segunda-feira, 10 de agosto de 2015

DOIS PALHAÇOS


DOIS PALHAÇOS

Chico Acoram Araújo
Servidor público, contador, contista e cronista

                Festinha de aniversário da minha neta Gabriela, que completara seus dois primeiros anos de idade. Ela estava muito feliz e radiante; uma linda princesa. O terraço da casa estava lotado de convidados, a maioria crianças de idades indefinidas. Uma algazarra alegre reinava no ambiente. Um palhaço, que a convite de minha nora veio para animar a festa, fazia suas graças e brincadeiras no meio da criançada, e ganhou de imediato a atenção da galerinha. Mas os adultos davam também boas gargalhadas em razão dos trejeitos do artista de circo. O palhaço, de nome Pipaco, era o protagonista do evento, enquanto a aniversariante, uma alegre espectadora. Expondo-se ao ridículo, aquele artista divertia a todos com grande maestria. Além da característica bolota vermelha no nariz, dos sapatos extravagantes, das roupas bufantes e coloridas, e de uma peruca espalhafatosa, portava um enorme bundão acolchoado por dois grandes balões de látex. Muito engraçado. Juntamente com as crianças, o artista cantava, dançava, pulava, além de transformar um tipo de balão comprido em figuras das mais engraçadas tais como bicicleta, óculos, animais etc. Isso durou até que foi dada a ordem para entoarmos os parabéns à aniversariante, que apagou as duas velinhas, antes de começarem a repartir o cobiçado bolo. Momento apoteótico. Uma bela festa, para uma bela dama.
Assim como as demais crianças, minha neta transbordava alegria e felicidade; agora ela era a estrela do espetáculo, e o palhaço um mero coadjuvante. Pouco antes, o artista circense dera como encerrada a sua apresentação, sumiu de cena, sem se ausentar do ambiente.
                Passadas as horas, a criançada acalmou-se um pouco, não mais estava tão assanhada; a gritaria amenizava, creio que o cansaço abateu-se sobre a maioria delas; algumas até já se mantinham quietas no colo do pai ou da mãe. Outras, poucas, continuavam a brincar, mas sem a mesma animação de antes. Os convidados agora quase tomavam conta da festa, mantendo-se animados e alegres, conversavam e sorriam. A patuscada continuou, pois o estoque de petiscos e bebidas estava garantido por mais algum tempo. Eu e minha esposa estávamos sentados a uma mesa próxima ao portão de entrada da casa, e junto conosco, o meu filho e a minha nora, os pais da aniversariante, juntamente com um casal de amigos convidados, que minutos atrás tinha sido convidado a sentar-se conosco. E ao lado daquele casal, encontrava-se também seu filhote, um menino que aparentava ter cerca de três anos de idade.  Os anfitriões mantinham uma conversação mais efetiva e divertida com aquele casal, especialmente com o moço que, assim como meu filho, devia beirar os 28 anos de idade, não mais do que isso. Brincalhão, o rapaz tinha a cor parda, estatura mediana, e os cabelos crespos e cortados rente. Já a esposa, possuía altura um pouco menor do que o marido, era morena, e tinha o rosto redondo, com traços delicados. 
Enquanto eles conversavam, lembrei-me de perguntar a minha nora pelo palhaço que há pouco tinha agraciado a criançada e adultos presentes com um belo e divertido espetáculo. Eu tinha certeza que o artista estava ainda presente na casa, pois não vi ninguém saindo, uma vez que, como disse, achava-me bem próximo ao portão de entrada. Minha nora, sorrindo para mim, indicou, com um gesto de cabeça, o mencionado rapaz que nos fazia companhia naquele instante. Também sorri, acanhado com o meu pouco poder de percepção. Pois para mim, o rapaz não era o palhaço; o palhaço não era o rapaz: nada existia que os assemelhasse. Mas, por trás daquele simpático jovem, existia um palhaço. Um palhaço que sustentava o rapaz e sua família. Um homem que ganhava a vida fazendo palhaçada, evidentemente, no sentido original da palavra.  Soube, mais tarde, que ele ajudava a animar um programa de televisão bastante prestigiado pelo público infantil de Teresina e adjacência. E que trabalhava também como “freelancer” e “merchandaiser” em lojas comerciais, bem como em shows e eventos familiares.
Após conhecer um pouco mais da vida daquele ilustre palhaço e chefe de família, meus pensamentos voltaram para qualquer dia de um ano letivo em meado dos anos 60. Nesse dia, o sol, resplandecente, estava quase sumindo no horizonte, do outro lado do rio Parnaíba. A aula acabara de encerrar quando, ao sair pelo portão do Grupo Escolar João Costa, situado na Rua Jônatas Batista, bem ao lado do Estádio de Futebol Lindolfo Monteiro, ouvi vozes estridentes que vinham da rua da antiga Cadeia Pública, hoje transformada em uma feiosa praça que serve como ponto de venda de veículos usados. Parei, olhei e aguardei um pouco. Instante depois, vi um grupo de pessoas caminhando em passos rápidos, porém, sem correria. O grupo era formado por um palhaço e duas dezenas de crianças e adolescentes. E o palhaço ia na vanguarda, declamando e puxando o coro. Este artista do picadeiro era uma espécie de pregoeiro de um circo que acabara de erguer suas imponentes lonas em um terreno baldio, de chão duro e avermelhado, situado no lado sul do mercado central, hoje Praça da Bandeira. Referido logradouro servia de campo de futebol, onde acontecia constantes torneios com os times existentes nas imediações. Quando um circo se instalava no local, as atividades futebolísticas eram suspensas, temporariamente.
O pregoeiro do circo declamava mais ou menos assim:
Hoje tem espetáculo?
Tem, sim sinhô.
É às oito da noite?
É, sim sinhô.
Hoje tem marmelada?
Tem, sim sinhô.
Hoje tem goiabada?
Tem, sim sinhô.
É de noite? É de dia?
É, sim sinhô.

Aproveita moçada!
Dez tostões não é nada!
Sentadinho na bancada!
Pra ver a namorada!
E a criança que chora?
É que qué mamá.
E a mulhé que namora?
É que qué casá.
Mas o palhaço, o que é?
É ladrão de mulhé.
E o palhaço, o que é?
É ladrão de mulhé.
E o palhaço, quem foi?
Foi ladrão de boi.

Papai, mamãe, venham ver titia
Tomando banho de água fria.
Papai, mamãe, venham ver vovó
Tomando banho de água só.
Papai, mamãe, venham ver Loló
Tomando vinho com pão-de-ló.

