sexta-feira, 17 de julho de 2015

FUTEBOL DOS VOVÔS

Coronel Walker Prado

FUTEBOL DOS VOVÔS
(JOGO DE CONFRATERNIZAÇÃO)
FIM DE VIDA X PÉ NA COVA
(3º ANO DE COMPETIÇÃO – FUTEBOL SOCIETY)

Texto: Luís Alberto Soares (Bebeto)

LOCAL: Campo da Associação dos Amigos do Esporte e Lazer – AAMEL (Bairro Limoeiro) – AMARANTE – PIAUÍ
DATA:  25 de julho de 2015 - HORÁRIO: 16h
CRIAÇÃO:
Um grupo de amigos da terceira idade num ideal de confraternizar periodicamente e resgatar a história futebolística gloriosa de Amarante formou dois times de futebol society denominados: “FIM DE VIDA FUTEBOL CLUBE” e “PÉ NA COVA ESPORTE CLUBE”. A designação se deu em 27 de julho de 2013, da brilhante ideia do amarantino Orlando Soares Ribeiro, ex-craque de futebol, conhecido como ZAGUEIRO MURALHA.
 FINALIDADE:
- Confraternização de atletas que marcaram história no cenário esportivo amarantino e no Brasil afora.
- Motivar a juventude para cultivar o futebol arte de nossa AMARANTE que tanto nos  trouxe glória.
COMISSÃO ORGANIZADORA:      
Antonio Soares Ribeiro (Tota) - Luís Alberto Soares (Bebeto)- Denison Duarte- Irene Silva - Paulo Afonso Alencar Cunha Júnior - Fátima Freitas - Gonçalo Freitas (Gonçalinho)- Virgílio Queiroz - Edvaldo Ferreira Lima (Bobô)
HOMENAGEM PÓSTUMA:
Como forma de reconhecimento pela relevante contribuição ao futebol amarantino, externar gratidão aos inesquecíveis atletas:
ANTÔNIO AYRES LIMA – amarantino nato, considerado por muitos como um dos melhores jogadores de Amarante de todos os tempos, conhecido como o “Pé de Ouro”. Jogou no Amarantino Futebol Clube e na Seleção de Amarante.
VICENTE LIMA  amarantino, um dos atacantes mais respeitados que Amarante já teve.  Um apaixonado por futebol. Habilidoso jogador, ajudou o Amarantino Futebol Clube e Seleção de Amarante em muitas glórias.
SANATIEL PEREIRA DA SILVA – Filho de Amarante. Foi zagueiro do Fortaleza Esporte Clube, considerado um dos melhores do norte-nordeste. Atuou nos times: Amarantino Futebol Clube, Flamengo, Botafogo, Piauí e River (Teresina), Maranhão (São Luís – MA), América (Fortaleza) e nas seleções do Piauí, Maranhão e Ceará.
FRANCISCO EVARISTO DE SOUSA o popular “Chico do Antonhão”, um craque amarantino. Era habilidoso, chutava forte com os dois pés, cabeceava bem e tinha um passe preciso. Inteligente, criativo, boa estatura.  Jogou longos anos como volante em times e Seleção de Amarante.
VICENTE ALVES VIEIRA o popular “Vicente Zumba”, natural de São Francisco do Maranhão, marcou história no futebol amarantino. Considerado o maior zagueiro de Amarante de todos os tempos. Tinha uma grande paixão pelo futebol de nossa Terra. Dizem, se o inesquecível craque fosse da geração de hoje, jogaria em qualquer time de grande expressão do mundo, talvez, até na Seleção Brasileira.
 JOSÉ NUNES LIMA – o popular Zé Mambira, foi um grande ídolo do futebol de Amarante e da região. Meio campista, um craque - comparado como clone de “Mané Garrincha” devido sua habilidade e de dribles desconcertantes e com o famoso “SAI DOIDO” que tanto irritava os adversários. Inesquecível velho Mamba, como também era tratado, principal atração de longos anos do Amarantino Futebol Clube e da Seleção de Amarante. RAIMUNDO NONATO DA SILVEIRA – vulgo “Nonatinho”, amarantino nato, também conhecido como “Nonato do Né” e “Meu Bode”. Fez história no futebol de Amarante, era um centroavante habilidoso, rápido e goleador. Com ele não tinha esse negócio de amarelar em jogos aqui e fora. Jogou no Amarantino Futebol Clube, Seleção de Amarante e River de Teresina.
LUIZ GONZAGA BEZERRA – natural de Amarante, conhecido comoDezoito”, apelido adquirido no futebol. Fez história como centroavante na Seleção de Amarante, Buriti dos Lopes (PI), no Amarantino Futebol Clube, no Parnaíba e Paissandu (PI).
JOSÉ RIBAMAR FREITAS amarantino nato, o popular Ribinha Cudanta, destacou-se tanto no futebol como na música. Como jogador, fez fama (ponteiro esquerdo) no Amarantino Futebol Clube e na Seleção de Amarante. Tinha como característica principal as brincadeiras agradáveis com os amigos.
ONÉSIO E JOSÉ PAULO – goleiros amarantinos de significativa contribuição ao futebol de Amarante. Defenderam por longos anos o Amarantino Futebol Clube e a Seleção de Amarante.
JURANDIR SOARES RIBEIRO – amarantino nato, lateral direito arrojado e eficiente na função de neutralizar o adversário. Posteriormente, destacou-se como juiz de futebol amador caracterizando-se principalmente pela rigorosidade na condução da arbitragem. Herança essa advinda da formação de militar do Exército Brasileiro. Seu entusiasmo era tanto que mesmo sendo soldado, era chamado pelos colegas da corporação como “CABO JURA”.

