terça-feira, 18 de agosto de 2015

O MORRO DOS VENTOS DA ESPERANÇA


O MORRO DOS VENTOS DA ESPERANÇA

Chico Acoram Araújo

            Meu irmão caçula, o “fim-de-rama”, ligou para mim comunicando-me que tinha mudado de endereço. Tive a impressão, pela sua fala, que estava alegre e feliz. Disse-me que havia vendido sua modesta casa que ficava próximo ao Encontro das Águas, zona norte de Teresina. Já se passaram alguns anos, não me lembro exatamente o ano. Explicou-me que a motivação da venda do seu modesto imóvel se deu por conta de que, ultimamente, estava se sentido muito só, apesar da companhia de seus dois filhos adolescentes, órfãos desde crianças, desde quando a mãe sofrera um fulminante e fatal infarto. O golpe foi cruel. O lar já não era o mesmo. As feridas demoraram por muito tempo para cicatrizarem-se. Decidiram, ele e os filhos, morar no bairro em que outrora viveu com seus pais e irmãos: o Morro do Urubu ou o eufêmico Morro da Esperança. No morro, disse-me ele, ainda residem alguns parentes e amigos; aqui, não os tenho. Lá, quando o dia alumia, o canto mavioso dos pássaros (não a dos negros garis alados) ainda se ouvem; e quando escurece a gente reza uma prece pedindo à Deus saúde e proteção. E, vez por outra, fazemos promessas à milagrosa alma do finado motorista Gregório.

Respondi-lhe que estava de pleno acordo com sua decisão de morar onde nossa família viveu por muito anos, e que eu iria visitá-lo no próximo final de semana.  

            Para me orientar quanto ao seu novo endereço, meu irmão perguntou se eu ainda lembrava naquele estreito e poeirento beco, de cerca de 100 metros de extensão, que ficava no sopé do morro, próximo ao rio Poti, entre as ruas Manoel Domingos e Alcides Freitas, que era usado como atalho do acesso para um pedaço de rua onde ficava a casa de nossa família. Respondi afirmativamente. Como poderia não lembrar daquela travessa que, na adolescência, era a rota obrigatória para eu ir para Escola Industrial, hoje IFPI? Como esquecer que, ao transitar por aquela passagem, meus sapatos pretos, de grossos solados feitos de couro de boi, ficavam empoeirados, necessitando de uma caprichosa limpeza antes de entrar na escola?

Indagou-me ainda se eu lembrava de certo pé de cajá existente no citado beco. Como esquecer aquela saudosa árvore que, ainda muito cedo das manhãs, eu e os meninos que moravam nas imediações corríamos, o mais rápido possível, para pegarmos seus deliciosos frutos caídos ao chão durante a noite? Como não recordar que, nas noites de lua cheia, ouviam-se dizer que um macaco preto ou lobisomem trepava-se velozmente naquela velha cajazeira? -Diziam que essa visagem era um velho negro que morava na redondeza, e que em noites de lua grande e brilhante se transformava nesse medonho animal que assombrava crianças e adultos que por ali passavam - Naquele lugar, era hábito comum as pessoas, em noites de lua cheia, passarem em tubada carreira; e esse também era o meu caso, não vou mentir!

A exposição desse cenário, de saudosa memória, aconteceu no período dos três últimos anos da década de 60. Meu mano, encerrando o diálogo, informou-me que aquela velha casa, ao lado do mencionado pé de cajá, era agora o seu lar. Muito fácil de encontrar, não é? No sábado seguinte fui visitar meu estimado irmão.

            Beco da travessia: passado e futuro. Travessa de duas extremidades. De um lado, a esperança, o caminho que dava acesso às “coroas” dos rios Poti e Parnaíba; aos campos de futebol de várzeas. Ao morro, não o do urubu, “mas o do “Querosene”, como também ao “Moi de Varas” e “Paissandu”. Vereda que me levava a minha escola, ao Teatro 4 de Setembro e Cine Rex.  Que ia também ao centro, à Universidade e a todos os lugares da cidade. Atalho que me conduziu ao do sucesso, ao emprego público federal e à estabilidade financeira. Caminho das oportunidades e das melhores condições de vida. Do outro lado, o portal da pobreza, o atraso, dias difíceis, a fome, a indolência, a moradia precária, as doenças, a violência – a desesperança. O poeta Elmar Carvalho descreveu bem aquele ambiente em seus versos que retratam a vida real do Morro do Urubu, em seu livro Rosa dos Ventos Gerais, que a seguir transcrevo:

POSTAIS DE TERESINA
...
POSTAL III
O Morro do Urubu
se muito foi terá sido
morro do urubu chumbado, morro do
urubu chagado, sifilítico e faminto.
O Morro do Urubu
hoje é Morro da Esperança.
Esperança de quem?
Daqueles que nada esperam
em sua ab/so/luta miséria.
Morro da Esperança?
Morro dos bastardos da vida,
dos pobres, dos desvalidos.
Morro da morte matada,
morro da morte morrida,
morro da morte em vida:
morro da (des)Esperança.
           
A fagueira tarde daquele sábado estava magnifica. É possível que estivéssemos em meado de março ou abril, pois nos galhos daquela velha cajazeira ainda se via alguns resquícios de seus saborosos frutos. Como se sabe, a safra do cajá ocorre nos meses de fevereiro, março e abril.

Uma leve brisa oriunda do rio Poti batia nas encostas do morro e escorria suavemente sobre as copas das árvores existentes no lugar. Nesse momento, ouvi um ruflar dos frondentes galhos do hospitaleiro pé de cajá. Este nos abrilhantava com sua majestosa sombra. Sob esse chapéu protetor, eu e meu irmão conversávamos animadamente sobre fatos ocorridos na época em que nossa família residia no Morro do Urubu. Tudo isso em razão da grave crise financeira que meu pai atravessou, e que marcou profundamente as vidas do casal e de seus seis filhos. Foi essa, a razão da mudança da nossa família para o Morro Urubu. A nova morada era uma pequena casa de paredes de taipa e cobertura de palha de palmeira do babaçu, situada na ribanceira de um grotão, no final da Rua Alcides Freitas. Antes, morávamos em uma modesta e confortável casa na Rua Palmeirinha, hoje Alcides Freitas, no centro da cidade. Mas, isso é uma outra história; quiçá eu conte em uma outra oportunidade.