E a moçada na janela?
Tem cara de panela.
E a nêga no portão?
Tem cara de carvão.
Hoje tem forrobodó?
Tem, sim sinhô.
É na casa da vó?
É na sua, é na sua.
Hoje tem arrelia?
Tem, sim sinhô.
É de perna-de-pau?
É de blau-blau-blau.

Oh raio, oh sol, suspende a lua!
Olha o palhaço no meio da rua!

E o palhaço, o que é?
É ladrão de mulhé!
Viva a rapaziada sem ceroulas!
Vivaaaa!!!!!

Como toda criança, fiquei deslumbrado com aquela divertida procissão. Meu coração acelerou em êxtase. Minha alma se abateu; meus sentidos se desprenderam naquele momento, absorvendo-me em um enlevo e contemplação interior.  Uma força invisível me empurrou ao encontro daquela gente. Apressei os passos. Logo mais, eu já fazia parte daquele hilário cortejo, declamando, em voz alta, os versos acima transcritos.
Passando o cortejo pelo antigo Asilo que ficava poucos metros abaixo, uma espécie de hospital psiquiátrico da época (atualmente funciona a Unidade Escolar Benjamin Batista), o comandante dobrou na Rua João Cabral, seguindo rumo ao Mercado Central, para o local onde se instalara o grande e famoso “Circo Garcia”; circo de categoria internacional, conforme prenunciava o apresentador oficial daquela casa de espetáculo. Chegando ao circo, o nosso comandante presenteou a cada um dos seus valorosos seguidores com um bilhete de cortesia para que assistisse ao majestoso espetáculo do inesquecível e memorável “Circo Garcia”. No domingo seguinte, sessão da tarde, estava eu lá na plateia, alegre e radiante, vendo os palhaços, inclusive o nosso comandante (perdão, por não lembrar o seu nome!), acrobatas, malabaristas, equilibristas, comediantes, domadores, zebras, elefantes, leões, cavalos, macacos, e o espantoso e emocionante “globo da morte”.
Distinto público, aplausos para os dois palhaços, pois o espetáculo não pode parar. Eles nos fazem morrer de rir, e alegram nossas vidas. E em particular, as vidas da pequena aniversariante e do jovem ajudante de pregoeiro de circo.


Fonte: blog Folhas Avulsas   

domingo, 9 de agosto de 2015

MENSAGEM DE MEU FILHO



9 de agosto   Diário Incontínuo

MENSAGEM DE MEU FILHO

Elmar Carvalho

Ainda cedo, tomei um café reforçado, que fora encomendado por minha mulher, em comemoração ao Dia dos Pais. Recebi os presentes que ela me entregou, o que me foi dado por minha filha e o que foi enviado por meu filho. O melhor mimo, contudo, foi uma mensagem enviada do Estado do Amazonas pelo meu filho João Miguel, onde ele é oficial da Polícia. Tenho certeza de que não mereço suas belas palavras na íntegra, mas fico contente mesmo assim. Ei-las:

“Parabéns ao papai pelo seu dia, que pena que não estou presente ao seu lado, mas estou espiritualmente. Parabéns pela pessoa que és, que é muito mais que um pai. Ser um bom pai é fácil, quero ver se é uma boa pessoa, como ser humano. Quem é o pai ruim? Quem não é o melhor pai do mundo? Existem pais assim (ruins), mas são a exceção.


Eu não só analiso a relação entre pai e filho, mas analiso a sua relação com as demais pessoas; sempre prestativo, humilde, simples, sem fazer maldade aos outros, chegou a um bom patamar profissional por conta unicamente de seus méritos; faz o que muito gosta, que é ler e escrever, por isso conquistou uma cadeira na Academia Piauiense de Letras. O bom filho tem que ter orgulho do seu pai e eu tenho do meu. Parabéns pai pelo teu dia!”

EMOÇÃO NO CIRCO



EMOÇÃO NO CIRCO

Elmar Carvalho

Para Miguel Arcângelo (meu pai), João Miguel e Elmara Cristina (meus filhos)

Homenagem ao Dia dos Pais
                                                                             
Pelas mãos tenras
de meus filhos
a magia do circo me chegou.

Atropelado por emoção e saudade
meu coração foi atirado de
lado              a                         lado
pelas piruetas de
         capetas e palhaços
infiltrou-se nos malabares
e me trouxe meu pai e o circo
encantado de minha infância.

As lágrimas escorriam
e eram estrelas e vaga-lumes
que pingavam da cartola
ensopada de um mago...

A lembrança de meu pai
assomou da sombra do passado
suavemente sentou-se ao meu lado
tomou-me as mãos
as mãos de uma criança.           

sábado, 8 de agosto de 2015

Festa de aniversário de 80 anos de dona Lozinha


Texto: Vanessa Lima/O Repórter do Araguaia

03/08/2015 - Festa de aniversário de 80 anos de dona Lozinha, reúne família e amigos em um momento inesquecível

Bonita festa marcou os 80 anos de dona Firmina Santos Silva, carinhosamente chamada de dona Lozinha como é popularmente conhecida. A família de “O Repórter do Araguaia” Parabeniza a senhora, pelos seus 80 anos de existência. Dona Lozinha, esta mulher, forte, guerreira, exemplo de vida nasceu no dia 31 de julho de 1935 no Parnaíba município o estado do Piauí.

Ao comemorar os seus 80 anos de vida, onde reuniu toda a família e os amigos para lhe desejar um feliz aniversário.  Foi uma festa onde o respeito, admiração e amor por Dona Lozinha, na comemoração dos seus 80 anos de vida. Com a participação dos seus irmãos, filhos, noras, genros, netos e bisnetos; todos viveram momentos de rara emoção e felicidade, na tarde da ultima sexta-feira, na Fazenda Buritis, localizada em São Félix do Araguaia - MT.



Em um clima de reencontro, entre a família e amigos, o ambiente tornou-se um clima onde o amor há Dona Lozinha, imperava e a alegria pelo belo momento. Quando sua Filha Nilva de Almeida convidou Dona Lozinha para declarar seu amor eterno, foi um dos momentos de muita emoção em seguida foi homenageada pela sua amiga e comadre Graça Parente que leu um pouco de sua trajetória e luta em São Félix.

O aniversario de 80 anos é, sem dúvida, um marco na vida de uma pessoa, afinal, depois de viverem tanto assim, quantas experiências e sabedorias essa pessoa já carrega consigo, histórias vividas, acontecimentos passados, de fato viver tanto assim é um privilégio para poucos. Por isso mesmo, quando esta data chega é de primordial importância que comemoremos muito junto com a família e amigos, mostrando que a experiência adquirida com os anos só nos faz querê-la bem mais e mais. Ficou claro na mente de todos, que a família demonstrou isso. Dona Lozinha é exemplo de superação. O tempo a fez entender a  bela canção...´´ o mundo pode até fazer você chorar, mais Deus te quer sorrindo`` Deus não nos abandona nunca.