COMISSÃO ORGANIZADORA DO EVENTO

CORONEL E MÉDICO AMARANTINO SE DIZ
PRONTO PARA ENFRENTAR O “FIM DE VIDA”

          Em conversa por telefone com seu conterrâneo major e engenheiro civil, segurança e clínico Antonio Soares Ribeiro, um dos organizadores do duelo futebolístico entre “Fim de Vida Futebol Clube x “Pé na Cova Esporte clube, no próximo dia 25, em Amarante, o extrovertido amarantino coronel e médico Walker Rodrigues Prado, atleta do “Pá na Cova” e um dos maiores nomes de Amarante, se diz fortalecido para enfrentar seu eterno rival, o “Fim de Vida”.
      Vale ressaltar que o amarantino ilustre brilha muito no Piauí com seus relevantes serviços de médico-cirurgião e militar. Coronel da Polícia Militar do Piauí (aposentado). Presta expressivos trabalhos no Hospital da Polícia Militar do Estado. Foi candidato a deputado estadual e federal e a prefeito de Amarante. Dr. Walker como é mais conhecido em nosso meio, é portador de uma inteligência significativa. Gosta de atender com muito prazer todo povo de Amarante.
O coronel e médico Walker é um apaixonado por futebol – jogou muito futebol no Amarantino Futebol Clube e na Seleção de Amarante. Tem um campo particular onde promove jogos com times amadores (Teresina). Casado com Vera Lúcia Gomes Prado, também, muito famosa. Doutora em odontologia, professora da Universidade Federal do Piauí. Pais de três dedicados filhos maiores de idade.

Luís Alberto (Bebeto Soares)

quinta-feira, 16 de julho de 2015

GENEALOGIA, HISTÓRIA E ECOLOGIA EM ESPERANTINA


(c) Foto:Isael Lustosa. Boa parte das pessoas vistas na fotografia foram referidas no texto


16 de julho   Diário Incontínuo

GENEALOGIA, HISTÓRIA E ECOLOGIA EM ESPERANTINA

Elmar Carvalho

I PARTE

Dias atrás recebi um e-mail do Valdemir Miranda de Castro, me convidando para umas homenagens que seriam prestadas ao grande piauiense, herói e poeta, Leonardo de Carvalho Castelo Branco, que depois adotou o nome literário de Leonardo da Senhora das Dores Castelo Branco. Haveria um réquiem, um panegírico sobre sua vida e obra e a fundação do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico Leonardo Castelo Branco. Depois recebi um convite formal (impresso) e um telefonema do Valdemir, reforçando o teor do e-mail.

Tive a satisfação de reencontrar ou conhecer ilustres literatos, intelectuais, historiadores e genealogistas, radicados em diferentes municípios, entre os quais cito, pedindo desculpas por eventual e involuntário esquecimento: Dílson Lages Monteiro, Elias Medeiros (o Júnior e o pai), Paulo de Tarso Batista Libório, Assis Fortes, Adrião José Neto, José Luiz de Carvalho, Diderot Mavignier, Antônio de Pádua Marques, Ailton Pontes, Ramon Vieira de Carvalho, João Barros da Silva Filho, Adauto Fortes de Sá Meneses, major Leonardo Castelo Branco e o principal articulador do evento, Valdemir Miranda.

No domingo, dia 12, cedo da manhã, segui para Esperantina, em companhia de meu irmão Antônio José. Não consegui alcançar a missa em intenção da alma do ilustre homenageado, mas cheguei antes do início do panegírico, de modo que o assisti na íntegra. Valdemir, ao sabor do improviso, sem necessidade de anotações, com segurança e domínio de todo o conteúdo, discorreu sobre a vida do homenageado.

Com riqueza de detalhes, falou dos principais acontecimentos e obras de sua longa existência. Enalteceu as suas virtudes e principais realizações. Analisou e interpretou as suas mais notáveis produções literárias. Falou de sua busca inglória do legendário moto-contínuo, ainda hoje por ser inventado, que lhe consumiu boa parte da existência, e que lhe fez despender esforço, labor, tempo e dinheiro.

Também se referiu às suas participações em lutas libertárias, em virtude das quais sofreu mais de uma prisão. Valdemir é a pessoa mais indicada para escrever a mais completa biografia do notável poeta e patriota Leonardo da Senhora das Dores Castelo Branco, cuja rica existência não precisa ser romanceada, porque na verdade já é um romance, cheio de peripécias e de fatos heroicos, quixotescos e interessantes. Leonardo é, no bom sentido da expressão, um legítimo Dom Quixote de carne e osso, cavaleiro andante das causas libertárias piauienses e brasileiras.

Em minha intervenção, após o término do belo panegírico feito pelo Valdemir, seu descendente, outro cavaleiro andante das causas culturais, ambientalistas e de preservação do patrimônio arquitetônico esperantinense, lembrei o belo poema épico moderno “Leonardo” de H. Dobal, de quem tenho a honra de ser o sucessor na Academia Piauiense de Letras – APL, que enaltece e louva a figura ímpar e exemplar do homenageado, em versos extraordinários como os seguintes: “No campo raso vai galopando / Leonardo de Nossa Senhora / das Dores Castello Branco / que também outrora / se assinou de Carvalho. // A vária fortuna de Leonardo / vai governando os astros da manhã. / Leonardo capitão de campo / conhece o nome o nume desses campos (...).”

Ressalto que, tanto nos versos que acima transcrevi, como nos fragmentos do texto historiográfico (em prosa), estes da autoria de F. A. Pereira da Costa, contrapostos às várias estrofes, o nome literário adotado pelo poeta e herói aparece como sendo “Leonardo de Nossa Senhora das Dores”, quando na verdade deveria ser Leonardo da Senhora das Dores. De qualquer modo isso é apenas um mero detalhe, que em nada desmerece o fulgor e a beleza do poema dobaliano e nem o valor e a veracidade do texto em prosa.

Quero lembrar que no ano de 1997 foi publicada a Lei Estadual de nº 4.993, que previa a criação do Memorial Leonardo de Carvalho Castelo Branco. Essa lei, a exemplo do artigo 226 da Constituição Estadual de 1989, que determinava o ensino de Literatura Piauiense, tornou-se verdadeira “letra morta”. Ao longo desses mais de 14 anos nenhuma das sucessivas gestões estaduais executou esses dois dispositivos legais, o que bem demonstra o apreço que os nossos governantes têm pelas coisas e causas culturais e artísticas.


Aproveitei, em meu outro aparte, em que também fiz a apologia de Leonardo, para elogiar a obra Enlaces de Família, de Valdemir Miranda de Castro. Recomendei a sua aquisição aos interessados em história e genealogia. É uma rigorosa pesquisa genealógica dos ascendentes do autor, sobretudo tomando como ponto de partida o grande poeta, inventor e patriota. Mas não é somente isso, o que já seria demais.