Um clima de nostalgia nos acalentava, quando ouvi que algo tinha caído junto aos meus pés. Era um robusto fruto daquela velha árvore; um precioso cajá que, de incontinenti, peguei-o em minhas mãos. Meu irmão, vendo-me de posse do meu achado, entrou em sua casa e, de volta, trouxe para mim uma caprichada dose de uma dourada cachaça Mangueira. Brindamos. Divertimo-nos bastante. Estava quase noite. Despedimo-nos. Ao sair do mitológico beco, senti em meu rosto um pouco da brisa ainda resvalada pelas escarpas do Morro do Urubu. Da alma e do meu coração: o Morro dos Ventos da Esperança.                  

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Com Elmar Carvalho, na “Toca do Velho Monge”


Paulo de Tarso Mendes de Souza, Natim Freitas, Canindé Correia, Zico, José Hamilton Castelo Branco, Elmar e Fátima Carvalho
Elmar visto pelo chargista e flamenguista Gervásio Castro


Com Elmar Carvalho, na “Toca do Velho Monge”

Dagoberto Carvalho Jr.
Da Academia Piauiense de Letras

Encontro-me, reencontro com o poeta, “doutor-juiz”, confrade na ilustre Casa de Lucídio Freitas,José Elmar de Melo Carvalho, piauiensemente, na “Toca do Velho Monge”. Não em sua poética casa de campo – ou, talvez, só “refugiumpecatorum” (como sofrem, ou às musas, de corpo e alma, se entregam os poetas –,no sítio Filomena, à margem idílica de nosso eterno e inspirador Paraguassu; mas no novo livro que lhe toma o nome e as saudades da vida inteira, reunindo crônicas que “sabem”(dizemos portugueses referindo-se a “sabor”), à boa linguagem poética.
Conhecemo-nos bem antes da “Toca” de que se fala e exalta onde, decerto, Elmar viverá “a esperança de óculos” – como na letra (Zé Rodrix / Tavito), de bela canção interpretada por Elis Regina –; antes da magistratura profissional (que abraçou com dignidade e o levou a Oeiras) e da chegada do poeta (cedo consagrado) à Academia Piauiense de Letras, com o voto do cronista que se antecipava confrade, na ilustre casa; por apresentação do escritor Antônio Reinaldo Soares Filho,meu cunhado e amigo de ambos.Autografei-lhe, então, exemplar de “Passeio a Oeiras”; livro de cuja sexta e mais recente edição foi prefaciador. Belo texto datado de São Gonçalo da Regeneração.
Velha-cap que seria segunda terra do poeta campomaiorense, sua “cidade da memória”, porquanto ali, inspirado, escreveu “Noturno de Oeiras”, livro-poema que lhe garante a conterraneidade de que muito nos orgulhamos – os oeirenses todos – e o elevado conceito humano e literário em que sempre o tivemos. “Noturno” a que não me deixo de associar pelo motivo, mesmo, de nossos livros basilares;que teve edição apresentada na cidade em dezembro de 2010, no IBENS, pelo também escritor Moisés Reis. Não por acaso no encerramento do ano em que fui homenageado pelo projeto “De poeta, músico e louco, em Oeiras todos tem um pouco”. Sobre o evento, escrevi “Moisés Reis, Elmar e o Natal de Oeiras”, incluído no meu “De lembrança em lembrança – Eça de Queiroz e outras memórias”.
Por lá também apareceu como editor e apresentador de livro de ensaios de Expedito Rêgo, registrada – na quarta capa – modesta opinião do signatário. Estive presente à merecida festa literária.
Mas, voltando e prendendo-me ao novo livro de Elmar Carvalho – renovada a admiração de leitor com pretensão e lentes de crítico – destaco, além, naturalmente, do texto sobre o “mafrensino” Riacho da Mocha, os títulos: “Rio Parnaíba: problemas e soluções”, “Lagoa do Portinho – uma morte anunciada”, “Preservação e revitalização do
Rio Parnaíba”, “Cemitério Velho – museu e memorial” e “O sonho de Lauro: a ferrovia, o rio e o porto”. Literatura com responsabilidade social.
Bem haja meu caro poeta!

