segunda-feira, 23 de novembro de 2015

"Bernardo de Carvalho, o Fundador de Bitorocara” (2ª edição virtual) em promoção na amazon.com.br por apenas R$ 1,99



"Bernardo de Carvalho, o Fundador de Bitorocara” (2ª edição virtual) em promoção na amazon.com.br por apenas R$ 1,99

O livro digital “Bernardo de Carvalho, o Fundador de Bitorocara” (2ª edição virtual), da autoria de Elmar Carvalho, que conta muito da história do Piauí e de Campo Maior, no final do século XVII e início do século XVIII, está sendo vendido por amazon.com.br, em promoção, por apenas R$ 1,99. A oferta vai do dia 23 ao dia 27 do corrente mês. A edição é revista, aumentada e melhorada, em virtude de novos livros e documentos, a que o autor teve acesso após a primeira edição impressa. Traz novos capítulos e vários anexos, todos referentes à cultura, história e patrimônio arquitetônico e natural de Campo Maior.

domingo, 22 de novembro de 2015

Seleta Piauiense - Antônio Chaves


YAYÁ PEARCE

Antônio Chaves (1883 – 1938)

Eras a minha fé soberba, indefinida,
Eras a minha crença, ó lírio imaculado,
Tu, que trazias n’ alma inocente e querida
A ária do nosso amor e do nosso noivado.

Eras a fonte ideal do estímulo sagrado
Que me conduzia à Terra Prometida...
Eras minha ilusão, meu sonho alcandorado,
O sol que iluminava o céu de minha vida.

Mas quis Deus apagar o fulgor dos teus olhos,
Quis ele que afinal fanasses, como a rosa,
Deixando-me sozinho a tatear sobre escolhos...

E, assim, caiu por sobre a minha mocidade
A ampla noite sem luz, profunda, tormentosa,
Da tristeza e da Dor, da Mágoa e da Saudade.

sábado, 21 de novembro de 2015

Bumba-meu-Boi no Curador


Bumba-meu-Boi no Curador

José Pedro Araújo
Historiador, cronista e romancista 

Preciso justificar o título acima, uma vez que sou maranhense e é no Maranhão que se pratica o melhor Bumba-meu-boi do Brasil. Acontece que apenas na região da baixada maranhense, além da ilha de São Luis, este folclore é largamente difundido. Nas outras regiões brinca-se de forma esporádica, sem aquele apelo tão popular existente nas regiões acima descritas. O que acontece com a região de Presidente Dutra, por exemplo, é que sofremos forte influência cultural dos outros estados nordestinos e, apesar de gostarmos muito do velho forró pé-de-serra, dos folguedos e de outras festas do gênero, não existe entre nós a tradição dos grupos organizados de Bumba-meu-boi da forma que existe mais ao norte do estado maranhense.

Pois, certa época, em meados dos anos sessenta, fomos surpreendidos com a notícia de que o agitador cultural Cobra-Preta estava arregimentando um grupo de brincantes para organizar um Boi. A notícia correu rápido pelo Ginásio Presidente Dutra e logo a estudantada estava pronta para ir verificar no local a novidade. De fato, constatamos a veracidade da notícia. O terreiro havia sido organizado ali por trás do Cemitério, em uma rua nova que acabava de ser aberta. Era um lugar de casas simples, a maioria coberta de palha de babaçu, até certo ponto distante, mais pudemos verificar que a notícia havia atraído muita gente ao local. Aliás, antes mesmo de chegarmos lá, já era possível ouvir o rufar dos tambores, pandeirões, o picado das matracas e o som de orquestra, numa mistura de todos os ritmos que costuma separar os brincantes entre aqueles que preferem o boi de matraca, os que gostam mais do boi de pandeirões e, finamente, aqueles que têm predileção pelo boi de orquestra. Cobra Preta juntou tudo em um só. 

No mais, estavam ali os vários personagens que compõe o script da festa, como o Pai Francisco, a Catirina, a Burrinha, o Índio, os Vaqueiros, os Cazumbás, o Dono da Fazenda, o Padre, o Miolo, o Pajé, entre tantos outros personagens que enfeitam e tornam empolgante a história do vaqueiro que matou o melhor boi do patrão para satisfazer a vontade da mulher. Pela lenda, Catirina, mulher faceira, demonstrou a vontade de comer a língua do principal animal do patrão e empurrou o marido para uma grande enrascada. No local, é claro, estava o próprio boi, com suas cores, desenhos e matizes formados por vidrilhos e miçangas. Havia também lá uma mistura saudável de todas as classes sociais da cidade para presenciar os ensaios que aconteceriam até o dia quinze de junho, quando então aconteceria o batismo do boi.

De pronto, fiquei estupefato com a beleza cênica, com o som emitido por aquela mistura de sotaques que se elevava naquela aprazível noite de maio. Voltei muitas vezes ao local para acompanhar aquela festa de cores e sons que tanto agrada ao nativo maranhense. Naturalmente tudo tem um preço e eu tinha que gazetear algumas aulas para poder acompanhar as peripécias do boi do Cobra Preta.

Não sei por quantos anos a festança se repetiu, pois pouco depois tive de me retirar para estudar em outra cidade. Não sei também se a tradicional festividade deixou raízes na cidade, mas não tenho dúvidas em afirmar que o ritmo das toadas deixou saudades em mim e em tantos quanto presenciaram a animação dos brincantes do primeiro Bumba-meu-boi criado na minha cidade.


Em junho, os terreiros situados nos diversos bairros da ilha de São Luís são incendiados com os sons dos batuques de uma enormidade de sotaques de bois que infestam a cidade. Em junho também os arraiais são instalados para a deflagração dos festejos juninos em todo o nordeste brasileiro e os trios musicais compostos pela sanfona, zabumba e triângulo, dão o tom da festa. No interior de parte do Maranhão também. Mas é o Bumba-meu-boi que se apresenta como o maior representante das festividades juninas do Estado maranhense.          

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

BITOROCARA E CAMPO MAIOR: UM SÓ CORPO NO MESMO ESPAÇO


BITOROCARA E CAMPO MAIOR: UM SÓ CORPO NO MESMO ESPAÇO

Antônio Francisco Sousa
Auditor-Fiscal (afcsousa01@hotmail.com)

            De Bernardo de Carvalho – O Fundador de Bitorocara, o pequeno-grande livro eletrônico do bitorocarense Elmar Carvalho, dizer o quê? Muita coisa, em breves palavras: inebriante na medida certa, qual uma taça de bom tinto carmenère chileno, ou de um argentino malbec de boa cepa. Novidade, não somente na literatura piauiense dos tempos hodiernos quanto ao formato, virtual, mas no gênero: histórico-genealógico, assunto pouco explorado pelo mais poeta, ensaísta e cronista do que historiador, magistrado inativo, porém, imortal campo-maiorense.