A festa foi linda, a equipe de O Repórter do Araguaia também esteve lá para dar um abraço a essa mulher que muito faz pela cidade de São Félix do Araguaia. Dona Lozinha o seu carisma, simpatia e energia positiva nos motiva cada vez mais a produzir matérias como essa, feita com muito carinho para todos os nossos internautas. Desejamos saúde, paz, harmonia e muitas felicidades, esses são os votos de toda Família de O Repórter do Araguaia.

E Dona Lozinha, disse que estava muito feliz por aquele momento em que estava vivendo, pois naquele momento estavam todos juntos comemorando o aniversário dela. Ela agradeceu a presença de todos.

Muita paz e harmonia para toda família!


Todas as fotos dos 80 anos de Dona Lozinha, realizado no dia 31 de julho de 2015 estão disponíveis no Facebook:  o.reporter.do.araguaia@facebook.com de “O Repórter do Araguaia”.
    
Fonte: O Repórter do Araguaia

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A RETÓRICA DA DONA DILMA


A  RETÓRICA  DA  DONA DILMA

José Ribamar Garcia
Advogado e escritor
                             
                                       Parece que a sra. Dilma  Rousseff tem uma imensa dificuldade de coordenar seu pensamento e desenvolvê-lo num encadeamento lógico. Daí o exercício mental  doloroso, penoso, para concluir uma frase ou uma mera oração. Algo de lhe queimar neurônios. O pior  é que nunca consegue finalizar de forma inteligível. Será que ela tem consciência disso?  Certamente. Mas, a falta do senso de ridículo anda sempre ao lado da prepotência e da arrogância. Vejamos a ilogicidade  de suas falas.  Citamos as últimas, as do segundo mandato – que mal começou e não se sabe como vai terminar.  

  “... Nenhuma civilização nasceu sem ter acesso a uma  básica de alimentação. E aqui nós temos uma, como também os índios e os indígenas americanos têm a deles. (...) Então, aqui, hoje, eu estou saudando a mandioca. Acho uma das maiores conquistas do Brasil”

 “Eu não quero falar de fraternidade, eu quero dizer que nós nos transformaremos em irmãos.”

 “Quando nós criamos uma bola dessas (feita de folha de bananeira na Nova Zelândia), nós nos transformamos em homo sapiens  ou mulheres sapiens.”
                       
                                         ( Discurso proferido no ato do lançamento dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas)

                                         “ Não vamos colocar meta. Vamos deixar a meta aberta mas, quando atingirmos  a meta, vamos dobrar a meta.”

                                      ( Dito diante de uma platéia de empresários, em 28/7/15).
                     
                                     “Se hoje é o dia das crianças, ontem eu disse que criança... o dia  da criança é dia da mãe, do pai e do professor, mas também  é o dia dos animais, sempre que você olha uma criança há sempre uma figura oculta, que é um cachorro atrás, o que é  algo muito importante.”
                                    (transcrito do site www.youtube.com)

                                     “ O juiz Tofolli  informou para todo mundo que esta audiência dele estava pedida há muito mais tempo e por que?  Porque hoje era o dia que ele podia,   eu quase não podia, porque eu vinha pra cá.”
                                     (www.youtube.com)

                                      “Todos nós aqui sabemos que cada um de nós escolhe – a vida faz a gente escolher – alguma das datas em que a gente nunca vai esquecer desta data.”
   (www.youtube.com)

  
                                      A eloqüência de dona Dilma é de causar inveja ao samba do “Crioulo Doido”, do saudoso cronista Stanislaw Ponte Preta.
   
                                       Seus assessores deveriam proibi-la de falar de improviso, assim como fizeram com o seu mentor e cúmplice Luiz Inácio Lula da Silva, também conhecido por “Barba” ( o delator,  segundo Romeu Tuma Júnior, no livro “Assassinato de Reputações” ), e por “Brahma” ( na intimidade de Leo Pinheiro, ex-presidente da empreiteira OAS). 
                                       
                                       Pois pouparia os brasileiros de ouvirem tamanhas sandices e, sobretudo, os jovens para não desaprenderem a construir uma frase com coerência e lógica.     

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

E O CHEYENNE VIROU TREMEMBÉ



4 de agosto   Diário Incontínuo

E O CHEYENNE VIROU TREMEMBÉ

Elmar Carvalho

Sempre tenho reconhecido, com humildade e gratidão, que as coisas que realmente desejei Deus me concedeu, não na velocidade e na intensidade que imaginei, mas no tempo Dele, que é o tempo certo. Talvez porque não tenha desejado demais, talvez porque não tenha sonhado alto demais. Hoje agradeço ao Senhor até pelas circunstâncias e fatos que achei me terem ferido, mas que hoje aceito como me tendo sido benéficos, porque me serviram de lição, de aperfeiçoamento e de advertência.



Nunca tive inveja, mas decerto admirei muitas coisas, e admirei e aplaudi as virtudes e os dons artísticos de várias pessoas. No final de minha infância e em minha adolescência contemplei, enlevado, os barcos que vi navegarem o pequenino e lindo Açude Grande de Campo Maior, e os que vi singrarem as águas plúmbeas do Igaraçu e da então magnífica Lagoa do Portinho, que louvei nos versos em que lhe enalteci a beleza. Nunca os pude comprar; em certa época porque não tinha o dinheiro, em outra fase porque não tinha tempo e nem o entusiasmo de minha juventude.

Quando fui a Brasília, no começo deste século, para lançar o meu livro Rosa dos Ventos Gerais, fiquei hospedado na casa de meu velho amigo Jonas Filho Fontenele de Carvalho, competente professor de Direito Penal e bem sucedido advogado. No domingo, após o lançamento do livro, o Jonas me proporcionou excelente passeio a bordo de sua lancha voadora. Em determinado ponto do Paranoá, ele a desligou e saltamos para a água, como dois legítimos remanescentes do legendário e jurássico Tarzan, hoje quase ultrapassado em face dos homens-só-músculos.



Década e meia depois, em minha ascendente escalada de marinheiro de água doce, os capitães de mar-e-terra Roberto Carlos e Valério Mendes me conduziram rio Parnaíba arriba, na expressão dacostiana, até além de Taprobana, para invocar outro grande poeta, desta feita o caolho Camões. Ou seja, ultrapassamos a área urbana, e ancoramos em paradisíaca ilha de areia fina, fria e macia. Noutra vez preferimos a refrescante sombra de sobranceira e frondosa árvore ribeirinha.