Fonte: Diário do Povo (Opinião), Teresina, 16 de agosto de 2015

domingo, 16 de agosto de 2015

TERESINA, ETERNAMENTE! – Depoimento de um filho adotivo


TERESINA, ETERNAMENTE! – Depoimento de um filho adotivo
                                                       
José Pedro Araújo
Historiador, contista, romancista e cronista


         Lá pelos idos de 1966, me deparei pela primeira vez com a tua magnifica visão. Foi paixão à primeira vista, amor eterno. Fiquei extasiado com a beleza retilínea das tuas ruas; com a simplicidade agradável das tuas arborizadas praças, e com o sentimento de compenetração dos teus felizes habitantes. Naquela época, meus olhos jovens encantaram-se com o frescor da tua mocidade, e meus ouvidos se apaixonaram pelo som alegre que brotava do interior das tuas moradas. Foi pura emoção, primeiro encontro entre amantes. Paixão eterna e indissolúvel, como alguém que se encanta em sua primeira olhadela para o mar.
Naqueles dias o mundo se encantava também com um grupo de jovens nascidos em Liverpool, na Inglaterra, que cantava palavras de ordens incitando a juventude a quebrar as velhas regras e a criar um mundo em que só existisse a paz e o amor.
Aqui, como em todos os cantos do planeta, teus jovens cabeludos também lançavam fora suas roupas sisudas e incolores e vestiam-se com outras em cores vivas e berrantes, como a avisar para a humanidade que não aceitavam mais a velha ordem estabelecida, e que se insurgiam contra o arcaico sistema patriarcal. E olha que já estávamos no terceiro ano de um governo militar que instalava uma linha duríssima, fechando as fronteiras do país a toda e qualquer novidade que pregasse a insubordinação e a adoção de uma nova ordem onde o cidadão fosse de fato o dono do seu nariz.
Mas eu não estava nem ai para as questões políticas, de endurecimento do sistema ou de cassação dos direitos mais comezinhos do ser humano, que é a sua liberdade de ir e vir, e de falar o que sente; dizer o que estava doendo em meu peito de ave de arribação não estava entre as minhas prioridades. Antes, continuava embevecido com o teu desabrochar primaveril, com a elegância de teu caminhar em direção ao futuro de metrópole sem perder o ar de vila interiorana.  Preocupava-me em caminhar pelas tuas ensolaradas ruas; em contemplar as cores dos teus jardins em flor; embriagava-me de felicidade ante as coloridas bancas de revista, mais interessado nos gibis do Zorro do que nas dirigidas notícias dos jornais engarrotados. 
De lá para cá já se vão quarenta e sete anos e eu continuo cada vez mais apaixonado pelo verde do manto de folhagem que te cobre inteira, e pelo azul metálico do véu que cobre o teu céu. Continuo me emocionando com as manhãs douradas de maio, com o vento geral que varre a tua planície de sonhos para depois subir cantante pelos teus morros de esperança. Regozijo-me à vista de aves que, como eu, escolheram esta cidade para fazer a sua morada definitiva, seu lugar de descanso e de labor, em busca de serena sobrevivência.
Ainda estou por aqui por que te escolhi como minha ilha de Utopia, e porque me deste acolhida como o bom estalajadeiro aceita o viajante cansado que procura abrigo para fugir do sol inclemente e dos perigos da noite escura. Já não és mais a cidadezinha com ares provincianos e compenetração de megalópole que eu conheci. Cresceste verticalmente, e extensas ruas e avenidas foram incorporadas ao teu seio de mãe dadivosa, mas continuas faceira e gentil, acenando convidativa para tantos quantos têm a felicidade de contemplar a tua face de menina assanhada.
Por conta disto, continua chegando gente de outras plagas que procuram matar a sede bebendo das tuas águas cristalinas, e aplacam a fome comendo das delícias da tua mesa farta. E tu as aceita sem resmungos, sem cara feia, dividindo as tuas riquezas e somando mais um filho para dares proteção.
Se alguns te criticam por querer ser a eterna menina cantada pelos poetas e trovadores, pelos poderes a mim conferidos pela felicidade de morar no teu regaço, eu te declaro a mãe-menina de todos nós.

Como todo filho, sou também egoísta, e me esqueci de te homenagear-te no dia consagrado às mães. Mas agora me penitencio pelo erro cometido declarando-te todo o meu amor e respeito: Parabéns Teresina!  

E-Book “Bernardo de Carvalho” disponível na Amazon

           
E-Book “Bernardo de Carvalho” disponível na Amazon

Encontra-se disponível no site http://www.amazon.com.br/ uma edição revista, melhorada e substancialmente aumentada do livro “Bernardo de Carvalho, o Fundador de Bitorocara”, da autoria de Elmar Carvalho. Foram incluídos novos textos no anexo, sobretudo versando a história e o patrimônio natural e arquitetônico de Campo Maior. Nela foi inserida a obra poética Cromos de Campo Maior.

            A obra historiográfica faz referência, ainda que de forma sucinta, a três importantes personagens históricos de nosso município, quase totalmente esquecidos pelos campomaiorenses. São eles: Simplício José da Silva, herói da luta contra Fidié, Raimundo Gomes Vieira Jutaí, liderança e estopim da Balaiada, e o senador José Eusébio de Carvalho Oliveira (Campo Maior, 10 de janeiro de 1869 — 25 de abril de 1925), que foi deputado federal e senador da República durante 25 anos.

            Apresenta várias sugestões com relação ao patrimônio natural e arquitetônico de nosso município, notadamente referentes aos antigos casarões, ao cemitério velho, Açude Grande e horto florestal do Surubim.

            Traz novas e mais aprofundadas informações sobre Bernardo de Carvalho e a sua quase mítica Bitorocara, em virtude da aquisição de novos livros, a que o autor só teve acesso após a sua primeira edição, inclusive com a inclusão de dois novos capítulos.   

O POETA É UM SER HUMANO


O POETA É UM SER HUMANO

Alcione Pessoa Lima

Por que a sofreguidão se desejo apenas escrever um poema?
Talvez seja porque a alma é tão pequena
E eu não alcance a mão de Deus.
Eu preciso merecer o sopro da lucidez...
Achar o caminho da mensagem que quero passar.
Faltam-me as ferramentas.
Observando a vida, o ser humano me surpreende...
Não consigo vê-lo tão simples como o percebem os poetas.
Preciso de metáforas para não revela-lo desnudo...
E num contraste, escancaro o seu coração benevolente.
As palavras se escondem.
Não é a reencarnação de um vate.
Tampouco uma psicografia...
São garranchos de minha caligrafia ilegível...
Compreensível, apenas, por farmacêuticos da alma.
E se antes nasce a ideia, ainda assim, não se libera a mente...
Até que, de súbito, como uma explosão,
Cai sobre mim uma enxurrada de argumentos...
E eu ultrapasso a angústia da construção...
Levanto-me feliz, embora ainda insatisfeito com a obra.
Sinto-me verdadeiramente humano.    

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Lançamento de livros na APL


A Academia Piauiense de Letras tem o prazer de convidar V. Exa. e distinta família para o lançamento da Assinatura de Coleção Centenária e os  seguintes livros: Palimpsestos nº 41 – 2ª edição, de João Cabral – da Coleção Centenário; APL: Estatutos, Regimento Interno, Acadêmicos e Breve Histórico; de Nildomar Silveira (org.), bem como Mitos e Legendas da Política Piauiense – 2ª edição, do Acadêmico Wilson Nunes Brandão e Acertando na Mosca, de Deusdedit Machado Moita.


