quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

POEMA SOBRE A LOUCURA


POEMA  SOBRE  A  LOUCURA

Alcenor Candeira Filho

pouco tenho ficado louco
às vezes um pouco louco de raiva
outras um pouco louco de amor
nada malucamente anormal.
embora ao longo de vida já quase longa
minha luz tenha sido a da lucidez dos lúcidos
temo a loucura não fictícia
a loucura verdadeiramente louca dos  loucos
a loucura tempestade sem previsão de bonança
a loucura de muito tempo de todo tempo
a loucura que só passa por pouco tempo
quando voz de acalanto vai ao ouvido do louco
em  cama  estendido em decúbito dorsal
- "por ti com muita sede bebo lágrimas de amor
diariamente amor maior de minha vida toda" -
e ele então  mergulha em sombrio sono noturno
todo entupido  de remédio para que adormeça
entre quatro  paredes com lâmpadas apagadas por dentro
e janelas e portas trancadas por fora.


                                     2016

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Lançamento da revista Revestrés


A revista Revestrés chega à edição 23 com grandes temas em discussão: o ativismo feminista nas redes sociais é tema da reportagem que ouviu mulheres diferentes, de diversos lugares do Brasil, unidas pela condição de ser mulher.
  

Na entrevista, o médico Antônio de Noronha, 70 anos, fala com coragem sobre eutanásia, uso de drogas, sexualidade, música e um tema que merece discussão: o suicídio. “Essa história de que não se pode falar sobre suicídio é um mito que existe desde Goethe e ‘Os sofrimentos do jovem Werther”” (livro publicado em 1774, ao qual é atribuído uma onda de suicídios na Europa. O efeito nunca ficou comprovado).
  

A Revestrés foi até Brasília saber a história do piauiense que é considerado um patrimônio da UnB, bebeu cerveja produzida no Piauí, entrevistou Paulo Lins, escritor do livro “Cidade de Deus”, e exibe o ensaio “Existência”, de Maurício Pokemon.
  

Para celebrar a chegada dessa nova edição, a festa de lançamento acontece nesta quarta, 24, no Teatro Torquato Neto, a partir das 19h. Tem coquetel de lançamento e atração musical com a cantora Fátima Lima. O Teatro Torquato Neto fica no espaço do Clube dos Diários, centro de Teresina.

Revista Revestrés
Centro Empresarial Dom João
Rua Veterinário Bugyja Brito, 1229
Sala 207 - Horto / CEP: 64.052-410
Redação: (86) 3011-2420
Luana Sena: (86) 8845-6191
Victória Holanda: (86) 8809-3983

Adriano Leite: (86) 8845-6188

COISAS SÓ DE OEIRAS


COISAS SÓ DE OEIRAS     

(*) Ferrer Freitas

               No prefácio do “Noturno de Oeiras”, de autoria do poeta campomaiorense  Elmar Carvalho,  impresso em opúsculo de 1994, outro bardo, só que oeirense, Gutemberg Rocha,  diz logo  no primeiro parágrafo que “...existe um grande mistério em Oeiras (...) alguma coisa de sobrenatural,  que foge à razão, que fala diretamente à emoção, à sensibilidade...”   Disse tudo em poucas palavras. Queiram ou não (agora digo eu), a velha urbe de Possidônio Queiroz difere em parte de outras tantas por coisas que só lá se vê ou acontecem.  Evidentemente que aqui talvez  vá um pouco de  exagero de minha parte.  Para dirimir qualquer dúvida,  consultei um grande oeirense, Adelino de Sá Rocha, ex-prefeito, que tem uma memória prodigiosa.

                  Pois Bem. Os “Beneditos”, em sua maioria, são tratados por “B.”, acrescido de sobrenome, a exemplo  de  B. Diogo,  B. Reis,  B. Barros, B. Moreira,  B. Filho, todos,  lamentavelmente, já falecidos.  Dois outros, para  alegria dos muitos amigos  que têm, entre os quais me incluo,   merecem ser citados, o caríssimo B. Sá, ex-prefeito, companheiro de bons tempos no Rio de Janeiro nos anos setenta, e o famoso B.  Maroca.   Outra coisa que causa espécie é o fato de  “alguém ser sempre de alguém”,  pai  ou  mãe, a exemplo  de José de Helena, José de Tibúrcio, Pedro de Ernesto,  Geraldo de Leomisa,  Luís de Burane,  Antônio de Gerson, Bastim (Sebastião) de Gerson,  Expedito de Manoel Leite, Ângelo de Natu  (Nataniel), Ângelo de Maria Raimunda, Raimundo de Zefinha, também falecidos.  Apraz-me  citar outros, todos vivos, ainda bem: Antônio de Selemérico, Luís de Ana, Chico de Maria de Cota (Maria, sua mãe, já era de Cota), Antônio de Aderson e por aí vai.

                 No centro histórico, algumas  ruas,  estreitas é bom frisar, além de chamadas por becos, são mais conhecidas pelo nome do morador de uma das esquinas  ou de algo  que as marquem, a exemplo de   Beco de Antônio Gentil,  Beco de  Francisquinho Barbosa, Beco de Ovídia, Beco de Maria Camarço, Beco de Hipólito, Beco do Sérgio, Beco do Cemitério, Beco do Sobrado,  Beco do Mocha,   Beco do Quartel e por aí vai. Este último, que tem seu inicio na Praça das Vitórias,  entre a Pousada do Cônego e a agência dos Correios,  tem esse nome, Beco do Quartel, pelo fato  do  prédio   anterior ao  que hoje  sedia a  ECT  ter sido o quartel da Brigada.  Esta via termina no Passo de Lindoca, esquina da rua Coronel  Luiz Rêgo, amplamente conhecida por rua do Fogo. Nessa direção contrária já é mais conhecido por Beco de dona Iazinha Ferraz, cuja casa é geminada ao Passo.

                Neste último aspecto a velha terra das margens do Mocha tem muito a ver com cidades históricas, sobretudo as de Minas.  Isso de beco lembra muito Diamantina  que inspirou Milton Nascimento e Fernando Brant, em 1969, a comporem  uma canção belíssima  que leva o nome de “Beco do Mota”, cujos três últimos versos da letra dizem: “Diamantina é o Beco do Mota/Minas  é o Beco do Mota/Brasil  é o Beco do Mota/Viva meu país!”. Talvez  seja ainda oportuno  transcrever os versos finais do Noturno, o que faço com prazer: “Oeiras navega na noite/de um tempo que não termina./De um tempo fugitivo de ampulhetas e relógios."


                     (*) Ferrer Freitas é do Instituto Histórico de Oeiras

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

CAMINHEIRO SOLITÁRIO


CAMINHEIRO SOLITÁRIO

Jacob Fortes

Ansioso por transpor um monótono chapadão das gerais, norte de Paracatu, desses retratados pelo contista Afonso Arinos, tomei o alvitre, num minuto indeciso, de parar o veículo à porta de uma desfigurada baiuca, à margem da estrada, para obter do vendeiro informações que pudessem abonar a minha bússola de navegação. O chapadão, conhecido pelo codinome de “Rasgo do Corisco”, parecia expandir-se cada vez que eu imprimia ritmo célere à viagem.