Não sei qual desses dois bons amigos era o verdadeiro capitão, e qual era o imediato. Nas três ou quatro expedições, nos acompanhavam o Zé Francisco Marques e o meu irmão Antônio José. No mais recente passeio integrou a excursão náutica o poeta William Melo Soares, amigo de várias décadas, que bem poderia ser o escrivão da venturosa aventura. Caso não seja o nosso Pero Vaz de Caminha, certamente será o Homero de nossa odisseia fluvial, cheia de peripécias anedóticas, e jamais trágicas.



Depois dessa vasta experiência náutica, e após ter construído pequeno sítio na gleba herdada por minha mulher, à beira do Velho Monge, na localidade Várzea do Simão, resolvi começar minha carreira de capitão de forma bem incipiente, ou seja, começando pelo ABC, por assim dizer. Comprei um barco inflável, de nome Cheyenne, que de forma coerente rebatizei, dando-lhe o nome também indígena de Tremembé, que era a tribo que perlongava o baixo Parnaíba e a sua encantadora foz, o famoso e deslumbrante Delta do Parnaíba.

Com muito esforço, com os bofes quase saindo pela boca, utilizando o seu inflador manual, o enchemos. Revezamo-nos nessa inglória tarefa o Maninho, sobrinho de minha mulher, o Reginaldo, o Zé Francisco Marques e este capitão e escrivão do Tremembé. Colocamos o barco na picape e o levamos até a ponte do Jandira, onde, após algumas peripécias e estripulias acrobáticas, o lançamos n’água. Descemos o rio até a Toca do Velho Monge, espaço etílico-lírico-cultural, situado no sítio Filomena.



Constatamos mais uma vez o estado lamentável em que se encontra o rio, que se apresenta muito largo e raso, com muitas ilhas ou coroas de areia. Numa delas existia uma roça, em que se viam vários espantalhos, para afastar as capivaras e as aves, que comem os grãos do roçado. Essas ilhas são de uma beleza triste, melancólica, porque expõem os sintomas da degradação do grande rio dos Tapuias.

Mesmo assim ainda nos deslumbramos com a beleza das árvores, com os volteios e caracóis dos cipós, com a louçania colorida de alguns pássaros, com o canto mavioso de muitas aves, com o assobio aflautado de acrobáticos macacos. Ao ouvir o encantatório canto de um miúdo passarinho, sem beleza na plumagem, perguntei qual era o seu nome, e qual a razão de ele não ter valor comercial e nem ser vítima das arapucas e alçapões dos passarinheiros.

Foi-me dito que era uma garrincha ou sibita, que não canta em cativeiro. Portanto, jamais teria o destino trágico de um assum preto, o nosso conhecido chico preto, cujos olhos são covardemente vazados para ele melhor e mais fortemente cantar. Desejei que todos os pássaros, feitos para voar e cantar na amplidão dos grandes espaços abertos, não cantassem na prisão. Assim, viveriam livres e felizes.     


terça-feira, 4 de agosto de 2015

Exército ou as construtoras?



Exército ou as construtoras?

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com


            Primeiramente, cuspa qualquer ranço amargo aos militares, exaurido das esquerdas, que tentaram implantar no país o comunismo, teleguiado por Moscou, via Cuba. Ou por delírios de Venezuela, Bolívia, Nicarágua, Argentina, mais recentemente. A interferência do Exército Brasileiro no governo do Brasil visava não permitir o comunismo de ditadores sanguinários, sob a batuta da corrupção desenfreada, assalto à propriedade privada. As desastrosas consequências que ocorreram em países socialistas, como Rússia e China (antes), Cuba, Coreia do Norte e leste europeu servem de advertência.

         Apesar de algumas mazelas atribuídas à ditadura militar, especialmente na limitação das manifestações públicas e liberdade de imprensa, tem-se que erguer o braço, bater continência à gigantesca operação das forças armadas para resgatar o Brasil do atraso, que servia até de deboche dos argentinos, mais prósperos e europeizados, antes do peronismo populista.

         O país, no começo dos anos 60, não dispunha de estradas asfaltadas, do Rio Grande do Sul ao Oiapoque. Em Teresina, privilégio só no aeroporto, e mixuruca. Viajar por estradas nordestinas, aventura arriscada, poeira de lascar, ônibus sem ar refrigerado, uma eternidade. Comunicação eletrônica, somente por telegrafia. Cartas demoravam meses para chegar ao destinatário. Boa mesmo, excelente, antes da ditadura, a educação pública, de invejar a rede privada, de produzir celebridades.

O governo militar implantou sistema de comunicação, através de milhares de torres da Embratel, espalhadas pelo Brasil, depois via satélite, interligando-se ao resto do mundo. Claro que o gigantismo do projeto de modernização nacional custou caro e oneroso às futuras gerações. Todavia a corrupção custava bem mais aos aventureiros denunciados.

Vinte anos de regime militar! Nenhum presidente nem  ministros saíram encastelados em fortunas da corrupção. A tropa das forças armadas ainda continua, em geral, em condições franciscanas, nas residências oficiais, nos carros de passeio. Louvável, impressionante o sentimento patriótico e ético que comanda a formação militar. A AMAN e ITA servem de paradigma e continuam seduzindo a juventude estudiosa.

         O Batalhão de Engenharia de Construção (BEC), organização militar criada em 1955, construiu, na ditadura militar, as melhores e mais duráveis estradas asfaltadas do país, para vergonha das atuais tapiocas da corrupção. A engenharia militar data do início da colonização. Atua em obras conveniadas com órgãos públicos, na construção de pontes,  poços artesianos e tubulares, açudes, portos, viadutos. Infelizmente, construtoras, com a complicidade de governos corruptos, usurpam a honrosa atribuição do Exército. Os batalhões de engenharia andam à míngua ameças de fechamento, como o comando de Picos.

         Duro de se entender: vale a pena regime democrático, gerenciado pela liberdade de se roubar, para, depois, cidadãos pagarem a conta? Chegou a hora de se entregarem, pelo menos, as obras de engenharia aos militares. É hora de se trocar o ranço amargo por sabor licoroso da decência.   

