando deixando os ombros femininos a nus. Nas festas, as moças trajavam vestidos com saias rodadas, por vezes plissadas, bastante compridas batendo no meio da batata da perna, acinturada, símbolo de sofisticação e elegância - uma ladylike. Minha tia Luzia Áurea Campos Ferreira foi uma bela ladylike. Naqueles dias, o máximo a ser mostrado era o colo feminino através de um decote muito discreto. Elas abusavam do estilo new look, vestido estampado de bolinha ou não, cintura bem marcada, terminado logo abaixo do joelho, complementado por uma fita no cabelo. Os penteados poderiam ser coques ou rabos-de-cavalo um pouco mais curtos, com mechas caindo sobre o rosto ou franjas que davam um ar de menininhas. Usavam óculos gatinhos com lentes escuras muito chiques. Tudo bem comportado. Na década de 50 as mulheres não usavam a calça comprida nem priorizavam a carreira profissional, sonhavam serem donas de casa impecáveis. Ah, como eram glamorosas. Havia um código de honra – não escrito - cujos limites não eram ultrapassados e raramente foi desrespeitado. Os moços eram gentis e atenciosos com as mocinhas de família, estendendo as reverencias as mães das jovenzinhas de então. Trajar-se a rigor acompanhando a tendência da moda significava uma camisa de tergal Perval “volta ao mundo” e uma calça de naycron “aquelas que nunca perdiam o vínculo”.Os moços avançados, viajados pelo eixo Rio - São Paulo abandonava a calça frouxa de linho e buscava, na medida do possível para uma cidade de interior, imitar o visual rock’n'roll, ou seja, camisa branca (Símbolos de uma juventude ingenuamente rebelde) com calça de brim e brilhantina no enrolado topete do cabelo emplastrado. Um óculos Ray Ban aviator de lentes escuras arrematava o visual. Padrões e imagens de uma mocidade.

Na parte maior do L no alpendre ficava a maioria das mesas acomodando seus frequentadores. No extremo sul do alpendre aberto para o nascente, correspondente a sua ponta mais alongada, encontrava-se o pequeno bar. Os fregueses eram atendidos através de uma larga janela voltada para o salão. Ao lado, uma porta de acesso a um estreito corredor, que terminava em um quarto com uma porta para o segundo pátio. Naquele compartimento, após as dez horas da noite se formava uma roda de carteado que varava as madrugadas. O pife-pafe foi à modalidade praticada. Pelas cartas do baralho, os magnetizados pelo vício pernicioso, chegaram a comprometer orçamentos familiares, a perder propriedades e outros bens. Diziam seus frequentadores ser aquela casa mal-assombrada. Comentavam que nas noites escuras, posto que não existir energia elétrica, ouviam-se barulhos e murmúrios. Apesar de explicações – “Existem mais coisas entre o céu e a terra do que imagina a nossa vã percepção”.

Do lado leste do interior da casa havia um pátio alongado, descoberto, dividido ao meio por um muro com um portão. A primeira área defronte dos alpendres tinha o piso cimentado. Após o portão de acesso, do outro lado, o chão não tinha cobertura. O sanitário masculino, isolado, se posicionava após a sala de jogos, com a porta para o segundo espaço aberto.

Prosseguindo, no final daquele segundo pátio, havia um alpendre voltado para o norte, cobrindo delateral a lateral, apoiado sobre uma alta parede dos fundos. Ali ficava um quarto usado como cozinha e o resto do espaço era aberto. Por uma porta se ingressava no quintal onde os bêbados davam alívio às contrações digestivas e ao álcool ingerido. Outros ficavam caídos em meio à fedentina.

Só tinha acesso àquelas dependências quem era sócio, havia ordem, organização e respeito. O incansável Eurico César Rêgo era o seu principal animador. Eurico se confundia com o velho Oeiras Clube, de tanta afeição e amor dedicado àquela entidade recreativa.

A minha primeira festa foi naquele Oeiras Clube, encontrando-se presentes Jackson Pagels Sá e Dagoberto Júnior, que também faziam suas estreias em festa noturna.

Durante muitos anos o arrendatário do seu bar foi o comerciante Antônio Reinaldo Soares associado com seu cunhado Antônio Campos Ferreira.