Sem desligar o motor, mal pude entender-me com o quitandeiro, alcunhado de “Gajão”. É que nossa conversa, de súbito, encheu-se de embaraços: um andarilho, esfrangalhado, cara enfarruscada, ali em parada de repouso, entendeu de golfar ao vento, sonoramente, asneiras e sandices. Sua impertinência, digna de impugnação, inspirava indulto. Não valia à pena contender com um homem cujo palavreado desconexo e ininteligível, testificava o escangalho do seu estado mental. Outra atenuante é que esses andejos, sem raízes nos pés, tudo que possuem, além da vida e do prazer de pisar o chão das estradas, é um matolão, às costas, locupleto de burundungas, além, é claro, do hábito de falar sozinho consigo mesmo durante as suas marchas; tão solitárias quanto pachorrentas.

Vai caminheiro! Vai cumprir, resignadamente, o teu destino fatídico, a tua desventurada vida de andarilho: deambular, continuamente, como a um penitente, pelos caminhos; nasceste para a liberdade! À margem das estradas (e da vida), Deus há de apiedar-se de ti.

E quando o meu carro, por motivo de viagem, for instado a polvilhar-te de poeira ou de fuligem te peço desculpas por essa circunstância. Nesse momento a tua figura (esquálida, desamparada, estropiada e envolta em trapos repulsivos) irá engrandecer as bênçãos com que tenho sido distinguido, particularidade que me impõem glorificar a Deus por tudo, tempo em que LHO perguntarei, humildado, se é verdade, ou delírio, tanto lixo social sobre a terra perante os olhos insensíveis da opulência, da ganância, do desperdício.     

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Seleta Piauiense - R. Petit - Raimundo de Araújo Chagas


SAUDADE

R. Petit - Raimundo de Araújo Chagas (1894 – 1969)

Eu vivo como o mar, bebendo os rios,
rios da Dor que crescem, com certeza,
em meu ser, quando o inverno da Tristeza
chega e vence ao cair dos tempos frios.

Eu vivo como os pássaros sombrios,
dos quais a tempestade em luta acesa
roubou dos ninhos frágeis e macios,
isolando-os da própria natureza.

Eu vivo como as águas das cascatas
que a força eterna de um tremendo fado
desfia em prantos no painel das matas.

Eu vivo sem viver, esta é a verdade,
pois não pode viver um torturado
que se alimenta apenas da saudade!...    

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

OS POETAS EDSON MORAIS E JAMERSON LEMOS

Uma das publicações da editora de Edson Guedes de Moraes
Theddy Ribeiro, Garrincha e Jamerson Lemos


18 de fevereiro   Diário Incontínuo

OS POETAS EDSON MORAIS E JAMERSON LEMOS

Elmar Carvalho

Recentemente recebi bilhete eletrônico do poeta Edson Guedes de Morais me solicitando uns sonetos, com vista a uma antologia que ele está organizando. Embora não seja um sonetista, dei uma vasculhada em meu livro Rosa dos Ventos Gerais à procura de alguma composição que pudesse ser enquadrada como tal. Rimados, metrificados e divididos em dois quartetos e dois tercetos, sabia não ter nenhum.

Contudo, para minha surpresa, com uma ou duas pequenas adaptações, encontrei, sem necessidade de folhear o livro todo, sete textos que podem ser considerados sonetos modernos. São eles: Enigma, Egocentrismo, Trabalho de cestaria e renda, O poeta e o inseto, Pintura, Soneto da solidão e Amor. Se o critério do antologista for acolher apenas sonetos de fatura clássica, nenhum dos meus entrará na seleta. Entretanto, se esta for aberta a composições modernas e à matriz inglesa, alguns dos que lhe remeti poderão, talvez, integrá-la, para honra e gáudio meu.

Edson Guedes de Morais é uma espécie de Mecenas. Através de sua gráfica e editora vem publicando poetas de todos os rincões do Brasil. Eu próprio, não sei como, fui “descoberto” por ele, e tive a satisfação de ser por ele editado em três ocasiões, por meio de belos livros artesanais, em papel de ótima qualidade. É um contista e poeta reconhecidamente de alto valor. A antologia de sonetos que está organizando abarcará mil autores. Talvez por causa de sua desvanecedora solicitação, sonhei, na madrugada de ontem, com o saudoso poeta Jamerson Lemos, de quem tive a satisfação de ser amigo.

Jamerson é um importante poeta piauiense. Nasceu em Recife, em 22.12.1945, mas radicou-se no Piauí, onde casou, teve filhos e publicou livros e poemas. Faleceu em Teresina, em 05.08.2008. De 1986 a meados da década seguinte, freqüentamos com assiduidade a União Brasileira de Escritores do Piauí – UBE-PI, da qual fui presidente. Já tive oportunidade de escrever sobre seus versos e sua vida, sobre sua vida e sua morte. No meu sonho eu descobria que ele não havia morrido; que a notícia de seu falecimento fora um equívoco ou um tipo de “pegadinha” de mau-gosto. Quando acordei, ainda no torpor do sono, pensei que o sonho fosse realidade.

Ele era um poeta em tempo real, irreal e integral, pois era poeta em qualquer tempo, destempo e contratempo, e, creio, que até mesmo dormindo ele sonhava com poemas. Tinha incrível facilidade para fazer versos. Em seu lúdico lirismo, malabarista e prestidigitador, brincava com as palavras, seja construindo metáforas e trocadilhos, seja urdindo rimas e ritmos. Embora fosse um artesão rigoroso na forma, era também um mestre no conteúdo de pendor notadamente lírico, em que a musicalidade se entranhava nos temas, sobretudo quando ele mesmo recitava suas composições poéticas.

Este ano será o oitavo após sua morte. A lembrança desse grande vate merece ser reavivada e amplificada. Talvez sua família, sua esposa e seus filhos pudessem envidar esforços para que fosse publicada sua obra poética completa. Em esta não sendo possível, talvez pudesse ser editada uma antologia contemplando alguns de seus textos mais antigos, todos ou quase todos os poemas de Sábado Árido e os que ele deixou inéditos.


Essa obra será de capital importância para que o notável bardo Jamerson Moreira Lemos continue vivo na memória poética piauiense e brasileira, como ele bem merece, pela alta qualidade de seus versos.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Entre o "diário perdido" e a recuperação pela memória




