segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Café Literário homenageia Patativa do Assaré e Pedro Costa


BARRABÁS! BARRABÁS! BAR...RA...BÁS!


BARRABÁS! BARRABÁS! BAR...RA...BÁS!

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Jovens, adultos, católicos, evangélicos e demais confissões vêm substituindo a folia carnavalesca pelos retiros espirituais. Geralmente, concentram-se em sítios, debaixo de árvores, para louvar o Senhor com músicas, entusiasmo, orações, palestras, lazer, comida frugal, confraternização. Quem já participou uma vez quer repetir a experiência, ano seguinte. Quase sempre, os grupos se reencontram, em outras oportunidades. Convidaram-me para ministrar palestra, nesta quaresma, sobre a figura bíblica de Barrabás. O tema cai bem na atual crise moral de corrupção e violência.

         Barrabás, assassino, baderneiro, assaltante, conforme relato dos evangelistas Lucas (capítulo 23) e Marcos (capítulo 15). Ou de Pedro em Atos dos Apóstolos (capítulo 3). Barrabás integrava a facção dos zelotes, que hostilizava o poder romano, em Israel. Preso, condenado à morte, aguardava o dia da execução na cruz.

Naqueles dias, Jesus Cristo dirigiu-se a Jerusalém para festa de Páscoa. Multidão de romeiros também pegavam estrada. Aproximando-se da cidade santa, Jesus entra na casa de Lázaro, falecido há quatro dias. Acompanhado de familiares do morto, dirigiu-se à sepultura de Lázaro e o ressuscitou. Romeiros que assistiram ao estupendo milagre divulgaram a notícia em Jerusalém. Multidões entusiasmadas foram ao encontro de Jesus. Montaram-no em jumento, aclamaram-no rei, espalhando vestes e galhos de oliveira à sua passagem. O delírio coletivo acendeu a cólera das autoridades, especialmente da classe sacerdotal e dos fariseus, que exploravam a população com altos dízimos, ofertas e corrupção. Iniciava-se processo para prender o Mestre e entregá-lo às autoridades romanas.

A multidão, inflamada pela retórica distorcida e populista dos líderes, vociferava, exigindo do governador Pilatos a condenação do Mestre, e liberdade para o bandido Barrabás. Covarde e conivente com a classe iníqua de magistrados e fariseus, Pilatos foi, mais tarde, deposto do cargo, levado para Roma, condenado à masmorra, em Viena.

A História está repleta de contrastes, quando a população, seduzida pela retórica dos discursos inflamados, substitui o senso crítico pela submissão ideológica. Hítler, cabo raso na Primeira Guerra Mundial, oratória inflamada, chegou ao poder ditatorial, atacando a causa da desgraça social e econômica da Alemanha, os judeus. Mussoline inaugurou o fascismo na Itália, movimento político e filosófico ou regime, que faz prevalecer os conceitos de nação e raça sobre os valores individuais e que é representado por um governo autocrático, centralizado na figura de um ditador: Stálin, da Rússia; Franco, na Espanha; Salazar, em Portugal; Getúlio Vargas, no Brasil; Peron, na Argentina; Mao Tsé Tung, China. Além das republiquetas, Coreia do Norte, Cuba, Venezuela, entre outras. O princípio se estabelece na demagogia, no ataque feroz ao capitalismo, na distribuição de pão e circo para engabelar a população e extorqui-la no voto, porém acumulando, disfarsadamente, fortunas, quebrando o Estado. A população, coitada, paga caro por substituir o trigo pelo joio. A virtude pelo vício. A dignidade pela corrupção da consciência. O sagrado pelo profano.      

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Em Defesa do Rio Parnaíba


Seleta Piauiense - Lucídio Freitas


Perscrutadoramente

Lucídio Freitas (1894 - 1921)

Perscrutadoramente os olhos ponho
No que fui, no que sou, no que hei de ser,
E alucinado dentro do meu sonho
Sinto a inutilidade do nascer.

Minha origem componho e recomponho,
Venho do berço ao túmulo... viver
Um instante só, e após, ermo e tristonho,
Sob o ventre da terra apodrecer.

Homem — parcela humilde, humilde e obscura,
Que anda perdida e desapercebida
Buscando os vermes de uma sepultura —

O que foste? o que és? para onde vais?
Esta angústia maldita da tua vida
Foi a maldita angústia dos teus Pais!    

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Lançamento de "Estação Saudade" em Oeiras

Fonte da foto: Mural da Vila


LANÇAMENTO DO LIVRO: “ESTAÇÃO SAUDADE” DE DAGOBERTO CARVALHO EM OEIRAS

Moises Reis

                                Da certeza de que outro de reconhecido calibre intelectual deveria estar aqui para a apresentação desta obra literária, ESTAÇÃO SAUDADE - não tenho a mínima dúvida. Afinal, cada qual no seu canto. Quem é mais capaz de entender a alma deste amigo escritor, historiador  e poeta, Dagoberto Carvalho, que não guarda para si os seus tesouros e os reparte com os outros, que não aquel’outro da mesma estirpe, que se distingue do cidadão comum pela imaginação inspirada, pela profundidade intelectual e pelo devaneio?

                               Caros amigos! Este é um momento de vívida e intensa emoção, próprio para ser conduzido, sobretudo, por alguém que, como dizia Cervantes, faz da pena a língua da alma: o escritor, o poeta. Sim, são eles os únicos capazes de interpretar, com fidelidade, a alegria e o prazer de outro escritor e poeta. Estes últimos, os poetas, são profundos filósofos e somente eles são dimensionados para sentir as emanações prazerosas do esforço poético do outro.

                               Como veremos, “Estação Saudade”, um misto de artigos, crônicas, discursos acadêmicos, atinge a sublimação com as poesias ali colacionadas, que o autor chama de “Canto da lembrança da Província”. Valerá a pena seguir o voo das ideias, para, certamente, ouvir a melodia interior das palavras e sentimentos expressados do âmago do coração do autor. Ao final o leitor haverá de concluir que “Estação Saudade” nada mais é do que a revelação de um estado de existência, desnudando segredos, denunciando acendrado amor telúrico e confirmando a preocupação do autor com a proteção da memória de sua terra, do seu povo. 

                               De indiscutível razão a assertiva do grande vate francês, Vitor Hugo: “os poetas possuem em si um condensador, a emoção. Daí os grandes feixes luminosos que saem de seu cérebro e que vão brilhar para sempre sobre a tenebrosa muralha humana”.

                               Sem os dotes apropriados, e sem talento para tanto,  reconheço a ousadia de aceitar o encargo de apresentar esta  obra literária produzida por este oeirense, cujo telurismo é o distintivo maior de sua personalidade.

                               Moveu-me, no entanto, para investir-me na missão delegada pelo autor de “Estação Saudade” um sentimento maior e único, qual seja o de que é possível adquirir a condição de escritor e poeta, na medida em que sejamos idealistas e sonhadores.

                               E foi exatamente com esta sensação e compenetrado de um só ideal, o de servir sempre que possa às boas causas, que resolvi estar aqui nesta Terra tão querida de todos nós.

                               De fato. Não escondo desta distinta platéia que também o fato de poder estar em Oeiras, foi outro motivo encorajador de exercer, nesta noite engalanada em que se respira ar de profundo civismo pelo dia de amanhã, 24 de Janeiro, o papel de analista da alma do Autor que, tal qual rouxinol solitário, com grande sensibilidade e poético saudosismo, canta sua terra e seu povo defendendo a preservação da cultura local.

