segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Vida de agrônomo


Vida de agrônomo

José Pedro Araújo
Romancista, cronista e historiador

Avalie um homem que acabou de receber o seu diploma universitário, e o encontrará a alguns metros do chão. Foi isso, pelo menos, o que aconteceu comigo. É verdade que me achava um pouco perdido, desorientado mesmo, sem saber como por em prática o que aprendi nos bancos da universidade. Mas também é verdade que a vaidade havia se apossado de parte de mim, a ponto de me achar um homem diferenciado, um candidato compenetrado à espera do seu prometido, e devido, brilhante futuro.

Agora imagine um homem apresentado ao mundo real. É bem provável que, caso não caia das nuvens, num tombo monumental, ganhe algumas esfregadas que irão arranhar o verniz fresquinho, e fraquinho, da sua falsa grandiosidade. Foi assim que aconteceu.

Como chegar ao primeiro emprego não havia sido problema, - após passar em um concurso relativamente fácil -, ingressei na EMATER poucos dias depois do certame. Tudo parecia correr dentro do script, apesar de não ser o emprego ideal, nem o salário fizesse jus ao meu nível de formação, senti-me no rumo certo. Paciência. Era só o primeiro degrau. Foi o que pensei. E assim, dois ou três dias depois, estava desembarcando na cidade de Bacabal, Maranhão, para assumir o meu posto de trabalho. É certo que o ônibus velho e desconfortável que havia me levado até ali, tinha servido para baixar um pouco a minha bola, levando-me no rumo de um futuro que nem de longe pensava ser o que me estava destinado.  Mas as coisas não parariam por ai. 

Ao me apresentar ao Coordenador Regional da unidade, me foi dito que eu deveria embarcar no dia seguinte para um município de nome Lago Verde, que eu nunca tinha ouvido falar. Iria instalar o escritório da empresa naquela povoação que, a bem da verdade, não ficava muito distante da regional. Sem problema. Desafios me fazem bem. Fazem bem a qualquer pessoa, dirão. No dia seguinte, duas da tarde, lá estava eu novamente na rodoviária da cidade para tomar o meu ônibus com destino a Lago Verde.

Mais uma decepção. O trambolho que encostou na passarela de embarque poderia ser chamado de tudo, menos de ônibus. Estado lastimável, o que fazia com que o outro que me trouxera de São Luís no dia anterior parecesse um expresso, na acepção da palavra, o barulhento coletivo encobriu a todos com uma fumaça preta e malcheirosa.  E eu não tive nem tempo para incorporar a minha decepção. O motorista, que havia descido rapidamente para a plataforma de embarque foi logo gritando que todos precisavam se apressar, pois ele precisava pegar a estrada, tinha horário para cumprir. 

Com se já estivessem acostumados com a ordem do comandante daquele autocarro, houve uma correria de passageiros para acomodarem suas bagagens no bagageiro, e quase me derrubam. Atropelarem sem respeito. Equilibrei-me e, rapidamente, juntei a minha mala e fui procurar acomodação para ela também. Procurei um cantinho isolado, mas logo vi minha porta bagagem ser soterrada por uma montanha de volumes. Lá se foi a minha mala nova, pensei. Enquanto estava pensando assim, fui atropelado por alguém que tentava colocar no bagageiro um leitão vivo e esguichando feito um endemoniado. Um porco junto à bagagem, fui reclamando ao motorista que se mantinha impassível, àquela hora segurando a tampa do bagageiro para ela não achatar a quem tratava de acomodar suas coisas lá. Foi ai que vi que alguém já haviam colocado lá um engradado cheio de galinhas. Desisti de reclamar e tentei entrar no veículo. Lá dentro a confusão era geral. Gente tentando empurrar outras bagagens no bagageiro interno, como se o troço fosse feito de elástico e se expandisse para comportar o volume que ele tentava colocar lá dentro. O corredor, já que o pessoal continuava em pé, estava entupido. E, àquela hora, o calor que fazia no interior da lata-velha, era de deixar qualquer um louco da vida. E era um empurra-empurra que só terminou quando o ônibus já havia tomado a estrada. Como num graneleiro, as coisas foram se acomodando por si só.

Com muito custo, consegui um lugarzinho na janela, mas sobre os pneus traseiros. Àquela altura, a minha autoestima estava muito baixa. Um doutor não merecia aquilo. Mas, fazer o que? Era melhor relaxar e aproveitar a paisagem que se descortinava pela janela. Mas, como relaxar, se a tal poltrona tinha o encosto voltado para a frente, reduzindo o ângulo de noventa graus das normais em pouco mais de oitenta. Fiquei com o rosto quase enfiado no encosto da poltrona da frente. Com os dois braços apoiados nas coxas, permaneci por cerca de quarenta minutos a uma hora assim. De vez em quando conseguia olhar pela janela para apreciar a paisagem. Decorrido esse tempo, vi que o coletivo deixou a BR e tomou uma estrada de piçarra. Ai a poeira veio se somar a todas as misérias que o maldito transporte nos impingia. E o transporte começou também a sacolejar como se quisesse acomodar direito os passageiros no seu interior. Andamos assim cerca de meia hora mais. Depois disso, o bichão parou e o motorista desligou o motor. O que teria acontecido? – Dirigi-me ao meu companheiro de bancada. “O ônibus já vai até aqui”. – respondeu-me – “Tem um atoleiro muito grande ai na frente impedindo a gente de passar”.

Ninguém tinha me avisado sobre isso. E agora?

Parei de frente ao motorista e indaguei-lhe como íamos fazer o resto do trajeto. E ele, calmamente, respondeu-me: “a pé”. A pé e com a mala na cabeça, desesperei-me. E ele, olhando com pena da minha pouca experiência, avisou-me que logo na frente tinha algumas carroças que, contratadas, podiam levar a minha mala.

- Ainda por cima, tenho que pagar? – revoltei-me.  E ele, do alto da sua autoridade de comandante do nosso coletivo, disse-me que apenas se não quisesse levar a mala na cabeça. Pronto. A conversa estava encerrada, foi o que ele deu entender ao pedir-me que saísse da frente para dar passagem pra os outros passageiros.

Depois de descer e apanhar a minha mala completamente amassada, fiz o que a maioria dos passageiros estavam fazendo: corri até a primeira carroça e contratei o transporte da minha bagagem, depois de perguntar se estávamos  perto da nossa cidade.

- Sim. Apenas dez a doze quilômetros daqui. Já a gente chega lá.