O clube tinha uma grande e maravilhosa eletrola Philips de alta-fidelidade "hi-fi", móvel bonito, daquelas que pegavam dez long plays, posicionada em um dos cantos internos. Nas noites comuns de sábado, entre as vinte e vinte e duas horas, reuniam-se rapazes e moças da geração que vi. As da minha e da gente da seguinte, para alegres tertúlias dançantes. Simplesmente para dançarmos nos finais de semana. Bailávamos de rosto colado, um corpo junto ao outro, uma sensação indescritível. Velhos discos de vinil a tocar famosos boleros cantados por Nat King Cole, Henry Mancini, Ray Conniff, Billy Vaughn, da orquestra Tabajara, Ivanildo, Poly e seu Conjunto... Estourava nas ondas do rádio uma novidade, Cely Campelo apresentando um ritmo diferente marcando o refrão de Lacinhos cor de rosa: “Um sapatinho eu vou, com um laço cor de rosa enfeitar... e perto dele eu vou andar devagarinho e o broto conquistar!”... O maior bailarino no ambiente foi o Albérico do Nascimento Sá e fazia par igual com Teresina Martins Portela. Completava aquele grupo alegre de jovens: Haydée Rêgo Amorim, Amparo Sá, Marli Pires, Socorro Alves Avelino, Ana Rita Maria de Freitas Sá (Ana Rita de Antônio Sá), Ester de Carvalho Rêgo, Leonissa de Carvalho Rêgo (Leó), Maria Amélia Mendes Freitas, Onezina Portela Serra e Maria Piedade Portela Serra, Edemar Ramos Vieira (Dimas), Afonso de Moraes Rêgo, Lourival Franco de Sá Filho, Pedro Ferrer Mendes de Freitas, Roosevelt Sá, Antônio Amorim Guida, Mário Portela da Silva, Antônio Nunes Cavalcante (Antônio de Miguelzinho), Silvério Cardoso da Silva Filho - Silizinho, Lindomar Freitas, Francisco Moura de Araújo – Chiqueza, Waldemar Reis Freitas, Eros Ferreira Rocha... Maria Ribeiro Gonçalves, Rosina Martins Portela, Rita de Cássia Mendes de Freitas, Zenaide Lopes, Iolanda Sá, Gleice Martins Freitas, Rosário Martins Freitas, Orlene França, Gardênia e Ida Gomes Amorim, Maria Conceição Ferreira e Silva, Acidélia Ferreira e Silva e mais..., se faziam presentes.

Um dia, um curioso achou que sabia manipular com os controles daquele estimado aparelho, danificando-o para sempre. A diretoria não se interessou em providenciar seu conserto. Encerrava-se ali um grande divertimento e alegria daqueles jovens que gostavam de bailar.

Quando o diretor da casa era um festeiro, o clube estava sempre proporcionando bailes. Os seus salões se iluminavam quando aconteciam as principais festas da cidade.

A casa da Rua da Feira, que serviu de palco para tanto entretenimento, continua na memória dos que a conheceram. As gerações que a frequentaram, nostalgicamente relembram-na com carinho, como se tudo tivesse sido um sonho bom, em que não devêssemos acordar.    

domingo, 14 de junho de 2015

Cães urbanos


Cães urbanos 

Neide Moscoso

vou seguindo a rota
dos cães urbanos
ambulantes da
sorte incerta
carregam nos passos
silenciosos
o risco nas dobras
das ruas  desertas
sedentos de águas impuras
famintos das migalhas
dos lixos ensacados
a escolha não lhes coube
vivem no instinto
a ferocidade e
no amor o sentimento
inerente à sua natureza
cativa da fidelidade
e da amizade
eterna     

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Manchetes da indignação


Manchetes da indignação

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com
  

            Basta abrir as páginas dos jornais, acompanhar noticiários da TV e do rádio. Os temas se repetem cotidianamente, sangram a paciência, enchem de indignação. Precisa citá-los, se a opinião pública já se acostumou a presenciar, através das imagens e manchetes, o desmoronamento moral por que atravessa o país? A culpa não cabe à imprensa, porquanto, graças ao jornalismo investigativo, sem chapa branca, a opinião pública é informada. Embora estarrecida e indignada, observa tudo, passiva, e aí comete perigoso deslize  de omissão e submissão aos caprichos de administradores.

         Vejam só o que escreveu Santo Agostinho, no terceiro século da era cristã, em plena devassidão romana, cujas autoridades militares, judiciárias e políticas se vendiam por qualquer propina: “A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem. A indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, para mudá-las”.

         A indignação da sociedade já se manifesta em toda ponta de rua ou mesa de bar, nas avenidas e concentrações públicas. Falta-lhe, ainda, a coragem para mudá-las, apertando o cerco às autoridades. Formadores de opinião precisam incorporar-se à indignação social, com bravura, protestos, exemplo da banda Skank: “Eu fiquei indignado /  Ele ficou indignado / A massa ficou indignada / Duro de tão indignado”.