Entre o "diário perdido" e a recuperação pela memória

 Cunha e Silva Filho

              As memórias  são construídas entre o perdido  e relembrado. Ao escrever suas memórias o autor muitas vezes lamenta consigo mesmo porque não havia feito a cronologia dos principais lances de sua  própria  história. Ah, se tivesse  escrito  aqueles lances que tanta significação  teriam no futuro! As memórias, assim, perdem momentos iluminados do ser diante da passagem da vida.  Incidentes que não deveriam ser  apagados mas escritos na velha forma de diários, de um  diário  que  anotasse, ao longo da vida, nomes, paisagens, diálogos, pensamentos, confissões,  divagações sobre as artes, o ser humano, a  existência, aqueles  bons ou maus instantes do pretérito.
            Só na ficção poder-se-ia recapturar todo esse novelo de fatos através da manipulação livre  através do recursos narrativos das anacronias ou  meramente  pela cronologia  tradicional.  As memórias sobrevivem de perdas e de esquecimentos voluntários ou  inconscientes.
            Aquele encontro com a primeira namorada,  com um grande amigo,  com um professor  que nos encantou,  com  as inúmeras conversas com nossos pais. Quantas coisas  perdidas para sempre  que não podem mais  ser socorridas  pela  capacidade  limitada da retentiva! Que  pena! Perderam-se,  desta forma,  talvez os melhores pedaços  de nossas vidas na infância,  na adolescência,  na vida adulta. O que ficou  foi a súmula incompleta de retalhos do passado. Por essa razão, as memórias são apenas  uma parte que nos vem à tona de forma  involuntária ou  porque forçamos a barra  para que  fatos acontecidos,  diálogos, incidentes e acidentes possam vir  ao presente.
       As memórias não são  apenas  relatos  lembrados, mas  reconstruções  do passado  pela linguagem que,  muitas vezes,  as ficcionaliza a fim  de  preencher os gaps, as ausências,  as impossibilidades  amnésicas.
      A essas impossibilidades  de recuperação do  tempo perdido chamaria de "diário  perdido". Todo ser humano  tem em  potencial  esse "diário  perdido". Seria possível escrever-se  um  tipo de  cronologia  dessa natureza? Creio que não. Mesmo porque quando somos tão  crianças  ainda não estamos   preparados  para botar no papel o que nos aconteceu  há cinquenta anos, por exemplo.  Mas, quanto lamentamos  a perda  do tempo  que vivemos, sobretudo os melhores  dias  de nossas   vidas: a infância e a adolescência. Contudo,  é claro que  esse "diário perdido" levaria o narrador quase a uma reprodução  mais abrangente dos fatos  passados. Já imaginaram um romance  que pudesse  ter acesso a esse  "diário perdido"?
       O mesmo se dá com  as fotos  que não tiraram de nós quando pequeninos. Eu mesmo nunca saberei  como  foi a minha  fisionomia  de bebê, com três anos,  com  sete anos, em foto em    que aparecesse  os meus pais  junto de mim . Hoje em dia,  que profusão de fotos possuem  os novos  pais com a facilidade  permitida  pelos celulares,  pela   internet. As crianças de hoje  não terão, na sua maioria,  esse problema  de  lamentar  as imagens perdidas, nunca  gravadas pelas  câmeras dos celulares,  tabletes etc.
      Vivemos a época mais intensa das imagens  de nossos corpos, de paisagens, de  eventos, de closes  e  ainda mais  de  filmagens  de tudo e de todos.   Tudo se grava,  tudo  se fotografa. É o reinado do vídeo. Além de o vídeo   nos mostrar a imagem,  ainda  nos permite ouvir a  voz de todos que nele   aparecem.
      Ora, todas essas novidades virtuais serão úteis aos memorialistas do futuro,  que lidarão cm  novos  instrumentos  de recuperação  de  fatos de sua  história pessoal ou coletiva.  Quem sabe, as memórias do futuro serão apenas em parte  faladas,  em  parte  vistas.
      Mas, o que me traz a este artigo são as memórias à moda antiga, aquelas cultivadas por escritores, me limitando apenas aos nossos, Joaquim Nabuco,  Humberto de Campos, Gilberto Amado,  Graciliano Ramos,  Álvaro Moreira, Érico Veríssimo.
      No Piauí, já contamos com um bom número de livros de memórias ou que se assemelham a estas, ou mesmo  se  incluiriam em memórias ficcionais. Já formaria  assim um corpus de matéria memorialística para pesquisadores. Quem se aventura?
      Só para citar os autores que me chegaram ao conhecimento: Eleazar Moura (Amarante antigo – alguns homens e fatos; Nasi Castro (Amarante – um pouco da  história e da vida da cidade, Amarante – folclore e memória; Cunha e Silva (Copa e cozinha);Homero Castelo Branco (Ecos de Amarante); Celso  Barros Coelho (Tempo de memória); Olemar de Souza Castro (Minhas duas pátrias, Sob o sol  poente); Assis  Fortes (Memórias de mim, histórias dos outros); Francisco Miguel de Moura (O menino quase perdido); William  Palha  Dias (Memorial de um  obstinado); José Ribamar  Garcia (E depois, o trem); Jesualdo  Cavalcanti Barros (Tempo de contar); Elmar Carvalho (Confissões de um juiz);Geraldo Almeida Borges (Província submersa – crônicas Teresinenses (século XX).

     Na impossibilidade deste tão ansiado "diário perdido",  os autores, todavia,   não abdicam  de seu direito de recordar o que de outra forma seria para sempre  sepultado como matéria  rememorativa, perdendo com isso  grandes relatos   de escritores  sobre si e sua época. Sem obras dessa natureza, empobreceria também, no seu  conjunto, a história literária  brasileira.   

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Um exímio contador de histórias

Pastor José Pedro Araújo, pai do cronista

Um exímio contador de histórias

José Pedro Araújo
Romancista, cronista e historiador

Sou de uma geração que muito preza as histórias contadas nas calçadas em noites de lua cheia. Entretanto, sou péssimo depositário de uma grande parte das mais belas que ouvi com tamanho encantamento. A minha memória ainda resiste e não se esquece do prazer que sentia ao ouvi-las, mas deixou que se perdesse o conteúdo delas. Quanto a minha alma, por outro lado, agasalhou com o cuidado de um banqueiro avarento o guião de cada uma delas e não revela nem mesmo para mim.

Assim mesmo, ou por isso mesmo, sou escravo delas. Divirto-me apenas com as lembranças desses momentos como se visitasse um ambiente de locação de um filme, mesmo sem saber o seu roteiro. Sei apenas que o tema era belíssimo e que a história, apesar de bem guardada no meu intimo, não consigo recordar.

Meu pai era diferente. Tinha uma memória fantástica para armazenar informações que ouvia ou fatos que presenciava. Coisa de bom matemático que ele era, que nunca se esquecia das fórmulas necessárias para a resolução dos problemas. Por conta disso, tinha a memória perfeitamente fresca e arejada para armazenar novas informações. Se vivo estivesse, faria agora dia 17 de fevereiro oitenta e nove anos.

E uma vez caída na sua memória, jamais se apagava. Essa capacidade de reter as histórias que ouvira na sua meninice ou que lera em algum folhetim usava também com maestria para nos reter em casa, nas noites escuras do meu Curador. Para evitar que fôssemos brincar com as outras crianças nas vielas de puro breu, ele arrumava os travesseiros da sua cama como encosto e desfiava uma série ininterrupta de belas estórias de Trancoso sem repetir uma única vez qualquer delas. Enquanto isso, deitávamos em torno dele sem perder uma palavra do que dizia, até que adormecíamos um por um. E ele considerava sua missão concluída quando nos colocava nas nossas redes para acordarmos somente no dia seguinte.

Exímio contador de narrativas fantásticas, sua vida também daria um belo compêndio de histórias. Histórias verdadeiras, cheias de atos folhetinescos e hiláricos, gostosamente contadas por ele, e também atestadas por testemunhas de ilibada e incontestável estofo moral.

Acredito mesmo que os poucos leitores das crônicas que escrevo aqui nesse blog, também devem está lembrando algo parecido enquanto passa os olhos por essas singelas linhas. Pais, na acepção da palavra, são todos iguais. Exortam, admoestam, e até mesmo desferem alguns cascudos quando o mau comportamento dos filhos extravasa. Mas termina o dia sempre da mesma forma também: com a filharada em sua volta para ouvi-los contar belas histórias, fictícias ou não.

            Uma dessas histórias que muito me causava admiração aconteceu quando ele, ainda jovem, pouco depois de atingir a maioridade, sentou praça na Policia Militar do Maranhão. Nessa época, o estado passava por uma grave crise politica e institucional em decorrência do descontentamento causado pelo resultado das últimas eleições para governador do estado.

