segunda-feira, 13 de julho de 2015

OS MORCEGOS DA CAPELA


OS MORCEGOS DA CAPELA

Chico Acoram Araújo

            Certa feita estava eu, como de hábito, a fechar a janela de um dos quartos da minha casa, logo após a fuga dos últimos raios solares daquele calorento dia do mês de setembro. Contudo, através dessa janela que dava para o pequeno quintal da casa, ainda se via alguns ralos clarões reluzentes no poente, ao longe, entre as nuvens. Contemplei aquele cenário; um ar de felicidade e melancolia me abateu. Ao sair, ouvi um inopinado ruflar de asas no forro do recinto. O ambiente estava escuro.  Deduzi que fosse algum inseto ou um pequeno pássaro. Acendi imediatamente a lâmpada. De imediato, não vislumbrei o que voava sobre minha cabeça, pois o bicho se deslocava, sem bater nas paredes, em uma incrível velocidade. Só depois de um olhar atento, identifiquei que era um Chiroptera, conhecido vulgarmente como morcego, ou andirá ou guandira como os índios o denominavam em língua Tupi Guarani; o único mamífero que voa na face da terra, e possuidor de um extraordinário sentido da ecolocalização, que não é nada menos do que um biossonar ou orientação por ecos, que utiliza para orientação, busca de alimentos e comunicação. Reabri a janela, pequei de uma vassoura, pus o inusitado hóspede para fugir; desapareceu na noite já escura.

            A presença daquele pequeno mamífero voador, possuidor de mão e asa, daí o nome Chiroptera, de origem etimológica nos respectivos termos gregos cheir e pterón, que significa mãos transformadas em asas, me fez viajar, pelo túnel do tempo, para um determinado período de minha infância, na periferia de Barras do Marataoan. Era final dos anos cinquenta. Com cinco ou seis anos de idade, minha mãe cuidou logo de me colocar em uma escola. A única existente no bairro funcionava em uma antiga capela; atualmente igreja da Paróquia de Santa Luzia, no Bairro Boa Vista. A escola funcionava de forma precária e improvisada. A sala de aula era o grande salão da capela. Os longos bancos de madeira, onde os fiéis se sentavam nos dias de missa e novenas, serviam de carteiras escolares para os alunos. Uma bondosa senhora, de nome que não recordo agora, era a professora da escola; aliás, a única para ensinar cerca de 30 ou 40 alunos que se dividiam em duas turmas, sendo a primeira dos meninos iniciantes, e a segunda dos mais adiantados. O corredor que separava os bancos da igreja era o divisor das duas salas de aulas. O material escolar da criançada resumia-se em apenas um caderno de caligrafia e uma caneta-tinteiro. Os poucos livros, provavelmente pertencentes à professora, eram utilizados de forma coletiva. Hoje, creio que a metodologia pedagógica aplicada naquele rudimentar estabelecimento de ensino era positiva, pois quando minha família mudou-se para Teresina, em certo janeiro de 61, eu já sabia ler e escrever, razão esta que me fez ser promovido para uma série imediatamente superior, ou seja, para o “Primeiro Ano B” do Grupo Escolar João Costa, localizado na Rua Jônatas Batista, ao lado do Estádio Lindolfo Monteiro, no centro da cidade. Isso é uma outra história. Talvez, em outra oportunidade, poderei fazer uma dissertação sobre o assunto.

            No primeiro dia aula, ainda cedinho da manhã de uma provável segunda-feira, acompanhado da minha saudosa mãe, entrei na escola, ou melhor, na capela, onde já se encontravam a professora e mais alguns alunos. A mamãe bastante alegre me apresentou à mencionada educadora. Todo acanhado, dirigi-me para uma improvisada carteira escolar que ela apontara com um gesto de mão. Minha mãe me observou, e sorriu; voltou para casa, feliz. Logo depois, as duas salas de aula, separadas por uma parede invisível, estavam lotadas. A aula teve seu início. Não prestei muita atenção ao que a professora falou no começo, pois meus olhos estavam fixos no teto da capela. Boquiaberto, descobri vários morcegos pendurados, de ponta-cabeça, nas ripas do telhado. Estavam quietos, adormecidos. Voltei minha atenção para a professora. De vez por outra, olhava para aqueles engraçados ratos voadores.  Flagrei, algumas vezes, que eles também nos observavam, com seu olhar de olhos cegos, brilhantes e misteriosos. A capela, além de escola, também servia de dormitório diurno para aqueles pequenos animais, saindo os mesmos apenas durante a noite para se alimentarem de frutos, sementes, folhas, néctar, pólen e pequenos vertebrados. Acho que não se importavam com a presença dos alunos. Eles faziam parte do cenário escolar; tornaram-se indiferentes.

            Retornando-me dessa viagem de saudosas lembranças de criança lá do meu torrão natal, meus pensamentos voltaram para o hóspede que minutos atrás tomou rumo ignorado no breu daquela noite. Passei um bom tempo matutando porque muitas pessoas têm concepções fantasiosas sobre os morcegos, que geram comportamentos hostis e estimuladores de atitudes agressivas a esses animais tão importantes para a natureza. Sabe-se que quando há uma grande colônia de morcegos em uma região, estes facilitam o controle de peste, pois eles são predadores naturais de insetos. Além disso, os morcegos são importantes na polinização, pois estes ao visitar as flores para consumir néctar, acabam por transportar o pólen de uma flor a outra da mesma espécie, ajudando assim a reprodução das plantas visitadas. Da mesma forma, eles são responsáveis pela dispersão de sementes durante o ato de pegarem os frutos de diferentes plantas para comerem e, ao fazerem isso, ingerem ou carregam as sementes, dependendo do tamanho.

            Quanto aos mitos e famas dos morcegos, fiz uma pesquisa na Internet onde descobri algumas curiosidades sobre a nossa personagem agora em comento. Com relação aos vampiros, os morcegos estão impregnados em nossas mentes, pois os vampiros transformavam-se, às vezes, em morcegos, e saíam voando por aí, conforme mostram os filmes do gênero. Isso porque a lenda dos vampiros é muito conhecida e difundida em todo o mundo. O filme mais visto sobre vampiros foi aquele baseado na lenda do Conde Drácula, um romance escrito em 1897 pelo autor irlandês Bram Stoker. Daí muitos outros filmes foram produzidos e vistos no mundo inteiro. Dizem que a associação dos morcegos com essa lenda deve-se a três espécies de morcegos, sendo a mais conhecida a espécie do morcego-vampiro, encontrado no México e América do Sul. Importante salientar, que esse tipo de morcego não chupa, e sim lambe o sangue que sai da mordida desferida por ele. A outra identificação dos morcegos com os vampiros é o fato de esses animais terem hábitos crepuscular e noturno. Algumas espécies de morcegos gigantes são encontradas na África, Oceania e Ásia, que chegam a dois metros de envergadura, são conhecidas como “raposa-voadora”. Quanto ao mito de os morcegos serem cegos deve resultar da imaginação de que estes usam exclusivamente a ecolocalização. Pelo contrário, os morcegos têm uma visão excelente. A ecolocalização, ou o sexto sentido, vamos assim dizer, é um recurso adicional que os morcegos possuem.

