quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O Massacre do Alto Alegre - A infeliz Perpetinha

Foto meramente ilustrativa

O Massacre do Alto Alegre - A infeliz Perpetinha                    

José Pedro Araújo
Cronista, historiador e romancista

                Publiquei aqui neste espaço uma crônica histórica sobre o Massacre do Alto Alegre (Post de 18.03.2015), no qual descrevo a tragédia sofrida pelas crianças internas do Colégio dos Capuchinhos de Alto Alegre, região de Barra do Corda. Tem sido uma das postagens mais acessadas desde então. Volto ao assunto para discorrer sobre uma das vítimas daquela tragédia acontecida em 13 de março de 1901: a estudante Perpétua Moreira.
                Como relatei no post anterior, os frades capuchinhos oriundos da região italiana da Lombardia, chegaram à região no final do século XIX, mais precisamente por volta de 1893, e trouxeram como propósito a realização de um grande trabalho de catequização dos índios, razão porque escolheram a região de Barra do Corda. Ativos, já em 1895 instalaram um colégio para meninos na sede do município, no qual foram matriculados mais de 80 crianças e jovens de até 14 anos. A ausência de escolas de qualidade na região foi a razão do sucesso do novo colégio erguido pelos frades em tempo recorde, além, naturalmente, do nível de formação dos professores responsáveis por ministrarem aula aos jovens oriundos das famílias mais destacadas. O sucesso do empreendimento também estimulou os padres a seguirem com o projeto adiante, razão pela qual adquiriram uma área de cerca de 3.200 hectares de terra na região do Alto Alegre, nas vizinhanças de algumas tribos de índios Guajajaras. Ali instalaram o maior projeto de catequese do interior maranhense, contando, inclusive com a ajuda do governo do Estado que repassou recursos do tesouro estadual para a consecução do ambicioso projeto.
                Com recursos oriundos da Itália, mas também do tesouro estadual, como afirmamos no parágrafo acima, os padres partiram rapidamente para a construção da infraestrutura necessária. Ergueram-se o prédio escolar, a igreja, um internato com dois pavimentos, um convento para os religiosos, além de oficinas, engenho para beneficiamento de cana-de-açúcar e um aviamento para o beneficiamento de mandioca. A escola, diferentemente da outra implantada em Barra do Corda, que só contava com meninos, receberia meninas em regime de internato.
A noticia logo se espalhou pela região, e disseminou a alegria em meio às famílias de Grajaú, Imperatriz, Colinas(Picos), Riachão e Balsas, e da própria Barra do Corda, que passaram a contar com um colégio de bom nível para acolher suas filhas em tempo integral. Lá, as jovens adquiririam conhecimentos de música, costura e bordados, além de se afeiçoarem com o melhor das práticas e costumes europeias, além de estudar em meio a excelentes professores. Em 1896 estava tudo praticamente pronto, e as alunas puderam se matricular. O colégio foi entregue nas mãos das cultas Irmãs Capuchinhas de Gênova, Itália. As novas alunas eram jovens também de até 14 anos e pertenciam às famílias mais abastadas desses municípios acima citados. 
                Seguindo uma prática que costumavam empregar nesse tipo de trabalho, os religiosos mesclaram as alunas com outras meninas indígenas trazidas das aldeias próximas para aprender a cultura do branco. O dinheiro pago pelos pais das meninas branca, manteria os jovenzinhos indígenas. Os métodos empregados na obtenção das novas alunas nativas, muitas vezes beirou ao absurdo, uma vez que muitos curumins foram arrancados literalmente dos braços dos pais com requinte de violência, como já noticiamos no post anterior. E isso, somado a uma serie de outros problemas, suscitou o agravamento das relações entre brancos e índios a tal ponto que, no dia fatídico, 13.03.1901, um domingo que tinha tudo para terminar bem, os indígenas perpetraram o maior morticínio de brancos já registrado na literatura brasileira: cerca de 200 pessoas perderam a vida violentamente naquele dia. Ensandecidos, os Guajajaras trucidaram a todos que encontraram na vila, inclusive os religiosos e as alunas brancas. Com única exceção: uma garota de nome Perpétua Moreira, vulgo Perpetinha. Perpetinha era filha de um abastado fazendeiro da região de Grajaú, e foi tomada como refém, ou algo parecido.
                Não se sabe por que razão, se apenas porque se tratava de uma bela jovem que logo conquistou o coração do jovem cacique Jauarauhu, o certo que foi a única jovem levada como refém pelos índios, e escapou da morte. O desdobramento dessa chacina encetou novos assassinatos, e cerca de 400 indígenas terminaram sendo mortos nos confrontos seguintes, quando os brancos que se organizaram e se armaram fortemente para se aliar ao contingente de militares que chegou de Grajaú, comandado pelo capitão Goiabeira, e de Colinas, sob o comando do tenente coronel Pedro José Pinto. Junta ao contingente de militares havia um bom número de índios Canela, histórico inimigo dos Guajajaras. Goiabeira foi o mentor de um bárbaro genocídio, sendo que muitos dos indígenas mortos, sequer estavam naquele dia na região, ou mesmo faziam parte da nação dos Guajajaras. Ter a pele vermelha já era motivo mais do que suficiente para que o militar despejasse sobre ele o seu ódio.
Perpetinha foi levada pelo cacique Jauarauhu para o interior da selva desconhecida, distanciando-se rapidamente da região do conflito. E no que pese o grupo formado para dar caça ao raptor ter permanecido no seu encalço por vários e vários dias, foi debalde a sua procura. O índio conhecia profundamente o interior daquela extensa e fechada floresta, diferentemente dos seus perseguidores, e recebia o apoio das tribos que ia encontrando pelo caminho. 
                Depois de muitos dias, os fugitivos chegaram à desconhecida região do rio Gurupi, na confluência dos estados do Maranhão e Pará. A região ficava muito distante da civilização, era completamente desabitada por bancos, e ali foram acolhidos pelos índios que se achavam aldeados por lá. A memória histórica se encarregou de criar muitas histórias sobre aquele caso que manchou de sangue a terra conquistada, e que abalou a confiança das famílias da região. Algumas verdadeiras, outras nem tanto. Uma dessas histórias, que foi repassada de pai para filho, diz respeito à pobre moça sequestrada. Nela se afirma que Perpetinha, quando em fuga, e em momentos em que se achava longe do seu captor, escrevia no tronco das árvores uma frase que ficou registrada na memória do povo daquela região: “por aqui passou a infeliz Perpetinha”.  Talvez quisesse deixar uma pista a ser seguida por seus parentes na vã esperança de ser alcançada e salva. Procedeu como Teseu ao penetrar na desconhecida caverna do Minotauro, como registra a lenda grega. Nela, o rei Minos era obrigado a enviar anualmente quatorze jovens ao monstro Minotauro. Sete homens e sete mulheres, para serem devorados dentro do desconhecido labirinto. Teseu levou consigo um novelo de linha que amarrou na entrada do labirinto e foi desenrolando até encontrar o monstro. A linha balizaria o seu retorno. Teseu, segundo a lenda grega, conseguiu o seu intento. Perpetinha, não.
                Em 1982, o jornalista e escritor barra-cordense Olímpio Cruz lançou um livro denominado Cauiré Imana, o Cacique Rebelde, no qual narra com riqueza de detalhas o grave conflito do Alto Alegre. Ele discorre também sobre o caso da Perpetinha e junta novas informações a ele. Cruz diz que ela teria sido tomada como esposa pelo cacique autor do seu rapto e tido alguns filhos com ele. Disse ainda que, muitos anos depois, ela teve a sua identidade descoberta por alguns brancos que a encontraram na tribo em que habitava. E perguntada por que não aproveitava a deixa e se reintegrava ao seu povo, disse que a sua gente agora era aquela, depois de haver constituído família e tido alguns filhos. Não tinha mais razão para retornar à sua família anterior. Olímpio Cruz publicou até mesmo uma foto de alguns indígenas, e entre eles, uma mulher índia com alguns curumins em volta, afirmando ser ela uma das filhas de Perpetinha.
                Terminou dessa foram, com pouco glamour - ou sem nenhum glamour -, a triste história de uma jovem estudante em quem a família depositou todas as suas esperanças de dias melhores, ao matriculá-la em um colégio de alto nível, dirigido por estrangeiros.   

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Heróis, vilões e safadões. E você?


Heróis, vilões e safadões. E você?

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

  
Cantores forrozeiros viram popstars e showmans da noite para o amanhecer, graças a safadas letras, de apologia à bebedeira e ao erotismo esculachado. Shows que ultrapassam 300 mil reais e seduzem o público jovem, engalanado pela beleza, requebrados e letras de pura alienação e mediocridade. Prefeituras não acodem a educação e a saúde do povo, mas se esfolam por um porre musical para engabelar a fome cultural da galera. E o país se arrasta por uma trilha filosófica de hierarquia confusa de valores, em que fica difícil calcular os danos do pesadelo no futuro. E haja heróis de araque na praça.

Quem são os verdadeiros heróis ou mitos, em torno dos quais se juntam multidões de admiradores ou fanáticos? Grupo de cientistas internacionais decidiu realizar uma pesquisa para determinar quais personagens da História são considerados os maiores heróis e vilões em todo o mundo. O estudo, que teve o resultado publicado na revista científica PlosOne, foi feito com base na  entrevista de 6.904 universitários, com média de 23 anos de idade e provenientes de 37 países, entre os quais Argentina, Brasil, Colômbia, México, EUA, Austrália, Paquistão, Coreia do Sul, Índia, Tunísia, Espanha, Itália, China e Japão. Claro que a pesquisa fora realizada em ambiente universitário, portanto de pessoas mais esclarecidas. Foram citados Albert Einstein, Nélson Mandela, Madre Teresa de Calcutá, Thomas Édson, Buda e Jesus Cristo, entre cientistas, escritores, líderes religiosos. Entre vilões, encontraram Adolf Hitler, Osama Bin Laden, Saddam Hussein, Napoleão Bonaparte, Stalin, Lenin.

Fico imaginando se fanáticos comissionados, pendurados em folhas de lagartas estatais, elegessem seus heróis e semideuses. Ou eleitores empanzinados de fajutas promessas e discursos messiânicos. Ou papagaios de piratas, colados à aba do paletó do governante para se destacar na reportagem. Ou os negociadores de cargos públicos. Ou falsos heróis do Big Brother. Ou carnudos bumbuns desfilando na mídia, ganhando fortuna só para desfilar em eventos festivos. Os pesquisadores saíram felizes com o resultado da pesquisa em ambientes universitários. Mas se observassem a cultura de muitos políticos? Se descessem aos guetos e comunidades manobradas por chefões do tráfico, quais heróis encontrariam?

A esquerda tupiniquim elegeu Che Guevara, Lampião, Fidel Castro, Hugo Chaves como heróis populares, dignos de registros em livros de exposições artísticas. Há uma disparidade de opinião sobre vilões e heróis, de acordo com a região, o tempo e corrente filosófica. Bin Laden, um terrorista estigmatizado pelo Ocidente, porém tornou-se herói festejado em grande parte do Oriente Médio. Jesus Cristo é mais divino que herói no cristianismo; perde para Buda em expressiva parte do Oriente. Tudo é relativo, defendeu Albert Einstein, apontado por universitários que estudam suas teorias. Admirar e curtir o talento de grandes artistas, como Caetano e Gilberto Gil, só para a população que conhece arte culta, lê, afina-se com recursos estilísticos. Os menos afiados na cultura têm de se acomodar com arroz com feijão. E aí aparecem os vilões e safadões enchendo os bolsos de grana e pousando de heróis.    

Café Literário apresenta Pablo Neruda & Geraldo Borges


domingo, 8 de novembro de 2015

Seleta Piauiense - Jonas Fontenele da Silva


VESPERAL

Jonas Fontenele da Silva (1880 - 1947)

Erma tarde litúrgica em declínio...
Há no espaço uma estranha barcarola
E o cadáver do Sol em nuvens rola,
0 apunhalado príncipe sanguineo.

Que na terra haja o luto, haja o assassínio!
Mas ao crente amedronta e desconsola
O crime junto aos céus, junto a corola
Das estrelas — as rosas de alumínio.

Logo depois que os mármores vetustos
Desças, ó Noite, do pesar, dos sustos,
Depois que as asas de albatroz envergues,

Há de a Lua surgir pálida e etérea,
A Lua, a triste lâmpada sidérea,
O sorriso do azul para os albergues.   

sábado, 7 de novembro de 2015

Vídeo da posse de Dílson Lages na APL

Vídeo dos discursos de posse e de recepção na APL, proferidos por Dílson Lages e Elmar Carvalho


Dialogando com a "Carta Aberta" de Ferreira Gullar


Dialogando com a "Carta Aberta" de Ferreira Gullar

Cunha  e Silva Filho


        Acredito que li , até hoje,  praticamente  todas as crônicas de Ferreira  Gullar no Caderno  Ilustrada da Folha de São Paulo,  publicado aos domingos. São crônicas nas quais  o grande  poeta brasileiro discute  assuntos  variados, destacando-se,  porém,  alguns  temas  recorrentes,  ou seja,  a política brasileira   dos  dois governos  do   Lula, do primeiro mandato da   presidente Dilma e, agora,  desse segundo  mandato dela  ainda em  andamento. Os demais  temas recorrentes abordam  outras  áreas   de  interesse do  autor:  poesia,  artes  plásticas, dramaturgia. Seu  estilo  é enxuto,  objetivo,  comedido. Fala com  experiência,  com  conhecimento da realidade brasileira, tanto social quanto  cultural. É um mestre no que faz.

     Hoje, dia 18 de outubro, sua crônica se dirige diretamente aos brasileiros: “Carta Aberta.”  É partir dela que  desejo  dialogar com o cronista maranhense.

    Gullar,  que foi  exilado no período  da ditadura  militar,  foi  esquerdista, morou na Rússia,  na Argentina,  hoje tem  uma  postura  democrática,  aberta  ao diálogo  sem extremismos e, como tal,   repudia  o PT e, na mencionada,    crônica,  conversa com todos nós, leitores, num tom sempre  de orientação firme,  franca  e com  coerência  de ideias,  principalmente,   com  uma   rara   capacidade  argumentativa  de um observador  perspicaz  dos fatos  políticos  e dos desacertos   que vê há tempos   na governança  petista.

       Gullar  não  omite  o fato de que o PT foi  fundado  por  figuras  eminentes  da vida  intelectual  brasileira que,  com   o passar do tempo,  foram se  desiludindo  dos   reais  objetivos  do  petismo, antes  se apresentando   com  uma plataforma  política  de renovação e de moralização das causas públicas,  quer dizer,  com  uma   proposta    em favor  da melhoria  do trabalhador,  das  classes excluídas, dos merdunchos  como  definia o contista  João Antônio(1937-1996).

      O poeta do  Poema sujo concorda com  o que  todos  esperavam do  Lula e nele confiavam   cegamente. Contudo,  a administração   lulista  foi  mostrando  aos poucos a que veio:   tornar-se um   partido forte  para que   pudesse mudar  a sua antiga  fisionomia de fachada e oportunista,  afastando-se  dos seus   princípios norteadores  e descambando  para uma governança  feita  de  conchavos   espúrios  com o que de pior  caracterizava a  velha   política clientelista,  combinando  populismo e cooptações  com   o empresariado e capitalismo  na sua forma mais   degradante, que é  a introdução  do esquema   de corrupção, o qual  iria  ser  traço   distintivo  do  petismo. 