Quase tive um troço. Aquele dia não merecia existir. Que dia aziago!

Tomei a estrada também. Caso não me apressasse, não acompanharia a carroça com a minha mala que já tinha partido rapidamente. A carga da carroça ia por cima. A bagagem havia tomado uma altura louca, e precisou ser amarrada para não cair na lama que inundava o caminho. Consegui caminhar por vinte minutos. Caminhar é a forma de dizer. Na verdade, sai deslizando na lama enquanto me equilibrava para não cair. Depois desse tempo, cansado, olhei para a carga e perguntei ao carroceiro se eu podia subir no veículo também. Ele me respondeu que sim.

Bom. Ia anoitecendo quando entramos na cidade. O acesso era feito por uma rua comprida e sinuosa, sem calçamento, que ia de uma ponta a outra da comunidade. E parecia ser única, mas, a bem da verdade, não era. Alguns pedaços de ruas saiam perpendicularmente e logo se interrompiam. Assim, a rua que trafegávamos não era a única, mas era a mais importante, a principal, como parece existir em todas as cidades do interior.


Bateu-me uma tristeza. Isso era demais para a minha autoridade. Um doutor agrônomo formado na renomada Universidade Federal Rural de Pernambuco, ter que tomar contato com o seu local de trabalho daquela forma, e ainda por cima sobre uma carroça atupetada de bagagem. Só não voltei para trás porque não tinha como. Parabéns a todos os agrônomos desse imenso Brasil!

domingo, 25 de outubro de 2015

BARRAS – O RIO, A CIDADE, O TEMPLO E O TEMPO

Dílson e familiares


BARRAS – O RIO, A CIDADE, O TEMPLO E O TEMPO
(Discurso de recepção a Dílson Lages Monteiro na APL)

Elmar Carvalho

            Com muita honra e alegria, aceitei o convite de Dílson Lages Monteiro para recebê-lo nesta solenidade de sua posse na Academia Piauiense de Letras, em sucessão ao grande poeta Francisco Hardi Filho.
            O regozijo se deve ao fato de conhecê-lo há mais de duas décadas, quando ele iniciava sua carreira no mundo das letras, e por ser ele filho de Barras, terra à qual sou estreitamente ligado por parte de meu pai, Miguel Carvalho, também barrense, assim como vários de meus ancestrais paternos. Essa satisfação se torna maior pelo fato de ainda sermos parentes. É ele filho de Gonçalo Soares Monteiro, já falecido, de ilustres estirpes do Médio Parnaíba, e de Rosa Maria Pires Lages, descendente de antigas famílias barrenses.
Esta noite engalanada, portanto, vai ser uma festa barrense, e veremos aqui perpassar o reflexo dos vultos históricos da velha Barras do Marataoã, dos seus grandes poetas mortos, e ouviremos o murmúrio dos rios que lhe formam as barras, de onde lhe veio o telúrico e poético nome. Nesta Casa sentimos ainda a forte presença do barrense A. Tito Filho, seu presidente por mais de 20 anos, que acolheu e orientou o novel consócio com generosidade, quando ele ensaiava os primeiros passos na literatura.
            Quando um afoito amigo quis escrever um artigo, no qual pretendia retirar de Barras o seu justo título de Terras dos Governadores, adverti-o para que não o fizesse, porquanto estaria laborando em vexatório equívoco. Por essa razão escrevi a crônica ensaística “Barras – terra dos governadores e de poetas e intelectuais”, a que em seu desenvolvimento acresci “e de marechais”, para afastar de vez futuras ousadias similares. Essa crônica teve ressonância no intelecto de Chico Acoram Araújo, a quem dei o título de cacique da tribo dos Marataoãs, que vem escrevendo uma série de estudos sobre barrenses ilustres, além de ótimas crônicas e artigos.
            Desde que conheci Dílson Lages, fomos nos aproximando, com respeito intelectual recíproco e por laços de amizade, sem que fossem necessários convívio e visitas frequentes. Somos confrades há vários anos na Academia de Letras do Vale do Longá. Minha admiração aumentou mais ainda porque, sendo eu mais velho, lhe pude observar as conquistas e a verdadeira vocação literária, feita de dedicação, estudo, reflexões, e não da busca de efêmeras glórias vãs ou gloríolas. Também pude notar que em sua trajetória não cometeu insolências e iconoclastias contra os mais velhos e nem contra as figuras emblemáticas de nosso panteão literário.
            Antes de me referir à obra literária do novel confrade, quero me reportar de forma breve aos seus antecedentes e patrono, pois ele já o fez com mais vagar e em maior profundidade em seu discurso.
            A cadeira 21, que ele passa a ocupar, é eminentemente de poetas, a começar pelo seu patrono, o cônego Leopoldo Damasceno Ferreira, nascido em Oeiras - PI e falecido em São Luís – MA (1857 – 1906), que foi também professor, autoridade da administração da Igreja Católica no Maranhão e deputado estadual. Poeta de mérito, cometeu um belo soneto em que lamenta o amor impossível ou proibido. Sobre essa peça poética diz Da Costa e Silva, o primeiro ocupante da cadeira: “Esse padre, que todos afirmam, era crente convicto e um sacerdote virtuoso, teve, sem dúvida como o poeta Anvers, o seu segredo n’ alma e o seu mistério na vida. Teve como poeta, a aparição divina de uma sombra de mulher nos caminhos incertos da existência.” Foi ainda, em parceria com a musicista Firmina Sobreira, autor da música do Hino do Piauí. Foi tarefa de alta monta, pois conseguiu musicar o belo poema dacostiano, sem que ficasse ofuscada a melodia. Recolhi essas informações da monumental Antologia da Academia Piauiense de Letras, organizada pelo grande pesquisador e historiador Wilson Carvalho Gonçalves, amigo de meu pai e meu amigo, também barrense como o empossado.
            Foi seu primeiro ocupante Antônio Francisco da Costa e Silva, nascido na bela e bucólica cidade de Amarante, emoldurada pelas belas serras azuis do poeta, e quase uma ilha, abraçada pelos rios Parnaíba, Canindé e Mulato. Um dos avoengos do novel acadêmico era primo do excelso bardo, acho relevante revelar. Da Costa é o nosso poeta maior e maior poeta, que sempre admirei desde a minha meninice. Fiquei encantado quando ouvi e li os seus sonetos A Moenda e Saudade, que sempre releio com o mesmo alumbramento. Fiquei também orgulhoso por ele ser piauiense. Acompanhei com vívido interesse a celebração de seu centenário, e tenho lido e relido a sua obra poética completa.
Conversando um dia com o juiz federal Geraldo Magela e Silva Meneses, este me disse considerá-lo o maior poeta brasileiro, e como eu o inquirisse sobre esse seu entendimento, respondeu-me, sem titubeios e vacilações, que se não fosse o maior seria o melhor. Sem dúvida é um dos maiores ou melhores poetas do Brasil. E o barrense Celso Pinheiro, seu contemporâneo, bem poderia formar com os poetas Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens a trindade simbolista brasileira, a exemplo da parnasiana, não fosse o insulamento em que sempre ficou a Literatura do Piauí. Como já tive ocasião de dizer, aqui mesmo da tribuna de nossa Academia, por cúmulo de trágica coincidência esses dois magníficos poetas morreram no mesmo dia, no infausto dia de 29 de junho de 1950.
A poetisa (ou poeta, como se diz agora) Maria Isabel Gonçalves de Vilhena sucedeu com galhardia Da Costa e Silva. Foi também cronista e professora. Era fluente ao falar ou escrever em francês. Em sua provecta vida escreveu os livros Seara Humilde e Nada. A humildade está apenas nos títulos dessas duas obras poéticas, pois Seara Humilde, contendo 50 poemas, é um verdadeiro florilégio, é uma pujante seara de belas flores de nosso cancioneiro, e Nada é tudo de bom, pois nele encontramos poemas que estão em nossas antologias, e alguns publiquei na Seleta Piauiense, que venho construindo em meu blog.
Logo que cheguei a Teresina, em agosto de 1982, para assumir o cargo de fiscal da SUNAB, autarquia federal já extinta, fiz amizade com o poeta Hardi Filho. Bom pai de família, bom amigo, bom poeta. Com esse tríplice coroamento poderia encerrar minhas palavras sobre ele. Mas não o farei. Estive em sua residência muitas vezes, onde fui sempre muito bem recebido por sua esposa, dona Adélia. Fizemos parte de um grupo de amigos que reativou e deu existência legal à União Brasileira de Escritores do Piauí – UBE-PI. Trago para este discurso trecho do que sobre ele já disse em outra ocasião:
Na primeira metade da década de 80, fui morar em uma república, da qual faziam parte o Nadal e o Gelvan Lisboa, localizada na Rua Areolino de Abreu, perto do edifício da Caixa Econômica Federal. Nesse velho casarão, segundo nos contaram, havia residido um engenheiro eletrônico, que teria cometido suicídio, por motivo que desconheço.