         A imprensa, como a literatura, em geral, num país sem liberdade pública até para trabalhar, é a única tribuna, do alto da qual se pode ouvir o grito da indignação e da consciência.

         Prefeito de Fronteiras do Piauí, que decretara estado de emergência, contratou os músicos Zezé de Camargo e Luciano por quase 300 mil reais, incluindo outras despesas de pura diversão com dinheiro da fome.

         Dá ou não dá indignação prefeita Neuma Café (PT) pagar mais de 1 milhão aos cantores Frejat (340 mil), a Jorge Bem Jor (350 mil) e Ana Carolina (375mil)? Toda essa montanha para Festival de Inverno e calor.

         Indignação saber que a verba de gabinete de um deputado estadual do Piauí aproxima-se dos 200 mil reais. Secretário da prefeitura de Teresina dança festivo com 25 mil reais de contracheque, enquanto barnabés protestam por aumento na Câmara Municipal, alguns por não aceitar “aumento” miserável de 1%!! Sempre as mesmas e fajutas desculpas de que “é preciso cumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal” ou coisa parecida, contensão de despesa, que sempre ataca o “baixo clero”.

            Uma das artimanhas de administradores em apuros é engabelar a população indignada com “pão e circo” do império romano ou com investimentos que nunca se concretizam. Estratosféricos 195 bilhões de reais para “estradas de logística” e outros caracacás!! Por aqui, piruetas festivas e blablabá para acalmar grevistas. Só pílulas azuizinhas do amor.

         Coluna de Zózimo Tavares: “O Governo do Estado e a Prefeitura de Teresina reclamam da queda de receita, mas anunciam investimentos em obras de mobilidade”. Tá vendo como administradores engabelam a indignação?     

quinta-feira, 11 de junho de 2015

A FLOR E O MORCEGO



11 de junho   Diário Incontínuo

A FLOR E O MORCEGO

Elmar Carvalho

Assistindo a um documentário através da Netflix, tomei conhecimento de que uma espécie de morcego se alimenta do néctar das flores de um cactáceo imenso, algo como um mandacaru ituense, porém natural de certo deserto. A flor, muito bela, tinha a brancura imaculada de um lírio de um poema simbolista. Depois, fiquei sabendo que existem os morcegos beija-flores, que beijam outras flores. Por associação de ideias lembrei-me do título de um poema de Carlos Drummond de Andrade – A flor e a náusea. 

A náusea, evidentemente, seria o morcego, que, para alguns delicados, poderia ser nauseabundo. Igualmente me lembrei de um título cinematográfico: A bela e a fera. Contudo, não posso deixar de reconhecer que existem belas mulheres que se apaixonaram por homens bastante feios, para dizer o mínimo, verdadeiros Quasímodos ou Vulcanos. De qualquer sorte, vejo poesia, arte e beleza nesses contrastes entre o belo e o feio.

Não pude deixar de fazer o contraste entre uma linda flor, sendo cortejada e afagada por um belo e elegante beija-flor, e outra, sendo bafejada e assediada por um morcego, que sequer é um pássaro, mas um mamífero, como todos sabem. Temos antológicos poemas que cantam as flores e os beija-flores, em magníficos versos recheados de agradáveis, belas e sonoras palavras.

As fotografias e as pinturas também mostram toda a formosura e encantamento das flores e dos colibris, que ficam a adejar graciosamente em torno de suas vegetais namoradas, enquanto lhes sugam delicadamente o pólen, contribuindo para a fertilização da natureza. Beleza e perfume parecem evolar dessas ilustrações.

Os morcegos, contudo, são associados a fatos aziagos e mesmo demoníacos. Em minha infância, vi um livro religioso, com desenhos terríveis, que me causaram assombro. Um demônio, com asas semelhantes às de um morcego, era esmagado pelo arcanjo Miguel. Também esses mamíferos voadores são tidos como servos de vampiros, inclusive do famigerado conde Drácula. Alguns sugam sangue, donde talvez lhes tenham atribuído a suposta ligação a esses seres maléficos.

Até as flores têm as suas diferenças, inclusive quanto à destinação. Umas são simples, despojadas, quase sem perfume, ao passo que outras são suntuosas, ostensivas em suas cores e formas, e exalam forte e agradável perfume. Em pesquisa na internet vi que o cantor e compositor Bob Marley teria escrito que “nem todas as flores têm a mesma sorte, umas enfeitam a vida e outras enfeitam a morte”. A metáfora, embora bonita e verdadeira, não é original, e o poeta Belmiro Braga também a expressou numa de suas trovas.