A história: quando foi anunciado como eleito naquele pleito majoritário o empresário Eugênio Barros, incontinente, as Oposições Coligadas reclamaram de fraude nas apurações e conclamaram a população de São Luís a sair às ruas para impedir a continuação do mandato do governador que rapidamente havia sido empossado no cargo maior do Estado. Ao cabo de uma semana a revolta já estava instalada em toda a cidade, culminando com algumas ações de violência explicita que desaguaram na depredação das casas do Desembargador Henrique Costa Fernandes e do Juiz Rui Morais. Estes dois magistrados haviam tido atuação decisiva no resultado do pleito, pelo que consta. Algumas casas de populares também foram queimadas e a culpa pelo acontecido foi jogada para um e outro lado, acirrando ainda mais a disputa que tomava contornos de tragédia.

O palanque das oposições estava armado em plena Praça João Lisboa, a poucos quarteirões do palácio do governo, ao tempo que alguns oposicionistas armados haviam se entrincheirado, a princípio, na igreja da Sé, defronte à sede do governo. A história da revolta encontra-se registrada nos anais da politica maranhense, mas, a que desejo contar foi vivida por meu pai e relata uma passagem engraçada daquele instante em contraponto ao momento de profunda incompreensão que se vivia naqueles tempos de extrema violência.

Instalado no Palácio dos Leões, sede do governo do estado, Eugênio Barros determinou que se fizesse um reforço na guarnição que lhe dava proteção. Temia pela sua própria vida. O comandante buscou no destacamento da capital alguns homens de porte físico avantajado e munidos de reconhecida coragem para enfrentar a população conflagrada que ameaçava invadir o palácio a qualquer instante. Foi nessa ocasião que meu pai foi destacado para servir na guarda palaciana. E mesmo entre esses homens destemidos, havia certo receio de se ficar de sentinela na guarita instalada no portão lateral do palácio, cidadela mais avançada e mais propensa a um ataque. De fato, algumas escaramuças sempre ocorriam principalmente no final da tarde, quando alguns oposicionistas faziam incontáveis disparos de arma de fogo em direção ao palácio, acobertados pela penumbra que começava a cobrir a cidade nessas horas e protegidos pelas espessas portas da catedral.

Certo dia estava meu pai como sentinela mais avançada na famigerada guarita, quando um velho cabo da guarda palaciana se aproximou dele e indagou como estavam as coisas. A pergunta fazia sentido porque estava se aproximando a hora em que se realizavam os costumeiros disparos em direção à sede do governo. O cabo não era reconhecido pelos companheiros de farda como um homem de muita coragem. Além disso, era motivo de chacota em razão de um defeito de nascença que fazia com que seus pés se voltassem para dentro, conhecidos entre nós como tesourinha. Claudicante, o velho militar passou em frente à sentinela e continuou se movendo lenta e receosamente rumo à calçada. Nesse momento, meu pai, a sentinela, esquecendo todas as normas militares que exigem respeito ao superior hierárquico, soltou um grito de alarme: “cuidado, cabo! Os homens vão começar o ataque!”. O pobre homem tentou voltar para a segurança do palácio, mas as pernas lhe faltaram e ele caiu sentado ao chão. E como os membros inferiores não atendessem ao comando do cérebro, voltou engatinhando para dentro. A gargalhada foi geral. Humilhado, o cabo apelou para a sua autoridade e disse que ia denunciar o soldado Araújo aos seus superiores. No que o transgressor lhe respondeu: “denunciar como, Pé-de-porco, se tu não sabes escrever”? O apelido, empregado em razão do seu caminhar bamboleante, deixava o pobre homem ainda mais injuriado. Mas, a verdade sobre o seu analfabetismo o deixava mais propenso ainda à gaiatice dos colegas. E por essa razão, não conseguia formular nenhuma denúncia contra os subordinados que estavam sempre a tirarem brincadeiras com ele. Ao concluir a história, sempre se dizia arrependido de ter assim procedido com uma pessoa que nunca lhe havia feito mal. E que contava aquilo como exemplo de como não se deve proceder com as pessoas portadoras de deficiências que elas não tinham culpa de possuir.

Outra história que gostava de contar teria ocorrido quando ele já se encontrava destacado no novo município de Presidente Dutra. Naqueles tempos, a má fama sobre a violência que imperava na cidade já havia chegado à capital, São Luís. E era tamanha, que fazia com que poucos policiais se aventurassem a servir na cidade, mesmo a despeito de receberem um aditivo ao soldo para prestar serviço na região do Japão, como era conhecida. Animado pelo incremento no salário e estimulado pela notícia de boas oportunidades na região que começava a se desenvolver com certa rapidez, o soldado Araújo veio prestar os seus serviços na longínqua cidade de Presidente Dutra. E, de fato, não encontrou vida fácil no município. Apesar do seu tamanho diminuto, a cidade não parava de produzir novos fatos que serviam para aumentar ainda mais a sua fama de terra violenta. Naquele tempo, a ingerência politica era também um dos principais problemas com o qual a polícia tinha que conviver, talvez mais ainda do que a que se observa hoje em dia.

Certo dia, o soldado foi chamado para atender a uma ocorrência. Certo cidadão havia chegado embriagado em casa e promovera bárbaro espancamento na sua pobre esposa. Não era a primeira vez que isso ocorria e nem a primeira em que a polícia era chamada para impedir a continuação do grave delito. O problema era que o sujeito, useiro e vezeiro em grave atentado à vida da pobre mulher, sempre recebia a proteção do maior líder politico local e em poucas horas já estava na rua novamente. E sabendo-se acobertado pela autoridade que lhe esquentava as costas, o homem já saía desafiando a policia quando era levado preso após desferir mais uma sessão de espancamentos contra a maltratada esposa. Nesse dia, porém, ele não contava com uma mudança na situação que iria influenciar sua vida para sempre.

Destacado para cumprir a missão, Araújo saiu da delegacia prometendo a si mesmo que precisava adotar uma postura diferente em relação àquele caso que já lhe estava enchendo as medidas. Chegando à casa do reincidente espancador de mulheres, o militar encontrou um quadro pavoroso. Com o rosto muito inchado pelas agressões e o resto do corpo todo lanhado em razão de inúmeras chibatadas recebidas, a mulher estava naquele momento sofrendo novas agressões. Com uma chibata em uma das mãos, o marido havia iniciado nova sessão de espancamentos, quando foi impedido pelo soldado que acabava de adentrar ao quarto do casal, alertado pela gritaria que se ouvia do lado de fora da casa. Revoltado com o quadro dantesco que acabava de presenciar, o policial tomou o chicote das mãos do agressor e passou a tratar-lhe da mesma maneira, aplicando-lhe uma série de chicotadas no lombo. Atingido pelas tiras de couro cru, o homem começou a gritar e a espernear, incomodado bastante com o mesmo remédio que costumava aplicar na pobre esposa. Concluída a abordagem, o militar arrastou o homem rua acima no sentido da delegacia de polícia. E como vinha acontecendo nas outras vezes, o salafrário começou a gritar pedindo ajuda ao seu protetor e dizendo-se agredido e humilhado pelo policial. Nesse momento o soldado o repreendia, e por fim, cansado do estardalhaço feito, mandou que ele gritasse mais alto ainda, e mostrasse a sua falta de vergonha para toda a cidade. A situação continuou assim até chegarem à delegacia. A comunidade inteira saia à porta para presenciar a cena que deixava a todos com um sorriso nos lábios, satisfeito com o novo desfecho daquele caso que já estava virando requentado angu de caroço.