            Para finalizar, transcrevo a seguir uma interessante fábula criada pelo grego Esopo que conta a história envolvendo a nossa personagem desta crônica: o enigmático morcego. A princípio, imaginei não existir nenhuma fábula com o protagonista aqui evidenciado. Antes, porém, creio ser oportuno dizer quem foi Esopo. Segundo a enciclopédia Wikipédia, ele foi escritor da Grécia Antiga a quem são atribuídas várias fábulas populares. A ele se atribui a paternidade das fábulas como gênero literário. As suas fábulas serviram como base para recriações de outros escritores ao longo dos séculos, como Fedro e La Fontaine. O fabulista grego teria nascido no final do século VII a.C. ou no início do século VI. O local de seu nascimento é incerto.
Eis a história do fabulista grego Esopo:

O Morcego e a Doninha

Um morcego desajeitado caiu acidentalmente no ninho de uma Doninha, que, com um bote certeiro o capturou.
Atemorizado, o morcego pediu que esta lhe poupasse a vida, mas a Doninha não queria lhe dar ouvidos.
“Você é um rato, ela disse, “e eu sou por natureza inimiga dos ratos. Cada rato que pego, evidentemente, me serve de jantar, essa é a lei.” “Mas, a senhora veja bem, eu definitivamente, não sou um rato!”tentou explicar o infeliz Morcego. “Veja minhas asas. Você já viu um rato que é capaz de voar? Claro que sou apenas um tipo de pássaro, de uma variedade, podemos afirmar, um tanto exótica. Por favor, me deixe ir embora!”.
A Doninha, olhando melhor para sua vítima, concordou que ele não era um rato e o deixou ir embora. Mas, alguns dias depois, o mesmo atrapalhado Morcego, cegamente, caiu outra vez no ninho de outra Doninha.
Ocorre que Esta Doninha era inimiga declarada de todos os pássaros, e logo que o tinha em suas garras, preparou-se para abocanhá-lo.
“Você é um pássaro,” ela disse, “por isso mesmo o comerei!” “O que?” Exclamou o Morcego, “eu, um pássaro! Isso é quase um insulto. Todos os pássaros possuem penas! Cadê minhas penas, você é capaz de vê-las? Claro que não sou nada além de um simples rato. Tenho até um lema que é: Abaixo todos os Gatos!”
E o Morcego teve sua vida poupada pela segunda vez.
Moral da história:
1.     Sábio é aquele que é flexível, que sabe analisar a situação e agir de acordo com as circunstâncias.
2.     O sábio aprende a tirar do problema uma solução incapaz de criar outros problemas ...                

domingo, 12 de julho de 2015

LÍRICA 2.222


LÍRICA 2.222

Elmar Carvalho

Eu vi teus olhos
de pedras verdes musgosas,
dissolvendo-se em líquido
no verde móvel do mar.
Teu corpo vi tomando
a forma da praia
e a tua voz assumindo
a cadência da música
das ondas.

De você me veio
uns longes veios de saudades
e maresias
invadindo meu ser.

Os teus cabelos
eram loiras algas,
encrespadas em ondas do mar.

As curvas
da terra e do mar
são apenas projeções
da poesia selvagem de teu corpo.

Sim, sinto ainda te amar
a leste, oeste, ao vento e ao mar,
com a mesma paixão incontida
de um gesto feito de raiva,
do tempo em que eu tinha
a inocência e o pecado
de um deus feito de pedra.  

sábado, 11 de julho de 2015

VENDEDOR DE ORAÇÕES

Foto meramente ilustrativa

VENDEDOR DE ORAÇÕES

Jacob Fortes

Certa feita, visitando uma dessas feiras populares, deparei-me com um vendedor de orações, ancião atópico para não dizer esquisito. Atendia pelo apodo de “Louro”, arruivado, corpo pesado, protuberância abdominal e papadas pletóricas. Caricaturado de frade capuchinho, quiçá rabino, vestia uma espécie de sobrepeliz, de cor solferino e barrete, na cor branca, sobre a coroa descalvada. Sua barba branca e hirsuta completava o caricatural fradesco. De sorriso blandicioso e mansuetude distintamente imperturbável, apregoava, em tom de veracidade, que as orações à venda, cada qual com seu propósito, eram de virtudes prodigiosas. A cada dezena de orações adquirida o comprador recebia de brinde um frasco de água benta que, segundo afirmava, depois de espargida no interior da residência tinha o condão de impedir a entrada do “sujo” ou quaisquer dos seus emissários satânicos. Por meio de um pequeno inquérito pude saber desse vendedor, propagandista da fé, a serventia das tais orações de salvação. (É o meio que cada um engendra para amealhar tostões valedores; melhor que pilhar a algibeira de quem trabalha).

Vendia orações para todas as finalidades possíveis e inelutáveis, em vários idiomas, inclusive em árabe. As súplicas, em cada uma, se endereçavam, conforme o caso, aos mais diversos Santos, dentre eles Santo Elesbão. Nessa lista figurava os que ainda não haviam passado pelo rito da canonização, portanto desconhecidos do Santo Papa. Exemplificativamente, eis a serventia das orações: em favor do bom parto, do perdão eterno, da saúde e segurança pública; contra vícios e defeitos, dores em geral, raios, tremores subterrâneos, mau-olhado, afogamentos, mordida de cão, picada de cobra, desilusões amorosas, corrupção, propina, suborno, caixa dois, ditadura, analfabetismo, injustiças, malversação, cooptação, fisiologismo, despotismo, nepotismo, tráfico de influência, ateísmo, celibato, etc. O “Louro” tinha particular predileção pela reza que prometia sono bem dormido: (“Nesta cama me deito, desta cama me levanto, a Virgem Nossa Senhora me cubra com seu manto”). Mas não se podia descuidar de certos rituais sem o que as orações não surtiam os efeitos desejados: umas haviam de ser penduradas ao pescoço do suplicante, em forma de escapulário, outras ao cós da saia e assim por diante. Também, que as rogativas fossem formuladas de modo fervoroso.
Nas palavras do “Louro” os santos, educados na humildade evangélica, não se fazem de rogados: se esmeram em atender tolerantemente todos os pleitos, requerimentos e cartas de empenho.

E eu, pobre mortal “borra-papeis”, que não ouso contraditar a existência de Deus e do poder das orações, (isso fica para os agnósticos), tratei de adquirir não apenas uma, mas o maço completo: quarenta orações. Afinal, além de asceta e espiritualizado, também sou crendeiro brasileiro. Espero em Deus que as orações sejam de grande valimento não apenas para este modesto escriba, mas para os seus ledores. Que elas nos valham nas aperturas; que possam remediar as nossas precisões sobremodo mitigar os duros momentos do ajuste fiscal, imposição do governo que aflige, dia e noite, o cérebro dos brasileiros: que porejam na faina para honrar as suas obrigações e bancar os que vivem parasitariamente.    

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Elmar Carvalho: a toga, a memória e o lirismo



Charges: Gervásio Castro

Elmar Carvalho: a toga, a memória e o lirismo

Cunha e Silva Filho
Escritor. Professor. Pós-doutor em Literatura Brasileira

A carreira do escritor Elmar Carvalho se divide, a meu ver, em duas fases: a de maior expressão, a poesia de vanguarda, que lhe deu notoriedade e a da sua produção em prosa algo conservadora, mas não anacrônica. A poesia, por enquanto, quero crer que possivelmente hoje a cultive por via indireta, ou seja, pelo saudável exercício das leituras.

