quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Pela fé, o ódio, morte e depredação


Pela fé, o ódio, morte e depredação

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

         Expressivo grupo de pessoas do Bairro de Fátima parte em peregrinação a Israel. Participei duas vezes da jornada, e, se o dólar não tripudiasse sobre o real, iria mais vezes. Israel me encanta pela fartura de memória bíblica. Uma reflexão, porém,  me conduz a outros parâmetros de culturas religiosas, cuja fé resvala para o ódio, destruição, morte e segregação.

         O solo por onde Jesus caminhava não é mais o mesmo. Fica a metros de profundida, escavado por arqueólogos e historiadores. O solo atual encontra-se compactado de material que restou das ruínas, ambições, guerras e paixões religiosas. A gruta de Belém encontra-se em subsolo.

         Depois de 40 anos pelo deserto, libertados da escravidão dos egípcios, os israelitas (hebreus) destruíram cidades pagãs e se apossaram da Terra Prometida (Israel). Mais espetacular a destruição e morte de  Jericó, 15 séculos antes de Cristo (Josué, cap. 5 e 6). Muralhas e residências foram abaixo.

O ímpeto dos exércitos romanos, ano 70, não deixou “pedra sobre pedra” do templo de Jerusalém, conforme predissera Jesus. A Cidade Santa e todas as outras, transformaram-se em monturos e destroços. Judeus perderam a posse da terra, obrigando-se à diáspora, mundo afora, perseguidos, inclusive pela Igreja, durante centenas de anos. No longo tempo da diáspora, árabes tomaram posse da Terra Santa. Somente em 1948, judeus recuperaram o país, pela ONU, e aceleraram o sionismo. Permanece o conflito entre palestinos, de cultura muçulmana (Alá)  e judeus (Javé).

         No ano cristão 135, o imperador romano, Adriano, mandou reconstruir o templo e a cidade de Jerusalém. Imperador Constantino, a pedido de sua mãe Helena, recuperou lugares sagrados da vida de Cristo, construindo igrejas e monumentos. O império romano martirizou, em todas as colônias, milhares de cristãos, por não se subordinarem ao paganismo dos imperadores. Muçulmanos ocuparam a Palestina, botando por terra monumentos cristãos, impondo culto a Alá, estendendo-se pelo norte da África e Península Ibérica. O conceito de Jihad, luta pela expansão da cultura e fé, induz, até hoje, fanáticos a barbaridades. em nome de Alá. Mosteiros de freiras eram invadidos e destruídos.

 No início do segundo milênio, cruzadas cristãs, comandadas por papas e reis, invadiram a Palestina, massacraram muçulmanos e destruíram monumentos. Venceu Alá.

No período renascentista, pipocaram conflitos e massacres entre protestantes e católicos. Famosa a Noite de São Bartolomeu, na França, onde milhares de católicos e protestantes se mataram, por questões religiosas e políticas. A Inquisição transformou-se na maior vergonha da Igreja, inclusive de algumas seitas protestantes. As codenações envolviam fogueira, chibatadas e degolas.

Em nome da fé e do batismo, nobres cristãos sequestravam negros africanos, acorrentavam-nos e os expunham em leilões e escravidão, nas américas. Astecas, Maias e Incas sacrificavam crianças, extraíam o coração latejando nos altares das divindades. Os espanhóis dizimaram essas nações, em nome do domínio territorial e da fé cristã.

Nada de pensar em apocalipse do mundo atual, observando a violência urbana e as barbaridades de grupos muçulmanos. Todos somos produtos da cultura e destruição, inclusive do planeta. Uma peregrinação a Israel até que faz bem a gente refletir sobre nosso destino. Jesus ensina o amor.      

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

MISTÉRIO EM CEMITÉRIO DE AMARANTE


MISTÉRIO EM CEMITÉRIO DE AMARANTE

Luís Alberto Soares (BEBETO)

         Recentemente, no Cemitério Municipal de Amarante, aconteceu uma ação incrível, ocasião quando três rapazes (Ananias, Anderson e Luís) faziam uma reforma no túmulo de Cândido Neto da Silva e Abidenal de Sousa Silva (pai e filho). No ato do serviço, a Senhora Iracilde Vieira Silva (Cidinha), esposa e mãe dos mencionados falecidos, contava uma história assustadora de um morto. Na ocasião da pintura na catacumba, os jovens descrentes do conto da Senhora Cidinha, soltaram longas gargalhadas acompanhadas de ironia ao falecido, quando de repente, a tinta utilizada no serviço virou água cristalina. Dona Cidinha, pasma com a transformação da tinta, rezou de voz embargada e pediu perdão a DEUS pelos rapazes. Ela disse a eles: “Agora vocês peçam perdão à alma do falecido e a Deus porque isso que ocorreu foi um castigo DIVINO”. Os jovens temerosos ficaram sem ação para a conclusão da reforma do túmulo. Vale esclarecer que os reformadores da catacumba são genros do casal, Irismar (filha de Cidinha) e Mestre Chiquinho, testemunha da ocorrência.     

domingo, 13 de setembro de 2015

Seleta Piauiense - Taumaturgo Sotero Vaz


Minha Madrinha

Taumaturgo Sotero Vaz (1869 – 1921)

Aqui na terra desiludido
Tonto, perdido,
Saio das cinzas deste vulcão,
Para ouvir missa na capelinha,
Lá, onde mora Minha Madrinha,
Nossa Senhora da Conceição!

Ao pé do nicho branco e enflorado,
Ajoelhado,
De olhos abertos fitos no altar,
Rezo baixinho... Santa alegria!
Minha Madrinha! Ave Maria!
Cheia de Graça! Graça sem par!

Mãe de Jesus! Flor do Carinho!
Secai os cardos do meu caminho!
Livrai-me do Ódio de Humanidade!
Da inveja torpe, da iniquidade
E da traição,
Que ora andam soltos e voejando,
Como de Corvos um negro bando,
Sob a amplidão!
Tende Piedade, doce Rainha!
Minha Madrinha! Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!

Olhai, oh Virgem, quantos tormentos
Sofrem os justos! Quantos lamentos
Soltos aos ventos!
Quanta miséria! Quanto pesar!
Cessai, oh Virgem, esta Agonia,
Minha Madrinha! Ave Maria!
Cheia de Graça, Graça sem par!

Lá nos Palácios o oiro e o incenso,
Risos e danças, um mundo imenso
De luz e pompas, sedas e aromas,
Lembrando os velhos tempos de Roma

A era negra de perdição!
E fora, o pranto, o frio, a fome...
Tudo que é triste, fere e consome
Os pobres velhos e as criancinhas!
Vinde por eles, Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!

De olhos abertos fico rezando
Fora do mundo, junto do altar,
Vendo chegar
O doce bando
Das esperanças,
– Anjos formosos, meigas crianças
Rubras centelhas
Dos céus descidos para o Perdão!
E, como a Virgem tudo adivinha,
Ri-se bondosa. Salve Rainha!
Cheia de Graça! Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!        

sábado, 12 de setembro de 2015

UM CORAÇÃO REFORMADO


UM CORAÇÃO REFORMADO

Jacob Fortes

Desde o berço os órgãos do corpo humano funcionam cheios de motivação. Seus ânimos fazem lembrar o aprazimento das crianças no playground. Porém, com o tempo decorrido começam a apresentar discrepâncias de desempenho; vão-se desmotivando, trabalhando entre regular e sofrível. Uns alegam cansaço, outros balbuciam resmungos inaudíveis sem precisar a natureza das suas queixas. Há também os irritados, cheios de discordâncias, vivem incitando os vizinhos à revolta como se quisessem incendiar coivaras. Enfim, cada qual com suas queixas, patologias e síndromes.