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

AMARANTE - 144 ANOS DE EMANCIPAÇÃO POLÍTICA

Autor da pintura: Di Kuka (Abinabel Kunha)

AMARANTE - 144 ANOS DE EMANCIPAÇÃO POLÍTICA

Luís Alberto Soares (Bebeto)

Origem e evolução

        AMARANTE tem sua origem numa aldeia mento indígena. Gonçalo Lourenço Botelho de Castro, 2º Governador da Província do Piauí, em 1771, aldeou os índios Acaroás e Guegueses perto da nascente do riacho Mulato, no mesmo lugar onde hoje é a cidade de Regeneração, dando a essa missão o nome de São Gonçalo de Amarante, em homenagem ao santo de seu nome. A história de Amarante está ligada ao então propósito do Governador da Província, utilizando mercenários em busca de ouro e consequentemente acumulando riquezas, aldeavam e na maioria das vezes trucidavam índios que viviam às margens do Rio Mulato na antiga Vila de São Gonçalo (hoje Regeneração). Devido à navegação do Rio Parnaíba e o consequente avanço comercial que já se fazia notório, em 16 de julho de 1861, em conformidade com a lei nº. 506 de 10 de agosto de 1860, a sede foi transferida para o Porto de São Gonçalo de Amarante, ficando a atual Regeneração reduzida a uma simples povoação denominada de São Gonçalo Velho.
AMARANTE fica na Zona Fisiográfica do Médio Parnaíba, Microrregião 4 e ocupa uma área de 1.150 Km2, limitando-se ao NORTE com Palmeirais – ao LESTE, Angical do Piauí e Regeneração – ao SUL, Francisco Ayres e Floriano e a OESTE com São Francisco do Maranhão. O município de Amarante foi formado com território desmembrado de Jerumenha e de Valença. Desmembrou terras para a formação de outros municípios, como: Angical do Piauí, Francisco Ayres e Arraial. Atualmente o município de Amarante é constituído por sete Datas: Boa Esperança, Muquilas, Araras, Sítio do Meio, Saco dos Melo e Conceição. A cidade de Amarante está encravada na Data de Boa Esperança.  Assentamentos do INCRA: Flor de Maio, Santa Helena, Araras, Ararinha, Mimbó, Salobro, Nova Conceição e Ponta da Várzea. Do Crédito Fundiário: Vila Feliz, Chapada dos Marcos, Chapada do Filomeno e Chapada do Bacuri. População do município: 17.316 (CENSO/2010). Amarante ocupa a trigésima primeira posição dos municípios mais populosos do Piauí.
Na segunda metade da década de trinta, do século XX, os hidroaviões da Companhia “Condor” faziam escala semanal em Amarante. Pousavam no rio, frente à cidade, e atracavam ou paravam em local apropriado. Transportavam passageiros, encomendas e    malas    do  Correio.  Traziam muita vida  à   cidade   e   promoviam   o   intercâmbio   sócio-cultural.   Era um dia  movimentado.  A presença do hidroavião atraia e motivava o comparecimento de muitas pessoas, levadas pela curiosidade.
O PRIMEIRO RÁDIO a ser instalado na cidade de Amarante foi o do movimentado Bar do Antônio Costa. Para muitos, era coisa de outro mundo. Vinha gente de todos os lugares de Amarante somente para escutar a grande invenção sonora. O bar ficava superlotado de curiosos, que o diga a senhora Clotildes Ribeiro da Silva, popular Coló, 103 anos de idade, mãe de José Pereira, o conhecido Zé Besouro. Ela presenciou a novidade e diz para a nova geração que teve muita gente que quando escutou o rádio, fazia o sinal da cruz, dizendo que aquilo era uma “pintura do cão”.

  RUAS E VÁRIAS CASAS DE AMARANTE recebiam iluminação através de lampiões a querosene ou a “petromax” (estilo Aladim). Em 07 de setembro de 1933, a empresa Morais & Cia, de Parnaíba, instalou em nossa cidade, a energia elétrica movida por máquina a vapor (caldeira à lenha e água), das 06 às 11 horas da noite. Anos depois, a Prefeitura de Amarante foi responsável pelo fornecimento da energia elétrica gerada pelo mesmo processo da Morais & Cia. Em seguida, o fornecimento de energia foi gerado por máquinas a óleo por conta da CERNE, instalada no prédio hoje pertencente ao Iate Clube Amarantino, também das 06 às 11 horas da noite. Havia prorrogação de energia nos acontecimentos especiais. Por último, a CEPISA – respondendo pelo atual abastecimento em todo Estado do Piauí.
 AMARANTE é uma fonte de riqueza natural. A cidade é de porte médio, mas a sua posição geográfica, entre três rios, circundada nos versos de nosso poeta maior, “Da Costa e Silva”, que a cognominou de “uma ilha alegre e linda”. A coroa do Rio Parnaíba, especialmente aos domingos do mês de julho, há grande aglomeração de banhistas, observadores e comerciantes de vários municípios do Brasil. Tem também o morro de São Benedito, defronte à Rua Antonino Freire, onde há o velho “ESCORREGA  BUNDA”, que muitas gerações de amarantinos ilustres, na sua infância, ali se entretinham brincando. Tem ainda as principais atrações turísticas: o panorama do alto da Escadaria “Da Costa e Silva”, casarões em estilo colonial, o Sítio Floresta, a Casa Odilon Nunes que abriga a Biblioteca e o Museu da Cidade, O Museu do Divino Espírito Santo, a Pousada Velho Monge - onde se descortina a bela paisagem das serras de São Francisco do Maranhão.
           O HINO E A BANDEIRA MUNICIPAL DE AMARANTE são de autoria do heraldista e vexilologista, professor Arcinoe Peixoto de Faria, da Enciclopédia Heráldica Municipalista com sede em São Paulo – Capital.  Oficializados pela Lei Municipal nº 411, de 28 de março de 1977.  Administração: Emília da Paixão Costa (Bizinha). O Hino Municipal de Amarante com letra de Monsenhor Isaac José Vilarinho e música do maestro Luís Santos. Oficializado pela Lei Municipal nº 411, 28 de março de 1977.
               HISTORIADORES contam nos seus arquivos que na época da transferência da Vila de São Gonçalo para o Porto (cidade de Amarante), surgiu a 1ª professora de nosso município. Logo mais, foram criadas duas escolas públicas estaduais: uma para meninos, dirigida por um professor e outra para meninas, dirigida por uma professora - denominadas: Escola Pública do Sexo Masculino e Escola Pública do Sexo Feminino.
            VIA PÚBLICA - A primeira rua da cidade de Amarante chamava-se Rua Grande, devido sua ampla largura, partindo no Morro do Pontal à margem do rio Parnaíba. Foi o caminho da Vila de São Gonçalo para o Porto. Hoje, nomeada Avenida Desembargador Amaral em homenagem ao primeiro juiz de Direito de Amarante, Desembargador José Mariano Lustosa de Amaral. Havia uma arborização muito frondosa de “mamoranas”, árvores de origem portuguesa. Nas laterais, iluminação por lampiões a querosene. As árvores são as que o nosso poeta maior, “Da Costa e Silva” se refere no soneto Saudade. Em 1932, um projeto do amarantino, engenheiro, Dr. Manoel Sobral (alto comerciante), a Avenida foi transformada com figueiras e fícus benjamim. Em seguida iluminada por petromax. Em 07/09/1933, a Avenida recebia luz elétrica da usina Morais & Cia., trazida por Zeca Correia, que implantou outros benefícios no município.