            Contudo, ninguém pode exigir que um poeta que escreveu obra de reconhecida qualidade estética seja obrigado a produzir por vontade e desejo alheios. A poesia, como qualquer obra literária, não nasce por decreto ou por injunções legais. Só ao poeta é dada a possibilidade de livremente criar ou não.

            A criação literária é um fenômeno artístico que só medra como manifestação natural da vontade de quem a produz, no tempo que lhe aprouver. O silêncio poético só aos poetas pertence. Em consequência, não temos o direito de lhes exigir nada no domínio criativo.

            Ao falar da prosa de Elmar Carvalho, me refiro ao gênero ficcional. Por outro lado, não estou insinuando que em outras manifestações da escrita não-ficcional, ele tenha produzido obra inferior, porquanto no ensaio não acadêmico, na crítica igualmente não-acadêmica, assim como na crônica de caráter lírico, dramático ou lidando com matéria sobrenatural, o poeta Elmar Carvalho tem sabido produzir alguns textos de indiscutível qualidade literária.

            No autor, entretanto, a poesia se insinua em sua produção não-poética, i.e., o lirismo, nele permanente como estratégia de linguagem de maior imaginação criadora, não lhe permite deixar de vez a poesia, ainda que não o queira. Por conseguinte, no ponto mais alto de sua obra, continua poeta e, em segundo plano, o prosador, quer no ensaio, na crítica esporádica e na ficção. É dentro dessa perspectiva de abordagem crítica que me volto para comentar-lhe o livro de memórias recém-editado, Confissões de um juiz (Teresina: Academia Piauiense de Letras, 2014, 193 p. Prefácio de Reginaldo Miranda).

            Determinadas vidas merecem transformar-se literariamente em memórias em face de sua específica trajetória profissional e pessoal. No exemplo do poeta Elmar Carvalho, pelas circunstâncias e impactos de sua vida pessoal e profissional, o recurso do autor a reproduzir criativamente certas partes significativas de sua vida não lhe veio por veleidades ou exibicionismos subalternos, mas para dividir com o leitor o que de seu percurso existencial valeria a pena ser compartilhado pelos seus coetâneos. Pode ter sido uma forma de catarse, pode também ter sido uma vontade insopitável de dar testemunho da experiência de vida do seu tempo tanto na carreira de magistrado quanto na de um homem que enfrentou os desafios e os rigores provocados por uma doença que o atingiu por duas vezes e da qual saiu vitorioso.

           Suas memórias, segundo assinalou no final do prefácio, são “confissões,” o que quer dizer que nelas os relatos se fizeram a bem da verdade, sem subterfúgios, sem maquinações.

Procurou, assim, a verdade limpa e desnuda, a que, enfim, interessa como lição de vida dividida entre o afeto, a dor, a saudade, as perdas, os ganhos e o pacto com a literatura rememorativa, que se alinha, desde os primeiros cronistas portugueses, os primeiros historiadores lusos, as primeiras biografias em língua portuguesa a se interessarem pela experiência vivida em várias situações da existência humana.

Aí se incluem os nomes que primeiro vão dando um contorno memorialístico a narrativas que fizeram história, aí se incluindo os nomes de Garcia de Resende, com as suas Miscelâneas, e o de Fernão Mendes Pinto com a sua Peregrinação. A linhagem se avoluma com o passar dos séculos até chegar à contemporaneidade.

O mesmo se poderia afirmar das primeiras produções literárias brasileiras com acento memorialístico, desde a carta de Pero Vaz de Caminha até aos tempos de hoje, em que o Brasil pôde contar com grandes nomes de autores de memórias, Joaquim Nabuco, Gilberto Amado, Érico Veríssimo, Álvaro Moreira, Humberto de Campos até culminar com o grande memorialista Pedro Nava.

No Piauí, penso que temos ainda uma quantidade considerável de livros de memórias ou autobiografias. Do meu conhecimento, alguns autores já enveredaram por este gênero. Sem citar os títulos, menciono pelo menos os autores: H. Dobal, Nasi Castro, Francisco Miguel de Moura, Eleazar Moura, Geraldo Almeida Borges, Celso Barros Coelho, Homero Castelo Branco, José Ribamar Garcia, Assis Fortes, Olemar de Souza Castro e o autor deste artigo, que acaba de concluir um livro de memórias, de título Apenas memórias.

Cada livro de memórias singulariza-se por um traço particular, por uma escolha geralmente circunscrita à vida profissional do autor, que pode ser um médico, um professor, um escritor profissional, um juiz, um cientista, um político um ator, um militar etc. A profissão compreende as vivências do memorialista e é a partir dela que o autor se alia ao papel do escritor-memorialista.

No exemplo de Elmar Carvalho se repete esta estratégia narrativa neste gênero literário.

No poeta Elmar Carvalho, do ponto de vista profissional, um ciclo de vivências se fechou logo que lhe veio a aposentadoria de juiz. É desse recorte de sua experiência como juiz que nele surge a possibilidade de contar suas memórias. Dessa empreitada se saiu muito bem como artista da palavra a serviço das evocações de um juiz que percorre lugares diversos do interior piauiense, do seu dia-a-dia de julgador de litígios, de conciliador nos momentos em que era preciso pesar na balança da justiça os prós e contras a fim de dar o veredicto mais justo possível ou, como o memorialista deixa sugerir nos seus relatos, julgar sempre tendo em vista o lado dos mais fracos.

Seu percurso de magistrado se realiza em várias comarcas, cada qual com suas peculiaridades, com a sua realidade própria e com seus diferentes problemas. Poder-se-ia dizer, o juiz Elmar Carvalho é sempre aquele viajante compelido, por seu ofício, a mudar de lugares, a conhecer outras pessoas, a conviver com o provisório.

Poderia chamar seus relatos de memórias telúricas, visto que o juiz com suas “confissões” não perde tempo para ir registrando fatos, cenas, paisagens, natureza diversa, pessoas diferentes que encontrou em cada comarca interiorana para a qual era designado.

A paisagem interiorana, os costumes, os hábitos, a vida social, a vida cultural, se lhe fixaram na retentiva. Tal espólio da memória - “quase dezessete anos de magistratura” -, se lhe tornaria farto material de rememoração e de análises instigantes em forma de livro.

Confissões de um juiz não se cinge apenas à experiência técnico-burocrática de um magistrado-poeta. As memórias se expandem a outras vertentes de sua função.

O memorialista não é só o homem da Justiça, mas o cidadão que tem suas aspirações e seu idealismo, além de sua atuação de escritor, de cronista, de ficcionista, de ensaísta que não para de publicar, tem seu blog, vive a vida intelectual piauiense, está em sintonia com o mundo acadêmico e com a vida literária de seu Estado. Participa de questões ambientais, culturais, desportistas, como, no caso da primeira, a da preservação do rio Parnaíba em páginas contundentes de reação contra os inimigos da natureza.

A obra em exame não é só depositário de fatos da vida de um juiz, mas se compõe de textos pictóricos onde o estatuto da linguagem assume toda uma força lírica, com belas e comoventes passagens onde se distingue o talento do memorialista na pintura da paisagem, da flora e fauna piauienses, como são exemplos paradigmáticos, na segunda parte da obra, “Memórias afins,” passagens de muita beleza e vigor descritivo (“Oração à Vila de São Gonçalo de Regeneração”, p.57-65 “Evocação de Piracuruca,” p.79-81).