Nelson Nery Costa
Presidente
                                                                     

RIQUEZA HUMANA


RIQUEZA HUMANA

Jacob Fortes

Quando se fala em riqueza do homem as mentes, enraizadas na ambição e, portanto, materialistas, se endereçam prontamente aos bens palpáveis, suscetíveis à escrituração; aqueles que despertam a cobiça da Receita Federal. São, na essência, bens imóveis, semoventes, contas polpudas, veículos, navios, etc. É desses bens que são feitos os colares que, pendurados ao pescoço, demarcam as eminências, algumas com aparência de virtude. Cada colar corresponde a um crachá, que transmite o sentido da reverência, da honraria, da distinção. O tamanho da honraria se mede pela natureza das contas do rosário: bronze, prata, ouro, diamante. Há colar que vale um pão dormido, outros o Pão de Açúcar.

Porém, perante as mentes espiritualistas, despidas de ambição, as riquezas de maior valimento são as impalpáveis, incontabilizáveis. É o caso da saúde; insuscetível à escrituração e penhora. Há, também, a virtude, a bem dizer a honra; aquela que, destemerosa e altiva, atende ao chamado de qualquer autoridade, inclusive de Sérgio Moro e Joaquim Barbosa. A honra exprime desejado passaporte; vale até no estrangeiro sem necessidade do “revalida”. Também nesse grupo não se se pode esquecer a família; cujos laços afetivos têm a serventia de estear a vida das pessoas, sob os mais diversos aspectos. Consideremos, também, a qualificação; que habilita ao exercício de funções. Incluamos, ainda, o trabalho; que sublima o homem e faz crescer pessoas, comunidades e nações. Outro bem impalpável de grande valimento é a religião; que modela e impõe frei.  De poderosa valia é a liberdade, plena, sem as limitações das guias, símiles à dos cães: libertos na vida alegre dos campos.

Ao registrar, sob a generosidade do silêncio, a nominata, exígua, das riquezas, proponho ao leitor que tome o alvitre, se possível, de ampliá-la e que os acrescentamentos me venham breve. É que nesse metiê me vejo no banco dos atrasados.    

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

MINHAS PUBLICAÇÕES NA AMAZON



13 de agosto   Diário Incontínuo

MINHAS PUBLICAÇÕES NA AMAZON

Elmar Carvalho

Alguns meses atrás, tentei publicar um livro pelo sistema KDP da Amazon, mas tive algumas dúvidas no preenchimento do cadastro, de modo que desisti. Contudo, no dia 22 de julho, ao ligar para o amigo e escritor José Pedro de Araújo Filho, recebi a notícia de que ele havia aprendido a manejar essa ferramenta de editoração virtual.

No telefonema ele gentilmente se colocou à minha disposição para me ensinar a fazê-lo. Na época estava aberto o concurso de contos Brasil em Prosa, parceria da Amazon, Samsung e jornal O Globo, razão pela qual combinei com ele que no dia seguinte escreveria um conto, já que não tinha nenhum inédito, para que ele me ensinasse a inscrevê-lo no certame e publicá-lo no dia seguinte.

Tudo aconteceu na forma acordada. Pela manha escrevi o conto A mulher perfeita, e lhe enviei por e-mail. Passando um pouco das três horas da tarde cheguei a sua residência, onde o José Pedro me ensinou a publicá-lo pelo sistema da Amazon/Kindle.

Quando voltei para casa, ainda com os ensinamentos bem vivos em minha memória, para melhor fixá-los fiz uma postagem sozinho, e não tive maiores percalços. A relativa dificuldade fora somente no preenchimento do cadastro, em virtude de dúvidas burocráticas que tive, principalmente com relação a alguns termos ou expressões; mas nada de monta. Tratava-se apenas de zelo fiscal da empresa.

Desejando partilhar essa importante conquista, na reunião de sábado da Academia Piauiense de Letras, contei essa experiência aos confrades. Acrescentei que desde minha aposentadoria, em 19 de dezembro passado, uma sequência de boas coisas me tinha acontecido. Tanto que, indagado pelo amigo desembargador Santana sobre como estava me sentindo após a aposentadoria, respondi-lhe que era muito motivado em meu serviço, e que gostava de meu trabalho na magistratura, mas que, uma vez aposentado, estava gostando mais ainda.

Várias colegas se mostraram interessados em minha explanação. Por tal motivo, o presidente Nelson Nery Costa pediu-me para falar sobre esse assunto com mais detalhes e profundidade na próxima sessão ordinária. Entre outras vantagens, expliquei-lhes que a publicação era gratuita; que o ebook ficava à disposição de qualquer eventual leitor no mundo todo; que o livro ficaria no acervo da empresa por tempo indeterminado, talvez vários séculos; que os e-books não seriam devorados ou prejudicados por traças, cupins, goteiras, sujeiras e falta de espaço físico, males que assolam quase todas as bibliotecas e livrarias.

Por enquanto, já tenho disponível à venda na Amazon (www.amazon.com.br), pelo preço de um a três dólares os seguintes livros: A mulher perfeita (conto), A constante de Deus (conto), Cromos de Campo Maior (verso e anexo em prosa), Na toca do Velho Monge e outros textos ambientais (crônicas), O pé e a bola (histórias e crônicas sobre o futebol piauiense), Poemas escolhidos (antologia) e Vida in vitro (poema). Publiquei ainda Dois estudos sobre Confissões de um juiz, da autoria de Alcenor Candeira Filho e Cunha e Silva Filho, que discorrem com exemplar maestria sobre meu livro confessional.

Estimulado por essa valiosa ferramenta de editoração, estou organizando meus textos, que se encontravam dispersos, em forma de pequenos livros, que estou expondo à venda por módicos preços. Evidentemente, aos poucos, irei publicar os que já foram dados à estampa na modalidade impressa.


