terça-feira, 13 de outubro de 2015

O ROMANCE “RIBAMAR” E A PARNAÍBA

Romancista José Castello


O ROMANCE “RIBAMAR” E  A  PARNAÍBA
                                                                                                
Alcenor Candeira Filho

        O escritor carioca José Castello, autor de vários livros publicados, lançou em 2010o romance RIBAMAR, bem recebido pelo público e pela crítica.
          Logo que li o exemplar a mim destinado percebi que se tratava de um excelente livro de caráter introspectivo.
          Trocamos então por e-mail as seguintes mensagens:

“Caro primo José Castello,

Recebi e li o romance RIBAMAR.
           Fiquei muito sensibilizado por figurar no rol das pessoas a que você
presta agradecimentos na página inicial.
           Pretendo reler o livro, que muito me impressionou pelo caráter introspectivo.
          Embora RIBAMAR seja obra de ficção e não livro de viagens, verifiquei  que os dias que você passou em Parnaíba em 2008 foram úteis no seu desenvolvimento.
           Parabéns pelo grande livro.
           Abraços,
Alcenor Candeira Filho.”


“Querido primo Alcenor,

           Seus comentários me deixam muito feliz.
       Sua presença na lista de agradecimentos é uma questão de justiça.  Sua presença, sua companhia, seu apoio me ajudaram muito!
            É,de fato, meu livro mais introspectivo.
            Trabalhei duro nele durante quatro anos.
          Basta dizer que, na semana seguinte ao lançamento, de tão exausto, caí doente, com crise de hipertensão.
          Mas já me mediquei e já estou bom de novo!
          Abraço grande do primo
José.”

        O que Parnaíba tema ver com o livro RIBAMAR, prêmio Jabuti de 2011 na categoria romance?  Respondo: muito, a ponto de o autor ter visitado a cidade em 2008(só tinha vindo a Parnaíba uma vez, em 1954, com dois anos de idade) com o propósito de colher informações e vivenciar emoções a partir do passado de seu pai José Ribamar Martins Castello Branco, personagem central do livro,  nascido em União  e que morou um bom tempo  em Parnaíba.

     Nos poucos dias de permanência do escritor em Parnaíba, eu e meu irmão Carlos José, que conhecíamos bem Ribamar Castello Branco, nosso querido tio Dedé como o chamávamos, conversamos muito com  José Castello  e juntos visitamos todo o centro histórico:  o Porto das Barcas, a bicentenária igreja de Nossa Senhora  da Graça, a Casa Grande de Simplício  Dias, o Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Parnaíba e outros lugares. E ainda estivemos rapidamente numa das praias de nosso litoral.
     Num encontro em minha residência mostrei-lhe algumas relíquias de família( todas viriam a ser mencionadas no livro): meia dúzia de poemas de seu avô Lívio Ferreira Castelo Branco publicados no ALMANAQUE  DA  PARNAÍBA  nos anos 20, fotografias tiradas em 1954 quando José Castello visitou Parnaíba em companhia dos pais e irmã e um dicionário de dois volumes - -  DICCIONÁRO  DA LÍNGUA  PORTUGUEZA -, de J. I. Roquette,editado em Paris em 1848 e que pertenceu a seu bisavô Manoel Thomás Ferreira,  que apôs a sua assinatura  à  página  inicial com a data de 1872.  Esse dicionário, que até hoje conservo com muito zelo (dei de presente a J. C. um dos volumes),é mencionado mais de uma vez no romance , com autor e título fictícios.
Uma das fotos, -  em que aparecem o escritor com dois anos de idade, seu pai, sua mãe e sua irmã mais velha, - é tão reveladora que foi evidenciada no livro.  Examinando atentamente o velho retrato ,  o escritor descobre que já existia ali o conflito entre pai e filho:

“A fotografia está fosca, as cores fraquejam, as imagens se dissolvem.  Ainda assim, ela lateja em minhas mãos. Emite outro tipo de luz: aquela em que o passado resiste, como um destino.
             Aos dois anos de idade, magro e desconfiado, já sou o estranho que você conheceu e de quem se afastou. Está tudo ali, para que mais? Para que escrever um livro?” (págs. 163/164).

RIBAMAR é uma fusão de ficção (romance) e de memórias biográficas que focaliza o conturbado relacionamento entre pai e filho, ou como assinalou Milton Ribeiro:

 “Romance muitíssimo autobiográfico , romance que é uma mistura entre ficção, memória, autobiografia  e biografia do pai.
           RIBAMAR é José Ribamar Martins Castello Branco, pai do escritor, e o livro é uma dolorosa aproximação do filho ao pai morto.”

          Essa penosa busca de reconciliação através de um mergulho no passado do falecido pai é que levou José Castello a vir a Parnaíba, trazendo o “projeto insano” de recuperar o passado do pai, “uma loucura, uma estupidez um livro” (p. 47), não um livro “sobre” o pai, mas um livro “através” do pai (p. 136).

          A falta de sintonia entre pai e filho, principal fio condutor da narrativa em análise, já existia entre pai e avô do autor, Lívio Ferreira Castelo Branco, apontado no romance como intelectual medíocre não só pelo neto escritor mas também pelo próprio filho Ribamar, que declara ao entregar a José Castello um velho caderno com poemas publicados na imprensa de Parnaíba nos anos 20:  “São bobagens de meu pai. Por mim, vão para o lixo” (p.119).
          Quer dizer, o autor se vê de repente diante de uma herança maldita, “diante de uma duplicação. Mais uma. Um segundo abismo, agora entre você e seu pai, repete o desfiladeiro que nos separa. Um destino grafado no sangue, uma herança genética -  algo de que não conseguimos escapar” (p. 119).
          Desconhecendo o fato acima, aqui em Parnaíba mostrei a José Castello uns poemas de seu avô, e ele de forma direta, curta e grossa como se diz no Piauí: “péssimo poeta, já sabia disso desde criança, quando meu pai me entregou velhos papéis com poemas do vovô Lívio, com a recomendação de que os jogasse no lixo.”
          O duro e azedo julgamento do neto sobre os escritos do avô paterno se manifesta ostensivamente em várias páginas do livro:

          “Não me interesso pelos sonetos de meu avô, pomposos,                                                  com rimas odiosas, estúpidas exaltações de civismo. Um deles se chama “Progressos”, mas a linguagem do passado destrói tudo” (p. 120).