Porém, a beleza de alguns textos não se faz apenas de paisagens bem descritas, mas também de textos alusivos à condição da justiça praticada para o bem e à necessidade da prática da bondade consoante lemos na seção “Exortação à justiça e à bondade (p.74-77).

O memorialismo de Elmar Carvalho reúne uma gama de visões e perspectivas formando um painel no qual o autor fala de escritores, pessoas comuns, servidores da justiça, condição humana, injustiças, prepotência, vícios humanos, erros da administração pública, erros da justiça, em que nada lhe escapa do olhar de espectador atento às misérias humanas.

Outros temas lhe são caros nas relembranças, a sua participação de atleta, de goleiro, a sua permanência no Recife a fim de realizar um curso de monitor postal.

Não lhe falta fortaleza moral para reportar-se ao câncer de que foi vitima, da luta para a sua recuperação e cura, de uma recaída, formando estes relatos um ponto algo trágico de sua caminhada existencial, felizmente tendo superado tudo com uma vida renovada e pronta a seguir sua travessia agora mais empenhada no universo em que talvez mais se sente bem e recompensado, que é o de produzir literatura.

Prende-me a atenção, de forma especial, por seu sentido de humanidade, de afeto, e de saudade, a terceira parte das memórias, denominada “Memórias afetivas.” Neste capítulo o poeta Elmar despe-se de qualquer formalismo de linguagem e adentra o mundo dos sentimentos, contudo, sem pieguismo.

Discorre sobre a perda da mãe, da família, da morte precoce e trágica de sua irmã Josélia, de seu amigo inesquecível, Zé Henrique, de seus antepassados, da grandeza moral de seu pai, Miguel Arcângelo, felizmente ainda lhe dando o prazer de seu convívio, da perda inconsolável de sua irmãzinha Josélia, falecida, aos quinze anos, em acidente de carro, de seus amigos, de seus irmãos e irmãs e last but no least, das mortes de duas cachorrinhas de estimação, exemplos edificantes da capacidade de animais serem tão humanos, tão mais do que alguns humanos, Belinha e Anita, em textos de beleza pungente, em cujo tempo de leitura não contive as lágrimas.

Elmar Carvalho pertence à estirpe de escritores que não deixam escapar a conveniência de entender a “alma” dos bichos, como o fazia tão bem outro retratista de animais, o escritor Guimarães Rosa (1908-1967), com a sua modelar estória de profunda humanidade, “O burrinho pedrês", um conto de Sagarana (1946). Assim como podíamos citar outros escritores que deram estatura de humanidade a animais e bichos, como Graciliano Ramos (1892-1953), com a sua cadela Baleia, de Vidas secas (1938) e o ficcionista piauiense, Rivanildo Feitosa, em clave cômico-erótica, com a personagem-protagonista, uma cadela vira-lata, de nome Sabiá, do romance Reflexões de uma cadela vira-lata (2011).


A derradeira parte das Memórias de um juiz se destina ao que chama de “Memória fotográfica.” O bom é que para cada foto o autor preparou pequenos textos informativos sobre as fotos, num total de 29, representativas de momentos marcantes de sua vida pessoal, familiar e profissional. Finalmente, ao livro acrescenta uma quinta parte, formada de depoimentos sobre o autor de figuras da vida cultural piauiense. As duas últimas páginas contêm uma “síntese biográfica do autor."

quinta-feira, 9 de julho de 2015


DOIS POEMAS DE ÉDISON ROGÉRIO (*)

MEDO

A noite avança negra como o breu

A lamparina brilha longe, no alto do morro.

Meu pai diz: é o guabiru. Agarro-me a ele

Transido de medo peço socorro

Cinco anos de vida, criança assustada,

O coração tímido bate em disparada

Medo de quem não conhece a vida.

O sol levanta e a vida de sonhos continua

O tempo passa a vida segue cheia de realizações

Desilusões, relacionamentos vis e peito vazio.

Eis que inesperadamente surge o rocio

Como alvíssaras de um verdadeiro e puro amor

Mas corações cruentos açaimaram-no.

Ibá amedrontou-se. O medo das consequências pesou.

Kaolin partiu, a flor viçosa murchou, o medo venceu!

Toriba, adeus.


SEM ELA

Amanhece, o rouxinol cantando voa

ao encontro do dia e da companheira.

Vida leve, felicidade plena,

Alguém por quem lutar



Brisa que sopra na manhã de verão,

lindo sol iluminando tudo.

Contraste com o ocaso da vida

sem graça, sem cor, sem ela.



Processos, partes, direito a proteger,

Missão a cumprir. Pra quê?

Vento geral que sopra pro norte

Traz-ma! Devolve-me a vida.



Carolina das lindas cachoeiras,

Riachão dos poços azuis!

Beleza infinda, natureza sem par!

Alegria não vista, tristeza que corta,

ausência que mata.



Sem ela, vida sem viço, vazio no olhar.

(*) O autor é juiz de Direito e poeta bissexto (mas bom).   

O PALHAÇO ASSASSINO



9 de julho   Diário Incontínuo

O PALHAÇO ASSASSINO

Elmar Carvalho

Como já tive oportunidade de dizer, em meus tempos de garoto fui levado a cinema, jogo de futebol e a espetáculos circenses por meu pai. Disso guardo enternecidas e saudosas lembranças, que me provocam um misto de regozijo e nostalgia. Portanto, assisti a talentosos palhaços, mestres das gargalhadas e da alegria, que me encantaram em minha meninice. Infelizmente, desde muito tempo, em sentido impróprio e pejorativo, palhaço passou a ser sinônimo de moleque, de malandro, de dissimulado, de debochado etc.

Depois, em minha juventude e maturidade, admirei alguns notáveis humoristas, como Chico Anysio, Jô Soares, Renato Aragão, o Didi, Dedé Santana, Mussum, Tutuca (com seu célebre bordão: “Ah, se ela me desse bola...), Ronald Golias etc. São os comediantes da contemporaneidade ou os famosos palhaços da TV. Todavia, enquanto existir circo, acredito que os palhaços, de exageradas mímicas, de roupas espalhafatosas, bufantes e coloridas, de enormes e largos sapatos, de caras pintadas, de ridículas perucas ou mais ridículas carecas, continuarão existindo.

A literatura e o cinema celebrizaram ou mesmo criaram imortais palhaços. Seguindo a legenda de que o show não pode parar, de que tem de continuar de qualquer maneira, o grande poeta cearense padre Antônio Tomaz, em comovente soneto, relata que certo palhaço, embora com o coração dilacerado pela morte da filha querida, por exigência do dono do circo, teve que se apresentar no picadeiro. Foi compelido a fazer a plateia gargalhar, conquanto sua alma soluçasse.

O sublime poeta alemão Heine, no poema O tédio, conta a história de um homem, que consumido pela tristeza, que hoje seria rotulada como sendo uma depressão aguda, foi consultar famoso médico, tendo este lhe recomendado que fosse assistir às apresentações do palhaço Arlequim, mestre supremo da arte de arrancar gargalhadas e aplausos. O paciente, ante essa “receita”, declarou que o seu mal não teria remédio, porquanto ele era esse considerado inigualável clown.