Os morcegos são vistos como seres feios e repulsivos. Muitos os consideram agoureiros. São expulsos das casas de forma sistemática. Ninguém lhes deseja a aproximação, muitos menos a convivência sob o mesmo teto. O poeta Augusto dos Anjos, que cantou o horrendo e a podridão de forma magnífica, em versos que vão ficar ressoando pela eternidade, também os fustigou de forma implacável: “Pego de um pau. Esforços faço. Chego / A tocá-lo. Minh'alma se concentra. / Que ventre produziu tão feio parto?!”


A Bíblia, entretanto, em sua sabedoria nos adverte para que não repudiemos nenhuma criatura, nem as que rastejam sobre o solo, nem as que cortam os ares na amplidão. Todas são obras de Deus. E todas têm a sua beleza e utilidade.   

quarta-feira, 10 de junho de 2015

NOITES DE DOMINGO



NOITES DE DOMINGO

Antonio Reinaldo Soares Filho
Escritor, historiador e geólogo

           
As noites de domingo de antigamente reservavam momentos inebriantes a partir do cair da tarde em Oeiras. Tão logo as sombras dos morros do poente alcançavam toda cidadela, as famílias que ainda resistiam em ficar dentro de casa, saíam para se sentar nas calçadas. Quem residia de frente ao poente, a princípio se posicionavam um pouco distante do seu frontispício, fugindo do calor ali acumulado. Com o entrar da noite, a temperatura se dissipando, os vizinhos ocupavam as calçadas, em conversas fraternais, reafirmando laços de amizade e compadrio. Os solitários ficavam sentados nas suas calçadas a ouvir os noticiários da Voz da América, a BBC de Londres transmitindo em português, o jornal O Globo no Ar e da Hora do Brasil, através de um rádio portátil de pilha transistone da Philco. Mesmo nos verões as noites eram de temperatura agradáveis, não exista o asfalto, o chão era descoberto.

Os moços, após passarem grande parte do tempo avaliando-se no espelho, seguiam para o Passeio Leônidas Melo. Antes, costumeiramente, faziam parada pelos balaústres ou pelo bar Ponto Chique em frente ao Palácio dos Bispos.

Na Catedral de Nossa Senhora da Vitória o Bispo Diocesano Dom Edilberto Dinkelborg celebrava a solene missa dominical das sete da noite, frequentada pelas famílias cristãs da cidade. Ao final, as donzelinhas e os casais de espírito jovem se dirigiam para o Passeio Leônidas Melo, a fim de observar o movimento ou encontrar os amigos em uma mesa do Café Oeiras.



(Foto 51) Jovens aguardando nas mesas do Café Oeiras o início de um réveillon no Oeiras Clube. Foto gentilmente cedida por Maria de Fátima Nunes Ferreira de Carvalho.



O Café Oeiras pelo seu estilo refinado, sempre irradiou uma áurea de glamour e transmite uma sensação de bem estar aos seus frequentadores. Suas mesas, restritas ao seu interior, posto que a praça era ocupada pela juventude a desfilar, sempre foram concorridas.

Wagner encerrava a primeira sessão do filme exibido em vesperal, completando os frequentadores daquele pequeno e acolhedor espaço. E, na praça, a mocidade era a razão da existência de todo aquele movimento. A cena se repetia. As mocinhas a caminhar de braços dados em volta da praça em um sentido e os rapazes de modo contrário. Alguns mais tímidos ficavam encostados nos postes de iluminação ou sentados nos seus poucos bancos. Outros preferiam apoiar-se nas grades de madeira da Associação. Cada um procurando a seu modo exibir-se. Moças e rapazes exercitando a arte da sedução. Quando a corte se dava normalmente, em plena praça era realizada a abordagem, “uma encostada”. E só os homens tomavam a iniciativa. As garotas mais ousadas, quando muito, insistiam na troca indiscreta de olhares. Difícil para o candidato era munir-se de coragem suficiente para inverter a caminhada em plena praça e dirigir-se à pretendida, fazer sua declaração de amor e propor o namoro. Nessa hora, as amigas, sabedoras do sentimento da moça, adiantavam o passo e separando se afastavam. Ficavam então os dois a conversar, mantendo a caminhada, repetindo a mesma trajetória com o moço soltando o verbo. Tudo se confirmando partia-se para a “muralha do amor”. O local, formado por encantadores balaústres, separa a Praça da Bandeira do Passeio Leônidas Melo, naqueles dias, naquele horário, era ocupado pelos casais de namorados. Eita felicidade. Mas, quase sempre a jovenzinha solicitava um tempo para dar a resposta, mesmo que desejasse ardorosamente dizer sim. Na verdade, era apenas um artifício para se valorizar, fazer difícil. Aquele ato compunha o ritual da corte. Como a impaciência é companheira da pouca idade, inquiria-se com a maior brevidade uma resposta.