          “Dois pseudônimos: João do Mato e Sabino Ferreira.
          Dois mantos que meu avô (...) usou para se esconder. Suas crônicas na imprensa, assinadas com os nomes falsos eram medíocres.” (p. 267).

          Essa história de pseudônimos usados pelo avô do romancista não é ficção, como prova o ALMANAQUE DA PARNAÍBA de 1929, que registra o falecimento de Lívio em 05.02.1929  durante um baile de carnaval no Cassino 24 de Janeiro  e traça-lhe o perfil moral, político e intelectual, ressaltando ter sido ele ”como literato, um poeta espontâneo e gracioso”,  que “com os apelativos de João do Mato e Sabino Ferreira deixou crônicas que marcaram época no nosso meio intelectual.”

          Confesso que as opiniões críticas apresentadas no romance RIBAMAR, embora sinceras e verdadeiras, me fizeram ter pena de meu bisavô Lívio, que sempre considerei um poeta tolerável para leitores de boa vontade e que indiquei para a cadeira nº28 da Academia Parnaibana de Letras.
          Algumas pessoas da família Castelo Branco não gostaram do premiado romance, achando-o amargo e ofensivo ao pai do autor e à família. Atribuo esse julgamento, com o qual não concordo por entender que das 278 páginas do livro o personagem central sai é engrandecido, a uma impressão apressada e superficial de leitura .
          Também foi vítima desse mal entendido familiar o publicitário e escritor Renato Castelo Branco por causa de seu romance TEODORO BICANCA, em que

           “confundiu-se um tipo sociológico genérico, o Coronel, fruto de um quadro histórico, com a pessoa de meu tio (coronel Belarmino Pires). Isto provocou, naturalmente, um grande mal-estar em minha família e uma grande mágoa para mim.
            Por esta razão, nunca permiti que fosse feita nova edição de TEODORO BICANCA, livro premiado pelo Círculo Literário Brasileiro e que figurou, por algum tempo, entre os best-sellers de sua época” (TOMEI UM ITA NO NORTE, p. 50).
          No Salão do Livro do Piauí – SALIPI , em 2011 ou 20012, fui  a Teresina para ouvir a palestra de José Castello sobre o romance RIBAMAR. Após a palestra e com a palavra dirigi-me ao palestrante não com uma pergunta como seria natural, mas com um depoimento que talvez naquele momento só eu pudesse dar entre os presentes. Reportei-me ao fato de que alguns membros da família Castelo Branco detestaram o romance. E como parente e sobretudo como conhecedor de pai e filho, concluí: “Acho que RIBAMAR é o tipo de romance de que eu como pai  e  personagem  muito me orgulharia.”
          No livro INVENTÁRIO DAS SOMBRAS, José Castello conta que no Rio de Janeiro, novembro de 1974, vinte e três anos de idade,  enviou um conto para Clarice Lispector, com endereço e telefone juntos na esperança de que ela viesse a retornar. Passado um bom tempo de silêncio, eis que “o telefone toca e uma voz arranhada, grave, se identifica:  ‘Clarrrice Lispectorrr’, diz.  Ela entra logo no assunto:  ‘Estou ligando para falar de teu conto’, continua (...)  ‘Só tenho uma coisa para dizer: você é um homem muito medrrroso (...). E com medo ninguém consegue escrever’” (p. 19). Que grande conselho!
          É provável que RIBAMAR seja o tipo de livro de ficção que Clarice Lispector gostaria que José Castello escrevesse. Nele ou através dele percebe-se que o autor realizou uma grande obra porque a escreveu após libertar-se das amarras do medo a que se refere a autora de LAÇOS DE FAMÍLIA.
          A exemplo de Mário de Andrade, que,  à falta de melhor classificação para a extraordinária obra MACUNAÍMA, chamou-a de rapsódia, José Castello classifica seu livro como romance, “porque não sei o que ele é”, conforme declarou na dedicatória do exemplar a mim destinado. Transcrevo toda a dedicatória por ser bastante esclarecedora do que pensa o escritor sobre a própria obra em que trabalhou exaustivamente durante quatro anos:


          Querido Alcenor,

          Curitiba, 15-set.-10

           Vai aqui o livro que consegui escrever.  Não procure a verdade nele, porque ela só aparece de forma esmaecida.
           Não é uma biografia, não é um ensaio, não é uma confissão, não é um livro de viagens.
           Eu o chamo de‘romance’  porque não   sei o  que ele é.
           Você aparece escondido na figura do tio Antônio.
           Minha gratidão.
José Castello”


          RIBAMAR é uma obra fortemente influenciada pelo escritor tcheco Franz Kafka, como se vê nas páginas  iniciais:  “Meu mal tem uma origem precisa:  sou  obcecado por Franz Kafka.  Não que eu o inveje ou deseje ser como ele. Também não o odeio e,  com algum esforço, reconheço  sua grandeza. Meu problema   é que não consigo parar de pensar em KAFKA” (P.11).
          O livro de Kafka tão presente no romance  não é o mais famoso dos que escreveu – METAMORFOSE -  mas talvez o mais profundo de todos – CARTAS AO PAI – que  Ribamar no Dia dos Pais do ano de 1973 recebeu com esta dedicatória: “Para o papai com um beijo e o amor do filho José” (p.21).
          Assim como o pai do genial escritor tcheco jamais  leu a CARTA AO PAI,  “livro que, refém do medo    , Franz preferiu entregar à mãe , Julie, e não ao pai “ (P. 22/23),  também o exemplar dessa  carta  adquirida, por acaso,  numa  papelaria de Copacabana e dado pelo filho ao pai no Dia dos Pais nunca foi lida, tende sido encontrada muito tempo depois num sebo do Rio de Janeiro.
          E como as cartas que não chegam a seu destino são as “que se perpetuam” (p.276) , na hora de deixar Parnaíba  e de  fechar as malas, pagar a conta do hotel e voltar par casa, o escritor fecha o grande romance:

             “Antes de pegar a estrada, preciso passar no correio.
             Tenho uma carta a despachar. Esta carta, a você, Ribamar, meu pai. A atendente me olha perplexa: ‘Falta o endereço’.
            Eu respondo: ‘Ponha aí um destino qualquer’”(p. 278).    
            Encerro este trabalho  declarando que Ribamar é um dos melhores romances psicológicos que já li ao longo de minha vida.