Ainda ontem, através da Netflix, assisti ao filme espanhol Balada do amor e do ódio, que conta a história do triste palhaço Javier, que se apaixonou pela linda trapezista Natália, namorada de outro palhaço, de nome Sérgio, grande em sua arte, mas violento em sua vida pessoal. Belo filme, que recomendo aos amantes da sétima arte. Pensei que seria uma tragicomédia, mas na verdade foi uma pura tragédia passional de artistas que, apesar de tudo, amaram a arte circense e as crianças.

Poderia ainda citar a personagem trágica do conto O aniversário da Infanta, de Oscar Wilde. Trata-se de um anão disforme, de feiura grotesca, mas que arrancava gostosas gargalhadas da princesa e de seus nobres companheiros, como se fora um legítimo bobo da corte. Ou poderia falar de O Bobo, protagonista maquiavélico do romance de mesmo título, de Alexandre Herculano. Contudo, para não me avantajar em linhas, deixo que o leitor se encarregue de conhecê-los na íntegra, fazendo uso das narrativas originais.

Já escrevi vários textos sobre circos e palhaços. Sobre Slava Polunin, do Cirque du Soleil, produzi uma crônica, em cujo final digo: “Além de atuar em vários shows de palhaçadas (no bom sentido da palavra), criou alguns números para o Cirque du Soleil. Perguntado sobre se era alegre, ao contrário dos palhaços de Heine e do padre Antônio Tomás, respondeu que era radiante. Todavia, depois, em outro trecho da entrevista, quando a apresentadora lhe perguntou se tinha algum momento de tristeza, disse que sim. // Claro, como em todo ser humano, em sua alma deve haver alguma hora sombria, por onde se infiltra o fio insidioso de sutil melancolia.”

A respeito de outro palhaço, nascido na antiga União Soviética e falecido nos sertões de dentro, mais precisamente na cidade de Jaicós, muitas décadas atrás, cuja história me foi narrada pelo deputado Humberto Reis da Silveira, compus o poema A cova do palhaço, do qual transcrevo os seguintes versos: “Distante do rincão eslavo, / numa cidadezinha perdida do agreste, / traspassado pela irremediável tristeza infinita, / nostálgico de tudo, nostálgico e só, / morreu numa tarde tristonha, / na hora melancólica do sol-posto. / Pó ao pó. Corpo deposto.”

Meu pai, Miguel Arcângelo de Deus Carvalho, que em sua maturidade escreveu algumas crônicas e artigos, vários publicados no jornal A Luta, de Campo Maior, elaborou o texto Palhaço, em que consignou: “(...) como disse, certa vez, um velho pensador: “Tenho servido de agulha a muita linha ordinária”; diria eu, agora, tenho servido de palhaço a muita platéia ordinária.” Trata-se de mera força de expressão, de retórica, de metáfora. Meu pai nunca foi palhaço. E sempre mereceu o acatamento e respeito de seus amigos, familiares e contemporâneos.

Agora, para meu assombro e tristeza, pela televisão, soube da existência de um palhaço assassino. Já conhecia a personagem cinematográfica Chucky, o brinquedo assassino. De qualquer forma palhaço e brinquedo, por sua própria finalidade, não se harmonizam com tristeza e morte. Na verdade ambos devem proporcionar alegria às crianças. O chamado palhaço assassino, por motivo de ciúme, teria matado a sua jovem esposa, com quem tinha uma filha de apenas cinco anos.


Cai a empanada, com rubras manchas de sangue, sobre o picadeiro. E os holofotes se apagam.   

quarta-feira, 8 de julho de 2015

MENINO OU MENINA? NÃO, SÓ CRIANÇA


MENINO OU MENINA? NÃO, SÓ CRIANÇA

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

             Quase meio-dia. A coordenação do programa Agora, da TV Meio Norte, telefonava-me, convidando-me para participar de debate, às 12.40. Topei, sabendo dos percalços do exíguo tempo de preparação e complexidade do tema, IDEOLOGIA DE GÊNERO. Naquele momento, a Câmara Municipal de Teresina, lotada e barulhenta, discutia o PLANO DECENAL DE EDUCAÇÃO. O público acendeu-se e dividiu-se quanto à designação de sexo e gênero das crianças. A televisão transmitia a sessão, com chamadas em tempo real. Nenhum dos debatedores, porém, compareceu ao programa Agora. E agora? Só eu e poltronas vazias. Montou-se uma entrevista improvisada comigo, nos jardins externos. O repórter, catando o que me perguntar, e eu, desengonçado, mas trêmulo. Bem-feito, não se tomam decisões levadas por emoções e interesses pessoais de classes e partidos. IDEOLOGIA DE GÊNERO é um desses movimentos apaixonados, que se assemelham a debates e decisões improvisadas.

Cincinato Leite, de Messejana, na grande Fortaleza, solicita-me uma crônica que trate da questão do gênero. Caro Cincinato, temas polêmicos, como esse, surgem num momento em que o país acompanha, assombrado e indignado, monumentais desvios financeiros de governos e empresas.

A discussão da IDEOLOGIA DE GÊNERO serve de porre homérico para desviar as atenções da sociedade para os graves crimes. Repetiram mesmo recurso, durante período de julgamento e condenação dos mensaleiros: montaram o teatro da COMISSÃO DA VERDADE: arrancaram ossadas do ex-presidente João Goulart, cassado pelo regime militar, além dos “heróis” comunistas executados naquela época, como desforra contra as decisões do Judiciário.

No senso comum, o termo ideologia contém o sentido doutrinário e visões de mundo por um indivíduo ou grupo, orientados para ações sociais, especialmente políticas. Serve de instrumento de dominação, persuasão e convencimento, alienando a consciência humana ao extremo.

 A ideologia mascara a realidade, cega a opinião pública, seja no campo político, como no território religioso exacerbado, já culminou em suicídio coletivo. Teorias naturalistas de Charles Darwin e Francis Galton, cujos estudos se baseavam na hereditariedade e seleção natural, despertaram virulento racismo, a partir da segunda metade do século XIX. Na época, Galton cunhou o termo EUGENIA, que desaguou no arianismo nazista, espalhando-se pela Europa e América. Escolas religiosas, inclusive em Teresina, criavam barreiras para matricular negros e caras pálidas. Nos anos 60, movimentos feministas resgataram valores das mulheres, porém causaram certos dissabores no universo do lar, como o divórcio.


Suécia e Holanda já adotam a IDEOLOGIA DE GÊNERO, isto é, crianças nascem sem sexo, portanto nada de denominá-las, em documentos, o gênero. Quando crescidas elas/eles decidirão a sexualidade. Movimentos gays batem palmas, avançam, quase na tentativa, não de exigir que lhes respeitem a opção sexual, mas que todos sejam como eles/elas. Papa Bento XVI bem expressou: “Com o ateísmo, A IDEOLOGIA DE GÊNERO é a última rebelião da criatura contra sua condição de criatura”. Final dos tempos?      

segunda-feira, 6 de julho de 2015

DUELO DE VOVÔS HISTÓRICOS


DUELO DE VOVÔS HISTÓRICOS

Luís Alberto Soares (Bebeto)

Fim de vida x Pé na cova - No próximo dia 25, sábado, a partir das 16h, no Society Clube de Amarante, no bairro Limoeiro, será realizado um novo encontro de confraternização envolvendo jogadores amarantinos e de outras localidades que marcaram história no futebol de Amarante e por esse Brasil a fora.