Ali, muitos sonharam ser galã.

Muitas respeitáveis senhoras de hoje reinaram temporariamente absolutas, na posse de suas belezas radiantes a desabrochar. E como era disputada a corte quando uma delas se encontrava em evidência e desimpedida. Menina-moça sem ter tido ainda pretendente, na pujança de toda a formosura que a juventude proporciona ao corpo de uma adolescente, com todos os hormônios transpirando pelos poros. Menina que nem sempre foi bela e, de repente, desabrochando numa linda mulher, sensual e escultural, a desfilar airosamente sua beleza.

A cada encontro, o magnetismo da troca de olhares rápidos, quase sempre furtivos no início. Os rapazes em grupo disputavam naquele momento a preferência de um flerte.

Flertava-se à vontade, por dias, até meses. Aquela troca de olhares, mutuamente correspondida, gerava comentários de possibilidade de um futuro namoro. Era o bastante para a mãe da moça tomar conhecimento daquele prelúdio de aproximação. Se o relacionamento fosse questionado pelos pais que carregavam desejos de outra união conveniente, vinham às proibições. Contudo, nada impedia quando o sentimento era forte e a moça se opunha em romper a corte. Partiam para o namoro às escondidas, no escurinho do cinema, por trás do cine, do parque infantil ou noutro lugar onde a iluminação fosse precária. Nesse contexto havia sempre uma amiga da namorada, que arranjava os encontros, se posicionando ao longe, vigiando, para alertar a aproximação de algum fuxiqueiro, enquanto o casal se encontrava entretido. Quando eles decidiam se unir, fugiam para a cidade vizinha e por lá se casavam. Dizia-se fulano roubou sicrana. Havia muito preconceito infundado e poucas justificativas. Tudo tinha uma dose de fascínio e romantismo encantador.

Naquele Passeio todos procuravam estrear ou exibir sua melhor roupa. Um gosto refinado significava vestir uma camisa esporte das etiquetas Taylor, McGregor ou Torre. O sonho era estrear uma camisa esporte ban-lon modelo rendanil (malha) de preferência das cores vermelha e branca, com um sapato saméllo, terra ou motinha e uma legítima calça Far-West de brim coringa da alpargatas ou uma impossível Lee americana (Ao tempo surgiram as U.S. Top) - era se sentir um astro. Perfumados pela fragrância de Lancaster e brilhantina “suspiro de granada” eles marcavam territórios.

Foi tempo de ouvir os novos sons da Jovem Guarda; Erasmo liderando a banda The Snakes, sentado à beira do caminho e Roberto mandando tudo para o inferno, reinando no iê-iê-iê. Os Golden Boys com alguém na multidão. Trio Esperança embalava a festa do Bolinha. Sergio Murilo e um brotinho legal. George Freedman cantando coisinha estúpida. Wanderley Cardoso era o bom rapaz. Eduardo Araújo o bom. Tony Campelo e Celi Campelo, Renato & Seus Blue Caps desde 58. Leno e Lilian, Ronnie Von, Wilson Miranda, Demétrius, Ronnie Cord, Sergio Reis, Martinha. Silvinha, Paulo Sérgio, Antônio Marcos, Vanusa, Jerry Adriani, Rosemary, Albert e Meire Pavão, Valdirene, Rita Pavone, Ed Carlos e Katia Cilene, Trini Lopes... Na faixa internacional ouvíamos Elvis Presley cantando Tutti Frutti; Bill Halley empolgou com Rock Around the Clock; os Beatles com a inesquecível Yesterday, Mireille Mathieu, Charles Aznavour com La Bohème e Ne Me Quitte Pas; Christophe estourava com Aline e Marionettes; Peppino di Capri cantava Roberta, Frank Sinatra, Joan Baez, Petula Clark... Dos Jipes depois a Rural e do Aero Willys "rabo de peixe". Da Simca Chambord vermelha e branca do boêmio Waldik que não fazia falta na região.