             Parnaíba, outubro de 2015.     

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Vão-se as letras, segurem-se os números


Vão-se as letras, segurem-se os números

Cunha e Silva Filho

         É preocupante. Nesta semana, li no Facebook um artigo para ali  transposto, de José Castello  informando aos leitores(seus, principalmente)    de que  estava saindo  de sua  conhecida  coluna  no Prosa & Verso do Globo. Lamentável a notícia.

        Estão mesmo  matando  o jornalismo  impresso, assim como  fizeram com as  boas livrarias  do Rio de Janeiro que  se localizavam no centro, assim como  fizeram   tristemente  com os velhos sebos  cariocas   também  principalmente   no centro.

       Eu, que alcancei, dos anos   1964 para cá, tantos  bons  sebos, tantas grandes  livrarias (a da Vinci, a São José,  a Freitas  Bastos, a Camões,  a Martins Fontes, a Civilização Brasileira,   o sebo da São José, com o seu  conhecido  vendedor e, depois,  livreiro, o Germano,  que, hoje,   ainda  luta  com  a venda   de livros  antigos  de direito e algumas obras  raras num espaço limitado de três  salas  pequenas  na Rua  da Quitanda,  complementando  suas  vendas através das redes virtuais de sebos, fico entristecido com essa decadência  ocasionada  pelos novos tempos  devoradores do que  era bom  e  agradável a quem  aprecia  e ama os livros escolhidos e examinados  com as próprias mãos  nos recintos  silenciosos das velhas livrarias e sebos  cariocas.

        Volto,  porém, ao jornalismo   literário ou aos antigos e    densos suplementos  de jornais  do  Rio de Janeiro sobretudo  do Jornal  do Brasil, do Globo,  do Correio da  Manhã, do excelente  Jornal  de Letras dos irmãos  Condé.

     Agora,  o Caderno  Prosa & Verso perde sua autonomia  de  seção  especial  destinada a literatura, resenhas e crítica literária afora boas reportagens sobre autores e livros. Tudo,  nesse jornal,  passou a aglutinar-se sob a  rubrica Segundo Caderno e, nele  se incluem e notícias  de entretenimentos, rioshow, horóscopo,cartuns,  palavras cruzadas, eventos  culturais, diverso,  anúncios, notícias sobre  televisão,  celebridades e finalmente,  uma pequena parte de literatura, Prosa e Verso (sem necessariamente  aparecerem  poemas) e, por último,   a coluna, boa aliás, de  Arnaldo Bloch,  não me esquecendo de mencionar a coluna,  antes  escrita  por  José Miguel Wisnik, e, agora,  pelo  professor da UFRJ e filósofo Márcio Tavares D’Amaral,  que mal começou e  está me  agradando muito.

    Não quero falar de São Paulo nem de uns poucos estados que ainda  mantêm  algum  espaço  para a literatura. Entretanto, é visível a decadência  do jornalismo  literário brasileiro, dos já mencionados  grandes suplementos  literários.

    Por outro lado, os grandes jornais não dispensaram  os  Classificados,  cada vez maiores,  recheados  de compra e vendas. Vale a pena  mencionar  esse fato  para que se passa aquilatar  o apreço  hoje dos  donos  de  periódicos  àquilo que dá lucro certo e líquido. Que os  leitores  leiam  os classificados  e adquirem cultura  de números  e de exploração  de uns contra os outros – sinal dos tempos  do fetichismo  do vil metal,  do dinheiro  rápido e muito,  e  ávido. O tempora!  o mores!

   Veja,  leitor,   que as seções de política/politicagem continuam firmes. Afinal, quem   não aprecia  um  lucrinho,   um dinheiro  a mais no bolso sedento  de   moedas, em especial de  de dólares,  cifrões,  dividendos,  investimentos,   bolsas de valores,   alegria  dos sobe-desce das Bolsas determinado  por  forças  obscuras do mercado real e virtual?  Quem, ante  tudo isso,  vai pensar em  literatura,  em ler, queimar as pestanas, raciocinar,   se existem  outros   meios de viver sem   a leitura de sonhadores   com o céu  estrelado  e a lua dos  namorados?

  Quem, hoje,   vai ler  um grande  clássico,  seja brasileiro, seja  universal,  se cá na  reles Terra  existem  os torcedores  fanáticos,  os  botecos  de cachaças,  bares  e as “cervejinhas bem geladinhas   de fins-de-semana regadas às lindas ancas  e curvas morenas da  bela  Verão  de olhos faceiros e  andar   sensual?

     O que querem mais  os brasileiros além  dessas guloseimas e fetiches,  indiferentes à rapinagem    geral   e irrestrita que infestou  o Alvorada e o Congresso Nacional  conluiados com altas empreiteiras subornadas (e conluiadas)   a repassarem  propinas institucionalizadas por um  partido que,  segundo   o Ministro do Supremo  Tribunal Federal, Gilmar Mendes,  arrecadou  valores  surrupiados de lucros da Petrobrás em bilhões, os quais darão para   “vencer” eleições  mercadejadas no país até 2038 através de um   plano  diabólico   que, segundo ele,    foi engendrado  e  implantado  por uma ‘cleptocracia’  a fim de perenizar-se no poder, o que equivaleria a ser uma forma de “ditadura,” a longo prazo,  pelo voto  comprado.