A principal atração serão os times FIM DE VIDA e PÉ NA COVA, duas tradicionais referências do futebol da terceira idade de Amarante-Piauí. Fim de Vida Esporte Clube, surgiu na década de 90, numa idealização de Virgílio Queiroz, durante um Encontro Cultural. O primeiro jogo foi contra o time formado por servidores da Fundação Cultural do Piauí, onde os visitantes perderam pelo placar de 3 X 0.

Posteriormente, Fim de Vida tornou a vencer a mesma agremiação. Desta feita por 3 X 2. Depois o clube ficou sem participar durante alguns anos. A sua última apresentação se deu em 1998 quando a equipe perdeu para os jogadores de Teresina Ressacados Eternos (time do Dr. Newton Nunes), pelo placar de 5 X 2.

Bebeto Soares criou o Pé Na Cova Esporte Clube para ser o eterno rival do Fim de Vida. “Orlando Curtidor”, reverenciado também como “Zagueiro Muralha”, ao lado do seu irmão Antônio Soares (Tota), organizaram em 2013 e 2014, uma comemoração dos grandes nomes do futebol de Amarante do século passado, com jogadores beirando os 80 anos, no Clube Society Amarantino.

O confronto contou com o apoio do SAMU de Amarante, de funerárias, de farmácias, Clínica e Laboratórios e teve a animação da banda Rasga Mortalha, Charanga Sepultura e do Grupo de Samba “Unidos Pela Saudade”. As torcidas organizadas “Findevidestes e As Penacovedestes”, com garotas de 50 anos, um show à parte.


Os jogos acontecem no 3º sábado de julho. Vale salientar que minutos antes da competição, os jogadores consumiram muitas bananas conduzidas pela jumenta Vanusa, num oferecimento do popular amarantino Riba da Banana Comprida. Depois, churrasco e muita cachaça.

Lançamento de Címbalos e aniversário do Café Literário


domingo, 5 de julho de 2015

Dílson Lages eleito para a Academia Piauiense de Letras

Em pé, da esquerda para a direita: Homero Castelo Branco, Humberto Guimarães, Fonseca Neto, Reginaldo Miranda, Oton Lustosa, Francisco Miguel de Moura, Paulo Nunes, Dílson Lages, Magno Pires, Nildomar da Silveira Soares e Elmar Carvalho.
Agachados: Herculano Moraes e Nelson Nery Costa

Dílson Lages Monteiro cultiva gêneros literários diversos e publicou doze livros, passeando entre a prosa e a poesia, além de produzir livros didáticos. Para o professor de Teoria Literária da Universidade de Brasília, Ricardo Araújo, “A poesia de Dílson Lages tenta recuperar através do sentidos “O sabor das imagens”, propondo novas associações de imagens e ampliando o horizonte de possibilidades metafóricas". Ainda, segundo Araújo, "Lages cria novas metáforas buscando ilações inusitadas e auscultando os diversos sons provenientes destes seres peculiares que integram a personalidade humana de cada um de nós".

O processo de criação de imagens na poesia de Dílson é também destacado pelo escritor Francisco Miguel de Moura. Na mais recente edição de Literatura Piauiense, editado em junho de 2015, Moura enfatiza que esse é o traço estilístico que personifica a poética de Dílson. “Sua dicção poética tem matriz na imagem com sobreposição de metáforas, no uso da metonímia e outros tropos”, diz, enfatizando que o poeta “vai reinventando recursos além da retórica tradicional, ao lado de criações linguísticas da modernidade”.

Rogel Samuel, romancista, críticos literário e professor aposentado da Pós-graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, escreveu que a poesia de Dílson, principalmente no livro Os olhos de silêncio, é uma poesia “Zen”. Diz o escritor que “ é a poesia mínima, reduzida ao mínimo, no minimalismo característico do pós-moderno”.

A atuação de Dílson Lages  na literatura vem se estabelecendo nos últimos anos pela exploração da prosa de ficção  em narrativas curtas e longas.  O morro da casa-grande (1997, duas edições), novela, e O rato da roupa de ouro (2014), conto infantil, foram recebidos com louvor por leitores e críticos literários. Adotados em escolas no Piauí e fora dele, esses livros consolidaram um novo escritor em formação. Naquele, o prosador uniu memória, ficção e poesia, para contar a destruição do patrimônio cultural de sua cidade-berço; neste, resignificando elementos do conto infantil clássico,  aproveitou para, por meio do lúdico, envolver as crianças em virtudes universais como a bondade e o altruísmo.

Conforme o crítico literário  Manoel Hygino do Santos, da Academia Mineira de Letras, em artigo publicado no jornal Hoje em Dia (Belo Horizonte-MG), “O morro da casa-grande trata-se de um trabalho interessante, a que não faltam vocábulos praticamente não usados no Sudeste e no Sul, expressões bem próprias do interior piauiense. Mas um texto agradável, com uma narrativa que faz sentido e tem propósitos claros, entre os quais o de proteger tanto quanto possível o legado das velhas gerações”.

Analisando a linguagem empregada por Dílson Lages na novela "O morro da casa-grande", o escritor e crítico literário Cunha e Silva Filho, Pós-doutor em Literatura pela UFRJ, ressalta que a "ideia propiciada pela leitura da sua narrativa teria aquela mesma sensação da leitura de um texto poético". O crítico acrescenta que, "Há um dado que muito conta a favor desse escritor: é que, ao lado da linguagem que, por vezes, tangencia a poetização do seu tecido literário, ao mesmo tempo existe um cuidado especial com a linguagem, com a sintaxe do discurso narrativo, e isso é bem visível no espaço do enunciado, no qual as imagens poéticas e o lirismo potencialmente forte se casam perfeitamente, numa harmonia de um discurso que traz um sabor - diria - clássico".

Dissecando temática e estruturalmente a novela, Cunha e Silva Filho esclarece que “o leitmotif da narrativa não deixa de ser a derrubada da igreja na sua imbricação com a imagem fantasmagórica do morro da Casa-Grande. Dessas duas circunstâncias podemos depreender toda a motivação  do núcleo  do relato. A Igreja da Matriz  de Barras reforça esse elemento temático-nuclear com  a chancela histórica de ilustrações inseridas no corpo do texto , assim como de outras ilustrações e paisagens alusivas ao meio rural, a um antepassado histórico, ao rio Marataoã, a ruas de Barras, a outros logradouros da cidade e, finalmente,  a ilustrações representativas daquela igreja. Esses dados da realidade no campo e  na cidade, por assim  dizer, quebram a chamada ilusão ficcional, predispondo o leitor a uma volta ao mundo empírico e a ver a ficção como  uma mera construção imaginativa, mas não desligada dos seus liames histórico-culturais.”

Para a escritora e doutora em Estudos Literários pela UFG, Rosidelma Fraga, “O projeto de escritura histórica é seco, medido e racional, mas a forma como a narrativa é contada, sem dúvida, é de um lirismo derramado”. Ela salienta que ‘a ênfase do narrador para a antiga cidade de Barras do Marataoã é tão delineada que o rio de mesmo nome parece adquirir vida humana em forma de lirismo puro: “O Marataoã parece que saiu do lugar – repetia a balconista, com o leque nas mãos. O leque dançando, dançando, ao som seco e abafado do vento. O leque atritando o ar em coreografias” (MONTEIRO, 2012, p.13).’