                               Senhoras e Senhores,

                               Mesmo abrigando tanto seres humanos, marcados pela volúpia do querer mais, do ter mais o mundo continuará reservando um lugar especial para os escritores e poetas. É que a necessidade de usar da pena para exprimir sentimentos, de escrever para posteridade; a necessidade do recolhimento, do voltar-se para si mesmo, de abrigar-se na sua interioridade é mais forte no homem do que a busca do ter e do poder. É assim o Autor.

                               É vital para o cidadão separar o mundo exterior, onde se sobressai o indivíduo, do mundo interior, onde reina o fluxo espontâneo de poderosos sentimentos. É a sensibilidade interior, de quem não guarda para si os seus tesouros que dá vida e alma ao ofício de quem, como o Autor, escreve para o mundo.

                               Com razão e perfeitamente justificada a presença distinta dos poetas neste mundo globalizado, marcado, cada vez mais, pela violência, e pela simples busca do poder pelo poder. É que a vida não se limita a isto. É preciso também sonhar. O homem há que, de quando em vez, sair por aí a contar estrelas, revivendo tempos passados, como fazem os poetas. Como fez Dagoberto nesta obra.

                               Não é sem razão que devemos nos apressar em agradecer ao Dagoberto por mais esta contribuição em favor da cultura piauiense e especialmente pelas manifestações e defesa dos valores culturais de nossa cidade, “vivendo o presente, não de costas para o passado – mas tendo-o como inspiração para novas conquistas e de frente para o futuro”, com está dito por ele em documento registrado neste livro, apresentado no 8º Festival de Cultura de Oeiras.

                               Cantemos em uníssono, nesta noite, cantando em sincero canto, uma ode à criação do escritor\historiador e também poeta que não fez da poesia um caminho para a eloqüência e a retórica. É verdade! Os poemas do Conde de Oeiras, no dizer de Nilo Pereira, são de evocação e saudade. Sejamos percucientes na leitura e descobrir-se-á cântico de saudades; de esperança; de anseios vagos, desejos inexprimíveis, como nestes versos pinçados do poema:

“ INSONIA”
“Madrugada insone de lembranças e desejos;
Acorda a noite secular da Praça;
O Riacho, a ponte;
Os fantasmas do “Sobrado”.
Procissão do tempo,
Flores do “Passo” e de saudade”

                               “Estação Saudade” é mais uma das inúmeras contribuições literárias do historiador em homenagem aos cem anos da Academia Piauiense de Letras. A rigor, a obra não precisaria de apresentação. Discípulo do grande mestre português, Eça de Queiroz, tanto tem sido marcante sua presença no mundo da intelectualidade, que seus livros são recebidos com a certeza de conteúdo rico de boa prosa, daquela que eleva o espírito e inspira sentimentos nobres.

                               Bem disse outro poeta da Academia Piauiense de Letras, autor do célebre poema “Noturno de Oeiras”, Elmar Carvalho, ao referir-se à obra: “As crônicas e os poemas são entranhados de suave saudosismo telúrico e lirismo. Ele é um mestre da prosa bem trabalhada, e nos faz lembrar os mestres do classicismo português, porém, como não poderia deixar de ser, temperada de contemporâneas “especiarias”.

                               Senhores! Os livros são os abençoados clorofórmios do espírito, especialmente quando são feitos com alegria e  prazer. E as obras escritas com prazer, são quase sempre as melhores, assim como os filhos do amor são os mais belos.

                               Todos já nos acostumamos à leitura dos livros de Dagoberto. São obras literárias merecedoras de indiscutíveis encômios. Sua preocupação, como de outras vezes, com a cidade mafrensina, desejoso de assegurar aos pósteros em registro de suave pena, a verdade histórica da Primeira Capital do Piauí, mais uma vez se repete neste livro. Dagoberto tomou boa nota da lição de Eça de Queiroz, segundo a qual “só um livro é capaz de fazer a eternidade de um povo” E este “chão glorioso, encravado em sertão bruto, onde jazem heróis verdadeiros, no dizer de Arimatea Tito, necessita ter sua história resguardada. 

                               Consciente dessa verdade é um obstinado por contribuir, através de seu lirismo, de suas emoções, para que fiquem nos anais da história, os feitos e passagens da “capital perene das tradições do Piauí”.

                               John Ruskin, britânico, crítico de arte, poeta e desenhista,  realçava a verdade de que “Os livros dividem-se em duas classes: livro do momento e o livro de todo momento. Aqueles podem ser lidos ora na sala ora na cozinha; já os livros de todo momento, como verdadeira prova de seu valor, são lidos tanto na sala quanto na cozinha”.

                               Não titubeio em afirmar, categórico, que esta obra certamente merecerá de todos nós que a leiamos pela casa inteira, porque se trata de um bom livro, mais um legado precioso que Dagoberto deixará para a posteridade.

                               Na primeira parte da obra estão os artigos e ensaios, em que o historiador explora temas diversos, com o seu já conhecido estilo, próprio, perfeito, definido e sempre denunciador do sentimento de “filho extremado e amante da terra em que nasceu”.

                               Os Discursos Acadêmicos emolduram a obra com o refinamento intelectual de seus conteúdos. De sua vez, as “Crônicas Reencontradas”, pinceladas com as cores vivas do respeito a piauienses de escol e a notáveis oeirenses  – Possidônio Queiroz, Costa Machado, Balduíno Barbosa – é resultado da inspiração do Autor ao prestar homenagens à memória de pessoas que muito serviram ao Piauí e especialmente a Oeiras.

                               Extremamente engenhoso na arte de versejar, o livro se completa coroado pelos poemas em o que autor explorando sutilmente a natureza, o telúrico, a angústia existencial do homem moderno e recordações pessoais, divaga saudosamente, como neste poema:

NATAL
Alegres noites de dezembro
Demoram-me na lembrança
Que não passa
Natal de outros natais.
Promessas de vida nas luzes da festa,
Reflexos de sonhos nas cores da praça.

                               Parabéns ao amigo oeirense, Dagoberto Carvalho, por mais este presente que dá a Oeiras e ao Piauí. Sob a inspiração do mestre Paulo Nunes, digo que a “Estação Saudade” não é obra para ser lida, apenas, mas para ser degustada.

Oeiras, invicta, 23 de Janeiro de 2015.   

