domingo, 17 de janeiro de 2016

Seleta Piauiense - Celso Pinheiro


Mater

Celso Pinheiro (1887 - 1950)

A minha mãe, uma velhinha doce,
De olhar de mel e beijos de torcazes,
A minha mãe, coitada! talvez fosse
A dindinha dos cravos e lilases!...
  
No seu ventre bendito Ela me trouxe
Nove meses... E um dia, sob audazes
Raios de sol primaveril, notou-se
Que surgira um bebê de olhos vivazes...
  
Era eu! era um poeta extravagante,
Que nascera sem festas nem alardes,
Quando o dia era um límpido diamante...
  
A minha mãe... matou-a o mês de Agosto!
E é por Ela que eu vou todas as tardes
Rezar na capelinha do Sol-posto!...       

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

RETRATO DE UMA VIDA


RETRATO DE UMA VIDA

Valério Chaves
Desembargador inativo e escritor

            Dia 8 deste mês, quando fazia minha costumeira caminhada de final de tarde na Raul Lopes, tive o prazer de receber por intermédio do próprio autor, um exemplar do mais novo trabalho literário do juiz, poeta e escritor Elmar Carvalho, intitulado RETRATO DE MEU PAI.

            Tão logo cheguei em casa, tratei de ler e reler o livro remoendo cada página como o boi de Catulo. Ao final, pude constatar que se trata de um breve registro familiar escrito pelo autor em homenagem aos 90 anos de vida de seu pai MIGUEL ARCÂNGELO DE DEUS CARVALHO.

            Na verdade, trata-se de um opúsculo muito bem elaborado em que Elmar Carvalho, utilizando-se de seu inigualável poder de sintetizar, expõe de forma fragmentada a vida de seu pai, trazendo à tona fatos, lugares e personagens que pelo valor do estudo e informações que lhe foram passadas por parentes, formam uma valiosa fonte de pesquisa.      Apesar das poucas páginas ilustradas com fotos,lugares e pessoas da família do homenageado, o trabalho de Elmar Carvalho não deixa de ser uma forma de exercício criativo que tem sua dinâmica impulsionada pela vontadede vislumbrar o papel do ser humano no mundo.

Com o vigor da arte que lhe é peculiar, soube montar o quadro existencial de seu pai utilizando-se de material emotivo extraído das profundezas da alma adornando a trajetória de uma vida modelada pelo caráter retilíneo e a honestidade de um homem simples que, escondido na sua humildade,soube avaliar a si próprio, parecendo haver sido formado na mesma cepa dos espíritos mansos, que nada ambicionam.

            Não obstante a realidade do Brasil seja outra nos dias atuais, os fatos e histórias verídicas contadas no livro-homenagem de Elmar Carvalho, não perdem sua contemporaneidade em relação ao tempo vivido por seu Miguel Arcângelo de Deus Carvalho, principalmente no que diz respeito à intolerância e aos costumes da política praticada por aqueles que se acham no direito de nomear e demitir, sem razões justificadas.

            No momento em que estamos empenhados na árdua tarefa de sobrevivência em meio aos escândalos patrocinados pela corrupção praticada pelos maus políticos e pelos gestores da coisa pública, é bom saber que ainda podemos viver ao lado de pessoas como Miguel Arcângelo de Deus Carvalho, que nos seus 90 anos de vida, mesmo fragilizado pela idade, nunca deixou de preservar a honestidade e a arte do amor. Enfim, nunca deixou de sentar em volta da mesa para partilhar com a família e com os amigos, o pão do abraço.

            Resta-me, pois, nestes breves rabiscos, parabenizar o autor de RETRATO DE MEU PAI desejando a ele e ao homenageado, vida longa, muito longa.

                        Teresina/PI. 13 de janeiro de 2016.             

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

RETRATO E ANIVERSÁRIO DE MEU PAI




Miguel Carvalho e os filhos Paulo, César, Maria José, Joserita, Antônio, João e Elmar


12 de janeiro Diário Incontínuo

RETRATO E ANIVERSÁRIO DE MEU PAI

Elmar Carvalho

No dia 8 de janeiro deste novo ano, comemoramos o aniversário de meu pai. O evento foi idealizado por minha irmã Maria José, mas contou com o apoio dos familiares. A missa foi celebrada pelo padre Jurandir da Silva Rodrigues, na igreja da Paróquia Santa Luzia. Foi um lindo culto, em que o sacerdote, de joelhos, com as luzes na penumbra, fez um magistral sermão, que nos encantou a todos pela riqueza de seu conteúdo. Todos nos emocionamos com as suas belas palavras.

Apesar da chuva fina que caiu durante a noite toda, estavam presentes todos os amigos e colegas postalistas de meu pai, muitos já idosos. Essa presença massiva foi uma prova de consideração e amizade ao aniversariante. O padre Jurandir foi atencioso e afetivo com meu pai, inclusive tendo lhe dado a palavra após o término da celebração. Papai agradeceu o comparecimento de todos e pediu desculpas por eventuais esquecimentos de nomes.

Vendo tantos amigos, lembrei-me de um caso contado pelo escritor Orígenes Lessa, a respeito do sepultamento de seu pai, que teve um grande cortejo. Um forasteiro, admirado, perguntou a uma pessoa que chorava, se o falecido era uma pessoa muito importante. Recebeu, entrecortada por soluços, a seguinte resposta: “Não. Era só muito bom.” Fazendo coro, poderia dizer que apenas comemorávamos as nove décadas de um simples homem bom.

Depois da celebração religiosa, nos deslocamos até o Buffet Momentos, onde houve farto jantar e libações. Mesmo com a chuva ou, talvez, por causa dela o “clima” foi de alegria, descontração e congraçamento, com o reencontro de velhos e estimados amigos. Foram contados vários “causos” pitorescos ou engraçados do tempo em que papai chefiou a ECT em Parnaíba, quando muitos dos presentes estavam iniciando a sua vida profissional. Como lembrança, foi distribuído o livro “Retrato de meu pai” (com depoimentos e fotografias), cujo texto principal, de minha autoria, datado de 05.01.2016, quando ele completou noventa anos de vida, transcrevo: 



“Não pretendo ser emotivo e nem sentimental, e tampouco desejo traçar aqui o perfil psicológico e moral de meu pai. Por tal razão, irei contar, de forma sintética, fatos de sua vida, que serão diminutos mosaicos ou azulejos, que juntos formarão um pequeno painel de sua vida e de seu caráter.

Talvez alguns de seus pequenos defeitos, que todos os temos, sejam consequência de suas virtudes e qualidades de homem bom, de uma pessoa que sempre teve dificuldade em dizer um não, que procurou sempre não contrariar ou magoar quem quer que fosse. Algumas vezes ele se prejudicou por causa disso, por causa dessa virtude que alguns consideram fraqueza ou tolerância algo excessiva. Contudo, Deus o protegeu, e ele alcançou os seus noventa anos de idade sem maiores percalços e sobressaltos.

Miguel Arcângelo de Deus Carvalho é o seu nome completo. Nasceu em Barras, no dia 5 de janeiro de 1926, filho de João de Deus Nascimento e Joana Lina de Deus Carvalho. Perdeu seu pai quando tinha apenas 13 anos de vida, e cursava o ginásio no Colégio Diocesano, em Teresina. A infausta notícia lhe foi transmitida, com as cautelas de praxe, pelo Monsenhor Chaves, que depois viria a se tornar um dos maiores historiadores do Piauí, do qual vim a me tornar amigo, quando fui o presidente do conselho editorial da Fundação Cultural que leva o seu nome. Teve que retornar a Barras, a chamado de sua mãe. Filho único do terceiro casamento de seu pai, muito jovem e sem experiência laboral, era evidente que não saberia gerir a herança que lhe coube, após a partilha com os demais herdeiros.

Portanto, cedo teve que trabalhar, para sustentar-se a si e a sua mãe, que morou em sua companhia até quando faleceu. Fora outros empregos, trabalhou na Casa Marc Jacob e na Casa Inglesa, em Campo Maior, para onde se transferiu aos 26 anos. Após aprovação em concurso público, feito pelo famoso DASP, foi admitido no Departamento de Correios e Telégrafos – DCT, mais tarde, no regime militar, transformado em empresa.