Entre os que escreveram sobre o conto infantil O rato da roupa de ouro, ricamente ilustrado por Ângela Rêgo, está o crítico literário de O Globo José Castello. Em extensa resenha, Castello desnuda os mecanismos de criação empregados por Dílson Lages,  para levar o tema da política e do poder aos pequenos. Para o crítico, “A história de Dílson Lages Monteiro conduz seus pequenos leitores a uma confrontação precoce (e divertida) com a fragilidade dos valores humanos. Mostra-lhes que eles são móveis, que eles são instáveis, que eles são transitórios — que eles são, enfim, o que define o próprio humano”.

O Portal Entretextos, que agrega colaboradores e entusiastas da literatura, é criação de Dílson Lages. Fundado em 2002, o Portal é referência em literatura. Em artigo intitulado “O uso de blogs e chats no ensino de literatura”, publicado na revista Letras Hoje, da PUC-RS, o professor da universidade Estadual de Maringá (UEL), Dr. Marciano Lopes e Silva, recomenda Entretextos como uma das páginas literárias em Língua Portuguesa com conteúdo relevante para utilização em aulas de literatura (http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/fale/article/viewFile/7528/5398).

Textos do Portal Entretextos são utilizados atualmente em atividades do projeto didático A didatiteca virtual de ensino em português, elaborado pelo Departamento de Português do Centro de Ensino de Línguas Estrangeiras da Universidade do México (CELE – UNAM)



OBRAS PUBLICADAS:

a)Mais Hum (poemas – 1995);

b)Cabeceiras: a marcha das mudanças (estudo historiográfico – 1995) – coautoria;

c)Colmeia de concreto (poemas – 1997);

d)Os olhos do silêncio (poemas – 1999);

e)A metáfora em textos  argumentativos (ensaio – 2001)- duas edições

f)O sabor dos sentidos (poemas – 2001);

g)Entretextos (artigos e entrevistas – 2007);

h)Texto argumentativo – teoria e prática (didático – 2007) – adotado em diversas escolas como livro-base para alunos de terceiro ano do Ensino Médio;

i)Adiante dos olhos suspensos (poemas – 2009);

j) O morro da casa-grande  (romance – 2011) – duas edições. Obra adotada como leitura obrigatória  em várias escolas, inclusive fora do Piauí.

l)O rato da roupa de ouro (infantil – 2012) – livro adotado por diversas escolas do Piauí e fora do Estado.

m)Ares e lares de amores tantos (poemas – 2014).



OBRAS INÉDITAS:

Infantis –  Meus olhinhos de brinquedo  (no prelo) , A formiguinha espiã, A ovelha que voava,  O gato da pele de gente e Bem-ti-vi, bem tem vê;

Infanto-juvenil – O menino da alma de pássaro (em fase de reescrituras);

           Novela – Capoeira de Espinhos     

Fonte: Portal Entretextos

sábado, 4 de julho de 2015

Panegírico ao poeta Leonardo Castello-Branco

Panegírico
a Leonardo da Senhora das Dores Castello-Branco



Tenho a grata satisfação de convidá-lo para a solenidade de homenagem ao poeta, cientista e revolucionário piauiense Leonardo da Senhora das Dores Castello-Branco, pela passagem dos 132 nos da sua morte, com a seguinte programação:

Dia: 12.07.2015 (Domingo):
Ás 07 h - Réquiem para Leonardo – Intenções da missa no domingo do 
                senhor, na Igreja Matriz de N. S. da Boa Esperança;
Às 09 h - Palestra sobre a vida e obra de Leonardo;
              - Apresentação da 2ª edição de “O Santíssimo Milagre” e sua         
                 autoria;
              - Exposição de trabalhos do homenageado;
Às 11 h - Fundação do Instituto Histórico Geográfico e Genealógico       
               “Leonardo Castelo Branco”.
Local: Clube Recreativo Princesa do Longá – Esperantina – PI.

Valdemir Miranda de Castro – cel. 86-99952-0051 

sexta-feira, 3 de julho de 2015

DA EFERVESCÊNCIA À QUIETUDE


DA EFERVESCÊNCIA À QUIETUDE

Jacob Fortes

Quando as cidades (metrópoles ou ruralizadas) despertam e põem-se de pé ouve-se, em agitada exultação, o rebuliçar do povaréu nas feiras; destacadamente as vozes, gritadas ou cantadas, dos pregões: vendedores e camelôs em euforia soltam a voz em gorjeios estentóreos. Com seus bordões afinados e compridos proclamam, num vozear festivo, as suas mercadorias, quinquilharias e bugigangas: ora empoleiradas, ora estendidas sobre o chão poento. Do palpável ao impalpável, há de tudo: o alimento; o produto; o serviço, inclusive o de cerzir sob uma tenda; o escambo, deste por aquele; panaceias para todos os males, realçando a medicina hipocrática; a salvação da alma, pelo ocultismo ou práticas mágico-religiosas; o amuleto, contra acontecimentos funestos e malefícios de qualquer natureza; o grito chamativo; um assobio; a contravenção, (mocozeada num repartimento secreto) exprimindo o esperançar dos que se entregam a um bom palpite na bicharada; o tatuador, zebrando corpos com suas agulhas; a melodia solitária, sem ovação, de uma flauta ou uma sanfona. Enfim, nesse picadeiro de existências ensanduichadas e sofridas, mas exultante de vida, (onde à alegria, labutam pessoas sem as distinções inventadas pelo homem), assiste-se a cenas de todos os matizes e vê-se de tudo; do reles ao magnífico, do trivial ao bizarro: sapato para galinha, bainha para foice e, obviamente, os parasitas que não trabalham: carteiristas, malandros e vadios. Também, em meio a essa bulha, os resíduos humanos, de mãos súplices, no ofício da mendicância (retalhinhos das chagas sociais de um país tão exuberante feito um automóvel galhardo, mas em estado de enguiço, apeado do vigor, exposto ao vexaminoso flagrante de pôr-se a reboque por lhe haverem despojado as partes valiosas. Ensoberbecido e afeito ao raro privilégio dos menus à La carte, o país instou-se a migrar para o cardápio dos comuns: lata de almoço debaixo do braço. “O que é que você troxe na marmita, Dito? — Troxe ovo frito e torresmo a milanesa”).


Mas a página efervescente das feiras esmaeceu, apequenou-se. O destino, agenciador de venturas e desgraças, encarregou-se de aplacar o fervor desses ababelados locais de mercancia popular. O que era exaltação e arrebatamento quedou-se: virou acalmia melancólica. Enquanto houver uma feira triste haverá uma pátria mal aviada.   

quinta-feira, 2 de julho de 2015

HOMENAGEM AO JUIZ BERNARDO LUCAS MATEUS



2 de julho   Diário Incontínuo

HOMENAGEM AO JUIZ BERNARDO LUCAS MATEUS

Elmar Carvalho

No dia 7 de maio, à tarde, segui para Parnaíba. No dia seguinte, às 19:30 horas, seria lançado meu livro Confissões de um juiz, que teria apresentação do poeta e escritor Alcenor Candeira Filho. Alguns poemas de minha autoria seriam interpretados pela atriz Carmem Carvalho. A solenidade aconteceria no auditório SESC/Avenida Presidente Vargas, como efetivamente aconteceu, na forma programada.