     Ora, não tardou que surgissem escândalos de corrupção, envolvendo  altas figuras do governo  Lula,  como   José Dirceu,  José Genoíno e outros de maior  ou menor   projeção  no governo. Daí para  diante,  a imagem do PT e do seu líder Lula não cessou de  sofrer   uma  descontrução  do ponto de vista  de moralidade  administrativa.Os escândalos  enredavam  petistas e aliados no recebimento de propinas  e no uso da máquina  do Estado  para beneficiar   financeiramente altas autoridades  do governo  federal.

   Quer dizer,  alguns membros do PT subiram  ao  poder para se  locupletar   financeiramente   com o dinheiro  público  em conluio  com  empreiteiras  mediante  os expedientes  de favorecimento nas licitações em troca de polpudas  propinas  que iam cair nos bolsos  de  políticos  e  principalmente  do  primeiro escalão do governo Lula.

   Esse mesmo  comportamento continuou no governo  Dilma com  outros  escândalos  que  pipocaram em série, o do petrolão,  o LavaJato, com novos  atores  do mundo  do empresariado de ponta com  membros do PT no exercício de cargos  públicos.Tanto  nos mandatos do Lula quanto nos de Dilma, o segundo mandato ainda  em curso, os chefes de Estado  foram apontados  como    implicados  nessa onda de escândalos  financeiros, circunstâncias, de resto,   negadas  por Lula e por  Dilma.

      Entretanto, o que Ferreira Gullar pretendeu   enfatizar foi   o fato de que,  não obstante  tantos  escândalos,  tantas denúncias,  tantas  críticas duríssimas   contra a   honra  de Lula e de Dilma,  tudo isso  não foi suficiente para  desalienar  a cegueira  de presunção  de   parte  - creio que  pequena -  da elite  intelectual  de São Paulo -  a qual  ainda  teima  em  manter  seu apoio  incondicional  aos governos  petistas e contra  o  impeachment  de Dilma Rousseff.

        Alegam aqueles   intelectuais  de renome que  não há nenhuma   evidência  cabal  e indiscutível de que  Dilma  tenha  alguma  culpa  pela  corrupção  em seu governo. Por essa razão é  que Gullar  cobra desse   intelectuais   e de  possíveis  leitores  petistas  que   ainda mantêm  uma  solidariedade  cega ao partido populista:   “Não sei o que você diz a si mesmo  quando deita a cabeça no travesseiro. Como justificar o petrolão?

      Essa é a  questão central  da carta aberta de Gullar: não é possível que, diante dos fatos,   das denúncias, das prisões,   das investigações da Polícia  Federal, de todas  as mazelas  e falcatruas   cometidas  sob  o domínio do petismo,  as pessoas sensatas e esclarecidas ainda  estão  cegas  a esses desatinos  do PT.

     Como podem ficar   esses  fanáticos – o nome só pode ser  esse – indiferentes  à realidades  social e política do país,  às falsas  promessas de campanhas,   de Dilma, que,  mal  raivava  o dia seguinte  da sua posse,   mostrou  logo   s sua  facies   de demagogia  e de  falácias   da real  situação  caótica  com que  começava o segundo mandato:  economia  em  estado de desagregação,  inflação  alta,  juros  altos,  endividamento  público, arrocho salarial,   gastança  das contas  públicas e alta corrupção  de membros  de seu governo.

   Um estadista verdadeiro  não pode   camuflar  a situação    desastrosa  do país  provocada  pelo desgoverno e pela imoralidade administrativa. Esconder  o que no dia seguinte da posse  iria fazer  contra a sociedade  é, por si próprio,   um desserviço à Nação. Os empedernidos  petistas  não querem  enxergar  tudo isso e por isso mesmo   desconhecem  as alteridades e a voz  da  grande  maioria dos  descrentes e indignados com  o seu  governo.


   A indignação de um  povo  nada tem a ver com  golpismo. Somente  vê golpismo  os que estão  com  os olhos abertos  ao  petismo   mas vedados  à realidade de um  povo sofrido sem saúde, sem segurança,  sem  transporte,  sem  educação de qualidade e sem  esperança  alguma. Esse é o golpismo  dos cegos e alienados. A cegueira  provocada  pelo fanatismo  político-ideológico é a cegueira de todos  os  príncipes felizes.  Cumpre fazê-los   ver “o muro”  de que fala um conto  de Oscar Wilde (1856-1900). Ao transpor o “muro” do “gigante  egoísta,”  ao derrubá-lo, ele, ser alienado, presunçoso e  egoísta,  ingressa na realidade possível de ser  melhorada  e de nela  permitir  a convivência   em paz e felicidade

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

ZIQUINHO


ZIQUINHO

    Alcenor Candeira Filho

na calçada de casa
Ziquinho joga bola
apaixonadamente
no começo de tarde de domingo
com a camisa de número dez
do Clube de Regatas do Flamengo.

embaixada
pedalada
calcanhar
drible pra cá
                     drible pra lá
bola de pé
                  em pé
do pé
          para a parede
da parede
                 para o pé
lançamento curto
                  e certo
                              para o lado
lançamento            longo           e           lindo


                            para

                            o

                            fundo

e assim Ziquinho vai jogando sozinho
na calçada da rua onde mora
em tarde ensolarada de domingo
com a camisa de número dez
do Clube de Regatas do Flamengo.

de repente
da janela
sua mãe,
nervosa,
manda que ele
suba logo
que a rua é
perigosa.

e apertando
                    com bastante força
                                                     ao peito a bola
para apartar-se
                       de imaginária
                                              perdida bala
mal inicia bem
                        de domingo
                                            a tarde bela
com a camisa
rubro-negra
                                             de número dez
do Clube de Regatas do Flamengo
Ziquinho
sobe cabisbaixo devagar
para o apertado apartamento
do décimo sétimo andar
certo de que voz de mãe é lei
que a ninguém compete violar.


                                   2015

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

DIA DE FINADOS E A MORTE NA POESIA



5 de novembro   Diário Incontínuo

DIA DE FINADOS E A MORTE NA POESIA

Elmar Carvalho

Como de hábito, neste Dia de Finados não fui a nenhum cemitério. No entanto, pensei em meus mortos, parentes e amigos. Respeito os que têm o costume de visitar a cova dos seus, mas não considero que os meus ali estejam. Ali estão apenas os seus restos mortais. Eles estão em minha saudade e em minha lembrança constante. Na verdade, meus amigos mortos me acompanham, cada vez mais vivos. E talvez estejam pairando sobre os montes, os rios, as florestas e os lagos, e sobre outras belezas infinitas de uma outra desconhecida dimensão. Quando eu me for, por vontade própria jamais estarei em um cemitério. Com certeza há outros lugares mais aprazíveis em que gostaria de estar, se tal me for concedido.

Todavia, já estive em campo santo algumas vezes, sobretudo no sepultamento de pessoas amigas. No início de minha adolescência, em José de Freitas, estive algumas vezes no pequeno cemitério velho (também conhecido, algo ironicamente, como dos ricos), ao pé do Morro do Livramento. Nele, por simples curiosidade de garoto, fazia uma espécie de pesquisa histórica, e lá me deparei com os mausoléus do patriarca José de Almendra Freitas, de Antônio Freitas e o de Cândida Cunha. Esta morreu solteira e legou parte de seu rico patrimônio para a paróquia de N. S. do Livramento, além de haver construído a bela igreja de São Francisco.

Nessa mesma época, voltando a morar em Campo Maior, residi, por curto período, numa casa que ficava a dois quarteirões do velho cemitério dessa cidade. Da calçada, eu lhe avistava o portão, os cravos de defunto e o muro branco. Já ele se encontrava inativo. Ali estão sepultados, além de outros parentes, minha avó paterna e meu avô materno. Certa vez, ao contemplar vários de seus túmulos, alguns verdadeiros mausoléus, deparei-me com o do poeta Moisés Eulálio. Escrevi uma crônica, em que lhe prestei comovida homenagem, depois publicada no jornal A Luta, quando eu tinha dezesseis anos.

Aos dezesseis ou dezessete anos de idade, em companhia de meu amigo Otaviano Furtado do Vale, o Tavico, falecido em dezembro de 2013, mesmo ano em que minha mãe morreu, fiz uma viagem a Regeneração. O ônibus passava perto de um campo santo campestre, cheio de matagal. Nele havia túmulos em ruína e cruzes mutiladas. Isso foi a origem mais remota de alguns de meus poemas, entre os quais o Noturno do cemitério velho de Oeiras. No retorno escrevi um poema que falava nesses túmulos abandonados e num “agre e agressivo agreste”. Perdi esse texto ou as traças o devoraram, prestando com isso um inestimável serviço à literatura. Do meu referido Noturno transcrevo: “Cemitério / de uma morte / absoluta e sem fim / como uma música / sublime de bandolim / tangido por dedos mágicos / de Arcanjo ou Serafim ...”

Num desses cemitérios que visitei, havia um túmulo sem reboco, com os tijolos expostos e desaprumados, o que me fazia lembrar os escombros de uma tapera. De imediato me lembrei de um soneto inserto em Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima, do qual transcrevo estes versos: “nada participava da quietude / absoluta, absoluta, eternamente / absoluta daquela pedra de / tumba, compacta, lisa, desprezada”. É recomendável que o leitor leia o poema completo.

Não posso dizer que a morte seja uma coisa bela, exceto transfigurada sob a forma de arte. Talvez uma exceção seja a de Sócrates, que considero bela em si mesma e no excelente texto de Platão, que a descreve. Quando fui juiz de Direito em Curimatá, o senhor Mundinho Mascarenhas me narrou a morte de Joaquim Lustosa Nogueira, que também rotulei como tendo beleza. Sobre este final de vida escrevi a crônica Uma bela morte, que publiquei no meu livro Lira dos Cinqüentanos.

Contudo, como disse, a literatura, mormente a poesia simbolista, conseguiu transformar a morte em algo revestido de encanto e solenidade. Ali estão belas, louras e jovens virgens, com mortalhas brancas, com as níveas mãos cruzadas sobre intocados seios, adornadas por rosas e lírios. Essas angelicais virgens foram pranteadas em melodiosos versos por magníficos poetas, entre os quais Cruz e Sousa, Alphonsus de Guimaraens e o piauiense Celso Pinheiro.

De o solitário de Mariana hão de ficar ressoando pela eternidade os versos: “Hão de chorar por ela os cinamomos, / Murchando as flores ao tombar do dia. / Dos laranjais hão de cair os pomos, / Lembrando-se daquela que os colhia.” Dentro dessa linha de poesia, do cancioneiro português ficarão estes versos de Antônio Feijó: “– Lírio que murcha ao despontar do dia, / Foi descansar no derradeiro leito, / As mãos de neve erguidas sobre o peito, / Pálida e loira, muito loura e fria...”

Augusto dos Anjos, poeta original, que cantou a morte, a podridão, as ossadas, o horrendo, os vícios e a degradação da carne, em versos repletos de termos cientificistas, inoculados de virulento pessimismo e morbidez, teve seus instantes de sublimidade e esperança, e em suave elegia desta forma pranteou a morte de seu pai: “Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas, / Como Elias, num carro azul de glórias, / Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu!”

Dos livros Os Literatos e a República: Clodoaldo Freitas, Higino Cunha e as tiranias do tempo, de Teresinha Queiroz, e Literatura Piauiense: horizontes de leitura & crítica literária recolhi a informação de que no início do século passado morreram Mocinha Araújo, Iaiá Pearce e Santa Martins, “jovens, belas, namoradas, noivas” da sociedade teresinense, que mereceram as mais sentidas elegias dos mais festejados poetas de então.

Sobre o falecimento de Santa Martins disse Celso Pinheiro, um dos maiores bardos do Piauí: “Quando ela morreu, a comoção foi tão funda, o golpe tão violento, os poetas choraram tanto, que a própria sociedade sentiu se lhe arrepiarem os nervos, atordoada por tão forte sentimentalismo. // Dias inteiros, semanas sucessivas, ecoou, pelo ambiente dos salões, a música magoada da nostalgia das rimas. Eram sonetos tristes, baladas lânguidas, loas sentidíssimas ressoando enternecidamente, aos nossos ouvidos, numa plangência adorável.”  

Sobre o perecimento dessas belas jovens, como um simples aperitivo, para que o leitor busque os poemas na íntegra, vejamos os seguintes versos de Celso Pinheiro: “Quando Santa morreu a Terra toda / Se cobriu de tristeza à noite, pelas / Horas mortas, porque não ia à boda / De Santa, no Palácio das Estrelas!...” E estes outros de Antônio Chaves, extraídos do soneto Yaiá Pearce: “Eras a minha fé soberba, indefinida, / Eras a minha crença, ó lírio imaculado, / Tu, que trazias n’alma inocente e querida / A ária do nosso amor e do nosso noivado.”

Tísico, magro, celibatário e feio, inclusive tendo passado por tratamento em sanatório suíço, tudo parecia conspirar para que o excelso poeta Manuel Bandeira morresse jovem. Mas contra todos os maus augúrios, teve uma vida longa. Seu pai desejava que ele se tornasse arquiteto, porém ele preferiu ser poeta maior (e não menor, como ele se classificou num de seus poemas). No Itinerário de Pasárgada, o poeta confessa que enquanto seu pai era vivo nada lhe causava preocupação, porque pondo a sua na mão de seu pai, “nada haveria que eu não tivesse a coragem de enfrentar”. Talvez por isso tenha escrito, em Poema de finados: “Leva três rosas bem bonitas. / Ajoelha e reza uma oração. / Não pelo pai, mas pelo filho: / O filho tem mais precisão.”

Certa feita, indo ao Cemitério da Ressurreição, onde tenho jazigo há duas décadas, espiei várias lápides. Muitas eram de pessoas jovens. Por motivos que não desejo abordar agora, hoje morrem muitas pessoas no verdor dos anos. Conheci alguns dos mortos. Lembrei-me do que dizia o impoluto juiz Hilson Bona, que considero um paradigma da magistratura piauiense, de quem tive a honra de ser aluno no antigo ginásio.

Dizia ele que, quando notava que poderia estar sendo acometido de vaidade ou orgulho, ia passear no cemitério de sua comarca. Talvez visitasse as covas dos que se julgaram imprescindíveis e insubstituíveis. Nesse aspecto o nome do velho campo santo de Parnaíba é exemplar, e serve de legítima advertência: Cemitério da Igualdade.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

JAIME LINS - O Comunicador da Saudade


JAIME LINS - O Comunicador da Saudade

Antonio Gallas

Quando recebemos a notícia da morte de um ente querido, seja este um familiar ou não, nós choramos.  Quando as lágrimas não nos vêm à face choramos em nosso íntimo, internamente,no dizer popular, choramos por dentro, que é mais doloroso ainda.