Enfoca ainda outras famílias ilustres, no corpo principal, pelas afinidades, ou no apêndice, que ele pretende ampliar, que contribuíram para a povoação do vale do Longá, mormente as que se fixaram em Campo Maior, Barras, Batalha, Esperantina, Piracuruca e Parnaíba. Traz interessantes fotografias e notas biográficas sobre as principais figuras históricas referidas. Elucida o início histórico desses municípios, discorrendo sobre os principais fatos e atos que determinaram a sua criação e desenvolvimento.     

terça-feira, 14 de julho de 2015

Gramática pra home nium recramá


Gramática pra home nium recramá

José Maria Vasconcelos 
Cronista, josemaria001@hotmail.com

         Conheci Ademar, balconista de uma casa de produtos agrícolas. Pense num rapaz habituado a leituras sadias. Ao me atender, sempre me surpreendia com indagações úteis da última leitura. Trocou de emprego por outro mais em conta, menos as perguntas e curiosidades. Repare o e-mail cheinho de inteligência e profundidade: “Gostaria de saber sua opinião sobre o livro "POR UMA VIDA MELHOR",  adotado pelo Ministério da Educação. É digno de um escorregão ou não? Eu achava que sim, mas vendo algumas entrevistas com os linguistas Ataliba Castilho e José Luiz Fiorin, fiquei duvidoso”.

         Educação, nobre Ademar, é um processo lento e esforçado de construção do caráter, conhecimento científico, habilidades e virtudes, a partir da linguagem. A esquerda populista, porém, entende cultura como preservação de museu de minhocas primitivas. Daí não subestimar líder político de muita lábia que nunca leu um livro. Ou preservar índio eternamente despido nas tocas, isolado da civilização. Ou guetos sem escola de qualidade. Ou pobre articulando e escrevendo português peba. A ignorância alimenta de votos a demagogia.

         Desde 2011, o Ministério da Educação vem adotando o livro didático, POR UMA VIDA MELHOR, que, de melhor, só a gorda conta bancária que o livro rende. Professora aposentada da rede pública de São Paulo, Heloísa Ramos, autora,  ministra cursos de formação para professores: “A proposta da obra é que se aceite, dentro da sala de aula, todo tipo de linguagem, ao invés de reprimir aqueles que usam linguagem popular”.

         O livro ensina aos alunos que é válido escrever “nós vai de ônibus” ou “as garotas pega carona”. Doutora em Linguística, professora Viviane Ramalho, da Universidade de Brasília, defende a linguagem popular ensinada, abertamente, nas escolas, para se respeitar o interlocutor que usa outras variedades da língua, como forma de a escola se aproximar do estudante. Imagine eu tentando resgatar jovens da droga fumando maconha com eles. Que paradoxal pedagogia!

         A linguista Juliana Dias acredita que a escola deva ensinar exclusivamente a norma culta e usar a linguagem popular apenas como exemplo durante as explicações. O popular, por conseguinte, não cabe para o ensino. Cabe somente para reflexão e, até mesmo, para o combate ao preconceito com formas mais simples de falar.

Em palestra sobre Produção de Texto, ministrado em escola privada, comparei a linguagem ao guarda-roupa, no qual se escolhem peças, conforme o evento e oportunidade. Ridículo ir à praia de terno ou à cerimônia da igreja de calção.

A língua culta, gramaticalmente correta, é indispensável nos textos oficiais, científicos e veículos de comunicação. Reservam-se os méritos da linguagem popular nas geniais canções de Luís Gonzaga e de tantos outros notáveis artistas. Imperdoável, todavia, o uso da vulgaridade e do besteirol, fartamente explorados em músicas de suprassumo mau gosto. Respeitar o gosto de cada um, mas aceitar o insosso e medíocre, condena-se a retornar ao primitivo tribal. Ademar conseguiu sua carta de alforria do atraso, estudando, lendo, trocando ideias. O moço vai longe, sem promessas demagógicas  “Por Uma Vida Melhor”.   

segunda-feira, 13 de julho de 2015

OS MORCEGOS DA CAPELA


OS MORCEGOS DA CAPELA

Chico Acoram Araújo

            Certa feita estava eu, como de hábito, a fechar a janela de um dos quartos da minha casa, logo após a fuga dos últimos raios solares daquele calorento dia do mês de setembro. Contudo, através dessa janela que dava para o pequeno quintal da casa, ainda se via alguns ralos clarões reluzentes no poente, ao longe, entre as nuvens. Contemplei aquele cenário; um ar de felicidade e melancolia me abateu. Ao sair, ouvi um inopinado ruflar de asas no forro do recinto. O ambiente estava escuro.  Deduzi que fosse algum inseto ou um pequeno pássaro. Acendi imediatamente a lâmpada. De imediato, não vislumbrei o que voava sobre minha cabeça, pois o bicho se deslocava, sem bater nas paredes, em uma incrível velocidade. Só depois de um olhar atento, identifiquei que era um Chiroptera, conhecido vulgarmente como morcego, ou andirá ou guandira como os índios o denominavam em língua Tupi Guarani; o único mamífero que voa na face da terra, e possuidor de um extraordinário sentido da ecolocalização, que não é nada menos do que um biossonar ou orientação por ecos, que utiliza para orientação, busca de alimentos e comunicação. Reabri a janela, pequei de uma vassoura, pus o inusitado hóspede para fugir; desapareceu na noite já escura.