Ao meu coração, esse resignado “boi de carro” que labuta dentro do meu peito, sucedeu que, esfalfado ante a canga do tempo, ameaçava não ir adiante; é o que diziam os laudos médicos. Nesse estado de quem ameaça desabar, fez-se, não de vontade, o meu principal oponente. Isso me metia medo; ter um inimigo, mesmo arquejando, morando dentro de mim. Nem sempre o perigo vem da ação de quem pode, mas da inação de quem está privado de fazer. Em decorrência desse estado de quase apagamento, podia-se antever a suspensão do bombeamento do precioso líquido, de tom escarlate-solferino, que deixaria de dar de beber todo o canteiro. Desse modo, seco o leito dos regatos, dos canais, das regueiras, portanto, sem o “Poço de Jacó” para proceder à rega, (perdoe-me o Evangelho de Jesus pela comparação irreverenciosa), pus-me a orar, pedindo a interveniência do alto.

Destarte, era inadiável submetê-lo a um tratamento que pudesse estimulá-lo a cumprir as suas competências, não sei se regimentais ou estatutárias, para as quais fora criado, mesmo que isso exigisse uma intervenção mais severa, inclusive porque, segundo os laudos, tropicava em avarias. E foi debaixo desse gélido sobrosso, dessa inquietação pavorosa, que tomei o alvitre de recorrer a um especialista, o cirurgião cardiovascular Ricardo Corso, que lhe aplicou um disciplinamento; impingiu-lhe uma reforma, vigorosa, que o deixou recauchutado: três safenas, uma mamária. O meu peito de “garrincha”, tão escasso quanto delicado, adquiriu feições de monstro catita. No bojo da reforma a esperança de não sair cedo do palco quem poderia (senão por merecimento, mas por misericórdia) permanecer até o último ato, enfim, não ver cortado o fio da existência antes do epílogo, antes de testemunhar a transcorrência das estações. 

E assim é a vida. Quando se pensa que ela segue o seu curso ordinário o extraordinário se antepõe. “Quando achamos que sabemos todas as respostas, o mundo modifica as perguntas”.   Ninguém sabe o que nos aguarda, Deus sabe. “Quando o discípulo, ou a obra, fica pronto, o mestre aparece”. Aliviado com o resultado formidável da obra de engenharia médica (aterradora), nada me resta senão agradecer; agradecer em tom de salmo: obrigado, primeiramente ao mestre celestial: meu Senhor e meu Deus; obrigado ao mestre terreal: Dr. Ricardo Corso, cirurgião, e sua equipe.  “Um médico, só por si, vale alguns homens”. Agradeço sobremodo ao meu “boi de carro”, pelo sacrifício de haver resistido a tantas vexações, mas revigorado permite a este velho carreiro, por um pedaço de tempo, carrear pela estrada da vida, (contornando as vaidades tolas), e entoando intimamente cânticos em louvor a Deus. Agradeço aos parentes e amigos por me haverem apalpado com palavras de conforto. A todos, por favor, relevem a incontida emotividade de quem esteve sob a ameaça de um exército de malfeitores: temor, incerteza, abatimento, melancolia, mas que se evadiram graças às palavras ternamente sinceras que os parentes e amigos fizeram jorrar sobre mim de modo tão carinhoso a moldes de chuvas de flores. Verdade que agosto, com os seus dias queimosos, tinha para oferecer apenas a nudez das árvores realçada pela nota triste do sabiá no galho, mas setembro, cheio de solidariedade enviou, a título de cortesia, os buquês primaveris; muitos, aliás, segregando néctares que me serviram de fármaco.

Eis que a aflição passou; ficaram as manchas de choro e os gemidos do tamanho dos destroços. Cresceu o meu débito, impagável, inscrito na dívida ativa do sobreceleste. Por já ter sido agraciado nada peço para mim, mas rogo a Deus que livre das enfermidades do corpo e da alma todas as criaturas: humanos e os animais.

Esta página vitoriosa de incentivo à vida, valentemente pelejada por um Corso — não da Córsega de Napoleão, mas do Rio Grande do Sul — a quem dei contornos literários, ergo ao insigne cirurgião cardiovascular, Ricardo Barros Corso, notável da Medicina, mãos enluvadas, tão servo do seu ofício quanto Miguel Couto o foi: “Retirai-me os atributos da Medicina e nada mais me resta. Desde que me entendi, a ela dediquei os meus pensamentos e depois todos os meus atos, e se neste empenho até hoje me consumo só nele me retempero. Para ela (a medicina) os meus anseios, as minhas aspirações e o meu trabalho. Teria remorso de distrair em outros cuidados o meu tempo {...}”.

Nessas horas infaustas, sofrimento, abatimento, é que ganha especial relevo uma Maria, uma Fernanda, uma Carmem, não importa o nome, enfim mulheres extremosas que, fortalecidas no sentimento de amor, velam o amado de modo compassivo sem ao menos perceber que sofrem. Feitas de brandura e firmeza elas, de modo luminoso, vão desbastando desalentos e infundido a fé. Quem as tem que as guarde não somente para as ocasiões de aperturas, mas para o companheirismo, que revigora, fortalece. Cá tenho a minha. Além de Maria também é do Socorro; em cujos atributos há uma particularidade: a de ler os meus pensamentos.

Desta cirurgia de grande porte convalesço, extenuado, limitado de voz e movimentos, porém esperançoso e agradecido. Benefícios são bem-vindos, inclusive os de sabor acre. Se alguém tem alguma dádiva propiciatória ao meu propósito de soerguimento, não precisa luxo: basta uma prece, uma intenção, uma palavra, uma canção, uma “Mercedita”.

“A convivência do sofrimento ensina a humildade e lembra, na lição de cada dia, que o homem não é senão o sonho de uma sombra”.    

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O lobisomem


O lobisomem

José Pedro Araújo
Historiador, romancista e cronista

           No meu tempo de menino nas terras do Curador não se tinha ainda a televisão para nos mostrar os filmes de terror ou mesmo os desenhos animados japoneses com seus bichos feios a mais não poder. Não possuíamos nem energia elétrica, quanto mais aparelhos de vídeo game com seus jogos horripilantes que deixam a meninada imune às velhas histórias de lobisomem.

            Assim, era comum a meninada sentar nas calçadas nas noites de lua cheia para ouvir as histórias medonhas de bichos do outro mundo e de almas penadas. O problema era que, quando a turma se dispersava, íamos para casa morrendo de medo de que da esquina escura pudesse surgir algum “Capelobo”. Era assim que denominávamos um bicho fantasmagórico, misto de Capelão – imenso galo preto que soltava fogo pelo bico e pelos olhos – e Lobo. De minha parte, não foram poucas as noites que eu pedi à minha mãe que me deixasse dormir entre ela e o meu pai, apavorado, com medo do tal bicho aparecer. Já nas noites de breu, cada menino procurava dormir cedo, se possível com a luz do candeeiro acesa para espantar o medo de coisa ruim que só ataca à noite.