Assim foi que na manhã desta terça feira, 03 de novembro, recebemos a notícia do falecimento do nosso colega Jaime Lins. Primeiro, cedo da manhã, recebo telefonema do escritor e jornalista Pádua Marques indagando-me se eu sabia alguma coisa sobre o Jaime Lins, se era verdade que ele havia falecido. Imediatamente recorro às redes sociais, acesso os blogs da cidade e, infelizmente, para tristeza nossa, encontro no Blog do Pessoa a notícia de que Jaime Lins havia falecido nas primeiras horas  da manhã do dia 03, terça feira.

Jaime Lins Solano Lopes,profundo conhecedor do rádio. Atuou em emissoras não apenas em Parnaíba ou no Piauí, mas em outras cidades do Brasil. Começou cedo sua vida radiofônica, nas antigas amplificadoras de subúrbios, escola para muitos dos grandes profissionais deste Brasil afora. Bom caráter, bom companheiro, bom pai, bom esposo. Completaria 69 anos de idade neste mês de novembro. Seria no próximo dia 26.  Não quis a festa terrena que certamente seus amigos, seus familiares, seus irmãos evangélicos preparariam para lhe homenagear. Preferiu a festa do céu, que lógico, tem muito mais brilho e muito mais valor.

Através de seus programas radiofônicos Jaime Linscultuou a saudade, divulgando músicas que fizeram sucesso no passado e que se perpetuaram na mente e nos corações de quem viveu numa época em que a música, na verdadeira acepção da palavrara, era um deleite não apenas para o coração, mas, principalmente para os ouvidos de quem as escutavam. Seu último programa de rádio foi na extinta Rádio Atlântica FM. Tinha o título de “Recordação e Saudade” e ele costumava dizer que “recordar é viver”. Pois bem: o homem que cultuou a saudade e que dizia que “recordar é viver”, partiu para o convívio divino sem nos avisar, deixando uma grande saudade em nossos corações, nos corações dos seus familiares, dos seus milhares de fãs, enfim nos corações de todos aqueles que tiveram o prazer de conhecê-lo. E como ele mesmo dizia que “recordar é viver”, viveremos doravante com a recordação e a saudade daquele que foi o bom amigo, o bom caráter, o bom companheiro, e, sem sobra de dúvidas, o bom pai de família Jaime Lins. Requiescat in Pace amigo Jaime Lins.    

ILUSTRE CIDADÃO AMARANTINO SE DIZ UM APAIXONADO POR AMARANTE

Elmar visto por Gervásio Castro, na condição de juiz, flamenguista, blogueiro e escritor

ILUSTRE CIDADÃO AMARANTINO SE DIZ UM APAIXONADO POR AMARANTE

Luís Alberto Soares (Bebeto)

JOSÉ ELMAR DE MÉLO CARVALHO, cidadão amarantino, nasceu em Campo Maior – PI, em 09/04/56. Poeta, cronista, contista e crítico literário. Juiz de Direito aposentado. Bacharel em Direito e em Administração de Empresas. Presidiu o Diretório Acadêmico “3 de Março”, a União Brasileira de Escritores do Piauí e o Conselho Editorial da Fundação Cultural Monsenhor Chaves. Foi membro do Conselho Editorial da Universidade Federal do Piauí. 

Publicou os livros: “A rosa dos ventos gerais”, “Cromos de Campo Maior”, “Noturno de Oeiras” e “Sete Cidades – roteiro de um passeio poético e sentimental”. Participou de várias coletâneas e antologias. Citado em diversos livros e dicionários. Colaborador das principais revistas e jornais do Piauí. Membro de diversas entidades literárias e culturais. Detentor de várias honrarias e distinções culturais. Seu livro “A rosa dos ventos gerais” recebeu o Prêmio Ribeiro Couto (obra reunida), conferido pela União Brasileira de Escritores – Rio de Janeiro. Foi Juiz da Comarca de Regeneração. 

O amigo Dr. Elmar sempre vem a Amarante para degustar, ao lado do seu amigo Virgílio Queiroz, uma saborosa pinga com o tira-gosto das “piraquinhas torradas”. Foi justamente ao lado do seu amigo, que Elmar escreveu um dos belos poemas sobre Amarante à margem do “Velho Monge” e à sombra de uma faveira. Trata-se de “Amarante”. Essa poesia está contida no livro de Elmar que recebeu o título de “Lira dos Cinquentanos” e foi lançado em Amarante na residência de dona Mary Vieira. O nobre poeta se diz um apaixonado pela história e pela gente da “Terra Azul de Da Costa e Silva”. 

Em uma das suas obras mais recentes está “Confissões de Um Juiz”, onde o poeta faz um relato sintético de sua atuação como um servidor do Judiciário após o surgimento de uma enfermidade. Elmar Carvalho escreve todos os dias no seu blog e diz que acompanha a tecnologia para atingir os seus leitores.   

terça-feira, 3 de novembro de 2015

300 comissionados em única sala?


300 comissionados em única sala?

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Conhece a história dos trezentos guerreiros valentes, comandados por Gedeão, capítulo 11 de Juízes, na Bíblia? Vale a pena montar analógica aventura, bem aqui, numa das salas do Palácio do Karnak, atolada de lambe-cus, dos que vão só pegar o contracheque. (Desculpem chulo termo, encontrado no dicionário do Aurélio). Vejamos, primeiramente, a história de Gedeão.

         Camponês, sobrevivendo à custa de modesto rebanho e rala produção agrícola, Gedeão e seu povo sofriam e passavam fome, causada pela praga de ladrões madianitas, que invadiam campos de Israel e levavam toda a produção. Gedeão reclamava ao Senhor, que, no passado, ajudara seu povo a libertar-se da escravidão do Egito. Montou uma fogueira e ofereceu sacrifício ao Senhor, que lhe revelou um segredo: convocar o povo de Israel para uma batalha contra os milhares de inimigos. “Leva o exército para as margens do Jordão. Põe todo mundo para beber. Dispense os medrosos e mande-os de volta para casa”. Expressiva multidão regressou. Observe os que bebem como cães, lambendo a lâmina d’água, sem ajuda das mãos. Estes é que irão batalhar. Gedeão cumpriu a ordem. Só foram lutar trezentos guerreiros, que venceram a batalha contra milhares de assaltantes das riquezas de Israel, e a prosperidade voltou.

         A administração pública vive assaltada por ladrões, como madianitas bíblicos, e não surge líder Gedeão para acender fogueira santa de bravos patriotas. Buscam soluções para os rombos e roubos, mas à custa de pesados cortes nos salários e verbas para educação e saúde, especialmente. A carga tributária, tão perversa, que lembra o tempo da nobreza francesa: quanto mais gastava, mais aumentava impostos. A solução veio com a multidão nas ruas em infernal revolução.

         Voltemos ao Karnak, em cuja única sala funciona a Secretaria do Governo. Fazer o quê? Agendar festas e eventos, cuidar da casa, enfim. Média de duzentos comissionados, ano passado, “em serviço”. Em 2015, passa dos trezentos. À proporção que o governo pifa, acrescentam-se mais comissionados: ex-deputado, ex-vereador, cabos eleitorais, professor de português do Enem, um ex-secretário da Educação residindo em Brasília. Secretaria que paga entre 4 mil a 8 mil reais a centenas de lagartas, digo madianitas, para o beija-cu, subserviência, foguetório de defesa. Louvar aeroporto “internacional”, onde urubus e bimotores sobrevoam. O “internacional” de Parnaíba não seduz um boeing, desde a inauguração. Nem com edênicas praias, Luís Correia de belas mansões, hotéis, empreendimentos estrangeiros, decantado Delta e Lençóis maranhenses. Obras faraônicas, o melhor caminho das minas para madianitas assaltantes.

         Brasil dos 24 mil comissionados para a presidente deitar e rolar. Estados Unidos, 4 mil. Reino Unido, 300. Alemanha e França, apenas 500. Assembleia Legislativa do Piauí, paraíso de aproximadamente 3 mil.

           O fim do nepotismo só ocorrerá com o corte no elevado número de cargos comissionados. Pelo menos, diminuíssem o tamanho das contratações. Só falta um Gedeão para acender a chama da bravura.     

domingo, 1 de novembro de 2015

Seleta Piauiense - Félix Pacheco


PLENILÚNIO

Félix Pacheco (1879 - 1935)

Todo este luar de amor, que há nos meus cantos,
Nasceu de outros anelos e outras penas.
Se, por graça do céu, me não condenas,
Deixa-o brilhar aqui, desfeito em prantos.

Libertei-me dos pérfidos quebrantos,
E a multidão volúvel das falenas
Já me não turva as ilusões serenas,
Nem te escondo aventuras nestes mantos.

Nada mais, hoje, do passado existe.
Sinto que me entrou n'alma o luar superno,
Como a benção de Deus baixando ao triste.

Nunca mais tive dor, nem tive inferno,
Desde que sobre mim, cantando, abriste
O plenilúnio do carinho eterno!    

sábado, 31 de outubro de 2015

Comentário à crônica Coração Partido


Comentário à crônica Coração Partido

Estimado amigo Elmar Carvalho:

Li há pouco sua crônica "Coração partido, plena de alusões pertinentes a autores exponenciais da literatura universal, com Pessoa, Wilde, Shelley...

Vejo que o amigo anda mais ainda afiado na composição de suas crônicas, anotações, lembranças, casos, histórias, enfim, tudo desaguando limpidamente em linguagem cada vez mais bem trabalhada."

O que é mais curioso, à medida que está mais experiente, a meu ver, está também adquirindo aquele domínio tão sonhado pelos escritores, que é o de escrever com mais fluência, com maior capacidade de "domar" a linguagem. Isso, para mim, é amadurecimento da função da escrita de um prosador ou poeta, ou cronista, ou ensaísta, enfim, em qualquer gênero onde possa projetar o talento.

Isso é bom para V. e para a literatura que faz e regozijo dos seus leitores.

Li seu discurso de recepção ao novo membro da APL, o amigo comum Dílson Lages.

Com estilos diferentes, tanto na poesia de ambos quanto na visão da vida, saí da leitura do seu discurso imaginando o encontro de dois poetas que, no íntimo do labor do mais sublime dos gêneros literários - a poesia - talvez se sintam mais à vontade de falar de poesia, ainda que em ocasião solene de discurso acadêmico, no qual a tônica é exaltar, sem exageros, o valor da obra do empossado e do panegírico dos ocupantes anteriores da mesma cadeira. Foi o que V. fez, e o fez de maneira ajustada ao momento de necessário brilho.

Após a leitura e a audição no site do Dílson, fiz, no espaço reservado da página de destaque, um breve comentário que, até agora, não foi liberado, a menos que eu tenha cometido alguma imperícia técnica no manuseio digital.

Porém, aquele comentário foi feito sob o impulso de emoção da leitura, quer dizer, foi escrito com a naturalidade com a qual desejava externar a minha alegria da peça oratória. E me recordo de que muitas vezes, por falha minha no manuseio do computador, se perderam várias observações que já expendi a textos seus e de outros autores piauienses.

Espero, por conseguinte, que o comentário seja liberado a fim de que lhe chegue ao conhecimento.

Algo bom está acontecendo com a literatura que produz em prosa: em considerável quantidade de textos que V. tem postado no seu blog.

Sinto que há uma vontade febril de criar textos, de dedicar grande parte de sua vida atual à literatura. Vejo isso com muita prazer.

Acredito que seja essa fase sua a da concentração na prosa.

V. é um intelectual que sabe respeitar a si mesmo na condição de artista, assim como sabe ser um escritor cavalheiro em convívio harmonioso com seus pares, neles encontrando o que seja mais específico e mais grandioso, sem os sentimentos subalternos da inveja e daquilo que chamaria traição literária.Esta enfermidade a encontramos em alguns escritores, no passado e no presente, em qualquer parte, seja no estados mais pobres, seja nas metrópoles. Penso que longe disso se posiciona a sua decência e compostura de autor.

O que mais deploro na vida literária é aquela traição acima referida, e amiúde praticada até por bons escritores.Para mim, atitude dessa natureza só diminui o valor de um escritor, de um artista,em qualquer plano da Arte.

Sonegar reconhecimento de outrem, o qual lavra o mesmo terreno, o literário, tem característica de perfídia, de papel de capadócio, de apagamento de valores por meios de ações ilícitas no campo da literatura.

Quem pratica tais baixezas d'alma jamais será um escritor genuíno, uma verdadeira vocação de escritor. E o tempo, só o tempo, cuidará de silenciá-los devidamente.

Um forte abraço do


Cunha e Silva Filho

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

CORAÇÃO PARTIDO



29 de outubro   Diário Incontínuo

CORAÇÃO PARTIDO

Elmar Carvalho

Estava eu posto em sossego, no salão de entrada da APL, no sábado passado, a conversar com o confrade Reginaldo Miranda sobre os seus projetos historiográficos, entre os quais se encontram a reedição de seus livros e o término da redação de suas novas pesquisas, que darão origem a novas obras sobre a nossa história e sobre nossos vultos ilustres, quando chegou o escritor e cardiologista José Itamar Abreu Costa.

Itamar nos contou um fato anedótico de dois ferrenhos adversários políticos, que o bispo Dom Abel Alonso Nunez, com a sua intermediação, terminou por apaziguar e conciliar. No fecho da narrativa do episódio, revelou que um deles morreu de coração partido. Fiquei curioso, e logo imaginei que o finado havia contraído uma forte paixão amorosa não correspondida. Isso porque a metáfora do “coração partido” é usada na literatura e mesmo nas conversas informais como símbolo de desilusão amorosa, de amores sem correspondência, de amores impossíveis ou proibidos.

Dr. Itamar, ante minha irrefreável curiosidade, deu rápida explicação, e me prometeu enviar maiores informações por e-mail. Cumprindo a promessa, enviou-me o seguinte bilhete eletrônico:

“É uma situação já bem documentada. Nos pacientes submetidos a stress permanente, haverá liberação excessiva de substâncias vasoativas (Adrenalina e Noradrenalina), e como consequência a coronária sofre um espasmo e o paciente infarta, ao ser estudado por Ecocardiograma são detectadas grandes áreas de necrose no músculo do coração.

Submetido ao cateterismo e cinecoronariografia (estudo das artérias coronárias), eis a surpresa: as artérias coronárias estão quase sempre isentas de obstruções. Em outras situações o paciente tem morte súbita e, ao ser submetido à necropsia, são detectadas imensas áreas de necrose da musculatura do coração e o padrão das artérias coronárias completamente normais.

A doença leva este nome em função de que existe uma cidade no Japão (tradicionalmente agrícola – plantações de arroz), na qual os jovens japoneses trabalham cerca de 18h/dia, sem férias, sem perspectivas para o futuro; estes trabalhadores apresentam uma frequência muito alta de infarto e/ou morte súbita.”

Ante os esclarecimentos acima, verifico que o coração mencionado pelo doutor Itamar foi literalmente partido, e nada tinha a ver com os metafóricos corações partidos dos poetas e amantes, embora um forte estresse provocado por amores infelizes ou trágicos possa literalmente “arrebentar” um coração, segundo deduzo da leitura do e-mail acima transcrito.

Outrora, acreditou-se que o coração seria a sede do amor. Hoje quase todos acreditam que os sentimentos estejam em algum lugar do cérebro. Alguns acreditam que eles estejam alojados na alma ou no espírito. Não irei, aqui, discutir assunto tão abstrato e controverso. De qualquer maneira o coração passou a ser símbolo do amor. É um importante órgão, vigoroso, de músculos nobres e resistentes, conquanto também possa ser necrosado e partido. Portanto, recomendo que ninguém ame demais, ou, pelo menos, não ame além de sua capacidade.