Na porta de um dos quartos, alguém havia estampado, em letras manuscritas, um lindo e melancólico poema de Hardi Filho. A tinta das letras, embora não fosse vermelha, parecia escorrer como sangue ainda fresco. No silêncio e na solidão das noites mortas, sentindo o inebriante perfume de uma cajazeira em flor, eu parecia sentir a presença do suicida a recitar os versos de Hardi. Talvez tenha sido aquela – o poema vazado em velha porta – uma das maiores homenagens, apesar de anônima, que já lhe tenham feito.

Foi nesse velho solar, talvez um tanto perturbado por sua atmosfera soturna e um tanto fantasmagórica, num cenário em que pareciam vagar o vulto indefinido do suicida e ressoar os versos melancólicos de Hardi, que escrevi o meu poema A casa no tempo, cujos versos deixei impregnados naquelas velhas paredes: “A casa vive em mim. / Vive em mim / com seus gemidos / de fantasmas que / arrastam correntes / por entre ais doloridos. / Vive em mim / com suas lamentações de suicidas / que gemem e gemem (...).”     

Volto-me agora, sem pretensão de ser um analista ou crítico, para a obra literária e intelectual de Dílson Lages.
Mantém ele, há muitos anos, o Portal Entretextos, direcionado para a cultura, e, sobretudo, para a da vertente literária. Nele mantenho a coluna Eclética já faz alguns anos. Outros escritores e poetas são colaboradores desse site, a meu ver o mais importante do Piauí em sua modalidade.
Faz alguns anos o acadêmico ora empossado fundou o Laboratório de Redação Professor Dílson Lages, onde ministra com muita proficiência lições sobre técnicas redacionais, mercê de já longa experiência magisterial nos principais colégios de Teresina. Em suas aulas fixa a atenção no texto, e não em regras gramaticais, conquanto não lhes desconheça a importância.
Dá ênfase à função social da língua, tendo criado a sua metodologia própria, ancorada na semântica e no discurso, bem como na linguística textual. Em seis anos de prática, fez a sua sistematização, conforme a sua metodologia. Prioriza as relações de sentido, o poder de argumentação e a especificidade do gênero em debate. Estimula o aluno a construir o texto e a refazê-lo, no intuito do aperfeiçoamento. Graças à sua experiência, trabalho e meditações, publicou o livro didático “Texto argumentativo – teoria e prática”.
Exatamente por ser um professor qualificado de Redação, é também notável crítico literário, com análises sempre pertinentes e argutas, em que se percebe o seu poder de observação e de conhecimento estruturalista da matéria, mas sem deixar de lado as sábias lições herdadas da boa crítica impressionista, que ainda hoje presta bons serviços à literatura, quando exercida com inteligência e sabedoria. Nessa messe, tem escrito artigos e pequenos ensaios, que enfeixados constituiriam importante livro.
Por oportuno e para reforçar minhas palavras, pinço o seguinte trecho de um ensaio de Cunha e Silva Filho, pós-doutor em Literatura Brasileira, ensaísta, cronista e memorialista: “Dílson, como escritor, estreou como poeta, com obras bem acolhidas pelos leitores e pela crítica. Contudo, sua atividade se estende à prática docente, desenvolvida em moldes renovadores, tendo como centro de interesse os estudos mais recentes da comunicação escrita, da análise do discurso, da linguística textual. Daí ter se tornado logo autor de uma bem realizada obra para a área da Redação, que é seu livro Texto argumentativo – teoria e prática (2007), publicado em Teresina.”
Tornou-se, com o tempo, um notável poeta, sendo certo que é reconhecido como um dos melhores de sua geração. Utiliza-se em sua poemática de todos os recursos que os grandes mestres usaram, até por ter conhecimento de todas as figuras de estilo disponíveis, em virtude de sua profissão de professor, a que já fiz referência.
Assim, lança mão de musicalidade, sinestesias, aliterações, assonâncias, como bem podemos perceber no poema Marataoã, em que o rio aparece como um símbolo bucólico de sua cidade, com as suas margens ainda verdejantes:

O rio corre em meu coração
e separa os sentimentos da areia.