            Quem nunca ouviu contar do sujeito que havia molestado uma filha e que o filho desta, nascida do relacionamento incestuoso, havia se transformado em um enorme Lobisomem, que atacava nas redondezas nas noites de lua cheia? E que esses bichos, quando não conseguia encontrar nenhuma vítima, choravam a noite inteira, uivando como um bicho danado até quase o nascer do sol? Ou então que uma mulher muito má havia dado à luz, uma criança com metade do corpo de cachorro e a outra metade de touro? Um bicho tão malvado que só se alimentava com animais e crianças recém-nascidas?

            Hum! Coitado de mim. Ainda por cima eu era o filho mais velho, não possuía irmãos mais fortes que pudessem me defender. E para aumentar ainda mais o meu terror, minha avó residia em uma rua que ficava por trás da que morávamos, e para chegar até lá tínhamos que passar por um beco escuro e desabitado. Para aumentar o meu desespero, todo final de tarde, início de noite, minha mãe determinava que eu fosse levar um pratinho de comida, feita exclusivamente para minha avó, que já era bastante idosa. Era um Deus nos acuda atravessar aquele beco de não mais do que cem metros de comprimento, mas que para mim media vários quilômetros de extensão. Só eu sei quantas carreiras tomei de algum calango, ou outro bichinho menor ainda, ao farfalhava apressado nas folhas secas espalhadas pelo caminho. Para mim, tratava-se de algum bicho medonho querendo me atacar.

            Foi ai que surgiu uma história das mais pavorosas que me deixou semanas sem sair de casa para caçar passarinhos nas matas, mesmo durante o dia. A história – verídica, segundo alguns amigos meus – tomou tal vulto na comunidade, que os meninos andavam obedientes aos pais como nunca se vira antes. Contavam que um menino, de nome Zé Augusto – vou trocar o nome em respeito ao rapaz, já falecido, havia sido atacado ferozmente por um Capelobo, enquanto retornava, no final da tarde, da fazenda de seus pais para casa.  Diziam ainda que ele havia escapado de ter o seu sangue bebido pelo tinhoso porque portava um crucifixo de madeira pendurado no pescoço, fruto de uma viagem realizada pelos pais ao Juazeiro do Norte. Mas, mesmo assim, havia ficado muito machucado e com o rosto apresentando um hematoma muito grande. Um dos olhos fora tão agredido que estava fechado de tanto inchaço.

            Originário de família evangélica, logo recorri à minha mãe na esperança de receber uma negativa como resposta. Esperava ouvir dela que essas visagens não existiam e coisa e tal. Mas, o que dela ouvi, deixou-me mais amedrontado ainda. Falou que, de fato, visagens não existiam, mas que algum “endemoniado” deveria ter atacado aquele menino. Era fato que o garoto estava muito machucado, sobretudo no rosto. Perguntada por mim o que era esse tal ser “endemoniado”, respondeu-me que eram pessoas que carregavam o demônio dentro de si e que às vezes matavam as crianças para beber o seu sangue.

            Apavorei-me mais ainda. Desconfiei que o tal bicho “endemoniado” - minha mãe não queria admitir - só poderia ser o tal Capelobo. E repassei a informação adiante.

            Desde então, nas noites de lua cheia, a meninada não saia mais de casa. Caçar passarinho, só se fosse na companhia de adultos, e assim mesmo nas matas próximas de casa. Acredito ter sido um alívio para os bichinhos, os nhambus, as juritis, e mesmo as pombas que agora passavam um bom tempo sem sofrer com os seus predadores mais cruéis.

            Depois de alguns meses, ficamos sabendo da verdadeira história do bicho que havia atacado o infeliz Zé Augusto. Como seus pais haviam ficado muito preocupados com o episódio, uma vez que o menino se negava peremptoriamente a levar os animais para dar água lá na fazenda, começaram a investigar o que de fato havia acontecido com o filho. E não tardaram a descobrir, após pressionar o filho do vaqueiro que se mantinha arredio a perguntas, mas que havia escapado ileso, apesar de está junto com seu filho no dia do amaldiçoado ataque.

            Depois de muitas tentativas, o pai de Zé Augusto, desconfiado cada vez mais que o garoto lhe escondia alguma coisa, pediu ajuda à esposa para descobrir o que de fato havia acontecido naquela tarde-noite. E ela, muito jeitosa no trato com crianças traquinas, afirmou ao assustado garoto que ao olhar nos olhos de qualquer pessoa, sabia distinguir perfeitamente se ela estava mentindo ou falando a verdade.


            O garoto se desesperou, já conhecia a fama da mãe do colega, e diante da pergunta de qual bicho havia atacado seu amigo, respondeu quase com um gemido: “foi uma jumenta”. Foi um alívio geral. Menos para o pobre Zé Augusto, punido com uma severa surra para nunca mais cometer um pecado daquela magnitude.

Fonte: blog Folhas Avulsas

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Deus não é camundongo de laboratório


Deus não é camundongo de laboratório

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

Como dizia em matéria anterior, na quarta vigília da noite afluem sonhos prazerosos, às vezes, de recados divinos. Conseguir momentos assim exigem algum exercício: corpo relaxado, após prolongado repouso.

A agitação e competitividade da vida moderna entorpecem o contato com Deus. Brilhante médica, mestrado e doutorado, professora universitária, assiste em hospitais de Teresina, expressa, em e-mail enviado, sobre a crônica, MISTÉRIOS E SONHOS DA QUARTA VIGÍLIA:

         “O texto é pontuado por diversos aspectos ético-religiosos que, até mesmo para uma agnóstica (como me intitulo!), leva a uma reflexão, mesmo que momentânea. Afinal, nos dias de hoje, com o acesso irrestrito à web, nem paramos mais para quase nada. Não sei aonde iremos parar. Há dias, quisera eu ter respondido, mas as atribulações da vida moderna não me permitiram. A minha capacidade está muito aquém dos seus muitos seguidores, mas, às vezes, me agrada algum comentário. Tomara que o agrade também.”

Agradou, e muito, nobre doutora, sua honesta confissão de agnóstica. Por se tratar de um testemunho bastante pessoal, evitei publicar-lhe o nome. Mente quem afirma que nunca passou momentos de descrença ou tibieza com relação à existência ou não de qualquer divindade ou reivindicações metafísicas. Especialmente, em dolorosos e trágicos momentos.

Agnóstico é aquele que não conhece a Deus ou duvida da sua existência. Ao contrário do ateu, que anula e combate a existência divina. Crises de agnosticismo ocorrem até em monges e servos de Deus, quando a fé resvala para discussões.

Isolar-se da turbulência do mundo, buscar o silêncio, orar, agradecer aos céus o dom da vida fazem um bem danado à saúde do corpo e do espírito, como suculento dejejum. Explica-se o interesse de grupos de jovens e adultos que trocam o carnaval ou final de semana agitado por um retiro espiritual. Experiências fantásticas testemunham eles.