            Sobre os homens? O dissertado: sem dúvida, um herói singular, figura unívoca, ainda que não única neste vasto e largo celeiro de grandes nomes da historiografia mafrensina (por que não - como tantas vezes quase diz o outro homem, o autor -, bernardiana?). Mesmo que sua Bitorocara tivesse originado São Bernardo, no Maranhão, o que não o fez por questão que Isaac Newton, o físico, explica por analogia em uma de suas leis, a que diz que um corpo não pode, ao mesmo tempo, ocupar mais de um lugar no espaço – menos ainda continuar, permanecer -; haja vista, propriamente ela, a fazenda, comprovadamente, ficar distante mais de vinte e cinco léguas, de ontem, cento e cinquenta quilômetros de hoje, da cidade maranhense; como se não bastasse, com um rio a separá-las, unindo os dois entes estatais; por si só, não haveria qualquer demérito nessa engenharia geográfica, se, de fato, não Campo Maior, mas São Bernardo tivesse nascido de Bitorocara.

            Se a lei proposta por Newton, sancionada e comprovada pela comunidade científica desde sua descoberta – resistindo aos assédios da Física Quântica - pudesse ser contestada quanto à sua conclusão – no máximo, um corpo no mesmo espaço-tempo – uma nova hipótese haveria para ser discutida: e em sendo um mesmo imutável espaço físico, mas tempos diversos? É que Campo Maior nasceu, pois esta é a data de fundação da Fazenda Bitorocara que ficava na confluência dos rios Surubim e Longá (daí porque teve a primeira igreja do povoado como padroeiro Santo Antônio do Surubim, erguida por Bernardo de Carvalho e Aguiar, dono da terra, bem próximo à casa-grande, e de cuja primeira missa, celebrada em novembro de mil, setecentos e doze, portanto, três séculos atrás, participou): no ano mil, seiscentos e noventa e seis; enquanto a fundação de São Bernardo, às margens do rio Parnaíba, no lado maranhense, ocorreu em mil, setecentos e vinte um.

            No que tange ao outro homem, Elmar Carvalho, autor de Bernardo de Carvalho – o Fundador de Bitorocara, há que se dizer o seguinte: um quase workaholic (viciado em trabalho), para fincarmos um termo modernoso; apaixonado pelas letras, pela literatura em suas mais diversas acepções, estilos e gêneros, como se pode comprovar em esse opúsculo, por meio qual se meteu a fazer incursões e perquirições minudentes pelos meandros da história genealógica.

            Do confronto entre os diversos estudos e apontamentos feitos pelos mais competentes e empenhados historiadores, genealogistas e pesquisadores de escol, em relação às terras adquiridas por Bernardo de Carvalho e Aguiar, uma conclusão assoma: a certeza quanto à localização da fazenda Bitorocara: às margens da confluência dos cursos d’água Surubim e Longá, onde se encontra há três séculos povoada e viçosa a cidade piauiense de Campo Maior. Negar essa verdade parece menos ação inteligente e mais intenção de escamoteá-la para usufruto intelectual pessoal; demeritório, todavia, se ao pretenso suposto beneficiário faltar o necessário estofo cultural histórico-genealógico-geográfico. Mera tentativa exacerbada e inócua, seria, de espalhar a cizânia sobre fatos a respeito dos quais não resta senão a residual dúvida decorrente da ausência de um conceito definidor, peremptoriamente, do que venha a ser verdade absoluta; inatingível, cognitiva e racionalmente pela inteligência humana no seu atual estágio de desenvolvimento existencial.

            O mais é saborear a obra, deixando-se envolver pelas sobejas virtudes de Bernardo de Carvalho e Aguiar, o fundador de Bitorocara (Campo Maior), fazedor de amigos, inclusive dentre aqueles que até motivos poderiam ter para não lhe querer bem nem o respeitar: os vencidos nas batalhas que precisou travar ao longo de uma vida de conquistas e glórias, mas, também, de muito sofrimento físico e moral.

            Valeu a pena, Elmar Carvalho, trazer à tona essa figura mítica, desmistificando-a. Às vozes discordantes resta tentarem mudar ou reparar a história para buscarem a sua verdade; o que não quer dizer que encontrarão a verdade.                

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

A LOCALIZAÇÃO DA FAZENDA BITOROCARA

Antiga igreja de Santo Antônio
Igreja do Rosário

18 de novembro   Diário Incontínuo

A LOCALIZAÇÃO DA FAZENDA BITOROCARA

Elmar Carvalho

Recentemente a Diocese de Campo Maior comemorou os 300 anos da Paróquia de Santo Antônio do Surubim. Houve missa concelebrada, com a presença de vários bispos e apresentação da Orquestra Sinfônica de Teresina, sob a regência do maestro Aurélio Melo. No ensejo da efeméride foi lançado o livro “Da matriz vejo a cidade”, da autoria de Natália Oliveira e Alcília Afonso, que ainda não me foi possível adquirir.  

A primeira igreja de Santo Antônio foi construída por Bernardo de Carvalho e Aguiar a pedido do padre Tomé de Carvalho, seu sobrinho, que foi o primeiro vigário da Mocha (Oeiras) por várias décadas, tendo construído a vetusta igreja de Nossa Senhora da Vitória, hoje catedral, que se encontra bem conservada e mantendo quase toda sua arquitetura original. Bernardo também contribuiu para a construção deste templo, inclusive lhe tendo doado uma rica e bela custódia, em ouro maciço e cravejada de pedras preciosas, que ainda hoje faz parte do patrimônio da Diocese oeirense.

Lamentavelmente a velha igreja de Santo Antônio do Surubim, em estilo colonial, batizada em 12.11.1712, foi demolida em 1944, conforme consta no livro Enlaces de família, do historiador e genealogista Valdemir Miranda de Castro.

Em virtude das festas comemorativas dos três séculos da Paróquia e de haver sido requentada a discussão sobre onde ficava a Fazenda Bitorocara, que a meu haver já estava definitivamente superada, com as pesquisas do padre Cláudio Melo, tanto em Belém do Pará como em Portugal, julgo oportuno transcrever nesta crônica diarística o terceiro capítulo de meu livro “Bernardo de Carvalho, o Fundador de Bitorocara”, 2ª edição digital (revista, melhorada e ampliada, em virtude de novos livros e documentos a que tive acesso, após sua primeira e única edição impressa), disponível no site amazon.com.br:

Todos os maiores historiadores do Piauí afirmam haver existido a fazenda Bitorocara e o seu fundador, Bernardo de Carvalho e Aguiar, a começar pelo mais antigo, o padre Miguel de Carvalho, em sua Descrição do Sertão do Piauí, datada de 2 de março de 1697. O padre Cláudio Melo considera esse documento como um dos mais importantes para os estudiosos de História do Piauí, e que deveria ser de manuseio constante. Quase todos admitem que essa propriedade ficava situada em Campo Maior. Como exceção ou voz discordante, um ou outro admite haver dúvida a esse respeito.

O próprio Pe. Cláudio Melo, no prefácio ao livro Descrição do Sertão do Piauí (Comentários e notas do Pe. Cláudio Melo), após advertir que o relatório do Pe. Miguel de Carvalho exigia acurada leitura, com “reflexão e análise prudente e comparada”, em sua proverbial franqueza e honestidade intelectual, aconselhou:

“Não se arrisquem a conclusões precipitadas. Historiador de alta respeitabilidade, como Odilon Nunes, concluiu que Bitorocara era Piracuruca, quando na verdade é Campo Maior [grifo meu]. Eu mesmo há dois ou três anos escrevi um artigo para ‘Cadernos de Teresina’ que, por sorte, não foi publicado (chegou com atraso). Hoje eu não subscreveria tudo que ali afirmei.”