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

A PROPÓSITO DA CRIAÇÃO OAB/PARNAÍBA


A  PROPÓSITO  DA  CRIAÇÃO  OAB/PARNAÍBA

                    O conceituado jornal  NORTE DO PIAUÍ, edição de 30 de janeiro a 5 de fevereiro de 2016, publicou um texto  -  "HONORABILIDADE"  -  com informações sobre a fundação  da Ordem dos Advogados do Brasil - Subseção de Parnaíba..  
                    Como a informação do jornal é incorreta, sinto-me  obrigado a prestar esclarecimentos sobre o assunto, sem o menor interesse em criar polêmica, até porque não tenho mais idade nem vaidade para isso.
                    A história da luta pela criação da OAB/Parnaíba até o referendo pelo  Conselho Federal da OAB compreende dezembro/1979 a agostol984.
                    Nesse período importantes fatos ocorreram, todos eles fundamentais para que se chegasse finalmente à inauguração da  subseção de Parnaíba, em 12.01.1985, única data lembrada pelo citado jornal.
                    Além  de graves omissões quanto a datas, o jornal  pecou ainda por não citar todos os idealizadores e  fundadores  que, conforme documento anexo, subscreveram em 30.12.1979  o requerimento de criação da Subseçãod OAB de  Parnaíba, dirigido ao presidente da OAB/Piauí  e  de  "que se originou o Processo nº 004/80  aprovado  à unanimidade em 17.06.80 e referendado pelo Conselho Federal da OAB em data de 28.08.84", conforme consta da anexa  CERTIDÃO expedida  pela OAB/Parnaíba  e assinada pelo presidente  Marco Antônio Siqueira, em 03.12.1992.
                     Eis, pela ordem das assinaturas, os dezoito (18) advogados que subscreveram o REQUERIMENTO acima mencionado:
     - Alcenor Rodrigues Candeira Filho (OAB-Pi nº  754/72 )
     - Francisco de Assis Costa Bacelar (OAB-Pi nº 635/68)
,    - Israel José Nunes Correia (OAB-i nº1103/9)
     - Marco Antônio de S. Correia (OAB-Pi nº370/79)
     - Lauro Andrade Correia(OAB-Pi  nº 390)
     - Jozely Maciel Broder (OAB-Pi nº905/75)
     -  Antônio Cajubá de  Brito Neto (OAB-Pi nº 1067/78)
     - Francisco  de Assis  Cajubá de Brito (OAB-Pi nº 580/68)
     - ASSINATURA NÃO  IDENTIFICADA  (OAB-Pi nº 784/73)
     - Haydée Lima de Castelo Branco (OAB-Pi nº 1002/77)
     - Maria do Amparo Coelho dos Santos (OAB-Pi  nº 1081/78)
     -Eduardo Ferreira de Oliveira  ( OAB-Pi nº 08/79-B)
     -  Francisco das Chagas  E. e Silva (OAB-Pi nº 868/75)
     - Antono Raposo Mazulo (OAB-Pi nº 25/79-A)
     - Heitor rrie de Susa (OAB-Pi nº 111/41)
     - Yonésia Mendes dos Santos (OAB-Pi nº 944/77)
     - Leônidas Melo Sobrinho (OAB-Pi nº 583/54)
     - Jaime de Oliveira Lopes (OAB-Pi nº  ?)
                        Como a história de qualquer instituição deve se fundamentar em fatos comprovados, junto a este texto os seguintes documentos, todos devidamente assinados,  datados e esclarecedores sobre a criação da OAB-Subseção de Parnaíba:
            - doc nº  01: Requerimento de criação da OAB/Parnaíba, com dezoito (18) assinaturas e data de 30.12.1979.
            - doc. nº 02: Carta de 15.01.1980 subscrita pelo advogado Alcenor Rodrigues Candeira Filho e endereçada ao dr. Reginaldo dos Santos Furtado, Presidente da OAB/Piauí.
            - doc. nº 03: Carta de 18.06.80 subscrita pelo presidente da OAB/Piauí Reginaldo dos Santos Furtado e endereçada ao advogado Alcenor Ridrigues  Candeira Filho.
            - doc. nº 04: OFÍCIO OAB-PI/Nº 02/81, de 05.01.1981, assinado pelo presidente Reginaldo dos Santos Furtado e dirigido ao advogado Alcenor  Rodrigues Candeira Filho.
            - doc. nº 05: CERTIDÃO expedida pela OAB/Parnaíba em 03.12.1992 e assinada pelo presidente Marco Antônio Siqueira, certificando,  dentre outras coisas, haver sido o advogado Alcenor Rodrigues Candeira Filho "um dos que mais lutaram pela instalação desta Subseccional de Parnaíba, subscrevendo em primeiro lugar o requerimento de criação da mesma."

                              Parnaíba, 11 de fevereiro de 2016.

                                        Alcenor Rodrigues Candeira Filho
                                                OAB-PI  Nº 754/72 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

AS BICAS AQUANINDÉ E O VEXAME DO TREMEMBÉ

Canindé, Natim, Elmar e Francié

Canindé, Elmar, Carlos Eduardo, Francié, Carlos Mendes e Natim
11 de fevereiro   Diário Incontínuo

AS BICAS AQUANINDÉ E O VEXAME DO TREMEMBÉ

Elmar Carvalho

Não pretendia voltar a falar no Tremembé neste Diário, uma vez que já pretendia encerrá-lo com uma espécie de posfácio, exceto se algo digno de nota acontecesse. Feliz ou infelizmente, o fato notável aconteceu.

Fomos passar o período momesco em Parnaíba e na Várzea do Simão, zona rural de Buriti dos Lopes. No domingo, com o Parnaíba cheio e, portanto, bastante convidativo a esportes, resolvemos eu, Natim Freitas e Francié darmos um passeio de barco, ainda cedo da manhã. Pretendíamos atingir a localidade Barra do Longá, que fica a aproximadamente catorze quilômetros a montante. A 1.500 metros, mais ou menos, passamos por dois pescadores, que estavam numa canoa movida a motor de rabeta longa. Perguntamos-lhes se já tinham peixes para vender, mas eles disseram não os ter, de modo que prosseguimos em nossa viagem.

Um pouco depois, sem ver e sem para que, o motor estancou. Após várias tentativas, diante da inutilidade de nossos esforços, desistimos de tentar fazê-lo funcionar. O nosso motor de popa não fez jus, portanto, ao nome que lhe dei em homenagem aos intrépidos Tremembés. Ainda bem que nossa viagem foi rio arriba, como diria o poeta Da Costa e Silva, porquanto isso nos permitiu deixar a pequenina embarcação ao sabor da correnteza. Só não ficamos à deriva porque tivemos a precaução de levar dois remos.

Tornamos a passar pelos pescadores. Pouco depois eles, na sua pequena canoa, nos socorreram. Achei uma suprema humilhação o Tremembé ser rebocado por um minúsculo motor de rabeta, e ainda por cima antigo. Demos uma gratificação aos dois canoeiros, que ficaram satisfeitos, e demos a aventura náutica por encerrada. 

Essa ajuda foi providencial, pois a consciência me manda dizer que o nosso preparo físico era insuficiente para vigorosos e demorados exercícios de remos, mais adequados a uma galera romana. Como já assinalei em outra ocasião, fiz a troca do casco inflável por um de alumínio; agora sinto, para minha consternação financeira, que serei forçado a trocar de motor, o que só farei na época das “vacas gordas”. Ou, quiçá, nas calendas gregas.

Fomos passar um tempo na Toca do Velho Monge, que fica perto do “porto” (na verdade apenas uma rampa de chão batido), quando recebemos a notícia de que o Canindé, meu amigo e compadre, viera nos visitar, e se encontrava no Sítio Filomena à nossa espera. De imediato seguimos ao seu encontro. Anunciei-lhe que iria dar como “oficialmente” inauguradas as bicas que levam o seu nome. Fizemos uma espécie de breve solenidade, em que o homenageado discursou. Ele agradeceu a singela homenagem e falou de sua já antiga estima pela Várzea do Simão, cuja beleza bucólica e aquática disse admirar.