            A presença daquele pequeno mamífero voador, possuidor de mão e asa, daí o nome Chiroptera, de origem etimológica nos respectivos termos gregos cheir e pterón, que significa mãos transformadas em asas, me fez viajar, pelo túnel do tempo, para um determinado período de minha infância, na periferia de Barras do Marataoan. Era final dos anos cinquenta. Com cinco ou seis anos de idade, minha mãe cuidou logo de me colocar em uma escola. A única existente no bairro funcionava em uma antiga capela; atualmente igreja da Paróquia de Santa Luzia, no Bairro Boa Vista. A escola funcionava de forma precária e improvisada. A sala de aula era o grande salão da capela. Os longos bancos de madeira, onde os fiéis se sentavam nos dias de missa e novenas, serviam de carteiras escolares para os alunos. Uma bondosa senhora, de nome que não recordo agora, era a professora da escola; aliás, a única para ensinar cerca de 30 ou 40 alunos que se dividiam em duas turmas, sendo a primeira dos meninos iniciantes, e a segunda dos mais adiantados. O corredor que separava os bancos da igreja era o divisor das duas salas de aulas. O material escolar da criançada resumia-se em apenas um caderno de caligrafia e uma caneta-tinteiro. Os poucos livros, provavelmente pertencentes à professora, eram utilizados de forma coletiva. Hoje, creio que a metodologia pedagógica aplicada naquele rudimentar estabelecimento de ensino era positiva, pois quando minha família mudou-se para Teresina, em certo janeiro de 61, eu já sabia ler e escrever, razão esta que me fez ser promovido para uma série imediatamente superior, ou seja, para o “Primeiro Ano B” do Grupo Escolar João Costa, localizado na Rua Jônatas Batista, ao lado do Estádio Lindolfo Monteiro, no centro da cidade. Isso é uma outra história. Talvez, em outra oportunidade, poderei fazer uma dissertação sobre o assunto.

            No primeiro dia aula, ainda cedinho da manhã de uma provável segunda-feira, acompanhado da minha saudosa mãe, entrei na escola, ou melhor, na capela, onde já se encontravam a professora e mais alguns alunos. A mamãe bastante alegre me apresentou à mencionada educadora. Todo acanhado, dirigi-me para uma improvisada carteira escolar que ela apontara com um gesto de mão. Minha mãe me observou, e sorriu; voltou para casa, feliz. Logo depois, as duas salas de aula, separadas por uma parede invisível, estavam lotadas. A aula teve seu início. Não prestei muita atenção ao que a professora falou no começo, pois meus olhos estavam fixos no teto da capela. Boquiaberto, descobri vários morcegos pendurados, de ponta-cabeça, nas ripas do telhado. Estavam quietos, adormecidos. Voltei minha atenção para a professora. De vez por outra, olhava para aqueles engraçados ratos voadores.  Flagrei, algumas vezes, que eles também nos observavam, com seu olhar de olhos cegos, brilhantes e misteriosos. A capela, além de escola, também servia de dormitório diurno para aqueles pequenos animais, saindo os mesmos apenas durante a noite para se alimentarem de frutos, sementes, folhas, néctar, pólen e pequenos vertebrados. Acho que não se importavam com a presença dos alunos. Eles faziam parte do cenário escolar; tornaram-se indiferentes.

            Retornando-me dessa viagem de saudosas lembranças de criança lá do meu torrão natal, meus pensamentos voltaram para o hóspede que minutos atrás tomou rumo ignorado no breu daquela noite. Passei um bom tempo matutando porque muitas pessoas têm concepções fantasiosas sobre os morcegos, que geram comportamentos hostis e estimuladores de atitudes agressivas a esses animais tão importantes para a natureza. Sabe-se que quando há uma grande colônia de morcegos em uma região, estes facilitam o controle de peste, pois eles são predadores naturais de insetos. Além disso, os morcegos são importantes na polinização, pois estes ao visitar as flores para consumir néctar, acabam por transportar o pólen de uma flor a outra da mesma espécie, ajudando assim a reprodução das plantas visitadas. Da mesma forma, eles são responsáveis pela dispersão de sementes durante o ato de pegarem os frutos de diferentes plantas para comerem e, ao fazerem isso, ingerem ou carregam as sementes, dependendo do tamanho.

            Quanto aos mitos e famas dos morcegos, fiz uma pesquisa na Internet onde descobri algumas curiosidades sobre a nossa personagem agora em comento. Com relação aos vampiros, os morcegos estão impregnados em nossas mentes, pois os vampiros transformavam-se, às vezes, em morcegos, e saíam voando por aí, conforme mostram os filmes do gênero. Isso porque a lenda dos vampiros é muito conhecida e difundida em todo o mundo. O filme mais visto sobre vampiros foi aquele baseado na lenda do Conde Drácula, um romance escrito em 1897 pelo autor irlandês Bram Stoker. Daí muitos outros filmes foram produzidos e vistos no mundo inteiro. Dizem que a associação dos morcegos com essa lenda deve-se a três espécies de morcegos, sendo a mais conhecida a espécie do morcego-vampiro, encontrado no México e América do Sul. Importante salientar, que esse tipo de morcego não chupa, e sim lambe o sangue que sai da mordida desferida por ele. A outra identificação dos morcegos com os vampiros é o fato de esses animais terem hábitos crepuscular e noturno. Algumas espécies de morcegos gigantes são encontradas na África, Oceania e Ásia, que chegam a dois metros de envergadura, são conhecidas como “raposa-voadora”. Quanto ao mito de os morcegos serem cegos deve resultar da imaginação de que estes usam exclusivamente a ecolocalização. Pelo contrário, os morcegos têm uma visão excelente. A ecolocalização, ou o sexto sentido, vamos assim dizer, é um recurso adicional que os morcegos possuem.

            Para finalizar, transcrevo a seguir uma interessante fábula criada pelo grego Esopo que conta a história envolvendo a nossa personagem desta crônica: o enigmático morcego. A princípio, imaginei não existir nenhuma fábula com o protagonista aqui evidenciado. Antes, porém, creio ser oportuno dizer quem foi Esopo. Segundo a enciclopédia Wikipédia, ele foi escritor da Grécia Antiga a quem são atribuídas várias fábulas populares. A ele se atribui a paternidade das fábulas como gênero literário. As suas fábulas serviram como base para recriações de outros escritores ao longo dos séculos, como Fedro e La Fontaine. O fabulista grego teria nascido no final do século VII a.C. ou no início do século VI. O local de seu nascimento é incerto.
Eis a história do fabulista grego Esopo:

O Morcego e a Doninha

Um morcego desajeitado caiu acidentalmente no ninho de uma Doninha, que, com um bote certeiro o capturou.
Atemorizado, o morcego pediu que esta lhe poupasse a vida, mas a Doninha não queria lhe dar ouvidos.
“Você é um rato, ela disse, “e eu sou por natureza inimiga dos ratos. Cada rato que pego, evidentemente, me serve de jantar, essa é a lei.” “Mas, a senhora veja bem, eu definitivamente, não sou um rato!”tentou explicar o infeliz Morcego. “Veja minhas asas. Você já viu um rato que é capaz de voar? Claro que sou apenas um tipo de pássaro, de uma variedade, podemos afirmar, um tanto exótica. Por favor, me deixe ir embora!”.
A Doninha, olhando melhor para sua vítima, concordou que ele não era um rato e o deixou ir embora. Mas, alguns dias depois, o mesmo atrapalhado Morcego, cegamente, caiu outra vez no ninho de outra Doninha.
Ocorre que Esta Doninha era inimiga declarada de todos os pássaros, e logo que o tinha em suas garras, preparou-se para abocanhá-lo.
“Você é um pássaro,” ela disse, “por isso mesmo o comerei!” “O que?” Exclamou o Morcego, “eu, um pássaro! Isso é quase um insulto. Todos os pássaros possuem penas! Cadê minhas penas, você é capaz de vê-las? Claro que não sou nada além de um simples rato. Tenho até um lema que é: Abaixo todos os Gatos!”
E o Morcego teve sua vida poupada pela segunda vez.
Moral da história:
1.     Sábio é aquele que é flexível, que sabe analisar a situação e agir de acordo com as circunstâncias.
2.     O sábio aprende a tirar do problema uma solução incapaz de criar outros problemas ...                

domingo, 12 de julho de 2015

LÍRICA 2.222


LÍRICA 2.222

Elmar Carvalho

Eu vi teus olhos
de pedras verdes musgosas,
dissolvendo-se em líquido
no verde móvel do mar.
Teu corpo vi tomando
a forma da praia
e a tua voz assumindo
a cadência da música
das ondas.

De você me veio
uns longes veios de saudades
e maresias
invadindo meu ser.

Os teus cabelos
eram loiras algas,
encrespadas em ondas do mar.

As curvas
da terra e do mar
são apenas projeções
da poesia selvagem de teu corpo.

Sim, sinto ainda te amar
a leste, oeste, ao vento e ao mar,
com a mesma paixão incontida
de um gesto feito de raiva,
do tempo em que eu tinha
a inocência e o pecado
de um deus feito de pedra.  

sábado, 11 de julho de 2015

VENDEDOR DE ORAÇÕES

Foto meramente ilustrativa

VENDEDOR DE ORAÇÕES

Jacob Fortes

Certa feita, visitando uma dessas feiras populares, deparei-me com um vendedor de orações, ancião atópico para não dizer esquisito. Atendia pelo apodo de “Louro”, arruivado, corpo pesado, protuberância abdominal e papadas pletóricas. Caricaturado de frade capuchinho, quiçá rabino, vestia uma espécie de sobrepeliz, de cor solferino e barrete, na cor branca, sobre a coroa descalvada. Sua barba branca e hirsuta completava o caricatural fradesco. De sorriso blandicioso e mansuetude distintamente imperturbável, apregoava, em tom de veracidade, que as orações à venda, cada qual com seu propósito, eram de virtudes prodigiosas. A cada dezena de orações adquirida o comprador recebia de brinde um frasco de água benta que, segundo afirmava, depois de espargida no interior da residência tinha o condão de impedir a entrada do “sujo” ou quaisquer dos seus emissários satânicos. Por meio de um pequeno inquérito pude saber desse vendedor, propagandista da fé, a serventia das tais orações de salvação. (É o meio que cada um engendra para amealhar tostões valedores; melhor que pilhar a algibeira de quem trabalha).

Vendia orações para todas as finalidades possíveis e inelutáveis, em vários idiomas, inclusive em árabe. As súplicas, em cada uma, se endereçavam, conforme o caso, aos mais diversos Santos, dentre eles Santo Elesbão. Nessa lista figurava os que ainda não haviam passado pelo rito da canonização, portanto desconhecidos do Santo Papa. Exemplificativamente, eis a serventia das orações: em favor do bom parto, do perdão eterno, da saúde e segurança pública; contra vícios e defeitos, dores em geral, raios, tremores subterrâneos, mau-olhado, afogamentos, mordida de cão, picada de cobra, desilusões amorosas, corrupção, propina, suborno, caixa dois, ditadura, analfabetismo, injustiças, malversação, cooptação, fisiologismo, despotismo, nepotismo, tráfico de influência, ateísmo, celibato, etc. O “Louro” tinha particular predileção pela reza que prometia sono bem dormido: (“Nesta cama me deito, desta cama me levanto, a Virgem Nossa Senhora me cubra com seu manto”). Mas não se podia descuidar de certos rituais sem o que as orações não surtiam os efeitos desejados: umas haviam de ser penduradas ao pescoço do suplicante, em forma de escapulário, outras ao cós da saia e assim por diante. Também, que as rogativas fossem formuladas de modo fervoroso.
Nas palavras do “Louro” os santos, educados na humildade evangélica, não se fazem de rogados: se esmeram em atender tolerantemente todos os pleitos, requerimentos e cartas de empenho.

E eu, pobre mortal “borra-papeis”, que não ouso contraditar a existência de Deus e do poder das orações, (isso fica para os agnósticos), tratei de adquirir não apenas uma, mas o maço completo: quarenta orações. Afinal, além de asceta e espiritualizado, também sou crendeiro brasileiro. Espero em Deus que as orações sejam de grande valimento não apenas para este modesto escriba, mas para os seus ledores. Que elas nos valham nas aperturas; que possam remediar as nossas precisões sobremodo mitigar os duros momentos do ajuste fiscal, imposição do governo que aflige, dia e noite, o cérebro dos brasileiros: que porejam na faina para honrar as suas obrigações e bancar os que vivem parasitariamente.    