Muita gente, em vez de exercitar a experiência com Deus, questiona-lhe a existência com argumentos científicos e filosóficos que apenas confundem incautos. Tentam questionar o divino como camundongo de laboratório, até citam cientistas do saber tudo. Imagino ter que explicar as características e sabores da laranja a quem nunca viu a fruta. Por mais argumentos, inclusive científicos, não o convenceria. Só exibindo a laranja e convidar a chupá-la. Experimentá-la. Deus é uma experiência pessoal, e não tema de discussão vazia. Colocar-se em sua presença, nas caladas da noite ou no escritório, fechar os olhos e soltar: “Senhor, juro que te desconheço, se existes mesmo. Dá-me uma oportunidade para te conhecer!” Mais que na quarta vigília da noite, você o encontrará, quem sabe, na leitura de um livro, num papo com quem tem experiência de Deus. A doutora do e-mail ainda vai encontrar tempo para uma quarta vigília.    

domingo, 6 de setembro de 2015

TRAGICOMÉDIA


TRAGICOMÉDIA

Elmar Carvalho

Preso no
ventre estreito
do Universo,
tenho um acesso
de claustrofobia.
Fruto mau
de árvores boas,
sou estéril
(para não ter maus frutos).
Nasci prematuramente
e morrerei depois
da hora.
(Sou teimoso como
um joão-teimoso.)
Guiado por cego
e conversando com
surdo-mudo,
fui tachado de
débil mental.
Mas isto é um
eufemismo:
eu sou mesmo é
um doido varrido,
por força da necessidade.
Sou triste.
Mas eu vejo a tristeza
como lágrimas
nos olhos do diabo.

           Pba. 09.1977

sábado, 5 de setembro de 2015

Refletindo um pouco sobre a desistência de ser escritor


Refletindo um pouco sobre a desistência de ser escritor
            

Cunha  e Silva Filho


      Um amigo, arguto ensaísta e leitor  voraz (sou testemunha de sua  grande  capacidade  de ler muito e continuadamente), nascido, na Bahia, conversando comigo  pelo  telefone sobre literatura,   projetos de escritor,  vida de escritor,  subitamente  comentou  que um seu  colega ou amigo  havia desistido da literatura. Ficara  decepcionado,   desestimulado,  triste, enfim,  com   os grandes  espinhos que  pontilham  a travessia  de quem  se decide a ser  escritor no  Brasil.

      O amigo,  antes tão  entusiasmado com  a vida literária,  com  toda a sua  longa  quilometragem de leituras,  de  dedicação  à área,  finalmente  deu um adeus, não às armas, mas  às letras. Adeus definitivo,  não sei, mas adeus. Foi  o que meu amigo  ensaísta  me contou.

      Estranho essa atitude que,  por vezes,  ocorre a quem escreve e deixa a caminhada  beletrista  no meio do caminho ou até mesmo no  início do caminho. As razões que o levaram a  tomar  esta  decisão não sei quais foram.Tampouco sei se foram  informadas ao meu  amigo ensaísta.

    Um ato  extremo  desses me leva a procurar  os fundamentos  da decisão drástica. Na história da literatura  brasileira,   não são muitos os que  desistem  da vida de escritor,  ou seja,  da vontade  de continuar produzindo independente de ser ou não aceito  pela crítica e pelo  público. Tomemos  o exemplo de Raduan Nassar,  o  consagrado autor de Lavoura arcaica (romance,1975), Um copo de cólera (novela,1978) e Menina a caminho (1994).

    O  escritor não mais  escreveu.. Preferiu  outra atividade  alheia à criação  artística. Ressalta encarecer que  esse   ficcionista foi  muito premiado, traduzido para outras línguas, ou seja,  tinha tudo para dar continuidade à sua produção. Preferiu, no entanto, abandonar a literatura,  a celebridade, para morar num sítio de sua cidade  natal, Pindorama, São Paulo, onde nasceu em  1935 e, em seguida,  fixar residência  em Buri, interior de São Paulo.

    Entretanto,   o tema me instiga a aprofundar  minhas  reflexões, quer dizer,  o que  na realidade  leva  um  escritor a mudar  o rumo  de uma  atividade criativa, seja na  poesia, seja na ficção,  seja  no teatro?  Creio que  isso mais acontece no campo da literatura, mas não tenho  conhecimento de que   essa ruptura com a arte da palavra se dê também  em outros campos da vida  artística,  na escultura,   pintura,    na dança,  na música, na arte cênica,  no cinema.

  Vou arriscar algumas razões de uma  decisão  deste  porte. Uma delas seria  o desestímulo de que se vê cercado  o escritor, querendo afirmar com isso  que este precisa, como qualquer outro artista ou mesmo  indivíduos  de outras  profissões, de reconhecimento,  de  ter alguma  certeza de que  sua obra  é válida, tem  qualidades, merece ser  lida. A não-constatação  disso talvez seja um dos motivos básicos  que  conduzam  o autor a desistir de si mesmo  como  personalidade artística, e a de  seguir outro  curso  de vida  produtiva.

   Uma segunda razão é a competitividade que, hoje mais do que antigamente, enfrenta  um  escritor na sua  área de  produção. Competitividade - diga-se melhor -,   em virtude de  que no  mundo de hoje o número de escritores em todos os gêneros,  aumentou   assombrosamente, com o agravante de que, no exemplo dos ficcionista,    os ensaísta, críticos e teóricos, também  se enveredam pelo universo ficcionistas. Ora, esta situação aumenta ainda mais o número  de escritores não só  no país mas no  mundo inteiro.Tem-se a impressão  de que todo mundo  quer ser  ficcionista, sobretudo  os  já  possuem grande visibilidade  no seu campo  específico não-ficcional. Vasto é o  mundo, diria  Carlos Drummond de Andrade( 1902-1987)), e  o  escritor  espantado com  esse cenário regional,  nacional e mundial  se sente  diminuto,  impotente, como se fora  um pingo de areia no  oceano  da imaginação  criadora. 

    Em geral,  pode-se  adiantar,   ensaísta e teóricos podem  produzir  obra  ficcional que não vingam,  porque, muitas vezes,  não passam de   projetos   fertilizados  com arcabouço  teórico,  numa   estratégia  bem diferente  dos  escritores  de talento  indiscutível. Há quem  possa  apresentar  argumentos  até fortes,  como, por exemplo,  Machado de Assis (1839-1908)).Contudo,  se a crítica  que escreveu  Machado  é boa, ele  não se  distinguiu soberanamente  neste gênero, nem tampouco  na grande  poesia,  mas na ficção apenas, que o consagrou  até nosso  dias.

   Uma outra razão da desistência  está  vinculada  diretamente ao mercado  editorial,  aos  interesses  do lucro, às acomodações  que se obrigam  a fazer  os escritores sem   público e sem  nome. Diante disso,  como  enfrentar  os obstáculos  vários do mundo  da publicação,  das editoras  que necessitam de vender seus  estoques e,  portanto,   se sustentam  e se mantêm  com o indispensável   sucesso dos livros que lhes passaram  pelo crivo,  quer subjetivo,  quer  objetivo,  de seus editores?  

   Quem apostaria num desconhecido  ainda que   tivesse  valor  a sua obra?  A não ser nos  casos  de autores  consagrados nos seus diversos  gêneros (aqui  incluindo  até os chamados grandes  poetas), os quais   têm ainda  fácil  acesso  a republicações de suas obras, que espaço  teriam  os  anônimos e numerosos  escritores  de todos os gêneros  com seu  livros encalhados  e sem perspectivas  de um  salto para o   reconhecimento.