Em minha fala, justifiquei a homenagem, ao enaltecer a admiração que ele tinha pela localidade e por seu esforço em tentar conseguir-lhe algum benefício e melhoria. Falei da luta e esforço familiar para construirmos nosso pequeno sítio. Relatei que a Fátima, dez anos antes de podermos construir a casa, plantara as árvores frutíferas e ornamentais, que do alpendre víamos; que inicialmente a bica foi apenas um cano preso a uma estaca rústica. Estiveram presentes, além do homenageado e dos anfitriões: Carlos Mendes, Reginaldo, Carlos Eduardo Coutinho, Francié e Natim Freitas.


Expliquei que o nome Aquanindé fora uma invenção do amigo Zé Francisco Marques, por causa da fissura do Canindé em tomar repetidos, refrescantes e revigorantes banhos, sejam de água doce ou salgada, sejam de piscina ou de bica. Esclareci que “aqua” se referia a água, e “nindé”, evidentemente, era as duas últimas sílabas do nome Canindé. Encerrei minha incipiente oratória lendo os dizeres da placa: “BICAS AQUANINDÉ – Homenagem ao Dr. Francisco de Canindé Correia, amigo do Sítio Filomena e da Várzea do Simão”. E a tarde prosseguiu de forma auspiciosa.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Carta da Suécia e dos leitores


Carta da Suécia e dos leitores

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Crimes de lesa-pátria, corrupção epidêmica e violência assombram brasileiros. Paira no ar a sensação de desânimo, a vontade de buscar outras pátrias. O pior de tudo, porém, é não reagir, permanecer de boca fechada. Ou em italiano, Bocca Chiusa (pronúncia quiusa).

         A crônica POLÍTICOS SUECOS VERSUS POLÍTICOS BRASILEIROS provocou uma série de manifestações de leitores de diversas regiões, inclusive da Suécia. Professora Maurienne, piauiense, casada com cidadão sueco, residindo, há dez anos, naquele país, em longo texto, mostra aspectos da sociedade sueca. Resumi algumas passagens do e-mail de Maurienne, bem como de outros leitores:

         “Fui indagada por meu professor, aqui na Suécia: ‘Fala-se muito de corrupção no Brasil. Você acha que há corrupção aqui na Suécia?’ Respondi-lhe convicta: ‘Claro que sim. Há corrupção na Suécia! Ao que ele reagiu com olhos arregalados e uma suspensão de fôlego: ‘O que você está dizendo? Por que você acha isto?’ E retruquei: ‘O que vocês fazem aqui ainda é elementar, solto, quase pequeno, um monstrinho de estimação. Ao passo que, o que ocorre no Brasil, infelizmente, é orgânico, sistemático, transmissível e vicioso, um monstro gigante engolindo a nação que o alimenta! Triste e desapontada por ter eu mesma dito aquilo pra um sueco”.

         Ademir de Castro Lima escreveu: “Vou embora pra Pasárgada” Não ... Para a Escandinávia. Dinamarca, em pesquisa recente, o país menos corrupto do mundo. O Brasil me envergonha muito”.  Ângelo de Sousa: “Como sempre, algo pertinente e importante para refletir, e cada um fazer sua parte, contudo, o próprio Estado exemplifica que, infelizmente, o crime compensa”. Beto Carvalho: “Faltou leitura deste texto na reunião do conselhão, em Brasília,  realizada ontem. Bastava isto para salvar o tempo perdido ali e se iniciar um plano de sobrevivência para o Brasil”. Maria Dolores Teles: “Você escreveu o que está dentro da sua consciência e com o coração mostrando o descompasso das sociedades que vivenciam situações heterogêneas, dado o tipo de políticos que são eleitos”. Professor e doutor Jota Carlos: “Parabéns, professor, pela excelente crônica. Contrasta com a nossa situação, há primórdios tempos . Sirva de embasamento e lição para nós, brasileiros, sabermos optar por escolher nossos representantes”.  Aurélio Jaques, de Araripina-PE: “Bem lembrado, professor: tapa na cara, mesmo! Tem que haver mudança, a começar pelo voto, acredito”. Gerardo Oliveira exerceu magistratura em Brasília: “Meu filho que reside em Stockholm, há mais de cinco anos, disse que a realidade política dos representantes do povo, naquele país escandinavo, é realmente como informa o nosso cronista.  Faço apenas uma ressalva: ministros e deputados federais recebem do Estado, durante o mandato, apenas o local para morar e não recebem qualquer tipo de subsídios”.  Juiz João Batista Rios: “Tripudiamos a vida dos políticos ... Que temos feito em defesa da moralidade, ética, e "modus vivendi" daqueles que ousam nos representar em qualquer esfera politico-administrativa?”. Cincinato Leite (Mecejana-CE):    “Você está certo: Cidadãos brasileiros precisam extrair lições da Escandinávia  para eleger líderes patrióticos e éticos de qualquer confissão religiosa ou partidária”.


Manifestaram-se, ainda, Marcelf Lopes, Marcelo Aragão, Francisca Machado, jornalista Herbert Fonseca, Professor Cassy Távora (Caucaia-Ce), Antônio Carlos Sampaio, entre dezenas de leitores que curtiram a matéria nas redes sociais.  

domingo, 7 de fevereiro de 2016

(IR)REAL


(IR)REAL

Elmar Carvalho

Eu busco as
mais loucas sinestesias
em minha mente alucinada,
onde as cores aromáticas
se agregam a sons macios,
misturados com aromas térmicos.
A loucura vem do cosmo
em taças de cristal com sangue,
em aortas com água,
na alucinação total
de um homem que
se diz lúcido.
Na noite calma
um cão ladra
na solidão de
luzes irreais de
um cemitério de
cruzes partidas e
de esqueletos quebrados.
(E outro cão
responde em mim.)
De repente, eu levito
e me deixo transportar
em êxtase ao
país dos mortos-vivos
e lá eu vejo todos os mortos
e todos os vivos como simples
mortos-vivos.
Depois, eu me sinto preso
em todos os extremos do Universo
e sinto que conquistei
a liberdade cósmica,
pregado no infinito.

           Pba, 24.11.77   

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

No Brasil delinquentes matam por "maldade"


No Brasil delinquentes matam por "maldade"