     Felizmente,  ainda segundo  o  ministro,  a Lava Jato  conseguiu  desbaratar  esse  plano a tempo, restando, agora,   penalizar  com  toda a força  de Lei  os “white collars”  responsáveis diretos pelos rombos  do Erário Público. Ou seja,  prisão  inapelável para todos  eles, doa a quem doer.    

domingo, 11 de outubro de 2015

Presságio


Presságio

Dagoberto Carvalho Jr.

A sombrinha vermelha de Maria Monforte
desafia o tempo consequente do romance,
para projetar-se na vida.
Para vencer o mar de sal e de séculos
e desafiar o sol dos trópicos.
Projeta-se no inconsequente tempo da paixão,
desafiadora sombrinha de sonhos.


         Oeiras, 26 de setembro de 2010

sábado, 10 de outubro de 2015

Análise do poema Marataoã


O conhecido e aplaudido professor de português e literatura, poeta, analista de obras consagradas, recentemente eleito membro da Academia Piauiense de Letras, “topou a parada” no desafio proposto pela coluna, há algum tempo aos poetas: apresentarem um poema de sua lavra, acompanhado das explicações técnicas e artísticas, em linguagem e didática para estudantes e curiosos na construção do poema. O motivo do desafio destina-se a educar os jovens a interpretar e criar poesia, especialmente a de vanguarda, metafórica. Infelizmente, há versos por aí travestidos de poesia. A colaboração de Dílson Lages, certamente, cairá nas mãos de estudantes e professores, em círculos de debate:

                            MARATAOÃ

           “O rio corre em meu coração/E separa os sentimentos da areia./A vaga das águas vai/Virando pó em pensamento/E a estrada encurta distâncias./O rio viaja no horizonte/Onde dançam os cabelos das carnaúbas/E soluçam os olhos do sol./O rio corre em meu coração/E deságua nas correntezas do caminho.”

         Por economia de espaço, compactei os versos. Dílson enviou seguinte comentário, reduzido ao espaço da coluna:

“Qual a alma de uma cidade? Antes dos valores do mundo do consumo determinarem tendências e comportamentos, em muitos lugares, a igreja, a praça e principalmente o rio definiam a essência das cidades. O afeto, a interação, o tempo mais valiam que qualquer outro signo, porque a pressa era viver. O afeto, a interação e o tempo cabiam com todas as letras na igreja, na praça e principalmente no rio.

Muitos exaltaram o rio-alma de sua aldeia. Pessoa enalteceu o Tejo. João Cabral de Melo Neto, o Capibaribe. Da Costa e Silva, o Parnaíba. Exaltei o amor pelo rio de minha terra de nascimento, expressando no poema Marataoã designação do volume de águas que serpenteia o perímetro urbano de Barras-PI, o sentimento do eu lírico que utiliza o rio não apenas como símbolo de identidade, mas elemento por meio do qual o lirismo telúrico projeta a interlocução entre o mundo exterior e o universo interior da voz poética. O rio funciona, pois, como uma metonímia para a própria terra e as emoções dela advindas, resignificada em jogos sonoros e imagéticos, construídos com a finalidade de revelar o sofrimento pela distância da terra-berço.

Como em poesia a relação ritmo-imagem conta mais do que qualquer experimentalismo, os recursos da tradição literária, os tropos, ganham sentido especial. Neste poema, extremamente musical, o rio e a terra se confundem semanticamente. O rio é movimento (inclusive pela repetição assídua do som “rê”): assemelha-se ao sangue (“o rio corre em meu coração) – corre, viaja, dança. Acompanha o eu lírico como fragmento, como memória, conotada na metonímia “vaga das águas” (a parte pelo todo). O rio é onipotente, conforme se vê no processo metonímico “deságua nas correntezas do caminho”, processo que reitera o significado afetivo tanto da terra quanto do Marataoã. A Terra (cidade) e o Marataoã se confundem e fundem na expressão da alegria e da tristeza... o rio “separa os sentimentos da areia”, “vira pó em pensamento”, “soluça”, “deságua”, entretanto, está continuamente vivo no eu lírico... o rio absorve a imaginação: sinestesias, assonâncias e aliterações em alta voltagem... “cabelos das carnaúbas”,“olhos do sol”,.. ritmos e imagens...por conta da imaginação do leitor. Deixo o leitor à vontade, afinal, não apenas o rio, paradoxalmente, reduz-se a lembranças, mas tudo aquilo que significa, para nós, o afeto sem medida exata.”    