Quando trabalhou numa firma comercial pertencente ao marido de uma prima de minha mãe, houve um fato que bem revela o seu caráter de homem leal, mas polido, e que não gostava de ofender ninguém, mesmo os desconhecidos. O dono do comércio estava chateado com um fornecedor, que não cumprira fielmente o contrato. Ditou uma carta áspera, em que se queixava de forma rigorosa dos defeitos que apontava. Meu pai, ao datilografar o que lhe era ditado, atenuou algumas palavras e expressões. Ao ler a carta, o empregador, que era uma ótima pessoa e amigo de meu pai, de maneira educada observou: “Miguel, você não se sentiu bem em escrever as palavras que eu disse... Deixe, que eu mesmo vou datilografar.” E carregou na dosagem dos impropérios e adjetivos, com os quais fustigou o seu desafeto.

Após aprovação em concurso público realizado pelo DASP, meu pai, em 1957, foi nomeado servidor público federal. O telegrama da nomeação, após espera de aproximadamente dois anos, lhe foi entregue pelo telegrafista Gerson Marques, seu amigo por toda a vida, que, apesar de não ser mensageiro nem carteiro, fez questão de lhe repassar incontinenti a mensagem telegráfica. Exerceria o cargo de guarda-fio na Diretoria Regional do Piauí do Departamento de Correios e Telégrafos – DCT. Era considerado um bom emprego para a realidade da época. Tomou posse de seu cargo no então povoado de Papagaio, um pouco depois elevado à categoria de cidade, onde nasceu meu irmão João José, o segundo de uma prole de oito, da qual fui o primogênito. Após uma breve serventia de um ano, meu pai conseguiu sua remoção para Campo Maior, após breves passagens por José de Freitas e Barras. Sobre a nossa permanência em Francinópolis já me referi em outros textos, publicados na internet.

Em sua carreira no DCT, nossa família morou por pouco tempo na zona rural de Campo Maior e novamente em José de Freitas, durante um ano. Nesta cidade, com o apoio total do padre Deusdete Craveiro de Melo (meu professor e diretor no Ginásio Moderno Estadual Antônio Freitas), fundei um time de futebol, o Santos, e um campo futebolístico, localizado perto do cemitério velho. Quando morou na zona rural, e com o crescimento da família, meu pai sentiu a necessidade de ascender funcionalmente. Embora tivesse apenas o segundo grau incompleto, encarou os livros com afinco e determinação e passou no concurso interno para técnico postal da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos – ECT. Fez curso de um ano em Recife, no Centro de Treinamento Correio Paulo Bregaro. Após, teve que optar pelo regime celetista (deixando de ser estatutário e estável), para assumir seu novo cargo. Foi designado, no começo de 1975, chefe da ECT em Parnaíba. Exerceu esse cargo por vários anos. Aposentou-se em 1984.

No final da década de 1960 e/ou início da seguinte, meu pai foi colaborador eventual do jornal A Luta, de Campo Maior. Nele publicou algumas crônicas e artigos, alguns contendo casos interessantes ou pitorescos de sua vida. Seus textos eram concisos, fluentes, objetivos e gramaticalmente corretos. Tanto que, ao retomar seus estudos, mereceu em redação para a disciplina Educação Moral e Cívica, de que era professor o impoluto juiz Hilson Bona, a nota 10. Ao dar o resultado da prova, o Dr. Hilson, que mais tarde veio a ser meu professor de OSPB, disse que outros alunos mereciam essa nota, mas que não lhes dera porque não poderia dar mais do que 10 a meu pai. Assim, lhes deu nove vírgula alguns décimos.

Papai gostava de ler, e “degustou” vários clássicos da literatura brasileira e mesmo mundial. Tinha certa predileção por Machado de Assis. Tinha várias antologias escolares, insertas em livros didáticos de Português. Sabia decorado vários poemas, os quais ocasionalmente recitava. Cantarolava belas letras, verdadeiros poemas, de músicas da velha guarda. Era assíduo ouvinte do programa radiofônico Gramofone da Vovó, apresentado por Jaime Farrell, através das ondas poderosas da Rádio Sociedade da Bahia. Por esse motivo, conheço muitas dessas antigas e belas melodias. Se tivesse dado continuidade a essa sua faceta literária, poderia ter-se tornado um escritor, ainda que bissexto. Mas sua modéstia e despretensão não lhe permitiram ir além dessas breves incursões literárias.

Ainda na fase em que voltou a estudar, havia uma disciplina artística em que o aluno era obrigado a confeccionar um objeto de arte, em papel, madeira ou argila. Geralmente eram feitos desenhos, pinturas ou objetos de artesanato. Os trabalhos eram elaborados em casa, de modo que alguns alunos pagavam a alguém para fazê-los, já que não eram produzidos à vista da professora. Numa das ocasiões, meu pai optou por fazer o desenho de uma das mais conhecidas casas de Campo Maior. Sem ser desenhista e sem ter essa vocação, foi, contudo, meticuloso, e mesmo perfeccionista. Fez medições com a régua e o esquadro, para alcançar a simetria, a proporcionalidade e o possível efeito da perspectiva. Conseguiu fazer um bom trabalho, mormente considerando-se a sua inexperiência e falta de vocação para esse mister.

Outro trabalho seu, por exigência dessa disciplina artística, foi um carro de boi, executado em buriti, que é leve e não exige demasiado esforço para ser desbastado. Após vários dias, com muito cuidado, disciplina e paciência, fez a miniatura, que apresentava notáveis semelhanças com um de verdade, pelo menos aos meus olhos de menino. Mereceu o elogio de todos, inclusive de minha mãe, e creio que da professora, já que ele não ficou reprovado. Disso tiro a conclusão que ele tinha o espírito de um artista, mas que por modéstia e timidez não deixou que lhe aflorassem esses dotes, que lhe ficaram em estado latente, ou pelo menos reservados à admiração que tinha pelos dons alheios. Talvez, ao confeccionar o seu pequenino carro de boi, tenha se lembrado do engenho de madeira de seu pai e dos imortais versos de Da Costa e Silva:

Movida pelos bois tardos e sonolentos,
Geme, como a exprimir, em doridos lamentos,
Que as desgraças por vir, sabe-as todas de cor.

Ai! dos teus tristes ais! Ai! moenda arrependida!
- Álcool! Para esquecer os tormentos da vida
E cavar, sabe Deus, um tormento maior!

No final da década de 1950, meu pai foi chamado a Teresina pelo senhor Oto Veloso, que exercia o cargo de diretor regional do DCT no Piauí. Visivelmente constrangido, o diretor perguntou o que meu pai fizera contra determinada figura da política piauiense. Meu pai respondeu-lhe que nada, que apenas comentara que não iria votar em determinado candidato que ele apadrinhava. Oto, bastante contrafeito, contou a papai que o político referido [descendo de seu alto cargo republicano para a sarjeta da política miúda, para a politiquice de campanário], exigira a sua destituição de pequeno cargo de confiança. Confidenciou que ainda lhe ponderara que Miguel era um bom servidor, e que não cometera nenhum deslize profissional, mas a alta autoridade, com irritação, quase tendo um chilique ou um ataque de apoplexia, respondera: “Mas eu quero, eu quero que ele seja exonerado”. Meu pai, humilde, mas altivamente, falou: “Fique à vontade, diretor, não se preocupe, pode fazer a exoneração, que a minha amizade e respeito pelo senhor vão permanecer os mesmos. Entretanto, o que eu fiz contra esse político foi votar nele várias vezes. Porém, moralmente, retiro os votos que já lhe dei...” Papai sempre manteve grande respeito e admiração pela integridade moral de Oto Veloso, irmão do ex-governador Djalma Martins Veloso.

No começo da década de 1960, logo ao chegar para o expediente, meu pai foi indagado pelo chefe da agência sobre por que faltara ao plantão anterior. Papai respondeu que não fora ele o faltoso. O agente, então, exigiu que lhe desse o nome do funcionário que não comparecera. Meu pai respondeu que não poderia fazer isso, mas que lhe bastava consultar o livro de ponto para saber o nome desse servidor. De maneira insólita o chefe comunicou ao diretor regional da época que meu pai teria cometido insubordinação, e não lhe teria acatado a determinação funcional. Meu pai, como “punição”, quase foi transferido para um local distante e isolado. Contudo, seguindo seus princípios éticos, preferiu ser prejudicado a prejudicar alguém, sofrer uma injustiça, a praticá-la. Mas Deus o protegeu e orientou, e tudo acabou bem.