Estou desconfiado de que as minhas publicações na Amazon serão amazônicas, decerto não na qualidade, mas ao menos na quantidade, embora não me considere prolífico e muito menos prolixo.

YSA


YSA!


Ysa,
Aquela que me acalanta, inebria, acalma e tranquiliza.

Ysa,
Aquela cuja presença é doce, leve e suave como a brisa.

Ysa,
Aquela que é sinônimo de bem-estar, sol, mar, estrela, arco-íris e luar.

Ysa,
Aquela que é gostosa como cheirinho de chuva, que, junto com o friozinho e orvalho da madruga - olhando para o céu, as estrelas e a lua -, vem me roubar inesquecíveis momentos de colo e de volúpia.

Ysa,
Lembrar de teus beijos, afagos, abraços e carícias, instantaneamente, me faz desejar  cada pedaço de você, minha delícia.

Ysa,
Aquela de sorriso encantador, olhinhos fofos e pele macia, ter você em meus braços me traz tanta paz e alegria.

Ysa,
Menina-mulher, sabe ser delicada e adorável, mas também, quando quer, sabe ser safada e quase indomável.

Ysa,
Aquela cuja distância me fragiliza, me adoece e, não raras vezes, me faz prantear pela dor imensa da saudade e necessidade de sua ternura para, na primeira oportunidade, me perder no seu olhar e em sua formosura.

Ysa,
Aquela que, de tanto pensar, de tanto lembrar e de querer comigo, me induz a uma saudade em que cada vez mais me martirizo;

Ysa,
Não és poetisa, mas me inspira como ninguém a recorrer a versos e prosas que me levam a mais profunda nostalgia de desejar você, mais e mais, e poder ancorar de vez em você meu cais.

Ysa,
Nome curto, hoje tão familiar, de apenas três letrinhas, porém com significado enorme que, se, paradoxalmente, me faz tão bem, por outro me agoniza e, inevitavelmente, evoca a inquietante pergunta: por que, por que, por que não te “eternyzas”?


                                                 MARCO TALES

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Carta a um aniversariante ilustre: Cunha e Silva (1905-2015)


Carta a um aniversariante ilustre: Cunha e Silva (1905-2015)

  
                    Rio de Janeiro,  03 de agosto de 2015


        Querido pai:

          
           Antes de tudo,  me permita  por esta  relembrá-lo de que hoje é a data do  seu 110º aniversário de nascimento.O Sr. não  a esqueceu, sim? Espero que não e sei que outros familiares já manifestaram no Face  que hoje é dia  diferente,  dia de festejá-lo ainda que  pela dimensão  do espírito, a qual  -  seja dita  essa verdade -,  ao fim e ao cabo,  é o que vai  mais importar  entre a terra e o céu.
        Tendo  passado alguns meses fortemente concentrado na esfera das minhas  memórias,  e tendo  terminado  um novo  livro, Apenas memórias,  já pode  verificar que  a sua presença   encantadora, em várias passagens  da obra,  tem lugar  sobranceiro por muitos motivos,  principalmente pelo amor  que sempre   manifestei  por sua  pessoa.
         Fomos dois  grandes amigos, na inocência de dois anos em Amarante, na adolescência  durante quinze anos em Teresina e, através de  uma  longa correspondência de mais de duas décadas, com  algumas poucas   visitas minhas  a Teresina e duas visitas suas  ao Rio.
           Quis,  contudo, o destino  que vivêssemos  separados pela distância  entre o Rio – cidade que tanto  amou e nela permaneceu estudando  por seis anos  -  e Teresina. O único  consolo  foi  a nossa  longa correspondência por escrito com tantas  cartas, mais suas do que as minhas,  trocando   carinhos,  elogios,  contando  os sucessos seus e  eu relatando os meus, numa amizade  que  crescia com o passar dos anos  e com a chegada da minha  mocidade  que o Sr. conheceu  em  boa parte,  não o suficiente para   ver meus  maiores sonhos   realizados. Pelo menos   um dos desejos que almejava para seu filho  -  fazer o mestrado  - se concretizou
         “Filho, quando vais fazer o mestrado, quero  te ver  professor universitário.” Não sabia, meu pai, que só  um ano depois, em 1991,  ingressaria eu  no mestrado.
         A dor  maior  por mim sentida foi  me ter deixado na conturbada   Terra sem que lhe pudesse dar o último   beijo na testa amada e envelhecida  à altura dos seus oitenta e cinco  anos,  o último abraço forte,   o último aperto  de mãos -  apertar aquelas mãos   lindas que  tinha, as mais lindas de Amarante, enfim,   o último   olhar     pedindo a Deus que o Sr.   não me deixasse só, no estado de abandono  e solidão   absoluta e inconsolada.