Fonte: Portal Entretextos 

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

101 - PARNAÍBA - DUAS CIDADES


ZPE – ZONA PROCESSAMENTO EXPORTAÇÃO

Lauro Correia
Engenheiro Industrial – UFMG
Prefeito Parnaíba – 1963/1966

            Não escreverei hoje sobre duas cidades irmãs: Parnaíba no estado do Piauí e Santana de Parnaíba no estado de São Paulo.
            O meu escrito é dirigido à nossa Parnaíba – Princesa do Igaraçu – recentemente homenageada com um novo epíteto – Pérola do Litoral Brasileiro.
            O Município da Parnaíba, como os demais municípios brasileiros compreende duas partes: zona urbana e zona rural.
            A zona urbana, por sua vez, é distribuída pelo centro urbano e os bairros.
            A Lei Municipal de divisão da cidade em bairros consignou em seu texto que fossem observados alguns dispositivos tais como: observação de linhas divisórias constituídas por grandes avenidas; respeito às leis que criaram alguns de seus bairros; sempre que possível, os bairros deveriam ter áreas equivalentes; respeito às áreas dos bairros que surgiram com a cidade, tais como: Tucuns, hoje São José, Coroa, hoje, bairro do Carmo; um Bairro padrão, se assim possa ser chamado, tem 60 (sessenta) quarteirões; o bairro tomado como modelo, seria o Nova Parnaíba.
            Quatro grandes Avenidas, sendo elas Avenida São Sebastião complementada pela Avenida Capitão Claro, e a Avenida Chagas Rodrigues, complementada pela Avenida das Normalistas, dividem a cidade em quatro quadrantes, os quais podem ser denominados pelas posições topográficas que ocupam como: Noroeste, Nordeste, Sudeste e Sudoeste.
            Além dessas 4 partes da área urbana, existente àquela época, década de 1960 (1963/1966), a divisória constituída pelas Avenidas Chagas Rodrigues e Normalistas, dividia e continua dividindo a cidade em duas outras cidades: Parnaíba – Oeste e Parnaíba – Leste.
            Nesta linha de raciocínio, a cidade, na nossa mente é dividida em duas cidades, e o cruzamento das duas mencionadas Avenidas era o centro geométrico da cidade.
            De 1960 para cá, decorreram 55 anos, a cidade cresceu em novas ruas e bairros, e o centro geométrico da cidade deslocou-se para o cruzamento da Avenida São Sebastião com a Avenida Pinheiro Machado, na conhecida rotatória do mirante.
            Muitas famílias parnaibanas, inclusive a minha, moramos na parte oeste da cidade, na Parnaíba – Oeste.
            Outras famílias parnaibanas moram na Parnaíba – Leste.
            Em resumo, os parnaibanos moram na Invicta Parnaíba, epíteto este consquistado pela Amada Cidade quando os parnaibanos, todos estiveram unidos em 1943 na memorável Campanha Cívica pela manutenção do nome da cidade, pois decreto-lei federal estabeleceu que a nossa Parnaíba passava a ser denominado POTI, ficando a cidade Parnaíba, em São Paulo, com sua denominação conservada.
            Nós parnaibanos sentimo-nos felizes em assim sermos reconhecidos, e não como potienses, denominação feia e quase pornográfica.
            A população de nossa cidade, como das demais, às vezes se divide em cristãos e não cristãos, em torcedores do Flamengo ou do Fluminense, em favoráveis ao Governo ou à Oposição.
            Mas, existem situações como na época em que vivemos, durante a qual, a nossa Parnaíba deseja a união de todos os parnaibanos, sem distinção de religião, partidos políticos ou time de futebol, que estejam todos os seus filhos unidos em uma Campanha Cívica em defesa do Porto Marítimo de Luiz Correia e da ZPE – Zona de Processamento de Exportação.
            O Porto de Luiz Correia, cujas obras foram iniciadas em 1953, e sofreram paralizações, é e sempre foi para todos os piauienses um Porto de importação e exportação de cargas em geral.
            Atualmente é:Porto da ZPE – Zona de Processamento de Exportação (em instalação).
Porto do Distrito de Irrigação Tabuleiros Litorâneos (hoje contando com a instalação da MAIOR FIRMA EXPORTADORA DE MELANCIAS e MELÕES DO BRASI).
Porto do Distrito de Irrigação(DISTRITO de IRRIGAÇÃO TABULEIROS de SÃO BERNARDO, projetado para 10.000 hectares).
            Porto daSOJA produzida no Sudoeste do Piauí e Sudeste do Maranhão, e futuramentetransportada pela HIDROVIA Rio Parnaíba, atualmente transportada, com ônus, em carretas. Nos Estados Unidos, 80% da soja é transportada pelo Rio Mississipi e seus afluentes.
            O Governador e Senador Maranhense–José Sarney foi vinculado à nossa cidade através de Sebastião Furtado, residente à Rua Pedro II, e conquistou várias amizades em Parnaíba, entre as quais a minha, pois destinou à nossa Parnaíba duas obras fundamentais ao seu desenvolvimento econômico, a saber: Distrito de Irrigação Tabuleiros Litorâneos e Zona de Processamento de Exportação.
            Ocorre, parnaibanos, que a ZPE – Zona de Processamento de Exportação, para seu pleno e consolidado funcionamento, precisa de um Porto Marítimo para exportação de seus produtos, a começar por uma Fábrica de Cera de Carnaúba, em fase de instalação na ZPE.
            Os quatro investidores que apresentaram projetos para se estabelecerem na ZPE tiveram os mencionados projetos aprovados em Brasília, através do Órgão Federal competente. Seis outros projetos estão sedo analisados em Brasília-D.F.
            Levo ao conhecimento dos leitores que no Uruguai, país vizinho ao Rio Grande do Sul, tendo área territorial equivalente, possui 22 (vinte e duas) ZPE’s em pleno funcionamento.
            Os Estados Unidos, potência mundial na agricultura e na indústria, possui mais de 100 (cem) ZPE’s em funcionamento. Na China, potência mundial que se agiganta como os Estados Unidos, as ZPE’s são 150.
            No Brasil, em procedimentos de instalações, estão 17 ZPE’s.
            Essas citações são apresentadas para confirmar que o Piauí e a Parnaíba estão no caminho certo, pois a ZPE do Piauí, localizada em Parnaíba, será um fator importante no desenvolvimento do Piauí e da Parnaíba.
            Parnaibanos, a Parnaíba, em se tratando de seu progresso industrial, econômico e social, conclama todos os seus filhos para unidos e independentes de ideologia política ou partidária, ao apoio e participação nessa Campanha Cívica pelo Porto Marítimo e pela ZPE.
            
Dedico este artigo ao meu primo pelo lado paterno, sobrinho pelo lado materno, e amigo pelo lado do coração CANINDÉ CORREIA.