Todavia, o próprio Odilon Nunes, segundo afirma João Gabriel Baptista em seu livro Mapa Geohistóricos, pág. 41, teria sido pessoalmente convencido por Cláudio Melo de que efetivamente o rio Piracuruca não era o Bitorocara. E ele João Gabriel confessa também ter se convencido de que a razão estava com Melo.

Espancando qualquer dúvida que possa existir sobre a localização de Bitorocara, no livro acima citado, o padre Cláudio, um dos maiores historiadores de nosso estado, afirma, a meu ver de forma categórica e peremptória:

“De início, eu supunha que o riacho Bitorocara era o Surubim, em razão de a Fazenda Bitorocara ser a atual cidade de Campo Maior. A descoberta em Portugal da sesmaria de Dâmaso Pinheiro de Carvalho, nas cabeceiras do riacho Cobras, me fez ver que Cobras é o Surubim. Bitorocara, portanto, ou seria o Longá ou o Jenipapo. Surgiu para mim um impasse: a fazenda Serra fica no Longá e o Jatobá no Jenipapo. Como os limites da fazenda Serra não atingiam o Jenipapo, mas os limites da fazenda Jatobá podiam chegar até o Longá, concluí, por fim, que Bitorocara seria o Longá. A fazenda Bitorocara se expandia pelos três rios, e ela estava na confluência deles.”

Para chegar a essa conclusão, pelo que se depreende de seu conselho (ou advertência), acima transcrito, o notável historiador piauiense leu e releu várias vezes e em profundidade o relatório da lavra de Pe. Miguel, com certeza cotejando-o com os vários documentos que consultou em Portugal e no Piauí, muitos deles transcritos no livro Bernardo de Carvalho, de sua autoria.

O padre Miguel, em seu relatório, indicava os rios em que as fazendas por ele referidas se situavam, preservando dessa forma a sua localização. As fazendas, na época, eram muito extensas. Ele situava três no riacho Bitorocara (Longá): a primeira, de nome Serra, ficava nas cabeceiras; a segunda, Bitorocara, se lhe seguia, e “a terceira e última deste riacho se chama o Jatobá”. Evidentemente a fazenda Jatobá ficava na margem direita do Jenipapo, que desemboca no Longá, podendo ter prosseguimento pela margem direita deste rio, uma vez que, na expressão de padre Cláudio, “a fazenda Bitorocara se expandia pelos três rios, e ela estava na confluência deles”. A linha de raciocínio do historiador obedece à lógica, e não a uma simples ilação tirada do nada, e, portanto, não merece reparo.

Como é sabido por todos, a antiga igreja de Santo Antônio do Surubim foi construída por Bernardo de Carvalho e Aguiar a pedido de seu sobrinho, o Pe. Tomé de Carvalho. Quase sempre (e não conheço exceção) as igrejas eram erigidas pelos fazendeiros nas proximidades da casa-grande ou residência, sempre que possível sobre uma colina ou outeiro, em terras de sua propriedade ou posse. Essa era a praxe na história do Piauí, ainda hoje observada. Quem iria construir uma ermida ou igreja distante de sua casa e fora de sua propriedade? Considerando-se que a fazenda Bitorocara (antigo nome do rio Longá) ficava na margem desse rio é lógico concluir-se que ela ficava nas proximidades da igreja construída por seu proprietário nas imediações do rio Cobras, hoje Surubim.

Sobre isso vejamos o que diz o historiador e genealogista Valdemir de Castro Miranda, em seu trabalho intitulado “Sobre as origens de Campo Maior”, publicado no blog poetaelmar.blogspot.com.br, em 04.09.2015:

Campo Maior tem sua origem ligada à figura do mestre de campo Bernardo de Carvalho e Aguiar, fundador da Fazenda Bitorocara no ano de 1695, na confluência dos rios Longá com o Surubim. Por volta de 1706, o Pe. Thomé de Carvalho e Silva fez desobriga na região, fundando ali um curato. Mais tarde, com a ajuda de Bernardo de Carvalho e Aguiar, construiu a Igreja de Santo Antonio, batizada a 12.11.1712, com a instalação da Freguesia de Santo Antonio do Surubim ou Longá, a segunda do Piauí e ainda ligada ao Bispado de Pernambuco. O procedimento para a instalação da nova Freguesia, foi o mesmo adotado pelo Pe. Miguel de Carvalho quando da instalação da Freguesia da Mocha, reuniu os moradores da região para definir o local da edificação do templo. Não contando com a ajuda dos arrendatários das fazendas da região, mas com o cel. Bernardo de Carvalho e Aguiar que construiu a capela a suas custas, conforme consta em carta do Pe. Thomé de Carvalho e Silva, Vigário confirmado na Matriz de Nossa Senhora da Vitória do Piauí de Cima em toda ela Vigário da Vara, pelo ilustríssimo Sr. Dom Manuel Álvares da Costa, Bispo de Pernambuco e do Conselho de Sua Majestade, que Deus guarde:

“Certifico que sendo esta minha Freguesia muito dilatada pelas grandes distâncias, principalmente a ribeira dos Longases, aonde não podia desobrigar a tempo de acudir com os Sacramentos nas necessidades dos meus fregueses residentes nela, pelos muitos rios que tem em meio para esta minha igreja, requeri ao Sr. Bispo de Pernambuco, mandasse fazer Igreja curada na dita ribeira dos Longases, por assim convir ao serviço de Deus, Nosso Senhor, ao que deu logo cumprimento. O dito Sr. Bispo mandou-me ordem para a poder fazer e, indo a esta parte, convoquei os principais moradores e, tomando-lhes os seus votos na parte que havia de erigir a nova Capela, que por invocação tem o nome do Glorioso Santo Antônio, lhe não achei possibilidade pra fazerem, dando várias desculpas pelos poucos escravos que tinham, e estando ocupados em fazendas que tinham os seus donos na Bahia as não podiam desamparar. Nestes termos, me vali do Coronel Bernardo de Carvalho que, com pronta vontade, buscou um carapina a quem pagou, e foi pessoalmente com seus escravos ajuntar as madeiras e os mais materiais, trabalhando o dito com grande zelo. E, com efeito, fez a capela à sua custa, tanto de escravos como gastos, farinha e dinheiro. E o acho com ânimo de gastar nela cabedal. Outrossim se me ofereceu com o gado que necessitasse para a nova ereção desta Matriz de Nossa Senhora da Vitória, e me prometeu 200$000 (duzentos mil reis) para uma Custódia para a dita Matriz e que se custasse mais o daria”.
(MELO, Pe. Cláudio. Fé e Civilização, 1991, p. 47-8).