A vaga das águas vai
virando pó em pensamento
e a estrada encurta distâncias.

O rio viaja no horizonte
onde dançam os cabelos das carnaúbas
e soluçam os olhos do sol.

O rio corre em meu coração
e deságua nas correntezas do caminho.

Não irei entrar em elevadas discussões e análises teóricas, técnicas, estruturalistas, que isso deixarei aos críticos, exegetas e professores-doutores, sem dúvida muito mais bem apetrechados que eu, mesmo porque pretendi e pretendo dar a este discurso certa leveza, certa plasticidade.
Todavia, não posso deixar de sublinhar que a sua poesia, como reconhecem os seus analistas, está referta de metáforas, de construções antitéticas e de sensações sinestésicas, em poemas líricos, telúricos e por vezes repassados de discreto saudosismo e nostalgia. As aliterações e coliterações podem ser vistas em versos como estes:
Consigo me ver nos seus olhos
neles me vejo
como quem vê a si no silencio.

Consigo ser o sal de seus sentidos
e o sol das emoções
vestidas pelo suor suave
que me confunde os verbos.

O certo é que o denso conteúdo dos versos de Dílson quase sempre está contido em bela forma. Neles encontramos, sem necessidade de rígidos espartilhos parnasianos, rimas e ritmos, o que lhes dá um encanto melódico. São encontradiças em seus poemas rimas toantes e consoantes, assim como as internas, e não apenas as no final dos versos. Sirva de exemplo a seguinte estrofe de seu poema Sim:
Amar assim
como mar à tona
na frágil maratona
do naufrágio em si.

Em poema revestido de suave lirismo, mas tocado sutilmente pela “Sombra de Eros” de seu título, louva a esposa Aldairis, na exteriorização de seu amor:
A tua alma brilha
nas paredes do meu quarto
no silencio da noite escura.

E os raios de teu riso
oferecem ao ar
os riscos de tuas cores
                                                   
Sem medo de ser poeta, Dílson Lages Monteiro faz uso de todos os tropos pertinentes, canta a vida e a paixão, o amor e a terra natal, contudo de forma comedida, sem o exagero daquele poeta, que ao contemplar o pequeno e belo Marataoã o apostrofou em descomunais versos hiperbólicos: “Ó imenso mar-oceano”. Em seus poemas o Marataoã, que enlaça, beija, acaricia e abraça a graciosa e aprazível Barras, aparece pequeno e deslumbrante, como são pequenas e belas as filigranas da ourivesaria minimalista e perfeita de Cellini.
Em “O morro da casa-grande”, Dílson demonstrou ser possuidor de todas as ferramentas e habilidades da romancística. Diria que nessa obra ele exercitou a boa técnica utilizada pelos melhores mestres desse gênero literário. Sua linguagem é clara e objetiva, e segue as regras da norma culta de nosso idioma, contudo sem gramatiquices e rebuscamentos. Geralmente os períodos são curtos, e despojados de inversões, torcicolos e estilizações rocambolescas, recursos utilizados pelos que se acham grandes estilistas ou mesmo pretensos vanguardistas.
Em muitas passagens a sua prosa trai o poeta que ele é, e adquire tons de agradável lirismo, em que as frases são ordenadas de forma rítmica. Sua temática e entrechos são simples, verossímeis, porque ele não pretendeu explorar assuntos em que a imaginação se excedesse em episódios mirabolantes e fantasiosos. Seus diálogos são bens construídos, coerentes com o perfil psicológico e cultural da personagem, e despojados da caricaturização ou macaqueamento dos romancistas menores, que sempre exageram nessas estilizações do discurso direto da criatura fictícia.
Conquanto não seja um romance histórico, a história de Barras nele escoa de forma sutil, servindo de pano de fundo a certos episódios da trama. Assim, a demolição da velha igreja de Barras ainda nele é lembrada como um fato execrável, sobretudo o estilhaçamento do Cristo Redentor, que encimava a fachada principal do templo, postado entre as duas torres.
Sinto como se tivesse lembrança desse Cristo, que vi em minha meninice, com os seus braços abertos, em acolhimento aos que chegavam, e a abençoar a cidade e os que partiam. Era uma bela e vetusta igreja em estilo colonial, construída por José Carvalho de Almeida, e destruída em 1963, como era um vezo dos padres da época, que gostavam de ampliar, reformar, descaracterizar ou demolir as velhas capelas e igrejas. Ao comentar o excelente livro Barras, histórias e saudades, de Antenor Rêgo Filho, a ela me referi, e remontei à ermida de N. S. da Conceição (que lhe antecedera), iniciada por Miguel de Carvalho e Aguiar, em sua fazenda Buritizinho, e concluída por seu herdeiro e sobrinho Manoel da Cunha Carvalho; essa capela e a casa-grande são a origem mais remota da cidade das sete barras, como a designei em poema telúrico e evocativo.
Nesse romance bem escrito e atraente, além de percebermos a transfiguração criativa de memórias de seu autor, verificamos que foram utilizadas, ao longo da narrativa, concepções do roman à clef, porquanto são evocados personagens históricos, populares e folclóricos, que marcaram época no cotidiano de Barras, tais como Chico Luiz, Chico Castelo, Dodô Veloso, o Dodô das Cabeceiras, Monsenhor Uchoa, Firmino e Joaquim Pires, coronel Lulu, Vítor Lopes... E tantos outros disfarçados em pura ficção.
Ao me deparar com essas criaturas, que foram pessoas de carne e osso, não pude deixar de evocar a figura excêntrica de Neno, de estirpe ilustre, que em sua doença escavou estranho labirinto, aparentemente sem nenhum objetivo concreto, sobre o qual eu disse, ao comentar a monumental obra memorialística de Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro: “Neno foi o Dédalo e o Minotauro de seu próprio labirinto. E talvez tenha sido uma espécie de esfinge que não conseguiu decifrar o enigma de sua própria vida, de uma beleza cintilante e improfícua, como uma estrela cadente que se exaure no átimo culminante de sua glória.”
Por entre as páginas desse belo romance, vemos ainda os velhos sobrados, os casarões solarengos, os logradouros e praças de outrora, vetustos edifícios públicos, como o do teatro e o dos Correios, e lamentamos a destruição do antigo cemitério, cujas lápides contavam muito da importante história barrense.
Quando eu ia a Barras, me hospedava na casa de Salomão de Sá Furtado, primo de meu pai, que ficava bem perto desse saudoso campo santo. Salomão, além de exímio operador de morse, tinha uma linda caligrafia, e uma não menos bela redação. Era um estilista e tinha uma pequena biblioteca, caso raro, ainda nos dias de hoje. A poucas quadras de sua casa ficava o Marataoã, em cujas águas nadei em minha adolescência, onde me embebi embevecido nos olhos luminosos das garotas, que refletiam suas águas, feitas de ciganice e magia.
Dílson Lages Monteiro me comoveu, e me restituiu a velha e querida Barras de minha infância e de minha adolescência, que na redoma de minha memória ainda remanesce intacta, com a sua vetusta igreja, com o Cristo Redentor de braços abertos entronado no cimo de seu frontispício.
Por tudo o que relatei, e talvez mais ainda pelo que não pude ou não soube dizer, mereceu ele a acolhida desta quase centenária Casa de Lucídio Freitas e de vários outros proeminentes luminares da cultura e das letras piauienses.
Invocando e evocando um dos velhos coronéis de O morro da casa-grande, direi:

– Dílson, seja bem-vindo. Adentre e se abanque.   

Discurso de recepção ao novo membro da cadeira 21 da Academia Piauiense de Letras, proferido em 22.10.2015, ocorrido no Auditório Wílson Andrade Brandão, na sede da instituição.

sábado, 24 de outubro de 2015

Aqui jaz uma história de amor


Aqui jaz uma história de amor

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Pode até parecer manifestação mórbida, mas que me dá prazer, dá, visitinha casual ao cemitério. Ali reflito o destino inexorável do tempo. Ou o além deste tempo. Moção de fé e esperança, o elã que me promete outras esferas.

         Perambulo por entre sepulturas, detenho-me nas fotos, inscrições e luxo. Figurões que se mostravam imperecíveis em vida; agora sabe Deus o veredicto recebido. Vetustos jazigos incrustados nos muros do Cemitério São José, anônimos, carcomidos, vagas lembranças da segunda metade do século 19. Na época, escravos não tinham direito a preservar a memória ou algum luxo naquele rincão. O destino dos corpos desaparecia na insignificância do terreno, onde, hoje, se ergue a Igreja de São Benedito. Ilustres benfeitores e prelados, porém, gozavam privilégio a jazigos no interior dos templos.

         Em Lisboa, o Cemitério dos Prazeres chama a atenção pelo nome e honrarias. Datado do século 19, distingue-se pelo aparato arquitetônico e cultural de celebridades, como escritores, escultores, músicos, poetas e estadistas. O luxo e preservação dos monumentos exigem controle rigoroso na entrada e saída de visitantes, com agenda marcada. Exposições e eventos que desmitificam a ideia de cemitério da angústia.

         Quando nem a morte põe fim às grandes histórias de amor, elas se perpetuam através da memória, nas artes e nos túmulos. Romances que se tornaram conhecidos por desafiarem preconceitos e regras sociais, como a saga de Inês de Castro, decantada por Camões, ou Iracema de José de Alencar

         Visitei uma das muitas catacumbas romanas. Os primeiros cristãos abriam túneis, fora da cidade, que ultrapassavam dez km de extensão, onde enterravam mortos ou fugiam à perseguição imperial. Ainda adolescente, como seminarista, visitei Redenção, no Ceará. Na entrada do cemitério, letras garrafais, em latim, alertavam-me: HODIE MIHI, CRAS TIBI. Hoje, sou eu; amanhá serás tu.

         O povo da Ilha de Madagascar segue tradição de enterrar seus mortos com batucadas, danças e comida farta. Uma festa celebrada a cada sete anos ou mais, abrem as criptas e desenterram os restos de ancestrais e os envolvem em lençóis, em grande alegria, bailes, comes e bebes. Dançam abraçados aos restos mortais, certos de que eles transmitem virtudes.

         Vi, bem de perto, os corpos das santas Rita de Cássia, em Cássia, Itália; o da freira Clara, falecida há oito séculos, em Assis; o de Terezinha de Jesus, em Lisieux, França. Todas vestidas da cabeça aos pés, em sarcófago de vidro sob o altar. Sinceramente, só decepção: os belos e jovens rostos, apenas máscaras mortuárias perfeitas. Incorruptilidade milagrosa, por que só ocorre numa mesma religião cristã? Então, me lembra genial bispo Santo Agostinho, filósofo, doutor em teologia, convertido boêmia do quarto século da decadente Roma, padroeiro dos cervejeiros e teólogos: “O cuidar dos funerais, a escolha da sepultura, a pompa das exéquias, visam mais à consolação dos vivos do que ao interesse dos mortos”. Ou estes versos de Salgado Maranhão: “Devagar as inscrições se apagam/Na balbúrdia do efêmero/E estátuas de sombra”.    

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

TERESA DE CALCUTÁ - RAINHA DO BEM-ESTAR


TERESA DE CALCUTÁ - RAINHA DO BEM-ESTAR

Francisco de Almeida (*)


Em mensagem de otimismo
Transmite-nos Calcutá,
Por vinte e uma perguntas
As regras do bem-estar,
Em escritos bem singelos
Com belezas de castelos,
Do início até fechar.

Ela pergunta e responde
Com lição muito profunda,
E em cada informação,
De sabedoria inunda
Este nosso ser errante,
Sobremodo vacilante,
Para uma vida fecunda.

Dando início, ela indaga, 
Qual é o dia mais lindo?
Com resposta bem cristã:
O dia que está fluindo,
O hoje é belo presente,
O amanhã está ausente
E o ontem já é findo.

  
Qual é a coisa mais fácil?
Enganar-se é a resposta,
A raça humana é falível
Mesmo de razão composta,
Comete erros tão banais
Mais que outros animais
E de perdoar, não gosta.

O obstáculo mais difícil?
É o de vencer o medo,
Um monstro devorador
Sem guardar nenhum segredo,
Deixa-nos muito arrasados
Com os braços amarrados,
Livre-se dele, o mais cedo.

Maior erro cometido?
É o de se abandonar,
Valorize sua pessoa!
Não deixe de se cuidar,
Ninguém velará por nós
O ser humano é algoz,
Depois pode se doar.

  
Raiz de todos os males?
É o gigante egoísmo,
Ficar no centro do mundo
Não constitui heroísmo,
É dando que se recebe
Mas pouca gente percebe,
Evite cair no abismo

A mais bela distração?
É nosso honrado trabalho,
A preguiça é um mal grave
Não vá seguir por atalho
E nem depender da sorte,
Seja uma pessoa bem forte,
Com dureza de carvalho.