Parnaíba, 20 de setembro de 2015

terça-feira, 6 de outubro de 2015

O HISTORIADOR DO SÉCULO XXI


O HISTORIADOR DO SÉCULO XXI

Herculano Moraes
Da Academia Piauiense de Letras

            Em 1879 Miguel de Sousa Borges Leal Castelo Branco, após algumas experiências, biografando personalidades ilustres da História Provincial, publica Apontamentos Biográficos de Alguns Piauienses Ilustres. Era o inicio da saga inventarial que tem consagrado e perenizado a memória de figuras emblemáticas do Piauí, na política, educação, cultura, sacerdócio, empresa e governabilidade, exaltando feitos e mantendo viva a memória dos que se destacaram por ações praticadas em suas vidas.
            Esse desafio iluminou outros pesquisadores, dentre os quais podemos citar, numa ordem cronológica, Clodoaldo Freitas, Anísio Brito, Esmaragdo de Freitas, Monsenhor Chaves, Wilson Brandão, Padre Cláudio Melo.
            Graças à dedicação desse abnegado grupo de pesquisadores, tornou-se possível preservar a memória de luminares que honraram suas trajetórias contribuindo para o desenvolvimento sociopolítico, administrativo e cultural na educação, saúde, ciências humanas, governabilidades, voluntariado, entre outros segmentos de atuação.
            No final do século XX e neste inicio do século XXI o nome do advogado, historiador e acadêmico Reginaldo Miranda se impõe e se afirma como principal sucessor de todos os demais historiadores que cumpriram a difícil tarefa de registrar fatos e episódios da vida de personalidades notáveis, cujas histórias precisam ser preservadas.
            Ingressando bem jovem na Academia Piauiense de Letras e assumindo pouco tempo depois a Presidência da entidade, Reginaldo Miranda, fortaleceu suas convicções, percebeu o elevado nível de responsabilidade da exposição de ideias e pensamentos e esmerou-se na percuciente investigação de fatos e episódios da história em versões não inteiramente esclarecidas.
            Cuidadoso, meticuloso e responsável, Reginaldo Miranda procura a verdade na origem, vasculha bibliotecas e arquivos, mergulha nos porões dos museus historiográficos de Coimbra e Lisboa, de onde retira valiosas informações.
            Este primeiro tomo de VULTOS DA HISTÓRIA DO PIAUÍ consagra a Colônia, e incorpora figuras centrais desse espólio, como o Ouvidor Moraes Durão, a organização social e política do ciclo colonial, os conflitos, a documentação definidora do território, de sesmarias, o processo de ocupação e o jogo de interesse no coração do Poder.
            A influência de Félix do Rêgo fecha o ciclo de poder, incluindo nessa restauração histórica, a exposição de fatos demolidores e a luta cruenta pelo domínio territorial, com o massacre de nações e aldeias, o aldeamento e a resistência dos habitantes da terra devassada.
            Não tenho dúvidas em afirmar que Reginaldo Miranda é o grande historiador piauiense do século XXI.

DOIS POEMAS DE ALCENOR CANDEIRA FILHO

                   
                   

                   VIETNÃ

                   Alcenor Candeira Filho

                    pela página do jornal
                    pela palavra do rádio
                    pelo sinal do teletipo
                    pela letra da revista
                    pela tela da tv
                    -  a mensagem que vem
                    de Hay-Phong a Cholon
                    de Hanoi a Saigon
                    tem apenas um mote:

                    MIL DINAMITES NO SUL
                    MIL DINAMITES NO NORTE
                    ENTRE O NORTE E O SUL
                    -  A DISTÃNCIA  É A MORTE.

                    MUITAS VÍTIMAS NO SUL
                    MUITAS  VÍTIMAS NO NORTE:
                    VIETNAMITAS  DO SUL
                    VIETNAMITAS DO NORTE.

                    ENTRE O VIETNÃ DO SUL
                    E O VIETNÃ DO NORTE,
                    PELO SUL E CONTRA O NORTE
                    -  A AMÉRICA DO NORTE;
                    PELO NORTE E CONTRA O SUL
                    -  A UNIÃO SOVIÉTICA.

                                 VIETNÃ
                                 DO SUL
                                 VIETNÃ
                                 DO NORTE;
                 ESTADOS UNIDOS E UNIÃO SOVIÉTICA
                                 NO PAVOR
                                 DO SANGUE
                                 E NA DOR
                                 DA MORTE.

                                       1975


A GUERRA DO VIETNÃ

Alcenor Candeira Filho

           fuzis AK-47 tanques dinamites sob
          imensa densa nuvem negra sobre
          parte do mapa-múndi que vai
                                                          de Quang Tri a Hué
                                                          de Quin Nhon a Nha Trang
                                                          de Phnon Penh a An Loc
                                                          de Phan Tiem a Phan  Rang
                                                          de Xuan Loc a Saigon
                                                          de Danang a Quang Ngai
                                                          de Tan An a Vung Tau
durante duas décadas
de sangue suor dor
e de famílias divididas
cidades arrasadas
plantações arruinadas
mais de dois milhões de mortos       
e aproximadamente
                                                      879000 órfãos
                                                      200000 deficientes físicos
                                                      1 milhão de viúvas
no mais longo conflito armado do Sudeste Asiático
envolvendo Vietnã do Sul e Vietnã do Norte.

                                                     1975

domingo, 4 de outubro de 2015

O PODEROSO


O PODEROSO

Luís Alberto Soares (Bebeto)

Dinheiro é cifra muita boa
Satisfaz bilhões de humano
Compra até quem anda a toa
Provoca gente para o engano
Faz milhões ficarem na proa
E muitos outros no desengano

Muitos de muita esperteza
Para um bom dinheiro ganhar
Praticam falcatruas e tristeza
Para o povo só resta se lastimar
Eles querem bastante “moleza”   
Para muito dinheiro, embolsar

A cédula faz gente se encantar
A corrupção virou estudo de arte
Para os que gostam de aplicar
Assaltos e crimes em todo lugar
A polícia sempre faz sua parte
Prende e a justiça resolve soltar

“O poderoso dinheiro articula”
Muita gente em busca dele
E em período eleitoral, calcula
Numa maneira de grudar nele
Não importa se é pura macula
Ou se vai afetar eu ou aquele

Sei que ninguém pode dá jeito
Dessa ganância desenfreada
Que provoca muito desrespeito
Causando nação desanimada
E a todos que agem direito
Em prol de gente necessitada

No Brasil não tem jeito não
O dinheiro continua “lei” forte
Muitos andam na contra mão
Abastecidos de muita sorte
Não temem merecida punição
Porque se julgam gente de porte