Pretendia prestar uma homenagem pessoal ao impoluto magistrado Bernardo Lucas Mateus, que relevantes serviços prestou à Justiça, ao exercer seu cargo com dignidade em diversas Comarcas do Estado do Piauí. Por essa razão, ao chegar à cidade de Buriti dos Lopes, resolvi visitá-lo. Minha mulher pediu que fôssemos antes à casa do senhor Bezinho Val. Dediquei-lhe um exemplar, e autografei outros, que deixei a seu cuidado, entre os quais os destinados ao advogado Bernildo Val, seu filho e prefeito do município, ao juiz de Direito Marcos Cavalcante e à biblioteca pública municipal.

O senhor Bezinho Val pediu-nos para nos acompanhar na visita que faríamos ao Dr. Bernardo Lucas Mateus, o que muito nos gratificou. Em seus mais de oitenta anos de idade, acho que quase 85, demonstrou muita agilidade e vigor ao entrar ou sair da picape. O anfitrião nos recebeu com a sua natural fidalguia. Mantivemos rápida palestra, embora ele estivesse deitado em uma cama, a tomar soro ou medicamento intravenoso, sob os cuidados de uma enfermeira.

Vários filhos, entre os quais o Luquinha, netos, parentes e amigos se encontravam na casa. Senti que ele não poderia comparecer ao lançamento de meu livro, de forma que lhe autografei um exemplar, e me despedi. Pouco mais de um mês depois, recebi, através do Canindé Correia, a notícia de seu falecimento, e dias após o Paulo César Lima me pediu, através de telefonema, para que eu escrevesse um texto, que ele leria na missa de sétimo dia; o escrito integraria um folder a ser distribuído no final do ato religioso.

Nesse texto, uma espécie de crônica, eu dizia não saber se o saudoso magistrado teria conseguido ler o meu livro, em virtude de seu grave estado de saúde, mas que desejava tivesse isso acontecido. Um ou dois dias depois, quando o Paulo voltou a me telefonar sobre o meu depoimento, falei também com o Luquinha. Este, emocionado, já tendo lido o meu texto, me revelou que seu pai, certa madrugada, acordara e perguntara pelo meu livro, que lhe foi entregue.

Acomodou-se em sua cadeira preferida, e leu algumas páginas. Ao deitar-se para dormir, guardou cuidadosamente o volume de minhas Confissões entre as dobras de seu pijama. Esse ato de carinho e apreço me vale mais do que muitos elogios e certas “homenagens”. Segue, abaixo, o meu depoimento sobre o nobre magistrado, lido na missa de sétimo dia, celebrada na matriz de Nossa Senhora dos Remédios, no dia 22, às 19 horas:

“Atendendo pedido do amigo Paulo César Lima, meu conhecido desde o final dos anos 1970, desejo prestar esta singela homenagem a meu colega de judicatura Dr. Bernardo Lucas Mateus, que engrandeceu e dignificou a magistratura piauiense.

Em sua simplicidade e modéstia, nunca se preocupou em ser glorificado pela toga que vestiu, mas, ao contrário, honrou e dignificou as suas vestes talares. Despido de vaidade e ostentações, não se preocupou com a ritualística forense e eventuais honrarias de seu cargo, mas, sim, em agir com Justiça e equidade, sem apego a formalismos desnecessários, que apenas contribuem para entravar a marcha processual.

Em sua carreira, foi juiz em várias Comarcas, desde esta, a sua querida Buriti dos Lopes, até a longínqua Corrente, no extremo sul de nosso estado, nas ribas do Corrente e do Gurguéia. Por vários anos, foi titular do Poder Judiciário em Barras, município de rica tradição cultural e de portentosa história, que importantes intelectuais e governadores legou ao Piauí e ao Brasil, em cujo rincão nasceram muitos de meus ancestrais.

O Dr. Bernardo Lucas Mateus sempre foi respeitado em sua cidade natal e nas Comarcas onde exerceu suas funções de julgador. Embora não fosse um ermitão, por causa de seu temperamento e talvez também em virtude de seu cargo era discreto e de postura algo reservada, o que mais contribuía para o enaltecimento de sua figura de julgador probo e justo, sempre correto em suas decisões interlocutórias e sentenças.

Fez por merecer o respeito e o acatamento de seus conterrâneos, de seus jurisdicionados e de seus pares. Magistrado emblemático, nunca se ouviu falar de fatos, atos, feitos e malfeitos, que pudessem macular a sua biografia, a sua imagem de magistrado imparcial. Ao contrário, as referências a sua pessoa, tanto como cidadão como na qualidade de juiz, eram sempre as melhores possíveis, e as suas qualidades, de que não fazia alarde em sua modéstia, eram sempre reconhecidas.

Ao aposentar-se, retornou ao seu torrão natal, à sua nunca esquecida cidade de Buriti dos Lopes. Recolheu-se à sua velha morada solarenga, uma verdadeira quinta, banhada por um córrego e ornada por exuberantes e frondosas árvores, a ler os seus livros e a fazer as suas meditações. De maneira discreta, sem que uma das mãos soubesse o que fazia a outra, sem propaganda e finalidades espúrias, praticou a caridade, fez o bem aos seus semelhantes, em obras que não preciso aqui declinar.

Embora não o conhecesse há longo tempo, exceto de nome, algumas vezes o visitei em sua residência. Sempre me acolheu com lhaneza e alegria. Encetávamos rápida conversa, em que lhe pude perceber o interesse cultural. Notei que ele tinha considerável conhecimento da geografia e, sobretudo, da história do Piauí. Repassei-lhe alguns livros de minha autoria.

No dia 7 de maio, ao cair da noite, em companhia de minha mulher Fátima e do Sr. Bezinho Val, o visitei pela última vez. Não obstante muito fragilizado pela doença, nos recebeu com muita alegria. Meu objetivo era convidá-lo para a solenidade de lançamento de meu livro Confissões de um juiz, em que lhe desejava prestar singela homenagem pessoal por sua judicatura digna e honrada, mercê de suas virtudes pessoais, que se refletiram em sua conduta magistratural.

Deitado em seu leito, sob os cuidados de uma enfermeira, sabia que ele não poderia comparecer ao evento, que aconteceria na noite do dia seguinte. Autografei-lhe um exemplar, que lhe entreguei. Não sei se ele conseguiu lê-lo, ao menos algumas páginas. Tenho certeza de que o faria, se a saúde lhe permitisse.

Dessa última visita, ficou-me a imagem, que para sempre conservarei, de um homem bom, cordato, que aceitava com resignação o sofrimento de sua doença, sem queixas e sem mágoas. Não aparentava ter medo de que o termo de seus dias parecia estar próximo. Deu-me a impressão de que aceitava mansamente a cortina de sua vida estivesse a se fechar.

Consta na Bíblia que o rei babilônico Belsazar, no festim em que ele conspurcou os vasos sagrados do Senhor, viu estampar-se na parede do palácio real este letreiro: “Mene, mene, tequel, ufarsim.” Devidamente interpretada pelo profeta Daniel, a frase foi traduzida, e significa: “Pesado foste na balança, e foste achado em falta.”


Certamente Bernardo Lucas Mateus, que na sua condição de magistrado usou a balança da justiça humana com todo cuidado e cautela, tendo em mente a advertência de Jesus Cristo – “a medida que usarem, também será usada para medir vocês” – ao transpor os umbrais de uma das moradas do Senhor, encontrará escrita na parede, em letras capitulares e cintilantes: ‘Pesado foste na balança, e foste achado digno de entrares. Sejas bem-vindo.’”