Cunha e Silva  Filho

       Leitor que por acaso  me  lê,  saiba  que está  acontecendo em nosso país algo que  há tempos extrapolou  todos  os limites da paciência da sociedade.
        Quero aludir  à sanha de bandidos,  criminosos,  assassinos – faço  questão de  acentuar a minha indignação empregando   pelo menos estes três adjetivos disfêmicos -    que  já estão  matando por mera maldade,  em atos de  tamanha  violência  sem precedentes em nosso  país para vergonha das nações  civilizadas, o que leva o Brasil  a se alinhar  quase solitário entre  as nações  que mais  fazem vítimas fatais, covardemente, inocentes, crianças,  jovens,  adultos   idosos,  enfim,  os desprotegidos (porque só os facínoras no país  têm armas de fogo,  (amiúde até mais do que  policiais) deste país  que ora vivem a tragédia do fracasso  político-financeiro-moral.
       No país das inversões de valores,  no país em que  ainda funcionam normalmente, não obstante tantas imperfeições,  os três poderes,  em que se tem  uma presidente, em que se tem um Código Penal,  um  número grande  de juristas  do mais alto  porte,  bons advogados, causa muita  espécie  que nos  deparemos com  tanta carnificina  aqui, em todos os estados brasileiros,  sobretudo  no eixo Rio-São Paulo. Esse ignominioso  estado de coisas que aterroriza impunemente o cotidiano de   quem  trabalha,  de quem  tem  seu negócio,  de  quem  paga  impostos, juros altíssimos,   de quem sai à rua,  exige  mudanças drásticas  na legislação  penal  brasileira, pela  implantação  com urgência, ainda que por  tempo  limitado,  a prisão perpétua e,  nos casos mais   escabrosos,  a pena de morte. Não me venham  dizer que sou fascista,  porque não o sou. Fascistas são os que  deixar  perpetuar  essa infâmia de sociedade  cercada por ladrões de todos os níveis, sobretudo os white collars, fascistas são os que  mantêm  a impunidade para  milhares de  assassinos  soltos,  andando  livremente nas ruas  do  Brasil e cometendo as piores atrocidades contra o nosso  povo.
     Só para ilustrar vi, num programa de televisão bem  conhecido de quem  gosta  de  acompanhar  a sombria  realidade do crime  no país,   um senhor  de cinquenta e poucos   anos trabalhando no recinto de sua lanchonete. Está sozinho. De repente,  entram três jovens armados, anunciam  um assalto e se mostram  determinados a fazer qualquer coisa  má a fim de  arranjar dinheiro fácil, sendo bem provável que algum deles seja  “de menor.”
     O trio, com dois  claramente  exibindo  revólveres,  entra  na lanchonete  em direção  àquele proprietário (ou gerente responsável). Pela  fisionomia,  usam  palavrões,  ameaçam, dão safanões    na vítima,   pedem  dinheiro,  sempre  com  gestos  de  extrema  violência sem que  o moço  possa  fazer nada. Empurram-no contra a parede, e   um dos   meliantes  dá uma facada que vai  rasgar  verticalmente  do estômago até  o umbigo  do moço. 
     Em nenhum  momento  o moço   revidou qualquer ataque contra  os vagabundos. Naturalmente  exigiram  que o moço lhes mostrasse  onde estava o dinheiro da caixa  registradora. Essa cena  trágica, pavorosa, diabólica  nos causa asco   e imprecações  contra  esses desalmados. É apenas um exemplo  de uma cena que se repete, com  algumas  diferenças  de níveis de selvageria,   na vida  diária do brasileiro. Quando  os degenerados  foram  levados para a delegacia,  riram  na cara do delegado  pelo que tinham  feito na lanchonete. Infames!
    Essa cena já se naturalizou, se  banalizou  e o povo honesto,  trabalhador,  cumpridor de suas obrigações para com  o Estado brasileiro se encontra  numa enrascada. Tem que sair porque necessita de trabalhar ou resolver algum  problema fora de casa. Mas a voz corrente se resume no que, de vez em quando,  afirma desesperançada: “A gente sai, porém não tem certeza de volta incólume para casa. Só Deus pode nos proteger.”
     Ora, leitor, isso é mais do que  suficiente para caracterizar um cenário  preocupante  para a sociedade civil. Ressalto que há tempos venho  defendendo  posições mais rígidas contra a violência  que ataca em todos os flancos, horas e lugares não só no asfalto mas nas favelas  brasileiras conhecidas  pela   balas  perdidas que podem vir tanto da  polícia quanto  da  bandidagem.
    Há quem pense  sejam os programas  que  desmascaram  a crua violência brasileira  sensacionalistas, da   imprensa marrom, que só mostram  violência pura  a fim de  dar  altos índices  de audiência. Não vejo assim e adianto mais que a recusa de pessoas e, sobretudo, das autoridades competentes -  legisladores,  a  própria  presidente da República, a  pessoa do ministro da  justiça, enfim todos os  setores públicos  responsáveis    pela segurança nacional -,  a assistirem  a esses programas  me parece  algo elitista e perigosamente  omissa.
   Assim também a recusa de todas as classes sociais com respeito ao problema da violência só contribui  para   agravar essa questão e afundar-se  na alienação e na indiferença a um tema que diz respeito a todos nós.
   Dois são os caminhos,  a meu ver, para  enfrentar  a violência  sedenta de vítimas  diárias no país: 1) acabar ou  reduzir  a impunidade,  o que vai  mexer com  a legislação penal; 2) reduzir por tempo determinado  a maioridade  penal para, no mínimo, dezesseis  anos. Isto faria com que os “de menor” muitas vezes  rapazes  com altura  de  homens feitos, com várias passagens  na  polícia por  delitos de toda a sorte e de todos os níveis, até mesmo  crimes hediondos. Neste caso, implantar-se-ia, por tempo determinado,  a pena  de prisão perpétua e a pena de morte  para os casos mais  diabólicos de  crueldade, ou seja,   o grupo de bestas-feras.Todavia, os psicopatas  seriam   destinados a prisões  psiquiátricas.  Para esses  casos, sob hipótese alguma,   não haveria  brechas legais  para que  se lhes  abreviassem  a pena a ser cumprida.
   Sei o quanto  são controvertidas e complexas as questões  da redução da maioridade penal, que  implica  uma série  de  componentes sociais,  econômicos e culturais, da mesma sorte que  são altamente  polêmicos  o regime de  prisão  perpétua e a sentença   mais extrema, que é a pena de morte, sendo que esta última envolve, além de outros fatores relevantes,  a questão religiosa  no país  mais católico do mundo. Ma o país é laico.

    Penso que todas as considerações  aqui  levemente  abordadas   têm que ser levadas  em conta de forma urgente, porquanto  a próxima vítima  de criminosos  inveterados   pode ser   qualquer um de nós. Pode ocorrer  com  nossos  filhos,  netos,  parentes, amigos,  com qualquer  classe  social. Fica,  pois, o debate em aberto e que não  seja postergado  por muito tempo. A vida não tem preço, como se diz vulgarmente.    

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O MOSQUITO


O MOSQUITO

Pádua Santos – APAL, Cadeira nº 01

                Há um dito popular sertanejo que reza o seguinte: “Homem que bebe e joga; mulher que erra uma vez; cachorro que come bode; são errados todos três”. Decorei isto quando menino, e,se agora o relembro, é porque ficou na minha lembrança a imagem de um fato trágico – uma triste cena do holocausto que infelizmente era feito, à época, aos infelizes cachorros que aprendiam com as onças a mania de comer bodes.

            Foi na minha fazenda São Pedro da Boa Sorte, mais conhecida por Alto dos Borges, localizada no município de Caxingó, onde presenciei a aplicação desta draconiana e consuetudinária lei. E lembro bem que na hora da execução, como se tratava de uma cadela simpática e querida pelos moradores da localidade, tornou-se difícil a escolha do carrasco. Mas o certo é que ela foi executada, e quem teve a coragem de aceitar friamente o posto de algoz foi um elemento que pouco se sabia do seu nome, posto ser conhecido apenas e simplesmente pela alcunha de “Mosquito”. Vê-se, portanto, que ali naquela margem do Rio Longá, foi o “mosquito”o grande temor dos cachorros delinquentes.

                Mas não se atribua somente aos cachorros tal temeridade. É atualmente de igual modo aterrorizante o famoso mosquito “Aedes Agegyti” - o transmissor da Dengue, da febre “Chikungunya” e do danoso vírus “Zica”- malvado pernilongo voador que desde os anos cinquenta judia com as pessoas e, como se não bastasse, aparece agora com a novidade de fazer com que as crianças venham ao mundo com microcefalia. É ele atualmente a maior preocupação da saúde de vários países, por ser o animal que mais provoca temor às mulheres, principalmente naquelas que se encontram em estado interessante.