Qual é a pior derrota?
É o triste desalento,
Não se entregue ao desânimo
Seja vibrador atento,
O plano gera a ação
E esta a realização,
A coragem é alimento.

Os melhores professores?
São as singelas crianças,
Inocentes, sem maldades,
Não lhes faltam esperanças,
Dão suas respostas sinceras,
Pois em franqueza são feras,
E nos provocam mudanças.

Primeira necessidade?
É a comunicação,
Sem relacionamento
Não há uma interação,
O entendimento é tudo
Até mesmo pro ser mudo,
No caminho do cristão.

Qual é o maior mistério?
É a morte, com certeza,
Existem explicações
Mas nenhuma com firmeza,
Só mesma a fé pra sanar
E toda dúvida tirar,
Prosseguindo a correnteza.

  
E qual o pior defeito?
É o horrível mau humor,
Um comportamento péssimo
Que destrói qualquer amor,
Consome nossa saúde
De forma tão amiúde,
Vamos dele ter pavor.

A pessoa mais ofensiva?
É aquela mentirosa,
Acaba muita amizade
Extingue com fama honrosa,
Entre um malandro sincero
E o mentiroso severo,
A mentira é mais gravosa

Qual o pior sentimento?
Diz-se que é o rancor,
Sendo o contrário da paz
Estimulando o furor,
É veneno pra quem guarda
E a saúde não resguarda,
Um cavalheiro da dor.

O presente mais bonito?
É o fraterno perdão,
Um prêmio incalculável
Sem qualquer comparação,
É qualidade do forte,
O fraco não tem suporte,
Fazendo condenação.

Qual a rota mais rápida?
É o caminho correto,
Embora sendo espinhoso
Mas será o predileto,
É a trilha do direito
Com tudo justo e perfeito
Que nenhum mal acarreta.

Qual a melhor sensação?
A de paz interior,
E isso é felicidade
Não depende de favor,
Felicidade é estado
Que não se tem por comprado,
Só se consegue c’amor.
  

Defesa mais eficaz?
É um sorriso espontâneo,
Não se defenda com ira,
Tenha controle instantâneo,
Violência não resolve
E suas forças, absorve
Tenha no amor supedâneo.

E qual o melhor remédio?
O eficaz otimismo,
Com ele sempre se vence
E não se cai em abismo,
A força está na esperança
No que se acredita alcança,
Descartando o egoísmo.

A maior satisfação?
É a do dever cumprido,
O trabalho realizado
Com o seu fim atingido, 
Sendo a grande recompensa
Vindo da labuta intensa,
Que se tem por merecido.

Força mais forte do mundo?
É a invencível fé,
Não queira explicar Deus
Pois terá um pontapé,
Somente a fé radiante
Levar-lhe-á adiante,
Quer no chão ou na maré.

A mais bonita das coisas?
É o paciente amor,
Tolerante sem limite
Na alegria ou na dor,
Não cobra compensação,
É como uma devoção
Recheada de esplendor

Minha singela Teresa,
Venho aqui agradecer
Por estas belas lições
Que terminei de aprender,
Não seguindo plenamente,
Mas mesmo parcialmente,
Posso melhor merecer.    

(*) Membro da Advocacia Geral da União (Advogado da União de Categoria Especial). Pós-Graduado- Lato Sensu - em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho pela Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal; Pós-Graduado - Lato Sensu - em Direito Civil e Processual Civil pela Universidade Católica Dom Bosco, em convênio com Marcato – Cursos Jurídicos; Poeta Popular; Maçom - M.: I.: Gr. 33 (Pertencente à Academia de Mestre Maçons – Cadeira n. 86 – Patrono Joel Borges); pertencente à Academia Piauiense de Literatura de Cordel – APLC – Cadeira n. 01 – Patrono Firmino Teixeira do Amaral. E-mail: almeidaz@terra.com.br – telefone (86) 9-9991.2081.   

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Gurgueia, um rio em agruras


Gurgueia, um rio em agruras

Reginaldo Miranda
Da Academia Piauiense de Letras

Ainda há pouco passei pelo Gurgueia, um dos mais importantes rios do Piauí, que outrora serviu de caminho aos pioneiros desbravadores da Casa da Torre.

Foi pelo seu vale úmido que desceram em desespero os perseguidos nativos das tribos gurgueias que povoavam os dilatados sertões de dentro. Foi no encalço desta sofrida nação indígena que os perseguidores guerreiros do feudo baiano descobriram e povoaram esta parte da colônia. Foi em seu ubérrimo vale que o governador de Pernambuco concedeu as primeiras sesmarias na bacia oriental do rio Parnaíba. Foi em suas barrancas que Francisco Dias d’Ávila e Bernardo Pereira Gago,assentaram as caiçaras de seus primeiros currais. Foi pastando no capim mimoso dos “sacos do rio” que se situaram as primeiras fazendas do Piauí. E aí o gado pé-duro multiplicou-se vertiginosamente como as estrelas do céu e incontável como os grãos de areia à beira-mar do dizer bíblico, para encher a pança do canavieiro das encostas do litoral e do garimpeiro das gerais montanhas mineiras. Foram esses rebanhos, engrossados e engordados em suas margens dadivosas que, mais tarde, povoaram outras fazendas em outros vales ribeirinhos daquém e dalém Parnaíba. O que dizer do Uruçuí, do Poti, do Longá, do Parnaíba e até do Balsas e do Itapecuru, cujos rebanhos foram iniciados pelas novilhas e novilhos do Gurgueia? Pois este rio está morrendo.

Eu ainda lembro-me da primeira vez em que o atravessei, no rigoroso inverno de 1972. Fui passar férias na fazenda Riacho do Mendes, de um velho parente-amigo Josias Rocha da Silva, então prefeito de Bertolínia, em companhia de seus familiares. O carro, uma picape Willys de cor verde, ficou estacionada à margem esquerda, do lado bertolinense, e nós atravessamos a pé para o outro lado, dirigindo-nos para a sede da fazenda. Atravessamos na parte rasa, empedrada, onde durante a estiagem passavam os raros automóveis e os animais de montaria, o que não era permitido para os primeiros na estação invernosa como aquela. Então, os adultos homens e mulheres passaram caminhando com cuidado e nós crianças fomos passados pelos adultos. Eu, um menino de oito anos de idade, fui atravessado no ombro do prefeito. Em minha visão de criança o rio parecia fenomenal, a cada dia ganhando mais volume d’água e transbordando por imensas áreas. Foi um mês gostoso fazendo peraltices em seu vale.