É lógico, aqui existe muita atração
Pelo dinheiro “fácil”, ganhar
Muitos entram em rápida ação
Fazem de tudo para se beneficiar
Eles não tão nem aí para população
E a maioria tem que se conformar

Essa gente dessa imoralidade   
Só mesmo DEUS para condenar
Porque ele, sim, é de credibilidade
O único do universo para nos livrar
Da ganância de muita intensidade   
Através do povo para se beneficiar    

sábado, 3 de outubro de 2015

CONSEGUI PROVAR QUE SOU SERVIDOR PÚBLICO ESTADUAL


CONSEGUI PROVAR QUE SOU SERVIDOR PÚBLICO ESTADUAL

Virgílio Queiroz

Cheguei à Secretaria de Administração do Estado do Piauí com um objetivo; me recadastrar. Estava com medo de ter meu contracheque retido (como aconteceu por diversas vezes. Obs: não vou contar os motivos. Outro dia, quem sabe).

Havia um vuco-vuco na sala antes, onde servidores estavam desesperados por conta do contracheque retido. O meu não estava e eu passei direto. Documentação incompleta: faltava a portaria de 1915 (quinze mesmo!) do meu início de trabalho. A Amanda me disse: “vá buscar e venha na parte da tarde. Quatro horas não tem seu ninga”. Voltei no horário marcado. Agora o vuco-vuco era no auditório. Eu disse: valei-me Virgem Santíssima! E agora, dona Aurora!

Ei, Amanda, você disse que não ia ter seu ninga! Aqui está entupetado de gente! Ela disse: “é, pois é... eu num contava com isso não. Mas, peraí, vou resolver”. Olhou minha documentação e tudo ok. “Olha, seu Virgílio, fale com a Patrícia”. Morena linda, apesar de sisuda. Ela me disse que era melhor eu vir no outro dia pois, às 17:00h, ela iria embora. “E aí, eu vou enfrentar todo esse balacobaco de novo?”, perguntei-lhe. “Amanhã, chegue às oito horas. O senhor não enfrentará fila. Olhei a morena de cabo a rabo. Parecia não ter defeito (rosto, resto do corpo, etc.), tirando a sisudez.

No outro dia, às 07:55h, eu estava rente. Não havia tanta gente na sala onde houvera o pipoco no dia anterior (umas 50, talvez). Vi a Patrícia (linda como ontem). Mostrei-lhe o papel com sua letra, autorizando a minha ida, no dia seguinte, sem pegar fila. Ela, pela primeira vez, me olhou, e para minha surpresa e satisfação, pegou-me pelo antebraço e levou-me à sala do pipoco (acho que, por dentro, ela estava dizendo assim: vou levar esse porra pra longe de mim). “Fique esperando a chamada. 318, 319!”, ela chamou os servidores para uma outra sala de atendimento (bem mais vaga).

Olhei minha ficha e vi 320. O guarda disse: “entre, espere sentado, no ar refrigerado”. Eu respondi que ia ficar fora, pois estava chegando a minha hora. A Patrícia passou, passou, repassou e necas. Não pegou no meu antebraço e nem disse nada. Eu perguntei para o guarda: “não vão me chamar? “. Ele disse: “é por ordem de chegada. O senhor se senta na sala e vai atendido”.  Olhei, a sala tinha recebido mais gente. Talvez já com 60 ou mais pobres servidores. Esperiquitei-me e gritei como se fosse o Sílvio Santos: Patríciiiiiiiia! Ela, me olhou e disse: “o que foi?”. Ela podia ser a mulher mais bonita do mundo, mas o meu orgulho estava ferido. Que barato é esse! Eu sou o 320! Você chamou o 318 e o 319. E eu!? “Espere na sala”, disse-me. Eu disse: “nem morta, dona Carlota, eu não saio dessa porta!”. Ela cedeu, eu entrei.

Um rapaz(?) me atendeu: “os documentos, por favor” (disse, sem antes soltar um sorrisinho matreiro). Virou-se, espreguiçou-se sensualmente e disse para uma colega ao lado: “menina, estou com uma gripe daquelas! Tomei nimesulida, recebi até injeção no bumbum. E continuo gripada (quis escrever gripado). Ele pegava os meus documentos, passava a mão num papel higiênico amassado e embebido em álcool, assuava o nariz. Toda porcaria possível. De vez em quando ele bichichava: “ui! A internet caiu! Oh! (esse “oh” era a identificação, além da mãozinha levantada até a altura do ouvido). Depois de uns 20 minutos que me pareceram duas horas, ele bateu as mãozinhas e disse: “pronto, finalizei”. Passei, ainda, por outra sala, mostrei novamente os meus documentos (parecia o tempo de estudante universitário quando tive que ser identificado pela PF ). O rapaz, outro rapaz (desta vez, rapaz), disse que o recadastramento estava concluído.

Estou em casa, acamado. Rouco, com febre, gripado. Tomei um antigripal, nimesulida, acebrofilina (injeção no bumbum, não), tudo contraído pelo rapaz do “ui e oh”. Mas, confesso, estou feliz, consegui provar que sou servidor público do Estado do Piauí.    

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

RETORNO POÉTICO E SENTIMENTAL A REGENERAÇÃO

Reginaldo Miranda, Elmar e Miguel Carvalho


1º de outubro   Diário Incontínuo

RETORNO POÉTICO E SENTIMENTAL A REGENERAÇÃO

Elmar Carvalho

Dias atrás recebi um telefonema da amiga Nileide Soares, me convidando a participar da 6ª edição do Sarau – Poesia e Música na Vila da Regeneração, em que eu seria homenageado na qualidade de poeta. Fez-me um breve relato do histórico do Sarau. Na primeira edição foi homenageada a professora Socorro Santana, musicista, historiadora e poetisa, filha ilustre daquele rincão querido, do qual tenho a honra de ser cidadão honorário. No sábado passado, na reunião da Academia Piauiense de Letras, através do confrade Reginaldo Miranda, tivemos a infausta notícia do falecimento dessa artista da música e das letras.