Após aprovação em concurso interno, meu pai foi fazer o curso de Técnico Postal no Centro de Treinamento Correio Paulo Bregaro, em Recife, cuja duração era de um ano. Ao retornar, e após breve serventia em Teresina, foi designado para chefiar a agência da ECT em Parnaíba. Permaneceu nesse cargo por mais de sete anos. Embora aposentado, continuou residindo em Parnaíba até dezembro de 1994, quando voltou a morar em Campo Maior. Procurou cultivar a política da boa vizinhança com os quase cinquenta servidores, que existiam no início de sua gestão. Sempre que precisava reclamar por causa de alguma falha, chamava o colaborador ao seu gabinete, quando, então, com bons modos, fazia as suas observações e lhes dava a orientação que achava conveniente. Por causa de sua maneira cordial os servidores lhe tinham respeito e consideração, que até hoje conservam. Muitos que conviveram com ele, declaram dele sentir saudade, e sempre perguntam por ele e pela sua saúde. Desprovido de empáfia e arrogância, nunca precisou levantar a voz contra quem quer que fosse, e tudo acabava dando certo.

Por ter constituído uma família grande, mais precisamente de oito filhos, em certa fase de sua vida passou por algumas dificuldades financeiras, como costuma acontecer com quase todas as famílias, mas guardava isso somente para si, e nunca gostava de se queixar. Tinha uma fé inabalável em Deus, a quem orava com fervor, e terminava por resolver todos os seus percalços e dificuldades, sem nunca enganar os outros e nem lhes causar prejuízo. Nas vezes em que, eventualmente, recebeu algum dinheiro a mais, em lojas ou em agências bancárias, de imediato retornava para devolver o que indevidamente lhe fora pago. Esses exemplos sempre nos eram ressaltados por nossa mãe, para que os seguíssemos.

Em meados da década de 1960, meus pais receberam, através do serviço de reembolso postal, um pacote remetido pela empresa Hermes. Era um belo faqueiro, de aço inoxidável, quase uma novidade na época, pelo menos para nós. Esse conjunto de garfos, facas, colheres e outros utensílios nos serviram desde então. Minha mãe, creio que por pressentir que o termo de seus dias já se aproximava, mandou gravar em sete dessas colheres os dizeres “Casamento – Miguel e Rosália – 09.06.55”, e as distribuiu a cada um dos filhos. Desde essa data (09.06.55) até o falecimento de mamãe em 26.04.2013, meus pais viveram em perfeita união e benquerença.

Com oração e Fé, suportou meu pai a trágica morte de minha irmã Josélia, ocorrida em 02.07.1978, quando ela mal completara 15 anos de idade, e a de minha mãe, Rosália. Sei que ele muito sofreu, mas em Deus encontrou força e resignação. E agora, ainda lúcido e saudável, como um herói da vida e da luta do cotidiano, comemora com seus familiares, amigos e admiradores os seus 90 anos de idade, em cujo percurso, como o apóstolo Paulo, guardou a Fé, e disseminou o bem e o seu exemplo de homem voltado para a concórdia e para a bondade.”

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Advinha a idade dele?!


Advinha a idade dele?!

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

         Passagem de ano novo, abraços, beijos, felicitações e foguetório, música, bebidas e deliciosos pratos. Em momentos assim, parece que a matéria se sobrepõe à reflexão sobre nosso destino diante da inexorável travessia do tempo nos corpos e de algo para além das esferas terrestres. Eu me sentia um misto de prazer com os meus familiares e amigos, um êxtase de dependência ao Criador, senhor do meu destino. Demo-nos as mãos, fechamos os olhos, invocamos o Santo Espírito, agradecemos “as marcas do que se foi e dos sonhos que vamos ter”. Céus iluminavam esperanças e perguntas existenciais: “Quanto tempo, natais e anos novos ainda me restam?!”

         Dia desses, uma criança perguntou a um senhor: “Quantos anos você tem?” O cidadão filosofou: “Quando eu nasci, Teresina só dispunha de uma ponte sobre o Parnaíba, outra no Poti. A cidade acabava na Vermelha, no Aeroporto, na Piçarra, na Praça do Marquês, na ponte do Poti.

         Nasci antes da televisão no Brasil, vacinas contra pólio, comidas congeladas, fotocopiadoras, lentes de contato, pílulas anticoncepcionais, radares, cartões de crédito, conquistas espaciais, homem na Lua, secadores de roupa (só no varal), ar condicionado, raios laser, fotografia colorida, que exigia revelação, cara, e só recebia dias depois.

         Gay era uma palavra inglesa para pessoa contente e divertida; não para homossexual ou lésbica. Rapazes só pensavam em casar-se com virgens. As não-virgens eram expulsas de casa, residiam em cabaré, não circulavam na Praça Pedro II, proibidas de entrar nos clubes sociais. Tirar a virgindade, tinha de casar, ou morria, às vezes.

         Estudantes circulavam, livremente. na escola, com canivete. Ninguém se feria. Ensinavam-se condutas de respeito aos mais velhos, chamando-os de senhor ou senhora, cedendo-lhes o assento, tomando-lhes a bênção, se parentes. Ensinava-se a diferenciar o bem do mal,  honrar os dez mandamentos. À entrada do professor na sala de aula, todos de pé. Hino nacional todo dia. Ia-se, às 5 da manhã, à escola, para educação física, e não era molestado.

         Não existia rádio FM, só AM, capaz de alcançar milhares de km, como o Repórter Esso ou BBC de Londres. Ainda se rodavam discos de 78 rotações, sem CD, DVD, máquina de escrever elétrica, calculadora mecânica portátil, música estéreo, fitas K7. Só relógio de corda, nada digital, microondas, videocassete, Mac Donald’s, filmadora de vídeo, pizza, made in China; made in Japan, sim, ou Suíça. Não se falava à distância por telefone. Rapidez só por telegrama.

         Por centavos, pagava-se a passagem de ônibus, refrigerante. Erva nos jardins e pastos, não como droga. Mulher precisava de marido para gerar filhos. Qualquer evento social exigia terno, inclusive no cinema”.

         -Quantos anos eu, tenho?

         - 200!

         - Tenho apenas 60 anos!

         Ano novo tem dessas coisas: o tempo anda tão veloz que perdemos a conta dos avanços.   

domingo, 10 de janeiro de 2016

Morre Bernardo Carranca


Acabo de saber da morte de Bernardo Carranca, através de telefonemas de amigos parnaibanos e do portal Proparnaíba, no qual tenho blog. Do site mencionado transcrevo o seguinte trecho:

“No início da tarde deste domingo, dia 10, o músico parnaibano Bernardo Carranca faleceu. O prefeito Florentino Neto decretou luto oficial de três dias pelo falecimento do cantor .

Segundo informações não oficiais, músico deu entrada no Pronto Socorro Municipal de Parnaíba, onde já chegou sem vida.  A causa da morte do artista ainda não foi divulgada.

Carranca é um dos grandes nomes no cenário musical da cidade de Parnaíba, desde 1967 quando ficou conhecido por seu trabalho como vocalista da banda “Os Grilos”, como também entrou para a história da música parnaíbana, pela arte do improviso e principalmente por fazer parte da cultura da cidade.”

Aproveito para apresentar meus pêsames aos seus familiares, e para ressaltar que ele ficará para sempre lembrado pelos seus improvisos bem humorados e pelas suas performances, em que mostrava dotes de verdadeiro ator e intérprete.

Seleta Piauiense - Zito Batista


MEU CORAÇÃO

Zito Batista (1887 - 1926)

Meu coração é um lúgubre convento:
Dentro dele, a rezar noites inteiras,
As minhas ilusões — tristonhas freiras
Vivem presas de estranho desalento...

E ouvindo, às vezes, queixas agourentas,
E ameaças de morte e sofrimento,
Soluçando, no escuro isolamento,
Falam de amor as pobres prisioneiras...

No entanto outrora, alegre, iluminado,
Como a igreja formosa em que se canta
A missa azul da crença e do conforto...