Hoje, o atravessei novamente, sobre moderna ponte numa caminhonete, na altura do povoado Barra do Lance, município de Jerumenha.  De forma triste, com a alma amargurada pude contemplar a areia clara de seu leito desnudo e testemunhar as agruras de um rio que morre a olhos vistos. O Gurgueia pede socorro. Em seu leito, onde outrora correu águas barrentas para fertilizar o solo e semear a vida, hoje vi apenas o reflexo da luz do sol sobre a areia clara. Em seu curso, onde outrora correu água em abundância para matar a sede e irrigar o solo, hoje vi marcas de pneus de caminhões e tratores. É triste este quadro para um gurgeiano ver e lembrar dos tempos de outrora. À mente veio a quadra da infância, desde aqueles tempos de que faço referência.

Porém, o mais triste é saber que este rio morre sem que ninguém faça qualquer coisa para salvá-lo. Os fazendeiros já desmataram toda a sua margem. O seu leito está completamente destampado, à luz quente do sol, desde a serra do Galhão, onde nasce, até a desembocadura no rio Parnaíba, pouco abaixo do balneário da Manga. São pouco mais de quinhentos quilômetros de criminoso desmatamento, de assoreamento e de tristeza. Não tem mais fauna. Morreram os peixes e répteis. Desapareceram caititus, veados e queixadas; as pacas e cotias; foi dado adeus às capivaras, cujas manadas eram um símbolo do Gurgueia. O gado já não pasta como outrora. Ver água agora, só nas enxurradas, virou grotão, só água das escassas chuvas, quando o inverno chegar. E por pouco tempo. É agora rio temporário.


Mas uma pergunta inquieta. O que é do Ministério do Meio Ambiente? E da Secretaria que lhe corresponde no Piauí? Serão só cabide de emprego? Ou vão começar a trabalhar? Embora de forma atrasada, é hora de começarem os estudos ambientais e entrarem em ação para salvar esse rio. Então, pegar o chapéu e pedir para sair. Porque não dá mais para esperar. O rio que já foi chamado de vale da promissão, pede socorro. Vamos despertar. É preciso salvar o Gurgueia e com ele o homem, a flora, a fauna, enfim, a vida e a tradição vaqueira e sertã do sudoeste do Piauí. Acorda, vamos à luta bravo povo da minha terra!   

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Posse de Dílson Lages na APL


O presidente da Academia Piauiense de Letras, Dr. Nelson Nery Costa, convida V. Exa. e família para a solenidade de posse do professor e escritor Dílson Lages Monteiro na cadeira 21.

Patrono: Leopoldo Damasceno Ferreira

1º ocupante: Antônio Francisco da Costa e Silva

2º ocupante:Maria Isabel Gonçalves de Vilhena

3º ocupante: Francisco Hardi Filho

Novo ocupante: Dílson Lages Monteiro

Discurso de recepção: José Elmar de Melo Carvalho



22 de outubro de 2015, às 19h

Auditório Acadêmico Wílson Brandão

Academia Piauiense de Letras

Avenida Miguel Rosa, 3300 - Centro

Teresina-PI   

domingo, 18 de outubro de 2015

TÉDIO


TÉDIO

Elmar Carvalho

Só o tédio absoluto,
o vazio total,
a negação completa,
eu sinto sempre.
Sempre a falta de algo.
Sempre o algo inalcançável.
sempre a louca
procura
do tesouro perdido,
da pedra filosofal inexistente.
Sempre a eterna
falta de inspiração
para a eterna poesia
nunca feita.
Sempre a mesma
falta de amor.
Sempre o mesmo amor
velho e tedioso.
Sempre o
mesmo tédio cansado.
Sempre, sempre, sempre
o mesmo sempre de desilusão.

           Pba. 08.09.77   

sábado, 17 de outubro de 2015

PARA QUE SERVEM AS FLORES


PARA QUE SERVEM AS FLORES

Jacob Fortes

Para que servem as flores? Isso compete aos fitologistas. Porém, cheios de bondade, não irão enfadar-se se eu, — que tenho o vezo de imiscuir-me em assuntos que extrapolam os meus domínios —, discorrer, ainda que sem brilhantismo, sobre elas. Vejamos: as flores têm múltiplas finalidades e significados. Repletas de simbologia sintetizam coisas infindas: o nascimento, a beleza, a fragrância, o riso, a lágrima, o carinho, o amor, o beijo, a música, a jovialidade, a sublimação, a feminilidade, a fertilidade, a esperança, a inspiração musical, o hálito noturno (que sossega as madrugadas); ornam a ambas: a vida e a morte. Sua existência, tão impermanente quanto bolha de sabão, retrata a efemeridade da vida. Quando oferecidas a alguém exprimem a amizade, a admiração, o respeito, a gratidão, o pesar pelo falecimento. Nos jardins ou nos campos, as flores perfumam tudo: o ar, os seres, as almas humanas; têm o condão de abrandar corações petrosos. Ataviam o mundo; deixam-no mais galhardo, multicolorido, musicado, perfumado, risonho, romântico. “Se ainda houver outra bomba atômica que seja esta de flores para impregnar o mundo de perfume e de amor”. Ainda consigo vê-las lá atrás, no palco aceso da infância, (Por esse tempo a legítima integridade sertaneja pautava sua existência pelo sonoro do chinelo de estalo): multicoloridas, silvestres, engalanando as ramagens do sertão. Sertão metido em fardamento novo, verde-abacate, que lhe fora alfaiatado pelo precipitar das chuvas tímidas (que mal repenicavam no telhado); incapazes de formar lagoeiros, mas suficientes para abrolhar, nos viventes, a alegria. Com a ingenuidade do meu tempo de infante, eu as contemplava; extasiado: o aroma, os matizes, os beija-flores e abelhas lhes sorvendo o néctar. O traço triste é que as pétalas iam-se despegando, uma após outra, como fazem as árvores: despejam as suas folhas assim que notam a proximidade do outono. Do alto da cajazeira copada, plena de flores alvacentas, brevemente o festim tão aguardado pela infância na roça: a safra abundante do cajá maduro!