         Mas, nesta carta agora,  pai,  há outras coisas que,  bem sei,  foi bom que não  presenciasse e delas não participasse como  jornalista combatente e intrépido.Ainda bem que a sua saída da cena da vida brasileira o poupou de assistir a tantos  dissabores da política brasileira, sobretudo  dos mais  escandalosos acontecimentos  do baixo clero  da  politicagem que o país tem vivido no domínio  petista.
        Certeza tenho  de que  não ia  aguentar calado  à derrocada ética e à patuscada  preparada  nos circos mambembes  que se instalaram  nos centros do poder, lá em Brasília. Bem fez a Providência  que o livrou  de  tanta podridão disseminada  pelos quatro cantos do país manifestada  em  várias   formas: impunidade,  violência  gigantesca  e sem perspectiva de solução,  delinquência juvenil sem  redução de maioridade pelo menos  por  tempo  determinado, economia   escangalhada  por culpa  da roubalheira  do desvio do dinheiro  público, volta da inflação ( com aumentos  escorchantes dos preços dos remédios,  da alimentação,  das tarifas gerais),  cujos efeitos  deletérios já se fazem sentir nas camadas baixas e médias da sociedade, juros altos  determinados  pelo  governo  federal, onda de     desemprego, fechamento  de lojas  por falta   de compradores, em suma, sinais de recessão.
        Veja o exemplo, no Rio de Janeiro, de velhas lojas da Rua da Carioca fechando as portas.Veja a  política de ajuste fiscal    com mão de ferro a fim de  tapar  os buracos   da arrecadação  em declínio e, por tabela,  para  cobrir, com  o sacrifício  forçado  do contribuinte,  os rombos  das estatais  das quais  saíram  as milionárias  propinas  para encherem  os bolsos  ou as contas  milionárias  de partidos que apoiam   o governo federal     e políticos  corruptos.
        O Sr, meu pai,  que passou  por prisão  durante a ditadura  Vargas,  por  longos anos   de  ditadura militar-civil, por períodos de normalidade  democrática, não alcançou os dias mais perversos  da ditadura  econômica,  dos escândalos do Mensalão, dos assaltos  à Petrobrás   e da mais  deplorável   situação de decadência ética da vida  pública brasileira. 
       Jamais, meu pai, iria  imaginar que pudéssemos   chegar a este ponto em que nos encontramos, não por nossa  causa, mas  por culpa da   imoralidade de práticas  atuais de   nossa política, as quais   definem os modos de governança  feitos à base de barganhas mútuas entre o governo federal  e os partidos sem princípios democráticos firmes.
        Se o Sr. se encontrasse ainda entre nós,  teria, assim,  que redobrar  e retemperar  a sua retórica de jornalista desassombrado, cuja trajetória  esteve  quase sempre na oposição e, portanto,  foi vítima no seu tempo  de  perseguições ao ponto de ser demitido  de um  famoso colégio  público em Teresina  por um  governador  do Piauí a  quem  combatia com muita coragem os erros e injustiças de administração.Com muitos filhos para criar, sofreu aflições  e privações e, se não fossem uns poucos amigos, as atribulações seriam  ainda piores. Com ânimo forte,  aguentou todos  os percalços e  infâmias  dos governantes desafetos.
      O Sr., meu pai, grande e bravo  jornalista, segundo A. Tito Filho (1924-1992), outro ilustre jornalista e intelectual  do Piauí,   nunca “baixou o topete” diante dos poderosos,  e,  na história do jornalismo  piauiense,    provavelmente tenha  sido  o jornalista  mais  prolífico do seu estado natal.
    Sendo um jornalista  que sempre  escreveu  freneticamente  à mão (sem nem mesmo   ter aderido à máquina de escrever) e ao correr da  pena, não pôde  alcançar a era do computador, da internet,  dessa maravilhosa e gigantesca    enciclopédia  virtual de âmbito universal, que é o Google,  das celulares, do tablets, dos e-books.
    Porém,  estou certo de que  essas conquistas  do mundo eletrônico  teriam a sua aprovação,  pois sempre foi  um homem que tanto  amava as humanidades quanto  as ciências, como é prova  o   belo discurso de posse, na Academia Piauiense de Letras, da cadeira  nº 8 que,  pelo seu talento e suas qualidades de  intelectual,  soube  conquistar e  tão bem  dignificar  como  escritor.
   Aceite, meu querido pai, os cumprimentos   pelo seu  110º aniversário de  nascimento.
       Com as saudades do filho
   