Meu coração foi céu alcandorado,
Onde imperava, ingenuamente santa,
A Forma viva do meu Sonho morto!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Um presente inesquecível



Um presente inesquecível

José Pedro Araújo
Historiador, romancista e cronista

Estava certo dia desfrutando do meu estimado ócio em minha casa, quando recebo a ligação de um grande amigo, Chico Carlos, o nosso inventivo Acoram. Não foi o telefonema de um amigo qualquer, daqueles arranjados ao sabor das libações, em volta de uma mesa de bar. Mas de um tipo que se convencionou chamar de ”amigos de todas as horas”. Convidava-me a prefaciar um livro de sua autoria que, a bem da verdade, não sabia eu que ele estava a escrever. Fiquei, naturalmente, preocupado com o convite. Afinal, reside ai uma das muitas tarefas sobre as quais não me sinto pronto para desempenhar. E fiquei com aquilo em mente, preocupado, sem saber como pedir ao meu amigo que procurasse alguém mais capaz para desempenhar tal missão com competência e à altura do seu trabalho, que já intuía de boa qualidade. E fiquei assim, esperançoso que ele esquecesse o convite que me havia feito. 

Passados alguns dias, nem mais um contato. Eu, naturalmente, já estava confiante de que o meu desejo havia se concretizado. Chico Acoram havia chegado à conclusão de que a mim não cairia muito bem esse papel. Mas qual! Daí alguns dias, volta o Acoram a me ligar. Bom, meditei rapidamente, sempre há a possibilidade de ser uma ligação com um pedido de desculpas por ter esquecido o convite feito, mas que já encontrara outro prefaciador. Não aconteceu assim. Para meu desgosto. Ao invés disto, convoca-me para uma chegada até o seu local de trabalho quando me apresentaria a boneca do seu livro. Já que era assim, ponderei sem muita confiança, que assim fosse.

Chegando ao prédio da AGU(Advocacia Geral da União), local em que o velho cacique desempenha e esbanja a sua competência habitual, sou recebido por ele com a efusiva alegria de sempre, o que me deixou um pouco mais tranquilo, mesmo ainda estando com o semblante carregado, denotando preocupação. Resolvi embarcar na cordialidade e alegria com as quais habitualmente sou envolvido quando nos reencontramos, e isso me fez bem. Aos poucos fui me soltando ao ponto de deixar a preocupação de lado e entrar na brincadeira saudável do Acoram.  

Satisfeito com as novas instalações da Procuradoria Federal, fui conduzido por ele para um Tour de reconhecimento, passando inclusive pela cozinha, onde fui apresentado a uma simpática copeira, a moça do cafezinho, mas também pela sala do chefe, espaçoso escritório que contrastava em tudo com as velhas instalações da Procuradoria no tempo em que ainda ocupava um velho e acanhado prédio ao lado da Prefeitura Municipal de Teresina. A caminhada, as tiradas alegres do meu amigo e, sobretudo, as apresentações que foram acontecendo no trajeto, fizeram-me esquecer um pouco a razão do convite feito. Mas isso demorou pouco. Logo voltamos à sua sala e ele me recordou o porquê de estar ali.

Depois de ir a um armário apanhar alguma coisa, ele depositou sobre a mesa um pacote robusto, que pelo barulho feito ao ser lançado sobre ela, pareceu-me bem volumoso e pesado. E de fato era. A essa altura a minha curiosidade já suplantara o receio, e eu já queria que ele abrisse o grande envelope e me apresentasse o que ele continha. Velho brincalhão, o Chico Acoram! Trapaceiro, no bom sentido. O que saiu do envelope foi um grande livro encadernado, capa dura, na cor verde, com a inscrição estampada em letras douradas: Teresina, 160 Anos!

Sorrindo com a peça pregada, contou-me que durante todo o ano de 2012 havia adquirido a edição de domingo do Jornal O Dia, com o propósito de obter o encarte que ele trazia sobre a história de Teresina. E me surpreendeu outra vez: aquele volume que eu tinha em mãos era meu. Algo inestimável e que me causou profundo contentamento. Preciso dizer ainda que o presente recebido ainda me tirou aquele peso das costas que eu carregava desde o dia daquela famigerada ligação telefônica que ele havia me feito. Duplo presente, eu diria.

Passei a manusear o volumoso exemplar que tinha nas mãos, enquanto a conversa se desenrolava alegremente, e pude perceber a riqueza que ele guardava. Tratava-se de um trabalho primoroso feito pelo professor e imortal Fonseca Neto, que assim homenageava a cidade de Teresina pela passagem do seu aniversário. As matérias traziam ainda fotografias e gravuras históricas que muito enriqueciam o hercúleo trabalho, tudo organizado, encadernado e protegido por uma bela capa mandada fazer pelo meu bom amigo Chico Acoram.

Tenho sido brindado com ótimos presentes ao longo da minha vida. Alguns deles, ainda conservo comigo, apegado que sou às coisas que mais prezo. Este, com certeza, foi um dos que mais me trouxe alegria. E também um sentimento contrário aos das traças: pretendo guardá-lo comigo até o fim. 

Pensei em fazer e publicar esta pequena resenha no meu blog neste período festivo em que é tão comum a troca de presentes entre as pessoas. E recorrendo à memória, procurei nela informações para saber se já havia ofertado algo ao amigo Chico Carlos. Não consegui descobrir nada, pois se já tiver lhe presenteado com algo deve ter sido coisa insignificante, pois não me lembro de nada. Ao passo que o que ele me presenteou jamais vai sair das minhas mãos enquanto vida eu tiver. E isso pela excelência do mimo, e pela importância do que ele contém para um rematado curioso sobre a história desta cidade que me acolheu tão carinhosamente, lugar que escolhi para passar os meus dias. Aqui pratiquei a coleta dos víveres necessários à minha sobrevivência, apanhei água na fonte para matar a minha sede, e juntei o material necessário para armar o meu barraco em lugar ideal para oferecer proteção à minha família contra as intempéries e os animais peçonhentos.


Sou grato à cidade, mas também aos amigos que aqui amealhei. Amigos como o Chico Acoram que me pregou a mais deliciosa das peças que já fizeram a mim nesses tempos que já se alongam.  

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

EM PÉ, tão saudável quanto A Pé

Dizem que o escritor Hemingway tinha o hábito de escrever em pé

EM PÉ, tão saudável quanto A Pé

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Nunca ministrei uma aula ou palestra sentado. Sempre em pé. Sempre entusiasmado e valente no trabalho, embora já aposentado, rejeito aposento. Saudável danação para acordar na aurora, orar, plantar, colher, irrigar, escrever, atender a dezenas de mensagens de leitores, aporrinhá-los nas redes.

Avesso a badalações noturnas, escapulo, vez outra, à praça de alimentação do shopping. Lembra-me a Praça Pedro II, que reunia a moçada da modesta, pacífica, acolhedora Teresina. Todos se conheciam, menos as garotas desvirginizadas e repugnadas pelo preconceito. As puras circulavam, de incendiar a libido dos rapazes, em pé, flertando-as. O shopping me revive algumas semelhanças.

Sempre em pé, varo horas papeando, bebericando duas taças de vinho. Olho muita gente sentada em torno das mesas. São cadeirantes. Os em pé, pedantes, teste de resistência e saúde. Adepto do melhor em pé que sentado, nesta semana descobri que estou certo.

Novos estudos revelam que o hábito de ficar em pé traz inúmeros benefícios ao organismo, até maiores do que uma caminhada.

O mais recente estudo sobre o  assunto, publicado na revista científica Journal of Preventive Medicine, revelou ainda o “impacto de pequenos movimentos feitos em pé diminui os riscos de mortalidade”, experiência comprovado em 12 mil pessoas, entre 37 e 78 anos, durante doze ano. 30% dos que morreram eram sedentários. A revista Veja publicou, em outubro, excelente matéria sobre o tema.

Em pé, o cérebro fica em estado de alerta, aprimoram-se as faculdades mentais, melhora o desempenho nos estudos em 20%. Duas horas em pé, o cérebro queima, também, 20% das calorias, em comparação ao sentado. Não importa se o tempo é corrido ou fracionado. O mecanismo de retorno do sangue ao ao coração é estimulado pela tensão dos músculos, especialmente a panturrilha, previne coágulos e AVC. O consumo de oxigênio é maior não causando doenças cardiovasculares. Queima mais açúcares, santo remédio para diabéticos. A produção do fluido que lubrifica as articulação evita degeneração dos ossos e músculos. O homo erectus desenvolveu as funções cerebrais e musculares, indo a pé, atrás do alimento, roçando, aradando, plantando, colhendo, irrigando, “comendo o pão com suor de seu rosto”. Eis o preço, divinamente imposto, devido ao pecado da desobediência, da preguiça, do dolce far niente em paraíso. Acredito que já estou perdoado, já posso voltar ao paraíso, porque, em vez das lágrimas, dediquei-me a suar. Nada de preguiça, “mãe do cão”, segundo nossos tataravós.