   A NAVEGAÇÃO FLUVIAL A VAPOR teve início com a chegada do vapor Uruçuí ao porto da então Vila de São Gonçalo, ocorrida a 10 de junho de 1862. Foi o avanço para o progresso, o comércio desenvolveu-se rapidamente. Em 04 de agosto de 1871, a Vila passou à cidade, com o nome de AMARANTE e seu porto fluvial logo se tornou de importância semelhante ao de Parnaíba, tornando Amarante o empório comercial da região sul do Piauí e Maranhão, estendendo sua influência a Goiás. Tudo ia bem, era o progresso, Amarante chegou a manter transações comerciais internacionais. Esteve em franco progresso até o surgimento de Floriano que lhe arrebatou essa força comercial. A partir daí, começou a decadência de Amarante. Carneiro da Câmara, Dr. Archimedes Nogueira Paranaguá, Dr. Rogério de Castro Matos, Dr. Thomaz Gomes Campelo, Dr. Geraldo Majella de Carvalho, Dr. Alair Rocha, Dr. Luís Fortes do Rego, Dr. José Arimathéa Tito Neto, Dr. Raimundo Fortes de Oliveira, Dr. Francisco Isaias de Arêa Almeida, Dr. Henrique Oliveira do Vale, Dr. Herbet Belisário dos Santos, Dr. José Raimundo Belo, Dr. Antenor Barbosa de Almeida Filho, Dr. Fernando Lopes da Silva Filho e Dr. Netanias Batista de Moura, desde outubro de 1997.
   OS PRIMEIROS PROFESSORES DE AMARANTE: Efigênia Maria de Azevedo, Odilon Nunes, Cunha e Silva, Luiz Moura da Cunha, Amora Cunha e Silva, Ditosa Fonseca, Raquel Costa (Quesinha), Júlia do Monte Lustosa, Júlia Leitão, Zilda Sampaio, Nair Conde, Carolina Freire, Nailde Ribeiro, Joca Vieira, Arysnede Cavalcante Corrêa Lima.
OS PRIMEIROS JUÍZES DA COMARCA DE AMARANTE: (1861 a 1900): Dr. Higino Cunha, Dr. José Mariano Lustosa de Amaral, Dr. Gastão Ferreira de Gouveia Pimentel Beleza, Dr. José Piauhilino Mendes Magalhães, Dr. Umbelino Moreira de Oliveira Lima, Dr. Sesostris Silvio Mendes de Moraes Sarnamento, Dr. Pedro Emigdio da Silva Rios, Dr. Antonio Martins da Silva Porto, Dr. Jesuino José de Freitas, Dr.Joaquim Ribeiro Gonçalves, João Leopoldino Ferreira, Dr. César do Rego Monteiro, Dr. Ernesto José Batista, Dr. Eduardo Olímpio Ferreira. Os quinze últimos: Dr. Ausônio Carneiro da Câmara, Dr. Archimedes Nogueira Paranaguá, Dr. Rogério de Castro Matos, Dr. Thomaz Gomes Campelo, Dr. Geraldo Magella de Carvalho, Dr. Alair Rocha, Dr. Luís Fortes do Rego, Dr. José Arimathéa Tito Neto, Dr. Raimundo Fortes de Oliveira, Dr. Francisco Isaias de Arêa Almeida, Dr. Henrique Oliveira do Vale, Dr. Herbet Belisário dos Santos, Dr. José Raimundo Belo, Dr. Atenor Barbosa de Almeida Filho, Dr. Fernando Lopes da Silva Filho e Dr. Netanias Batista de Moura, desde outubro de 1997.
   OS PRIMEIROS MÉDICOS QUE CLINICARAM EM AMARANTE: Manoel Joaquim Rodrigues Macedo (22-02/1862); Júlio César Audreíno - amarantino nato (1883); Bonifácio Ferreira de Carvalho - amarantino nato (1890); Manoel Rodrigues de Carvalho (1891); Antonio Sobral - amarantino nato; Antonio Ribeiro Gonçalves – amarantino nato; Francisco Ayres Cavalcante - amarantino nato (1915); Evanilda Neiva Pacheco (1959); Misael Dourado Guerra (1964).

  
            VELHA ECONOMIA - Há várias décadas, a economia do município de Amarante era voltada à cana de açúcar plantada com abundância nas margens do riacho Mulato.  A historiadora Maria Santana Vilarinho Santos, recentemente fez um documentário sobre a importância desse precioso produto agrícola. Havia vários engenhos. Dois deles, movidos a vapor e caldeiras alimentadas pelo bagaço da cana moída. Os outros engenhos eram movimentados por bois. Fabricava-se açúcar, rapadura e cachaça. Esses produtos eram exportados para diversos municípios através de animais e balsas que trafegavam no rio Parnaíba. A velha economia de Amarante estendia-se ainda na geração de muita mão-de-obra. A historiadora amarantina menciona no seu belo documentário o Engenho do Sítio Santa Rosa de propriedade de seu saudoso pai, Pedro Gonçalves Vilarinho. Ela relata que era servido um café com paçoca e que os trabalhadores eram divididos em grupos: cortadores de cana e cambiteiros que levavam a cana cortada nas costas de animais. Havia ainda aqueles que exerciam atividades diversas. A lenha era transportada para aquecer as caldeiras por carros de madeira puxados por bois.
  VELHOS CABARÉS. - A cidade de Amarante viveu por várias décadas num movimentado clima de prostíbulo, reverenciado em nosso meio como Cabaré e Tabocal. Os ambientes para a prática sexual ocorriam especialmente à noite com maior movimentação nos finais de semana. As prostitutas, populares raparigas, eram de várias localidades e os frequentadores de todas as classes sociais. Existiram três agitados setores de cabarés na cidade: “Cai N’agua”, à margem do rio Parnaíba, próxima do Hotel Pousada. Teve vários proprietários. Entre eles, os populares João Garapeira (falecido) e Raimundinho da Dorica. Lá era promovido o Baile Cor de Rosa e o Forró Pé de Serra. Na conhecida Rua do Fogo tinha várias casas do ramo: Os cabarés das populares Marizô, Carmozina (falecida), Chica Preá (falecida) e Irene Casadinho (falecida) e tantas outras. Havia também muito forró e muitos bares com músicas bregas e apaixonadas, tocadas em radiolas ou em vozes de bêbados, acompanhados por um violão. Próximo à Rua do Fogo, na beira de um grotão, teve o movimentado cabaré “Casa Amarela” de propriedade do popular Estevão Galinha D´gua (falecido), onde também havia muito forró e o Baile Amarelo. Tinha ainda o ponto: “As Meninas dos Olhos” do engraçado Quixaba, localizado no “Sovaco do Cão” à margem do rio Parnaíba. “Inferno Verde” foi o apelido dado pelo popular Reis Felix, considerado uns dos maiores frequentadores de cabarés de Amarante, a um animado setor da prostituição, localizado na Rua São Benedito, perto do Clube Os Quarentões. Teve vários donos de cabarés, neste setor, como: Cecílio Dias (falecido), as populares: Chicuta, Ducarmo Tataira, Rita Macambira, Biluca e Helena Preta. Tinha ainda Nazaré Cambão, a “Rainha da Panelada”. Havia ainda nos prostíbulos de Amarante outros nomes de bailes, o Branco e o Azul. Vale esclarecer que as prostitutas eram muito discriminadas: não podiam estudar em colégios, frequentar igrejas e nem de participar de muitos atos da sociedade. Em várias ocasiões, muitas mulheres casadas foram atrás de seus maridos nos cabarés. Existem ainda em nossa cidade, três prostíbulos: “Paraíso do Amor” do popular Doutor do Cícero Casadinho (bairro Dois Coqueiros), BR 343; Casa de Encontros da popular Ducarminha, Rua Da Costa e Silva, perto do rio Parnaíba (Cai N´agua) e o da Chiquinha Sousa, Rua do Fogo.