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Elmar Carvalho: a toga, a memória e o lirismo



Charges: Gervásio Castro

Elmar Carvalho: a toga, a memória e o lirismo

Cunha e Silva Filho
Escritor. Professor. Pós-doutor em Literatura Brasileira

A carreira do escritor Elmar Carvalho se divide, a meu ver, em duas fases: a de maior expressão, a poesia de vanguarda, que lhe deu notoriedade e a da sua produção em prosa algo conservadora, mas não anacrônica. A poesia, por enquanto, quero crer que possivelmente hoje a cultive por via indireta, ou seja, pelo saudável exercício das leituras.

            Contudo, ninguém pode exigir que um poeta que escreveu obra de reconhecida qualidade estética seja obrigado a produzir por vontade e desejo alheios. A poesia, como qualquer obra literária, não nasce por decreto ou por injunções legais. Só ao poeta é dada a possibilidade de livremente criar ou não.

            A criação literária é um fenômeno artístico que só medra como manifestação natural da vontade de quem a produz, no tempo que lhe aprouver. O silêncio poético só aos poetas pertence. Em consequência, não temos o direito de lhes exigir nada no domínio criativo.

            Ao falar da prosa de Elmar Carvalho, me refiro ao gênero ficcional. Por outro lado, não estou insinuando que em outras manifestações da escrita não-ficcional, ele tenha produzido obra inferior, porquanto no ensaio não acadêmico, na crítica igualmente não-acadêmica, assim como na crônica de caráter lírico, dramático ou lidando com matéria sobrenatural, o poeta Elmar Carvalho tem sabido produzir alguns textos de indiscutível qualidade literária.

            No autor, entretanto, a poesia se insinua em sua produção não-poética, i.e., o lirismo, nele permanente como estratégia de linguagem de maior imaginação criadora, não lhe permite deixar de vez a poesia, ainda que não o queira. Por conseguinte, no ponto mais alto de sua obra, continua poeta e, em segundo plano, o prosador, quer no ensaio, na crítica esporádica e na ficção. É dentro dessa perspectiva de abordagem crítica que me volto para comentar-lhe o livro de memórias recém-editado, Confissões de um juiz (Teresina: Academia Piauiense de Letras, 2014, 193 p. Prefácio de Reginaldo Miranda).

            Determinadas vidas merecem transformar-se literariamente em memórias em face de sua específica trajetória profissional e pessoal. No exemplo do poeta Elmar Carvalho, pelas circunstâncias e impactos de sua vida pessoal e profissional, o recurso do autor a reproduzir criativamente certas partes significativas de sua vida não lhe veio por veleidades ou exibicionismos subalternos, mas para dividir com o leitor o que de seu percurso existencial valeria a pena ser compartilhado pelos seus coetâneos. Pode ter sido uma forma de catarse, pode também ter sido uma vontade insopitável de dar testemunho da experiência de vida do seu tempo tanto na carreira de magistrado quanto na de um homem que enfrentou os desafios e os rigores provocados por uma doença que o atingiu por duas vezes e da qual saiu vitorioso.

           Suas memórias, segundo assinalou no final do prefácio, são “confissões,” o que quer dizer que nelas os relatos se fizeram a bem da verdade, sem subterfúgios, sem maquinações.

Procurou, assim, a verdade limpa e desnuda, a que, enfim, interessa como lição de vida dividida entre o afeto, a dor, a saudade, as perdas, os ganhos e o pacto com a literatura rememorativa, que se alinha, desde os primeiros cronistas portugueses, os primeiros historiadores lusos, as primeiras biografias em língua portuguesa a se interessarem pela experiência vivida em várias situações da existência humana.

Aí se incluem os nomes que primeiro vão dando um contorno memorialístico a narrativas que fizeram história, aí se incluindo os nomes de Garcia de Resende, com as suas Miscelâneas, e o de Fernão Mendes Pinto com a sua Peregrinação. A linhagem se avoluma com o passar dos séculos até chegar à contemporaneidade.

O mesmo se poderia afirmar das primeiras produções literárias brasileiras com acento memorialístico, desde a carta de Pero Vaz de Caminha até aos tempos de hoje, em que o Brasil pôde contar com grandes nomes de autores de memórias, Joaquim Nabuco, Gilberto Amado, Érico Veríssimo, Álvaro Moreira, Humberto de Campos até culminar com o grande memorialista Pedro Nava.

No Piauí, penso que temos ainda uma quantidade considerável de livros de memórias ou autobiografias. Do meu conhecimento, alguns autores já enveredaram por este gênero. Sem citar os títulos, menciono pelo menos os autores: H. Dobal, Nasi Castro, Francisco Miguel de Moura, Eleazar Moura, Geraldo Almeida Borges, Celso Barros Coelho, Homero Castelo Branco, José Ribamar Garcia, Assis Fortes, Olemar de Souza Castro e o autor deste artigo, que acaba de concluir um livro de memórias, de título Apenas memórias.

Cada livro de memórias singulariza-se por um traço particular, por uma escolha geralmente circunscrita à vida profissional do autor, que pode ser um médico, um professor, um escritor profissional, um juiz, um cientista, um político um ator, um militar etc. A profissão compreende as vivências do memorialista e é a partir dela que o autor se alia ao papel do escritor-memorialista.

No exemplo de Elmar Carvalho se repete esta estratégia narrativa neste gênero literário.

No poeta Elmar Carvalho, do ponto de vista profissional, um ciclo de vivências se fechou logo que lhe veio a aposentadoria de juiz. É desse recorte de sua experiência como juiz que nele surge a possibilidade de contar suas memórias. Dessa empreitada se saiu muito bem como artista da palavra a serviço das evocações de um juiz que percorre lugares diversos do interior piauiense, do seu dia-a-dia de julgador de litígios, de conciliador nos momentos em que era preciso pesar na balança da justiça os prós e contras a fim de dar o veredicto mais justo possível ou, como o memorialista deixa sugerir nos seus relatos, julgar sempre tendo em vista o lado dos mais fracos.

Seu percurso de magistrado se realiza em várias comarcas, cada qual com suas peculiaridades, com a sua realidade própria e com seus diferentes problemas. Poder-se-ia dizer, o juiz Elmar Carvalho é sempre aquele viajante compelido, por seu ofício, a mudar de lugares, a conhecer outras pessoas, a conviver com o provisório.