No universo da vaidade feminina dos anos 60 a minissaia reinou absoluta no Passeio. Um vestido tubinho curto de cetim com estampas coloridas, psicodélicas ou geométricas foi um modelo comum. Os cabelos armados com muito laquê complementavam o conjunto – elas tinham um it. À última moda era a linha reta, futurista, geométrica e discretamente erótica. O objetivo era mostrar o que suas mães esconderam com as saias plissadas no meio da canela. O Brasil começava a perder o seu jeito inocente. Na década de setenta as moças, acompanhando as tendências, resolveram mostrar parte do cobiçado corpo feminino agora aparecendo desnudado, no entanto, vulgarizaram. As transformações passaram a acontecer em ritmo acelerado. O que perdurara por décadas agora estava se dando a cada novo ano. Se até os anos cinquenta a moda foi comportada, rapidamente as moças aderiram aos movimentos originados nas grandes cidades. A jovem guarda que havia aderido à minissaia foi copiada pelas mocinhas. As saias foram se encurtando mais que nunca, quase sem limites, muito acima do joelho. Diminuíram tanto que alcançou o tamanho do “hot pants”, shortinho que virou mania da época. Garotas de curvas privilegiadas, em mostras pin up dos anos 60... 70..., desfilavam com minissaias e hot pants. Quando decidiram por uma calça comprida, ousaram, a cintura foi rebaixada. Uma beleza aos olhos, os pêlos rebeldes teimando em saltar o cós. Tudo isso deslumbrava, despertava sonhos e desejos ardentes na rapaziada. Quanta feminilidade. Os mais atrevidos avançaram até onde foi permitido.

Quando a praça recebia a visita de uma moça bonita oriunda de outra cidade, todos os moços voltavam seus olhares para a cobiçada, disputando entre si quem seria o primeiro conquistador a levá-la para a muralha do amor. Afinal, “ao vencedor as batatas”.

As ações aconteciam sobre os olhos de todos os frequentadores do ambiente. Tudo aquilo fazia parte do cenário do domingo à noite em Oeiras. O movimento se desenvolvia ainda embalado pelos sons dos boleros de Nelson Gonçalves, Ângela Maria, Núbia Lafaiete, Carlos Galhardo, Lupicínio Rodrigues, Bienvenido Granda, Orlando Dias, Carlos Alberto, Silvinho... Repassados pela radiola do Café Oeiras. Ouvíamos as músicas das nossas tias e pais aderindo ao novo rock-and-roll.  O intervalo das dezenove às vinte e duas horas foi às três horas mais agradáveis e vividas pela juventude daqueles anos.

No tempo da usina velha, nas justas dez horas da noite, o Café Oeiras fechava suas portas e a praça se esvaziava. O final da exibição da segunda sessão do filme representava o último movimento no local. Depois disso, e só em tempos de férias é que alguns moços permaneciam por ali, prolongando uma conversa fiada. Era à hora e a vez dos que sabiam dedilhar as cordas de um violão e dos cantores de repertório refinado e vozes maviosas. Nesses quesitos, Gerardo Queiroz e meu primo Gerson Campos foram os maiorais. Os pontos de partida era o próprio Passeio Leônidas Melo, ou o parque infantil assim como balaústres frente ao Palácio João Nepomuceno. Houve noites em que havia mais de duas serenatas pelas ruas. Quando nenhum deles sabia cantar ou tampouco tocar violão, não se perdia o intento. Uma pequena radiola portátil Sonata Philips GF133 a pilha resolvia a questão. Só não podia faltar um litro de cinzano, São Rafael ou outra bebida alcoólica. E então se passava a atormentar as noites de sonos dos pais de moças bonitas.

Nas convidativas noites enluaradas, após a serenata passar pelas portas de todas as pretendidas, uma parte de seus componentes procuravam o Bar da Evinha, que ficava no bairro da bomba, entre a BR-230 e o muro do cemitério. Por lá se saboreava uma bem temperada panelada ou uma mão de vaca, acompanhada por uma última cerveja.

O dia seguinte era uma segunda feira. Nossos pais dormiam tranquilos. Os grandes males que assolam e flagelam a humanidade de hoje não faziam parte daquele tempo.

 Quantas noites felizes.     

quinta-feira, 4 de junho de 2015

REVISITANDO A VELHA CASA (II)


Didi, apoiado em sua Belina Cascavel, ao lado de Fátima Carvalho

28 de maio   Diário Incontínuo

REVISITANDO A VELHA CASA (II)

Elmar Carvalho

Na visita à velha casa fiz contato com o Batista e o Didi. O Batista era um dos bons vizinhos de que já falei. O Didi era uma espécie de “faz-tudo” ou pau para toda obra, que, brincando, chamávamos de “Bombril”, porque, como essa lã de aço na propaganda, tinha mil e uma utilidades. Fazia pequenos serviços de eletricidade, de encanador, de pedreiro, de marcenaria e o que mais surgisse.