É, na verdade, uma bomba, que faz o sangue circular por todas as veias e artérias. E se ele parar, a vida para. Foi chamado de comboio de cordas pelo poeta Fernando Pessoa: “E assim nas calhas de roda / Gira, a entreter a razão, / Esse comboio de corda / Que se chama coração.” Eu o chamei de bomba, mas bomba incendiária: “Meu coração / é uma bomba incendiária / mas muitas vezes tem servido / de bobo da corte / para os fúteis e vulgares.”

No livro Psicanálise dos Gênios (Doentes Célebres), de Gastão Pereira da Silva, leio que o grande poeta Shelley, ao morrer em circunstância trágica, teve o seu corpo levado a uma pira fúnebre. Então, ocorreu algo de extraordinário, que deixo GPS descrever: “De súbito, porém, o corpo estala e se encurva no ar e o coração de Shelley aparece inteiramente ileso! As chamas não o queimam, mas o cérebro ferve literalmente dentro do crânio, como se estivesse dentro de uma caldeira!” E conclui afirmando que tudo o fogo destruíra, menos o coração bondoso do poeta, que costumava fazer caridade.

No conto O Príncipe Feliz, de Oscar Wilde, o protagonista, na verdade uma suntuosa e bela estátua, manda em sucessivas ocasiões que a andorinha, que o amava, distribuísse aos necessitados as valiosas peças de metais nobres e pedras preciosas de que era revestido, até se transformar numa escultura feia e sem valor artístico. Quando a andorinha morreu aos seus pés, o seu coração se partiu. “Como ele perdeu a beleza, perdeu também sua utilidade”, proclamou, doutoral, o professor de arte da Universidade.

Os administradores da cidade mandaram, então, fundir a estátua, para que uma nova fosse feita. Tudo o fogo derreteu, menos o coração bondoso (e partido) do Príncipe Feliz, que foi jogado no lixo.  Um dia, pediu Deus a um de seus anjos que lhe trouxesse “as duas coisas mais preciosas da cidade”. E o anjo lhe entregou a andorinha morta e o coração de chumbo.  

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Dílson Lages: discurso de posse na APL


Dílson Lages: discurso de posse na APL

[Dílson Lages Monteiro]

Senhores e senhoras,

O espírito que me move hoje é o mesmo de 30 anos atrás. Ao cruzar o morro do Pipoca,   pequena elevação geográfica que escondia  a cidade natal, como se ocultasse ou protegesse um tesouro,  minhas esperanças de menino  se depositavam na argila dos meus sonhos.  A longa viagem, mais na imaginação que no trajeto, mais no desejo de descobertas  que na paisagem renovada do verde das chuvas de março.  Longa a vontade de realizar, de crescer, de vencer.

O entusiasmo de trinta anos atrás é o mesmo de hoje.  Carrego em minha alma  o permanente anseio de ser útil à humanidade, mais que a mim mesmo, e espero que esse traço de meu ser se mantenha inabalável – agora mais do que antes -  em favor de difundir e revigorar a boa literatura e  promover o conhecimento dos grandes temas intrínsecos à linguagem.

Generosamente, as portas desta Casa se abrem para mim quando chego à juventude  dos quarenta anos. Desde os mais verdes anos, sonhei que um dia estaria entre vós, e custa crer, às vezes, que este dia chegou. Multiplica-se minha responsabilidade de retribuir ao coletivo, com o olhar em Deus, a confiança creditada. Espero, com humildade e labor incansável em prol das letras, corresponder, com as tintas de meu verbo e o vigor da persistência, para ajudar a manter acesas as chamas que iluminam o alicerce deste sodalício e que enaltecem o ideal comum de todos os confrades.

Fazer literatura e formar leitores, hoje, transformaram-se em desafios dos mais exigentes. Não obstante as tecnologias digitais se revelarem grandes aliados, favorecendo desde a divulgação de ideias à edição de livros, a profusão de novas formas de sociabilidade, contagiantes para todas as idades, conduziu a uma ânsia de imediatismo e a novas necessidades, que forçam à inserção no ciberespaço, por meio da atualização contínua e do uso dos novos meios disponíveis e, ao mesmo tempo,  requerem o compartilhamento e a participação ativa de todos os integrantes do sistema literário. Afinal, a cibercultura “propaga a copresença e a interação de quaisquer pontos do espaço físico, social ou informacional”, como lembra Pierre Levy, e exige que nos recriemos para viver o hipertextual sem perder as marcas da tradição que fundamentam a nossa identidade.

Senhores e senhoras,

Cresci. A certeza disso reside na juventude embebida principalmente de livros, leituras e  trabalho, muito trabalho. Reside na manutenção de meus propósitos de criança e adolescente sonhadores, dos propósitos do romântico operário da educação.  Eis-me  aqui, eis o menino, o adolescente, o operário, o sonho. A vontade de realizar e de vencer.

Escreveu o vate amarantino Da Costa e Silva no festejado poema Carrossel Fantasma:

“Ganhei o dia a meditar na minha vida,

porque a saudade me levou à longínqua Amarante
que cisma, talvez por mim, debruçada sobre as águas
lentas e sonolentas do Parnaíba
a rolar para o mar como eu para o mistério...
Então, num sonho de criança convalescente,
vem-me à memória o carrossel que fascinava,
no seu giro constante, os meninos de minha idade”

(...)

O carrossel parou no largo... mas não parou na vida...
Continua em meu sonho, rodando... rodando sempre...
E andando e desandando, num ritmo contraditório,
ainda me dá a alegria inevitável de dar voltas...
de girar, de rolar como os astros no espaço,
de elevar-me a um destino superior ao do planeta,
que em torno da sua órbita, como um símbolo, roda...

— Upa! Upa! Meu pensamento!

Ao compor estas palavras, por mais que tentasse resistir a isso, as correntezas da memória me arrastaram à infância e ao berço de minhas raízes, como tão frequentemente fizeram a Da Costa e Silva e a uma infinidade de vates, como uma espécie de sina. Se as evoco é porque se entranharam definitivamente  em mim, como reservas literárias, das quais o esforço para outros temas não foi  capaz de me libertar inteiramente. Se as evoco é porque, falando inicialmente com a força da memória,  embora contrariando aparentemente a praxe do discurso acadêmico, posso com maior exatidão e autenticidade discorrer sobre o que verdadeiramente interessa. Se as evoco é porque, recompondo as nódoas da meninice, posso revisitar a descoberta do livro, da literatura e as primeiras impressões sobre esta luminosa Casa de Lucídio Freitas e A. Tito Filho.

Em mim, a literatura visa preservar o tempo de ontem, atualizando impressões ou vivências passadas, para reinterpretá-las e criar novas impressões em palavras multiformes. Em mim, é a memória, em sensações simbólicas, que se incorporam à natureza, independentemente do uso social que faça da linguagem literária. A literatura, afinal, serve como modo de ler a individualidade humana  – a nós mesmos, sem determinação de tempo e lugar -  e a absorção do individual pelo coletivo. Uma forma de reconstrução do passado e do presente, sem arbitrariedades, porque nesse tipo de linguagem, até nos textos declaradamente engajados, o princípio da excelência está na liberdade dos sentidos  ou  das vozes emergentes. Ao escrever, pois, a memória e as sensações se sobrepõem ao individual; o passado reinventa-se no presente. 

A esse propósito, para ilustrar o significado superior das reminiscências e seu  processo alinear, recorro à memória do despertar do sono, em “No caminho de Swann”, de Proust:

“A imobilidade das coisas que nos cercam talvez lhe seja imposta pela nossa certeza de que essas coisas são elas mesmas e não outras, pela imobilidade de nosso pensamento perante elas. A verdade é que, quando eu assim despertava, com o espírito a debater-se para averiguar, sem sucesso, onde poderia achar-me, tudo girava em redor de mim no escuro, as coisas, os países, os anos. Meu corpo, muito entorpecido para se mover, procurava, segundo a forma de seu cansaço, determinar a posição dos membros para daí induzir a direção da parede, o lugar dos móveis, para reconstruir e dar um nome à moradia onde se achava. Sua memória, a memória de suas costelas, de seus joelhos, de suas espáduas, lhe apresentava sucessivamente vários dos quartos onde havia dormido, enquanto em torno dele as paredes invisíveis, mudando de lugar segundo a forma da peça imaginada, redemoinhavam nas trevas. E antes mesmo que o meu pensamento, hesitante no limiar dos tempos e das formas, tivesse identificado a habitação, reunido as diversas circunstâncias, ele, - o meu corpo -, ia recordando, para cada quarto, a espécie do leito, a localização das portas, o lado para que davam as janelas, a existência de um corredor, e isso com os pensamentos que eu ali tivera ao adormecer e que reencontrava ao despertar […]”

Interessa-me, sobremodo, a memória da infância. Toda infância se alicerça na transposição imaginária do real, conforme acertadamente asseverou o antropólogo Clifford James Geertz: “Uma mente criando sentido, buscando sentido, preservando sentido e usando sentido; numa palavra – construtora do mundo”. Quer no giro metonímico do poema dacostiano, quer em qualquer outra representação social ou imagética, essa transposição se configura como condição comum para se entender a voz da criança, também da literatura que se fundamenta – ainda que parcialmente - na construção social do mundo infantil.

Para Freud, a natureza da arte imaginativa reside na infância: “A obra literária, como o devaneio, é uma continuação, ou um substituto, do que foi o brincar infantil”.  O ofício do literato se elucida simplificadamente nestes termos: “O escritor criativo faz o mesmo que a criança que brinca. Cria um mundo de fantasia que ele leva muito a sério, isto é, no qual investe uma grande quantidade de emoção, enquanto mantém uma separação nítida entre esse mundo e a realidade”.

Se recupero essas referências, é para justificar, em partes, a gênese de um processo literário em formação permanente.  A presença viva de uma paisagem simbólica, reflexo identitário da escritura literária, em cujas metáforas e metonímias a integração à natureza anima-se. Essa integração constitui-se em pano de fundo que recuperam sabiamente, por exemplo, românticos, simbolistas e mesmo os revolucionários regionalistas brasileiros de 1930. Nos primeiros, para favorecer a evasão ou definir a cultura do novo mundo; nos segundos, para ensejar a transcendência cósmica; nos terceiros, para  questionar a realidade social com contundência, à luz principalmente do socialismo.

Essa integração é a mesma tão habilmente decantada na dimensão espiritual do poema O tempo nos parques, de Vinicius de Moraes. Para a percepção da vida, do ser e do estar no mundo, o eu lirico vai buscar no contato onipotente com a natureza o silêncio, o sagrado, o eterno, necessários para a consciência do existir e para a elevação espiritual:



“O tempo nos parques é íntimo, inadiável, imparticipante (...)

Medita nas altas frondes, na última palma da palmeira

Na grande pedra intacta, o tempo nos parques.

(...)

O tempo dos parques gera o silêncio do piar dos pássaros

Do passar dos passos, da cor que se move ao longe.

(...)

Porque imóvel, elementar, autêntico, profundo

É o tempo nos parques."

A integração da paisagem ao narrador ou ao eu lírico, na raiz da mímese ou da ambiência literárias, explicita-se como traço inerente ao fazer artístico e encontra na infância seu porto seguro.

Em mim, a memória da infância se divide entre o rio, a casa paterna, a igreja e as miragens do mundo rural. Neles, a experiência humana se converteu em novas experiências e palavras, principalmente, ora intermediadas pelo sensacionismo, ora pela utilização da literatura como documento.  Em Pessoa, sobretudo, essas vivências encontram referencial de que me utilizo como bússola para o fazer literário. Explica o poeta: “A arte, na sua definição plena, é a expressão harmônica da nossa consciência das sensações; ou seja, as nossas sensações devem ser expressas de tal modo que criem um objeto que seja uma sensação para os outros”. Dito em forma de versos, por meio do heterônimo Alberto Caeiro:

“Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.”

A literatura como documento encontra na prosa de 1930, de que também me valho, o paradigma para grande parte dos projetos literários em vigor. Herdeira da influência realista, repaginada pela renovação estética, em prosa, nas quatro primeiras décadas do século XX, essa concepção trouxe profundas  transformações sobre a técnica literária. Nas palavras do historiador Alfredo Bosi, “o caráter bruto ou brutal desse novo realismo do século XX corresponde ao plano dos efeitos que a sua prosa visa a produzir no leitor: é um romance que analisa, agride, protesta. Para atingir esse alvo, porém, foi necessária toda uma reorganização da linguagem narrativa, o que deu ao realismo de um Faulkner, de um Céline ou de um Graciliano Ramos uma fisionomia estética profundamente original”.



Em mim, a memória da infância se divide na natureza de minha palavra. O mundo, tão grande, cabia no meu coração. Aprendi a ver no rio, na casa paterna, na igreja e nas miragens do mundo rural gente. Aprendi a me integrar à paisagem como se fôssemos uma só criatura. As águas assombrosas dos invernos fartos lambiam os tetos das casas ribeirinhas e reproduziam a fartura de peixes: piranhas e surubins gigantes vendidos de porta em porta. As águas pareciam gente. A casa modesta de então,  de longo corredor, teto de madeira redonda e piso de tijolos, rústica em sua simplicidade  e rica em carinho e amor. A casa paralela ao rio, a dois quarteirões da igreja. A casa em cujas paredes enxergava o céu de todas as formas e texturas. A casa imorredoura em minha emoção. A casa que era gente.  A igreja, onde coroinha fui  aos sete anos – para orgulho de Dasinha. a igreja, onde aprendi a fazer perguntas e a conversar com o desconhecido, imaginando as estórias do outro mundo;  A igreja que fortaleceu a paciência e a humildade de meu DNA. A igreja que em festas religiosas atraiam toda espécie de tipos curiosos e exóticos. Gente, era gente.

Ah! As miragens do mundo rural! Vivi, antes da maior consciência de classe, que modificou as configurações do trabalho no campo, e da opção pelas oportunidades e promessas da vida cosmopolita, os últimos dias coloridos e simples das antigas propriedades rurais da Zona da Mata de Barras do Marataoã, na sombra dos desdobramentos  da  Fazenda Esperança, do velho Alfredo Pires Lages. Ainda as conheci; os valores, costumes e histórias, nos derradeiros anos de uma geração que viveu no campo. Até parece que ouço a comunicação fácil dos longevos e fiéis Agostinho Israel e Jenelino. As antigas propriedades, ainda as conheci como eram,  elemento concentrador de renda e como saudável fonte de entretenimento e sociabilidade.

Ali, a audição tinha professor nos ruídos de algum veículo perdido nos estradões de areia. Ali, a cantiga insistente da cigarra, o mugido do gado na madrugada, o ruído frenético das folhas das palmeiras, dos sapos nas lagoas em noites de inverno e os sons das correntezas dos riachos eram as vozes das sensações falando em bom português. A variada gastronomia de delícias sem fim e orações que se dissolvem, respectivamente, em meu paladar e em meus tímpanos.