[Não obstante sua meridional clareza, acho importante frisar: no documento acima transcrito o padre Tomé de Carvalho declara que para a construção da igreja sob a invocação do Glorioso Santo Antônio fez reunião com os principais moradores do lugar, mas que nenhum quis ou pôde ajudá-lo; que nestes termos se valeu “do Coronel Bernardo de Carvalho que, com pronta vontade, buscou um carapina a quem pagou, e foi pessoalmente com seus escravos ajuntar as madeiras e os mais materiais, trabalhando o dito com grande zelo. E, com efeito, fez a capela à sua custa”. Essa afirmativa, por si só, demonstra que o templo ficava perto da sede da fazenda ou da residência de Bernardo.]

    Recentemente uma voz discordante afirma que a Fazenda Bitorocara ficava, aproximadamente, onde hoje estão situados os municípios de São Bernardo – MA, Luzilândia e Campo Largo, os dois últimos no Piauí. O imóvel ficava em ambos os lados do rio Parnaíba. O defensor dessa hipótese parte do pressuposto de que o Arraial Velho e Bitorocara seriam termos sinônimos, e se fundamenta no fato de que Miguel de Carvalho e Aguiar, filho do Senhor de Bitorocara, teria herdado a sesmaria de Arraial Velho de seu pai, conforme documento existente em Belém do Pará, cuja propriedade em favor de Miguel foi confirmada em 1739. Essa informação é verídica e está devidamente documentada. Só um louco ou mistificador a negaria. Aliás, essa notícia é antiga, e já está inserida no livro Cronologia Histórica do Estado do Piauí, da autoria de F. A. Pereira da Costa, cuja primeira edição data de 1909.

Contudo a hipótese de que Bitorocara ficava no rio Parnaíba, na altura de São Bernardo, Campo Largo e Luzilândia, não pode prosperar, e muito menos se estabelecer como verdade, pelos motivos que passarei a expor de forma sintética.

Primeiro, Arraial (velho ou não) nunca foi e não é sinônimo de Bitorocara. É apenas um topônimo genérico, e que designa vários locais do Brasil, e mesmo do Piauí. Assim, no nosso estado existiram vários arraiais, entre os quais cito o que deu origem a Jerumenha, o dos aroases, o dos paulistas, o de Nossa Senhora da Conceição, o dos Ávilas, o que originou a atual cidade e município de Arraial e, evidentemente, o arraial que se formou no entorno da Fazenda Bitorocara e da igreja de Santo Antônio do Surubim, nela situada, etc.

O certo é que o Arraial Velho que deu origem à cidade de São Bernardo (MA) não é e nem poderia ser o arraial velho que formou a cidade de Campo Maior.

Por outro lado, em termos cronológico e documental, Bitorocara jamais poderia se referir ao Arraial Velho do rio Parnaíba, uma vez que o documento a este referente data de 1739, enquanto a referência à fazenda Bitorocara, feita pelo padre Miguel de Carvalho é datada de 1697, conforme seu relatório, publicado sob o título de Descrição do Sertão do Piauí.

Ademais, o seu autor, Miguel de Carvalho, em sua desobriga, que relatou nesse documento, percorreu apenas as terras que ele entendia como pertencentes à freguesia de Nossa Senhora da Vitória, conforme explicitou o padre Cláudio Melo em seus comentários (v. bibliografia): “Outras porções do território piauiense também eram habitadas, mas ficaram excluídas desta Descrição; é o caso dos sertões do Parnaguá (que ficariam na jurisdição de outra freguesia a ser instalada) é o caso do baixo Longá, Piracuruca e litoral que já estavam assistidos pelos Filhos de Santo Inácio, na Ibiapaba.”

Ora, se o padre Miguel de Carvalho sequer percorreu todo o território do atual estado do Piauí, com muito mais razão não poderia ter ido até os atuais municípios de Brejo e de São Bernardo, no Maranhão (em cuja região veio a ser situado o Arraial Velho), que pertenciam a outra jurisdição eclesiástica. Consequentemente, a fazenda Bitorocara a que ele se referiu em seu relatório ficava mesmo no rio Longá, perto de onde fica a atual cidade de Campo Maior.

Em consequência o arraial militar, ou arraial ou ainda arraial velho referente a Campo Maior, que se formou no entorno ou perto da Igreja de Santo Antônio do Surubim, não pode, em hipótese nenhuma, ser confundido com o Arraial Velho maranhense, localizado perto do Parnaíba. Mesmo porque Bernardo de Carvalho e Aguiar, último mestre de campo das Conquistas do Piauí e do Maranhão só se mudou para a atual cidade de São Bernardo, da qual é considerado fundador, em 1721, quando deixou o seu cargo.

A fazenda Bitorocara, portanto, ante tudo o que expusemos, ficava na confluência dos rios Longá, Surubim e Jenipapo, o que, admitamos, era estratégico, uma vez que haveria suprimento de água para consumo humano e do gado, e para a formação de pastagem, além de que seriam evitados problemas com eventuais confrontantes, porquanto os limites ficariam bem estabelecidos por esses cursos d’ água.           

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

SITUAR BITOROCARA É FÁCIL, ESTÁ NA CARA


SITUAR BITOROCARA É FÁCIL, ESTÁ NA CARA

Francisco de ALMEIDA (*)

  
Como as defesas célebres
Que se encontram na história,
No momento, faço uma
Tendo força vibratória:
Quem fundou Bitorocara
E local que se encravara?
Com fundamentos de glória.

Aqui se expõe argumento
Que por si, é vencedor,
Como na passagem Bíblica
Onde Jesus registrou:
A César, impostos seus;
A Deus o que é de Deus,
E, assim, sentenciou.

Também se pode lembrar
Do caso de Madalena,
Quando uma vez acusada
Naquela horrível cena,
Jesus mandou que jogasse,
A primeira pedra atirasse,
Quem nunca mereceu pena.

Nestes versos trato de
Quem fundou Campo Maior,
De origem Bitorocara
Com muita luta e suor,
Por Bernardo de Carvalho
Que nunca foi por atalho,
Pois tudo sabia de cor.

Foi ele quem construiu
A Igreja de Santo Antônio
Da bela Campo Maior,
O Santo do Matrimônio,
A pedido do sobrinho:
Padre Thomé, com carinho,
Sem ser preso a patrimônio.

E Bernardo levantou
À sua privativa custa,
Conforme Padre Thomé,
Sempre com ação augusta,
Registrou em uma carta
Que relatório encarta,
Com fidelidade justa

E Bernardo de Carvalho
Jamais fora sanguinário,
E tampouco genocida;
Ao revés, humanitário,
Tendo elevado conceito
Conquistando bom respeito,
Até por adversário.

A prova deste destaque:
Eleito Mestre do Campo,
Sem nenhuma divergência
E sequer alguém deu grampo,
Ao morrer Souto Maior
Foi alvo de uma voz só,
Um luminar pirilampo.

Falo da localização
Da Fazenda Majestosa,
De nome Bitorocara
E não de forma amistosa,
Trato com profundidade
Embasado na verdade
Com atitude exitosa.

Não deseje pôr em dúvida
O que está com a razão,
Consoante com a lógica
Livre de contestação,
Com provas irrefutáveis
Facilmente demonstráveis,
A correta opinião.

Os grandes historiadores
Do querido Piauí,
Do mais novo ao mais antigo
Traçando o perfil daqui,
Registram Bitorocara
Com perfeição muito clara,
Não se deve divergir.