Por conseguinte, era um homem de sete instrumentos, como se diz. Não vou dizer que fosse exímio ou um mestre em todas essas atividades (e nem isso lhe poderia ser exigido), mas quebrava um galho muito bem. Portanto, jamais poderia ser considerado um “mela-mão”, uma vez que ele fazia corretamente os serviços que se metia a fazer. Era um valente e valoroso polivalente.

Quando fui morar no residencial Memorare, em meados dos anos 1980, o Didi ainda era um rapazote. Acompanhou o crescimento de nossos filhos. Tinha acesso a nossas casas. E nunca ninguém ouviu falar do menor ato que o desabonasse. Ao contrário, sempre mereceu o nosso respeito e consideração, porque a recíproca era verdadeira, na mesma intensidade ou até mais.

Nessa casa, talvez eu tenha logrado minhas mais importantes conquistas intelectuais e literárias, ao longo dos 25 anos em que nela morei, até me mudar para minha atual residência. Ali escrevi muitos dos poemas que me são mais caros. Concluí o meu curso de Direito na Universidade Federal do Piauí, e fui aprovado no exame da OAB-PI, embora nunca tenha exercido a advocacia, uma vez que o cargo de fiscal da SUNAB era incompatível com essa atividade. Obtive aprovação no concurso para juiz de Direito, tendo sido empossado no dia 19 de dezembro de 1997.

Durante os anos em que estive sob o seu teto, exerci os cargos de presidente da União Brasileira de Escritores do Piauí (gestão 1988/1990), presidente do Conselho Editorial da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, durante cerca de cinco anos, membro do Conselho Editorial da UFPI, até quando ingressei na magistratura.

Fui eleito para integrar diversas Academias de Letras, entre as quais cito a Parnaibana, a Piripiriense, a Campomaiorense, a do Vale do Longá, a da Magistratura, a Maçônica, a de Floriano e a Piauiense (APL). Deixei de citar a do Médio Parnaíba, porque já morava em minha casa atual quando nela fui admitido. Tornei-me sócio correspondente do Instituto Histórico de Oeiras e do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro.

Ao adentrar a velha casa, senti forte comoção, ao recordar as alegrias e também tristezas que nela senti; a vida, como todos sabemos, é composta de vários sentimentos, alguns contraditórios. Nela recebi alguns amigos em reuniões festivas ou de simples congraçamento. Conosco, em períodos diversos, durante vários meses ou mesmo anos, moraram irmãos meus e parentes da Fátima. Em 1986 e em 1988 nasceram o João Miguel e a Elmara Cristina, o primeiro na Maternidade Evangelina Rosa e a segunda na Clínica e Maternidade Santa Fé.

Durante esse tempo, formei a minha biblioteca. Muitos livros que tive se perderam com mudanças, goteiras e também as implacáveis traças e cupins. Quando me mudei para o meu atual endereço, por absoluta falta de espaço, doei para particulares e para a Biblioteca Pública de Campo Maior cerca de mil exemplares. Conservei os mais raros, os reservados para consulta e os que me são mais preciosos, e que ainda pretendo reler ou ao menos folhear.

São amigos que desejo permaneçam comigo até eu me dar por velho, quando os doarei para outra biblioteca pública. Meu filho João Miguel me herdou o gosto pela leitura, mas só lê os livros que ele próprio adquire, de acordo com o seu interesse e gosto pessoal, de modo que não lhe legarei meus sábios e queridos alfarrábios.

Vi o quintal, o cajueiro, os acréscimos ou benfeitorias que fiz, inclusive a suíte sobre o térreo, em cujo compartimento contíguo instalei parte dos meus livros. Emocionei-me ao ver as estantes vazias, os cômodos desabitados, desguarnecidos de móveis e silenciosos. Recordei-me do soneto Visita à casa paterna, de Luís Guimarães Jr. E não pude deixar de me lembrar de meus próprios versos, evocativos de outra casa, entre as várias que habitei, mas que talvez só tenha existido efetivamente em minha saudade:

“Ai, casa dolorosa / de infinitas recordações / do não acontecido e /do não vivido. / Casa que não existiu / mas que permanece de pé / em minha lembrança (...) A casa sempre persistirá / nas músicas passionais de algum boteco / criando ressonâncias que repercutem / insistentemente como eco.”     