Agora, perdoem-me, estou há uma hora, sentado, produzindo a crônica. Lá fora, pardais, rolinhas, sibites, beija-flores e monte de tarefas braçais me convidam a atividades. Em pé ou a pé. O sítio é uma academia.        

domingo, 3 de janeiro de 2016

POESIA CÓSMICA


POESIA CÓSMICA

Elmar Carvalho

Duas lágrimas
de pedra nos olhos de vidro
e uma tristeza infinita na
alma de cristal.
O pensamento
voando além do infinito
e o corpo inerte
querendo voar.
As amarguras contidas
no soluço recalcado,
que morre antes de
ser gerado.
A insatisfação
dos atos inúteis
em cada palavra
dita em vão.
A vontade imensa
de alcançar a
realização total
de não ter desejos.
E a vida prática
e a matemática
e a rima que surgiu
por mero acaso.
A matemática
me enlouquece:
por isto meu pensamento
salta de mais infinito
a menos infinito
e explora as amplidões
do universo, enquanto
meus olhos vidrados
fitam a álgebra
sem vê-la.
E a minha abstração
me leva ao infinito
que meu corpo
me nega.


           Pba. 19.01.78

sábado, 2 de janeiro de 2016

UM PAÍS COMBALIDO


UM PAÍS COMBALIDO

Jacob Fortes

Que em 2016 o povo brasileiro consiga estancar a artéria, aberta pela corrupção, por onde escorre e se perde o imposto dos contribuintes, a bem dizer o suor dos tributários nacionais. Essa sangria sinistra — aberta em conluio demoníaco por uma súcia de morcegos criminosos durante o silêncio da noite — é a responsável pelos atrasos e desmantelos do País, a começar pelo escangalho na saúde pública e o descaminho daquelas crianças que, deserdadas da sorte, vivem à margem da opulência e da nobreza doutoral. Às ruas, garimpando complacência e à cata de pão, elas vão-se amoldando às lições iniciáticas do crime, avançando nas condutas delitivas, frequentando com empenho os cursos preparatórios que lhes assegurarão vagas nas galerias da detenção. “A tirania mudou sua face, já não existe a brutalidade que aniquilava cabeças; os tiranos de hoje saqueiam a Pátria e degolam as cabeças de outra forma”.

Incrédulos, de olhos aboticados, os brasileiros veem o Brasil perdendo a sua luminosidade e derivando-se para as trevas; perdendo a robustez e se prostrando; perdendo o rumo da navegação assegurado pelos instrumentos náuticos (astrolábio, bússola, quadrante, balestilha) e se orientando pela incerteza que norteia a canoa, sem dono, que resvala à flor da correnteza de rio revolto.

Mas se a corrupção for banida ter-se-á a ressurreição da esperança, circunstância que permite substituir as ruas — palco de todas as passividades e licenciosidades —, pelo benfazejo e redentor caminho da escola. Pode parecer um sonho inatingível, mas serve de utopia para iludir a mente dos brasileiros — já no trapézio instintivo da sobrevivência — que não padecem apenas por causa das suas privações, mas pelo temor do agravamento: ver a sua Pátria-mãe (que sofre e resiste, resiste e sofre) combalida, errando por rumos temerários.

Gostaria que essas imagens, que minhas letras reproduziram, fossem apenas discursos de retóricas ou simples metáforas do exagero iguais às que vemos em certos escritos, mas infelizmente é a dura realidade; que confeita de indignidade o Brasil e sua gente.

Te todo modo, obrigado a Deus por essa Pátria: aviltada, violentada. É a melhor do mundo, pois é a única que posso chamar de minha; nisto reside o meu empenho em repelir para longe tudo quanto lhe degrada, lhe insulta.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Natal Sertanejo


Natal Sertanejo

José Pedro Araújo
Escritor e historiador

Se o Natal é uma festa cristã – e essa deve ser a sua verdadeira essência -, não é menos verdade que é também a festa do comércio, período em que os empresários vendem como em nenhuma outra época, momento para troca de presentes e de grande felicidade. Atestam os historiadores que o dia 25 de dezembro foi escolhido pelo Papa Júlio I, aí por volta do Século IV, para comemorar o nascimento de Jesus Cristo, transformando uma festa que nasceu pagã em um ato religioso. Inicialmente realizada para coincidir com a Saturnália dos romanos e com as festas germânicas e célticas do Solstício do Inverno, viu a igreja uma oportunidade de ouro para comemorar e divulgar o nascimento do Filho de Deus. E a figura do Papai Noel recaiu sobre uma personagem que, dizem, de fato existiu: o Bispo São Nicolau, nascido na Grécia no século III.

Transitando um pouco pela história, vamos encontrar que a fama de bom velhinho do bispo foi ganha quando ele ficou sabendo que um certo cidadão da sua cidade, que possuía três filhas, por não ter condições de pagar o dote do casamento delas, resolveu vendê-las à medida que iam atingido a idade própria para o casamento. Constrangido e penalizado com aquela situação, o tal velhinho foi até lá, incógnito, e arremessou pela janela uma pequena bolsa de couro cheia de moedas de ouro que caiu justamente sobre uma meia que havia sido posta para secar na lareira. Procedeu da mesma forma com a segunda filha. E o pai das moças, profundamente agradecido por aquele gesto humanitário, ficou na espreita  para descobrir quem era o benfeitor que havia impedido que ele praticasse aquele ato que tanto lhe feria o coração. Descoberto a figura de São Nicolau, saiu ele a divulgar o nome desse generoso bom velhinho. Assim, por esse tempo, a imagem que se tinha era a de um velhinho vestido de bispo e não com as vestes em vermelho brilhante como hoje o conhecemos. 

Foram os holandeses, no século XVII, que levaram para os Estados Unidos a tradição de distribuir presentes para as crianças usando a lenda de São Nicolau(Sinter Klaas). Depois disso, dois escritores americanos se encarregaram de impulsionar a fama do bom velhinho, por eles chamado de Santa Claus. O primeiro, Washington Irving, em 1809, escreveu um livro em que enaltecia as qualidades de Papai Noel, um velhinho bonachão, que montava um cavalo branco voador e arremessava presentes pelas chaminés. O segundo escritor, poeta e professor, Clement Moore, em 1823, além de enaltecer ainda mais a aura mágica descrita e popularizada por Irving, trocou o cavalo de Papai Noel por um trenó puxado por renas voadoras. 

Mas a figura de Papai Noel, só foi de fato definida quando o desenhista, também americano, Thomas Nest, fez a primeira ilustração do bondoso velhinho descendo pela chaminé, mas ainda do tamanho de um duende, tal qual vinha sendo divulgado desde muito tempo. Somente anos mais tarde, a imagem foi mudando, crescendo, e ficando mais barriguda, com cabelo, barba e bigodes longos e brancos, e a aparecer no pólo norte. Mas, o Papai Noel como nós conhecemos hoje, foi inspirado pelo artista Habdon Sundblon, que se inspirou em um velho vendedor aposentado para realizar uma campanha para a Coca-Cola em 1931. 

Aqui em terras do Curador, o nosso Natal começou a ser comemorado de maneira simples e sem muita pompa. À falta de nozes e castanhas, do panetone e do peru de natal, as famílias se serviam de iguarias simples baseadas em produtos da terra, como o porco e a galinha caipira. Sem a iluminação feérica das grandes metrópoles, por nos faltar lâmpadas e energia elétrica, tínhamos que nos contentar com a luz dos candeeiros e, mais tarde, com a do potente Petromax. Assim, como realizar uma autentica ceia de natal?

Lembro-me que quando criança, eu ficava maravilhado com os cartões de natal enviados para a minha família por alguns missionários americanos e canadenses. Mostravam paisagens belíssimas, com a neve cobrindo as casas e os vastos pinheirais, e com Papai Noel voando em seu trenó puxado por renas, cheio de presentes embrulhados em papel brilhante, amarrados por belíssimos e multicoloridos laços de fita. Os cartões vinham com mensagens impressas em inglês, com palavras para mim desconhecidas (Merry Christmas, Santa Claus, Christmas Tree, Jingle Bell, Candle, Candy Cane, Christmas Pudding, Stocking, Gift, Presents, Sleigh, Star, Light e Happy Holydays – tudo escrito com letras em vermelho e verde brilhante).