Não se sabe se por já está agastado com os problemas causados pelo insano aliado politico ou se por respeito, desta vez, às leis vigentes, o certo é que o homem não recebeu cobertura nenhuma do seu protetor, e permaneceu um bom par de dias preso. Certo mesmo, é que quando a prisão foi relaxada, ele pegou a família e desapareceu. Mudou-se para lugar desconhecido ou ignorado. A história não terminaria ai, entretanto. Anos depois, paisano novamente e desempenhando a nobre profissão de mascate para sustentar a família recentemente formada, meu pai transitava certo dia por uma estrada erma tocando um burro carregado de mercadorias, quando avistou dois sujeitos que vinham ao seu encontro. O da frente, montava um belo cavalo muito bem ajaezado. Vinham em marcha acelerada. Papai julgou reconhecer o homem que encabeçava aquele pequeno cortejo, ocasião em que passou pela sua cabeça toda a história acontecida naquele triste dia, quando teve que se rebelar contra a sua natureza e partir com descontrolada fúria contra o agressor.

Ao se aproximarem, os homens diminuíram a marcha e encararam o outro viajante com muita insistência. Meu pai confessou ter temido pela sua vida. Desarmado como estava, viu o homem à sua frente parar de um tranco só, forçando-o a adotar igual procedimento. E por baixo da camisa que ele mantinha aberta até quase a altura do umbigo, avistou o cabo branco de um volumoso revólver. Era chegada a hora do acerto de contas, pensou meu pai.

“Soldado Araújo”? – indagou o viajante com voz forte e autoritária. “Ex-soldado Araújo” – respondeu meu pai no mesmo tom – “Com quem tenho a honra de falar?” - tentou também ganhar tempo enquanto pensava em alguma saída. Nesse instante o homem estendeu a mão para cumprimentá-lo e perguntou se ele não estava reconhecendo o sujeito que havia dado tanto trabalho para a polícia lá no Curador. Meu pai disse que lembrava sim, mas que aquilo era coisa do passado. O homem sorriu como se tivesse entendido o receio que provocava naquele instante. E soltando uma gargalhada disse que meu pai estava agora apertando a mão de um homem verdadeiro. E agradecia pela surra que havia tomado naquele tempo, fato que o fez mudar de cidade, e de vida também. Ele agora era um verdadeiro pai de família e agradecia isso à lição recebida naquele dia. Pôs-se ainda à disposição afirmando que sua casa estaria sempre de portas abertas para receber os amigos. Falou ainda que a mudança de vida havia permitido que ele conseguisse amealhar um considerável patrimônio também.

Quando ouvi esta história à primeira vez, indaguei do papai se ele não havia ficado com medo daquele encontro. Sorrindo gostosamente ele me respondeu: “Medo que só passou quando a poeira levantada pelas montarias daqueles dois homens se dissipou na estrada”.


Estas foram apenas duas das histórias vividas pelo meu pai, um piauiense que viveu a vida intensamente e que escreveu a maior parte dela em terras do velho Curador.  

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Café Literário homenageia Patativa do Assaré e Pedro Costa


BARRABÁS! BARRABÁS! BAR...RA...BÁS!


BARRABÁS! BARRABÁS! BAR...RA...BÁS!

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Jovens, adultos, católicos, evangélicos e demais confissões vêm substituindo a folia carnavalesca pelos retiros espirituais. Geralmente, concentram-se em sítios, debaixo de árvores, para louvar o Senhor com músicas, entusiasmo, orações, palestras, lazer, comida frugal, confraternização. Quem já participou uma vez quer repetir a experiência, ano seguinte. Quase sempre, os grupos se reencontram, em outras oportunidades. Convidaram-me para ministrar palestra, nesta quaresma, sobre a figura bíblica de Barrabás. O tema cai bem na atual crise moral de corrupção e violência.

         Barrabás, assassino, baderneiro, assaltante, conforme relato dos evangelistas Lucas (capítulo 23) e Marcos (capítulo 15). Ou de Pedro em Atos dos Apóstolos (capítulo 3). Barrabás integrava a facção dos zelotes, que hostilizava o poder romano, em Israel. Preso, condenado à morte, aguardava o dia da execução na cruz.

Naqueles dias, Jesus Cristo dirigiu-se a Jerusalém para festa de Páscoa. Multidão de romeiros também pegavam estrada. Aproximando-se da cidade santa, Jesus entra na casa de Lázaro, falecido há quatro dias. Acompanhado de familiares do morto, dirigiu-se à sepultura de Lázaro e o ressuscitou. Romeiros que assistiram ao estupendo milagre divulgaram a notícia em Jerusalém. Multidões entusiasmadas foram ao encontro de Jesus. Montaram-no em jumento, aclamaram-no rei, espalhando vestes e galhos de oliveira à sua passagem. O delírio coletivo acendeu a cólera das autoridades, especialmente da classe sacerdotal e dos fariseus, que exploravam a população com altos dízimos, ofertas e corrupção. Iniciava-se processo para prender o Mestre e entregá-lo às autoridades romanas.

A multidão, inflamada pela retórica distorcida e populista dos líderes, vociferava, exigindo do governador Pilatos a condenação do Mestre, e liberdade para o bandido Barrabás. Covarde e conivente com a classe iníqua de magistrados e fariseus, Pilatos foi, mais tarde, deposto do cargo, levado para Roma, condenado à masmorra, em Viena.

A História está repleta de contrastes, quando a população, seduzida pela retórica dos discursos inflamados, substitui o senso crítico pela submissão ideológica. Hítler, cabo raso na Primeira Guerra Mundial, oratória inflamada, chegou ao poder ditatorial, atacando a causa da desgraça social e econômica da Alemanha, os judeus. Mussoline inaugurou o fascismo na Itália, movimento político e filosófico ou regime, que faz prevalecer os conceitos de nação e raça sobre os valores individuais e que é representado por um governo autocrático, centralizado na figura de um ditador: Stálin, da Rússia; Franco, na Espanha; Salazar, em Portugal; Getúlio Vargas, no Brasil; Peron, na Argentina; Mao Tsé Tung, China. Além das republiquetas, Coreia do Norte, Cuba, Venezuela, entre outras. O princípio se estabelece na demagogia, no ataque feroz ao capitalismo, na distribuição de pão e circo para engabelar a população e extorqui-la no voto, porém acumulando, disfarsadamente, fortunas, quebrando o Estado. A população, coitada, paga caro por substituir o trigo pelo joio. A virtude pelo vício. A dignidade pela corrupção da consciência. O sagrado pelo profano.      

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Em Defesa do Rio Parnaíba


Seleta Piauiense - Lucídio Freitas


Perscrutadoramente

Lucídio Freitas (1894 - 1921)

Perscrutadoramente os olhos ponho
No que fui, no que sou, no que hei de ser,
E alucinado dentro do meu sonho
Sinto a inutilidade do nascer.

Minha origem componho e recomponho,
Venho do berço ao túmulo... viver
Um instante só, e após, ermo e tristonho,
Sob o ventre da terra apodrecer.

Homem — parcela humilde, humilde e obscura,
Que anda perdida e desapercebida
Buscando os vermes de uma sepultura —

O que foste? o que és? para onde vais?
Esta angústia maldita da tua vida
Foi a maldita angústia dos teus Pais!    