Também é identificado
Como herói fundador,
O Bernardo de Carvalho
Um cidadão de valor,
Os registros são exatos
Não se trata de boatos,
Não é ficção de autor.

Desde o Século Dezessete
Que a história assegura,
Já com o Padre Miguel
Com base em pesquisa apura,
Em “Descrição do Sertão”
Com muita dedicação,
Não merecendo censura.

E o Padre Claudio Melo
Enaltece tal pesquisa,
Como documento ímpar
Que em comentário giza:
Ser de importância tamanha
Que a verdade não arranha
E muito bem analisa.

Sabe-se que o Padre Cláudio
Não foi de poupar cautela,
Pesquisou no Piauí
E em Portugal não protela,
Convencendo Odilon Nunes
Que a João Baptista se une
Nessa conclusão singela.

Se existiu Arraial Velho
Nas margens do Parnaíba,
É outra propriedade
Que registrou um escriba,
Pois o de Campo Maior,
Tinha carnaúba e pó
Para baixo e para riba.

É dedução racional
A do local da Fazenda,
Chamada Bitorocara
Vencendo qualquer contenda,
Na confluência dos três rios
Com argumentos sadios
Que não merecem emenda.

Foi na junção dos três rios
O local mais ideal,
Pra fixar a Fazenda
Por estudo imparcial;
Do Longá e Surubim
E Jenipapo, assim,
Foi a conclusão final.

No histórico encontro
Sendo mais exatamente,
Do Longá com Surubim
É o que diz fielmente,
O testamento de Miguel,
Filho do fundador fiel,
Pra neta, previamente.

Depois, chamando-se Velho:
Um Arraial Militar,
Brotando uma freguesia
Vindo uma vila a brilhar,
Ao final Campo Maior,
É a informação melhor
Pra origem do lugar.

Pois o Rio Bitorocara
Jamais foi Piracuruca,
Longe de serem o mesmo,
Só comparação maluca;
Quem falou se convenceu,
Corretamente entendeu,
E a verdade não machuca.

Diz-se de Piracuruca
Que é peixe resmungão,
Bitorocara é diversa,
Não há qualquer comunhão,
“Bito” é leite de vaca,
“Rocara”, quem mete a cara,
Há, pois, total distinção.

Assim registra Elmar
Com toda propriedade
Que se faziam Igrejas
Com curta proximidade
Da casa do Fazendeiro,
Pra bem dizer no terreiro,
Até por comodidade.

Um costume do passado
Que ainda hoje se pratica,
Era sepultar os mortos
A poucos metros da bica,
Debaixo de uma Igreja
Como uma ação benfazeja
Que o finado qualifica.

Consoante Elmar Carvalho
Não se pode confundir
Um diverso Arraial Velho,
Se com cuidado aferir;
E não é Bitorocara,
É bem simples, tá na cara
Ninguém deve discutir.

Dizer que Bitorocara
Margeava o Parnaíba,
Na altura de Luzilândia
Em devaneio se estriba,
Assim, assegura Elmar,
Não podendo prosperar,
É tese que se derriba.

Arraial, quer novo ou velho,
Que muito se tem notícia,
É topônimo genérico
Sendo uma área propícia
Pra parque de diversão,
Também quermesse e leilão,
Uma praça alimentícia
               
É claro que se formou
Ao derredor da Igreja
Do protetor Santo Antônio,
No local que se festeja,
Um animado arraial
Com alegria magistral,
É o que a história traceja.

Fernando Pessoa destaca
O rio de sua aldeia
Que é mais belo que o Tejo
Pois este lá não passeia,
Elmar descreve sua terra
Com força que não emperra,
E nunca a vê como feia.

Importantes personagens
Que aqui devemos lembrar,
Filhos de Campo Maior
Com uma vida exemplar,
Simplício  e Jutaí,
Eusébio também aí,
Merecendo um lindo altar.

Não se deve ter limite
Para buscar a verdade,
Cada contribuição
É um ato de bondade,
Não há nada absoluto,
Liderança, não disputo,
Quero apenas lealdade.

Desculpem a veemência
Das conclusões do cordel,
É que nesta literatura
A ênfase tem seu papel,
É própria do seu estilo
Para brotar mais cintilo,
Mas à verdade fiel.

Escrevi este cordel
Com trinta e três septilhas,
Por uma questão simbólica
Que traz muitas maravilhas,
Pois foi a idade de Cristo
E na defesa me alisto
De Bernardo e suas trilhas.

Referências:
1.            CARVALHO, Elmar. Bernardo de Carvalho, O Fundador de Bitorocara (segunda edição digital – 2015). Amazon.com.br;
2.            PAIXÃO, Marcus Vinícius Costa. Campo Maior Origens. Uma análise histórica e documental do início da povoação de Campo Maior/Marcus Vinícius Costa Paixão. – Campo Maior: Edição do autor, 2015;
3.            http://www.portalopiniao10.com/ - acesso em novembro/2015;
4.            http://www.proparnaiba.com/ - acesso em novembro/2015;
5.            http://www.campomaioremfoco.com.br/ver_coluna/64/ - acesso em novembro/2015;
6.            http://www.portalentretextos.com.br/colunas/ecletica- acesso em novembro 2015;
7.            http://bitorocara.blogspot.com.br/2008/11/bernardo-de-carvalho-e-aguiar.html - acesso em novembro/2015;
8.            http://poetaelmar.blogspot.com.br/ - acesso em novembro/2015

(*) Francisco de ALMEIDA.  Membro da Advocacia Geral da União (Advogado da União de Categoria Especial). Pós-Graduado- Lato Sensu - em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho pela Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal; Pós-Graduado - Lato Sensu - em Direito Civil e Processual Civil pela Universidade Católica Dom Bosco, em convênio com Marcato – Cursos Jurídicos; Poeta Popular; Maçom - M.: I.: Gr. 33 (Pertencente à Academia de Mestre Maçons – Cadeira n. 86 – Patrono Joel Borges); pertencente à Academia Piauiense de Literatura de Cordel – APLC – Cadeira n. 01 – Patrono Firmino Teixeira do Amaral. E-mail: almeidaz@terra.com.br – telefone (86) 9-9991.2081.    

domingo, 15 de novembro de 2015

PASSEIO PELA CIDADE


PASSEIO PELA CIDADE

Alcione Pessoa Lima

Um passeio pelas ruas da cidade...
Após a chuva, raios e enxurrada...
Não existe mais a melancolia das tardes...
Somente mariposas sobre a jitirana do lixão colorido.
Um véu cinzento de monóxido de carbono...
E tantos zumbis a vagarem, sem asas.
As buzinas e ruínas perturbando a sensatez...
E os becos empilhados de pessoas...
São rostos desconhecidos...
Uma cidade que se desconhece...
Até por mim, que entre rios fui gerado.
Percebo uma divisão...
Entre arranha-céus e guetos...
A acomodação de um apartheid...
Um contraste entre os sonhos que se aglomeram...
E ao cruzar a praça da cultura...
Arde em mim um silêncio que perturba.
Onde está a liberdade de à sombra do oitizeiro poder amainar o ardor do sol...?
Talvez na velocidade da transformação...
A esconder um horizonte que ainda resiste...
E no encontro dos rios fétidos...
Um anzol traz apenas um arrastão esquecido...
E a natureza morta (aguapés) descendo pela correnteza...
Vejo-te, assim, cidade cosmopolita...
Em teu céu cruzarem pássaros de aço...
E sem saúde, amontoados de pedintes, em uma única fila...
Um olhar lacrimejante: o meu lamento.
E sobre uma serpente de concreto, arrastar-se o trem...
Que transporta a minha saudade...
E surfistas equilibrando a vida, até cruzarem a linha do destino...
Mas, ainda posso ver flores em teu caminho...
A se sobreporem aos espinhos da tua dor.