  É nesse  ponto que vejo  mais um   motivo da desistência.Todavia,   alguns teimosos,  novos  ou velhos, continuam  resistindo  aos  solavancos  da  indiferença  pela suas obras,  pelos seus  possíveis méritos.Na minha  opinião,  são verdadeiros  heróis na adversidade   de seus ideais. Não os  reprovo  por serem assim. Afinal,  eles ainda  acreditam que, a despeito de tudo, persistem como  Sísifos na vida literária,  ainda que de certa forma  anônima.


   A dificuldade de ser bem  acolhido, os óbices para ser editado, o gigantismo da competição,   a indiferença  dos editores,  o cansaço  que  faz parte da vida de quem escreve,  os gastos com   as compra de livros  novos  para atualização, entre outros fatores de  desestímulos, concorrem  seriamente  para que alguns desistam  da vida  de escritor e se encaminhem  para o isolamento  coberto de    frustrações  e   mágoas.  

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

SOBRE AS ORIGENS DE CAMPO MAIOR

IGREJA DE SANTO ANTÔNIO DO SURUBIM DE CAMPO MAIOR
Construída pelo Pe. Tomé de Carvalho e Silva, com a ajuda do mestre de campo Bernardo de Carvalho e Aguiar. Teve sua obra inciada em 1711, logo feita matriz, batizada a 12.11.1712, com a instalação da Freguesia, que antes era um curato fundado em 1706 pelo Pe. Tomé. Foi demolida em 1944, sendo em seu lugar edificado a atual catedral de Santo Antônio, benta em 15.08.1964, pelo Pe. Mateus Rufino com a presença de Dom Avelar Brandão Vilela.

SOBRE AS ORIGENS DE CAMPO MAIOR

Valdemir de Castro Miranda
Professor, historiador e genealogista

Campo Maior tem sua origem ligada à figura do mestre de campo Bernardo de Carvalho e Aguiar, fundador da Fazenda Bitorocara no ano de 1695, na confluência dos rios Longá com o Surubim. Por volta de 1706, o Pe. Thomé de Carvalho e Silva fez desobriga na região, fundando ali um curato. Mais tarde, com a ajuda de Bernardo de Carvalho e Aguiar, construiu a Igreja de Santo Antonio, batizada a 12.11.1712, com a instalação da Freguesia de Santo Antonio do Surubim ou Longá, a segunda do Piauí e ainda ligada ao Bispado de Pernambuco. O procedimento para a instalação da nova Freguesia, foi o mesmo adotado pelo Pe. Miguel de Carvalho quando da instalação da Freguesia da Mocha, reuniu os moradores da região para definir o local da edificação do templo. Não contando com a ajuda dos arrendatários das fazendas da região, mas com o cel. Bernardo de Carvalho e Aguiar que construiu a capela a suas custas, conforme consta em carta do Pe. Thomé de Carvalho e Silva,  Vigário confirmado na Matriz de Nossa Senhora da Vitória do Piauí de Cima em toda ela Vigário da Vara, pelo  ilustríssimo Sr. Dom Manuel Álvares da Costa, Bispo de Pernambuco e do Conselho de Sua Majestade, que Deus guarde:

“Certifico que sendo esta minha Freguesia muito dilatada pelas grandes distâncias, principalmente a ribeira dos Longases, aonde não podia desobrigar a tempo de acudir com os Sacramentos nas necessidades dos meus fregueses residentes nela, pelos muitos rios que tem em meio para esta minha igreja, requeri ao Sr. Bispo de Pernambuco, mandasse fazer Igreja curada na dita ribeira dos Longases, por assim convir ao serviço de Deus, Nosso Senhor, ao que deu logo cumprimento. O dito Sr. Bispo mandou-me ordem para a poder fazer e, indo a esta parte, convoquei os principais moradores e, tomando-lhes os seus votos na parte que havia de erigir a nova Capela, que por invocação tem o nome do Glorioso Santo Antônio, lhe não achei possibilidade pra fazerem, dando várias desculpas pelos poucos escravos que tinham, e estando ocupados em fazendas que tinham os seus donos na Bahia as não podiam desamparar. Nestes termos, me vali do Coronel Bernardo de Carvalho que, com pronta vontade, buscou um carapina a quem pagou, e foi pessoalmente com seus escravos ajuntar as madeiras e os mais materiais, trabalhando o dito com grande zelo. E, com efeito, fez a capela à sua custa, tanto de escravos como gastos, farinha e dinheiro. E o acho com ânimo de gastar nela cabedal. Outrossim se me ofereceu com o gado que necessitasse para a nova ereção desta Matriz de Nossa Senhora da Vitória, e me prometeu 200$000 (duzentos mil reis) para uma Custódia para a dita Matriz e que se custasse mais o daria”.
(MELO, Pe. Cláudio. Fé e Civilização, 1991, p. 47-8).

A povoação de Santo Antonio do Surubim foi formada a partir de muitas fazendas de gado, ali estabelecidas, na segunda metade do século XVII, dentre elas a dos descendentes de d. Francisco da Cunha Castelo Branco. Em 1713, o governador do Maranhão, Cristóvão da Costa Freire, nomeou Manoel Carvalho de Almeida, morador da freguesia, para o cargo de Comissário Geral da Cavalaria do Piauí (CASTELO BRANCO, 1980, p. 219).

É possível que o distrito da povoação seja de 1757 (BASTOS, 1994, p. 102). É, certamente, anterior a 1761, pois, em 03.03.1761, presta juramento e toma posse no cargo de tabelião público, judicial e notas da povoação de Santo Antonio do Surubim de Campo Maior, Manoel Rodrigues dos Santos. Em 03.04.1761, prestou juramento e tomou posse no cargo de primeiro juiz de órfãos Manoel Simões do Vale, sendo seu fiador Constantino Lopes Ribeiro, e testemunhas abonadoras Domingos Pinto da Silva e José Delgado dos Santos (COSTA, 1974, p. 143). Nesse ano, é, também, nomeado o juiz ordinário Domingos Fernandes Barbosa.

A vila de Campo Maior foi oficialmente instalada a 08.08.1762, pelo governador da Capitania João Pereira Caldas e o Ouvidor Geral da Justiça Francisco Marcelino Gouveia. Na oportunidade foi autorizada a construção de Pelourinho, que ficou no pátio da matriz. Constava de um pilar quadrado sobre degraus de pedra, o qual se conservou até 1844, quando foi desfeito por se achar desmoronado pelo tempo. Três dias depois, a 11.08.1762, ocorreu, na Igreja Matriz, a eleição dos membros do Senado da Câmara da vila, que ficou assim composta: Antonio de Sousa Carvalho, juiz ordinário e presidente; João Peres Nunes e José da Cunha Freire, vereadores e Bernardo da Rocha Fontes, procurador. Os mesmo foram empossados no dia seguinte.

No dia 21.08.1762, foram criados dois lugares de almotacés da Vila de Santo Antonio de Campo Maior, e promovidos, para os mesmos, João Rodrigues de Aguiar e Manoel Gomes de Figueiredo, que prestaram juramento perante o Senado da Câmara e logo entraram no exercício de suas funções.
Em 20.02.1775, na casa do juiz ordinário e órfãos, o provedor comissário na Arrecadação das Fazendas dos Defuntos e Ausentes, da vila de Santo Antonio de Campo Maior, comarca da cidade de Oeiras, capitão Manoel Gomes Figueiredo, foi feito o processo de justificação de fidalguia e nobreza requerido por d. Francisco da Cunha e Silva Castelo Branco (COSTA, 1974, V. I, p.183-5).