Na minha casa não tínhamos o hábito de realizar a ceia à meia noite. Seguíamos todos para a Igreja Cristã para participar de um culto especial, com a apresentação de um auto de natal, que muito nos emocionava. A árvore de natal, ao invés de um pinheiro, planta inexistente em nossas florestas, era substituída por um frondoso galho de pitombeira cheio de cachos com o fruto maduro (o enorme galho só era trazido no dia da festa, para manter as suas folhas vivas e brilhantes). O galho trazido era decorado com luzes e enfeites natalinos. Era uma festa belíssima, bem ensaiada e que, com o tempo, virou atração para a cidade inteira, ocasião em que a comunidade enchia o templo para assistir à linda apresentação que os membros da Igreja Cristã Evangélica de Presidente Dutra dedicavam anualmente aos seus concidadãos na noite de Natal. 

O Natal continua a ser, sim, uma festa cristã, onde as famílias se reúnem para louvar e festejar o nascimento de Jesus Cristo, o Filho de Deus. É também um período para reflexões e de redirecionamento das nossas vidas, substituindo tudo de ruim e mal feito que fizemos no ano que passou, por coisas novas e voltadas para o bem. Tempo para louvar Aquele que deu a Sua Própria vida para salvar nós pecadores e redirecionar o nosso futuro. Tempo, enfim, de Paz, Amor e Alegria no seio das famílias.


Feliz Natal a todos e Um Ano Novo Venturoso e Cheio de Grandes Realizações e Muita Paz no Coração!!!!!!!  

Fonte: Blog Folhas Avulsas

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

A propósito do artigo "Gênese dos meus 'Poemas Inéditos', de Elmar Carvalho"

Cunha e Silva Filho

A propósito do artigo "Gênese dos meus 'Poemas Inéditos', de Elmar Carvalho"

              Cunha e Silva Filho
        
         No texto   acima referido no título deste artigo, à feição do que fez Manuel Bandeira, no conhecido  e indispensável  ensaio autobiográfico,  “Itinerário de Pasárgada, o poeta  piauiense Elmar Carvalho, expõe,  em muitos passos de forma bastante lírica, evocativa,  as razões das origens  de seus chamados "Poemas Inéditos.” O texto é abissal, e direi  por quê.
         O artista do verso tanto os de maior  grandeza quanto os de menor  qualidade,  no Brasil ou no exterior, em muitos ângulos, são autênticos críticos e intérpretes de suas obras. Poderia citar vários deles, entre os quais,  T.S.Eliot, Coleridge, Murilo Mendes,  Ezra Pound, Goethe, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Otávio Paz.
         A visão da poeticidade que esses  artistas  da palavra têm, como se vê, é a do conhecimento  "interno" da estrutura do verso,  inclusive dos “mistérios’ que ultrapassam  o plano da lógica. E é Bandeira, exímio artífice do verso, que nos ensina: poemas há de sua lavra que só podem ser explicados pela tão denegrida  “inspiração, de fundo romântico. Por isso,  ele fala tanto em  alumbramentos.”
     Outros não, são frutos  do domínio  do verso, de seus segredos, de seus fundamentos  teóricos.  Para Ferreira Gullar,  os poemas, muitas  vezes, nascem provocados  pelo “espanto”  diante da vida, diante de algumas singularidades  que se colocam  ante a atenção do  artista.   Para o autor do Poema sujo (1976)  a vida não  basta no que é, ela necessita de um  complemento que justamente  está na Arte, enfim,  em  quaisquer de suas  manifestações. Em outros termos, seria  impensável viver-se sem   os valores artísticos. A vida seria uma esterilidade,  um vazio  enorme , irrespirável.
     A visão do  exegeta,  do crítico  militante ou não,   parte de fora para dentro do texto. É  uma visão alicerçada na experiência e convívio  das leituras  intensas e extensas da palavra  poética.
    Seu ponto de apoio analítico se assenta na teoria, no estudo da linguagem e da "competência literária"( Vítor Manuel de Aguiar e Silva).  Ou seja,  não é a dos poetas que passaram  da ideia de um tema  para fins  de compor um poema, do influxo vibratório da "inspiração,"  para um trabalho   lúcido da transformação  do verso em poesia, visto que poesia pode estar igualmente na prosa, na ficção,   num belo discurso oratório e até na leitura em voz alta de uma emocionante   mensagem, quase silenciando  quem lê o texto  em virtude  da carga sonoro-semântica   de sua tessitura, porquanto   a nossas voz fica embargada, entrecortada, soluçante,  a ponto de chorarmos,  numa mutação psicofisiológica  tamanha que   o efeito do movimento da leitura   se transforma em quase impedimento de sua continuidade.   Não é isso  um momento  de  extremo  lirismo?
   A poesia no verso  é resultado de uma proficiência de conhecimentos  técnicos implícitos ou  explícitos (metapoesia, metalinguagem  literária)). Além disso,  poesia  é  um produto  da tradição com  a atualidade, não havendo nunca  um ruptura total com o passado, ou com os passados,   a não ser no caso  da poesia antidiscursiva, do poema concreto, ideográfico, exclusivamente  verbo-voco-visual, que não se sustentaria  por muito tempo porque a discursividade, nos limites do lirismo, do poético de qualidade, é base de toda expressão  do  pensamento  poético contemporâneo.
    Os vanguardismos são úteis na medida em que  dão uma "mexida" nos exageros  da discursividade  do poema feito com palavras,  frases, que não se renovam, que se congelam esteticamente. Novas formas  poéticas,   novos temas, visões do mundo de hoje   são bem-vindos. Os  vanguardismos foram  , em  muitos pontos, fecundos e deixaram marcas  na comunicação poética, porém foram   passageiros, por demais tecnicistas.
   Suponho que o lirismo  da linguagem   na sua sintaxe poética nunca vai  desaparecer,  porquanto o homem se cansaria  se continuasse a ler  poemas absolutamente  sígnicos, icônicos,  geométricos,  matemáticos, cifrados, tipográficos, perfomáticos,  tendentes a ultrapassar  a linguagem  literária e trocá-la por outras linguagens de outras artes, o que  por si só,  aniquilaria   a condição da obra  poética nos seus fundamentos intrínsecos e irrecusáveis.
  O homem precisa   da estrutura sintática, da linguagem  literária,  do que antes se chamava "conteúdo," algo a ser dito  poeticamente com palavras e não com  sugestões   grafemáticas que afastariam  cada vez mais os leitores    do pequeno   número de aficionados da grande poesia  de todos os tempos.
  Elmar Carvalho  recorda as várias  circunstâncias,  no tempo e no espaço,  que ensejaram  a fatura de alguns de seus poemas, alguns  urdidos depois de muito tempo, de muito suor, outros  surgidos na mente do poeta  em forma  quase  perfeita para  serem  impressos.
   Aquilo que o homem comum  pensa ser assim tão  simples ou mera inspiração -  elaborar  um poema  - não espelha a verdade e a paciência  que os  poetas tiveram  na composição  de seus versos.
   Alguns poemas, ou   senão quase todos os poemas de  uma obra,  têm  histórias curiosas  e jamais  pensadas por seus leitores, precisamente  porque  a escrita  de um poema pode tanto vir  de dentro  de sua  imaginação diante dos apelos  do mundo quanto  pode  vir de uma incidente ou fato  exterior,  cuja matéria  é retrabalhada  pelo  artista do verso  a fim de  o plasmar  em  poema.
   O que me leva a pensar  que,  nesta  ordem,   guardam  semelhanças todos os escritores em geral,  os romancistas, os contistas,  os  dramaturgos, os cronistas, até mesmo os  articulistas. É do  mundo  externo,  do momento  histórico,   do imprevisto de um  instante que pode nascer a ideia-máter  de uma obra, seja um romance, seja apenas um  poema.
  Por todas essas considerações, vejo como muito oportunas  que poetas  possam  indicar  as inúmeras fontes de como se originaram  seus  poemas.
  No texto de Elmar  pude  perceber  que os poemas   por ele elucidados, ganham  dimensões  novas,  auxiliam analistas,  repropõem outras leituras, corrigem, revelam e desvelam     camadas insuspeitadas  pelo  seus analistas. 
 Quer dizer, servem a  críticos,  ensaístas,  professores de literatura que, ao compararem  o poema  feito com   as motivações  circunstanciais que   os deflagraram como peças literárias, complementam  gaps  com que   por vezes  se deparam o analista e crítico no tocante a  algumas nuanças hermenêuticas  que o texto poético, mais do que o  ficcional,  sinaliza: opacidades, elementos de alta voltagem estética  sempre  presentes e resistentes  ao   entendimento do leitor, mesmo do leitor  especializado nos meandros da poíesis.
     O artigo-ensaio de Elmar Carvalho   renova a  minha    percepção  de que os poetas são os usuários da língua que mais,  talvez, próximos estejam  dos segredos e riquezas  multifárias do idioma.