Nesse ambiente, pela primeira vez entrei em contato com a poesia propriamente dita, a dos cantadores, na vaga lembrança de uma cantoria, e com a leitura dos poemas de Teodoro e Hermínio, em antologia organizada e comentada pelo acadêmico Herculano Moraes, em capa azul. Tenho a impressão viva de lhe tatear ainda. Lendo-a, sob o balançar da rede de tucum, punha-me a cantar sem nenhuma ideia sobre a sinfonia particular que une a música e a poesia. Quantas estórias de assombração sob o céu estrelado! Figuras que viravam animais, visagens de todo tipo, para justificar os absurdos das transgressões humanas.

Ali, também entendi a desigualdade nas mãos das quebradeiras de coco, na peleja do vaqueiro tocando boi encaretado, no agricultor de foice ao ombro a caminho da roça. O mundo era dividido; algumas vezes, pela natural divisão social do trabalho; outras, pelas imposições morais da injustiça social. A mesma divisão da pracinha central da cidade-berço: andando em círculos, na extremidade superior da praça, as trabalhadoras domésticas, alvo dos mais absurdos preconceitos, e os moradores dos bairros, vistos pelas lentes da desconfiança e da discriminação; na extremidade inferior,  jovens oriundos das famílias do centro, indiferentes aos contornos da desigualdade velada.  O mundo demarcado, dividido na pólvora das ruas e das tensões inesgotáveis de poder, mas o mundo em que o humanismo, a ação cidadã e a convivência saudável derrotavam as barreiras da arrogância e da indiferença. As fazendas e a cidade, em suas alegrias e divisões, gente eram. E ficaram marcadas em minha epiderme, como um pedaço de minha própria pele. Se as evoco, é porque sei da força matriz que mantêm com meus projetos literários.

Na cidade em que nasci, por volta de 1982, ocorre-me a lembrança mais distante do nome desta Casa de Letras. Para conter a indisciplina em sala de aula, a diligente e afetuosa diretora do grupo escolar Gervásio Costa, escola pública onde estudei o ginásio, a senhora Maria de Jesus Carvalho Rocha, figura de relevo na história da educação daquela cidade, entrou subitamente no recinto e pôs-se a falar das tradições de uma cidade de grandes homens, no passado, nas variadas esferas da atividade humana. A tradição, ao que  parece, iniciada na Guerra do Paraguai e esplendorosa até a queda do Estado Novo, assinalando não apenas o declínio político das oligarquias rurais, mas também a decadência da força política de uma região. Todos, em silêncio, ouviam atentamente comentar sobre os irmãos Celso e João Pinheiro, além do mito vivo de então, A. Tito Filho. Dizia que o destino de alguns de nós poderia ser de conquistas, se assim o quiséssemos.  Ouvi pela primeira fez ali o nome da Academia Piauiense de Letras e dele nunca mais me esqueci, como símbolo de orgulho do lugar em que nasci.

Se  evoco essas memórias, é porque o menino, o adolescente ainda existem em mim. Em seu entusiasmo, em suas esperanças.

Senhores e senhoras,
Vivendo o magistério, a linguagem e a literatura como objetivos diários desde a adolescência, como estudante, como professor  de longa data, sinto-me afinado aos valores e às causas dos que me antecederam na cadeira 21, embora eu seja apenas um pequeno ponto de entusiasmo diante do que cada um legou para as letras. O desafio de honrar a cadeira de Leopoldo Damasceno Ferreira, Antônio Francisco da Costa e Silva, Maria Isabel Gonçalves Vilhena e Francisco Hardi Filho é colossal, todavia, gigantesca, também, a minha obstinação.

O oeirense Cônego Leopoldo Damasceno Ferreira, doutor em Direito Canônico,  nascido em 1857 e falecido em São Luiz do Maranhão, em 1906, patrono deste assento, notabilizou-se como, além de poeta de grande força lírica, figura múltipla, com extensa folha de serviços, especialmente à igreja, ao magistério e ao jornalismo.  No Maranhão, segundo anotações do historiador e acadêmico Wílson Carvalho Gonçalves, além de notável orador sacro e poeta, foi professor de Latim e Francês no Liceu Maranhense, diretor do Seminário das Mercês e governador do bispado do Estado.  Cônego Leopoldo, destaca o historiador, “teve intensa atividade na imprensa do Maranhão”, colaborando com os jornais Diário do Maranhão e  Alvorada.

A nobreza fulgurante de sua inteligência e expressão como orador sacro é descrita por Ivan Lins em sua “História do positivismo no Brasil” (1967). Ele relata o empenho do professor maranhense Agostinho Gomes de Castro, intenso defensor da teoria de Auguste Comte, para dar publicidade a ela em São Luiz, e a movimentação da igreja em oposição a esse conceito. Nesse mister, o clero nomeou a maior autoridade da igreja naquele Estado, o Cônego Leopoldo Damasceno:

“Num domingo, 29 de fevereiro de 1898, no edifício da Escola da Rua Grande, onde funciona hoje o Instituto Histórico, deu Gomes de Castro a sua aula inaugural, tomando como tema a "exposição popular do positivismo". O sucesso foi espantoso. Grande assistência passou a ouvir-lhe a palavra, sempre fluente e fascinadora.

(...)

Tal sucesso apavorou o clero maranhense, que resolveu reagir, opondo doutrina contra doutrina.


Para isso, apelaram os padres para sua maior ilustração — o Cônego doutor Leopoldo Damasceno Ferreira. Mandaram-no buscar na Vila do Paço, de cuja freguesia era encarregado. O Cônego veio e iniciou uma série de conferências contra o Positivismo na Igreja de Santo Antônio.”

Registra o professor A. Tito Filho, em crônica datada de 17.06.1988, a seguinte apreciação de Clodoaldo Freitas sobre a larga contribuição do patrono da cadeira 21:

 "Foi, nestes últimos tempos, o campeão de teologismo entre nós, e bateu-se, pela imprensa, em defesa do credo católico com a louçania de um convencido. Sustentou polêmicas acres e veementes, demonstrando sempre copiosa e larga cultura. Distinguiu-se como orador sagrado, como jornalista e os íntimos o denunciavam também como um poeta de inspiração e sentimento. Tinha coração de patriota para amar a pátria, sentir suas dores e suas alegrias. Era uma rara exceção entre o clero brasileiro, tão diferente do clero de outrora".

Na cadeira 21 deste sodalício, em janeiro de 1923, tomou posse o mais conhecido dos poetas piauienses, Antônio Francisco da Costa e Silva. Em artigo publicado originalmente em 11 de outubro de 1998 e reproduzido em Notas de leitura impressionista – nova série, o ilustre crítico literário e acadêmico Manoel Paulo Nunes revisita a posse do Poeta da Saudade, em busca de desvendar o desconhecimento completo do discurso do vate, jamais publicado em terras piauienses.

Do amigo romancista Josué Montello, Paulo Nunes conta que recebeu inusitado presente: recorte do jornal  Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, de 16 de janeiro de 1923, noticiando a posse do acadêmico e tecendo elogio ao patrono por ele escolhido.

Esclarece Paulo Nunes:

“Trata-se, ao que suponho, do resumo do famoso e desconhecido discurso do poeta, ou mesmo do próprio discurso, pois compreende um perfeito estudo biográfico e crítico da personalidade do cônego, detendo-se o novo acadêmico, especialmente, no comentário de sua obra lírica, de mais forte inspiração”.

Reproduzindo poema de autoria do Padre Leopoldo, poema de acentuados traços líricos, o crítico Paulo Nunes prioriza  a leitura que  Da Costa realizou sobre a poética do patrono da cadeira 21. Nas palavras do poeta amarantino,

“Esse padre, que todos afirmam era um crente convicto e um sacerdote virtuoso, teve, sem dúvida, como o poeta Anvers, o seu segredo n’alma e o seu mistério na vida. Teve, como todo poeta, a aparição divina de uma sombra de mulher, nos caminhos incertos da existência.”

Raros poetas piauienses atingiram tanta notabilidade nacional quanto Antônio Francisco da Costa e Silva. À sua produção literária, detêm-se os mais variados historiadores, entre os quais, nomes de credibilidade como Andrade Muricy, José Veríssimo, Sílvio Romero, Alfredo Bosi e Carlos Nejar. Para este, em sua História da Literatura Brasileira – Da carta de Caminha aos Contemporâneos - o poeta de Amarante, ao lado de Raul de Leoni, “tornara-se o arauto do Pré-Modernismo, trazendo a semente da crise, que é o começo da transformação estética”. Para justificar o parecer ele afirma: “ Há um lado estranho neste poeta, revolucionário para a época, o dos poemas experimentais, desenhando em vocábulos o tema dos versos”.

Rotulando-o como um “lírico superior”, Nejar destaca, entretanto, que a poética dacostiana, sobretudo, “gerou uma poesia com apuro e força imagística, aliando símbolos religiosos a certo profanismo”, a que se agrega, em muitos poemas, “visível concisão elegíaca”.

A interpretação de Nejar, que o considera, conforme posto, como precursor do Pré-Modernisto e, portanto, atento às nova tendências de seu tempo, encontra reforço nas palavras de um dos principais pesquisadores da poesia de Da Costa e Silva. Para o crítico literário e  Pós-doutor em Literatura Cunha e Silva Filho, fecundo estudioso da obra dacostiana, “ao construir uma obra literária poética em vários estilos literários, ele não deu senão demonstração de ser um poeta voltado a um experimentalismo que o conduziu até mesmo ao Modernismo”.

A  força das imagens e símbolos, a que há pouco referimos,  mergulhada em telurismo de tom elegíaco, é traço comovente de um dos poemas mais populares do Piauí, o  célebre soneto Saudade:                                                               

"Saudade! Olhar de minha mãe rezando

e o pranto, lento, deslizando em fio...

Saudade! Amor da minha terra... O rio

cantigas de águas claras soluçando.



Noites de junho... o caboré com frio,

ao luar, sobre o arvoredo, piando, piando...

E ao vento, as folhas lívidas cantando

a saudade imortal de um sol de estio.



Saudade! Asa de dor do Pensamento!

Gemidos vãos de canaviais ao vento...

As mortalhas da névoa sôbre a serra...



Saudade! O Parnaíba, - velho monge,

as barbas brancas alongando... e, ao longe,

o mugido dos bois da minha terra..."



Sobre a Saudade em Da Costa e Silva, diz Cunha e Silva Filho:

“(...) A saudade no poeta está mais plantada em fundas raízes românticas, sendo ela fruto mais das intuições, da espontaneidade, de condicionamentos existenciais. (...) A saudade dacostiana deve ser entendida, a nosso ver, como  a ausência de alguém ou de alguma coisa que perdemos no tempo e no espaço e, além disso, é motivada por quatro forças-motrizes de seu lirismo: o amor materno, o amor à terra natal, o amor ao rio Parnaíba e, finalmente, o amor à Alice, a sua musa cedo desaparecida.”

Uma dos mais completos mergulhos no lirismo e na gênese da criação de Costa e Silva nasceu da sensibilidade do historiador e diplomata Alberto da Costa e Silva em Invenções de Orfeu, ensaio quase obrigatório para compreender as influências literárias  do poeta e as particularidades de sua técnica . Conta o historiador, citando relato de Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves, que o pai aprendera muito cedo a ver. “A Perscrutar o mundo. A conhecer as formas, os movimentos e o nome de tudo que estava a seu redor”.

“O poeta fazia máscaras de Carnaval e pandorgas. Pintava com paisagens as paredes das casas. Esculpia santos em madeira. Confeccionava estandartes para as festas religiosas. Suas mãos de dedos longos e harmoniosos eram habilíssimas e teriam feito dele um pintor ou um escultor, não tivesse ainda menino, começado a compor versos.”, conta o historiador.

A capacidade de ver situa-se, para Alberto da Costa e Silva, como elemento do qual se vale para sintetizar o fazer literário do pai:

“A capacidade de mimese, que poderia conduzir ao simples descritivismo e a uma poesia que se reduzisse às emoções da inteligência, é corrigida num poeta que sabia ver e reproduzir o que via, por uma penetração na paisagem e, mais que isso, por um pensamento panteísta, que o integrava nela e na divindade”.

Referindo-se a toda a produção poética de Da costa e Silva, ele acrescenta:

“Da Costa foi capaz de estar na natureza como Pã e como Orfeu. Por isso, pode passar da paisagem misteriosa e altamente simbólica, presente em Sangue – naquele soneto perfeito que é “Rio das Garças”, por exemplo – para a natureza harmoniosa ou agredida de Zodíaco, até chegar à natureza emotiva e pesada de Pandora, à natureza filtrada pela lembrança e que obedece ao canto do poeta”.

Antônio da Costa e Silva nasceu a 23 de novembro de 1885, na rua das Flores, em Amarante. Ali estudou o primário e viveu a infância entre os banhos nos rios Canindé, Parnaíba e o riacho Mulato, entre os passeios à fazenda da família e à igreja. Muda-se para Teresina na adolescência, a fim de estudar o ginásio no Liceu Piauiense. Em 1906, está em Recife, matriculado na faculdade de Direito. Em 1910, aprovado em concurso público, assume o cargo de escriturário da Delegacia Fiscal do Tesouro Nacional, ascendendo celeremente ao posto máximo dessa repartição. No exercício de suas atividades profissionais, reside em várias capitais: São Luiz, Manaus, Fortaleza, Recife, Belo Horizonte, Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro, onde falece a 29 de junho de 1950.

Para aquilatar a influência do Poeta da Saudade no cenário literário nacional e sua sintonia com o que se produzia à sua época, cito episódio a que menciona Alphonsus de Guimaraes Filho, em biografia escrita sobre o próprio pai, um dos maiores poetas – senão o maior - do cânone simbolista. Estabelecido em Minas Gerais, Da Costa fora um dos maiores amigos de Alphonsus de Guimaraes e o responsável, inicialmente, pela divulgação da poesia do famoso autor de “Ismália”, conforme conta Guimaraes Filho em biografia:

“Teu amigo foi o esplêndido poeta piauiense Da Costa e Silva, a quem muito prezavas: dedicaste-lhe o soneto XXV da Pastoral.

 (...) O poeta de Sangue figura entre os que mais te distinguiram. (...)”

A esse respeito diz Alberto da Costa e Silva, incansável divulgador da obra do pai:

“Da Costa e Silva fez uma peregrinação, pouco antes de 1915, a Mariana, a fim de conhecer pessoalmente a Alphonsus de Guimaraes, a quem admirava desde os tempos de rapaz e cuja grandeza foi dos primeiros a conhecer”.

E acrescenta:

“Se, como dizia Augusto Meyer, fora Da Costa e Silva quem lhe revelara, e a outros companheiros gaúchos em 1930, ele o fizera antes aos próprios mineiros”.

Sucedendo a Da Costa e Silva, Maria Isabel Gonçalves Vilhena, projetou-se como poetisa e como educadora  de reconhecida competência. Professora da Escola Normal, do Colégio Diocesano e do Colégio das Irmãs, ela nasceu em 20 de agosto de 1896, na Rua Santo Antônio, hoje Olavo Bilac, e faleceu aos 92 anos, em Teresina, a 19 de dezembro de 1988. Publicou Nada e Seara Humilde, este em 1940. O reconhecimento da obra assegurou-lhe a reedição conjunta em 1975, pela Secretaria da Cultura do Piauí. Em notas impressionistas, diz seu sucesso na cadeira 21, o poeta Hardi Filho:

“O lirismo de sua poesia encanta pela doçura e pela leveza da expressão que traduz com espontaneidade as emanações da fonte conceitual do pensamento. Seu livro é composto de versos nascidos de uma imaginação clara, expressos como água que cai e, nessa queda, arrasta para a mensagem o que de melhor e mais puro contém o coração.”