Em Campo Maior, a 19.09.1821, teve lugar, no paço municipal da Vila, a solenidade de juramento da Constituição portuguesa, decretada pela assembleia constituite de Lisboa.

Em 05.02.1823, Leonardo de Carvalho Castelo Branco, a exemplo do que já havia feito em Piracuruca, proclama, ali, a adesão do Piauí à Independência do Brasil.

Nas margens do riacho Jenipapo, em Campo Maior, ocorreu a 13.03.1823, a Batalha do Jenipapo, a segunda com derramamento de sangue pela adesão do Piauí à independência no Brasil de Portugal.
A vila de Campo Maior foi oficialmente elevada à categoria de cidade pelo Decreto nº 01 de 28.12.1889, do governador republicano do Piauí, Gregório Taumaturgo de Azevedo.

A resolução de 08.05.1811 criou o distrito judiciário de Campo Maior, compreendendo Campo Maior e Parnaíba. Em 1833, por deliberação do Conselho Provincial, em virtude da execução do disposto no Código Criminal, a sede passou a ser em Parnaíba. Criada a comarca pela Resolução provincial nº 30 de 20.08.1839, compondo-se de Campo Maior e Poti [Teresina]. Pelo decreto nº 437, de 14.10.1845, reuniu-se os termos de Barras, Campo Maior, Parnaíba e Piracuruca. Extinta pela Resolução nº 1.127, de 12.12.1883, sendo anexada a União. Recriada, foi extinta por ato de 1894, da Assembleia Legislativa. Restaurada pela Lei nº 86, de 12.06.1896.

A igreja Matriz de Santo Antonio do Surubim, Freguesia do Longá, construída por Bernardo de Carvalho e Aguiar, foi demolida em 1944, sendo em seu lugar construída a atual catedral de Santo Antonio, benta a 15.08.1964, pelo Pe. Mateus Rufino com a presença de Dom Avelar Brandão Vilela.

Castro, Valdemir Miranda de. Enlaces de Famílias. Teresina: Halley Gráfica, 2014, p. 46-8).
Este livro genealógico encontra-se à venda na livraria Aliança e Entrelivros em Teresina-PI. 
  

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

FÉRIAS EM BARRAS DO MARATAOÃ


3 de agosto   Diário Incontínuo

FÉRIAS EM BARRAS DO MARATAOÃ

Elmar Carvalho

Parte II

Em Rua da Glória, esse grande livro de memórias – grande tanto pelos seus quatro volumes, como por ser um belo trabalho de literatura – o autor, ao tempo em que narra fatos acontecidos com sua pessoa e com os familiares mais próximos, também conta episódios interessantes de que foram protagonistas amigos e parentes mais remotos. Termina sendo um grande contador de histórias, que se entrelaçavam ou seguiam paralelas à história de sua própria vida, como comprovo com o episódio que passo a recontar de forma sintética.

Nas férias em Barras, ele fez amizade com a senhora Maria Pires da Mota e com suas duas filhas, Marieta e Senhorinha, todas bem mais velhas que ele, que ainda se avizinhava de seus 14 anos de idade. Marieta era a mais velha, e também a mais circunspecta, mais sisuda, mas que também lhe dava atenção.

Senhorinha, nas palavras do memorialista, “era muito expansiva e simpática”. Tornou-se compadre “de fogueira” desta última, com quem fazia passeios pela pequena urbe. Numa das vezes, visitaram a casa do coronel Regino Melo, na qual se encontrava o interventor federal do Piauí, Leônidas de Castro Melo, que passava uns dias de descanso na casa de seu pai.

Dona Maria e as filhas pertenciam a tradicional estirpe barrense e piauiense. Moravam numa das mais antigas casas solarengas da cidade, que ele descreve como sendo “magnífica representante da arquitetura urbana piauiense. Era uma morada inteira de porta e seis janelas, com caixilhos largos de madeira e folhas pesadas”.

Esse vetusto solar escondia um mistério. Recluso num dos quartos, sem nenhum contato com o mundo exterior e com pessoas de fora, vivia Neno, “o filho doente de dona Maria”. Formado em odontologia, exercera a profissão em União, de forma correta e competente. Segundo o relato do livro, “era um rapaz alto, bonito que fizera suspirar as moças casadoiras do local”.

Contudo, tempos depois, Neno passou a abandonar o seu consultório, para fazer escavações nos arredores da cidade, próximo a um dos outeiros dos arredores. Cada vez mais ele se dedicava a esse grosseiro labor, e progressivamente se extenuava nesse misterioso mister, pesado e inglório, chegando ao ponto de emagrecer.

Os comentários começaram a se espalhar na pequena comunidade. Alguns achavam que alguma alma penada lhe indicara algum local onde existiria um tesouro. Os curiosos começaram a espiar a sua dura labuta, em que o dentista, em lugar de leves e delicados instrumentos, passou a manobrar vigorosamente pás, enxadas e pesadas picaretas.

Foi constatado que a escavação se ramificava, de forma intrincada, como se fora emaranhado labirinto. Nesse trabalho estéril de uma inútil construção, Neno “vivia ensimesmado e mudo. Isolado do mundo”. Precisou ser afastado à força dessa sua labuta estafante, em que definhava de forma acentuada.

Após essa providência, passou a viver recluso, como dito, num dos dormitórios da casa senhorial de sua mãe, em Barras, da qual o jovem Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro, sentado na sala de visitas, lhe ouvia o murmurar, que deixava perceber-lhe a voz possante e grave. O escritor acha que ele talvez fosse vítima de esquizofrenia, em caso um tanto semelhante ao que acometera o bailarino Nyjinsky.

Neno foi o Dédalo e o Minotauro de seu próprio labirinto. E talvez tenha sido uma espécie de esfinge que não conseguiu decifrar o enigma de sua própria vida, de uma beleza cintilante e improfícua, como uma estrela cadente que se exaure no átimo culminante de sua glória.       

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

DAVID CALDAS - O Profeta de República

Foto antiga de Barras, terra natal de David Caldas

DAVID CALDAS - O Profeta de República

Chico Acoram Araújo (*)

Recentemente, escrevi uma crônica com título Barras do Marataoan: o Retorno que generosamente foi publicada, para minha enorme satisfação, no blog “Folhas Avulsas” do ilustre escritor José Pedro Araújo Filho, e também postada no prestigiado Blog Poeta Elmar Carvalho. Nesse escrito, descrevo uma viagem que realizei ao meu torrão natal, que tem como destaque principal o elenco dos ilustres barrenses que fizeram com que Barras fosse conhecida pelo epíteto de “Terras dos Governadores e dos Poetas”. Nessa crônica, além de relacionar os principais vultos da minha terra querida, apresentei um resumo da história da cidade, além de relembrar alguns fatos ocorridos quando da minha infância em Barras.