      No poeta nada escapa da profundidade e dos  pormenores de língua literária, nos poetas  a língua  seria uma forma inusitada de como   melhor  estabelecer a passagem  da nossa existência tão  cumulada de referencialidades para um mundo, um cosmos que aos poetas se abre como   uma entrada  privilegiada no reino das palavra-imagem-símbolo, uma  espécie de ludismo  fecundo em tensão com o  imenso  potencial  da linguagem somente a eles  acessível e por eles melhor  compreendida.      

domingo, 27 de dezembro de 2015

EM TRANSE


EM TRANSE

Elmar Carvalho

Superando a relatividade
do tempo e do espaço,
quero não estar ao mesmo tempo
no tempo e no espaço.
Indo além
da barreira do tempo e do espaço,
eu galguei o infinito
ao ficar infinitamente
pequeno.
Projetando-me
além do tempo e do espaço,
eu vi o caos
do nada.
Perdido no
tempo parado
e no espaço desfeito,
vi sangues azuis,
cobras multicores,
lagartas de fogo
e outras alucinações
girando vertiginosamente
em apocalíptica
coreografia.
E eu para sempre
fiquei perdido no
tempo e no espaço
perdidos em vão.


           Pba. 22.09.77

sábado, 26 de dezembro de 2015

Confraternização com sabores proféticos


Confraternização com sabores proféticos

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

  
         Festins, confraternizações, papai noel, amigo oculto, lembranças, presentes, boa comida, mesa farta. “Não só de pão vive o homem”, adverte o aniversariante divino. Nessas horas de badalos inebriantes, vale a pena um instante de silêncio, um mergulho no espírito, uma sobresa de mensagem bíblica. Que tal um apanhado de profecias, sobre a vinda de Jesus, encarnado, para montar sua tenda no meio de nós?

         Adão e Eva, depois de abusarem do livre arbítrio, envergonhados e nus, cobrem-se com galhos de figueira. Porém, Deus os veste com peles de cordeiro. Figueiras produzem uvas, que se transformam em vinho. Peles de cordeiros para esconder a vergonha da nudez do pecado. Ambas as metáforas expressam a vinda do Messias, milhares de anos depois, simbolizado pelo cordeiro pascal, acompanhado de pão e vinho de seu corpo: “Isto é meu corpo, meu sangue...tomai e comei!”

         Ainda no livro de Gênesis, Deus se dirige ao Maligno representado pela serpente: “Porei inimizade entre ti e a mulher (alusão à futura mãe de Jesus), entre tua descendência (alusão à descendência de Eva, contaminada pelo pecado) e a descendência dela (referência à descendência do Filho de Maria e graça dos batizados com o sangue do Cordeiro). Tu lhe ferirás os pés, mas ela pisará a tua cabeça (segundo teólogos, Maria não foi maculada pelo pecado original). Disse também à mulher (Eva): ‘Multiplicarei os sofrimentos de teu parto...’

         No capítulo 49 de Gênesis, o patriarca Jacó, vinte séculos antes de Cristo, à beira da morte, reúne os filhos e os abençoa. Ao colocar as mãos sobre a cabeça de Judá, exclamou, cheio do espírito de Deus: “Não se apartará o cetro (reinado) de Judá, até que venha aquele (Messias), a quem pertence por direito e a quem devem obediência os povos... Lavará com o vinho suas vestes, com o sangue das uvas...”. Os reis de Israel descendiam de Judá. Jesus descendeu de um deles, rei Davi.

         O profeta Miqueias, 700 anos antes de Cristo, proferiu fotográfica e lindíssima profecia: “Tu, Belém, pequena entre os clãs de Judá, é de ti que sairá aquele que é chamado a governar Israel. Suas origens remontam aos tempos antigos, aos dias de longínquo passado”. Observe, agora, a analogia do  João, iniciando o seu evangelho: “No princípio era o Verbo (Messias), e o Verbo estava perto de Deus, e o Verbo era Deus... E o Verbo se encarnou e estendeu suas tendas no meio dos homens.”

         Como se vê, não só as mesas se fartam de comidas, bebidas, presentes e papai noel, quase sempre promessas voláteis como a digestão e as gloríolas de um mundo meio paganizado, quando não se dá tempo para vasculhar nossa trajetória na Terra. Centenas de passagens bíblicas vão fundo nas nossas origens e sentido da vida. Basta reservar tempinho do cotidiano, até mesmo das confraternizações e banquetes, para alimentar o espírito. Testemunho que nunca me arrependi desse tempo perdido em vão.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Minha coluna de Natal


Minha coluna de Natal

Rogel Samuel

Eu adoro Natal.  Apesar de não ter família, ou por causa disso.
Minha família é o mundo.
Lembro-me de quando ainda morava em Copacabana, na noite de Natal saí para jantar, bem tarde, num restaurante próximo que eu sabia aberto.
Bebi champanhe, saudei os meus mortos, desejei feliz Natal para a humanidade.
No fim, mandei embrulhar numa “quentinha” o meu jantar quase inteiro, que quase nada comi.
E vim andando pela Barata Ribeiro deserta em direção à minha rua.
Poucos carros passavam.
Pessoas gritavam e riam em alguns apartamentos.
Gritavam da alegria do Natal.
Súbito eu vi um velho mendigo do outro lado da rua, sentado na calçada, como que dormindo.
Com quem sonhava aquele homem?
Eu me aproximei e ele acordou rapidamente assustado, mas alegre ao receber aquela sua ceia natalina.
Por isso, adoro o Natal.
As pessoas ficam inspiradas. As estrelas brilham. O mundo respira uma atmosfera nova.
Acredito que, não existisse o Natal, o mundo já se teria autodestruído.
No Natal a humanidade do mundo se renova.
Voltamos a ser compassivos, bondosos, pacíficos.
Purificamo-nos.
E sempre há de aparecer um mendigo na calçada para ser nosso parente, nossa família, e receber nossos melhores presentes.
O nosso sorriso.

Fonte: Portal Entretextos 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

GÊNESE DOS MEUS “POEMAS INÉDITOS”



24 de dezembro   Diário Incontínuo

GÊNESE DOS MEUS “POEMAS INÉDITOS”

Elmar Carvalho

Faz poucos dias publiquei em meu blog o ensaio Elmar Carvalho – poemas inéditos, em que o arguto e percuciente crítico literário Cunha e Silva Filho, pós-doutor em Literatura Brasileira, comentou os poemas que enfeixei na seção Poemas Inéditos de meu livro Lira dos Cinqüentanos. Estimulado por essa matéria, passarei a falar sobre a gênese desses textos, na esperança de que isso tenha algum interesse literário, mormente para os raros leitores de poesia.

Durante muitos anos desejei escrever sobre chuva, fenômeno natural que me dá a sensação de uma maior proximidade de Deus, sobretudo quando escuto os trovões longínquos, de sons graves, cavernosos, como saídos das entranhas da terra. Imaginei fazer um poema um tanto longo, com metáforas e onomatopeias, imagens de barcos de papel, rumores de pingos d’água e coaxar de sapos, além de outros ingredientes. No já distante ano de 2002, na cidade de Ribeiro Gonçalves, finalmente o escrevi. Após longa viagem, em ônibus da Princesa do Sul, cheguei a essa cidade numa manhã chuvosa. Fui da agência até o prédio do fórum debaixo de um chuvisco. Choveu durante a semana toda, sem tréguas. Eu morava e trabalhava nesse edifício da Justiça. Com o frio e o dedilhar da chuva no telhado, além da infindável cantoria dos batráquios, de diferentes ritmos e tonalidades, com sopranos, barítonos e tenores, escrevi o poema no dia 13 de janeiro do referido ano. O texto contém todos os componentes citados e outros. Mais de década após, ainda sinto com intensidade a lembrança dessa semana tão pluviosa, em que passei o sábado e o domingo trancado no fórum, em solidão digna de um asceta, e não de um poeta.