sábado, 14 de novembro de 2015

SER OU NÃO SER


14 de novembro   Diário Incontínuo

SER OU NÃO SER

Elmar Carvalho

Ao ouvir a informação de que o corpo da jornalista Sandra Moreyra fora cremado, me surgiu instantaneamente a ideia de um microconto ou mesmo de um nanoconto, intitulado Ser ou não ser. Ei-lo:

Ao receber a pequena urna, o homem surtou, e disse, qual novo, trágico e desvairado Hamlet: “Ser ou não ser, eis a questão. A estas poucas cinzas se resume um ser humano?” E ali mesmo, na sala de espera do crematório, derramou o que restava do corpo da bem-amada.    

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

MINHA SAUDAÇÃO A DÍLSON E A BARRAS

A velha igreja de Barras
A velha igreja de Barras

12 de novembro   Diário Incontínuo

MINHA SAUDAÇÃO A DÍLSON E A BARRAS

Elmar Carvalho

Com certa surpresa recebi o convite do professor, poeta e escritor Dílson Lages Monteiro para proferir o discurso de recepção em sua posse na Academia Piauiense de Letras. De imediato, embora com certa apreensão pela responsabilidade que me caía sobre os ombros, lhe disse aceitar o desafio.

A partir de então comecei a meditar sobre o modo como organizaria minha peça oratória; que assuntos deveria abordar, e como faria a sua distribuição na abertura ou introdução, no corpo principal ou desenvolvimento dos temas e no encerramento, que se deseja forme uma “chave de ouro”, como na estrofe final dos bons sonetos. Passei a ler e/ou reler a sua obra poética e em prosa, de forma meditada e com breves anotações.

Já tinha experiência em discursos acadêmicos de posse, mas não de recepção. Quando assumi minhas cadeiras nas academias de letras de Parnaíba, do Vale do Longá, de Piripiri e na Piauiense, fiz discurso formal escrito, em que tentei seguir a mais consolidada praxe na espécie. Nas demais, discursei ao sabor de improviso, ou sequer precisei discursar, por ser sócio fundador.

A exemplo do que fiz (ou pelo menos tentei fazer) em minhas orações acadêmicas anteriores, procurei dar ao texto beleza e emoção, plasticidade e certa leveza. Contudo, logo notei que em discurso de posse o orador tem mais liberdade, exceto na obrigação estatutária de falar nos antecedentes e patrono, ao passo que a saudação ao novel imortal não se pode deixar de lhe fazer o elogio, de se lhe examinar a obra literária, e de se referir aos antecedentes e patrono da cadeira a ser ocupada.

Como Dílson é filho de Barras e a sua poesia e romance se reportam a essa cidade, e também considerando que muitos de meus ancestrais paternos nasceram nesse torrão, no qual estive várias vezes, em minha infância e na minha adolescência, por ocasião de minhas férias escolares, resolvi fazer rápidas referências à rica história dessa aprazível, bela e simpática urbe. Não fosse isso tudo razão suficiente, ela deu ao Piauí importantes políticos, escritores e poetas, muitos dos quais patronos ou ocupantes de cadeiras na APL.

Em meu discurso, dei ênfase à obra magisterial, poética e romanesca de Dílson Lages Monteiro. Examinei-lhe a metodologia no ensino de redação, mormente as suas peculiaridades. Abordei as principais características e virtudes de sua poemática. Analisei o romance O morro da casa-grande, detendo-me nos pontos que julguei mais relevantes e singulares. Procurei fazer essas dissecações da maneira menos técnica possível, mas sem ser simplório, e sem enveredar por meros comentários de obviedades.

Ainda que em rápidas pinceladas, nele tentei traçar um sintético painel da história, da paisagem e da arquitetura da velha cidade. Não o transcrevo por ser um tanto longo para um simples registro diarístico como este, e também porque já foi publicado na internet, mas acho oportuno transpor alguns trechos mais pessoais e direcionados para a nossa nunca assaz louvada Barras do Marataoã:

“(...) Esta noite engalanada, portanto, vai ser uma festa barrense, e veremos aqui perpassar o reflexo dos vultos históricos da velha Barras do Marataoã, dos seus grandes poetas mortos, e ouviremos o murmúrio dos rios que lhe formam as barras, de onde lhe veio o telúrico e poético nome. Nesta Casa sentimos ainda a forte presença do barrense A. Tito Filho, seu presidente por mais de 20 anos, que acolheu e orientou o novel consócio com generosidade, quando ele ensaiava os primeiros passos na literatura.

Quando um afoito amigo quis escrever um artigo, no qual pretendia retirar de Barras o seu justo título de Terras dos Governadores, adverti-o para que não o fizesse, porquanto estaria laborando em vexatório equívoco. Por essa razão escrevi a crônica ensaística “Barras – terra dos governadores e de poetas e intelectuais”, a que em seu desenvolvimento acresci “e de marechais”, para afastar de vez futuras ousadias similares. Essa crônica teve ressonância no intelecto de Chico Acoram Araújo, a quem dei o título de cacique da tribo dos Marataoãs, que vem escrevendo uma série de estudos sobre barrenses ilustres, além de ótimas crônicas e artigos (...)

(...) Sinto como se tivesse lembrança desse Cristo, que vi em minha meninice, com os seus braços abertos, em acolhimento aos que chegavam, e a abençoar a cidade e os que partiam. Era uma bela e vetusta igreja em estilo colonial, construída por José Carvalho de Almeida, e destruída em 1963, como era um vezo dos padres da época, que gostavam de ampliar, reformar, descaracterizar ou demolir as velhas capelas e igrejas. Ao comentar o excelente livro Barras, histórias e saudades, de Antenor Rêgo Filho, a ela me referi, e remontei à ermida de N. S. da Conceição (que lhe antecedera), iniciada por Miguel de Carvalho e Aguiar, em sua fazenda Buritizinho, e concluída por seu herdeiro e sobrinho Manoel da Cunha Carvalho; essa capela e a casa-grande são a origem mais remota da cidade das sete barras, como a designei em poema telúrico e evocativo. (...)

(...) Por entre as páginas desse belo romance, vemos ainda os velhos sobrados, os casarões solarengos, os logradouros e praças de outrora, vetustos edifícios públicos, como o do teatro e o dos Correios, e lamentamos a destruição do antigo cemitério, cujas lápides contavam muito da importante história barrense.