Graça Vilhena, poetisa, festejada professora de literatura e neta da autora de Seara Humilde, em análise lúcida, assim se manifesta sobre a técnica e as matizes da poética da avó:

“A expressão analógica entre a natureza exterior e a projeção dos sentimentos, assim como a liberdade formal, na maioria das composições, aproxima a poética de Isabel Vilhena à estética romântica. Porém, alguns aspectos relevantes são operados, em sua lírica, que revelam certa tendência modernista e contradizem algumas características básicas do comportamento romântico. Isso ocorre nos momentos em que a poeta (ou poetisa) rompe as fronteiras do individualismo e as imagens, arquitetadas por símbolos, metáforas, símiles e prosopopeias passam a ser produto de uma correlação psíquica entre as coisas da natureza e o mundo, assim, a voz poética é projetada no âmbito geral, numa comunhão com o outro.”

Expressando-se sobre a consciência do fazer poético de Isabel Vilhena, acrescenta a poetisa:

“Sua poesia se atualiza também pelo trabalho consciente em torno da linguagem. A riqueza imagética nos versos de “Nada” e “Seara Humilde” – reunidos em publicação posterior – está nos poemas como testemunha de uma poética que se afirma pela excelência de seus versos. A linguagem, aparentemente simples, veste-se de novos significados, férteis em simbologia e figuração: o pau-d´arco amarelo é símbolo da riqueza da “Terra Brasileira”; nossos sonhos estão guardados “no longínquo azul” do horizonte; o amor “é tão iluminado” como todas as flores sob a luz do sol; a mesma luz que “se coalha” nos arvoredos, agasalhando “a solidão das casinhas de palha”. As asas da borboleta levam a ventura fugidia e a “alvorada de maio” traz a alegria da vida. A “luminosa esteira do sol” se afasta como as lembranças do passado e as noites de São João são iluminadas pelo “chuveiro de estrelas”. A “alma da terra mora no vulto erguido das longínquas serras” e o rio, como nós, “sonha acordado e sem saber que sonha”.

O diálogo natureza-sentimento e os símbolos daí oriundos refletem-se em versos de notável influência romântico-simbolista, como estes, de O lago:

Na superfície azul das águas transparentes,

Sereno e calmo vive o lago a refletir

a grandeza do céu, os astros reluzentes

e a renda do arvoredo ameno a reflorir.



E quem o vê assim nessa mudez dormente,

Sem um murmúrio vago ou leve proferir,

Nessa aparência mansa e doce de um demente,

terá razão demais, de certo, em se iludir!



Revolvei o seu leitor! E o tendes já turvado,

Desfeita, emaranhada a renda do arvoredo,

E  o calmo adormecer em vagas transformado!



Como o lago também há corações! E quantos!...

De aparência feliz, guardando, com segredo,

na placidez de um riso um vendaval de prantos!



Resumindo a poética de Isabel, conclui Graça Vilhena:

“A espiritualidade, a saudade, o fundo psicológico, o amor e a natureza são temáticas constantes em sua obra, que ela soube tratar não com sentimentalismo exarcebado, mas com uma sensibilidade rara e verdadeira. A intenção da poeta com sua simplicidade estética e pura expressão poética é tocar a alma humana, sem distinção, numa atitude universal e solidária. O lirismo sem particularismo, o ecumenismo de seus versos são, portanto, traços inovadores que atualizam sua poética e nos deixa a impressão, ao ler seus versos, que compreendemos sua generosidade, a intenção contida em seu lirismo agreste, sua voz que se projeta para emocionar os corações distantes.”

Bastam as palavras de Carlos Nejar, para definir a grandeza da poesia do último ocupante da cadeira 21. Contrapondo o estilo de Hardi filho ao de H. Dobal, para quem “a poesia é um instrumento de precisão”, sentencia:

“O oposto de H. Dobal é Hardi Filho, natural de Fortaleza (1934), radicado em terra piauiense, estreando com Cinzas e Orvalhos (1964). Poeta de efusão amorosa, usuário do soneto, em que o ânimo de dizer é maior que a invenção imagística e o domínio estético. Mas diz com fervor o que sente, arma o silêncio contra o indefeso (suicidado) tempo, concita a luz na gruta do poema, sinuosa forma de eternidade”.

Entre nós, comungando da vivência dos livros em espaços comuns, os historiadores e poetas Francisco Miguel de Moura e Herculano Moraes, amigos de geração do poeta de Gruta Iluminada, souberam abstrair o âmago da escritura de Hardi.

“No seu trabalho contínuo, de obra a obra, incorpora conquistas do moderno e as mais experiências do verso na construção poemática de modo geral. Entretanto, a crítica tem concordado: é no soneto que está o melhor de sua arte”, diz Francisco Miguel.

“Última glória de uma poesia efetivamente compromissada com os estados interiores da alma”, avalia Herculano Moraes.

Tive a oportunidade de conhecer Hardi Filho. De ouvi-lo falar sobre poesia. De sua predileção sobre Celso Pinheiro, a respeito de quem conversamos reiteradas vezes. Introspecto, era dado ao diálogo quando se sentia à vontade; figura afável e cativante, um poeta no sentido exato do termo.

Se o conhecimento poético limpa as vidraças da percepção para tornar as coisas infinitas, conforme definiu William Black, em Hardi, esse instante de iluminação torna o verbo límpida ressonância do sonho e do romantismo,  escolha realizada com a consciência da arte que dominava, como bem condensou o poeta em soneto antológico:

Dúvida

Eu ti esperarei, eu te esperarei sozinho

Dentro da noite intérmina da vida.

E desde o instante atroz da despedida,

Que te esperando acumulo carinho...



E então? Ficaste de voltar, querida,

Eu te esperarei insone em nosso ninho,

Sem companhia de cigarro ou vinho

E a noite mais se alarga e se encomprida!



E de tão longa a espera me tortura.

Deixaste-me somente noite infinda,

Só noite e noite triste e noite escura!



Minha alma está confusa e se biparte:

Não se sabe se ti espera mais ainda

Ou saia pelo mundo a procurar-te!



A poesia de Hardi está  “impregnada de símbolos e conceitos negativistas, cuja temática e o binômio amor-morte, fundindo-se numa constante que é o desconhecido, com tendência para o transcendental”,  conforme acentua Francisco Pacelli Bossuet, enfatizando que Hardi “é poeta sem vínculos a qualquer escola literária”.

Nele, ainda que permaneça o romântico inconfundível, lê-se também o poeta moderno, versejando com perícia a forma do verso livre e a incorporação do cotidiano à literatura:

Pela Janela do Trem




Pela Janela do trem

num recorte branco,

a torre da igrejinha

e o céu se derramando

sobre o casario.



Pela janela do trem

o fumo indeciso

das chaminés caseiras

e a arquitetura das nuvens

em matinal passeio.



Pela janela do trem

semblantes de vários tipos

aparecendo e sumindo,

o apito e as vozes

de até breve (ou nunca mais?).



Pela janela do trem

uns olhos femininos

livremente marejados...

e a cidade tão presente

viajando acorrentada

às pupilas desses olhos.



Pela janela do trem

um passado e um futuro

resumindo num presente

na janela do trem

um rosto pétreo

olhos nos olhos que ficaram...



Senhores e senhoras,

Acende-se em meu pensamento o recorte de jornal que recebi, pelo correio,  em 1990. Nele, o frágil texto escolar que escrevera e, encaminhado ao então presidente desta Casa A. Tito filho, publicado nas páginas de O Dia por seu intermédio, a mim retornava com a inconfundível assinatura do grande mestre. A generosidade do ilustre professor, endossada em duas dezenas de cartas a punho a mim remetidas e, guardadas com extrema cautela, muito significaram para o pobre estudante de letras, o leitor curioso e o operário da palavra, que hoje, professor A Tito Filho, ingressam nesta casa de muitas portas e janelas, nesta casa que o passado revive, para fazê-lo brotar como a água das fontes. Nesta Casa que é a sua Casa. Muito obrigado, professor A. Tito Filho. Em seu nome, agradeço a todos os que me encorajaram nesta trajetória inacabada.

Ditas estas palavras, recorro  ao saudoso Carrossel Fantasma de  Da Costa e Silva:

“Ganhei o dia a meditar na minha vida.”

Muito obrigado!

Discurso proferido por ocasião da posse na cadeira 21 da Academia Piauiense de Letras, ocorrido em 22.10.2015, no Auditório Wílson de Andrade Brandão, na sede da instituição.

 Dílson Lages: discurso de posse na APL

 Dílson Lages: discurso de posse na APL
 [Dílson Lages Monteiro]

Senhores e senhoras,

O espírito que me move hoje é o mesmo de 30 anos atrás. Ao cruzar o morro do Pipoca,   pequena elevação geográfica que escondia  a cidade natal, como se ocultasse ou protegesse um tesouro,  minhas esperanças de menino  se depositavam na argila dos meus sonhos.  A longa viagem, mais na imaginação que no trajeto, mais no desejo de descobertas  que na paisagem renovada do verde das chuvas de março.  Longa a vontade de realizar, de crescer, de vencer.

O entusiasmo de trinta anos atrás é o mesmo de hoje.  Carrego em minha alma  o permanente anseio de ser útil à humanidade, mais que a mim mesmo, e espero que esse traço de meu ser se mantenha inabalável – agora mais do que antes -  em favor de difundir e revigorar a boa literatura e  promover o conhecimento dos grandes temas intrínsecos à linguagem.

Generosamente, as portas desta Casa se abrem para mim quando chego à juventude  dos quarenta anos. Desde os mais verdes anos, sonhei que um dia estaria entre vós, e custa crer, às vezes, que este dia chegou. Multiplica-se minha responsabilidade de retribuir ao coletivo, com o olhar em Deus, a confiança creditada. Espero, com humildade e labor incansável em prol das letras, corresponder, com as tintas de meu verbo e o vigor da persistência, para ajudar a manter acesas as chamas que iluminam o alicerce deste sodalício e que enaltecem o ideal comum de todos os confrades.

Fazer literatura e formar leitores, hoje, transformaram-se em desafios dos mais exigentes. Não obstante as tecnologias digitais se revelarem grandes aliados, favorecendo desde a divulgação de ideias à edição de livros, a profusão de novas formas de sociabilidade, contagiantes para todas as idades, conduziu a uma ânsia de imediatismo e a novas necessidades, que forçam à inserção no ciberespaço, por meio da atualização contínua e do uso dos novos meios disponíveis e, ao mesmo tempo,  requerem o compartilhamento e a participação ativa de todos os integrantes do sistema literário. Afinal, a cibercultura “propaga a copresença e a interação de quaisquer pontos do espaço físico, social ou informacional”, como lembra Pierre Levy, e exige que nos recriemos para viver o hipertextual sem perder as marcas da tradição que fundamentam a nossa identidade.

Senhores e senhoras,

Cresci. A certeza disso reside na juventude embebida principalmente de livros, leituras e  trabalho, muito trabalho. Reside na manutenção de meus propósitos de criança e adolescente sonhadores, dos propósitos do romântico operário da educação.  Eis-me  aqui, eis o menino, o adolescente, o operário, o sonho. A vontade de realizar e de vencer.

Escreveu o vate amarantino Da Costa e Silva no festejado poema Carrossel Fantasma:

“Ganhei o dia a meditar na minha vida,

porque a saudade me levou à longínqua Amarante
que cisma, talvez por mim, debruçada sobre as águas
lentas e sonolentas do Parnaíba
a rolar para o mar como eu para o mistério...
Então, num sonho de criança convalescente,
vem-me à memória o carrossel que fascinava,
no seu giro constante, os meninos de minha idade”

(...)

O carrossel parou no largo... mas não parou na vida...
Continua em meu sonho, rodando... rodando sempre...
E andando e desandando, num ritmo contraditório,
ainda me dá a alegria inevitável de dar voltas...
de girar, de rolar como os astros no espaço,
de elevar-me a um destino superior ao do planeta,
que em torno da sua órbita, como um símbolo, roda...

— Upa! Upa! Meu pensamento!

Ao compor estas palavras, por mais que tentasse resistir a isso, as correntezas da memória me arrastaram à infância e ao berço de minhas raízes, como tão frequentemente fizeram a Da Costa e Silva e a uma infinidade de vates, como uma espécie de sina. Se as evoco é porque se entranharam definitivamente  em mim, como reservas literárias, das quais o esforço para outros temas não foi  capaz de me libertar inteiramente. Se as evoco é porque, falando inicialmente com a força da memória,  embora contrariando aparentemente a praxe do discurso acadêmico, posso com maior exatidão e autenticidade discorrer sobre o que verdadeiramente interessa. Se as evoco é porque, recompondo as nódoas da meninice, posso revisitar a descoberta do livro, da literatura e as primeiras impressões sobre esta luminosa Casa de Lucídio Freitas e A. Tito Filho.

Em mim, a literatura visa preservar o tempo de ontem, atualizando impressões ou vivências passadas, para reinterpretá-las e criar novas impressões em palavras multiformes. Em mim, é a memória, em sensações simbólicas, que se incorporam à natureza, independentemente do uso social que faça da linguagem literária. A literatura, afinal, serve como modo de ler a individualidade humana  – a nós mesmos, sem determinação de tempo e lugar -  e a absorção do individual pelo coletivo. Uma forma de reconstrução do passado e do presente, sem arbitrariedades, porque nesse tipo de linguagem, até nos textos declaradamente engajados, o princípio da excelência está na liberdade dos sentidos  ou  das vozes emergentes. Ao escrever, pois, a memória e as sensações se sobrepõem ao individual; o passado reinventa-se no presente. 

A esse propósito, para ilustrar o significado superior das reminiscências e seu  processo alinear, recorro à memória do despertar do sono, em “No caminho de Swann”, de Proust:

“A imobilidade das coisas que nos cercam talvez lhe seja imposta pela nossa certeza de que essas coisas são elas mesmas e não outras, pela imobilidade de nosso pensamento perante elas. A verdade é que, quando eu assim despertava, com o espírito a debater-se para averiguar, sem sucesso, onde poderia achar-me, tudo girava em redor de mim no escuro, as coisas, os países, os anos. Meu corpo, muito entorpecido para se mover, procurava, segundo a forma de seu cansaço, determinar a posição dos membros para daí induzir a direção da parede, o lugar dos móveis, para reconstruir e dar um nome à moradia onde se achava. Sua memória, a memória de suas costelas, de seus joelhos, de suas espáduas, lhe apresentava sucessivamente vários dos quartos onde havia dormido, enquanto em torno dele as paredes invisíveis, mudando de lugar segundo a forma da peça imaginada, redemoinhavam nas trevas. E antes mesmo que o meu pensamento, hesitante no limiar dos tempos e das formas, tivesse identificado a habitação, reunido as diversas circunstâncias, ele, - o meu corpo -, ia recordando, para cada quarto, a espécie do leito, a localização das portas, o lado para que davam as janelas, a existência de um corredor, e isso com os pensamentos que eu ali tivera ao adormecer e que reencontrava ao despertar […]”

Interessa-me, sobremodo, a memória da infância. Toda infância se alicerça na transposição imaginária do real, conforme acertadamente asseverou o antropólogo Clifford James Geertz: “Uma mente criando sentido, buscando sentido, preservando sentido e usando sentido; numa palavra – construtora do mundo”. Quer no giro metonímico do poema dacostiano, quer em qualquer outra representação social ou imagética, essa transposição se configura como condição comum para se entender a voz da criança, também da literatura que se fundamenta – ainda que parcialmente - na construção social do mundo infantil.