Canção pastoril de um urbanoide foi esboçada na rodoviária de Uruçuí, em um guardanapo de papel, que peguei na lanchonete. Muitas vezes, antes de a cidade ter a sua estação rodoviária, eu passeava pela cidade, enquanto aguardava a saída do ônibus. Andava pela praça da matriz de São Sebastião e me dirigia até a margem do Parnaíba, de onde eu contemplava, do outro lado, a cidadezinha maranhense de Benedito Leite, então ainda acanhada e bucólica. Via, à boca da noite, as estrelas fulgurando no infinito. Como eu me encontrava em trânsito, pois viajava de Ribeiro Gonçalves a Teresina, via a paisagem dos cerrados e as grandes roças de soja, e delineei o contraste entre uma vida bucólica e pacata e a vida agitada de uma cidade grande. Às vezes via grandes bandos verdoengos de periquitos e ouvia a sua algazarra festiva, e outras vezes me sentia saudado pelo canto mavioso do sabiá do poeta.

O poema Guernica, embora não tenha sido feito sob encomenda, coisa que nunca soube fazer, de certa forma foi escrito por influência do professor Manoel Paulo Nunes. Certa feita ele me pediu para organizar uma espécie de pequena antologia de poemas de repulsa às guerras, para publicação na revista Presença, editada sob sua responsabilidade, em virtude de ser o presidente do Conselho Estadual de Cultura. Escolhi os textos, de diferentes autores, e como eu desejasse participar dessa coletânea me determinei produzir o meu Guernica, que já era um projeto antigo, mas que nunca tive o ensejo de realizar. Para fazê-lo me baseei, sobretudo, nas imagens do filme O Pianista, que mostra toda a miséria e crueza de uma guerra, mormente a desorganização do abastecimento e da vida civil, fora a dramaticidade das relações sociais, com doenças, fome e morte.

O deputado Humberto Reis da Silveira, que foi um excelente amigo, me contou a história de um palhaço eslavo, que morrera e fora sepultado em Jaicós, sua terra natal, muitas décadas atrás. Imaginei como seria a vida de uma pequena cidade do semiárido naquela época. Pensei na ironia do tédio de um palhaço no ostracismo de uma urbe pacata e insulada nos sertões do Cabrobó, uma vez que sua profissão se destina a proporcionar a alegria da plateia. Sem dúvida esse clown deveria viver saudoso de sua frígida terra, a sentir o bafo da canícula sertaneja. Associei esse artista à mortal melancolia do palhaço do poema de Heine, e lhe dei a necessária dramaticidade. Portanto, o meu texto nasceu da história contada por Humberto Reis, que por sinal era um grande leitor e admirador da melhor poesia piauiense.

Da janela do apartamento, em Parnaíba, eu via uma fileira de grandes árvores, semelhantes a pinheiros. O dono da casa em frente os plantara para formar uma espécie de empanada, que impedisse a visão de sua piscina. Eu não gostava dessa situação, porque isso me impedia de contemplar a paisagem ao longe, principalmente as dunas e as palmeiras. Mas, ante o inelutável, tentei admirar a beleza dessas plantas. Passei a vê-las como flexíveis bailarinas, dançando ao sabor do vento, em suaves requebros e meneios. Também as via como altos mastros e velas. Simulava um veleiro, no qual eu navegasse pela magia da imaginação. Por vários meses tentei elaborar um poema que retratasse o que acabo de pintar, mas a musa se mantinha arisca e arredia, por mais que eu a cortejasse. Um dia, ao tomar alguns goles de cerveja, a contemplar com paciência essas árvores, o poema me surgiu de forma dócil e integral, e quase não precisei retocá-lo.

Entre os poemas inéditos [em livro] havia dois antigos, ainda do final da década de 1970: Autoantropofagia e Simbolismo. O primeiro, mantive-o íntegro, tal como o escrevi originalmente, mas fiz duas ou três pequenas modificações no segundo. Autoantropofagia é um texto dito engajado, de conteúdo político, social, mas muito sintético, e que contém algo dos chamados poemas piadas, em que tentei cultivar meu senso de humor. Na verdade ele seria o paroxismo da fome e da autofagia. Já Simbolismo é mesmo o que o título indica; é um poema simbólico, cheio de imagens, mas revestido de pequena dose de surrealismo.

Creio que tentei escrever o Teia de Te(n)tação no começo dos anos 1980, quando ainda morava em Parnaíba. A ideia era colocá-lo em camisas de meia, que seriam vendidas para custeio de um projeto cultural, do qual já não me recordo. Mas a pessoa que faria o trabalho de silkscreen não levou à frente o seu projeto, e eu terminei perdendo o texto. Muitos anos depois, suponho que em 2006, o reescrevi. Conquanto seja um poema discursivo, que bem pode ser recitado, contém recursos do concretismo, em que os negritos e os parênteses provocam polissemias e duplos sentidos, mormente te(n)tações e ações libidinosas provocadas por belas e empinadas tetas.

No meu livro Confissões de um juiz expliquei a origem do poema A um ganancioso morto, e por que o escrevi. Por comodidade e para não me repetir, transcrevo o que foi dito em Confissões:

“A caminho de Várzea do Simão, à beira da estrada, sempre procurei ver o túmulo de um homem que fora muito rico, mas que parecia insaciável, sempre desejoso de mais terras, algumas delas, segundo comentavam, adquiridas de forma ilegítima, através de logro ou fraude.
Durante muito tempo ele tentou conseguir uma pequena gleba pertencente a meu sogro João Rodrigues, dito João Simão. Chegou a simular uma falsa diligência policial para pressioná-lo a assinar um documento que ele forjara, mas o velho, por insistência de sua mulher, dona Filomena, não o assinou. Ante a negativa, ingressou com um processo judicial contra o pai de minha mulher, que demorou muitos anos, até meu sogro vencer a lide, através de seu advogado Luís da Graça, que ainda cheguei a conhecer.
Eu via o túmulo e ficava a meditar na ambição de certas pessoas. Aquele homem desejara terras e mais terras, e finalmente poucos palmos de terra lhe eram mais do que bastante. Nascemos sem nada trazermos, e quando morremos nada podemos levar, para onde quer que possa ir a nossa alma imortal, segundo acredito.
Nas audiências assistia a muitas discussões por coisas miúdas, por pequenas importâncias, por parte de pessoas que bem poderiam passar sem esses bens, sem essas moedas. Embora eu reconheça ter certa habilidade para mediar as conciliações, entretanto vi muitas vezes um acordo deixar de ser feito por intransigência, por birra, por ganância, por apego demasiado aos metais.
Por causa dessas reflexões e meditações, escrevi o poema A um ganancioso morto. Mandei fazer um belo banner com este texto e uma pertinente ilustração. Emoldurei e o afixei nas salas de audiência dos fóruns de que fui diretor, com o objetivo de predispor as partes aos acordos, às transigências, ao desapego de bens materiais.”

Por fim, falarei do poema Viagem. Ele, como o nome sugere, foi estimulado pelas dezenas ou centenas de viagens que fiz, nos 17 anos em que exerci a magistratura em cidades interioranas. Sempre gostei de contemplar o céu da janela dos ônibus em que viajei. Nesses deslocamentos ruminava algumas ideias para a concepção desse texto poético. Mas ele é fruto também de pesquisa, das várias leituras que fiz sobre astrofísica e mecânica quântica. É uma viagem do infinitamente pequeno ao infinitamente grande, das abissais profundezas oceânicas às vertiginosas refulgências do espaço sideral.


Com muita propriedade observou Cunha e Silva Filho, com cuja “chave de diamante” encerro este registro metapoético: “No último poema da seção “Viagem”, o poeta, mais uma vez, escreve um longo e denso trabalho de dimensão cósmica, universal. Poema abrangente, de andamento épico - recurso por ele já testado com sucesso mais de uma vez – no qual o sujeito lírico empreende uma “viagem” que vai dos elementos minimamente divisíveis da matéria física, dos átomos, dos minúsculos recantos da natureza animal, vegetal e mineral, das superfícies da Terra às profundezas oceânicas, da solidão do nosso planeta às culminâncias planetárias, do profano ao sagrado, da realidade histórica aos mitos. Não satisfeito, o poeta adentra o universo misterioso e encantatório da astrologia, criando magníficas imagens para cada signo do Zodíaco.”