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Lançamento de "Estação Saudade" em Oeiras

Fonte da foto: Mural da Vila


LANÇAMENTO DO LIVRO: “ESTAÇÃO SAUDADE” DE DAGOBERTO CARVALHO EM OEIRAS

Moises Reis

                                Da certeza de que outro de reconhecido calibre intelectual deveria estar aqui para a apresentação desta obra literária, ESTAÇÃO SAUDADE - não tenho a mínima dúvida. Afinal, cada qual no seu canto. Quem é mais capaz de entender a alma deste amigo escritor, historiador  e poeta, Dagoberto Carvalho, que não guarda para si os seus tesouros e os reparte com os outros, que não aquel’outro da mesma estirpe, que se distingue do cidadão comum pela imaginação inspirada, pela profundidade intelectual e pelo devaneio?

                               Caros amigos! Este é um momento de vívida e intensa emoção, próprio para ser conduzido, sobretudo, por alguém que, como dizia Cervantes, faz da pena a língua da alma: o escritor, o poeta. Sim, são eles os únicos capazes de interpretar, com fidelidade, a alegria e o prazer de outro escritor e poeta. Estes últimos, os poetas, são profundos filósofos e somente eles são dimensionados para sentir as emanações prazerosas do esforço poético do outro.

                               Como veremos, “Estação Saudade”, um misto de artigos, crônicas, discursos acadêmicos, atinge a sublimação com as poesias ali colacionadas, que o autor chama de “Canto da lembrança da Província”. Valerá a pena seguir o voo das ideias, para, certamente, ouvir a melodia interior das palavras e sentimentos expressados do âmago do coração do autor. Ao final o leitor haverá de concluir que “Estação Saudade” nada mais é do que a revelação de um estado de existência, desnudando segredos, denunciando acendrado amor telúrico e confirmando a preocupação do autor com a proteção da memória de sua terra, do seu povo. 

                               De indiscutível razão a assertiva do grande vate francês, Vitor Hugo: “os poetas possuem em si um condensador, a emoção. Daí os grandes feixes luminosos que saem de seu cérebro e que vão brilhar para sempre sobre a tenebrosa muralha humana”.

                               Sem os dotes apropriados, e sem talento para tanto,  reconheço a ousadia de aceitar o encargo de apresentar esta  obra literária produzida por este oeirense, cujo telurismo é o distintivo maior de sua personalidade.

                               Moveu-me, no entanto, para investir-me na missão delegada pelo autor de “Estação Saudade” um sentimento maior e único, qual seja o de que é possível adquirir a condição de escritor e poeta, na medida em que sejamos idealistas e sonhadores.

                               E foi exatamente com esta sensação e compenetrado de um só ideal, o de servir sempre que possa às boas causas, que resolvi estar aqui nesta Terra tão querida de todos nós.

                               De fato. Não escondo desta distinta platéia que também o fato de poder estar em Oeiras, foi outro motivo encorajador de exercer, nesta noite engalanada em que se respira ar de profundo civismo pelo dia de amanhã, 24 de Janeiro, o papel de analista da alma do Autor que, tal qual rouxinol solitário, com grande sensibilidade e poético saudosismo, canta sua terra e seu povo defendendo a preservação da cultura local.

                               Senhoras e Senhores,

                               Mesmo abrigando tanto seres humanos, marcados pela volúpia do querer mais, do ter mais o mundo continuará reservando um lugar especial para os escritores e poetas. É que a necessidade de usar da pena para exprimir sentimentos, de escrever para posteridade; a necessidade do recolhimento, do voltar-se para si mesmo, de abrigar-se na sua interioridade é mais forte no homem do que a busca do ter e do poder. É assim o Autor.

                               É vital para o cidadão separar o mundo exterior, onde se sobressai o indivíduo, do mundo interior, onde reina o fluxo espontâneo de poderosos sentimentos. É a sensibilidade interior, de quem não guarda para si os seus tesouros que dá vida e alma ao ofício de quem, como o Autor, escreve para o mundo.

                               Com razão e perfeitamente justificada a presença distinta dos poetas neste mundo globalizado, marcado, cada vez mais, pela violência, e pela simples busca do poder pelo poder. É que a vida não se limita a isto. É preciso também sonhar. O homem há que, de quando em vez, sair por aí a contar estrelas, revivendo tempos passados, como fazem os poetas. Como fez Dagoberto nesta obra.

                               Não é sem razão que devemos nos apressar em agradecer ao Dagoberto por mais esta contribuição em favor da cultura piauiense e especialmente pelas manifestações e defesa dos valores culturais de nossa cidade, “vivendo o presente, não de costas para o passado – mas tendo-o como inspiração para novas conquistas e de frente para o futuro”, com está dito por ele em documento registrado neste livro, apresentado no 8º Festival de Cultura de Oeiras.

                               Cantemos em uníssono, nesta noite, cantando em sincero canto, uma ode à criação do escritor\historiador e também poeta que não fez da poesia um caminho para a eloqüência e a retórica. É verdade! Os poemas do Conde de Oeiras, no dizer de Nilo Pereira, são de evocação e saudade. Sejamos percucientes na leitura e descobrir-se-á cântico de saudades; de esperança; de anseios vagos, desejos inexprimíveis, como nestes versos pinçados do poema:

“ INSONIA”
“Madrugada insone de lembranças e desejos;
Acorda a noite secular da Praça;
O Riacho, a ponte;
Os fantasmas do “Sobrado”.
Procissão do tempo,
Flores do “Passo” e de saudade”

                               “Estação Saudade” é mais uma das inúmeras contribuições literárias do historiador em homenagem aos cem anos da Academia Piauiense de Letras. A rigor, a obra não precisaria de apresentação. Discípulo do grande mestre português, Eça de Queiroz, tanto tem sido marcante sua presença no mundo da intelectualidade, que seus livros são recebidos com a certeza de conteúdo rico de boa prosa, daquela que eleva o espírito e inspira sentimentos nobres.

                               Bem disse outro poeta da Academia Piauiense de Letras, autor do célebre poema “Noturno de Oeiras”, Elmar Carvalho, ao referir-se à obra: “As crônicas e os poemas são entranhados de suave saudosismo telúrico e lirismo. Ele é um mestre da prosa bem trabalhada, e nos faz lembrar os mestres do classicismo português, porém, como não poderia deixar de ser, temperada de contemporâneas “especiarias”.

                               Senhores! Os livros são os abençoados clorofórmios do espírito, especialmente quando são feitos com alegria e  prazer. E as obras escritas com prazer, são quase sempre as melhores, assim como os filhos do amor são os mais belos.

                               Todos já nos acostumamos à leitura dos livros de Dagoberto. São obras literárias merecedoras de indiscutíveis encômios. Sua preocupação, como de outras vezes, com a cidade mafrensina, desejoso de assegurar aos pósteros em registro de suave pena, a verdade histórica da Primeira Capital do Piauí, mais uma vez se repete neste livro. Dagoberto tomou boa nota da lição de Eça de Queiroz, segundo a qual “só um livro é capaz de fazer a eternidade de um povo” E este “chão glorioso, encravado em sertão bruto, onde jazem heróis verdadeiros, no dizer de Arimatea Tito, necessita ter sua história resguardada. 

                               Consciente dessa verdade é um obstinado por contribuir, através de seu lirismo, de suas emoções, para que fiquem nos anais da história, os feitos e passagens da “capital perene das tradições do Piauí”.

                               John Ruskin, britânico, crítico de arte, poeta e desenhista,  realçava a verdade de que “Os livros dividem-se em duas classes: livro do momento e o livro de todo momento. Aqueles podem ser lidos ora na sala ora na cozinha; já os livros de todo momento, como verdadeira prova de seu valor, são lidos tanto na sala quanto na cozinha”.