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Sacerdotes pastores, e não políticos


Sacerdotes pastores, e não políticos

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

  
            O petista Padre Walmir, vice-prefeito e secretário de Educação de Picos, substitui o prefeito Kléber Eulálio, eleito conselheiro do Tribunal de Contas do Piauí. Manobras pouco éticas e discutidos méritos circulam nos labirintos das políticas deste mundo. Quando se trata do ministério sagrado, a História sempre provou que o reino dos céus não combina com o reino deste mundo: “Dai a César o que é de César; a Deus o que é de Deus”. Mais danoso quando sacerdotes se metem em política de esquerda socialista-marxista.

         Em 1846, o Papa Pio IX chamava a atenção dos fiéis para a “execrável doutrina do partido comunista e socialista”, que proclamava a revolução do proletariado e negava Deus. Em 1891, o Papa Leão XIII repetia a mesma advertência, na encíclica Rerum Novarum, sobre os “sistemas perversos do socialismo e comunismo”. Em 1937, Papa Pio XI considerava marxismo “o novo evangelho do bolchevismo ateu”.

         Depois do Concílio Vaticano II, que promoveu bocado de aberturas na interpretação da doutrina cristã, eclodiu uma onda de sacerdotes e freiras arredios a valores tradicionais da Igreja Católica. Além da batina, questionavam a obrigatoriedade do celibato e das regras de mosteiros e dioceses. Na Holanda, milhares de membros do clero debandaram para o mundo. Outros, mundo afora, permaneceram, porém inebriados de doutrinas marxistas como bandeira de evangelização. Imensos mosteiros, conventos e seminários esvaziaram-se, para acomodar projetos hoteleiros, por falta de vocacionados. Mundanismo, política partidária, revolução camponesa, escândalos sexuais e crise de fé incorporavam a biografia de expressiva parcela do clero. Atualmente, já renasce no seio da Igreja mais coerência com o evangelho de Cristo. Graças à participação dos leigos nos encontros de casais e de jovens,  nas atividades litúrgicas, na diaconização, além da administração material da paróquia, a Igreja se renova. Acrescente-se o carisma do Papa Francisco.

         Há necessidade de as autoridades eclesiásticas não se envolverem com o Poder, especialmente o dos últimos anos, cujos presidentes não rezam nem Pai Nosso. Muito ainda se espera de um clero abnegado e entusiasmado com a vocação missionária. Nada de se meter em política partidária, pior, orquestrada por corruptos e bandidos. Conforme o STE, em 2014, 23 padres brasileiros disputaram eleições, contrariando ordens do Vaticano e da CNBB.

         Padre Marcelo Rossi adverte: “Nunca vote em religioso”. Em visita à Guatemala, Papa João Paulo recebeu ministros do governo sandinista, marxista. Um dos ministros, Padre Ernesto Cardenal, aproximou-se para beijar-lhe a mão. O Papa o rejeitou: “Primeiro reconcilie-se com a Igreja”. Padres envolvidos em política quase sempre experimentam escândalos, assassinatos e rejeição dos fiéis. No Ceará, os padres Mororó e Ibiapina foram assassinados. No Piauí, vários denunciados ou cassados por condutas imorais.

         A tarefa política não cabe ao clero, mas a cristãos de boa vontade, com instrumentos da desobediência civil às autoridades que aprovam e afrontam princípios cristãos. Nisto os evangélicos são mais ativos. Padre Walmir e tantos outros membros do clero precisam se paramentar para exercer a vocação a que foram convocados e jurados no altar.      

terça-feira, 2 de junho de 2015

Rio Parnaíba


Rio Parnaíba


Hélio Soares Pereira



Já dez anos...

E tuas águas

transbordando meus olhos



Contemplo

de meus penhascos

e mangueirais

pequenas casas

- taipas de recordações

afogadas nas cheias



Jorra-me

tua lembrança

outra vez

- imagens

de febril espera



Aves rasantes

nos meus sonhos

retornam

E meu ser

perplexo

caminha sobre a fria areia



Olhos ouvidos

linguagem viva

em todos estes anos de ausência



Rio encantado

em meu quintal

num mar de sol

sobre casebres

assombrados

do meu jirau



O rio e a fonte

nesse rodopio

se misturam

beijando o céu

a terra

o mar



Filho da lua

em noites de prata

me ensinando

a pescar   

domingo, 31 de maio de 2015

Insônia


INSÔNIA

Elmar Carvalho

No silêncio abissal
da noite estagnada
a engrenagem pesada
do tempo se desenrola
e desaba sobre mim.

As botas cadenciadas
das horas marcham
- lentas lesmas –
marcham infinitamente
na noite sem fim...