                Por outro lado, nem tudo é novidade. Já faz muito tempo que os mosquitos perseguem os homens. O sempre festejado escritor Humberto de Campos, no seu excelente livro de crônicas intitulado Lagartas e Libélulas, dá conta de que em prisca era, mais precisamente no apogeu das grandiosas conquistas romanas, quando triunfava a bravura do regime dos Césares, o glorioso Imperador Tito Flávio Vespasiano Augusto morreu repentinamente por força de um insignificante mosquito que penetrou em suas narinas.


                Desse modo, podemos conjeturar com larga margem de acerto:o aparentemente mesquinho mosquito que vem atualmente, na sua qualidade de vetor biológico, preocupando governos, provocando febres, dores, coceiras, conjuntivites, dengues e microcefalia,pode muito bem ter sido o mesmo minúsculo inseto que no passado remoto foi causador de considerável baixa no incontrastável Império Romano. Eita bicho desalmado! O que tem de pequeno tem de perigoso.  

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

ANIVERSÁRIO DO HOMEM MAIS VELHO DE AMARANTE – 108 ANOS


ANIVERSÁRIO DO HOMEM MAIS VELHO DE AMARANTE – 108 ANOS

Luís Alberto Soares (Bebeto)

       HOJE (02) é o aniversário do homem mais velho de Amarante. Trata-se de JOSÉ PEREIRA DOS SANTOS, mais conhecido por LUIZ BEZERRA, nasceu no dia 02-02- 1908 em Angical do Piauí e há mais de 90 anos residindo em Amarante, onde morou por longos anos nas comunidades Poço D’anta e Bonito há poucos km do Centro. Passou uns três anos com seu filho, Francisco, o popular Tutê, em Brasília (DF). Atualmente morando no bairro Balão (Amarante) ao lado de sua neta, Maria Francisca da Costa e Silva, sua procuradora.

         O Senhor LUIZ BEZERRA ainda se dispõe de muita lucidez e vigor físico impressionante; visão razoável e boa audição. Gosta de passear, da música, assistir televisão, ouvir rádio e de saboreia umas cachaças. Caminha constantemente pela cidade e, às vezes, sozinho para tratar de negócio e, ainda anda de motocicleta como carona. Sua Neta, Maria, diz que nas andanças de seu avô, teme motociclistas irresponsáveis. Quem o conhece sabe, o secular LUÍS BEZERRA trata-se ainda de uma pessoa distinta e comunicativa.

       LUIZ BEZERRA trabalhou longos anos na agricultura, onde se aposentou. Ele conta detalhadamente vários acontecimentos históricos de Amarante e do Brasil. Casou-se com Maria do Nascimento Santos, falecida há longos anos. Do matrimônio, quatro filhos: Neusa, Orlinda, Francisco (Tutê) e Antonio (falecido). Formando vários netos, bisnetos e tetranetos.

                Vale esclarecer que o Senhor LUIZ BEZERRA foi passar uns dias na casa de um de seus irmãos em Presidente Dutra – Maranhão.   

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Mensagem de Fonseca Neto sobre Retrato de meu pai


Na manhã de sábado (30.01.2016), entreguei ao amigo Fonseca Neto, na Academia Piauiense de Letras, o livrinho Retrato de meu pai. Já às cinco da tarde do mesmo dia dele recebi o seguinte e-mail, que desejo compartilhar com os leitores do blog:

"Boa tarde, poeta,

acabo de degustar o retrato do Miguel que vc elaborou, ponto a ponto, com linhas cordiais, qual nervuras que querem ser razão mas sucumbem à emoção. Li tudo de um fôlego, exceto o q disseram os netos... O farei mais tarde.. Bela sua escritura, tão necessária neste tempo ainda mais fugidio que todo tempo. Do pai, da mãe, irmãos, amigos; lugares e lugares dos cotidianos reinventados pela mão literária, nada dócil ao rebuço... "Beatitude"! Que belo emprego desse vocábulo....Valeu poeta, minha elmarina admiração, que já é enorme, não sei como consegue crescer, mas cresce enormemente. Salve Miguel, espadas arcanjas para dobrar 90 esquinas do tempo datado.


Ainda é janeiro, parabéns Miguel; ainda é e será poesia, parabéns atencioso amigo Elmar. Estendo cumprimentos à Fátima, do bom Buriti, q acho tão discreta... Um abraço, Fonseca Neto (ouvindo o tamborilar de um Corso passando aqui por perto rsrsrs)."

Valeu, mestre Fonseca, muito obrigado!

domingo, 31 de janeiro de 2016

Seleta Piauiense - Nogueira Tapety


Quos Ego

Nogueira Tapety (1890 - 1918)

Nunca direi que te amo — esta expressão
É muito fraca para traduzir
Esse mundo infinito de afeição
Que de dentro do meu ser anda a florir ...

O que sinto é quase uma adoração,
Um desejo infinito de fundir
Nossos dois corações num coração
E as nossas almas numa só reunir;

É ânsia de ligar, de amalgamar
As nossas vidas que o destino afasta
E que o próprio destino há de juntar;

Uma afeição consciente e excepcional
Que é humana demais para ser casta
E demais pura para ser carnaval.     

sábado, 30 de janeiro de 2016

Políticos suecos versus políticos brasileiros


Políticos suecos versus políticos brasileiros

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

Imagine viver em um país, onde políticos ganham pouco, andam de ônibus ou bicicleta, ocupam residência oficial de apenas 18 metros quadrados, dormem em poltrona, que serve, também, de cama. Lavam e engomam a roupa em lavanderia coletiva, cozinham a própria comida e são tratados de você. Não se trata de utopia, mas do cotidiano da cultura sueca, vigilante e cobradora. Os raros presos trabalham, estudam e não vivem entre grades. Filho de magnata estuda com os do lixeiro em escolas públicas. Vereadores sem direito a salário e secretária. Nenhuma autoridade, nem mesmo o rei, goza de regalias que cidadãos comuns não recebem.

Suécia e toda a Escandinávia (Noruega, Finlândia, extensivamente, Dinamarca e Islândia) formam o paradoxo da cultura brasileira, acostumada a levar vantagem com dinheiro público, tripudiando cidadãos.

Como explicar tanto desenvolvimento, nações que enfrentaram séculos de guerras e assassinatos, disputas religiosas, geográficas e políticas no passado? A metamorfose começou, praticamente, há algumas décadas, depois da conciliação entre católicos e luteranos. Adotaram paradigmas cristãos de responsabilidade, honestidade, civismo, a partir da escola. Implantaram a social democracia, em vez do capitalismo exacerbado. Severidade na aplicação e administração dos recursos públicos. Punição implacável a corruptos. Pesada tributação, que achata grandes fortunas, mas resulta em excelentes serviços públicos de encantar a concorrência privada.

A Escandinávia, em décadas de educação moral e cívica, desfruta da melhor qualidade de vida do mundo, graças, também, a missionários alemães, especialmente evangélicos, em passado remoto.

Cláudia Wallin, jornalista brasileira radicada na Suécia, registrou conversas com deputados e a população. Em seu livro, UM PAÍS SEM EXCELÊNCIAS E MORDOMIAS, descreve a conduta franciscana dos políticos, que desconhecem tratamento de EXCELÊNCIA, não aumentam o próprio salário e não entram na política para enriquecer. O livro serve de tabefe nas caras de pau que assaltam a nossa dignidade nacional.