                               Não titubeio em afirmar, categórico, que esta obra certamente merecerá de todos nós que a leiamos pela casa inteira, porque se trata de um bom livro, mais um legado precioso que Dagoberto deixará para a posteridade.

                               Na primeira parte da obra estão os artigos e ensaios, em que o historiador explora temas diversos, com o seu já conhecido estilo, próprio, perfeito, definido e sempre denunciador do sentimento de “filho extremado e amante da terra em que nasceu”.

                               Os Discursos Acadêmicos emolduram a obra com o refinamento intelectual de seus conteúdos. De sua vez, as “Crônicas Reencontradas”, pinceladas com as cores vivas do respeito a piauienses de escol e a notáveis oeirenses  – Possidônio Queiroz, Costa Machado, Balduíno Barbosa – é resultado da inspiração do Autor ao prestar homenagens à memória de pessoas que muito serviram ao Piauí e especialmente a Oeiras.

                               Extremamente engenhoso na arte de versejar, o livro se completa coroado pelos poemas em o que autor explorando sutilmente a natureza, o telúrico, a angústia existencial do homem moderno e recordações pessoais, divaga saudosamente, como neste poema:

NATAL
Alegres noites de dezembro
Demoram-me na lembrança
Que não passa
Natal de outros natais.
Promessas de vida nas luzes da festa,
Reflexos de sonhos nas cores da praça.

                               Parabéns ao amigo oeirense, Dagoberto Carvalho, por mais este presente que dá a Oeiras e ao Piauí. Sob a inspiração do mestre Paulo Nunes, digo que a “Estação Saudade” não é obra para ser lida, apenas, mas para ser degustada.

Oeiras, invicta, 23 de Janeiro de 2015.   

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

A PROPÓSITO DA CRIAÇÃO OAB/PARNAÍBA


A  PROPÓSITO  DA  CRIAÇÃO  OAB/PARNAÍBA

                    O conceituado jornal  NORTE DO PIAUÍ, edição de 30 de janeiro a 5 de fevereiro de 2016, publicou um texto  -  "HONORABILIDADE"  -  com informações sobre a fundação  da Ordem dos Advogados do Brasil - Subseção de Parnaíba..  
                    Como a informação do jornal é incorreta, sinto-me  obrigado a prestar esclarecimentos sobre o assunto, sem o menor interesse em criar polêmica, até porque não tenho mais idade nem vaidade para isso.
                    A história da luta pela criação da OAB/Parnaíba até o referendo pelo  Conselho Federal da OAB compreende dezembro/1979 a agostol984.
                    Nesse período importantes fatos ocorreram, todos eles fundamentais para que se chegasse finalmente à inauguração da  subseção de Parnaíba, em 12.01.1985, única data lembrada pelo citado jornal.
                    Além  de graves omissões quanto a datas, o jornal  pecou ainda por não citar todos os idealizadores e  fundadores  que, conforme documento anexo, subscreveram em 30.12.1979  o requerimento de criação da Subseçãod OAB de  Parnaíba, dirigido ao presidente da OAB/Piauí  e  de  "que se originou o Processo nº 004/80  aprovado  à unanimidade em 17.06.80 e referendado pelo Conselho Federal da OAB em data de 28.08.84", conforme consta da anexa  CERTIDÃO expedida  pela OAB/Parnaíba  e assinada pelo presidente  Marco Antônio Siqueira, em 03.12.1992.
                     Eis, pela ordem das assinaturas, os dezoito (18) advogados que subscreveram o REQUERIMENTO acima mencionado:
     - Alcenor Rodrigues Candeira Filho (OAB-Pi nº  754/72 )
     - Francisco de Assis Costa Bacelar (OAB-Pi nº 635/68)
,    - Israel José Nunes Correia (OAB-i nº1103/9)
     - Marco Antônio de S. Correia (OAB-Pi nº370/79)
     - Lauro Andrade Correia(OAB-Pi  nº 390)
     - Jozely Maciel Broder (OAB-Pi nº905/75)
     -  Antônio Cajubá de  Brito Neto (OAB-Pi nº 1067/78)
     - Francisco  de Assis  Cajubá de Brito (OAB-Pi nº 580/68)
     - ASSINATURA NÃO  IDENTIFICADA  (OAB-Pi nº 784/73)
     - Haydée Lima de Castelo Branco (OAB-Pi nº 1002/77)
     - Maria do Amparo Coelho dos Santos (OAB-Pi  nº 1081/78)
     -Eduardo Ferreira de Oliveira  ( OAB-Pi nº 08/79-B)
     -  Francisco das Chagas  E. e Silva (OAB-Pi nº 868/75)
     - Antono Raposo Mazulo (OAB-Pi nº 25/79-A)
     - Heitor rrie de Susa (OAB-Pi nº 111/41)
     - Yonésia Mendes dos Santos (OAB-Pi nº 944/77)
     - Leônidas Melo Sobrinho (OAB-Pi nº 583/54)
     - Jaime de Oliveira Lopes (OAB-Pi nº  ?)
                        Como a história de qualquer instituição deve se fundamentar em fatos comprovados, junto a este texto os seguintes documentos, todos devidamente assinados,  datados e esclarecedores sobre a criação da OAB-Subseção de Parnaíba:
            - doc nº  01: Requerimento de criação da OAB/Parnaíba, com dezoito (18) assinaturas e data de 30.12.1979.
            - doc. nº 02: Carta de 15.01.1980 subscrita pelo advogado Alcenor Rodrigues Candeira Filho e endereçada ao dr. Reginaldo dos Santos Furtado, Presidente da OAB/Piauí.
            - doc. nº 03: Carta de 18.06.80 subscrita pelo presidente da OAB/Piauí Reginaldo dos Santos Furtado e endereçada ao advogado Alcenor Ridrigues  Candeira Filho.
            - doc. nº 04: OFÍCIO OAB-PI/Nº 02/81, de 05.01.1981, assinado pelo presidente Reginaldo dos Santos Furtado e dirigido ao advogado Alcenor  Rodrigues Candeira Filho.
            - doc. nº 05: CERTIDÃO expedida pela OAB/Parnaíba em 03.12.1992 e assinada pelo presidente Marco Antônio Siqueira, certificando,  dentre outras coisas, haver sido o advogado Alcenor Rodrigues Candeira Filho "um dos que mais lutaram pela instalação desta Subseccional de Parnaíba, subscrevendo em primeiro lugar o requerimento de criação da mesma."

                              Parnaíba, 11 de fevereiro de 2016.

                                        Alcenor Rodrigues Candeira Filho
                                                OAB-PI  Nº 754/72 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

AS BICAS AQUANINDÉ E O VEXAME DO TREMEMBÉ

Canindé, Natim, Elmar e Francié

Canindé, Elmar, Carlos Eduardo, Francié, Carlos Mendes e Natim
11 de fevereiro   Diário Incontínuo

AS BICAS AQUANINDÉ E O VEXAME DO TREMEMBÉ

Elmar Carvalho

Não pretendia voltar a falar no Tremembé neste Diário, uma vez que já pretendia encerrá-lo com uma espécie de posfácio, exceto se algo digno de nota acontecesse. Feliz ou infelizmente, o fato notável aconteceu.

Fomos passar o período momesco em Parnaíba e na Várzea do Simão, zona rural de Buriti dos Lopes. No domingo, com o Parnaíba cheio e, portanto, bastante convidativo a esportes, resolvemos eu, Natim Freitas e Francié darmos um passeio de barco, ainda cedo da manhã. Pretendíamos atingir a localidade Barra do Longá, que fica a aproximadamente catorze quilômetros a montante. A 1.500 metros, mais ou menos, passamos por dois pescadores, que estavam numa canoa movida a motor de rabeta longa. Perguntamos-lhes se já tinham peixes para vender, mas eles disseram não os ter, de modo que prosseguimos em nossa viagem.