                              Cunha e Silva  Filho

Café Literário apresenta Marçal Aquino e Mariana Mendes


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

DOIS PALHAÇOS


DOIS PALHAÇOS

Chico Acoram Araújo
Servidor público, contador, contista e cronista

                Festinha de aniversário da minha neta Gabriela, que completara seus dois primeiros anos de idade. Ela estava muito feliz e radiante; uma linda princesa. O terraço da casa estava lotado de convidados, a maioria crianças de idades indefinidas. Uma algazarra alegre reinava no ambiente. Um palhaço, que a convite de minha nora veio para animar a festa, fazia suas graças e brincadeiras no meio da criançada, e ganhou de imediato a atenção da galerinha. Mas os adultos davam também boas gargalhadas em razão dos trejeitos do artista de circo. O palhaço, de nome Pipaco, era o protagonista do evento, enquanto a aniversariante, uma alegre espectadora. Expondo-se ao ridículo, aquele artista divertia a todos com grande maestria. Além da característica bolota vermelha no nariz, dos sapatos extravagantes, das roupas bufantes e coloridas, e de uma peruca espalhafatosa, portava um enorme bundão acolchoado por dois grandes balões de látex. Muito engraçado. Juntamente com as crianças, o artista cantava, dançava, pulava, além de transformar um tipo de balão comprido em figuras das mais engraçadas tais como bicicleta, óculos, animais etc. Isso durou até que foi dada a ordem para entoarmos os parabéns à aniversariante, que apagou as duas velinhas, antes de começarem a repartir o cobiçado bolo. Momento apoteótico. Uma bela festa, para uma bela dama.
Assim como as demais crianças, minha neta transbordava alegria e felicidade; agora ela era a estrela do espetáculo, e o palhaço um mero coadjuvante. Pouco antes, o artista circense dera como encerrada a sua apresentação, sumiu de cena, sem se ausentar do ambiente.
                Passadas as horas, a criançada acalmou-se um pouco, não mais estava tão assanhada; a gritaria amenizava, creio que o cansaço abateu-se sobre a maioria delas; algumas até já se mantinham quietas no colo do pai ou da mãe. Outras, poucas, continuavam a brincar, mas sem a mesma animação de antes. Os convidados agora quase tomavam conta da festa, mantendo-se animados e alegres, conversavam e sorriam. A patuscada continuou, pois o estoque de petiscos e bebidas estava garantido por mais algum tempo. Eu e minha esposa estávamos sentados a uma mesa próxima ao portão de entrada da casa, e junto conosco, o meu filho e a minha nora, os pais da aniversariante, juntamente com um casal de amigos convidados, que minutos atrás tinha sido convidado a sentar-se conosco. E ao lado daquele casal, encontrava-se também seu filhote, um menino que aparentava ter cerca de três anos de idade.  Os anfitriões mantinham uma conversação mais efetiva e divertida com aquele casal, especialmente com o moço que, assim como meu filho, devia beirar os 28 anos de idade, não mais do que isso. Brincalhão, o rapaz tinha a cor parda, estatura mediana, e os cabelos crespos e cortados rente. Já a esposa, possuía altura um pouco menor do que o marido, era morena, e tinha o rosto redondo, com traços delicados. 
Enquanto eles conversavam, lembrei-me de perguntar a minha nora pelo palhaço que há pouco tinha agraciado a criançada e adultos presentes com um belo e divertido espetáculo. Eu tinha certeza que o artista estava ainda presente na casa, pois não vi ninguém saindo, uma vez que, como disse, achava-me bem próximo ao portão de entrada. Minha nora, sorrindo para mim, indicou, com um gesto de cabeça, o mencionado rapaz que nos fazia companhia naquele instante. Também sorri, acanhado com o meu pouco poder de percepção. Pois para mim, o rapaz não era o palhaço; o palhaço não era o rapaz: nada existia que os assemelhasse. Mas, por trás daquele simpático jovem, existia um palhaço. Um palhaço que sustentava o rapaz e sua família. Um homem que ganhava a vida fazendo palhaçada, evidentemente, no sentido original da palavra.  Soube, mais tarde, que ele ajudava a animar um programa de televisão bastante prestigiado pelo público infantil de Teresina e adjacência. E que trabalhava também como “freelancer” e “merchandaiser” em lojas comerciais, bem como em shows e eventos familiares.
Após conhecer um pouco mais da vida daquele ilustre palhaço e chefe de família, meus pensamentos voltaram para qualquer dia de um ano letivo em meado dos anos 60. Nesse dia, o sol, resplandecente, estava quase sumindo no horizonte, do outro lado do rio Parnaíba. A aula acabara de encerrar quando, ao sair pelo portão do Grupo Escolar João Costa, situado na Rua Jônatas Batista, bem ao lado do Estádio de Futebol Lindolfo Monteiro, ouvi vozes estridentes que vinham da rua da antiga Cadeia Pública, hoje transformada em uma feiosa praça que serve como ponto de venda de veículos usados. Parei, olhei e aguardei um pouco. Instante depois, vi um grupo de pessoas caminhando em passos rápidos, porém, sem correria. O grupo era formado por um palhaço e duas dezenas de crianças e adolescentes. E o palhaço ia na vanguarda, declamando e puxando o coro. Este artista do picadeiro era uma espécie de pregoeiro de um circo que acabara de erguer suas imponentes lonas em um terreno baldio, de chão duro e avermelhado, situado no lado sul do mercado central, hoje Praça da Bandeira. Referido logradouro servia de campo de futebol, onde acontecia constantes torneios com os times existentes nas imediações. Quando um circo se instalava no local, as atividades futebolísticas eram suspensas, temporariamente.
O pregoeiro do circo declamava mais ou menos assim:
Hoje tem espetáculo?
Tem, sim sinhô.
É às oito da noite?
É, sim sinhô.
Hoje tem marmelada?
Tem, sim sinhô.
Hoje tem goiabada?
Tem, sim sinhô.
É de noite? É de dia?
É, sim sinhô.

Aproveita moçada!
Dez tostões não é nada!
Sentadinho na bancada!
Pra ver a namorada!
E a criança que chora?
É que qué mamá.
E a mulhé que namora?
É que qué casá.
Mas o palhaço, o que é?
É ladrão de mulhé.
E o palhaço, o que é?
É ladrão de mulhé.
E o palhaço, quem foi?
Foi ladrão de boi.

Papai, mamãe, venham ver titia
Tomando banho de água fria.
Papai, mamãe, venham ver vovó
Tomando banho de água só.
Papai, mamãe, venham ver Loló
Tomando vinho com pão-de-ló.

E a moçada na janela?
Tem cara de panela.
E a nêga no portão?
Tem cara de carvão.
Hoje tem forrobodó?
Tem, sim sinhô.
É na casa da vó?
É na sua, é na sua.
Hoje tem arrelia?
Tem, sim sinhô.
É de perna-de-pau?
É de blau-blau-blau.

Oh raio, oh sol, suspende a lua!
Olha o palhaço no meio da rua!

E o palhaço, o que é?
É ladrão de mulhé!
Viva a rapaziada sem ceroulas!
Vivaaaa!!!!!

Como toda criança, fiquei deslumbrado com aquela divertida procissão. Meu coração acelerou em êxtase. Minha alma se abateu; meus sentidos se desprenderam naquele momento, absorvendo-me em um enlevo e contemplação interior.  Uma força invisível me empurrou ao encontro daquela gente. Apressei os passos. Logo mais, eu já fazia parte daquele hilário cortejo, declamando, em voz alta, os versos acima transcritos.
Passando o cortejo pelo antigo Asilo que ficava poucos metros abaixo, uma espécie de hospital psiquiátrico da época (atualmente funciona a Unidade Escolar Benjamin Batista), o comandante dobrou na Rua João Cabral, seguindo rumo ao Mercado Central, para o local onde se instalara o grande e famoso “Circo Garcia”; circo de categoria internacional, conforme prenunciava o apresentador oficial daquela casa de espetáculo. Chegando ao circo, o nosso comandante presenteou a cada um dos seus valorosos seguidores com um bilhete de cortesia para que assistisse ao majestoso espetáculo do inesquecível e memorável “Circo Garcia”. No domingo seguinte, sessão da tarde, estava eu lá na plateia, alegre e radiante, vendo os palhaços, inclusive o nosso comandante (perdão, por não lembrar o seu nome!), acrobatas, malabaristas, equilibristas, comediantes, domadores, zebras, elefantes, leões, cavalos, macacos, e o espantoso e emocionante “globo da morte”.
Distinto público, aplausos para os dois palhaços, pois o espetáculo não pode parar. Eles nos fazem morrer de rir, e alegram nossas vidas. E em particular, as vidas da pequena aniversariante e do jovem ajudante de pregoeiro de circo.