Dentre as biografias sobre os notáveis barrenses mencionados na referida crônica, a de David Caldas - o “Profeta da República” - foi a que mais despertou a minha atenção. Talvez por curiosidade ao seu cognome. Embora sendo eu de Barras, quase nada sabia a respeito desse famoso conterrâneo; apenas conhecia uma rua no centro de Teresina e outra na cidade de Barras com o seu nome, além de um povoado localizado no município União, que teve como origem um antigo Núcleo Colonial Agrícola, criado Governo Federal. O destaque que ora faço desse grande barrense, não significa dizer que seja ele mais importante do que seus conterrâneos intelectuais Celso Pinheiro, João Pinheiro, Matias Olímpio de Melo, Arimathéa Tito Filho, Wilson Carvalho Gonçalves e tantos outros filhos ilustres de Barras do Marataoan; todos, indistintamente, estão na galeria dos grandes escritores e poetas do Piauí. Escolhi este porque muito me atraiu a sua vida de lutas, mas, e também, pela ética, coragem, integridade, honestidade e idealismo com que se houve durante toda a sua vida.

De acordo com os apontamentos biográficos de Monsenhor Chaves, insigne historiador Piauiense, David Moreira Caldas nasceu em 22 de maio do ano de 1836, em uma fazenda conhecida como Morrinho, nas imediações da antiga Capela das Barras. Era filho do Capitão Manuel Joaquim da Costa Caldas e de Manuela Francisca Caldas. Na época do nascimento do menino, a propriedade da família já não era tão rentável; o patrimônio do Capitão, com o passar do tempo, diminuía cada vez mais o seu valor, mormente pelo agravamento das secas de 1823 e 1826, bem como pelas consequências dos conflitos dos Balaios ocorridos na região, em 1839. 

Era desejo do pai que o jovem David tomasse conta de suas terras, tornando-as novamente produtiva. No entanto, a vida do campo não despertava muito a atenção daquele rapaz. O que desejava mesmo era entrar no mundo das letras. Para tanto teve uma importante ajuda do Dr. Francisco Xavier de Cerqueira, Juiz de Direito da comarca, que lhe ensinou português, latim, francês e aritmética. Aos dezenove anos, David Caldas tornou-se promotor público de Campo Maior, cargo que abdicou por conta de uma depressão nervosa que lhe acometeu.

Vendo que David era um jovem prodígio nos estudos, o pai o enviou para Recife a fim de terminar os preparatórios para ingressar na Faculdade de Direito de Olinda. O Capitão Manuel, embora passando por uma situação financeira difícil, não mediu sacrifícios. E o jovem partiu para a Veneza brasileira em 27 de janeiro de 1860. No entanto, segundo Monsenhor Chaves, no dia treze de agosto daquele mesmo ano, uma infeliz notícia lhe chegou ao seu conhecimento. Seu pai tinha falecido dias antes, mais exatamente no dia 1 de agosto, após dias de padecimentos. Decidido, no dia seguinte, retornou para Barras, para ajudar sua mãe e sua irmã naquele momento tão difícil. Diante dessa fatalidade, David Caldas sacrificou todos seus sonhos, aspirações e esperanças. Sua vida mudou radicalmente. Ele agora era o chefe da família; tomou para si a responsabilidade pela administração da fazenda, o que o impediu de se dedicar à cultura ou às atividades jornalísticas. Cabe aqui salientar que, conforme nos informa o historiador Wilson Carvalho Gonçalves, no seu Dicionário Enciclopédico Piauiense Ilustrado, David Caldas iniciou sua vida profissional na imprensa, no jornal Arrebol, por ele fundado em 1859.

Em que pese a boa vontade do jovem David Caldas, positivamente ele não fora amoldado para a vida dura do interior, descreve Monsenhor Chaves em sua importante obra. Optou por um emprego de professor de letras que conseguiu em Barras, e casou-se, a 12 de dezembro de 1862, com Benvinda de Queiroz, filha de importante fazendeiro de União. No ano seguinte, o emérito historiador vai encontrar David Caldas em Teresina trabalhando como redator, ao lado de Deolindo Moura, em um periódico liberal progressista chamado “Liga e Progresso”. Diz também Monsenhor Chaves que o ano de 1863 foi marcante para a vida de David Caldas, iniciando ali uma brilhante carreira burocrática. Em 1864 passou a oficial da Secretaria da Presidência da Província, além de ministrar aulas na antiga Escola Normal. E, continuando a sua ascensão no serviço público, em 1867 obteve, por merecimento, promoção a Oficial-Maior da Secretaria do Governo. Ainda naquele mesmo ano, o talentoso David Caldas passou em um concurso público para professor vitalício em uma Cadeira no Liceu Piauiense. Paralelo a isso, David Caldas participa, entre 1965 e 1968, da redação do jornal “A Imprensa”, um semanário oficial do Partido Liberal, de propriedade também do mencionado Deolindo Moura.

No ano de 1867, David Caldas já era bastante popular devido a sua ascendente carreira burocrática, bem como pelas suas atividades de jornalista e professor. Por ser bem conceituado na sociedade, decide concorrer às eleições para a Assembleia Provincial. Obteve uma expressiva votação, ficando em primeiro lugar entre os deputados eleitos para o período de 1965 a 1968.

Daí em diante, começa a derrocada do nosso ilustre barrense. A política partidária lhe foi cruel. Monsenhor Chaves ressalta que devido a atuação de David Caldas na Câmara, defendendo os interesses do povo mais humilde de Teresina, desperta uma enorme “antipatia de certos grupos sociais que se sentem ameaçados com sua pregação populista”. Na época, a maioria da população morava em miseráveis casas de palha que ficavam na beira do rio Parnaíba e na periferia ou até mesmo em alguma parte do centro da cidade. Por essa razão, o deputado David Caldas apresentou, dente outros, um audacioso projeto para beneficiar os pobres que residiam nesse tipo casa. Seu projeto consistia em instituir o “imposto da décima urbana, que seria aplicado na construção de casas populares de telha, que seriam entregues ao povo mediante contribuições módicas”. Sua estratégia era evitar a construção de palhoças em Teresina. Disso, pode-se concluir que David Caldas era um homem de visão; um homem à frente do seu tempo. Caso fosse aprovado esse projeto, certamente teria se evitado os misteriosos incêndios ocorridos em meados do século XX na cidade de Teresina.

Cada dia que passava, o ódio de seus opositores recrudescia cada vez mais; não desejavam as mudanças propostas por David Caldas. O próprio Partido Liberal, ao qual era filiado, não o apoiou. Por conta disso, desligou-se dessa agremiação partidária e também da redação da “A Imprensa”. Em 1968 funda seu próprio jornal com o nome de “O Amigo do Povo”. Este jornal, segundo a Doutora Ana Regina Rêgo, em seu artigo OITENTA E NOVE, Monitor Republicano do Piauhy, “já nasceu republicano embora não o reconhecesse como tal”. Contudo, afirma a emérita professora da UFPI, que os textos do referido jornal são de combate à monarquia, seus vícios e práticas de corrupção. A partir da criação do “Amigo do Povo, David Caldas se transformou em um contumaz crítico do governo de D. Pedro II, mormente quanto as suas constantes mudanças de opinião. De fato, referido jornal tornou-se o baluarte dos ideais do valente David Caldas. Em 14 de janeiro do ano de 1872, o “Amigo do Povo” já aparece, no seu cabeçalho, com o subtítulo de Órgão do Partido Republicano da Província do Piauí. Pelos seus textos publicados nesse periódico, via-se que o combativo jornalista tinha embasamento político para argumentar sobre os variados temas, sobretudo com relação ao Império Brasileiro. Na realidade, David Caldas tornou-se um dos maiores propagandistas republicanos na Província do Piauí. Monsenhor Chaves ressalta que as ideias republicanas de David Caldas já vinham desde o ano de 1849, quando tinha apenas 13 anos de idade.