  REVOLUÇÃO - Os inesquecíveis amarantinos contam que Amarante viveu momentos de terror com a passagem da Coluna Prestes na cidade, no período de 20 a 27 de dezembro de 1925. Foram várias colunas das forças revolucionárias que deixaram o povo do município assustado. A 1ª Coluna, a do Capitão João Alberto, chegando à meia noite em nossa cidade. Logo após, os revoltosos arrombaram as portas do Telégrafo, onde se instalaram. Horas depois, chegaram os grupos chefiados pelo Coronel Dutra e Capitão Euclides. Em seguida, outras caravanas comandadas pelo Cel. Juarez Távora e Sr. Bernardino.  No mesmo dia, chegaram também à nossa cidade as colunas do Cel. Carlos Prestes e a do Sr. Siqueira Campos. As forças revolucionárias arrombaram portas de comércios e saquearam grande estoque de mercadoria. Os estabelecimentos comerciais de Abdon Moura e Joaquim de Castro Ribeiro (Quincas Castro), avô materno da ilustre amarantina Maria Cirene de Castro Sousa, de grande movimentação e sortimento, foram os mais afetados com os roubos dos revoltosos. Eles ainda forçaram comerciantes em geral, pagarem uma conta altíssima de guerra. Dizem que os revoltosos derramaram perfumes em toda a cidade. Houve, também, invasão residencial, de onde os revoltosos levavam tudo que encontravam e  determinaram o fuzilamento dos expressivos Senhores de Amarante: Abdon Armindo de Moura, Cel. Luiz Gonçalves Ribeiro, Major Sátiro de Castro Moreira, Capitão Francisco José de Lima, Miguel Arcoverde Vieira, Amâncio José Pereira Lopes, Raimundo Gonçalves Vilarinho,  Acilino Neiva, Eugênio Barbosa, Gerson Ernestino de Sousa, João Ribeiro de Carvalho (João Pinga), José Maria Gonçalves, Gonçalo S. Antônio Costa. Felizmente ficou só na ameaça. O saudoso Francisco Felix da Silva testemunhou toda ousadia dos revoltosos com o povo amarantino, a exemplo do inesquecível Odilo de Sousa Queiroz, pai do professor e jornalista Virgílio Queiroz, que sabia das ações das forças revolucionárias em vários lugares do Brasil. A secular Clotildes Ribeiro da Silva, a popular Coló, residente em Amarante, conta com detalhes as atrocidades dos revoltosos em nossa cidade.
  CONEXÃO - A cidade de Regeneração a 18 km do centro de Amarante, historicamente conectada à nossa cidade desde o início de sua povoação. Vale ressaltar que a conceituada Regeneração quando era pequeno povoado, recebeu outros nomes: São Gonçalo de Amarante, São Gonçalo Velho, e São Gonçalo de Regeneração. Ela também foi muito chamada de Vila. Ainda hoje, existem pessoas que pronunciam esse apelido. Para suprir sua necessidade comercial através de transporte fluvial no rio Parnaíba, a nossa vizinha Regeneração, fez estabelecer o “Porto”, origem do município de Amarante. Regeneração passou por um bom tempo, vinculada em nossa municipalidade. Continua a influência mútua comercial, educacional, cultural, social e política desses municípios.


               MINÉRIO EM AMARANTE - Segundo o geólogo amarantino João Castor do Nascimento Silveira, há grande possibilidade da existência de minério na Serra da Arara, município de Amarante, devido à formação sedimentar da área, principalmente por arenito. A Petrobrás esteve no local onde perfurou há longos anos, um poço pioneiro. O resultado constituiu uma ligeira emanação de gás. Esclareceu ainda o geólogo João Castor que no lugar Canto, neste município, limitando-se com Francisco Ayres, há uma boa quantidade de GIPSITA (sulfato de cálcio), matéria prima para obtenção de gesso. Análise já foi feita em laboratório de São Paulo por intermédio do geólogo João Castor da Silveira.
             AMARANTE às vezes é chamada por este Brasil afora como “Terra do Papagaio”. Por quê? A historiadora Maria Santana Vilarinho Santos, um dos membros de nossa cultura, tem uma versão do motivo desse chamamento. “Há muito tempo... Numa grande enchente dos rios Parnaíba e Canindé, desciam enormes blocos de terra, contendo árvores, animais e outros. Num desses blocos vinha um papagaio. Ao chegar na cidade de Amarante, a ave perguntou - onde estou? Responderam – em Amarante.  Ele deu uma risada e disse: prefiro a morte. Aqui, é terra de poetas, escritores, governadores, não há lugar para papagaio... Ah! Ah! Ah!”.
              AMARANTE, berço de grandes nomes: Dirceu Mendes Arcoverde, Antonino Freire, Waldir Arcoverde, Eduardo Neiva, “Da Costa e Silva”; Luís Mendes Ribeiro Gonçalves, Osvaldo Da Costa e Silva, Dr. Antonio Ribeiro Gonçalves, Taumaturgo Sotero Vaz (poeta), Odilon Nunes, Cunha e Silva, Clóvis Moura, Carvalho Neto, professor Antonio Veríssimo de Castro (Tonhá), historiadora Raimunda Nonata de Castro (Nasi), Coronel Joaquim Vilarinho, Coronel Miguel de Almeida Lira, Geraldo de Sousa Vilarinho (oficial superior do Exército), Dr. Francisco da Cunha e Silva Filho, Dr. Francisco Ayres Cavalcante, professor Afrânio Nunes, Homero Castelo Branco, Dr. Antonio Pereira Lopes, Dra. Eulália Maria Ribeiro Gonçalves do Nascimento Pinheiro, Coronel Clidenor Lima, Coronel Walker Prado, Coronel Manoel Mendes de Melo, Cel. Solange Maria Macedo Lima, Major Antonio Soares Ribeiro, Capitão Deodato Lopes da Silva, Dr. Eleazar Moura, José Moura Lima,  Dr. Adoniais Carvalho, Dr. José Moacy Leal, João Elias Teixeira e Silva, Rafael Sousa Fonseca, Dra. Maria Celestina Mendes da Silva, José Dias Feitosa (Capitão Zeca) e outros famosos. Amarante, por vários motivos, é apelidada: a Capital da cultura piauiense.
            TÍTULO A AMARANTE. O sistema Meio Norte de Comunicação, por meio do Portal Meionorte. com, via rede social, abriu concurso em 2012, através de votos, para eleger os novos sete locais mais belos de nosso Estado. A riqueza arquitetônica de Amarante e sua tradição histórica, o fator principal para que nossa cidade recebesse o título de Sétima Maravilha do Piauí.