Imediatamente aceitei o convite da Nileide, notável agitadora cultural, contista, cronista e articulista, além de empresária bem sucedida no ramo de gráfica e de papelaria. Ela me esclareceu que além de Socorro Santana já haviam sido homenageados os poetas Nathan Sousa, que me deu a auspiciosa notícia de ter tido um seu romance recentemente premiado pela UBE-RJ, Climério Ferreira, seu parente, e também compositor e cantor, Da Costa e Silva, excelso poeta e poeta maior do Piauí, e o cordelista e contador de estórias e histórias João Carlos.

Na tarde de quinta-feira, dia 24, à tarde, segui viagem, em companhia de Miguel Carvalho, meu pai, quase nonagenário, meu irmão Antônio José, sua esposa Maria de Jesus, e o escritor e historiador Reginaldo Miranda, que gentilmente atendeu o meu convite, reforçado pelo da Nileide. Fiz questão de que Reginaldo fosse, porque ele foi meu colega de formatura no curso de Direito (UFPI), é advogado atuante naquela Comarca e porque escreveu a mais notável e completa obra sobre a rica história de Regeneração.

Todos os saraus foram organizados e realizados pela NAV Produções, cujo nome é formado pelas iniciais de Nileide Soares, Antão Filho e Valquíria, três mosqueteiros e Quixotes da cultura musical e literária de Regeneração. Mosqueteiros porque são aguerridos e batalhadores, e Quixotes porquanto idealistas, num mundo cheio de pessoas “práticas” e argentárias.



O evento foi aberto pelo poeta e escritor Nathan Sousa, meu confrade, assim como Nileide, na Academia de Letras do Médio Parnaíba, que me traçou um belo perfil, exaltando as minhas eventuais qualidades literárias e evidentemente omitindo os meus defeitos. Além disso, recitou alguns poemas de minha autoria.  

Valquíria Lima, com muita competência e maestria, fez a apresentação do sarau lítero-musical. Tem bonita voz e boa dicção, e tem o dom de escandir bem as palavras. Quando recitava os poemas, o fazia com boa entonação, no ritmo correto e de forma pausada, de maneira que o conteúdo e a musicalidade do texto podiam ser bem absorvidos pelos ouvintes.

Atuaram na parte musical o sanfoneiro Chico Preto, o tecladista Chinó Font e os intérpretes Chico Paulo, Odair Leandro e Jacksom Kalliffas. Todos se apresentaram de forma excelente, e fizeram por merecer os calorosos aplausos que receberam. O repertório foi de alta qualidade, pois as melodias eram ótimas e as letras eram verdadeiros poemas.



O Chico Preto, parecendo ter o espírito da ave canora da qual retirou o nome, pareceu-me um virtuose da sanfona, a brincar e a fazer firulas e malabarismos com os baixos e as teclas, além de ter perfeito domínio sobre o molejo do fole. Valdemir Gomes tudo documentou, em áudio-visual. Foi homenageado o aluno Francisco Emanuel, medalhista da Olimpíada Nacional de Língua Portuguesa – 2014.

Conta a lenda que, num dos saraus anteriores, um dos intérpretes, em pequeno ato falho, modificou a letra da música Asa Branca, imortalizada por Luiz Gonzaga, ao entoar que “asa branca morreu ontem / hoje mesmo avoou”. Além da referida alteração, cometeu uma maldade e um milagre, pois ao tempo em que matou a ave de arribação a ressuscitou no dia seguinte, de forma que o pássaro escapou da morte e da seca. Sem dúvida esse diminuto deslize vai ficar na história musical da cidade, como engraçado caso anedótico.

Vestindo literalmente a camisa da poesia


O espetáculo lítero-musical aconteceu na Pizzaria Quero Mais, às 19 horas do dia 24, quinta-feira. Os servidores e proprietários da pizzaria, além de outras pessoas, vestiram literalmente minha poesia, porquanto a bonita camisa estampava os três versos finais de meu poema Marítima: “Mas trouxe a vida / na alegria das chegadas / e na tristeza das despedidas.” Não sei se por mera coincidência, já que muitos afirmam não existir acaso, o poema que eu havia escolhido para recitar foi exatamente esse.

Mais de três dezenas de meus poemas estavam estendidos em um cordel. Foram bem impressos, em letras graúdas e em papel de boa qualidade, de modo que os leitores não tivessem nenhuma dificuldade em lê-los, como fazia parte da metodologia do sarau. Após a declamação, tive o prazer de autografá-los para o leitor.

A escolha dos textos foi rigorosa, e posso classificá-la como verdadeira antologia. Um jogral, com vários participantes, encenou um dos poemas. José Teixeira Pacheco, professor, escritor, poeta e ator, interpretou, como se fora um monólogo e com muita emoção, meu poema Vida in Vitro. Foi, sem dúvida, uma grande noite de poesia, música e magia.



Foi também uma das maiores homenagens que recebi. Em meu discurso, parafraseando Da Costa e Silva, disse que quando cheguei, para assumir o meu cargo de juiz de Direito da Comarca de Regeneração, em pleno inverno de 2007, eu estava feliz e a natureza me sorria através da exuberância do verde das faveiras, e quando a deixei, mais de seis anos depois (em virtude de promoção), no início de agosto de 2013, eu estava triste e as faveiras não estavam tão verdes.



Aduzi que me esforcei para ser o melhor juiz que eu poderia ser, ante as condições que me eram oferecidas, especialmente a ostensiva falta de servidores. Vários tribunos, entre outros os advogados Carlos Augusto Nunes, Reginaldo Miranda e Nei Leitão, aos quais sou grato, elogiaram a minha poesia, e enalteceram a minha judicatura na Comarca da eterna Vila de São Gonçalo da Regeneração.


Fiquei deveras comovido. Tive que fazer esforço para não chorar, embora não fosse isso nenhum ato vergonhoso.