Poderia chamar seus relatos de memórias telúricas, visto que o juiz com suas “confissões” não perde tempo para ir registrando fatos, cenas, paisagens, natureza diversa, pessoas diferentes que encontrou em cada comarca interiorana para a qual era designado.

A paisagem interiorana, os costumes, os hábitos, a vida social, a vida cultural, se lhe fixaram na retentiva. Tal espólio da memória - “quase dezessete anos de magistratura” -, se lhe tornaria farto material de rememoração e de análises instigantes em forma de livro.

Confissões de um juiz não se cinge apenas à experiência técnico-burocrática de um magistrado-poeta. As memórias se expandem a outras vertentes de sua função.

O memorialista não é só o homem da Justiça, mas o cidadão que tem suas aspirações e seu idealismo, além de sua atuação de escritor, de cronista, de ficcionista, de ensaísta que não para de publicar, tem seu blog, vive a vida intelectual piauiense, está em sintonia com o mundo acadêmico e com a vida literária de seu Estado. Participa de questões ambientais, culturais, desportistas, como, no caso da primeira, a da preservação do rio Parnaíba em páginas contundentes de reação contra os inimigos da natureza.

A obra em exame não é só depositário de fatos da vida de um juiz, mas se compõe de textos pictóricos onde o estatuto da linguagem assume toda uma força lírica, com belas e comoventes passagens onde se distingue o talento do memorialista na pintura da paisagem, da flora e fauna piauienses, como são exemplos paradigmáticos, na segunda parte da obra, “Memórias afins,” passagens de muita beleza e vigor descritivo (“Oração à Vila de São Gonçalo de Regeneração”, p.57-65 “Evocação de Piracuruca,” p.79-81).

Porém, a beleza de alguns textos não se faz apenas de paisagens bem descritas, mas também de textos alusivos à condição da justiça praticada para o bem e à necessidade da prática da bondade consoante lemos na seção “Exortação à justiça e à bondade (p.74-77).

O memorialismo de Elmar Carvalho reúne uma gama de visões e perspectivas formando um painel no qual o autor fala de escritores, pessoas comuns, servidores da justiça, condição humana, injustiças, prepotência, vícios humanos, erros da administração pública, erros da justiça, em que nada lhe escapa do olhar de espectador atento às misérias humanas.

Outros temas lhe são caros nas relembranças, a sua participação de atleta, de goleiro, a sua permanência no Recife a fim de realizar um curso de monitor postal.

Não lhe falta fortaleza moral para reportar-se ao câncer de que foi vitima, da luta para a sua recuperação e cura, de uma recaída, formando estes relatos um ponto algo trágico de sua caminhada existencial, felizmente tendo superado tudo com uma vida renovada e pronta a seguir sua travessia agora mais empenhada no universo em que talvez mais se sente bem e recompensado, que é o de produzir literatura.

Prende-me a atenção, de forma especial, por seu sentido de humanidade, de afeto, e de saudade, a terceira parte das memórias, denominada “Memórias afetivas.” Neste capítulo o poeta Elmar despe-se de qualquer formalismo de linguagem e adentra o mundo dos sentimentos, contudo, sem pieguismo.

Discorre sobre a perda da mãe, da família, da morte precoce e trágica de sua irmã Josélia, de seu amigo inesquecível, Zé Henrique, de seus antepassados, da grandeza moral de seu pai, Miguel Arcângelo, felizmente ainda lhe dando o prazer de seu convívio, da perda inconsolável de sua irmãzinha Josélia, falecida, aos quinze anos, em acidente de carro, de seus amigos, de seus irmãos e irmãs e last but no least, das mortes de duas cachorrinhas de estimação, exemplos edificantes da capacidade de animais serem tão humanos, tão mais do que alguns humanos, Belinha e Anita, em textos de beleza pungente, em cujo tempo de leitura não contive as lágrimas.

Elmar Carvalho pertence à estirpe de escritores que não deixam escapar a conveniência de entender a “alma” dos bichos, como o fazia tão bem outro retratista de animais, o escritor Guimarães Rosa (1908-1967), com a sua modelar estória de profunda humanidade, “O burrinho pedrês", um conto de Sagarana (1946). Assim como podíamos citar outros escritores que deram estatura de humanidade a animais e bichos, como Graciliano Ramos (1892-1953), com a sua cadela Baleia, de Vidas secas (1938) e o ficcionista piauiense, Rivanildo Feitosa, em clave cômico-erótica, com a personagem-protagonista, uma cadela vira-lata, de nome Sabiá, do romance Reflexões de uma cadela vira-lata (2011).


A derradeira parte das Memórias de um juiz se destina ao que chama de “Memória fotográfica.” O bom é que para cada foto o autor preparou pequenos textos informativos sobre as fotos, num total de 29, representativas de momentos marcantes de sua vida pessoal, familiar e profissional. Finalmente, ao livro acrescenta uma quinta parte, formada de depoimentos sobre o autor de figuras da vida cultural piauiense. As duas últimas páginas contêm uma “síntese biográfica do autor."

quinta-feira, 9 de julho de 2015


DOIS POEMAS DE ÉDISON ROGÉRIO (*)

MEDO

A noite avança negra como o breu

A lamparina brilha longe, no alto do morro.

Meu pai diz: é o guabiru. Agarro-me a ele

Transido de medo peço socorro

Cinco anos de vida, criança assustada,

O coração tímido bate em disparada

Medo de quem não conhece a vida.

O sol levanta e a vida de sonhos continua

O tempo passa a vida segue cheia de realizações

Desilusões, relacionamentos vis e peito vazio.

Eis que inesperadamente surge o rocio

Como alvíssaras de um verdadeiro e puro amor

Mas corações cruentos açaimaram-no.

Ibá amedrontou-se. O medo das consequências pesou.

Kaolin partiu, a flor viçosa murchou, o medo venceu!

Toriba, adeus.


SEM ELA

Amanhece, o rouxinol cantando voa

ao encontro do dia e da companheira.

Vida leve, felicidade plena,

Alguém por quem lutar



Brisa que sopra na manhã de verão,

lindo sol iluminando tudo.

Contraste com o ocaso da vida

sem graça, sem cor, sem ela.