Para Freud, a natureza da arte imaginativa reside na infância: “A obra literária, como o devaneio, é uma continuação, ou um substituto, do que foi o brincar infantil”.  O ofício do literato se elucida simplificadamente nestes termos: “O escritor criativo faz o mesmo que a criança que brinca. Cria um mundo de fantasia que ele leva muito a sério, isto é, no qual investe uma grande quantidade de emoção, enquanto mantém uma separação nítida entre esse mundo e a realidade”.

Se recupero essas referências, é para justificar, em partes, a gênese de um processo literário em formação permanente.  A presença viva de uma paisagem simbólica, reflexo identitário da escritura literária, em cujas metáforas e metonímias a integração à natureza anima-se. Essa integração constitui-se em pano de fundo que recuperam sabiamente, por exemplo, românticos, simbolistas e mesmo os revolucionários regionalistas brasileiros de 1930. Nos primeiros, para favorecer a evasão ou definir a cultura do novo mundo; nos segundos, para ensejar a transcendência cósmica; nos terceiros, para  questionar a realidade social com contundência, à luz principalmente do socialismo.

Essa integração é a mesma tão habilmente decantada na dimensão espiritual do poema O tempo nos parques, de Vinicius de Moraes. Para a percepção da vida, do ser e do estar no mundo, o eu lirico vai buscar no contato onipotente com a natureza o silêncio, o sagrado, o eterno, necessários para a consciência do existir e para a elevação espiritual:



“O tempo nos parques é íntimo, inadiável, imparticipante (...)

Medita nas altas frondes, na última palma da palmeira

Na grande pedra intacta, o tempo nos parques.

(...)

O tempo dos parques gera o silêncio do piar dos pássaros

Do passar dos passos, da cor que se move ao longe.

(...)

Porque imóvel, elementar, autêntico, profundo

É o tempo nos parques."

A integração da paisagem ao narrador ou ao eu lírico, na raiz da mímese ou da ambiência literárias, explicita-se como traço inerente ao fazer artístico e encontra na infância seu porto seguro.

Em mim, a memória da infância se divide entre o rio, a casa paterna, a igreja e as miragens do mundo rural. Neles, a experiência humana se converteu em novas experiências e palavras, principalmente, ora intermediadas pelo sensacionismo, ora pela utilização da literatura como documento.  Em Pessoa, sobretudo, essas vivências encontram referencial de que me utilizo como bússola para o fazer literário. Explica o poeta: “A arte, na sua definição plena, é a expressão harmônica da nossa consciência das sensações; ou seja, as nossas sensações devem ser expressas de tal modo que criem um objeto que seja uma sensação para os outros”. Dito em forma de versos, por meio do heterônimo Alberto Caeiro:

“Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.”

A literatura como documento encontra na prosa de 1930, de que também me valho, o paradigma para grande parte dos projetos literários em vigor. Herdeira da influência realista, repaginada pela renovação estética, em prosa, nas quatro primeiras décadas do século XX, essa concepção trouxe profundas  transformações sobre a técnica literária. Nas palavras do historiador Alfredo Bosi, “o caráter bruto ou brutal desse novo realismo do século XX corresponde ao plano dos efeitos que a sua prosa visa a produzir no leitor: é um romance que analisa, agride, protesta. Para atingir esse alvo, porém, foi necessária toda uma reorganização da linguagem narrativa, o que deu ao realismo de um Faulkner, de um Céline ou de um Graciliano Ramos uma fisionomia estética profundamente original”.



Em mim, a memória da infância se divide na natureza de minha palavra. O mundo, tão grande, cabia no meu coração. Aprendi a ver no rio, na casa paterna, na igreja e nas miragens do mundo rural gente. Aprendi a me integrar à paisagem como se fôssemos uma só criatura. As águas assombrosas dos invernos fartos lambiam os tetos das casas ribeirinhas e reproduziam a fartura de peixes: piranhas e surubins gigantes vendidos de porta em porta. As águas pareciam gente. A casa modesta de então,  de longo corredor, teto de madeira redonda e piso de tijolos, rústica em sua simplicidade  e rica em carinho e amor. A casa paralela ao rio, a dois quarteirões da igreja. A casa em cujas paredes enxergava o céu de todas as formas e texturas. A casa imorredoura em minha emoção. A casa que era gente.  A igreja, onde coroinha fui  aos sete anos – para orgulho de Dasinha. a igreja, onde aprendi a fazer perguntas e a conversar com o desconhecido, imaginando as estórias do outro mundo;  A igreja que fortaleceu a paciência e a humildade de meu DNA. A igreja que em festas religiosas atraiam toda espécie de tipos curiosos e exóticos. Gente, era gente.

Ah! As miragens do mundo rural! Vivi, antes da maior consciência de classe, que modificou as configurações do trabalho no campo, e da opção pelas oportunidades e promessas da vida cosmopolita, os últimos dias coloridos e simples das antigas propriedades rurais da Zona da Mata de Barras do Marataoã, na sombra dos desdobramentos  da  Fazenda Esperança, do velho Alfredo Pires Lages. Ainda as conheci; os valores, costumes e histórias, nos derradeiros anos de uma geração que viveu no campo. Até parece que ouço a comunicação fácil dos longevos e fiéis Agostinho Israel e Jenelino. As antigas propriedades, ainda as conheci como eram,  elemento concentrador de renda e como saudável fonte de entretenimento e sociabilidade.

Ali, a audição tinha professor nos ruídos de algum veículo perdido nos estradões de areia. Ali, a cantiga insistente da cigarra, o mugido do gado na madrugada, o ruído frenético das folhas das palmeiras, dos sapos nas lagoas em noites de inverno e os sons das correntezas dos riachos eram as vozes das sensações falando em bom português. A variada gastronomia de delícias sem fim e orações que se dissolvem, respectivamente, em meu paladar e em meus tímpanos.

Nesse ambiente, pela primeira vez entrei em contato com a poesia propriamente dita, a dos cantadores, na vaga lembrança de uma cantoria, e com a leitura dos poemas de Teodoro e Hermínio, em antologia organizada e comentada pelo acadêmico Herculano Moraes, em capa azul. Tenho a impressão viva de lhe tatear ainda. Lendo-a, sob o balançar da rede de tucum, punha-me a cantar sem nenhuma ideia sobre a sinfonia particular que une a música e a poesia. Quantas estórias de assombração sob o céu estrelado! Figuras que viravam animais, visagens de todo tipo, para justificar os absurdos das transgressões humanas.

Ali, também entendi a desigualdade nas mãos das quebradeiras de coco, na peleja do vaqueiro tocando boi encaretado, no agricultor de foice ao ombro a caminho da roça. O mundo era dividido; algumas vezes, pela natural divisão social do trabalho; outras, pelas imposições morais da injustiça social. A mesma divisão da pracinha central da cidade-berço: andando em círculos, na extremidade superior da praça, as trabalhadoras domésticas, alvo dos mais absurdos preconceitos, e os moradores dos bairros, vistos pelas lentes da desconfiança e da discriminação; na extremidade inferior,  jovens oriundos das famílias do centro, indiferentes aos contornos da desigualdade velada.  O mundo demarcado, dividido na pólvora das ruas e das tensões inesgotáveis de poder, mas o mundo em que o humanismo, a ação cidadã e a convivência saudável derrotavam as barreiras da arrogância e da indiferença. As fazendas e a cidade, em suas alegrias e divisões, gente eram. E ficaram marcadas em minha epiderme, como um pedaço de minha própria pele. Se as evoco, é porque sei da força matriz que mantêm com meus projetos literários.

Na cidade em que nasci, por volta de 1982, ocorre-me a lembrança mais distante do nome desta Casa de Letras. Para conter a indisciplina em sala de aula, a diligente e afetuosa diretora do grupo escolar Gervásio Costa, escola pública onde estudei o ginásio, a senhora Maria de Jesus Carvalho Rocha, figura de relevo na história da educação daquela cidade, entrou subitamente no recinto e pôs-se a falar das tradições de uma cidade de grandes homens, no passado, nas variadas esferas da atividade humana. A tradição, ao que  parece, iniciada na Guerra do Paraguai e esplendorosa até a queda do Estado Novo, assinalando não apenas o declínio político das oligarquias rurais, mas também a decadência da força política de uma região. Todos, em silêncio, ouviam atentamente comentar sobre os irmãos Celso e João Pinheiro, além do mito vivo de então, A. Tito Filho. Dizia que o destino de alguns de nós poderia ser de conquistas, se assim o quiséssemos.  Ouvi pela primeira fez ali o nome da Academia Piauiense de Letras e dele nunca mais me esqueci, como símbolo de orgulho do lugar em que nasci.

Se  evoco essas memórias, é porque o menino, o adolescente ainda existem em mim. Em seu entusiasmo, em suas esperanças.

Senhores e senhoras,
Vivendo o magistério, a linguagem e a literatura como objetivos diários desde a adolescência, como estudante, como professor  de longa data, sinto-me afinado aos valores e às causas dos que me antecederam na cadeira 21, embora eu seja apenas um pequeno ponto de entusiasmo diante do que cada um legou para as letras. O desafio de honrar a cadeira de Leopoldo Damasceno Ferreira, Antônio Francisco da Costa e Silva, Maria Isabel Gonçalves Vilhena e Francisco Hardi Filho é colossal, todavia, gigantesca, também, a minha obstinação.

O oeirense Cônego Leopoldo Damasceno Ferreira, doutor em Direito Canônico,  nascido em 1857 e falecido em São Luiz do Maranhão, em 1906, patrono deste assento, notabilizou-se como, além de poeta de grande força lírica, figura múltipla, com extensa folha de serviços, especialmente à igreja, ao magistério e ao jornalismo.  No Maranhão, segundo anotações do historiador e acadêmico Wílson Carvalho Gonçalves, além de notável orador sacro e poeta, foi professor de Latim e Francês no Liceu Maranhense, diretor do Seminário das Mercês e governador do bispado do Estado.  Cônego Leopoldo, destaca o historiador, “teve intensa atividade na imprensa do Maranhão”, colaborando com os jornais Diário do Maranhão e  Alvorada.

A nobreza fulgurante de sua inteligência e expressão como orador sacro é descrita por Ivan Lins em sua “História do positivismo no Brasil” (1967). Ele relata o empenho do professor maranhense Agostinho Gomes de Castro, intenso defensor da teoria de Auguste Comte, para dar publicidade a ela em São Luiz, e a movimentação da igreja em oposição a esse conceito. Nesse mister, o clero nomeou a maior autoridade da igreja naquele Estado, o Cônego Leopoldo Damasceno:

“Num domingo, 29 de fevereiro de 1898, no edifício da Escola da Rua Grande, onde funciona hoje o Instituto Histórico, deu Gomes de Castro a sua aula inaugural, tomando como tema a "exposição popular do positivismo". O sucesso foi espantoso. Grande assistência passou a ouvir-lhe a palavra, sempre fluente e fascinadora.

(...)

Tal sucesso apavorou o clero maranhense, que resolveu reagir, opondo doutrina contra doutrina.


Para isso, apelaram os padres para sua maior ilustração — o Cônego doutor Leopoldo Damasceno Ferreira. Mandaram-no buscar na Vila do Paço, de cuja freguesia era encarregado. O Cônego veio e iniciou uma série de conferências contra o Positivismo na Igreja de Santo Antônio.”

Registra o professor A. Tito Filho, em crônica datada de 17.06.1988, a seguinte apreciação de Clodoaldo Freitas sobre a larga contribuição do patrono da cadeira 21:

 "Foi, nestes últimos tempos, o campeão de teologismo entre nós, e bateu-se, pela imprensa, em defesa do credo católico com a louçania de um convencido. Sustentou polêmicas acres e veementes, demonstrando sempre copiosa e larga cultura. Distinguiu-se como orador sagrado, como jornalista e os íntimos o denunciavam também como um poeta de inspiração e sentimento. Tinha coração de patriota para amar a pátria, sentir suas dores e suas alegrias. Era uma rara exceção entre o clero brasileiro, tão diferente do clero de outrora".

Na cadeira 21 deste sodalício, em janeiro de 1923, tomou posse o mais conhecido dos poetas piauienses, Antônio Francisco da Costa e Silva. Em artigo publicado originalmente em 11 de outubro de 1998 e reproduzido em Notas de leitura impressionista – nova série, o ilustre crítico literário e acadêmico Manoel Paulo Nunes revisita a posse do Poeta da Saudade, em busca de desvendar o desconhecimento completo do discurso do vate, jamais publicado em terras piauienses.

Do amigo romancista Josué Montello, Paulo Nunes conta que recebeu inusitado presente: recorte do jornal  Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, de 16 de janeiro de 1923, noticiando a posse do acadêmico e tecendo elogio ao patrono por ele escolhido.

Esclarece Paulo Nunes:

“Trata-se, ao que suponho, do resumo do famoso e desconhecido discurso do poeta, ou mesmo do próprio discurso, pois compreende um perfeito estudo biográfico e crítico da personalidade do cônego, detendo-se o novo acadêmico, especialmente, no comentário de sua obra lírica, de mais forte inspiração”.

Reproduzindo poema de autoria do Padre Leopoldo, poema de acentuados traços líricos, o crítico Paulo Nunes prioriza  a leitura que  Da Costa realizou sobre a poética do patrono da cadeira 21. Nas palavras do poeta amarantino,

“Esse padre, que todos afirmam era um crente convicto e um sacerdote virtuoso, teve, sem dúvida, como o poeta Anvers, o seu segredo n’alma e o seu mistério na vida. Teve, como todo poeta, a aparição divina de uma sombra de mulher, nos caminhos incertos da existência.”

Raros poetas piauienses atingiram tanta notabilidade nacional quanto Antônio Francisco da Costa e Silva. À sua produção literária, detêm-se os mais variados historiadores, entre os quais, nomes de credibilidade como Andrade Muricy, José Veríssimo, Sílvio Romero, Alfredo Bosi e Carlos Nejar. Para este, em sua História da Literatura Brasileira – Da carta de Caminha aos Contemporâneos - o poeta de Amarante, ao lado de Raul de Leoni, “tornara-se o arauto do Pré-Modernismo, trazendo a semente da crise, que é o começo da transformação estética”. Para justificar o parecer ele afirma: “ Há um lado estranho neste poeta, revolucionário para a época, o dos poemas experimentais, desenhando em vocábulos o tema dos versos”.

Rotulando-o como um “lírico superior”, Nejar destaca, entretanto, que a poética dacostiana, sobretudo, “gerou uma poesia com apuro e força imagística, aliando símbolos religiosos a certo profanismo”, a que se agrega, em muitos poemas, “visível concisão elegíaca”.