Cidadãos precisam extrair lições da Escandinávia  para eleger líderes patrióticos e éticos de qualquer confissão religiosa ou partidária. O ensino obrigatório de moral e civismo deve retornar às salas de aula. Falta muito nos libertarmos do jeitinho brasileiro de levar na malandragem a coisa pública. Por enquanto, só aprendemos a conviver com a  Síndrome de Estocolmo: exaltar e eleger nossos corruptos, com a paixão de bela sequestrada pelo sequestrador.   

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

SONHOS



28 de janeiro   Diário Incontínuo

SONHOS

Elmar Carvalho

Ainda em minha meninice, ouvia minha mãe dizer que os seus sonhos, quase sempre, lembravam coisas que já tinham acontecido, ou se assemelhavam a fatos que iriam acontecer. Os meus, além dos que se referem a outros conteúdos e cenários, também se assemelham a fatos que já presenciei ou que acontecerão em futuro próximo. Advirto, contudo, que não se trata de profecia (minhas pretensões não chegam a tanto), uma vez que os sonhos apenas guardam semelhança, em maior ou menor grau, com esses episódios futuros. Saliento que quase todos os meus sonhos, por mais verossímeis que sejam, apresentam algum aspecto extravagante, surpreendente ou insólito. Aliás, essas nuanças, tipicamente oníricas, foram aproveitadas pelo surrealismo, seja na pintura, seja na literatura.

É sabido que algumas pessoas ganham a vida como reveladores de sonhos. Aliás, há vários livros sobre esse tipo de interpretação. Freud e Jung utilizavam-se dos sonhos de seus pacientes em suas terapias. O primeiro é autor de um livro sobre esse assunto. Apregoam vários profissionais da psicologia e da psiquiatria que muitos sonhos revelam desejos ocultos da pessoa que os sonhou. De minha parte, apesar de ser um leigo, defendo que nem sempre, porquanto alguns podem ser catarse ou “exorcismos” do que não se deseja. Contudo, ao menos em potência, parecem advertir de que poderíamos ser ou fazer o que somos ou fazemos em nossos pesadelos. Um pouco de humildade, pois, não nos fará mal nenhum. Existem ainda os que acreditam que durante os sonhos a alma do sonhador viaja para outros lugares ou outras dimensões.

A interpretação de sonhos, talvez para evitar abusos, pelo menos no tocante a previsões, foi proibida pela Bíblia (Deuteronômio, 18:9-12), sendo esses pretensos profetas nivelados a magos, feiticeiros e necromantes. Todavia, na Bíblia há várias passagens em que Deus ou anjos falavam com os homens através de sonhos, dando-lhes avisos e orientações importantes. O profeta Daniel ganhou prestígio perante o rei babilônico Nabucodonosor, ao lhe revelar enigmático sonho, cheio de predições, e José adquiriu poder junto ao faraó quando lhe interpretou sonhos, de modo a permitir um adequado planejamento governamental durante as adversidades que viriam.

No livro Deus não está morto: evidências científicas da existência divina (ebook), de Amit Goswami, retiro a seguinte citação, da autoria dos biólogos Francis Crick e Graeme Mitchison (1983): “Sonhamos a fim de esquecer.” Mais tarde, em 1986, estes dois autores mitigaram esta afirmação, ao dizerem que “sonhamos para reduzir as fantasias e obsessões”. Por isso eles aduzem que talvez lembrar os sonhos não devesse ser estimulado, uma vez que se trata de “padrões que o organismo estava tentando esquecer”.

Durante algum tempo, quando morei em remota comarca, pensei em escrever um livro baseado em meus sonhos. Acabei desistindo da empreitada por várias razões. Muitas vezes não recordava de nenhum sonho. Outras, a lembrança era muito vaga, e depois eu terminava por esquecer completamente do que havia sonhado. Se eu fosse anotar o sonho, poderia perder o sono, o que não achava conveniente. Por outra parte, muitos eram excessivamente plásticos, visuais, podendo ser bom para um filme, videoclipe ou pintura, mas não para a arte literária, porquanto exigiria demasiada descrição. Entretanto, alguns contos e poemas extraí de sonhos que tive.

Décadas atrás, na petulância bisonha de minha juventude, escrevi o poema Deus, Deuses e o Nada, em que, pretensiosamente tentando provar a existência de Deus, bradei: “Num blefe descomunal / poderia até afirmar / que esta realidade não existe. / Que tudo não passa do sonho / de um deus e que esse / deus sou eu.” No referido livro de Amit Goswami, em que ele pretende provar a existência divina, através da física quântica e de outras evidências, está posto que os místicos concordam em que os sonhos “são criação do ‘pequeno eu’, e a vida em vigília é o sonho do ‘grande sonhador’ – Deus – dentro de nós”.

“Tenho em mim todos os sonhos do mundo”, disse Fernando Pessoa. De certa forma isso corresponderia ao sonho de ser um deus, pois somente Deus poderia ter todos os sonhos do mundo. Também esse imenso poeta disse que o mito é o nada que é tudo. Na verdade o mito é como se fosse o sonho acordado do homem, porquanto é fruto exclusivo de sua imaginação, e muitos desses mitos são deuses imaginários ou fictícios.

Ainda sobre sonho cantou o mesmo poeta: “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.” Deste último verso pessoano podemos depreender que tudo nasce ou se concretiza do desejo, do pensamento ou do sonho, seja de Deus ou do homem. Do grande vate português, na temática de sonhos, vale a pena ler ou reler o extraordinário poema Eros e Psique, no qual o sonhador se converte no sujeito sonhado (ou vice-versa), cujos versos finais transcrevo: “Ergue a mão, e encontra hera, / E vê que ele mesmo era / A Princesa que dormia.”


Em assunto tão controverso e subjetivo, lembro a música Prelúdio, na qual Raul Seixas entoa em refrão: “Sonho que se sonha só / É só um sonho que se sonha só / Mas sonho que se sonha junto é realidade.” Por fim, pergunto: mas será se um sonho que se sonha só é apenas um sonho, ou um sonho será sempre algo mais do que um simples sonho? 

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Passageiro clandestino


Passageiro clandestino

José Pedro Araújo
Romancista, cronista e contista

Três da tarde, tempo quente, inverno findando, descíamos a pé a inclinada ladeira do Alto da Balança no sentido da cidade. Voltávamos para casa depois de matar a sede dos animais retidos na quinta localizada depois do rio Preguiça, obrigação de quase todos os dias. Foi ai que avistamos o carro que acabava de passar o Riachinho e se encaminhava sacolejando ao nosso encontro. Era um daqueles caminhões boiadeiros, com grades bem altas, e sobre elas vários homens que se seguravam como podiam, dificuldade aumentada pelos constantes solavancos que o veículo emitia ao rolar pela pista esburacada. Atrás de si, uma nuvem de poeira vermelha o acompanhava como uma fiel seguidora, evoluindo e se dispersando ao sabor do vento morno. 

Ao passar por nós, em começo da ladeira íngreme, o carro diminuiu a marcha e o motor agitou-se agoniado, fazendo força para superar a forte subida. Em meio à poeira que ia ficando para trás, ouvi uma voz chamando pelo meu nome. Era o Zé Pretinho. Mulato simpático e muito amigo das crianças que residiam nas proximidades da casa em que morávamos na Rua Grande. Encarapitado lá no alto das grades do caminhão, agora em marcha cada vez mais lenta, ele acenava para mim. 