Processos, partes, direito a proteger,

Missão a cumprir. Pra quê?

Vento geral que sopra pro norte

Traz-ma! Devolve-me a vida.



Carolina das lindas cachoeiras,

Riachão dos poços azuis!

Beleza infinda, natureza sem par!

Alegria não vista, tristeza que corta,

ausência que mata.



Sem ela, vida sem viço, vazio no olhar.

(*) O autor é juiz de Direito e poeta bissexto (mas bom).   

O PALHAÇO ASSASSINO



9 de julho   Diário Incontínuo

O PALHAÇO ASSASSINO

Elmar Carvalho

Como já tive oportunidade de dizer, em meus tempos de garoto fui levado a cinema, jogo de futebol e a espetáculos circenses por meu pai. Disso guardo enternecidas e saudosas lembranças, que me provocam um misto de regozijo e nostalgia. Portanto, assisti a talentosos palhaços, mestres das gargalhadas e da alegria, que me encantaram em minha meninice. Infelizmente, desde muito tempo, em sentido impróprio e pejorativo, palhaço passou a ser sinônimo de moleque, de malandro, de dissimulado, de debochado etc.

Depois, em minha juventude e maturidade, admirei alguns notáveis humoristas, como Chico Anysio, Jô Soares, Renato Aragão, o Didi, Dedé Santana, Mussum, Tutuca (com seu célebre bordão: “Ah, se ela me desse bola...), Ronald Golias etc. São os comediantes da contemporaneidade ou os famosos palhaços da TV. Todavia, enquanto existir circo, acredito que os palhaços, de exageradas mímicas, de roupas espalhafatosas, bufantes e coloridas, de enormes e largos sapatos, de caras pintadas, de ridículas perucas ou mais ridículas carecas, continuarão existindo.

A literatura e o cinema celebrizaram ou mesmo criaram imortais palhaços. Seguindo a legenda de que o show não pode parar, de que tem de continuar de qualquer maneira, o grande poeta cearense padre Antônio Tomaz, em comovente soneto, relata que certo palhaço, embora com o coração dilacerado pela morte da filha querida, por exigência do dono do circo, teve que se apresentar no picadeiro. Foi compelido a fazer a plateia gargalhar, conquanto sua alma soluçasse.

O sublime poeta alemão Heine, no poema O tédio, conta a história de um homem, que consumido pela tristeza, que hoje seria rotulada como sendo uma depressão aguda, foi consultar famoso médico, tendo este lhe recomendado que fosse assistir às apresentações do palhaço Arlequim, mestre supremo da arte de arrancar gargalhadas e aplausos. O paciente, ante essa “receita”, declarou que o seu mal não teria remédio, porquanto ele era esse considerado inigualável clown.

Ainda ontem, através da Netflix, assisti ao filme espanhol Balada do amor e do ódio, que conta a história do triste palhaço Javier, que se apaixonou pela linda trapezista Natália, namorada de outro palhaço, de nome Sérgio, grande em sua arte, mas violento em sua vida pessoal. Belo filme, que recomendo aos amantes da sétima arte. Pensei que seria uma tragicomédia, mas na verdade foi uma pura tragédia passional de artistas que, apesar de tudo, amaram a arte circense e as crianças.

Poderia ainda citar a personagem trágica do conto O aniversário da Infanta, de Oscar Wilde. Trata-se de um anão disforme, de feiura grotesca, mas que arrancava gostosas gargalhadas da princesa e de seus nobres companheiros, como se fora um legítimo bobo da corte. Ou poderia falar de O Bobo, protagonista maquiavélico do romance de mesmo título, de Alexandre Herculano. Contudo, para não me avantajar em linhas, deixo que o leitor se encarregue de conhecê-los na íntegra, fazendo uso das narrativas originais.

Já escrevi vários textos sobre circos e palhaços. Sobre Slava Polunin, do Cirque du Soleil, produzi uma crônica, em cujo final digo: “Além de atuar em vários shows de palhaçadas (no bom sentido da palavra), criou alguns números para o Cirque du Soleil. Perguntado sobre se era alegre, ao contrário dos palhaços de Heine e do padre Antônio Tomás, respondeu que era radiante. Todavia, depois, em outro trecho da entrevista, quando a apresentadora lhe perguntou se tinha algum momento de tristeza, disse que sim. // Claro, como em todo ser humano, em sua alma deve haver alguma hora sombria, por onde se infiltra o fio insidioso de sutil melancolia.”

A respeito de outro palhaço, nascido na antiga União Soviética e falecido nos sertões de dentro, mais precisamente na cidade de Jaicós, muitas décadas atrás, cuja história me foi narrada pelo deputado Humberto Reis da Silveira, compus o poema A cova do palhaço, do qual transcrevo os seguintes versos: “Distante do rincão eslavo, / numa cidadezinha perdida do agreste, / traspassado pela irremediável tristeza infinita, / nostálgico de tudo, nostálgico e só, / morreu numa tarde tristonha, / na hora melancólica do sol-posto. / Pó ao pó. Corpo deposto.”

Meu pai, Miguel Arcângelo de Deus Carvalho, que em sua maturidade escreveu algumas crônicas e artigos, vários publicados no jornal A Luta, de Campo Maior, elaborou o texto Palhaço, em que consignou: “(...) como disse, certa vez, um velho pensador: “Tenho servido de agulha a muita linha ordinária”; diria eu, agora, tenho servido de palhaço a muita platéia ordinária.” Trata-se de mera força de expressão, de retórica, de metáfora. Meu pai nunca foi palhaço. E sempre mereceu o acatamento e respeito de seus amigos, familiares e contemporâneos.

Agora, para meu assombro e tristeza, pela televisão, soube da existência de um palhaço assassino. Já conhecia a personagem cinematográfica Chucky, o brinquedo assassino. De qualquer forma palhaço e brinquedo, por sua própria finalidade, não se harmonizam com tristeza e morte. Na verdade ambos devem proporcionar alegria às crianças. O chamado palhaço assassino, por motivo de ciúme, teria matado a sua jovem esposa, com quem tinha uma filha de apenas cinco anos.


Cai a empanada, com rubras manchas de sangue, sobre o picadeiro. E os holofotes se apagam.