Quando eu ia a Barras, me hospedava na casa de Salomão de Sá Furtado, primo de meu pai, que ficava bem perto desse saudoso campo santo. Salomão, além de exímio operador de morse, tinha uma linda caligrafia, e uma não menos bela redação. Era um estilista e tinha uma pequena biblioteca, caso raro, ainda nos dias de hoje. A poucas quadras de sua casa ficava o Marataoã, em cujas águas nadei em minha adolescência, onde me embebi embevecido nos olhos luminosos das garotas, que refletiam suas águas, feitas de ciganice e magia.

Dílson Lages Monteiro me comoveu, e me restituiu a velha e querida Barras de minha infância e de minha adolescência, que na redoma de minha memória ainda remanesce intacta, com a sua vetusta igreja, com o Cristo Redentor de braços abertos entronado no cimo de seu frontispício (...)”

Finalizando, desejo dizer que a posse de Dílson foi uma belíssima festa literária. A solenidade aconteceu no dia 10 de outubro, à noite, no auditório da APL. Compuseram a mesa: Nelson Nery Costa (presidente da APL), desembargador Oton Lustosa (rep. do TJPI), Antônio Pedro Almeida Neto (presidente da Academia de Letras do Vale do Longá – ALVAL), Dílson Lages, Aldaires Pereira (esposa do novel acadêmico), acadêmico Magno Pires, Renaud Hardi (filho do poeta Hardi Filho, último ocupante da cadeira) e este cronista. Ele proferiu um excelente e aplaudido discurso, em que analisou com pertinência e argúcia seus antecedentes e patrono; nos comoveu e nos trouxe beleza retórica, mormente nos momentos em que a oração adquiriu contornos de uma verdadeira prosa poética.

Foi prestigiado por seus conterrâneos, parentes, acadêmicos da APL e da ALVAL, e amigos, entre os quais me incluo. O auditório estava lotado e o coquetel foi farto, variado e delicioso. Que mais dizer? Nada mais há a dizer.   

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O Massacre do Alto Alegre - A infeliz Perpetinha

Foto meramente ilustrativa

O Massacre do Alto Alegre - A infeliz Perpetinha                    

José Pedro Araújo
Cronista, historiador e romancista

                Publiquei aqui neste espaço uma crônica histórica sobre o Massacre do Alto Alegre (Post de 18.03.2015), no qual descrevo a tragédia sofrida pelas crianças internas do Colégio dos Capuchinhos de Alto Alegre, região de Barra do Corda. Tem sido uma das postagens mais acessadas desde então. Volto ao assunto para discorrer sobre uma das vítimas daquela tragédia acontecida em 13 de março de 1901: a estudante Perpétua Moreira.
                Como relatei no post anterior, os frades capuchinhos oriundos da região italiana da Lombardia, chegaram à região no final do século XIX, mais precisamente por volta de 1893, e trouxeram como propósito a realização de um grande trabalho de catequização dos índios, razão porque escolheram a região de Barra do Corda. Ativos, já em 1895 instalaram um colégio para meninos na sede do município, no qual foram matriculados mais de 80 crianças e jovens de até 14 anos. A ausência de escolas de qualidade na região foi a razão do sucesso do novo colégio erguido pelos frades em tempo recorde, além, naturalmente, do nível de formação dos professores responsáveis por ministrarem aula aos jovens oriundos das famílias mais destacadas. O sucesso do empreendimento também estimulou os padres a seguirem com o projeto adiante, razão pela qual adquiriram uma área de cerca de 3.200 hectares de terra na região do Alto Alegre, nas vizinhanças de algumas tribos de índios Guajajaras. Ali instalaram o maior projeto de catequese do interior maranhense, contando, inclusive com a ajuda do governo do Estado que repassou recursos do tesouro estadual para a consecução do ambicioso projeto.
                Com recursos oriundos da Itália, mas também do tesouro estadual, como afirmamos no parágrafo acima, os padres partiram rapidamente para a construção da infraestrutura necessária. Ergueram-se o prédio escolar, a igreja, um internato com dois pavimentos, um convento para os religiosos, além de oficinas, engenho para beneficiamento de cana-de-açúcar e um aviamento para o beneficiamento de mandioca. A escola, diferentemente da outra implantada em Barra do Corda, que só contava com meninos, receberia meninas em regime de internato.
A noticia logo se espalhou pela região, e disseminou a alegria em meio às famílias de Grajaú, Imperatriz, Colinas(Picos), Riachão e Balsas, e da própria Barra do Corda, que passaram a contar com um colégio de bom nível para acolher suas filhas em tempo integral. Lá, as jovens adquiririam conhecimentos de música, costura e bordados, além de se afeiçoarem com o melhor das práticas e costumes europeias, além de estudar em meio a excelentes professores. Em 1896 estava tudo praticamente pronto, e as alunas puderam se matricular. O colégio foi entregue nas mãos das cultas Irmãs Capuchinhas de Gênova, Itália. As novas alunas eram jovens também de até 14 anos e pertenciam às famílias mais abastadas desses municípios acima citados. 
                Seguindo uma prática que costumavam empregar nesse tipo de trabalho, os religiosos mesclaram as alunas com outras meninas indígenas trazidas das aldeias próximas para aprender a cultura do branco. O dinheiro pago pelos pais das meninas branca, manteria os jovenzinhos indígenas. Os métodos empregados na obtenção das novas alunas nativas, muitas vezes beirou ao absurdo, uma vez que muitos curumins foram arrancados literalmente dos braços dos pais com requinte de violência, como já noticiamos no post anterior. E isso, somado a uma serie de outros problemas, suscitou o agravamento das relações entre brancos e índios a tal ponto que, no dia fatídico, 13.03.1901, um domingo que tinha tudo para terminar bem, os indígenas perpetraram o maior morticínio de brancos já registrado na literatura brasileira: cerca de 200 pessoas perderam a vida violentamente naquele dia. Ensandecidos, os Guajajaras trucidaram a todos que encontraram na vila, inclusive os religiosos e as alunas brancas. Com única exceção: uma garota de nome Perpétua Moreira, vulgo Perpetinha. Perpetinha era filha de um abastado fazendeiro da região de Grajaú, e foi tomada como refém, ou algo parecido.
                Não se sabe por que razão, se apenas porque se tratava de uma bela jovem que logo conquistou o coração do jovem cacique Jauarauhu, o certo que foi a única jovem levada como refém pelos índios, e escapou da morte. O desdobramento dessa chacina encetou novos assassinatos, e cerca de 400 indígenas terminaram sendo mortos nos confrontos seguintes, quando os brancos que se organizaram e se armaram fortemente para se aliar ao contingente de militares que chegou de Grajaú, comandado pelo capitão Goiabeira, e de Colinas, sob o comando do tenente coronel Pedro José Pinto. Junta ao contingente de militares havia um bom número de índios Canela, histórico inimigo dos Guajajaras. Goiabeira foi o mentor de um bárbaro genocídio, sendo que muitos dos indígenas mortos, sequer estavam naquele dia na região, ou mesmo faziam parte da nação dos Guajajaras. Ter a pele vermelha já era motivo mais do que suficiente para que o militar despejasse sobre ele o seu ódio.
Perpetinha foi levada pelo cacique Jauarauhu para o interior da selva desconhecida, distanciando-se rapidamente da região do conflito. E no que pese o grupo formado para dar caça ao raptor ter permanecido no seu encalço por vários e vários dias, foi debalde a sua procura. O índio conhecia profundamente o interior daquela extensa e fechada floresta, diferentemente dos seus perseguidores, e recebia o apoio das tribos que ia encontrando pelo caminho. 
                Depois de muitos dias, os fugitivos chegaram à desconhecida região do rio Gurupi, na confluência dos estados do Maranhão e Pará. A região ficava muito distante da civilização, era completamente desabitada por bancos, e ali foram acolhidos pelos índios que se achavam aldeados por lá. A memória histórica se encarregou de criar muitas histórias sobre aquele caso que manchou de sangue a terra conquistada, e que abalou a confiança das famílias da região. Algumas verdadeiras, outras nem tanto. Uma dessas histórias, que foi repassada de pai para filho, diz respeito à pobre moça sequestrada. Nela se afirma que Perpetinha, quando em fuga, e em momentos em que se achava longe do seu captor, escrevia no tronco das árvores uma frase que ficou registrada na memória do povo daquela região: “por aqui passou a infeliz Perpetinha”.  Talvez quisesse deixar uma pista a ser seguida por seus parentes na vã esperança de ser alcançada e salva. Procedeu como Teseu ao penetrar na desconhecida caverna do Minotauro, como registra a lenda grega. Nela, o rei Minos era obrigado a enviar anualmente quatorze jovens ao monstro Minotauro. Sete homens e sete mulheres, para serem devorados dentro do desconhecido labirinto. Teseu levou consigo um novelo de linha que amarrou na entrada do labirinto e foi desenrolando até encontrar o monstro. A linha balizaria o seu retorno. Teseu, segundo a lenda grega, conseguiu o seu intento. Perpetinha, não.
                Em 1982, o jornalista e escritor barra-cordense Olímpio Cruz lançou um livro denominado Cauiré Imana, o Cacique Rebelde, no qual narra com riqueza de detalhas o grave conflito do Alto Alegre. Ele discorre também sobre o caso da Perpetinha e junta novas informações a ele. Cruz diz que ela teria sido tomada como esposa pelo cacique autor do seu rapto e tido alguns filhos com ele. Disse ainda que, muitos anos depois, ela teve a sua identidade descoberta por alguns brancos que a encontraram na tribo em que habitava. E perguntada por que não aproveitava a deixa e se reintegrava ao seu povo, disse que a sua gente agora era aquela, depois de haver constituído família e tido alguns filhos. Não tinha mais razão para retornar à sua família anterior. Olímpio Cruz publicou até mesmo uma foto de alguns indígenas, e entre eles, uma mulher índia com alguns curumins em volta, afirmando ser ela uma das filhas de Perpetinha.
                Terminou dessa foram, com pouco glamour - ou sem nenhum glamour -, a triste história de uma jovem estudante em quem a família depositou todas as suas esperanças de dias melhores, ao matriculá-la em um colégio de alto nível, dirigido por estrangeiros.   