Textos extraídos do livro AMARANTE, PERSONALIDADES E FATOS MARCANTES   

domingo, 2 de agosto de 2015

Seleta Piauiense - Licurgo José Henrique de Paiva


Pomba dos amores

Licurgo José Henrique de Paiva (1842 - 1887) 

Por que te foste, pomba dos amores?
Por que nos ermos me deixaste só?
Tiveste medo de que eu te perdesse,
Ou que de um tiro te arrojasse ao pó?

Pobre pombinha! que no amor não cresces
Do caçador perdido no teu lar!…
Que não quisesses dar-lhe essa ventura
De na solidão escutar!…

E foste noutro bosque tão diverso,
Noutras plagas gemer e suspirar;
Talvez que nem te lembres mais da moita,
Onde à sombra, de tarde, ias cantar.

Depois daquele dia, assaz saudoso,
Em que batendo as asas foste lá,
Por Deus! mulher, que luto com a tristeza,
E cismo que minh’alma é morta já.

Nem sei mais quando é dia ou noite mesmo;
Pois tudo se confunde em meu pesar;
Só sinto a dor pungente da saudade,
Como um verme, em meus seios se arrastar.

Por que te foste, pomba dos amores,
Quando eu mais quis ouvir-te gorjear?
Por que te foste, em ermo abandonaste
O caçador perdido no teu lar?   

sábado, 1 de agosto de 2015

OPERAÇÃO CATA PIOLHO


OPERAÇÃO CATA PIOLHO

Jacob Fortes

Notório para os que viajam de automóvel por esse Brasil afora é o fato de que as rodovias federais, invariavelmente, passam ao largo das urbes populosas, mas tratando-se dos vilarejos e demais aglomerações rarefeitas do interior cortam-nas ao meio. É justamente nessas povoações ralas que se percebe, desde que desapressadamente, o estranho, particular e simiesco hábito que vige nessas comunidades vilarinhas e interioranas. Trata-se da tarefa (a batizei de “operação cata piolho”) de expurgar das densas cabeleiras femininas, raramente das masculinas, os infestos ectoparasitas: piolhos, lêndeas e animálculos em geral. Executada com raro zelo e prazer, a tarefa, que mais parece uma diversão, inicia-se no principiar das tardes dominicais.  Para tomar conhecimento da inusitada prática não precisa ao transeunte ter olhos de tetéu, nem ser observador arguto, pois o procedimento, ritualístico, ocorre à evidência, em alto relevo (na calçada, no terreiro, nos desvãos das portas), enfim em todos os locais onde habitam os que ainda não suspenderam a greve de assepsia. Tão logo a hospedeira, mais das vezes de cabeleira em tempestade, senta-se ao chão e espalda-se na entreperna da catadora, esta sentada à calçada ou num tamborete, dá-se início ao paciente trabalho de garimpagem. Enquanto a catadora, prazerosamente, vai arrepelando aquela cabeleira (poenta por falta de asseio) para subtrair e despejar as manadas invasoras, aninhadas no interior do latifúndio capilar, a hospedeira, por esquecidas horas, vai gozando, queda, as delícias de uns cochilos. Haja habilidade e dedos para filar tanto inseto! Melhor para as galinhas que espreitam, impacientadas, a colheita das larvas e pupas capturadas no interior do enorme cipoal. Afinal, neste mundo nada se perde, exceto vontade de pobre e guimba de cigarro. Mas a cabeça da catadora há de estar protegida por uma toca, ou pano, pois os fugitivos, em demanda de novos esconderijos, se abismam feitos pulgas e vão-se homiziar na maçaroca mais próxima. As cabeleiras densas e ingentes somente podem ser garimpadas por eito ou por talhão, hipótese em que a catadora carece de certos instrumentos de trabalho: pente de ferro tipo rastelo e piranha reforçada para piquetear o terreno. Sobre cada talhão arrepelado a catadora aplica um líquido oleoso e malcheiroso, símile ao azeite de mamona. A desconfortante cena, porém, mais inestética que estética (protagonizada pelas camadas mais puídas da sociedade), apenas vivifica legado reinol: a esquadra que trouxe a família real para o Brasil veio abarrotada não apenas de pessoas, mas principalmente de piolhos: “Afligida por tempestades e infestações de piolhos, a corte atravessa o oceano. Para combater a praga, as mulheres nobres tiveram de raspar os cabelos e untar as cabeças carecas com banha de porco e pó antisséptico à base de enxofre”.

A natureza dos fios capilares constitui curiosidade acessória: uns rijos e grossos semelhantes à cerda do caititu; uns negros da cor do azeviche; uns fulvos remetendo ao sarará; uns riçados, outros desenriçados e assim por diante.

Na falta de um parasitologista ou de um Ministério da Saúde para acudir na tarefa de despejar esses inquilinos parasitários — que dia e noite castigam os hospedeiros comichando-lhes a cabeça, — melhor fariam os donos desses latifúndios se derrubassem em corte cerce as suas florestas capilares e, na sequência à raspagem, aplicar produto desinfetante de enérgica propriedade antisséptica, a bem dizer o detefon.


Digno de espanto ou admiração, apupo ou ovação, conforme a opinião que se tem, verdade é que o costume é exemplo frisante desse enorme mosaico nacional: a identidade cultural brasileira.