A partir de 1872, quando David Caldas publicamente se declara republicano, seus inimigos o perseguiram implacavelmente, chegando a perder todos os empregos que obtivera por seus próprios méritos, excetuando-se o cargo de professor vitalício da cadeira do Liceu Piauiense, uma vez que tinha sido admitido através de concurso público. Mesmo assim, ele pediu demissão daquele cargo, afirmando que não devia receber salários provenientes de um Governo que ele combatia. Conforme registro de Monsenhor Chaves, o valoroso jornalista, para sobreviver, passou a dar aulas particulares, haja vista que o “O Amigo do Povo” não lhe proporcionava rendas suficientes para o sustento da sua família. Em 1873, David Caldas muda o nome do seu jornal para “Oitenta e Nove”, em alusão ao último exemplar, o nº 89, do periódico até então em circulação. Este periódico teve 31 edições em circulação. O jornal, por falta de recursos financeiros e da grande inadimplência no pagamento das assinaturas, não pode mais ser impresso.

O historiador Wilson Gonçalves nos relata que, na edição do primeiro número do jornal “Oitenta e Nove”, David Caldas escreve um artigo manifesto contra as instituições imperiais, ao tempo em que conclama à Proclamação da República Federativa do Brasil para, exatamente, o ano em que o movimento aconteceu, ou seja, em 1989. Alguns estudiosos dizem que David Caldas profetizou o advento da República em 1989: atribuiu ao seu jornal o dístico Oitenta e Nove. E como se sabe, o primeiro número do novo periódico tem data de 1º de janeiro de 1873, quer dizer, quase uma década e meia antes da Proclamação da República. Sobre essa profecia, Monsenhor Chaves está de acordo, mesmo no sentido de conjectura. Outros, como Abdias Neves, não comungam dessa ideia de profecia, pois se “cingem obstinadamente ao sentido religioso da palavra”, o que também concorda o Monsenhor Chaves. Em que pese os argumentos de Abdias Neves e outros discordantes, David Caldas passou a ser conhecido como o Profeta da República, de forma lendária e histórica, como afirma o notório escritor Wilson Carvalho Gonçalves.

Para corroborar com a tese da profecia de David Caldas sobre a Proclamação da República em 1989, Chaves transcreve dois tópicos do emblemático artigo escrito por David Caldas no primeiro número do combatente jornal “Oitenta e Nove”:

“... (os patriotas mineiros) acabaram por ser outros tantos mártires da liberdade, outras tantas vítimas imoladas ante o altar druídico, em forma de trono, onde se achava exposta à veneração dos fiéis a mentecapta Maria, digna bisavó do atual imperador do Brasil, a quem Deus guarde, quando muito, até 1889...”.

“... seja-nos permitido ter a fé robusta de ver a República Federativa estabelecida no Brasil, pelo menos daqui a 17 anos, ou em 1989, tempo assaz suficiente, segundo pensamos, para a educação livre de uma geração, para a qual ousamos apelar, cheios da maior confiança”.

Em seu mencionado artigo, a ilustríssima professora Ana Regina Rêgo enfatiza que David Caldas, além de não ter condições para continuar com o seu jornal, também não teve forças para criar o Partido Republicano na Província do Piauí, mesmo porque a grande maioria dos importantes cidadãos do Estado estavam a favor do sistema monárquico vigente. Por conta disso, ele retornou, a convite expresso do Partido Liberal, para o jornal “A Imprensa”, onde atuou de forma moderada, mas sempre com os ideais republicanos e crítico à Monarquia, completa a professora. Antes disso, em 1874, David Caldas funda o jornal de nome “O Papiro”, que teve duração efêmera. Em 1887, também cria outro jornal conhecido como “O Ferro em Brasa”, também de curta duração. Há registros históricos de que ele fundou um outro jornal – “O Bom Menino”. Como se nota, David Caldas teve uma vida bastante atuante na imprensa de Teresina nas décadas de 60 e 70 do século XIX.

No seu Dicionário Enciclopédico Piauiense Ilustrado, Wilson Gonçalves evidencia que David Caldas, além da sua extraordinária atividade jornalística, elaborou e escreveu importantes trabalhos de ordem científica, pedagógica e literária, entre os quais destacam-se: “Relatório de Viagem Feita de Teresina à Cidade de Parnaíba” (no ano de 1867, pelo rio de mesmo nome); um trabalho de “retificação de uma planta de Teresina” (1867); a “Planta Topográfica do Rio Parnaíba” (1867); e o “Dicionário Histórico e Geográfico do Piauí”. Escreveu também inéditas poesias tais como “Tímidos Acentos” e “A Musa Triforme”. Lamentavelmente, não se tem conhecimento do paradeiro dessas obras.  David Caldas é Patrono da Cadeira nº 4 da Academia Piauiense de Letras e da nº 8 da Academia Vale do Longá.

Segundo Monsenhor Chaves, David Caldas era um homem desprendido. Em que pese sua situação financeira bastante precária, em 1974, levou para morar em sua casa a irmã, e mais quatro filhas, em razão do falecimento do cunhado.

Diz ainda Wilson Gonçalves que, ante às perseguições e injustiças pungidas pelos seus ferrenhos inimigos, o seu estado de pobreza o levou, em fins de 1877, a uma profunda depressão nervosa, perdendo o contato com a realidade, e passando a viver de abstrações. Um exemplo disso: lançou os princípios de uma nova ciência, a Coincidenciologia, onde se declarava em formação de trindade humana com Gonçalves Dias e Deolindo Moura, o que tentou provar através de cálculos coincidenciológicos, conforme reforça a professora Ana Regina Rêgo.

Em Teresina a 03 de janeiro de 1879, paupérrimo, morre David Caldas, o maior dos republicanos na Província do Piauí.

Para finalizar, Monsenhor Joaquim Chaves anota que o poeta “Licurgo de Paiva, que lhe assistiu nos últimos instantes, diz que ele morreu balbuciando os versos do hino litúrgico – ‘Glória in excelsisDeo’. Poucas horas antes exclamava: “É chegado o dia de vos dar minhas contas ... Sabaoth ... Sabaoth ... Sabaoth ... Três vezes sábio... Três vezes santo...” A igreja católica, contudo, lhe negou sepultamento cristão. Essa negação, de fato, é confirmada pelo grande escritor e poeta, Celso Pinheiro, em seu livro “História da Imprensa”. Ali, Pinheiro enfatiza os continuados atos discriminatórios contra David Caldas:

“Mas nem a morte fez arrefecer a vingança dos áulicos imperiais contra o grande republicano. Como a Igreja Católica era ligada ao Estado, David, apesar de grande crente em Deus, e membro da Irmandade do Santíssimo Sacramento, era oficialmente considerado ateu e, como tal, não teve o direito de ser enterrado no cemitério. Cavaram-lhe um túmulo em frente ao portão principal do cemitério São José, debaixo de um velho jatobazeiro ali existente, túmulo que alma caridosa mandou cercar com grade de ferro. Só na década de 1930, quando do calçamento da rua, foram exumados seus ossos e transladados para dentro do cemitério, assim como outros túmulos de protestantes junto ao seu existente”.


(*) Chico Acoram Araújo é funcionário público federal, contista, cronista, poeta e futebolista aposentado.