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Heróis, vilões e safadões. E você?


Heróis, vilões e safadões. E você?

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

  
Cantores forrozeiros viram popstars e showmans da noite para o amanhecer, graças a safadas letras, de apologia à bebedeira e ao erotismo esculachado. Shows que ultrapassam 300 mil reais e seduzem o público jovem, engalanado pela beleza, requebrados e letras de pura alienação e mediocridade. Prefeituras não acodem a educação e a saúde do povo, mas se esfolam por um porre musical para engabelar a fome cultural da galera. E o país se arrasta por uma trilha filosófica de hierarquia confusa de valores, em que fica difícil calcular os danos do pesadelo no futuro. E haja heróis de araque na praça.

Quem são os verdadeiros heróis ou mitos, em torno dos quais se juntam multidões de admiradores ou fanáticos? Grupo de cientistas internacionais decidiu realizar uma pesquisa para determinar quais personagens da História são considerados os maiores heróis e vilões em todo o mundo. O estudo, que teve o resultado publicado na revista científica PlosOne, foi feito com base na  entrevista de 6.904 universitários, com média de 23 anos de idade e provenientes de 37 países, entre os quais Argentina, Brasil, Colômbia, México, EUA, Austrália, Paquistão, Coreia do Sul, Índia, Tunísia, Espanha, Itália, China e Japão. Claro que a pesquisa fora realizada em ambiente universitário, portanto de pessoas mais esclarecidas. Foram citados Albert Einstein, Nélson Mandela, Madre Teresa de Calcutá, Thomas Édson, Buda e Jesus Cristo, entre cientistas, escritores, líderes religiosos. Entre vilões, encontraram Adolf Hitler, Osama Bin Laden, Saddam Hussein, Napoleão Bonaparte, Stalin, Lenin.

Fico imaginando se fanáticos comissionados, pendurados em folhas de lagartas estatais, elegessem seus heróis e semideuses. Ou eleitores empanzinados de fajutas promessas e discursos messiânicos. Ou papagaios de piratas, colados à aba do paletó do governante para se destacar na reportagem. Ou os negociadores de cargos públicos. Ou falsos heróis do Big Brother. Ou carnudos bumbuns desfilando na mídia, ganhando fortuna só para desfilar em eventos festivos. Os pesquisadores saíram felizes com o resultado da pesquisa em ambientes universitários. Mas se observassem a cultura de muitos políticos? Se descessem aos guetos e comunidades manobradas por chefões do tráfico, quais heróis encontrariam?

A esquerda tupiniquim elegeu Che Guevara, Lampião, Fidel Castro, Hugo Chaves como heróis populares, dignos de registros em livros de exposições artísticas. Há uma disparidade de opinião sobre vilões e heróis, de acordo com a região, o tempo e corrente filosófica. Bin Laden, um terrorista estigmatizado pelo Ocidente, porém tornou-se herói festejado em grande parte do Oriente Médio. Jesus Cristo é mais divino que herói no cristianismo; perde para Buda em expressiva parte do Oriente. Tudo é relativo, defendeu Albert Einstein, apontado por universitários que estudam suas teorias. Admirar e curtir o talento de grandes artistas, como Caetano e Gilberto Gil, só para a população que conhece arte culta, lê, afina-se com recursos estilísticos. Os menos afiados na cultura têm de se acomodar com arroz com feijão. E aí aparecem os vilões e safadões enchendo os bolsos de grana e pousando de heróis.    

Café Literário apresenta Pablo Neruda & Geraldo Borges


domingo, 8 de novembro de 2015

Seleta Piauiense - Jonas Fontenele da Silva


VESPERAL

Jonas Fontenele da Silva (1880 - 1947)

Erma tarde litúrgica em declínio...
Há no espaço uma estranha barcarola
E o cadáver do Sol em nuvens rola,
0 apunhalado príncipe sanguineo.

Que na terra haja o luto, haja o assassínio!
Mas ao crente amedronta e desconsola
O crime junto aos céus, junto a corola
Das estrelas — as rosas de alumínio.

Logo depois que os mármores vetustos
Desças, ó Noite, do pesar, dos sustos,
Depois que as asas de albatroz envergues,

Há de a Lua surgir pálida e etérea,
A Lua, a triste lâmpada sidérea,
O sorriso do azul para os albergues.