Um pouco depois, sem ver e sem para que, o motor estancou. Após várias tentativas, diante da inutilidade de nossos esforços, desistimos de tentar fazê-lo funcionar. O nosso motor de popa não fez jus, portanto, ao nome que lhe dei em homenagem aos intrépidos Tremembés. Ainda bem que nossa viagem foi rio arriba, como diria o poeta Da Costa e Silva, porquanto isso nos permitiu deixar a pequenina embarcação ao sabor da correnteza. Só não ficamos à deriva porque tivemos a precaução de levar dois remos.

Tornamos a passar pelos pescadores. Pouco depois eles, na sua pequena canoa, nos socorreram. Achei uma suprema humilhação o Tremembé ser rebocado por um minúsculo motor de rabeta, e ainda por cima antigo. Demos uma gratificação aos dois canoeiros, que ficaram satisfeitos, e demos a aventura náutica por encerrada. 

Essa ajuda foi providencial, pois a consciência me manda dizer que o nosso preparo físico era insuficiente para vigorosos e demorados exercícios de remos, mais adequados a uma galera romana. Como já assinalei em outra ocasião, fiz a troca do casco inflável por um de alumínio; agora sinto, para minha consternação financeira, que serei forçado a trocar de motor, o que só farei na época das “vacas gordas”. Ou, quiçá, nas calendas gregas.

Fomos passar um tempo na Toca do Velho Monge, que fica perto do “porto” (na verdade apenas uma rampa de chão batido), quando recebemos a notícia de que o Canindé, meu amigo e compadre, viera nos visitar, e se encontrava no Sítio Filomena à nossa espera. De imediato seguimos ao seu encontro. Anunciei-lhe que iria dar como “oficialmente” inauguradas as bicas que levam o seu nome. Fizemos uma espécie de breve solenidade, em que o homenageado discursou. Ele agradeceu a singela homenagem e falou de sua já antiga estima pela Várzea do Simão, cuja beleza bucólica e aquática disse admirar.

Em minha fala, justifiquei a homenagem, ao enaltecer a admiração que ele tinha pela localidade e por seu esforço em tentar conseguir-lhe algum benefício e melhoria. Falei da luta e esforço familiar para construirmos nosso pequeno sítio. Relatei que a Fátima, dez anos antes de podermos construir a casa, plantara as árvores frutíferas e ornamentais, que do alpendre víamos; que inicialmente a bica foi apenas um cano preso a uma estaca rústica. Estiveram presentes, além do homenageado e dos anfitriões: Carlos Mendes, Reginaldo, Carlos Eduardo Coutinho, Francié e Natim Freitas.


Expliquei que o nome Aquanindé fora uma invenção do amigo Zé Francisco Marques, por causa da fissura do Canindé em tomar repetidos, refrescantes e revigorantes banhos, sejam de água doce ou salgada, sejam de piscina ou de bica. Esclareci que “aqua” se referia a água, e “nindé”, evidentemente, era as duas últimas sílabas do nome Canindé. Encerrei minha incipiente oratória lendo os dizeres da placa: “BICAS AQUANINDÉ – Homenagem ao Dr. Francisco de Canindé Correia, amigo do Sítio Filomena e da Várzea do Simão”. E a tarde prosseguiu de forma auspiciosa.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Carta da Suécia e dos leitores


Carta da Suécia e dos leitores

José Maria Vasconcelos
Cronista, josemaria001@hotmail.com

          Crimes de lesa-pátria, corrupção epidêmica e violência assombram brasileiros. Paira no ar a sensação de desânimo, a vontade de buscar outras pátrias. O pior de tudo, porém, é não reagir, permanecer de boca fechada. Ou em italiano, Bocca Chiusa (pronúncia quiusa).

         A crônica POLÍTICOS SUECOS VERSUS POLÍTICOS BRASILEIROS provocou uma série de manifestações de leitores de diversas regiões, inclusive da Suécia. Professora Maurienne, piauiense, casada com cidadão sueco, residindo, há dez anos, naquele país, em longo texto, mostra aspectos da sociedade sueca. Resumi algumas passagens do e-mail de Maurienne, bem como de outros leitores:

         “Fui indagada por meu professor, aqui na Suécia: ‘Fala-se muito de corrupção no Brasil. Você acha que há corrupção aqui na Suécia?’ Respondi-lhe convicta: ‘Claro que sim. Há corrupção na Suécia! Ao que ele reagiu com olhos arregalados e uma suspensão de fôlego: ‘O que você está dizendo? Por que você acha isto?’ E retruquei: ‘O que vocês fazem aqui ainda é elementar, solto, quase pequeno, um monstrinho de estimação. Ao passo que, o que ocorre no Brasil, infelizmente, é orgânico, sistemático, transmissível e vicioso, um monstro gigante engolindo a nação que o alimenta! Triste e desapontada por ter eu mesma dito aquilo pra um sueco”.

         Ademir de Castro Lima escreveu: “Vou embora pra Pasárgada” Não ... Para a Escandinávia. Dinamarca, em pesquisa recente, o país menos corrupto do mundo. O Brasil me envergonha muito”.  Ângelo de Sousa: “Como sempre, algo pertinente e importante para refletir, e cada um fazer sua parte, contudo, o próprio Estado exemplifica que, infelizmente, o crime compensa”. Beto Carvalho: “Faltou leitura deste texto na reunião do conselhão, em Brasília,  realizada ontem. Bastava isto para salvar o tempo perdido ali e se iniciar um plano de sobrevivência para o Brasil”. Maria Dolores Teles: “Você escreveu o que está dentro da sua consciência e com o coração mostrando o descompasso das sociedades que vivenciam situações heterogêneas, dado o tipo de políticos que são eleitos”. Professor e doutor Jota Carlos: “Parabéns, professor, pela excelente crônica. Contrasta com a nossa situação, há primórdios tempos . Sirva de embasamento e lição para nós, brasileiros, sabermos optar por escolher nossos representantes”.  Aurélio Jaques, de Araripina-PE: “Bem lembrado, professor: tapa na cara, mesmo! Tem que haver mudança, a começar pelo voto, acredito”. Gerardo Oliveira exerceu magistratura em Brasília: “Meu filho que reside em Stockholm, há mais de cinco anos, disse que a realidade política dos representantes do povo, naquele país escandinavo, é realmente como informa o nosso cronista.  Faço apenas uma ressalva: ministros e deputados federais recebem do Estado, durante o mandato, apenas o local para morar e não recebem qualquer tipo de subsídios”.  Juiz João Batista Rios: “Tripudiamos a vida dos políticos ... Que temos feito em defesa da moralidade, ética, e "modus vivendi" daqueles que ousam nos representar em qualquer esfera politico-administrativa?”. Cincinato Leite (Mecejana-CE):    “Você está certo: Cidadãos brasileiros precisam extrair lições da Escandinávia  para eleger líderes patrióticos e éticos de qualquer confissão religiosa ou partidária”.


Manifestaram-se, ainda, Marcelf Lopes, Marcelo Aragão, Francisca Machado, jornalista Herbert Fonseca, Professor Cassy Távora (Caucaia-Ce), Antônio Carlos Sampaio, entre dezenas de leitores que curtiram a matéria nas redes sociais.