Joguei o cabresto que trazia comigo para o meu companheiro e corri em direção ao carro. Havia acabado de decidir me juntar ao grupo que se segurava como podia nas elevadas grades. Ia fazer um passeio de carro. Atrás de mim o colega começou a gritar pedindo que não fosse em frente.  Nem me dei ao trabalho de justificar o meu ato, precisava aproveitar que o caminhão ainda estava próximo.

Subi sem muitas dificuldades e, logo, me encontrava do lado do Zé Pretinho. Perguntei-lhe para aonde iam. Ele me respondeu que iam apanhar algumas cabeças de gado numa fazenda um pouco distante. Dei de ombros e me acomodei no poleiro; não importava para onde estávamos indo, contanto que voltássemos logo. Além do mais, estava gostando daquela aventura que estava só no começo e que, como veremos logo à frente, me traria muitos dissabores.

A fazenda, diferentemente do que afirmara o Zé Pretinho, não ficava muito próximo. De onde apanhei o caminhão até lá ainda levou uns bons dez minutos para vencermos a distância. Ficava quase nos Poços, região belíssima e de terras muito férteis. Mas, acabou aí a beleza da minha aventura. Dali para frente as situações foram se encadeando no sentido de me trazer dissabores. Para começar, não havia embarcadouro por lá. Foi necessário cavar um buraco no chão para que o caminhão pudesse penetrar nele e o para que o gado a ser embarcado tivesse acesso à carroceria. Isso demorou muito tempo. Pelo nervosismo demonstrado pelo motorista vi que aquele serviço não estaria completado antes da noite chegar. Ai quem ficou nervoso fui eu.

Cava daqui, discute dali, vi que a tal rampa estava demorando demais para ficar pronta, apesar do terreno ainda está um pouco úmido. A ferramenta utilizada para escavar o chão também não era muito apropriada, e por isso demorou tanto para aquilo ficar do jeito que o motorista achava que estava legal. Trabalho enfim concluído, ai começaria outro trabalhão: o gado não se mostrava muito satisfeito com a possibilidade de entrar naquela carroceria, e os homens encarregados de conduzi-los até lá pareciam pouco afeitos à tarefa.

A minha preocupação somente aumentava com o passar das horas e com a possibilidade da chegada da escuridão. Finalmente deram por completada a empreitada e começaram a arrumação para a partida. Já era quase noite quando terminaram de colocar o gado sobre o caminhão. Agora parecia que tudo havia terminado. Era só acionar a chave no contato e colocar o bicho para funcionar. Até ai, tarefa cumprida: o motor pegou que foi uma beleza. Nesse momento, meu coração já começava a aquietar-se, pois, mesmo chegando já noite em casa, não deveria ser muito tarde, e talvez conseguisse me safar bem.

Mas qual! Ninguém havia contado com um problema a mais: a carga embarcada ficou muito pesada, e isto fez com que o caminhão começasse a afundar no terreno ainda um pouco molhado logo que o motorista deu a partida. Patina daqui, afunda dali, logo vimos que daquele jeito não conseguiríamos jamais sair dali. E como sair daquele imbróglio, foi motivo de grande discursão. Cada um queria dar uma ideia mais estapafúrdia. Até que decidiram aliviar a carga. Aliviar a carga significava retirar algumas reses e colocá-la de volta no curral. Aliviar a carga também significava demanda de tempo.

Nesse momento, meus nervos já estavam em pandarecos. Agora a coisa estava complicada. Era certo que não chegaria em casa tão cedo. E como ninguém sabia por onde eu andava, imaginei como deveria estar os meus familiares, e como seria a minha recepção na volta.

Retiraram a metade da carga. Os animais até facilitaram. Tudo, desde que saíssem daquele aperto. E com isso, já era possível fazer-se uma nova tentativa. Dessa vez foi o caminhão que se negou a colaborar. Parecia que a bateria tinha descarregado. Porca miséria! Meu desespero chegou ao ápice.

O motorista desceu do carro irritadíssimo, e começou a lançar impropérios para todos os lados. E não tendo outra coisa a fazer, pois na situação em que o veículo estava, era impossível empurrá-lo, voltou para a boleia e mais uma vez deu com a chave no contato. Alvíssaras! Não é que o estúpido pegou! E meu herói do dia conseguiu fazer com que o bichão saísse do buraco de uma só tentativa. Gritos de alegria, palmas, assobios, era certo que ninguém queria passar a noite por ali. Eu, mais que todos.

Mas, ai alguém se lembrou de perguntar como iriamos embarcar o restante da carga retirada. Para isso não encontraram respostas. E o motorista resolveu demonstrar a sua autoridade: não levaria mais do que a carga que já estava embarcada. Pronto. E assim fez. Todos a bordo, enfim!

Ai um desgraçado olhou para mim quando subia na carroceria e falou que eu não poderia ir com eles. Não tinha nada a fazer ali, nem havia ajudado em nada! Meu desespero foi ao limite. Aquele infeliz estava se arvorando de dono de uma coisa na qual ele não tinha outra relação a não ser a de ajudante. Mas o Zé Pretinho me salvou daquela situação. Disse que eu havia ido com ele e que ninguém me impediria de retornar com ele também. O imbecil ainda tentou argumentar, mas foi contido pelo meu amigo ao preço de uma cara fechada, de poucos amigos. Pronto, subi nas grades e me arrumei para partir.

A noite estava muito escura, daquele tipo no qual é impossível se divisar algo a dois metros de nós. Mas, o motorista ligou os faróis, acelerou e foi encurtando a distância para a minha casa. Ou mais precisamente, aumentado a proximidade do meu ajuste de contas com meus pais.

Dai a poucos instantes chegamos perto da travessia do rio Preguiça. Precisávamos passar por uma ponte de madeira, velha e carcomida pelo tempo. E isso era também motivo para preocupação de alguns dos que ali estavam. No presente caso, como diz a Lei de Murphy, “qualquer coisa que possa correr mal, ocorrerá mal, no pior momento possível”. Não chegamos a subir na ponte. O caminhão atolou logo na sua cabeceira. E atolou até o eixo naquele massapé que não deixa dúvidas para ninguém: dali para frente somente um trator resolveria o caso.

Não era o meu dia! Resolvemos completar o trajeto a pé. E fomos, rompendo aquela escuridão tremenda, do tipo que se diz de “meter o dedo no próprio olho”. Já havíamos andado alguns minutos quando eu ouvi uma voz conhecida perguntando se eu não estaria naquele grupo. A voz era de um tio meu. Haviam, finalmente, lembrado de perguntar ao rapaz que me acompanhava quando fomos dar de beber aos animais, conforme mencionei no início deste texto, o que ele sabia sobre o meu sumiço. E ele falou que eu havia embarcado em um caminhão ainda no Alto da Balança. Aquele tio meu foi destacado para investigar o caso e terminou por descobrir que o transporte tinha ido apanhar um gado na fazenda do Senhor Raimundo Claro. Foi como ele me encontrou.


Vou parar por aqui. O texto já está muito longo e eu não vou matar a curiosidade de ninguém. Sei que tem muita gente querendo saber o resultado dessa história. Como foi dolorosa demais para mim, não vou atender a ninguém. Imagina!