Fonte: blog Folhas Avulsas   

domingo, 9 de agosto de 2015

MENSAGEM DE MEU FILHO



9 de agosto   Diário Incontínuo

MENSAGEM DE MEU FILHO

Elmar Carvalho

Ainda cedo, tomei um café reforçado, que fora encomendado por minha mulher, em comemoração ao Dia dos Pais. Recebi os presentes que ela me entregou, o que me foi dado por minha filha e o que foi enviado por meu filho. O melhor mimo, contudo, foi uma mensagem enviada do Estado do Amazonas pelo meu filho João Miguel, onde ele é oficial da Polícia. Tenho certeza de que não mereço suas belas palavras na íntegra, mas fico contente mesmo assim. Ei-las:

“Parabéns ao papai pelo seu dia, que pena que não estou presente ao seu lado, mas estou espiritualmente. Parabéns pela pessoa que és, que é muito mais que um pai. Ser um bom pai é fácil, quero ver se é uma boa pessoa, como ser humano. Quem é o pai ruim? Quem não é o melhor pai do mundo? Existem pais assim (ruins), mas são a exceção.


Eu não só analiso a relação entre pai e filho, mas analiso a sua relação com as demais pessoas; sempre prestativo, humilde, simples, sem fazer maldade aos outros, chegou a um bom patamar profissional por conta unicamente de seus méritos; faz o que muito gosta, que é ler e escrever, por isso conquistou uma cadeira na Academia Piauiense de Letras. O bom filho tem que ter orgulho do seu pai e eu tenho do meu. Parabéns pai pelo teu dia!”

EMOÇÃO NO CIRCO



EMOÇÃO NO CIRCO

Elmar Carvalho

Para Miguel Arcângelo (meu pai), João Miguel e Elmara Cristina (meus filhos)

Homenagem ao Dia dos Pais
                                                                             
Pelas mãos tenras
de meus filhos
a magia do circo me chegou.

Atropelado por emoção e saudade
meu coração foi atirado de
lado              a                         lado
pelas piruetas de
         capetas e palhaços
infiltrou-se nos malabares
e me trouxe meu pai e o circo
encantado de minha infância.

As lágrimas escorriam
e eram estrelas e vaga-lumes
que pingavam da cartola
ensopada de um mago...

A lembrança de meu pai
assomou da sombra do passado
suavemente sentou-se ao meu lado
tomou-me as mãos
as mãos de uma criança.           

sábado, 8 de agosto de 2015

Festa de aniversário de 80 anos de dona Lozinha


Texto: Vanessa Lima/O Repórter do Araguaia

03/08/2015 - Festa de aniversário de 80 anos de dona Lozinha, reúne família e amigos em um momento inesquecível

Bonita festa marcou os 80 anos de dona Firmina Santos Silva, carinhosamente chamada de dona Lozinha como é popularmente conhecida. A família de “O Repórter do Araguaia” Parabeniza a senhora, pelos seus 80 anos de existência. Dona Lozinha, esta mulher, forte, guerreira, exemplo de vida nasceu no dia 31 de julho de 1935 no Parnaíba município o estado do Piauí.

Ao comemorar os seus 80 anos de vida, onde reuniu toda a família e os amigos para lhe desejar um feliz aniversário.  Foi uma festa onde o respeito, admiração e amor por Dona Lozinha, na comemoração dos seus 80 anos de vida. Com a participação dos seus irmãos, filhos, noras, genros, netos e bisnetos; todos viveram momentos de rara emoção e felicidade, na tarde da ultima sexta-feira, na Fazenda Buritis, localizada em São Félix do Araguaia - MT.



Em um clima de reencontro, entre a família e amigos, o ambiente tornou-se um clima onde o amor há Dona Lozinha, imperava e a alegria pelo belo momento. Quando sua Filha Nilva de Almeida convidou Dona Lozinha para declarar seu amor eterno, foi um dos momentos de muita emoção em seguida foi homenageada pela sua amiga e comadre Graça Parente que leu um pouco de sua trajetória e luta em São Félix.

O aniversario de 80 anos é, sem dúvida, um marco na vida de uma pessoa, afinal, depois de viverem tanto assim, quantas experiências e sabedorias essa pessoa já carrega consigo, histórias vividas, acontecimentos passados, de fato viver tanto assim é um privilégio para poucos. Por isso mesmo, quando esta data chega é de primordial importância que comemoremos muito junto com a família e amigos, mostrando que a experiência adquirida com os anos só nos faz querê-la bem mais e mais. Ficou claro na mente de todos, que a família demonstrou isso. Dona Lozinha é exemplo de superação. O tempo a fez entender a  bela canção...´´ o mundo pode até fazer você chorar, mais Deus te quer sorrindo`` Deus não nos abandona nunca.



A festa foi linda, a equipe de O Repórter do Araguaia também esteve lá para dar um abraço a essa mulher que muito faz pela cidade de São Félix do Araguaia. Dona Lozinha o seu carisma, simpatia e energia positiva nos motiva cada vez mais a produzir matérias como essa, feita com muito carinho para todos os nossos internautas. Desejamos saúde, paz, harmonia e muitas felicidades, esses são os votos de toda Família de O Repórter do Araguaia.

E Dona Lozinha, disse que estava muito feliz por aquele momento em que estava vivendo, pois naquele momento estavam todos juntos comemorando o aniversário dela. Ela agradeceu a presença de todos.

Muita paz e harmonia para toda família!


Todas as fotos dos 80 anos de Dona Lozinha, realizado no dia 31 de julho de 2015 estão disponíveis no Facebook:  o.reporter.do.araguaia@facebook.com de “O Repórter do Araguaia”.
    
Fonte: O Repórter do Araguaia