Flagrantemente, a cada minuto encolhe o habitat das flores! Sob os mais diversos pretextos, desde o incremento de áreas urbanas à lenha de arder, máquinas de força descomunal, no papel sinistro de magararefes da floresta, destroçam a natureza, (em nível de xerém se preferir), mais das vezes seguidas, complementarmente, por outras, coadjutoras, que vão socalcando o solo e esmaltando-o com a impermeável e escurecida borracha. Até quando, sob o beneplácito da negligência, da imobilidade, da descura ou egocentrismo, esse perpétuo apetite continuará, num assomo de crueldade, assolando as paisagens agrestes consagradas à flora e a fauna? As consecutivas sentenças de morte, anunciadas pelo ronco do trator, esgotam, progressivamente, as flores. Parece que ninguém lhes liga importância; Chico Mendes, o mártir da floresta, ligava: “[...] Cadê a flor que estava aqui? Poluição comeu. E o peixe que é do mar? Poluição comeu. E o verde onde é que está? Poluição comeu. Nem o Chico Mendes sobreviveu”. Mas sem as sementeiras, as flores, responsáveis pela perpetuação da vida vegetal, o planeta sucumbe. É preciso não consentir, desapoderar os magarefes antes que todas as florestas sejam abatidas, antes que a aldeia se faça desértica, se improprie à vida vegetal/animal.

Todas essas flores, invisíveis aos olhos, que as decalquei na retina do leitor, são as emissárias do Jacob Fortes para dizer, em tom de salmo: muito obrigado! Se mais não digo é para que elas falem por mim.   

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O PAPEL VOADOR


       
  O PAPEL VOADOR

  Alcenor Candeira Filho

          Passei o fim de semana prolongado pelo feriado religioso-  Dia de Nossa Senhora Aparecida  -  na  praia de Maceió,  no município de Camocim-Ce,  duas horas de viagem a partir de Parnaíba.
          Como em outras ocasiões,hospedei-me  na Pousada Recanto do Mar,  de propriedade de Judivan Sousa  e  Conceição Tomaz Sousa,  empresários que amam o trabalho, a família, os amigos,  a música, as festas  juninas,  a cerveja  sem álcool  e  sobretudo  a  Deus.
          Eles têm três  filhos  já adultos e bem encaminhados na vida  -  Thiago, Thamires  e   Thalita  -;  são  católicos  e  estudiosos  da  Bíblia.
          Nashoras de diversão  Judivan gosta de tocar o instrumento  predileto:  uma bela sanfona vermelha que parece saber de cor e salteado as músicas de Luís Gonzaga. De vez em quando executa músicas compostas por ele mesmo.
          Roberto Silva, o Pilin, com a mulher Cristiany, os filhos Larissa, Luan e o neto Lucas  estavam também em Maceió.  A turma toda sempre junta.
          Conheci o casal Judivan e Conceição através de Thiago Tomaz, jovem médico cardiologista casado com a médica pediatra Intã Bruna,pais de um menino de um ano e dois meses  -  Gabriel  -  , neto de Roberto, Judivan, Ana Lúcia e Conceição, figurando ainda nesse rol  Cristiany  e  eu,  também  chamados  de  “vovó/vovô”.
          Faço essas considerações iniciais para contar um episódio que me comoveu bastante lá em Maceió, testemunhado pelas pessoas citadas e  por várias outras :  encontrava-me no terraço da pousada,  à  tarde,  escrevendo tranquilamente o fecho de um trabalho a que me vinha dedicando há alguns dias sobre o livro  RIBAMAR,  prêmio Jabuti de 2011  na categoria romance,  de autoria do escritor carioca  e amigo José Castello, quando repentinamente forte ventania levou a leve folha de papel  com algumas linhas já redigidas.    Levantei-me às pressas a tempo de vê-la sendo varrida pelo vento.  Lembrei-me do filme “E o Vento Levou”e  sem pestanejar corri  danado de raiva atrás do papel  voador.  Percebendo a inutilidade da busca, “sem maior proveito/ que o da caça ao vento”  como diria Carlos Drummond de Andrade,  desisti  logo:  afinal de contas o texto poderia  ser reconstruído ou reescrito ainda hoje  mesmo ou no máximo  amanhã.  O único senão era a possibilidade de confirmação do conhecido axioma estético:“a emenda é pior do que o soneto”.
          Aíé que entra em cena o dr. Thiago, que, persistente, vasculhando aqui, ali, lá, acolá... putf!  encontra o papel. “Ai! Que alívio!”Continuei então a escrever na voadora folha avulsa,  de frente para o mar, cervejinha com álcool  ao lado, que ninguém é de ferro. Com o texto praticamente concluído ,  nova  rajada de vento e mais uma vez lá se vai   a folha pelos ares. Procura-se aqui, procura-se ali, chega a noite e nada .
          Por não acreditar que seria novamente encontrado-  o raio nunca cai duas vezes no mesmo lugar -  iniciei  o espinhoso trabalho de reconstituição ou reescrita do  texto.   Cansado,considerei  a tarefa  como  quase concluída,  embora não gostando do resultado:  “Amanhã, Dia de Nossa Senhora Aparecida,  a Padroeira do Brasil,  encerrarei de vez o trabalho. Falta tão pouquinho!”
          Antes de se recolher para dormir, Judivan me disse com impressionante convicção: “Amanhã cedo acharei o papel. Vou recorrer a São Longuinho, que nunca falha.”
          Dia seguinte, café da manhã, Judivan me entrega o papel voador, um pouco amassado,com o pedido  de     que eu desse três pulos bradando a cada salto: “Achei,
meu São Longuinho!”
          Caríssimos amigos Judivane  Thiago:  sei que São Longino, pelo  povo e pelos padres  chamado de São Longuinho,  merece todo o respeito e devoção.  Mas com sinceridade lhes digo:se não fosse a sensibilidade de vocês, que entenderam o quanto aquele insignificante pedaço de papel era importante para mim, não teria havido o resgate duas vezes.
          Comparandoo texto voador com o que tentei reconstituir e que não voou, deparei-me  com o óbvio:  a emenda estava pior que o soneto.
                   Ao chegar em Parnaíba  fiz no computador os ajustes finais no texto como um todo, logo enviado para o escritor José Castello e para o blog do poeta Elmar Carvalho, que fez a postagem de imediato.
                Àpágina final do texto  -  O ROMANCE  “RIBAMAR” E  A PARNAÍBA  -  é que vocês,  queridos  amigos que presenciaram  a história do “papel voador”, poderão recorrer para saber o que nele estava escrito  e  por que fiquei tão incomodado com o seu desaparecimento. Cliquem no “poetaelmar.com.br”  e boa leitura.


                                        Parnaíba, outubro de 2015.