A interpretação de Nejar, que o considera, conforme posto, como precursor do Pré-Modernisto e, portanto, atento às nova tendências de seu tempo, encontra reforço nas palavras de um dos principais pesquisadores da poesia de Da Costa e Silva. Para o crítico literário e  Pós-doutor em Literatura Cunha e Silva Filho, fecundo estudioso da obra dacostiana, “ao construir uma obra literária poética em vários estilos literários, ele não deu senão demonstração de ser um poeta voltado a um experimentalismo que o conduziu até mesmo ao Modernismo”.

A  força das imagens e símbolos, a que há pouco referimos,  mergulhada em telurismo de tom elegíaco, é traço comovente de um dos poemas mais populares do Piauí, o  célebre soneto Saudade:                                                               

"Saudade! Olhar de minha mãe rezando

e o pranto, lento, deslizando em fio...

Saudade! Amor da minha terra... O rio

cantigas de águas claras soluçando.



Noites de junho... o caboré com frio,

ao luar, sobre o arvoredo, piando, piando...

E ao vento, as folhas lívidas cantando

a saudade imortal de um sol de estio.



Saudade! Asa de dor do Pensamento!

Gemidos vãos de canaviais ao vento...

As mortalhas da névoa sôbre a serra...



Saudade! O Parnaíba, - velho monge,

as barbas brancas alongando... e, ao longe,

o mugido dos bois da minha terra..."



Sobre a Saudade em Da Costa e Silva, diz Cunha e Silva Filho:

“(...) A saudade no poeta está mais plantada em fundas raízes românticas, sendo ela fruto mais das intuições, da espontaneidade, de condicionamentos existenciais. (...) A saudade dacostiana deve ser entendida, a nosso ver, como  a ausência de alguém ou de alguma coisa que perdemos no tempo e no espaço e, além disso, é motivada por quatro forças-motrizes de seu lirismo: o amor materno, o amor à terra natal, o amor ao rio Parnaíba e, finalmente, o amor à Alice, a sua musa cedo desaparecida.”

Uma dos mais completos mergulhos no lirismo e na gênese da criação de Costa e Silva nasceu da sensibilidade do historiador e diplomata Alberto da Costa e Silva em Invenções de Orfeu, ensaio quase obrigatório para compreender as influências literárias  do poeta e as particularidades de sua técnica . Conta o historiador, citando relato de Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves, que o pai aprendera muito cedo a ver. “A Perscrutar o mundo. A conhecer as formas, os movimentos e o nome de tudo que estava a seu redor”.

“O poeta fazia máscaras de Carnaval e pandorgas. Pintava com paisagens as paredes das casas. Esculpia santos em madeira. Confeccionava estandartes para as festas religiosas. Suas mãos de dedos longos e harmoniosos eram habilíssimas e teriam feito dele um pintor ou um escultor, não tivesse ainda menino, começado a compor versos.”, conta o historiador.

A capacidade de ver situa-se, para Alberto da Costa e Silva, como elemento do qual se vale para sintetizar o fazer literário do pai:

“A capacidade de mimese, que poderia conduzir ao simples descritivismo e a uma poesia que se reduzisse às emoções da inteligência, é corrigida num poeta que sabia ver e reproduzir o que via, por uma penetração na paisagem e, mais que isso, por um pensamento panteísta, que o integrava nela e na divindade”.

Referindo-se a toda a produção poética de Da costa e Silva, ele acrescenta:

“Da Costa foi capaz de estar na natureza como Pã e como Orfeu. Por isso, pode passar da paisagem misteriosa e altamente simbólica, presente em Sangue – naquele soneto perfeito que é “Rio das Garças”, por exemplo – para a natureza harmoniosa ou agredida de Zodíaco, até chegar à natureza emotiva e pesada de Pandora, à natureza filtrada pela lembrança e que obedece ao canto do poeta”.

Antônio da Costa e Silva nasceu a 23 de novembro de 1885, na rua das Flores, em Amarante. Ali estudou o primário e viveu a infância entre os banhos nos rios Canindé, Parnaíba e o riacho Mulato, entre os passeios à fazenda da família e à igreja. Muda-se para Teresina na adolescência, a fim de estudar o ginásio no Liceu Piauiense. Em 1906, está em Recife, matriculado na faculdade de Direito. Em 1910, aprovado em concurso público, assume o cargo de escriturário da Delegacia Fiscal do Tesouro Nacional, ascendendo celeremente ao posto máximo dessa repartição. No exercício de suas atividades profissionais, reside em várias capitais: São Luiz, Manaus, Fortaleza, Recife, Belo Horizonte, Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro, onde falece a 29 de junho de 1950.

Para aquilatar a influência do Poeta da Saudade no cenário literário nacional e sua sintonia com o que se produzia à sua época, cito episódio a que menciona Alphonsus de Guimaraes Filho, em biografia escrita sobre o próprio pai, um dos maiores poetas – senão o maior - do cânone simbolista. Estabelecido em Minas Gerais, Da Costa fora um dos maiores amigos de Alphonsus de Guimaraes e o responsável, inicialmente, pela divulgação da poesia do famoso autor de “Ismália”, conforme conta Guimaraes Filho em biografia:

“Teu amigo foi o esplêndido poeta piauiense Da Costa e Silva, a quem muito prezavas: dedicaste-lhe o soneto XXV da Pastoral.

 (...) O poeta de Sangue figura entre os que mais te distinguiram. (...)”

A esse respeito diz Alberto da Costa e Silva, incansável divulgador da obra do pai:

“Da Costa e Silva fez uma peregrinação, pouco antes de 1915, a Mariana, a fim de conhecer pessoalmente a Alphonsus de Guimaraes, a quem admirava desde os tempos de rapaz e cuja grandeza foi dos primeiros a conhecer”.

E acrescenta:

“Se, como dizia Augusto Meyer, fora Da Costa e Silva quem lhe revelara, e a outros companheiros gaúchos em 1930, ele o fizera antes aos próprios mineiros”.

Sucedendo a Da Costa e Silva, Maria Isabel Gonçalves Vilhena, projetou-se como poetisa e como educadora  de reconhecida competência. Professora da Escola Normal, do Colégio Diocesano e do Colégio das Irmãs, ela nasceu em 20 de agosto de 1896, na Rua Santo Antônio, hoje Olavo Bilac, e faleceu aos 92 anos, em Teresina, a 19 de dezembro de 1988. Publicou Nada e Seara Humilde, este em 1940. O reconhecimento da obra assegurou-lhe a reedição conjunta em 1975, pela Secretaria da Cultura do Piauí. Em notas impressionistas, diz seu sucesso na cadeira 21, o poeta Hardi Filho:

“O lirismo de sua poesia encanta pela doçura e pela leveza da expressão que traduz com espontaneidade as emanações da fonte conceitual do pensamento. Seu livro é composto de versos nascidos de uma imaginação clara, expressos como água que cai e, nessa queda, arrasta para a mensagem o que de melhor e mais puro contém o coração.”

Graça Vilhena, poetisa, festejada professora de literatura e neta da autora de Seara Humilde, em análise lúcida, assim se manifesta sobre a técnica e as matizes da poética da avó:

“A expressão analógica entre a natureza exterior e a projeção dos sentimentos, assim como a liberdade formal, na maioria das composições, aproxima a poética de Isabel Vilhena à estética romântica. Porém, alguns aspectos relevantes são operados, em sua lírica, que revelam certa tendência modernista e contradizem algumas características básicas do comportamento romântico. Isso ocorre nos momentos em que a poeta (ou poetisa) rompe as fronteiras do individualismo e as imagens, arquitetadas por símbolos, metáforas, símiles e prosopopeias passam a ser produto de uma correlação psíquica entre as coisas da natureza e o mundo, assim, a voz poética é projetada no âmbito geral, numa comunhão com o outro.”

Expressando-se sobre a consciência do fazer poético de Isabel Vilhena, acrescenta a poetisa:

“Sua poesia se atualiza também pelo trabalho consciente em torno da linguagem. A riqueza imagética nos versos de “Nada” e “Seara Humilde” – reunidos em publicação posterior – está nos poemas como testemunha de uma poética que se afirma pela excelência de seus versos. A linguagem, aparentemente simples, veste-se de novos significados, férteis em simbologia e figuração: o pau-d´arco amarelo é símbolo da riqueza da “Terra Brasileira”; nossos sonhos estão guardados “no longínquo azul” do horizonte; o amor “é tão iluminado” como todas as flores sob a luz do sol; a mesma luz que “se coalha” nos arvoredos, agasalhando “a solidão das casinhas de palha”. As asas da borboleta levam a ventura fugidia e a “alvorada de maio” traz a alegria da vida. A “luminosa esteira do sol” se afasta como as lembranças do passado e as noites de São João são iluminadas pelo “chuveiro de estrelas”. A “alma da terra mora no vulto erguido das longínquas serras” e o rio, como nós, “sonha acordado e sem saber que sonha”.

O diálogo natureza-sentimento e os símbolos daí oriundos refletem-se em versos de notável influência romântico-simbolista, como estes, de O lago:

Na superfície azul das águas transparentes,

Sereno e calmo vive o lago a refletir

a grandeza do céu, os astros reluzentes

e a renda do arvoredo ameno a reflorir.



E quem o vê assim nessa mudez dormente,

Sem um murmúrio vago ou leve proferir,

Nessa aparência mansa e doce de um demente,

terá razão demais, de certo, em se iludir!



Revolvei o seu leitor! E o tendes já turvado,

Desfeita, emaranhada a renda do arvoredo,

E  o calmo adormecer em vagas transformado!



Como o lago também há corações! E quantos!...

De aparência feliz, guardando, com segredo,

na placidez de um riso um vendaval de prantos!



Resumindo a poética de Isabel, conclui Graça Vilhena:

“A espiritualidade, a saudade, o fundo psicológico, o amor e a natureza são temáticas constantes em sua obra, que ela soube tratar não com sentimentalismo exarcebado, mas com uma sensibilidade rara e verdadeira. A intenção da poeta com sua simplicidade estética e pura expressão poética é tocar a alma humana, sem distinção, numa atitude universal e solidária. O lirismo sem particularismo, o ecumenismo de seus versos são, portanto, traços inovadores que atualizam sua poética e nos deixa a impressão, ao ler seus versos, que compreendemos sua generosidade, a intenção contida em seu lirismo agreste, sua voz que se projeta para emocionar os corações distantes.”

Bastam as palavras de Carlos Nejar, para definir a grandeza da poesia do último ocupante da cadeira 21. Contrapondo o estilo de Hardi filho ao de H. Dobal, para quem “a poesia é um instrumento de precisão”, sentencia:

“O oposto de H. Dobal é Hardi Filho, natural de Fortaleza (1934), radicado em terra piauiense, estreando com Cinzas e Orvalhos (1964). Poeta de efusão amorosa, usuário do soneto, em que o ânimo de dizer é maior que a invenção imagística e o domínio estético. Mas diz com fervor o que sente, arma o silêncio contra o indefeso (suicidado) tempo, concita a luz na gruta do poema, sinuosa forma de eternidade”.

Entre nós, comungando da vivência dos livros em espaços comuns, os historiadores e poetas Francisco Miguel de Moura e Herculano Moraes, amigos de geração do poeta de Gruta Iluminada, souberam abstrair o âmago da escritura de Hardi.

“No seu trabalho contínuo, de obra a obra, incorpora conquistas do moderno e as mais experiências do verso na construção poemática de modo geral. Entretanto, a crítica tem concordado: é no soneto que está o melhor de sua arte”, diz Francisco Miguel.

“Última glória de uma poesia efetivamente compromissada com os estados interiores da alma”, avalia Herculano Moraes.

Tive a oportunidade de conhecer Hardi Filho. De ouvi-lo falar sobre poesia. De sua predileção sobre Celso Pinheiro, a respeito de quem conversamos reiteradas vezes. Introspecto, era dado ao diálogo quando se sentia à vontade; figura afável e cativante, um poeta no sentido exato do termo.

Se o conhecimento poético limpa as vidraças da percepção para tornar as coisas infinitas, conforme definiu William Black, em Hardi, esse instante de iluminação torna o verbo límpida ressonância do sonho e do romantismo,  escolha realizada com a consciência da arte que dominava, como bem condensou o poeta em soneto antológico:

Dúvida

Eu ti esperarei, eu te esperarei sozinho

Dentro da noite intérmina da vida.

E desde o instante atroz da despedida,

Que te esperando acumulo carinho...



E então? Ficaste de voltar, querida,

Eu te esperarei insone em nosso ninho,

Sem companhia de cigarro ou vinho

E a noite mais se alarga e se encomprida!



E de tão longa a espera me tortura.

Deixaste-me somente noite infinda,

Só noite e noite triste e noite escura!



Minha alma está confusa e se biparte:

Não se sabe se ti espera mais ainda

Ou saia pelo mundo a procurar-te!



A poesia de Hardi está  “impregnada de símbolos e conceitos negativistas, cuja temática e o binômio amor-morte, fundindo-se numa constante que é o desconhecido, com tendência para o transcendental”,  conforme acentua Francisco Pacelli Bossuet, enfatizando que Hardi “é poeta sem vínculos a qualquer escola literária”.

Nele, ainda que permaneça o romântico inconfundível, lê-se também o poeta moderno, versejando com perícia a forma do verso livre e a incorporação do cotidiano à literatura:

Pela Janela do Trem




Pela Janela do trem

num recorte branco,

a torre da igrejinha

e o céu se derramando

sobre o casario.



Pela janela do trem

o fumo indeciso

das chaminés caseiras

e a arquitetura das nuvens

em matinal passeio.



Pela janela do trem

semblantes de vários tipos

aparecendo e sumindo,

o apito e as vozes

de até breve (ou nunca mais?).



Pela janela do trem

uns olhos femininos

livremente marejados...

e a cidade tão presente

viajando acorrentada

às pupilas desses olhos.



Pela janela do trem

um passado e um futuro

resumindo num presente

na janela do trem

um rosto pétreo

olhos nos olhos que ficaram...



Senhores e senhoras,

Acende-se em meu pensamento o recorte de jornal que recebi, pelo correio,  em 1990. Nele, o frágil texto escolar que escrevera e, encaminhado ao então presidente desta Casa A. Tito filho, publicado nas páginas de O Dia por seu intermédio, a mim retornava com a inconfundível assinatura do grande mestre. A generosidade do ilustre professor, endossada em duas dezenas de cartas a punho a mim remetidas e, guardadas com extrema cautela, muito significaram para o pobre estudante de letras, o leitor curioso e o operário da palavra, que hoje, professor A Tito Filho, ingressam nesta casa de muitas portas e janelas, nesta casa que o passado revive, para fazê-lo brotar como a água das fontes. Nesta Casa que é a sua Casa. Muito obrigado, professor A. Tito Filho. Em seu nome, agradeço a todos os que me encorajaram nesta trajetória inacabada.

Ditas estas palavras, recorro  ao saudoso Carrossel Fantasma de  Da Costa e Silva:

“Ganhei o dia a meditar na minha vida.”

Muito obrigado!

Discurso proferido por ocasião da posse na cadeira 21 da Academia Piauiense de Letras, ocorrido em 22.10.2015, no Auditório Wílson de Andrade Brandão, na sede da instituição.